8.31.2016

respostas a perguntas inexistentes (374)

Tempestade

No meio do nada há um edifício. É onde trabalho. Tem um ar futurista por fora e ainda mais por dentro. Um jardim interior e portas que se abrem com cartões de identificação. Sempre que o vejo, ainda ao longe, lembro-me das noites que passei sozinho numa das suas salas de vidro, no último andar, no meio duma tempestade de Verão. Souberam-me bem, essas noites. Eu estava em paz e o céu estava zangado, o que me dava uma ainda maior sensação de conforto.
Lá dentro encontra-se o mundo. Pessoas de diferentes partes do planeta que falam línguas também diferentes. Algumas sorriem-me, outras não. São como eu. Às vezes sorrio, outras não. E no meio dessas tempestades lembrava-me duma mulher que nunca sorri.
É uma pequena criminosa e eu apanhei-a em flagrante delito numa manhã qualquer. Uma fila generosa de pessoas dessas que vêm de diferentes parte do globo esperavam vez na entrada principal do meu andar. Cada uma delas passava o seu cartão de identificação, que respondia com um pequeno e agudo sinal sonoro, bip, para depois dar um pequeno empurrão à porta. Sem ninguém perceber, é um gesto bonito, esse empurrão. Permite que a porta não se feche totalmente e evita que o próximo faça o esforço todo para a abrir de novo. Ela não o fez. Sem sorrir, aproveitou o empurrão anterior para passar e a porta fechou-se atrás de si com um estrondo.
Felizmente, atrás dela vinha um homem que sorri. Passou o seu cartão, bip, e a fila de formigas voltou à rotina de sempre. Eu também voltei à minha rotina de sempre, mas com aquele pequeno crime guardado na minha mala de memórias recentes.
Quando voltei a esta memória já ela estava noutra mala, naquela que guarda experiências mais antigas. Era fim de tarde e alguém pintara no céu uma imensa aguarela negra. O meu corpo chorava algumas lágrimas de suor por causa do calor intenso e eu dirigira-me a um bar perto do edifício para beber qualquer coisa. Antes de entrar, pela vidraça fumada reparei nela. Ia a sair exactamente naquele momento e eu abri a porta e dei-lhe passagem. Ela olhou para mim durante três ou quatro segundos e agradeceu-me em italiano. Não sorriu.
Nessa noite trabalhei no meio da tempestade.

8.19.2016

pensamentos catatónicos (348)


Caminho por Sófia. A cidade conta-me histórias do futuro. De quem, em nome dele, abdicou do presente e pôs a vista num ponto distante lá mais à frente, que ainda não se via muito bem, à espera de o poder tocar. Mas o futuro nunca se toca. Quando lá chegamos, já ele nos enganou e se transformou no presente.
É o presente que tocamos, porra. No Amor também, na luz que entra pelas frinchas da persiana e se deita com a mesma mulher que eu, lhe segreda o mesmo silêncio e agradece o momento. É o presente que nos pode abraçar. O passado é da saudade e o futuro é da solidão, esse ponto lá à frente continuamente desfocado.
Cruzo-me com um homem que o sabe, mas engole a sabedoria toda num estranho olhar silencioso. É o presente mesmo à frente dele e ele nunca o tinha visto. É o Amor, pá! Que não se pode adiar.


fotografia do blogue fotográfico Love You Sófia

8.15.2016

tolices

Está ali um rapaz a brincar sozinho. Deve ter uns seis ou sete anos de idade e só ele entende o que está a fazer. Tem um pau partido numa mão e uma pedra suja na outra, com que vai fazendo fricção como se fosse possível fazer fogo assim. Ri-se. É tolo. O avô, que o olha a cerca de dez metros de distância, sentado num banco do jardim, também o acha tolo. Também se ri, embora menos.
O meu avô também me vigiava assim, a alguns metros de distância e sentado num banco de jardim enquanto eu brincava de forma tola. Não me lembro de o ouvir a chamar-me tolo ou a censurar de alguma forma as minhas brincadeiras, a não ser uma vez quando decidi trepar um dos pilares do coreto do parque. Tarde demais. Rasguei as calças e abri um ferida enorme no joelho. Chorei baba e ranho. Ele comprou-me rebuçados para acalmar a minha dor.
Tenho saudades dos passeios que dava com o meu avô no jardim em Aveiro e o facto de estar num jardim em Sófia não atenua essa saudade. Pelo contrário, aumenta-a. E, no entanto, os nossos passeios eram só isso. Eu a fazer tolices e ele a guardar-me como um pastor guarda o gado, para que ninguém o roube nem lhe faça mal.
As crianças são tolas e deve ser disso que eu mais tenho saudades. De ser uma criança tola. A maior tolice das crianças é acreditarem que o mundo vai ser sempre assim, com elas a brincarem num parque com um avô a vigiar, como se uma pessoa com noventa anos de idade pudesse ficar ali mais cem anos a olhar para elas.
É uma tolice inteligente, esta das crianças. Nunca mais somos tolos assim durante a vida. A não ser, talvez, no Amor. Quando nos apaixonamos também acreditamos que vai ser sempre assim, connosco a fazer tolices enquanto nos vigiamos mutuamente. Como se um Amor com dez anos pudesse ficar ali mais cem.
Não pode, mas por um Amor vale sempre a pena voltar a ser criança. E então ouço o rapaz a chorar e o avô a dizer-lhe qualquer coisa. Deve ter caído e aleijou-se. Espero que aquele velho com um ar gentil, que agora o ajuda a levantar-se, lhe compre um doce qualquer para lhe acalmar a dor. Afinal de contas, o miúdo não pode fazer ideia onde é que vai estar daqui a quarenta anos, quando tiver saudades deste momento.
Não faço a mínima ideia quando é que o Amor me passou a perna, mas sei que foi sempre uma mulher que me ajudou a levantar, a oferecer-me um doce e a fazer-me acreditar que o Amor e a vida são tão imutáveis quanto a nossa infância. É uma tolice, mas é uma tolice inteligente. Deixá-lo.
O avô e a criança desaparecem numa curva do jardim. Alivia-me o facto de perceber que o choro do menor já passou. Faltam cerca de vinte minutos para me encontrar com uma mulher que conheci ontem num bar. Tinha um copo de gin numa mão e uma garrafa de água tónica na outra. Só as mulheres é que bebem coisas assim, tão complexas que precisam de duas mãos. Foi o que eu lhe disse enquanto pedia uma cerveja junto a ela, num balcão deserto. Estava sozinha, ficámos a falar toda a noite. Perguntou-me do que é que eu tinha mais saudades em Portugal e eu respondi-lhe que era dos passeios no jardim com o meu avô. Convidou-me para vir aqui hoje, a um sítio parecido onde se passam coisas também parecidas. E eu vim. Estou à espera dela. É uma tolice, mas é uma tolice inteligente.

