3.14.2011

convite para um chá de casca de toranja

Da estratégia de comunicação na sedução faz sempre parte a omissão. Omite-se o que realmente se quer, um vulgo engate para entrar num jogo em que a omissão, em vez de esconder, revela lentamente as intenções. Talvez por isso, em conversa com um amigo durante umas cervejas, tenha concordado que o jogo da sedução, pelo menos às vezes, é mais interessante que a própria sedução em si. Concordei nisso e no facto de que em nenhum caso se consegue enganar uma mulher a não ser que ela própria deseje ser enganada.
Lembro-me da Sandra, por exemplo, que conheci uma vez numa noite de Verão. A Sandra apeteceu-me, porque é difícil que uma mulher bonita não nos apeteça quando estamos sós. Depois de dois dedos de conversa convidei-a para beber um chá de casca de toranja em minha casa, e essa foi a minha omissão da noite. Omiti que queria dormir com ela, revelando no entanto que de alguma maneira ela me interessava. 
A primeira vantagem de um convite para um chá de casca de toranja é que ninguém convida ninguém para um chá de casa de toranja à uma da manhã, e isso permitiria-lhe sair de fininho caso não estivesse interessada em dormir comigo. Ao mesmo tempo, aceitando-o, a porta ficaria semi-aberta para o desejo omitido. A Sandra não aceitou e saiu de fininho, mas a segunda vantagem de um convite para um chá de casca de toranja é que ninguém fica triste por vê-lo recusado. É só mais um, afinal de contas.
Acho que por isso é que nunca fui capaz de convidar tão facilmente um Amor a sério. Dum engate digere-se bem uma recusa, dum Amor a sério não. Acabei de beber a minha cerveja e pousei o copo na mesa suja do café. "Mas dum engate pode nascer um Amor a sério, não pode?", perguntou o meu amigo enquanto eu já me levantava. "Pode, claro que pode!", respondi. E depois insisti: "Talvez todos os Amores comecem pelo convite para um chá de casca de toranja, talvez porque assim nunca se tem medo de um não".

3.13.2011

uma pessoa nova

Se eu pudesse conhecer uma pessoa nova hoje, escolhia conhecer-te a ti outra vez. Assim, como se fosse a primeira.

conversa 1736

Ela - Porque é que estás com essa cara?
Eu - Que cara?
Ela - Com esse sorriso de orelha a orelha.
Eu - Ah! Ganhei um jogo de Fifa 2010 a um amigo meu que me costuma ganhar sempre.
Ela - Às vezes gostava de ser homem. A sério que gostava...
Eu - Porquê?
Ela - Para conseguir ficar feliz com insignificâncias.
Eu - Insignificâncias?! Sabes lá...
Ela - Pois não, não sei.

3.11.2011

conversa 1735

Ela - É preciso que o coração não se canse de amar e o meu cansou-se. Foi por isso que tive que pôr fim à minha relação.
Eu - Acho isso normal. Cansou-se e precisa descansar um pouco.
Ela - Exacto. Quando um coração se cansa, depois precisa de descansar um pouco. É por isso que o meu ex me faz confusão.
Eu - Então?
Ela - Acabei com a nossa relação numa quinta-feira. No sábado seguinte ele já andava com outra gaja. Achas isso normal?
Eu - Acho.
Ela - Achas?!
Eu - Tão natural como a tua sede. Talvez ele também esteja cansado e por isso não esteja muito apaixonado, mas sente um buraco enorme da relação que acabou e precisa de se deitar com alguém à noite.
Ela - Mas isto é só sexo?! Os homens são mesmo perigosos.
Eu - Perigosa és tu, nesse caso, que achas que a cama é só sexo. Eu acho que é sexo, é estar abraçado a alguém, é combater a solidão...
Ela - Então, eras capaz de ir para a cama com uma mulher por quem não estivesses apaixonado?
Eu - Claro que sim. Aliás, um dos passos para me apaixonar é ir para a cama com uma mulher.
Ela - Não te consegues apaixonar por uma gaja sem a ter comido?
Eu - Se queres pôr as coisas nesses termos, é mais difícil acontecer. A envolvência física com uma mulher é um passo necessário para a paixão. Às vezes dá, outras vezes não.
Ela - Ser mulher é fodido.
Eu - Ser homem é que é fodido.

