Pronto, aconteceu. Tive a primeira discussão com uma mulher desde que me separei, ou melhor, uma mulher teve a primeira discussão comigo desde que me separei. Já a minha ex-companheira me dizia que um dos meus maiores defeitos era nunca discutir. Fiquei a saber que sou um monstro, que todas as coisas que digo e que escrevo são uma mentira, que não tenho sentimentos, etc, etc.
Bem, escusado será dizer que hoje nem me apeteceu sair. Mandei um sms à *****, que não tem culpa nenhuma disto (ou, se calhar, até tem mas não sabe) a desejar-lhe uma boa noite de sono. Agora estou em casa a beber vinho do Porto e a comer uns elefantes de chocolate muito giros (parece que estão embriagados) Côte d'Or Bouchée que me sobraram do Natal. Ainda esgrimi argumentos durante dois minutos, mas não me parece que a ******* me queira ver nos próximos vinte anos. Espero que continue minha amiga, pelo menos...
Ela – Tudo aquilo que dizes quando estás bem disposto, tudo o que escreves no jornais... é tuuuuuudo peta. És um monstro... sem um mínimo de sentimento.
Eu – Olha *******, tem calma. Esse é um dos princípios da escrita. É tudo mentira, claro que é. Não é uma mentira consciente, mas é, de facto, uma mentira.
Ela – Lá estás tu a contornar as conversas. Fala comigo directamente. Não disseste que gostavas de mim?
Eu – Disse, mas isso não é o mesmo que dizer que és a mulher da minha vida e essas merdas, percebes? Nunca te disse isso que me lembre. Também não és uma miúda, pá. Tens mais de trinta anos, não pensei que fosses ficar assim, percebes?
Ela – Quando te vi com a ***** no Clandestino percebi que havia qualquer coisas entre vocês... sou mesmo burra.
Eu – Sim, há qualquer coisa entre nós. Somos amigos. É verdade que não somos mais do que isso só porque ela não quer. Ela é a única que me dá dores de barriga quando estou perto dela, o que é que queres que te faça?
Ela – Não percebo, não percebo...
Eu (só em pensamento) – Foda-se!
Bem, já li A Noite do oráculo, do Paul Auster, que a ***** me ofereceu. Agora comecei o Celestino Antes da Madrugada, do Reinaldo Arenas, que ela me emprestou. É como mudar da água para o vinho (sem intenções qualitativas), mas hoje é um bom dia para isto. Acho que os divorciados têm que mudar de ritmo e vida frequentemente: água- vinho - água de novo – coca-cola light – vermute – sucol de pêssego – chá de tangerina – sumol de laranja... é o que vou fazer.
Sábado o Rei José Cid está na Praça do peixe, em Aveiro, e aqui o divorciado trabalha. Saio de Espinho lá para a meia-noite e vou a correr para a minha cidade, mas de certeza que não chego a tempo...