8.10.2016

vinte e quatro

Primeiro há uma casa. É aquela onde eu vivo e é velha. Tão velha que até o relógio do corredor se cansou de contar o tempo que passa. Talvez, simplesmente, se tenha fartado dos dias sempre iguais, com o pó a acumular-se nas mobílias como neve em câmara lenta. Durante anos, as únicas visitas que a casa teve foram as sombras das árvores encostadas à janela da cozinha. Vinham esconder-se do Sol e ao fim da tarde tornavam a sair. Ainda o fazem hoje em dia, aliás, e não querem saber se agora eu vivo lá. Ignoram-me da mesma forma que a cidade o faz.
É um rés do chão no bairro de Darvenitsa, no bloco treze, um quase cadáver de cimento e betão igual a muitos outros espalhados pelos subúrbios de Sófia. Parecem animais gigantescos que se cansaram de migrar e pararam de repente, como se quisessem desistir de viver e esperassem agora calmamente a morte.
A palavra conforto desapareceu do meu dia-a-dia. Não tenho um sofá, uma cadeira decente ou uma cama. Às vezes recordo-me do meu pequeno apartamento em Aveiro e pergunto-me o que estou aqui a fazer. Costumo abrir uma lata de cerveja ou encher um copo de vinho para encontrar a resposta. Escavo a minha vida da mesma forma que um cão esfomeado esgravata o chão e não encontro. Limito-me a beber, então.
Não encontro, mas sei que ela existe. Aliás, existem várias. Uma delas é que nesta casa de que falo nunca Amei ninguém. É velha, mas também é leve. Não me recorda constantemente da lição que o Amor me deu, que foi aprender a desconfiar dele mesmo. Acho até que, numa certa altura da vida, todos aprendemos essa mesma lição e que ela muda qualquer coisa em nós. Muda tanto quanto o momento em que decidimos pegar numa pequena parte da nossa vida e mudar de sítio. Pelo menos.
É com essa leveza que vou vivendo e sinto-me bem. Normalmente, quando a vida mo permite, saio de casa, caminho sete minutos até à estação de Musagenitsa e apanho o metro até uma das cinco estações mais centrais. Tenho sempre três opções: ficar sozinho, beber um copo com um dos cinco ou seis amigos que já fiz na cidade, telefonar a uma mulher de quem decidi gostar.
Há uns dias escolhi a estação de Opalchenska e ficar sozinho. As luzes dos candeeiros públicos encolhiam perante a imensidão da noite e cintilavam de frio. Junto a um pronto-a-vestir barato, duas prostitutas estavam tão quietas quanto os manequins sem rosto da montra. Uma delas deu quatro ou cinco passos na minha direcção e perguntou-me o que eu não precisei perceber para entender. Falava espanhol com sotaque sul americano e convidei-a para uma cerveja numa vinte e quatro. Não para uma cama nem para um canto escuro da cidade.
Uma vinte e quatro é uma loja que vende álcool vinte e quatro horas por dia. Não é propriamente um bar porque não se pode ficar lá dentro muito tempo (algumas nem permitem a entrada), por isso bebe-se na rua ou num dos muitos jardins que também existem.
A noite estava parada e ela disse-me para subir ao apartamento dela. Num saco de plástico muito usado levava seis cervejas de meio litro. Ela colocou quatro num pequeno frigorífico e abrimos as outras duas. Eu tirei o meu casaco e pousei-o num sofá amarelo e gasto, ela foi buscar uma camisola e vestiu-a. Perguntou-me se podia fumar. Claro que sim.
Falámos da vida. De onde somos e como fomos ali parar os dois naquele momento exacto, a uma pequena e insignificante esquina da capital da Bulgária. Como nos sentimos e o que queremos ou não da vida. Falámos de coisas de que não me lembro, apenas por falar. Depois ela parou por um momento, fitou-me nos olhos como se procurasse qualquer coisa que não tinha ainda conseguido encontrar. Apagou o cigarro numa lata de atum transformada em cinzeiro e levantou-se.

- Estou cansada. Vais-te embora ou queres dormir aqui?

Quando abri os olhos de manhã, as sombras das árvores lá fora tinham entrado em casa dela para se esconderem do Sol. Com os meus olhos ainda em esforço, procurei um relógio qualquer para saber que horas eram. Havia um de plástico numa das paredes, mas estava parado.