pensamentos catatónicos (237)

A guerra em tempo de Amor

Mais ninguém. Quando penso na mulher que amo, é sempre o quem depois: mais ninguém. Pensar que gosto mais dela do que de outra qualquer pessoa no mundo, seria pouco para definir o que é o Amor. Pode gostar-se mais de uma pessoa pessoa do que outra apenas um bocadinho. No entanto, pensar que ela é como mais ninguém, isola-a de todos os outros. É como mais ninguém.
Amá-la como a mais ninguém torna-a incomparável. Logo, não gosto nem mais nem menos do que quem quer que seja. Só existe ela. Ela é o mundo, porque essa é uma das definições intrínsecas do Amor: ser o mundo.
É por isso que o Amor também é uma guerra ou, se quiserem, um continuado campo de batalha. Os mundos conquistam-se palmo a palmo, trincheira a trincheira. Essa é a História do Mundo e também a História do Amor.
Um amante passa a vida em guerra, disputando um olhar ou um minuto de atenção desse mundo com todas as armas de que dispõe. Às vezes um olhar, outras vezes palavras, outras ainda o próprio corpo. É uma guerra sem tréguas em que às vezes se é certeiro, outras vezes nem por isso. Eu, como um soldado de quase quarenta anos, já dei alguns tiros no pé. Perdi terreno e voltei a conquistá-lo de novo. Teve que ser. Tem sempre que ser.

3.10.2011

conversa 1734

Ela - O meu marido tem a mania que é um ás do volante. Detesto essa faceta dele mas deixo-o tê-la.
Eu - Porque é que detestas essa faceta dele?
Ela - Porque acho que um gajo que está sempre a armar-se em ás do volante, com ultrapassagens que fez, derrapagens e mais não sei o quê, é estúpido. Primeiro porque se está a armar com uma coisa que qualquer pessoa é capaz de fazer: conduzir. Segundo porque é preciso ser parolo para se gabar disso.
Eu - Então porque é que o deixas ter essa faceta?
Ela - Olha, coitado, não se consegue armar por mais nada e eu até tenho pena dele.
Eu - Sei lá... não me parece que tenhas muita consideração pelo teu próprio marido.
Ela - Se queres pôr as coisas nesses termos, não tenho, não. Caramba! Ninguém devia casar com vinte anos de idade. Aos quarenta é que percebi que vivo com uma pessoa que não me interessa nadinha.
Eu - Divorcias-te e pronto.
Ela - Tenho pensado nisso, mas o que é que um tipo que acha que conduzir é uma tarefa digna de contar uma história excitante todos os dias, vai fazer quando se vir sozinho?
Eu - Olha, vai trabalhar todos os dias e tentar conhecer outra pessoa. A propósito, em que é que ele trabalha?
Ela - É motorista.

3.09.2011

conversa 1733

(no café)

Ela - Já tiveste sexo com alguma mulher por quem não estivesses apaixonado?
Eu (riso)
Ela - A sério, já ou não?
Eu (mais riso nervoso)
Ela - Não respondes porquê?
Eu - (mais riso nervoso)
Ela - Eu tive uma vez e não gostei nada.
Eu - (mais riso nervoso)
Ela - Quando foste para a cama comigo estavas apaixonado por mim?
Eu - Já não me lembro muito bem. Foi há tanto tempo...
Ela - Não podias ter dado resposta pior.

