1.29.2016
1.28.2016
coisas que fascinam (202)
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1.27.2016
Um pente, um secador e um frasco quase vazio de champô
Só há duas ocasiões em que falo com ela. Quando estou com ela e quando estou sozinho. Na verdade, como quando estamos juntos deixo-a falar a maior parte do tempo e limito-me a ouvi-la, é mais quando estou só que lhe dirijo a palavra. É por isso que termino sempre as nossas conversas a concluir que ando louco. Falo sozinho e ela não me ouve. Claro.
Quando penso que estou louco, levanto o olhar e lanço-o para longe como se fosse uma rede. Quero apanhar pessoas. Se estiver na rua, pesco transeuntes; se estiver num bar, pesco bêbados e grupos de amigos; se estiver no estádio, pesco adeptos. Se estiver em casa, não pesco nada que não seja a minha solidão. E então o meu olhar cai na garrafa de uísque que um amigo me ofereceu num jantar. Bebo e continuo a conversar com ela.
Apanhar pessoas com o meu olhar faz-me sentir melhor. Pelo menos, menos louco (passe a redundância do menos). A minha loucura dilui-se na diferença que há entre cada um de nós, na individualidade de cada olhar e forma de andar, e torna-me apenas mais um. É óptimo. Sinto-me um falhado na mesma, mas democratiza o falhanço que é a vida.
A Sandra é a culpada da minha solidão. Não por me ter deixado, mas por ter gostado de mim antes disso e por me ter permitido Amá-la. Ao contrário das outras coisas essenciais à vida, como a comida a água e o sexo, o Amor só nos faz falta quando já o tivemos antes. É por isso que o Amor é a pior das boas notícias que podemos ter. Quando nos bate à porta nunca vem por bem.
Passei uma grande parte do tempo que já passou por mim a ver filmes pornográficos. Não voluntariamente, mas por ser essa a minha profissão. Era projeccionista num cinema improvisado numa garagem da cidade que vivia da solidão sexual alheia. Várias vezes me perguntei se teria clientes num mundo perfeito, onde toda a gente tivesse alguém para Amar, mas nunca me consegui responder.
Os meus clientes eram quase sempre pessoas sós, mas às vezes apareciam grupos de jovens estudantes que vinham mais numa lógica de diversão do que de solidão. Passavam a sessão toda a rir e a contar piadas, estragando a intimidade que qualquer solitário precisa de ter com uma película pornográfica. As únicas mulheres que apareciam vinham incluídas nesse tipo de grupos. De resto, novos ou velhos, eram sempre homens.
Foi por isso que reparei facilmente na Sandra. Era mulher e estava sozinha. Sentou-se na última fila, bem perto de toda a maquinaria que eu montara durante vários anos para poder exercer a minha actividade com regularidade, pensei eu que para se sentir protegida dos olhares dos homens solitários que iam fazendo sons orgásmicos durante o filme. Aos cinquenta minutos já todos se tinham ido embora, depois de terem colocado um guardanapo sujo no cesto de papéis na entrada. Menos ela. Virou-se para trás e disse-me que, se eu quisesse, podia parar o filme e acender a luz.
Era jornalista e queria fazer uma reportagem sobre mim, mas acima de tudo era bonita. Aceitei. Com medo, mas aceitei.
Em duas ou três perguntas, a Sandra já sabia mais de mim e da minha vida do que qualquer um dos meus amigos habituais. Na verdade já sabia tudo. Que eu era um homem de meia idade deprimido, solitário e sem qualquer tipo de ambição que não fosse viver em paz e sossego. Fizemos sexo logo ali, nas cadeiras de veludo gasto do meu cinema improvisado, debaixo da luz dum filme pornográfico que eu me tinha esquecido de parar. Viemo-nos ao mesmo tempo que os actores e depois começou a ficha técnica.
Ela disse "que bom!".
A segunda vez foi uma hora e duas cervejas depois, no meu apartamento minúsculo num subúrbio da cidade. Não disse "que bom!", mas disse que até parecia que eu nunca tinha tido sexo com uma mulher antes dela. Sorri-lhe. Ainda bem que ela nem desconfiou que eu ainda era virgem aos quarenta anos.