7.23.2016

coisas que fascinam (211)

Jardins

Uma das coisas que eu mais gosto em Sófia são os jardins. Alguns deles são bastante grandes, todos a tender para o selvagem. Normalmente com muitas pessoas, algumas a beber cerveja, outras a andar de bicicleta ou de skate, outras a namorar e algumas a pedir esmola. Nunca gostei de jardins demasiado cuidados, com as árvores sempre podadas e os arbustos a delimitarem áreas como se fossem linhas de soldados incapazes de pensar. No que se refere às mulheres também sou assim. Gosto das desarranjadas e digo-o assim por também gostar de pensar em mulheres como jardins.
Talvez por isso me tenha passeado bastantes vezes por eles, tão sozinho quanto o que se pode estar num cidade com três milhões de habitantes em que não se conhece nenhum. Normalmente em Borisova, com uma garrafa de litro de cerveja na mão e o tempo a passar devagar pela minha pele. Uma vez sentei-me num dos velhos bancos a beber e conheci uma mulher que se sentou propositadamente ao meu lado. Ao contrário do jardim, estava bem arranjada. Falámos um pouco e senti-me ainda mais só.
Podemos pensar que é a conhecer pessoas que se combate a solidão, mas não é verdade. É quase isso, ou seja, conhecendo algumas pessoas. As pessoas são como peças de um puzzle. Algumas encaixam em nós, outras não. E é assim que se começa uma história a dois. Encaixando.
Uns dias mais tarde voltei lá e deitei-me na relva. Foi a primeira vez que reparei que as árvores contavam segredos entre elas sobre as pessoas que passavam. Sobre dois velhos, por exemplo, discutiam sobre há quanto tempo eles vão ali passear abraçados. Sobre um adolescente que patinava num skate colorido, apostavam sobre quando ia ser a sua primeira queda. Acho que as árvores sabem tudo sobre nós. É por isso que não falam. Segredam.
E então segredaram-me sobre uma mulher que passava sozinha. Disseram-me que encaixaria em mim e eu levantei-me e fui falar com ela. Primeiro ignorou-me e depois pediu-me que me afastasse. Depois eu disse-lhe onde ia estar deitado na próxima hora, se ela quisesse voltar. E ela voltou. As árvores tinham razão.
Nesse dia dei-lhe a mão e deixei de ouvir os seus segredos.

7.04.2016

creme Nívea

O taxista estava descalço, sentado no banco do condutor com as pernas fora do carro. Cada uma das suas meias esverdeadas a espreitar dos sapatos como se fossem cobras indianas encantadas com o som duma flauta mágica. Com os dedos das mãos limpava os dedos dos pés, tão concentrado que demorou a perceber a minha presença. Tossi, sem ter tosse para o fazer, e ele olhou para cima semicerrando os olhos como se eu fosse o Sol. Mandou-me entrar e calçou-se apressadamente.
O cheiro do creme Nivea que acabara de passar pela cara, para combater a secura da pele, lembrou-me uma praia portuguesa, uma mão dada à minha namorada e um abraço com a pele tostada. Lembrei-me dos seus cabelos negros misturados com areia e dela a pedir-me que levasse o guarda-sol  amarelo e o abrisse no sítio do costume. Que ingenuidade, sempre pensei que aquele aroma era da praia e afinal é apenas de um creme.
O pára-brisas do táxi amarelo enquadrava uma paisagem de edifícios envergonhados que contrasta com essa memória. Estão degradados e só se mantêm de pé porque é essa a dignidade que lhes resta, manterem-se de pé como velhos equilibrados na ponta de uma bengala, num esforço titânico de quem já passou pela vida toda. Ouvi qualquer coisa em búlgaro que não percebi, mas que supus ser a pergunta normal sobre para onde queria eu ir. Sorri, tirei o meu telemóvel do bolso e mostrei-lhe uma mensagem que recebera antes com a morada dela, em cirílico, e um convite em inglês para aparecer. Preparava-me para me deitar, apesar de serem oito da manhã, pois tinha feito direta a trabalhar.
Tenho que descansar, disse-lhe. Podes descansar comigo, respondeu. E eu tornei-me a vestir e saí de casa à procura de um táxi.
O carro arrancou devagar. No rádio fanhoso ouvia uma música qualquer de chalga que conheço mas da qual não sei o nome. Os edifícios observavam-me em silêncio, como se se perguntassem para onde é que eu ia àquela hora matinal de um Domingo. Tentei recordar-me do cheiro verdadeiro da praia, mas não consegui fugir da memória daquele abraço e do aroma intenso do creme Nivea. Parámos num semáforo, olhei pela janela e decidi falar com eles. Com os edifícios, digo.
É que o Amor não me passa nem quando me falta, disse-lhes.
Atiraram com as bengalas ao chão e disseram-me adeus. Todos eles, até àquele em que eu parei para mandar mais uma mensagem pelo telemóvel. Estou aqui à porta, escrevi. Ela desceu e abraçámo-nos. E de dois que éramos passámos a ser só um, mais um aroma qualquer a uma cidade que cada vez é mais minha.
Talvez daqui a uns anos me lembre deste abraço noutro táxi, noutra cidade, noutro Amor. Que o Amor nunca me passe nem quando me faltar, pensei. E subi.

