pensamentos catatónicos (351)
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Uma das últimas memórias que tenho de Portugal, antes de emigrar, é a de um homem pobre a olhar para uma máquina de venda automática perto de Viseu. Ele tinha fome e era pobre mas entre ele e a comida havia um vidro, ainda por cima transparente.
Eu, na verdade e para além de um pouco assustado, também estava esfomeado. Era a minha viagem em direcção à fronteira para voltar sabe-se lá quando e como. Ia emigrar para tentar resolver o problema da Fome com F grande, mas naquele preciso momento bastava-me comprar um dos croissants mistos da máquina para acabar com a fome com f pequeno. Foi o que fiz, enquanto ele ao meu lado contava algumas moedas na palma da mão como se procurasse um grão de areia entre muitos.
Não me pediu dinheiro, mas ofereci-lhe um euro que me sobrou.
- Obrigado! - disse. - talvez ainda me safe.
Ele não sabe que me lembro dele, nem sequer que me ajudou a apaziguar os meus medos interiores com a frase dele. Aquele "talvez ainda me safe" era precisamente do que eu estava a fugir. Do "talvez" e do "safar". Também dos vidros transparentes que me impediam de ter uma vida digna no país a que chamava meu.
Quando me sentei de novo no autocarro tive finalmente a coragem de olhar pela janela, já que até então e desde que saíra de Aveiro pouco mais fizera do que olhar para os meus próprios pés. Era de Portugal que me despedia, também através de um vidro ainda por cima transparente.
A transparência é uma coisa estranha sempre que nos separa daquilo que precisamos, mas naquele momento ajudou-me. Segui uma estrada esguia que serpenteava os montes envergonhados, ladeada por casas com persianas normalmente corridas, muros altos penteados por cacos de vidro ou arame farpado, automóveis exibicionistas e alguns transeuntes quase sempre sós.
Só na fronteira é que tornei a fechar os olhos. Recuei um pouco de tempo até um abraço quente de um Amor terminado e a sua voz doce a chamar-me do nada.
- Adeus! - pensei.
Sempre que procuramos a saudade vamos dar a uma mulher.
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O rapaz caiu no meio da estrada. Estatelou-se no alcatrão ao mesmo tempo
que gritou. Não percebi porquê. À partida não havia nada que o pudesse
fazer cair, mas quando olhei já ele estava no chão, já a mãe corria na
sua direcção deixando um saco de compras pelo caminho, já um carro
travava a fundo para não o atropelar.
Foram dois segundos em que nada mais interessou para aquela gente. Só a vida.
Eu fechei os olhos para não ver, mas ainda vi mais. O
carro não conseguiu parar a tempo e passou por cima do jovem do corpo
do rapaz, que passou a ser cadáver. A mãe ajoelhou-se e abraçou a morte
em silêncio. O condutor deixou-se estar com as mãos no volante e o olhar
no infinito, em estado de choque.
Depois abri os olhos e nada disso
tinha acontecido. O rapaz levantava-se devagar e sacudia a roupa com as
próprias mãos, a mãe apanhava as compras do chão e o automóvel já
passara por mim e desaparecera na primeira curva.
Fiquei parado por
um momento. Os dois passaram por mim e pude reparar na força com que as
mãos de mãe e filho se agarravam. Era a força de quem precisa de agarrar
a vida a si mesmo a acabou de perceber que em alguns momentos não há
força que chegue para o fazer.
Continuei a caminhar. Quando te vir de novo vou-te dar a mão com a mesma força, pensei. Só para que entre nós nada morra hoje.
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