A maior parte das mulheres não sabe, ou finge não saber, que os homens são o sexo frágil. Eu acho que é mais fingimento, porque assim aproveitam-se do facto de termos que parecer fortes. Fazemos tudo por isso, desde transportar sacos de compras pesados enquanto encolhemos a barriga até escondermos as lágrimas quando elas nos deixam. E eu, homem que frágil me confesso, chorei assim que a senti sair para sempre.
Quando uma mulher se despede de um homem pela última vez torna-se o pretérito mais que perfeito, um passado anterior ao nosso próprio passado. Foi assim quando ela se despediu de mim, porque o nosso Amor já tinha morrido, mas o meu Amor por ela não.
Que mau!
Mais que perfeita, lembro-me dela com o vento. Os cabelos negros e longos a dançarem no meu peito nu e os seios firmes a voarem num céu à distância dos meus braços. Depois mandava-me estar quieto e algemava-me as mãos com um beijo para se poder concentrar no cata-vento vertical. Às vezes sorria, outras vezes não. Às vezes vinha-se, outras vezes não.
Depois foi-se embora. Para sempre, disse ela abanando um saco de plástico com o logótipo de um supermercado que ia enchendo com as coisas dela. Não muitas. Um pente, um secador e um frasco quase vazio de champô. Passámos os dois cerca de meia hora à procura do resto das coisas dela, mas por muito que nos custasse acreditar não havia resto. Só isso, em dois duma relação intensa. Um pente, um secador e um frasco quase vazio de champô. E eu a querer que aquela meia hora durasse toda a minha vida.
Não durou. Deu-me dois beijos na face e bateu a porta com determinação.
As mulheres não deviam beijar na face um homem com quem já fizeram Amor. É o que eu lhe estou a dizer agora, mesmo que ela não me ouça. Beijos assim são como balas no coração. Um homem vai sangrando devagar até morrer de Amor, se tiver azar, ou de uma bebedeira fatal se tiver sorte. Os beijos na face duma mulher que já nos Amou são o crime capital.
Peço mais um uísque. Lá fora, alguém verteu no céu uma imensa aguarela negra. Lanço a minha rede e pesco um casal apaixonado numa das mesas do canto do bar. Reparo nas mãos dadas, nos copos vazios e nas vidas cheias. Falam um com ou outro apenas com os olhos e acreditam que vai ser sempre assim. Ao meu lado, no balcão de madeira marcado pelo tempo, um homem fala com uma mulher que também não está presente. É a Sandra dele, provavelmente, e canta-lhe uma música desafinada com uma letra que não entendo. Para além da mulher que agora me traz a bebida, não há mais ninguém aqui. Dou um gole suave e sorrio. Sinto-me mais só do que se estivesse apenas sozinho.
2 | Um homem não devia ficar indiferente aos beijos duma mulher que já Amou
Estou há mais de meia hora na casa de banho, sentada na sanita com o portátil nas mãos a jogar um jogo estúpido do Facebook. Já plantei vários tipos de legumes e alimentei animais duma quinta virtual da qual me tornei escrava e agora penso no tempo que gastei a fazê-lo. O que é que cabe em meia hora?
Foi o tempo, por exemplo, que gastei à procura das minhas coisas na casa dele. Ele, com aquela sua presença absurda, a espreitar para baixo da cama e para os livros do armário da sala. Eu, desesperada, a abrir todas as gavetas e compartimentos da casa. Aquela meia hora demorou muito mais tempo do que esta em que não fiz mais nada do que alimentar vaquinhas, ovelhas e cavalos. Tudo para trazer um pente, um secador e um frasco quase vazio de champô. Mais valia ter deixado lá tudo, só para não ter que o ver a chorar sem chorar.
Os homens são estranhos. Só se sentem sós quando ficam fisicamente sozinhos. As mulheres sentem-se sós quando simplesmente não são ouvidas, mesmo que estejam acompanhadas todos os dias. É uma das coisas que eles não entendem. Disse-lhe tantas vezes para parar de organizar a sua colecção de filmes pornográficos por ordem alfabética e ano de produção e para me ouvir. Mas ele não ligava. Limitava-se a sorrir e a acreditar que eu lhe achava piada.
O Mário era o culpado da minha solidão. Não por não me ouvir, mas sim por ter começado por fazê-lo. Ao contrário das outras coisas essenciais à vida, como a comida, a água e o ar, o Amor só nos faz falta quando alguém que nos dá atenção deixa de o fazer.