7.02.2016

olhos

Quando partimos para outro país choramos sempre. Às vezes não em lágrimas, mas quase sempre em silêncio. No princípio o truque é reparar em tudo o que acontece à nossa volta: na criança que vai ao nosso lado no autocarro a abraçar uma boneca, na hospedeira do avião que nos pergunta se queremos mais um copo de vinho ou no polícia de fronteira que nos pede a identificação a sorrir. E nós também sorrimos. Sorrimos com tudo aquilo em que reparamos porque estamos órfãos do resto. E o resto é o mundo.
Ao contrário do que se possa pensar, não se chora por tristeza. Chora-se pelo choque do que a vida é e nunca foi tanto: uma mudança. Sentimo-nos vivos pela primeira vez e isso confunde-nos. E quando não há nada em que reparar perguntamo-nos onde é que estivemos até agora. O que é que andámos cobardemente a fazer na nossa vidinha do dia-a-dia. E encontramos uma resposta escrita no tempo, que não queremos ler mas sabemos que está lá. A adiar a vida. Foi isso. Procuramos algumas moedas no bolso das calças e bebemos um café na máquina automatica de um aeroporto. Olhamos para os outros e perguntamo-nos quem são, de onde vêm e para onde vão. O mundo é para conhecer.
Depois damos por nós verdadeiramente sozinhos. Sem conseguir ler os letreiros das lojas nem os jornais dos quiosques, sem ter o amigo do costume para falar de futebol ou de cinema, sem o calor da família e sem que alguém saiba o nosso nome. Mergulhámos no meio da indiferença e percebemos que não é o mundo que vamos conhecer, mas sim nós mesmos.
A felicidade esgravata-se nessa indiferença da mesma forma que se plantam sementes num terreno árido. Marcam-se encontros através da internet, sentamo-nos sozinhos no balcão de um café e metemos conversa com quem passa, caminhamos quilómetros seguidos pela cidade e delineamos estratégias no fundo de um copo de uísque. Faz-se um amigo num dia, uma amiga noutro, e nada nos que se seguem.
As primeiras pessoas que conhecemos são exactamente como nós. Vieram de algum sítio distante e andam no mesmo exercício de se conhecerem melhor. À procura sabe-se lá do quê e para quê. Brindamos com cerveja ao futuro, mas nesse momento é o passado que nos vem à memória. Os brindes que fizemos e os abraços que demos e que já não existem.  Vem-nos à memória e aos olhos. E tornamos a reparar em coisas pequenas para disfarçar.
Os dias alternam entre o frio e o quente. Nunca estão mornos e isso deve ser bom. Arranjamos um tecto que não é muito mais do que apenas isso mesmo e lavamos a cara várias vezes por dia com água fria. Procuramo-nos por trás da ferrugem do espelho, antes de saírmos de casa todas as manhãs, e esculpimos a face para que ela não mude. Temos seis ou sete números de telefone para convidar alguém para uma cerveja e essa foi a maior conquista que se fez até ao momento.
Depois há uma mulher, porque tem que haver sempre uma mulher para que a vida seja vida. É o quarto número da nossa pequena lista e mandamos-lhe uma mensagem ansiosa por um café a dois. Talvez ela apareça, talvez não. Se aparecer, talvez a coisa se repita, talvez não. Se se repetir, talvez se transforme em água e se dilua também ela nos nos nossos olhos.


 

6.17.2016

respostas a perguntas inexistentes (373)



café

Coloco duas colheres de café numa cafeteira de vidro antiga, fervo um pouco de água e misturo. Tenho que esperar cerca de um minuto para que o filtro humedeça e possa descer pelo vidro suavemente, caso contrário fará um movimento abrupto e desperdiçarei café.
São cerca de dois a três minutos para preparar a bebida e, sempre que o faço, lembro-me da minha máquina de pastilhas em Portugal. Não com saudade, mas porque essa é mais uma memória que me ajuda a entender-me a mim mesmo. É o tempo, pá. Do que me lembro é de estar impaciente durante os vinte segundos que demorava a tirar um café nessa máquina e então reparo como estou a ganhá-lo. Ao tempo, repito.
Sento-me a ver a mistura a fazer-se e contemplo-a ao mesmo ritmo da vida. É sempre assim. Ainda ontem me sentei num bar no centro da cidade e pedi uma Kamenitza de meio litro. Não sei quanto tempo estive a ver o desfile de transeuntes lá fora, através duma janela empoeirada, como se o tempo estivesse a contar apenas para eles. Depois duas mulheres pararam a conversar e uma delas olhou para mim duas vezes. Trocámos um sorriso e o barulho do antigo relógio de cuco do bar tornou a fazer-se ouvir.
Pensamos que a solidão se dá quando estamos sós, mas não é verdade. A solidão dá-se quando não sabemos estar connosco, mesmo que estejamos rodeados de pessoas. É uma cobra, essa gaja. Até no Amor mais intenso pode aparecer a deslizar, se não aprendemos a fazer um café de três minutos aproveitando a vida.

6.16.2016

nuvens

Não, não é só dinheiro. Às vezes nem dinheiro é. É o choque, é o Amor, é a vida. Enfim, é o sangue que nos corre nas veias. É por tudo isso que um dia se fecha a porta de casa com duas voltas à chave e não se olha para trás. Para não morrer antes que a morte chegue. E sim, há muito sofrimento à mistura que se pode beber num cocktail de lágrimas, sorrisos e abraços. Também há muita saudade, muita hesitação e, acima de tudo, muito coração.
Os lugares são importantes, porra. Por isso mudar de lugar pode sê-lo ainda mais. Relativiza-nos tudo, estar noutro sítio, menos o Amor que temos por um filho, por uma mãe ou por um irmão. Partimos de novo do ponto do ponto zero e caminhamos pela rua como quem acabou de nascer outra vez. Sabemos que tudo o que nos rodeia é novo, menos as nuvens. Talvez essas tenham passado pelo nosso país de origem e alguém de quem gostamos as tenha visto. É uma ligação qualquer, daquelas que não entendemos mas que sabemos que está lá. E choramos e rimos Rimos e choramos.
A primeira sensação é a de desamparo. Estamos sozinhos no que para nós é o fim do mundo e damos um novo significado às palavras fome e frio. Sobretudo à palavra Amor. Arrendamos uma casa velha num bairro degradado, dormimos no chão duas semanas e depois improvisamos uma cama com tábuas velhas. Com o primeiro salário compramos um fervedor de água e um bico de um fogão. De repente, uma lata de feijão e meio chouriço cozido é a melhor refeição que tivemos na vida. Sorrimos de novo, enquanto lemos pela enésima vez o único livro em português que trouxemos de casa. Adormecemos com ele sobre o peito, os pés nos velhos tacos de madeira e a cabeça numa esponja. Enroscamo-nos com o vazio e contamos segredos à noite infinita. Está tudo bem, dizemos.
Durante o dia somos mendigos, não de uma moeda nem de um bocado de pão. Apenas de bondade. Um sorriso que apareça, por exemplo, e ajude a curar um velho Amor que ainda sangra. A bondade, como todos sabem, não se pede de mão estendida. Tem que vir com dignidade. Então estendemos as palavras. Falamos com todos os que nos querem ouvir, mesmo que não nos percebam bem, até um sábado à tarde em que alguém nos devolve o sorriso e nos dá a mão. Então tudo é novo. Menos as nuvens, claro.
Depois há a violência, aquela que é inerente à própria condição de respirar. Estar vivo significa sofrer quase sempre, menos quando temos Amor. Ainda assim é tão bom. É o melhor que nos pode acontecer, estarmos vivos e podermos fazer alguma coisa por nós, nem que seja olhar para a merda duma nuvem e ver nela, com saudade, a única coisa que nos resta do passado. É quando digo isto a alguém e esse alguém me responde com um abraço que, apesar de não estar em casa, sei que estou novamente em casa.

