3.21.2016
3.18.2016
respostas a perguntas inexistentes (371)
Às vezes falamos ao telefone. Ela conta-me tudo o que não se passa com ela e eu conto-lhe tudo o que não se passa comigo. É sempre assim, quando duas pessoas mantêm uma distância táctica entre si. Contam tudo uma à outra, menos aquilo que são e que vão sendo.
É o estado da não paixão. Não se apaixonaram, mas têm pena. Se o tivessem feito, talvez fosse bom. É uma tristeza não controlarmos as nossas paixões.
Hoje foi um desses dias. Falámos ao telefone e ela disse-me que estava a fazer tempo antes ir trabalhar. Imaginei-a em casa, encostada a uma máquina parecida com qualquer uma da Revolução Industrial. Ela rodava uma manivela e do outro lado saíam relógios cujos ponteiros rodavam em sentido contrário. Fazia tempo, portanto. Se um desses relógios rodasse duas horas, era duas horas que tinha feito.
- Ninguém faz tempo, Marta. O tempo está feito e vai passando por nós.
Ela riu-se. Depois gastámos um quarto de hora do nosso tempo a contar o que não se passa connosco. É de livre vontade e sabe bem. O tempo é o preço que pagamos para estarmos com quem nos faz sentir bem.
Combinámos mais um café, este fim de semana no sítio do costume. Não fazemos tempo, mas temos que saber o como gastamos. O tempo é a nossa única fortuna incalculável.
E ela tornou a sorrir.
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3.17.2016
conversa 2193
Eu - Quieta?! Quieta como?
Ela - Precisamente. Todos reagem assim.
Eu - Mas... pudera...
Ela - Pudera porquê?
Eu - Não é um bocado difícil teres sexo sem te mexeres?
Ela - Eu mexo-me. Sou é pela lei do menor esforço.
Eu - Talvez não devas dizer isso como cartão de apresentação.
Ela - E não digo. É durante o acto que normalmente o problema se coloca. O último palerma com que estive disse-me: "vê lá se te mexes rapariga!"
Eu - E mexeste-te?
Ela - Sim. Pus o gajo a andar e fui lavar a louça.
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3.16.2016
respostas a perguntas inexistentes (370)
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3.15.2016
coisas que fascinam (210)
A beleza física interessa, claro que sim. Não é daquela beleza que leva uma mulher a ser Miss Colômbia que falo. Mas é beleza, é corpo e é importante.
Falo da beleza que leva um homem a conhecer uma mulher através duma fotografia, mesmo que não a tenha conhecido pessoalmente nem sequer por cinco segundos. A beleza que lhe permite imaginar-lhe uma voz, um comportamento, um abraço, um beijo ou uma frase. Na verdade, permite-lhe imaginar cada segundo sobre ela.
É muito possível que ela não corresponda a nada disso. Não faz mal, porque chega para ele se apaixonar por ela. É por isso que a beleza física interessa.
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algumas gaivotas estavam em terra
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3.14.2016
coisas que fascinam (209)
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3.13.2016
pensamentos catatónicos (347)
Hoje convidei-me para tomar um café, num sítio onde costumo ir e gosto muito. Aceitei, mas acabei por não me dizer nada do que tinha para me dizer. Na verdade, o facto de não estar disponível para me ouvir contribuiu um bocado. Aliás, das poucas coisas que me disse foi isso mesmo: "se vieste aqui para não ouvir, mais valia não teres vindo!". Mas não me liguei.
Sinto-me um bocado distante de mim mesmo, como se a minha relação comigo estivesse por um fio. Quando a comunicação termina é porque terminou tudo. Depois do café perguntei-me "já bebeste o café e posso ir embora?". Estava para não responder, mas acabei por concordar. Afinal de contas, não sou o único com quem isto me acontece.
Há uns tempos convidei a M. para um café e foi igual. Ela ficou o tempo todo em silêncio, a olhar para mim como se a sua presença fosse ao mesmo tempo um favor e um incómodo. Ia perguntar-lhe como anda, mas tive a sensação que não queria responder. Igualzinho a hoje, portanto.
Nunca me perguntei, nunca me respondi.