Depois de um dia de silêncio era a rotina do sexo. Comecei a prender-lhe as mãos à cama no dia em que deixei de gostar do seu toque no meu corpo. Ainda bem que ele pensava que era um jogo erótico. Meu Deus! Tanto filme pornográfico e tão pouca sabedoria. Às vezes fingia que me vinha, outras vezes não.
Cheguei a pensar que estava louca por me deixar andar naquele Amor, como um peixe quase morto que se deixa ir na corrente do rio. Saía à rua só para, por um momento que fosse, sentir que o mundo era maior do que a minha vida miserável. Procurava qualquer sinal positivo no olhar dos transeuntes e às vezes encontrava um sorriso anónimo que me salvava o dia. Sabia-me bem, mas depois voltava ao mesmo.
Depois aconteceu aquele sorriso diferente de todos os outros, de um homem que parou e me convidou para um café. Primeiro escondi a cara por vergonha, mas depois aceitei por desespero. Acabei a fazer Amor nos bancos de trás do carro dele, num parque de estacionamento de um supermercado onde acabei por comprar apenas um saco de plástico para poder trazer tudo o que era meu. Um pente, um secador e um frasco quase vazio de champô.
Dei-lhe dois beijos e ele nem se mexeu. Tinha a pele fria e o olhar mais ausente do mundo. Um homem não devia ficar indiferente aos beijos duma mulher que já Amou. É como se ela não valesse nada, afinal. Como se a sua importância se resumisse à condição de companheira sexual.
Que mau!
Fecho o computador e levanto-me. Aposto que tenho a marca da sanita no rabo. Ele dizia-me sempre isso quando eu passava muito tempo na casa de banho. Lá fora, o fim da tarde adquiriu vários tons de um cinzento triste. Se bem o conheço, perdeu-se por aí num bar qualquer e está a tentar embebedar-se duma saudade que não tem. É a terapia dele, sentir-se triste e só. Por falar nisso, sinto-me menos só do que quando estava com ele.
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1.26.2016
conversa 2182
Ela - Se dizes um dia destes, nunca mais é. Ou dizes um dia concreto, ou nem vale a pena estares com essas coisas...
Eu - Sexta-feira, então...
Ela - Sexta não posso. Já combinei...
Eu - Sábado...
Ela - Sábado também não estou cá. Deixa-me ver a minha disponibilidade e um dia destes telefono-te.
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1.21.2016
se não morrer até lá
Isto é bom e é mau ao mesmo tempo. Quer dizer que a vida profissional me tem corrido um bocado mal nos últimos anos e que, no seguimento, a minha vida emocional também. Abri uma empresa de produção de filmes, formação em audiovisual e venda de equipamento que ainda está no princípio. É a minha área de formação e espero que até lá a coisa entre nos eixos e eu comece a fazer dinheiro suficiente para viver sem grandes preocupações. Não tem ajudado muito o facto de eu ter tornado a ficar sozinho, o que me surpreendeu e me deixou um bocado abalado. Tudo bem. Como sempre, as coisas recompor-se-ão.
Nem tudo é mau. Neste momento estou a escrever este texto com umas meias grossas calçadas que a minha filha me deu e acabei de receber uma mensagem a desejar-me um bom dia, com um sorriso à frente como aqueles que faço quase sempre nos comentários. Alguns amigos e a família têm sido um bom apoio nesta fase menos boa. Acho que no fim é sempre o que se mantém.
Lembro-me de quando comecei a escrever aqui. Andava triste por causa do fim da mais longa relação Amorosa que tive até hoje e usei a escrita como terapia. Fez-me bem. Foi através deste blogue que conheci, entretanto, algumas das pessoas que me são próximas, outras que já foram e já não são e também a minha mais recente companheira.
Tudo o que eu escrevo aqui é verdade, apesar de ser quase tudo mentira. A escrever tem que ser assim mesmo. Mente-se para dizer a verdade. Sei que quando leio textos antigos me lembro de como me sentia nessa altura ou momento e, por aí, nunca me minto.
Estou a dizer isto tudo por um motivo muito simples. No próximo dia quatro de Setembro voltarei aqui, a este texto, para me lembrar do que estou a sentir hoje. Se não morrer até lá, espero estar bem melhor.
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1.20.2016
conversa 2181
Eu - A sério?! E quando eras mais nova?