5.12.2016

O fim do mundo

Acho que muitas vezes escrevi sobre um bar em que nunca entrei. Um bar do fim do mundo, tão agressivo quanto convidativo, tal como a vida que nos calhou a cada um de nós. Como se caminhássemos sozinhos durante quilómetros, num ambiente agreste, e nos doessem os pés e a alma. Depois um bar pequeno, com uma lareira, uma puta simpática, um dono enlouquecido pela solidão serôdia e uma mulher imperceptível.
Pois esse bar conheci-o aqui, num bairro pobre em Mladost. É tudo o que eu escrevi no parágrafo anterior mais um piloto de aviões que só está às vezes, quando não voa. Isso e uma decoração vermelha e decadente. Passam músicas búlgaras do youtube e um televisor mostra o boletim meteorológico da Bulgária. Talvez o elemento comum mais absurdo entre países diferentes seja esse: o boletim meteorológigo ter sempre uma apresentadora sexy.
O dono, que me reconhece de visitas anteriores, grita “Ronaldo” quando entro. A puta, que já sabe que não estou ali para lhe pagar meia hora de sexo triste, abraça-me e segreda-me algum aroma de gin tónico. A mulher imperceptível sorri-me e vira a cara para lugar nenhum, desprezando-me. Não há melhor desprezo do que esse, o que vai dar a lugar nenhum.
Peço uma Ariana, que é a cerveja mais barata neste fim do mundo e parto para uma discussão sobre aviões com o piloto, que também bebe cerveja, mas mais cara do que a minha. O F-16 americano e o SU- russo voam entre as nossas bocas numa solidão cada vez maior.
É só um bar escondido numa esquina de um bairro pobre de Sófia, onde por uma noite escondo  todos os meus medos e receios, todas as minhas inseguranças e os meus desejos biológicos. É para isso que servem os bares, mesmo que no fim do mundo, para aprendermos a rejeitar a merda da Biologia que se mostra tão intensa em cada copo que bebemos.
Depois saio e a mulher imperceptível dá-me a mão direita, a puta dá-me outro abraço e o dono grita de novo “Ronaldo”. Despeço-me com a sensação que faço um bocadinho parte deste fim do mundo, tão agressivo e convidativo tal como a vida que me calhou.

5.08.2016

O caminho de caracóis

Da estação de metro de Sofiska Sveta Gora até ao edifício onde trabalho há uma ferida de cimento que rasga alguns terrenos onde as plantas crescem de forma caótica e aleatória. À medida que o metro vai passando e vomitando trabalhadores sem rosto, vêem-se pessoas a percorrer essa ferida em fila indiana, como se fossem manadas isoladas de elefantes.
Às vezes eu sou um desses elefantes. Olho sempre para o chão, para não pisar nenhum dos caracóis que procuram escapar à humidade matinal. Nem todos têm o mesmo cuidado e é normal ouvir a casca de um ou outro a rachar. São cerca de doze minutos em que converso com todas as pessoas de quem tenho saudades, num silêncio interior que só me pertence a mim e a elas.
Quando tiramos um bilhete só de ida para outro país, não é apenas pelo espaço que viajamos, mas também e principalmente por nós mesmos. Conheço-me hoje melhor do que me conhecia há dois meses atrás. Sei como reajo à solidão e à saudade, sei como enfrento a hostilidade pontual de um desconhecido e como me aqueço na bondade de um sorriso alheio. Sei como choro sem chorar e como rio sem rir e sei, sobretudo, quem são aqueles que formam o pedaço de mim que ficou em Portugal.
De alguma forma, o corpo é tão importante quanto a energia, e é por isso que uma conversa ao telefone ou no messenger não apaga a saudade. Ajuda, mas não apaga. O corpo, aqui, é o dos outros. A voz, os gestos e os cheiros são sempre dos outros, porque a Bulgária ainda é um país em que as pessoas são outras. As outras.
Quando eu era criança, num tempo em que me era inimaginável vir um dia viver para a Bulgária, brincava à carica com as outras crianças da rua num piso de cimento parecido com este, num pátio traseiro de um prédio solitário em Aveiro. Uma vez o João pôs-se a esmagar caracóis enquanto cantava qualquer coisa. Eu bati-lhe. Depois ele bateu-me a mim. Nunca mais o vi, mas ainda assim sei que ele não pertence a esse grupo de outros de que falo aqui. É dos meus, e é a primeira vez que tenho este sentimento absurdo de pertença a um país.
Também o terei com a Bulgária, mais tarde ou mais cedo. Soube-o quando recebi um telefonema de um desconhecido a oferecer-me um quarto quando me encontrava economicamente mais frágil, soube-o no primeiro abraço de uma mulher num dos parques centrais da cidade e no sorriso da funcionária do Ministério do Interior que me ajudou a preencher os papéis da imigração.
Quando estamos sozinhos cada gesto de bondade é uma pepita de ouro que encontramos e, por pequeno que seja, nunca mas nos esquecemos dele.
Penso nisto de manhã, enquanto me desvio de mais um caracol ao qual desejo sorte com os passos dos elefantes que vêm atrás de mim. Somos todos tão pequenos e é tão fácil sermos pisados que, às tantas, devíamos perceber que é isso que nos une a todos.