3.08.2011

conversa 1732

Ela - Acho sempre que gosto mais do meu namorado do que ele de mim. Se calhar é por isso que às vezes crio algumas discussões espontâneas com ele.
Eu - Ui!
Ela - Ui?! É só isso que tens para dizer?
Eu - Se disser o que eu penso sobre isso, acho que me vais querer bater.
Ela - Prometo que não bato.
Eu - Gostas tanto dele que queres que ele goste ainda mais de ti. Só que como gostas mesmo muito dele, é-te difícil acreditar que alguém possa ainda gostar mais de alguém do que isso, ou seja, nunca vais achar que ele gosta mais de ti do que tu dele.
Ela - Onde é que foste buscar essa ideia?
Eu - Já tive vinte anos. Agora tenho quase quarenta.
Ela - Mas eu não tenho vinte anos.
Eu - Mas parece.
Ela - Só não te bato porque prometi.

3.07.2011

respostas a perguntas inexistentes (135)

Por estes dias estou de visita ao Alentejo, numa casa caiada de branco e que tem a porta principal durante mais tempo aberta do que fechada. De vez em quando, e com alguma regularidade, um ou outro vizinho entra por ela para dizer alguma coisa, seja perguntar pelas crianças (que nesta terra podem sempre estar em qualquer lugar), seja para oferecer alguma fruta ou carne. 

Gosto do Alentejo também por isso. A solidão que parece povoá-lo à primeira vista, desaparece quando o conhecemos melhor. Em Aveiro ou no Porto, as cidades por onde vou dividindo os meus dias, é impensável ter a porta de casa sempre aberta, para que em caso de necessidade um vizinho possa entrar sem ter que bater. Ontem estava a pensar nisto e em como o Amor também é uma necessidade.

3.06.2011

conversa 1731

Ela - Saí com um tipo por quem me comecei a interessar aos poucos.
Eu - Fixe!
Ela - Não é tão fixe assim. Comecei a dar-lhe uns elogios, mas ele nunca percebeu que esses elogios significavam que ele podia avançar...
Eu - Nunca avançou?
Ela - Não.
Eu - E ele estava interessado em ti?
Ela - Se não estava, porque é que saímos tantas vezes os dois?
Eu - Sozinhos?
Ela - Sim.
Eu - Pois... não sei. Que elogios é que tu lhe deste?
Ela - Disse-lhe que ele fazia uma excelente caipirinha.
Eu - Só isso?
Ela - É pouco?
Eu - Não sei se é pouco ou muito. Eu, pelo menos, não partiria do princípio que podia avançar para uma noite de sexo contigo, só por elogiares a minha caipirinha.
Ela - Estás a ver?! Não era para uma noite de sexo que eu queria que ele avançasse. Era para uma relação, um namoro a sério...
Eu - Ainda pior. Dizer a um gajo que ele faz uma boa caipirinha não é propriamente o mesmo que dizer-lhe: "eu amo-te e quero passar o resto da minha vida contigo". Percebes?
Ela - A não ser que a caipirinha dele seja horrível.
Eu - A caipirinha dele é horrível?
Ela - É intragável. Fiz um esforço enorme para beber aquilo. Ele devia ter percebido que eu estava a mentir porque gosto dele.

3.04.2011

respostas a perguntas inexistentes (134)