Ela - Quando era mais nova cheguei a estar dois anos em jejum, por minha opção.
Eu - Que estranho. E quando é que fizeste quarenta e oito anos?
Ela - Ontem.
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1.19.2016
Porque é que os homens têm sempre que foder?
- Tira o casaco! - ordena. Talvez não pense mesmo.
Põe uma torrada no prato e dá-mo. Não me apetece comê-la, apesar da fome. Sei que assim que a trincar vou cortar o silêncio que se veio esconder com a luz. Começo por dar um gole no sumo e espero que seja ela trinque primeiro a sua.
- Onde é que ias com tanta pressa? - Pergunta.
- Para casa, acho.
Foi uma noite mais ou menos difícil, passada num sofá que não é cama. Quase não dormi e, assim que amanheceu, vesti o casaco para sair. Ela apanhou-me já com a mão na porta e pediu-me para tomarmos o pequeno-almoço juntos. Depois leu o bilhete que eu deixara em cima da mesa.
Obrigado pelo abrigo e pelo vinho. Beijo.
Não está nada preocupada em disfarçar o ruído que faz quando trinca a torrada. As migalhas chovem-lhe na camisa de dormir, mas ela não liga. Está a olhar para mim e para um pequeno bibelot translúcido que me parece ser um golfinho de vidro. Também o olho e reparo que ele reflecte a nossa imagem, ou seja, mesmo quando ela desvia os olhos de mim continua a ver-me.
- Nunca dormes com uma mulher na noite em que a conheces?
- Às vezes sim, outras vezes não.
- E quando é que é sim e quando é que é não?
Sorrio com a pergunta e como a torrada toda de uma só vez. É o meu momento de libertação. A questão dela não tem a ver com ter passado a noite sozinha, mas sim em saber se eu a considero suficientemente boa para mim. Ou não, claro.
- Sim é quando me apetece, não é quando não me apetece. Mas isso tem só a ver comigo e não contigo. Quando não gosto duma mulher nem sequer subo cinco andares a pé para entrar na casa dela.
Ela levanta-se, junta os pratos e os copos e desaparece em passo apressado. Os tornozelos dela estalam. Ouço-a pousar a louça na banca da cozinha e acender um cigarro. Depois, enquanto expele uma quantidade controlada de fumo, aproxima-se e diz-me para ir embora.
- Vai-te embora, então...
Visto o casaco propositadamente devagar, para não parecer que quero fugir. Há na voz dela uma agressividade qualquer que me incomoda. Lá fora, nas escadas do prédio, ouço algum movimento do que me parece ser uma família numerosa, talvez com um carrinho de bebé e muita pressa de sair. Tenho saudades de ter uma vida normal, penso.
Tenho a mão novamente na maçaneta da porta, mas ainda não a abri. Dou alguns passos atrás e fito a silhueta dela em contraluz na janela da cozinha. Talvez já vá no segundo cigarro. Não sei.
- Explica-me uma coisa! - peço.
- Diz...
- Porque é que os homens têm sempre que foder?
Ela não responde. Saio.
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1.18.2016
conversa 2180
Eu - E se for durante o dia?
Ela - Fecho a persiana.
Eu - Não percebo. Não queres que ele veja exactamente o quê?
Ela - Não o quero é ver a ele.
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coisas que fascinam (201)
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1.15.2016
respostas a perguntas inexistentes (361)
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1.13.2016
coisas que fascinam (200)
Em contraluz, as pessoas que passeiam na praia são apenas sombras. Como tal, perdem a identidade. Cada uma delas podia ser outra. Deixa de me interessar quem são, a mim que me estendi sobre a areia invernosa e as vejo num trânsito constante à frente do Sol. Passa-me a interessar apenas a sua silhueta. Já fiz o mesmo com Vénus, ficar sentado a vê-lo passar lentamente à frente do Sol, sem motivo aparente.
Acompanho as sombras de um homem e de uma mulher de mãos dadas. Ele pára por um momento e baixa-se para apertar os atacadores dos sapatos enquanto ela, dois metros à frente, espera por ele e admira o Pôr do Sol. Depois ele levanta-se e continuam a caminhada, novamente de mãos dadas.