Obs: só tenho net no telefone e por isso não tenho escrito neste blogue. Se dei erros, peço desculpa. Não me é fácil teclar. Vou tentar ser mais assíduo.

4.02.2016

emigrar

As pessoas têm que perceber o que é emigrar para outro país. Não é a mesma coisa que simplesmente viajar, garanto-vos. A diferença principal encontra-se na forma como te olham quando perguntas a um transeunte onde fica a torre Eiffel ou a Segurança Social.
A saudade também é diferente. Não é a saudade de quem sabe que vai regressar no fim das férias, mas sim a saudade de quem não sabe quando vai voltar. É diferente, porque está ao virar de cada esquina. 
Além disso, falta-me a língua, esta que uso para escrever aqui. Em Sófia quase ninguém fala sequer inglês ou fala bastante mal. Passamos a depender da boa vontade de quem nos atende num serviço público, numa loja de telecomunicações ou simplesmente num bar. 
Hoje apresentei-me à cidade onde vivo desde ontem. Cada mão dada que vi abriu um vazio imenso na palma das minhas, principalmente na direita, que era aquela que eu dava à minha companheira quando nos apresentávamos às cidades por onde viajávamos os dois. Andava à procura duma loja onde pudesse comprar um cartão de telefone búlgaro e fui reconhecendo nas caras que passavam por mim as caras de quem me lembro. 
Depois entrei numa Telenor e a mulher que me atendeu ficou aflita assim que me ouviu falar inglês. Entendemo-nos por gestos, meio inglês e meio francês. Percebi que ela queria realmente ajudar-me. Como um cartão pré-pago é muito mais caro do que um pós-pago, assinei um contrato em que a minha morada é a morada dela. Não podia ser de outra forma porque ainda não tenho morada fixa. Comprometi-me a ir lá assim que tiver o meu próprio apartamento.
Ontem, para abrir conta num banco, foi parecido. Estive quase três horas a falar com a ajuda do Google Translator e usei a morada da funcionária do banco. 
Em ambos os casos terminei com um thanks for being kind and for your time, porque há alturas em que a boa vontade de quem fala connosco vale tudo. O primeiro café que tomei com alguém nesta cidade foi precisamente com a funcionária do banco e, a propósito, o primeiro telefonema que recebi foi duma amiga romena que prometeu preencher o vazio da minha mão.
Isto não é bem um texto, mas serve para explicar porque é que não tenho vindo aqui e, mais do que isso, para prometer que virei assim que tiver a vida normalizada. 
Sejam felizes!

3.30.2016

é da manhã que estou à espera

É da manhã que estou à espera. Seguro um copo cansado na mão direita e a minha vista descansa nas luzes da cidade, que observo pela última vez. Uma delas, de um candeeiro público, está intermitente há alguns meses. Sei-o porque esta varanda é um dos meus vícios.
Ainda não a vejo, mas sinto-lhe o cheiro. Quando ela chegar, assim como se fosse a minha mais temível predadora, levar-me-á com ela entre os seus dentes afiados. Não pretendo lutar, apenas deixar-me ir. Quando a noite voltar eu já não estarei entre nós.
Não sei muito bem onde é que cabe uma vida, mas sei que a minha não cabe aqui há muito tempo. Há um pequeno espaço a três mil trezentos e sessenta e nove quilómetros desta varanda onde um trabalho me espera. Não sei que mais, talvez algumas lágrimas, um novo Amor, muitas dificuldades de certeza e pode ser que alguns sorrisos também.
Quando a manhã me levar, sei que deixo para trás as sombras preguiçosas da minha rua, as pessoas que me são mais queridas e o sorriso da mulher de avental que me tira o café diário no Bom Gosto, mas onde eu estiver a esperar pela manhã de amanhã saberei que é assim todos os dias.
A partir desta manhã serei apenas mais um que partiu.

3.28.2016

conversa 2194

Ela - Ele é mesmo giro, mas é tão mau na cama...
Eu - Foste para a cama com ele?
Ela - Sim.
Eu- Sempre achei que as piores pessoas na cama são aquelas que dizem que as outras são más na cama.
Ela - Porquê?
Eu - Quando alguém diz que outra pessoa é má na cama, não está sequer a considerar-se a si mesma parte do processo, e uma pessoa que não se considera parte do processo só pode ser má na cama.
Ela - Olha, também és péssimo na cama.
Eu - Foste para a cama comigo?
Ela - Sim.
Eu - Não me lembro.

3.25.2016

uma santa Páscoa!