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3.11.2016
atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher
O que eu sei é que nunca ouvi ninguém dizer o contrário, que atrás de uma grande mulher há sempre um grande homem, talvez porque quem diz estas coisas nunca espera ver uma mulher à frente de um homem.
Se atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher, quer dizer que atrás de um homem pequeno também pode haver uma grande mulher. Já as mulheres pequenas confinam-se aos traseiros dos homens também pequenos. Há, portanto, mais mulheres grandes do que homens. Ainda assim, sugere-se que uma mulher nunca aparece à frente.
Outro problema semântico deste provérbio é que assume que atrás de um homem pequeno nunca há uma grande mulher, ou seja, a grandeza de um homem é determinada pela mulher que lhe segue atrás. Se ela é pequena, ele também.
Ficamos a saber que os homens para serem grandes precisam duma grande mulher e que as mulheres estão destinadas a andar atrás. E eu, que me lembro de um anúncio rodoviário em que um homem dizia que com ele a criança ia sempre atrás, não consigo deixar de pensar na pequenez de quem diz estas coisas.
Pus na passadeira rolante um saco com pão e uma garrafa de vinho branco. Fiquei a olhar para eles. Tinham, de facto, o mesmo tamanho. Ela arrumou todas as compras em sacos e ele, um pouco à frente, impávido e sereno, não fez nada a não ser pagar a conta. Ele é o presidente da câmara duma terra de que não percebi o nome. Grande homem, portanto. Ela é a mulher dele. Grande mulher.
Esclareceram-me!
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3.10.2016
coisas que fascinam (208)
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3.08.2016
duas moedas numa mão
Era o que mais se vendia na taberna do senhor Seabra, vinho a copo e jornais diários. Os homens sentavam-se lá dentro a beber e eu escondia-me na curva do balcão amarelo pálido, esticava o braço e esperava que ele viesse lá de dentro, já com o jornal na mão, atender-me. Às vezes, raramente, pedia-lhe um copo de gasosa que custava dois e quinhentos.
O homem de que melhor me lembro tinha um bigode grande e costumava ficar em pé a impor a sua versão sobre tudo e sobre todos. Os outros ouviam-no com a atenção que o álcool ia permitindo e às vezes acenavam com a cabeça. Eram eles lá dentro e o mundo lá fora, sempre em total oposição. Assustavam-me. A minha forma de chegar ao balcão sem ser visto foi a minha primeira guerra de trincheiras.
Houve uma manhã em que fui apanhado. Estiquei o braço para que o senhor Seabra me visse e senti duas mãos a tentar abrir a minha. Olhei para cima e era ele, cujos berros se tinham transformado num silêncio ensurdecedor. Fechei os dedos com toda a força, mas ele foi mais forte. Tirou-me as duas moedas e sorriu da mesma forma que o Diabo deve sorrir quando recebe uma alma. Depois esticou o dedo indicador da mão direita e encostou-o aos próprios lábios como que a mandar-me calar.
Nesse dia não levei o jornal para casa e disse ao meu pai que tinha perdido as moedas. Não sei porque é que não lhe contei a verdade, mas de facto nunca o fiz. Sei que a partir desse dia comecei a comprar o jornal num quiosque que ficava bastante mais longe. Tinha perdido a guerra das trincheiras e agora fugia cobardemente dela todos os dias.
Só vi esse homem odioso uns cinco anos mais tarde, tinha eu uns doze. Estava a voltar da escola e uma pequena multidão juntara-se à porta dessa taberna. Aproximei-me para ver o que se passava e vi-o prostrado no chão, camisa rasgada, cheiro a vinho e sangue a escorrer-lhe pela cara. Outro homem, um pouco mais novo, tentava soltar-se duma boa dúzia de braços que o queriam agarrar. Lembrei-me da minha luta para segurar as duas moedas na mão e desejei que ele tivesse mais sucesso do que eu.
- Ele matou a minha irmã! Ele matou a minha irmã! Ele matou a minha irmã! - Repetia.
Percebi tudo pelas conversas dos que assistiam àquele combate. O mesmo homem que me roubara as moedas uns anos antes tinha assassinado a mulher à pancada. Foi, talvez, a primeira vez que percebi o que é violência doméstica. Fugi para casa.