cartas de amor e candidaturas a um emprego

Durante um café, queixava-se hoje um amigo meu, desempregado pela terceira vez em poucos anos, que a maior parte das empresas nem sequer responde às candidaturas enviadas por ele. Tem razão. Pelo menos a minha experiência também confirma isso. Não estou desempregado mas uma vez por outra, e assim como quem não quer a coisa, lá respondo a um anúncio que considere mais adequado.
Uma candidatura a um emprego é uma carta (ou um email, actualmente) onde tentamos mostrar o que sabemos e somos capazes de fazer, e explicamos porque é que o queremos fazer. É relativamente fácil, fazer essa candidatura, e por isso é que de vez em quando a faço mesmo sem andar à procura de emprego.
Lembrei-me, no entanto, da dificuldade que sempre tive em escrever cartas de Amor, aquelas em que nos candidatamos a Amar alguém e tentamos mostrar porque é que o queremos fazer. Acho que escrevi muitas cartas de Amor na minha vida mas não entreguei quase nenhuma. A maior parte delas acabou numa bolinha de papel tão amarrotada quanto a minha alma de jovem adulto apaixonado. E assim, não me candidatando a nada também nunca tinha resposta.
Uma ou outra entreguei, apesar de tudo, ou pelo menos arranjei coragem e maneira de ela chegar à destinatária. Acho que é a fase pior, a fase da "não resposta". O Amor até se pode resolver com um "não", mas dificilmente se resolverá com o desprezo. E eu perdi a conta às "não respostas" que tive. Ou melhor, que não tive.
Expliquei isto ao meu amigo. Não responder a uma carta de Amor é um crime, não responder a uma carta para um emprego é normal. As cartas de Amor que se escrevem levam sempre um bocadinho de nós: um sorriso, uma lágrima ou mesmo um pouco de suor. Quando não têm resposta esse bocadinho fica a faltar-nos, como se fosse a peça de um puzzle incompleto. À candidatura a um emprego falta-lhe isso, essa parte de nós.
No mesmo dia em que declaramos Amor a uma mulher, todas as outras mulheres do mundo se tornam uma sombra ao pé dela. No mesmo dia em que nos candidatamos a um emprego, todos os outros empregos do mundo similares a esse, seriam bem vindos.
A minha chávena de café já estava fria. A dele também. Levantámo-nos e ele lá foi, enviar mais quatro ou cinco cartas a tentar arranjar emprego. Nunca ninguém neste mundo enviou quatro ou cinco cartas de Amor no mesmo dia.

o síndrome do dentista

Hoje fui ao dentista. A consulta foi mais dura que o costume e, assim de repente, tinha duas mulheres a segurar-me a boca enquanto o dentista me queimava a gengiva para poder colocar um dente novo. A minha boca estava cheia de tubos, brocas e o que mais houver numa clínica dentária razoável. Mesmo assim todos me faziam perguntas, às quais eu não conseguia responder porque nem a boca conseguia mexer.
A partir de hoje, chamo a todas as perguntas que as mulheres me fazem e para as quais não tenho resposta, tipo "achas que eu sou tua companheira ou um objecto sexual?", "para ti o Amor e o sexo são a mesma coisa ou são coisas diferentes?" ou, a mais difícil de todas quando uma mulher vem a minha casa, "sabes onde é que guardas o papel higiénico?", o síndrome do dentista.

3.03.2011

conversa 1730

(na minha casa)

Ela - Não acredito que me tenhas dito uma vez que não gostas de U2 e agora estejas a ouvir a Shakira.
Eu - Eu gosto da Shakira.
Ela - E de U2?
Eu - Não.
Ela - Tens a mania que és diferente, é o que é.
Eu - Diferente?! A Shakira é só a gaja que vende mais discos no mundo inteiro.
Ela - Diferente de mim, era o que eu queria dizer.
Eu - Diferente de ti?! Olha que esta!
Ela - Eu desligo o som sempre que a Shakira passa na televisão.
Eu - Mesmo com o som desligado continuo a preferir a Shakira. Aliás, com o som desligado é que te garanto que prefiro mesmo a Shakira aos U2.
Ela - És um caso perdido.

conversa 1729

Ela - Sinto-me bem quando estou longe do meu namorado. Ando a precisar de estar sozinha, e não sei muito bem o que é que ele pensa de mim actualmente.
Eu - Boa!
Ela - Pensa que sou boa?
Eu - Não. Boa ao que tu disseste.
Ela - Pensa que não sou boa?
Eu - Não. Estava só a ser irónico porque até parece que descobriste a pólvora.
Ela - Qual pólvora?
Eu - Alguma distância entre duas pessoas que se amam, de vez em quando, só ajuda a manter a relação.
Ela - Ah! sim. Era aí que eu queria chegar.
Eu - E eu disse boa.
Ela - O que é que tem o facto de eu ser boa a ver com isso?
Eu - Deixa lá. Esquece.

as mulheres têm filhos para não terem que trabalhar?