Grupos organizados de ateus têm agredido cristãos e muçulmanos na Birmânia e no Nepal. Em Portugal não se fala muito nisso, mas o jornal brasileiro Globo trouxe várias vezes à luz do dia, durante o ano passado, a forma como famílias muçulmanas são deixadas à morte em pequenas e velhas embarcações de pesca abandonadas no alto mar.
A violência ateísta é, aliás, secular. Já entre os séculos XI a XII, exércitos enormes de ateus da Europa Ocidental realizaram ataques consecutivos aos territórios chamados pelos crentes monoteístas de terra Santa. Pelo caminho, violavam mulheres e decapitavam homens e crianças. A violência era tanta, que a sua fama chegou a Jerusalém antes dos próprios exércitos ateístas.
Recentemente, ateus levantaram um muro que aprisiona na Faixa de Gaza quase dois milhões de palestinos que, assim, vivem numa espécie de gaiola que nem dourada é e são sujeitos a humilhações e privações diárias no exercício do seu direito fundamental de mobilidade.
Actualmente, os ateus encontram-se no auge da violência e da opressão sobre todos os crentes. Alguns, em nome do ateísmo, fazem-se explodir em cidades europeias ou africanas em atentados que já fizeram alguns milhares de vítimas mortais. Na Nigéria, onde centenas de crianças têm sido raptadas para serem usadas como escravas sexuais, a organização ateísta tem mesmo um exército bem armado e treinado.
O mesmo se passa no Médio Oriente, com o autoproclamado Estado Ateísta, que ocupa actualmente uma pequena parte do Iraque e uma grande parte da Síria. O autoproclamado Estado Ateísta não é oficialmente reconhecido por nenhum outro país, mas mantém relações comerciais com a Turquia, a Europa Ocidental e os Estados Unidos, seus principais fornecedores de armamento e clientes de petróleo.
Infelizmente, também na Índia a violência ateísta se faz notar, principalmente contra cristãos. O Partido Nacionalista Ateu tem como prática corrente queimar crianças cristãs e muçulmanas como forma de tortura, deixando-as com marcas físicas e psicológicas profundas para toda a vida.
É claro que este texto é uma enorme mentira, mas passa a ser verdade se, em vez de ateus, falarmos de budistas no primeiro parágrafo, cristãos no segundo, judeus no terceiro, muçulmanos no quarto e no quinto, hindus no sexto.
Os ateus são os únicos cuja condição é pacífica e pacifista. A razão é simples, são os únicos que aceitam a vida como ela é e as pessoas como elas são, colocando todos neste planeta ao mesmo nível de importância, ou seja, ao seu direito de existência.
Os ateus são os únicos que não se puseram a inventar histórias manhosas de mulheres que nascem a partir de costelas de um gajo qualquer, de um tipo barbudo que transforma água em vinho, de virgens no céu à espera de mártires ou outra coisa qualquer.
As religiões são todas uma tanga, o que até não fazia mal nenhum se essa tanga não se tivesse transformado numa via para atingir os poderes económico e político. Mas atingiu, e é em nome de historietas de merda que todos os dias temos más notícias nos jornais e gritamos "Ai, meu Deus!".
Boa Páscoa, é o que vos desejo como ateu que sou.

3.22.2016

traço de giz

Quando eu era criança pensava que os aviões deixavam no céu traços de giz. Pelo menos, embora a escalas diferentes, eram iguais aos que eu podia fazer no quadro negro de ardósia da minha escola. Claro que uma vez apanhei. Passei o recreio a desenhar percursos feitos por aviões e risquei o quadro todo. O mais grave nem sequer foram os riscos, foi ter acabado com um pau de giz inteiro. A minha professora perguntou-me o que era aquilo e eu respondi-lhe que era um céu cheio de aviões.

- Dá cá a mão!

E eu dei. Levei cinco reguadas. Nem me estou a queixar. A minha professora batia com a mesma leveza duma borboleta a pousar num ramo de árvore. De todas as reguadas que apanhei, só me lembro de me aleijar uma vez. Quando ela percebeu que tinha excedido a força, levantou-se e abraçou-me. Não chorei pela dor, mas chorei pelo abraço. Foi aquele momento de franqueza emocional de um adulto que me destruiu por dentro.
Sem ela e eu sabermos, nesse dia ensinou-me muito mais do que aquilo que era suposto. O abraço dela eternizou-se em outros abraços que entretanto recebi, quando foram iguais ou surgiram no mesmo âmbito. Alguém que me aleijou primeiro decidiu abraçar-me depois e eu chorei. Choro sempre, mesmo que não lacrimeje.
O Luís riu-se de mim quando viu a minha dor e teve que apagar todos os riscos que eu tinha feito. Alguns vinham de África e iam para o norte da Europa, outros voavam entre a América do Sul e a Ásia. Todos os riscos tinham uma origem e um destino no momento em que eu os fazia. Um voava entre Ouagadougou e Oslo, as cidades mais importantes do meu imaginário de criança. Uma porque tinha um nome giro, outra porque tinha vikings.
Nunca deixei de acreditar nos traços de giz e é assim que me lembro da minha paixão pela Joana. Tinha uma camisola com muitas riscas fininhas de cores diferentes e um casaco amarelo manchado pelo verde da relva onde nos deitávamos a olhar para o céu. Às vezes passavam algumas nuvens, outras vezes passavam pássaros ou aviões. Quando não passava nada, passávamos nós. Num beijo ou num abraço.

- Aqueles traços são de giz! - dizia eu.
- Não são nada.
- Então são de quê?
- Isso não sei, mas não são de giz.

Depois abraçava-me outra vez.
Talvez o Amor entre um homem e uma mulher tenha sempre alguma coisa dos tempos em que somos nós a desenhar o mundo e não o mundo a desenhar-nos a nós. É a maior vantagem de ser criança, aliás, podermos decidir que o mundo é o que nós queremos que seja. Mesmo no Amor.
Não sei quantos Amores já perdi por me apaixonar por mulheres que vêem o mundo como ele é e apenas como ele é. Talvez por isso mesmo este frio início de Primavera tenha sido tão quente. Deitámo-nos no chão do terraço da casa dela a olhar para um avião que voava entre Burkina Faso e a Noruega. Ela ofereceu-me um livro de banda desenhada sobre um traço de giz no meio do mar e no meio de nós. É de um autor galego chamado Miguelanxo Prado. Depois abraçou-me e disse-me que eu tinha razão. 

- Razão em quê?
- Os aviões deixam traços de giz.