Este ano faço quarenta e cinco anos. Dou ao Dia da Mulher um significado político porque sei como ele surgiu e porque é que surgiu, mas também porque entretanto já ouvi falar em violência doméstica mais umas centenas de vezes.
Sempre que tenho duas moedas numa mão, esta história vem-me à memória.
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3.07.2016
conversa 2192
Eu - Queres que eu vá embora?
Ela - Não. Tu não és bem homem...
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3.04.2016
coisas que fascinam (207)
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3.03.2016
pensamentos catatónicos (346)
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3.02.2016
pensamentos catatónicos (345)
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3.01.2016
respostas a perguntas inexistentes (369)
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2.29.2016
conversa 2191
Eu - Porquê?
Ela - Porque isso é conversa para boi dormir...
Eu - Ah!
Ela - Tu nunca me disseste que eu sou bonita, por exemplo.
Eu - Se calhar não...
Ela - Mas porquê?
Eu - Esse está longe de ser o maior elogio que te posso fazer.
Ela - Hum... hum...
Eu - O que foi?
Ela - Nem sei se considere isso bom ou mau.
Eu - Ainda bem que não gostas que os homens te digam que és bonita, então. Senão consideravas mau de certeza.
Ela - Pois... mas achas-me bonita ou não?
Eu - Agora não posso dizer.
Ela - Porquê?
Eu - Estou condicionado pelas circunstâncias desta conversa.
Ela - Na boa... também não me interessa.
Eu - Ainda bem.
Ela - Mas amanhã já podes dizer, não já?
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2.26.2016
conversa 2190
Eu - Qual é o teu livro de cabeceira?
Ela - Bem... não tenho. Vou só ficar no sofá, enrolada num cobertor.
Eu - Sem fazer nada?
Ela - Pois... nestes dias de mau tempo é que eu gostava de ter um namorado...
Eu - Só nestes dias de mau tempo?
Ela - Claro. Quem é que precisa de um namorado quando está bom tempo? Eu não... também preciso de me divertir...
Eu - Não te divertes com um namorado se estiver bom tempo?
Ela - Não. Quando está bom tempo os homens tornam-se chatos e só sabem fazer perguntas às quais não me apetece responder, tal como tu estás a fazer agora neste momento.
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coisas que fascinam (206)
Talvez não saibamos do que falamos quando falamos de Amor e por isso só nos venha à cabeça estrelas brilhantes no céu, paisagens exuberantes, o luar no seu máximo expoente e emoções vivas e extremadas.
Temos tendência a imaginar o Amor num mundo que não existe para além do nosso desejo e da nossa imaginação. Às vezes, talvez por isso, temos até dificuldade em encaixá-lo no nosso. É verdade que se falamos de Amor numa praia deserta e no calor da noite, tendo por testemunha apenas a luz da Lua, podemos acabar num abraço e num beijo doces. É legítimo e sabe bem. Mas o beijo e o abraço mais importantes são aqueles que surgem ao fim da tarde e nos fazem acreditar que, apesar do dia de merda que tivemos, vale a pena viver.
Ninguém deve Amar ninguém apenas por necessidade, mas se o Amor serve para alguma coisa, digo eu que é capaz de ser para isso.
Se eu tivesse o direito de sugerir alguma coisa a todos os Amantes do mundo, sugeria que não se Amassem apenas quando estão de férias numa ilha paradisíaca, mas também e principalmente encalhados na fila do trânsito.
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2.25.2016
pensamentos catatónicos (345)
Acho que é a recordação mais antiga que tenho de suspirar de Amor por uma mulher. A Joana usava tranças e tinha um vestido azul, eu tinha uma fisga de madeira feita pelo meu avô e um estojo com vinte e quatro canetas Molin de cor em cima da carteira da escola. A professora mandara-nos ilustrar um texto e ela virou-se para trás, na minha direcção, e perguntou-me se podia usar o meu amarelo. Corei, talvez demais, e emprestei-lhe todos os seis amarelos que tinha no estojo, do mais claro ao mais escuro e um muito específico a que chamávamos amarelo torrado.
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