Por um momento apercebo-me que o Amor é apenas isso: ter alguém cuja mão nos espera quando paramos por um momento e, nessa espera, nunca se desespera. Aproveita-se a vida de uma forma qualquer. A olhar para um Pôr do Sol pela enésima vez, por exemplo, igualzinho ao que já vimos em postais foleiros para turistas e ao que se repete há tanto tempo quanto o trânsito de Vénus.
Quando um homem se apaixona de forma incondicional perde a noção desse tempo. Passa a acreditar que tudo parou e que vai ser sempre assim. Cada vez que se baixar para atar os atacadores terá uma mão à espera, numa cena. Até ao dia em que percebe que afinal nada parou e, sem ele dar conta, tudo se transformou.
A Lei da Amor é um pouco como a Lei da Conservação da Massa. Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A mulher que lhe estendia a mão perdeu a brandura no olhar e a doçura na voz, mas essas características não desapareceram. Andam por aí, entre as silhuetas que passam.
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1.12.2016
pensamentos catatónicos (343)
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1.11.2016
Para adopção
Confio-te a minha solidão. Guarda-a bem em tua casa e dá-lhe de comer todos os dias. Algumas festas também. Ela não é muito diferente da maior parte das solidões, mas é contigo que quer ficar quando eu vou de viagem. És só tu que a fazes sentir quem realmente ela é...
Entretanto eu vou sair um bocado. Andar por aí e tentar conhecer alguém que a queira adoptar. Pode ser que num café ou numa cerveja isso aconteça. Se não acontecer, assim que eu voltar levo-a comigo para casa.
Sabes... hoje em dia as solidões andam muito abandonadas. É uma tristeza, vê-las por aí a abanar a cauda em busca de um dono. Ainda ontem alguém me disse que dantes não era nada disto. Havia mais respeito pela solidão de cada um.
Ela come duas a três vezes por dia e não precisa de trela. Normalmente nem dás por ela, aliás. É uma solidão de trato fácil. Adormece num canto da casa e só acorda se te sentir passar.
Obrigado.
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1.08.2016
E é assim que parto...
Esses lugares não servem para nada, a não ser para me lembrar deles durante conversas com amigos ou para regressar a eles quando preciso de voltar a ser feliz ou triste. Na fase que atravesso, jamais regressaria a um lugar onde me senti assim assim, porque de coisas mornas está o mundo cheio e eu, por acaso, também. Além disso, não quero visitar lugares onde fui feliz na minha última história de Amor, porque é apenas a essa história que esses lugares pertencem.
Vou visitar um lugar fora de Portugal onde já fui imensamente feliz e imensamente triste ao mesmo tempo. Na verdade, acho que é o único lugar que neste momento compreende aquilo por que estou a passar e, por uma questão de sobrevivência emocional, preciso dele durante uns dias. Estou a falar de uma cidade onde vivi várias histórias de Amor, todas elas mais curtas do que um simples fim de semana.
As cidades são tão inconclusivas como o Amor. É nelas que nos perdemos até um dia as conhecermos tão bem que nos cansamos. Além disso, voltar a uma cidade dez anos depois da última vez quer dizer que também é possível voltar a um Amor que já terminou.
E é assim que parto...
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1.06.2016
As avós sabem tanto como as árvores
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1.05.2016
respostas a perguntas inexistentes (360)
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conversa 2179
Eu - Eu tenho que ver se me desapaixono...
Ela - Para quê?
Eu - Para me poder apaixonar outra vez.
Ela - Ah! Nem sei se estou melhor ou pior do que tu...
Eu - Estás um passo à frente.
Ela - E atrás também...
Eu - Acho que sim...
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1.03.2016
Só as mulheres é que se protegem da chuva
- Estás com um ar cansado.
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1.02.2016
respostas a perguntas inexistentes (359)
Reparo nas paredes. Só o faço quando me sinto só. Quando não me sinto, mesmo que o esteja nunca reparo nelas.
Tu entraste e disseste-me olá ainda do lado de fora da porta, demoraste alguns segundos a mais do que o normal a limpar os sapatos no tapete da entrada e esperaste por mim com o longo casaco preto vestido. Eu tinha ido à casa de banho deitar algum cotão na sanita, com a perfeita consciência de que estava a subtrair provas do meu crime masculino que é preocupar-me mais com a organização dos discos de música do que com a sujidade que se acumula pelos cantos da casa.