3.21.2016

respostas a perguntas inexistentes (372)

São duas e dezasseis da manhã. Não tenho relógio nem telemóvel comigo, mas acabei de passar por uma janela aberta e lá de dentro veio um grito que picou o silêncio como uma agulha: "São duas e dezasseis da manhã! Deita-te!". É por isso que sei as horas. A noite é de seda escura.
Era uma voz de mulher, talvez a mandar o filho para a cama. A rua onde caminho atingiu o seu ponto mais alto e posso ver a cidade que se estende até ao mar. Algumas luzes pairam acesas no céu e confundem-se com o céu estrelado. Talvez nelas haja mais mães a mandar um filho para a cama. Talvez um casal ainda discuta o péssimo domingo que teve ou um pai fume um cigarro cansado. Em cada luz acesa podem estar duas pessoas que se encontraram por acaso na vida, se apaixonaram e agora estão ali num gesto comum qualquer às duas e dezasseis da manhã. Talvez haja sexo por aí.
Uma vez percorri esta mesma rua de mão dada, também durante a noite. Estava apaixonado e não reparei em nenhum ponto brilhante na sombra de um edifício. Queria chegar a casa o mais depressa possível para curar o corpo da minha bebedeira de Amor. Talvez alguém, como eu, tenha reparado nesse dia na luz acesa da minha casa e pensado exactamente o mesmo que eu.
Quando duas pessoas se apaixonam, depois do Amor e do corpo, querem o conforto que um gesto comum pode dar às duas e dezasseis da manhã. Se o tiverem, estão bem.

3.18.2016

respostas a perguntas inexistentes (371)

fazer tempo

Às vezes falamos ao telefone. Ela conta-me tudo o que não se passa com ela e eu conto-lhe tudo o que não se passa comigo. É sempre assim, quando duas pessoas mantêm uma distância táctica entre si. Contam tudo uma à outra, menos aquilo que são e que vão sendo.
É o estado da não paixão. Não se apaixonaram, mas têm pena. Se o tivessem feito, talvez fosse bom. É uma tristeza não controlarmos as nossas paixões.
Hoje foi um desses dias. Falámos ao telefone e ela disse-me que estava a fazer tempo antes ir trabalhar. Imaginei-a em casa, encostada a uma máquina parecida com qualquer uma da Revolução Industrial. Ela rodava uma manivela e do outro lado saíam relógios cujos ponteiros rodavam em sentido contrário. Fazia tempo, portanto. Se um desses relógios rodasse duas horas, era duas horas que tinha feito.

- Ninguém faz tempo, Marta. O tempo está feito e vai passando por nós.

Ela riu-se. Depois gastámos um quarto de hora do nosso tempo a contar o que não se passa connosco. É de livre vontade e sabe bem. O tempo é o preço que pagamos para estarmos com quem nos faz sentir bem.
Combinámos mais um café, este fim de semana no sítio do costume. Não fazemos tempo, mas temos que saber o como gastamos. O tempo é a nossa única fortuna incalculável.
E ela tornou a sorrir.

3.17.2016

conversa 2193

Ela - Gosto de estar quieta durante o sexo e os homens não percebem isso...
Eu - Quieta?! Quieta como?
Ela - Precisamente. Todos reagem assim.
Eu - Mas... pudera...
Ela - Pudera porquê?
Eu - Não é um bocado difícil teres sexo sem te mexeres?
Ela - Eu mexo-me. Sou é pela lei do menor esforço.
Eu - Talvez não devas dizer isso como cartão de apresentação.
Ela - E não digo. É durante o acto que normalmente o problema se coloca. O último palerma com que estive disse-me: "vê lá se te mexes rapariga!"
Eu - E mexeste-te?
Ela - Sim. Pus o gajo a andar e fui lavar a louça.

3.16.2016

respostas a perguntas inexistentes (370)

fixe

É madrugada de um dia qualquer. Pela primeira vez em muitos dias tive uma noite de sono como as pessoas normais, aquelas que se deitam à noite e levantam de manhã para ir trabalhar, que se apaixonaram várias vezes quando tinham vinte anos, apenas uma quando tinham trinta e nenhuma depois disso ou, se o fizeram, foi num segredo tão grande que nem elas perceberam.
O Sol de Inverno percebe-me, no entanto. Talvez por isso me tenha vindo cumprimentar enquanto bebia o café da manhã na janela da cozinha. Tenho quase quarenta e cinco anos e a minha vida tropeçou enquanto subia a montanha, seja lá isso o que for. Andei aos trambolhões até parar junto a uma queda de vários metros. Foi-se o emprego, foi-se a conta bancária, foi-se o Amor também. Veio uma mão levantar-me e aqui estou eu, a tomar café na janela da cozinha.
Lá fora, numa rua pouco movimentada, um puto joga sozinho à bola chutando-a repetidamente contra a parede de um prédio. Tem piada, é mais ou menos o que eu tenho feito nos últimos anos da minha vida. Se ele olhasse agora para cima, acho que lhe fazia um sinal qualquer com a mão. Fechava-a e esticava apenas o polegar, por exemplo. Fixe.
Pondo a mão no vidro, sinto algum calor da nossa estrela. Sei que o seu tamanho é trezentas e trinta e três mil vezes o da Terra. Ainda assim, tão delicado que me vem aqui aquecer sem me incendiar ou queimar. Toca-me como se fosse um imenso monstro bom. É como o Amor. Quando acontece, claro. 
É também como o sorriso da mulher que me disse precisamente isto e por quem me apaixonei durante uns minutos. Cruzámo-nos no café e ela reconheceu-me de um tempo distante. Bebemos uma cerveja e conversámos sobre as nossas montanhas e as nossas quedas. Uns minutos, talvez vinte. Uma eternidade para quem se sentia estéril até então.
Vem aí uma vida inteira, diferente do que foi até aqui. Um resto de café já secou no fundo da chávena que tenho na mão esquerda e, com a direita, faço o sinal de fixe ao miúdo que está na rua. Ele responde. Algumas pessoas normais caminham sob o mesmo Sol que eu. O que nos distingue talvez seja apenas isso: ainda me apaixono por aí. Fixe.