"Uma mulher que vá a um entrevista pode estar de boa-fé, quando diz que tem dois filhos, mas também o pode dizer de forma intencional, porque sabe que isso pode ser um obstáculo"

Cristina Rodrigues, coordenadora da comissão de recursos - IEFP (Público)

A técnica dos partidos da direita parlamentar (PS, PSD, CDS) para combater o desemprego tem sido sempre a mesma. Em vez de se criar investimento público para criar emprego digno desse nome, culpabiliza-se o desempregado, apontando-lhe o dedo pela sua incapacidade e falta de vontade de trabalhar.
A verdade é que o sistema económico neoliberal precisa de desemprego para sobreviver, para que os privados possam negociar em condições mais vantajosas com aqueles que dependem exclusivamente do seu trabalho para viver. Aliás, um país de dez milhões de habitantes com mais de setecentos mil desempregados revela isso mesmo: que por muito que se queira ter um emprego, as probabilidades de não o conseguir são muitas.
Aquilo que eu ainda não tinha visto, era esta ofensa generalizada a quem quer trabalhar e não pode, passar a uma ofensa de género, numa revelação da mesquinhez e estupidez em que este governo se transformou. Cristina Rodrigues, coordenadora da Comissão de Recurso do Instituto de Emprego e Formação Profissional, pôs ao Público a hipótese de que quando uma mulher diz numa entrevista de emprego que tem dois filhos, o pode estar a fazer porque não quer trabalhar nem quer o emprego em questão.
A primeira estupidez é que a Cristina não põe a hipótese de um homem dizer o mesmo. Portanto, para ela, os filhos são uma responsabilidade exclusiva da mulher e não muito mais do que um fardo para as famílias.
A segunda estupidez é que ninguém diz que tem filhos por não querer trabalhar, mas em qualquer entrevista para emprego se deve dizê-lo (que engraçado, eu sou homem e digo-o) porque isso, de facto, pode ter alguma influência na assiduidade no trabalho. É uma questão de honestidade.
Com este governo estúpido, põe-se a hipótese real de uma mulher (e não um homem) perder o subsídio de desemprego por dizer numa entrevista que tem filhos.

3.02.2011

conversa 1728

Ela - Tens que ir a minha casa jantar. Já não vais lá há tanto tempo.
Eu - É uma boa ideia.
Ela - Eu convido-te. Só tens que me prometer que no fim não lavas a loiça.
Eu - Porquê?
Ela - Da última vez lavaste e eu tive que a lavar outra vez. É um desperdício de água e detergente.
Eu - Mas estava mal lavada?
Ela - Não é que estivesse mal, estava normal. Só que para mim normal não chega.
Eu - Tem piada, já não te via há tanto tempo que até já acho piada a essas tuas coisas.
Ela - Que coisas?
Eu - Essa mania de achares que tens que ser tu a fazer tudo e que há sempre alguma coisa de errado no que os outros fazem.
Ela - Achas mesmo que eu sou assim?
Eu - Acho.
Ela - Os meus últimos três namorados diziam mais ou menos o mesmo de mim...
Eu - Isso quer dizer alguma coisa.
Ela - Sim, quer dizer que os homens são todos iguais.

respostas a perguntas inexistentes (133)

Hoje vi-a fumar dois cigarros, e pareceu-me que os dois cigarros se lamentavam de qualquer coisa num poluído choro de cinzas. Depois vi-a pegar no cinzeiro e despejá-lo num caixote do lixo comum aos vários escritórios onde trabalha, como se tivesse conseguido deitar fora algumas das suas tristezas. Vi-a em silêncio, porque qualquer coisa me impediu de passar da porta do corredor enquanto fumava. Só depois me aproximei, como se tivesse acabado de chegar.

- Desculpa o atraso!
- Já estavas aí há muito tempo a fingir que não me vias. Estou assim com tão mau aspecto? - respondeu olhando-me de frente.

As mulheres têm a mania de não me deixar fingir, e também de me deixar sem resposta, pelo menos se considerarmos que o silêncio não responde a nada. Mas até responde, porque ela depressa o entendeu como uma confirmação.

- Pronto, estou. - e vestiu o casaco para sairmos dali, como se sair dali fosse respirar depois duma apneia matinal.

Continuámos em silêncio, desta vez os dois, por entre a indiferença dos edifícios, das montras dos prontos-a-vestir e das paragens de autocarro impacientes, até uma rua onde um homem só ouvia um rádio roufenho num pequeno bar de esquina. Tomámos um café cada um e ela pôs dois pacotes de açúcar (o dela e o meu) enquanto se ria timidamente de si mesma. Regressámos por um percurso não combinado mas propositadamente diferente, e deixei-a à entrada do mesmo prédio onde a fora buscar.

- Estás melhor?
- Sim. - respondeu.
- Não estás com mau aspecto, estás com aspecto cansado. Só isso.

Ainda não sei porque é que ela me telefonou a pedir para dar uma volta de manhã, não sei porque é que voltou a fumar nem porque é tinha um aspecto cansado. Não mo disse, e se não mo disse talvez seja melhor nem saber. Sei que tenho uma amiga que só vejo uma ou duas vezes por ano, mas mesmo assim é a quem recorro por último, ou seja, quando já não tenho mais ninguém a quem o fazer. Ela também. E agora que estava a pensar nisso, acho estranho que se recorra à simples presença silenciosa de alguém e que isso funcione. Mas funciona.

3.01.2011

conversa 1727

Ela - Hoje à tarde precisava da ajuda dum amigo...
Eu - Então?
Ela - Estou com pouco tempo porque tenho uma reunião. Achas que podias ir buscar a minha filha à escola?
Eu - Se me deixarem trazê-la sim, posso. Eles não me conhecem...
Ela - Eu já avisei que em princípio ia um desconhecido buscá-la, já que o meu marido está em Espanha e eu não posso mesmo.
Eu - Então eu vou, sim.
Ela (dando-me um papel) - Obrigado. Depois a minha lista de compras é esta. Paga tu que eu depois dou-te o dinheiro. E se puderes, pega lá o meu cartão de cidadão e vai-me levantar esta carta registada aos correios.
Eu - Mas...
Ela - És um anjo. Deus te pague.
Eu (só em pensamento) - Eu sou ateu.

coisas que fascinam (118)

Primeiro tive que me desviar de alguns detritos orgânicos dum cão qualquer, depois pisei uma garrafa de cerveja que já estava partida. Aquela rua sem nome estava anormalmente suja, pontilhada por muitas beatas de cigarros e algumas embalagens diversas a tender para o irreconhecível. Dois homens passavam. Um que acabava de deitar mais um resto de cigarro para o chão, outro que vinha para limpar. Era o varredor, empurrando um carrinho preguiçoso sem cor. Ambos pareciam fazer parte da sujidade da rua, tal a forma cabisbaixa e cinzenta como caminhavam, parecendo que da vida apenas esperavam a morte.
Foi quando abri a porta do automóvel que ouvi um deles cantar. Era um "lai lai lai" rouco e desafinado mas ainda assim um cantar qualquer. Olhei. O varredor tirara a pá e a vassoura de cima do carrinho e varria uma das poucas áreas da rua que não precisavam de ser varridas. Depois veio o som duns saltos altos. Uma morena de olhos verdes e saia curta passou por nós como um peixinho vermelho num cano de esgoto, até que o som dos seus sapatos emudeceu depois duma curva. O varredor tornou a arrumar a pá e a vassoura, e o fumador acendeu outro cigarro enquanto trocavam um olhar silencioso mas comprometedor. Depois continuaram a caminhar, novamente cabisbaixos, até desaparecem também.
Só as mulheres são capazes de fazer isto, encantar uma rua suja e torná-la um ligar primaveril à sua passagem.

gato espiando os donos na cama

Um dia destes foi o aniversário da Raquel e eu fiz um desenho para lhe oferecer. Já não fazia um desenho para oferecer desde puto, quando na escola me punham a desenhar no Dia do Pai ou no Dia da Mãe. Acho que foi um caso concreto em que, por uns momentos, voltei genuinamente a sentir-me criança.
Talvez tenha exagerado um bocadinho, que o mesmo tem um metro largura por cinquenta e quatro centímetros de altura, mas fica aqui uma mostra do que faz uma criança...