Por isso é que tinha as mãos molhadas, ainda com resquícios do sabonete líquido, quando te vi. Dei-te dois beijos na face enquanto as sacudia como se os meus braços fossem as asas de um pássaro que quer levantar voo.
Estavas com uma mão numa das paredes da entrada. Percebi que, assim que te fosses embora, ia sentir a solidão de não te ter quando olhasse para ela. Para a parede, digo.
- Casa comigo só hoje, mas como se fosse para sempre! - pensei, mas não te disse, antes de sorrir.
- Tens planos para jantar? - Respondeste tu ao meu pedido inexistente.
Nessa noite quis Amar-te com a energia duma preguiça. Tu olhavas para mim no escuro e o meu braço demorava uma eternidade a aterrar na tua pele deserta. Era assim, num movimento tão longo quanto iminente, que eu perdia o medo de estar entre quatro paredes brancas, tão brancas como esta da entrada, para onde acabei de olhar assim que saíste.
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1.01.2016
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12.31.2015
sejam felizes!
Hoje é o dia em que quase todos nós celebramos o tempo que passa. Eu, não tendo a certeza científica do que vou dizer, acredito que a maior parte das pessoas só o faz duas vezes por ano: no seu aniversário e na passagem de ano. De resto, percebermos que o tempo passa serve essencialmente para nos queixarmos de que caminhamos para a velhice.
Eu estou parado a olhar para um imenso vazio que surgiu repentinamente atrás de mim. Contemplo-o num misto de amargura e de doçura, que é ao que me sabe, por exemplo, a caneca de chá que tenho na secretária. Tenho pedido a quem me é mais próximo que não me diga para desviar o olhar, embora hoje o faça voluntariamente para desejar a todos os que aqui vêm visitar-me que olhem noutra direcção. Aquela em que a paisagem somos nós que a fazemos.
Sejam felizes!
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12.29.2015
coisas que fascinam (199)
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12.28.2015
pensamentos catatónicos (341)
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12.24.2015
conversa 2178
Ela - Bom Natal para ti...
Eu - Bom Natal também para ti. Obrigado por teres telefonado...
Ela - Estou sem nada para fazer, à espera do meu namorado, e vou telefonando a todos os contactos da minha lista telefónica até ele chegar...
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12.23.2015
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12.21.2015
sete e meio
You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes, yeah
You just might find you get what you need!
O que é que pode acontecer em sete minutos e meio? Tanto...
Uma bomba pode cair em Aleppo e matar uma família inteira. Nos casos mais cruéis, pode até deixar apenas um ou dois sobreviventes que viverão mais algumas décadas sem esquecer esse momento durante um segundo que seja. Dois turistas, um americano e uma espanhola, podem apaixonar-se em Roma e viver um Amor impossível durante todo esse tempo, com viagens e discussões constantes sobre o Atlântico e sobre quem devia mudar-se para onde. Um homem solitário pode escrever um texto sobre o que sente nesses sete minutos e meio e, daqui a muitos anos, tornar a lê-lo sem lhe perceber o sentido, mas lembrando-se que demorou a beber o copo de tinto exactamente o mesmo que a música a chegar ao fim.
A mulher aproximou-se do antigo gira-discos Akay e colocou a agulha no princípio da música para a ouvir outra vez. Olhou para mim de relance, talvez para perceber se eu consentia, e eu pedi-lhe outro copo de vinho, que ela me serviu com um pequeno chocolate negro.
- É daqui do Porto?
- Não. Venho muito aqui porque adoro cidades labirínticas...
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12.17.2015
conversa 2177
Eu - Queres tomar o pequeno-almoço?
Ela - Quero...
Eu - Escolhe um sítio, que eu vou lá ter.
Ela - Ah! Estavas a dizer os dois juntos?!
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12.16.2015
conversa 2176
Eu - Nem bem, nem mal. Nem sequer ando...
Ela - Tens que perceber uma coisa duma vez por todas...
Eu - O quê?
Ela - É muito raro uma mulher apaixonar-se por um homem. Normalmente, fica à espera que um homem se apaixone por ela e, na melhor das hipóteses, apaixona-se pela forma como esse homem gosta dela.
Eu - Foi isso que te aconteceu comigo?
Ela - Claro.
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12.14.2015
respostas a perguntas inexistentes (358)
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12.13.2015
mulheres em pinturas nos moliceiros (6)
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12.11.2015
a mulher que não sorri
![]() |
| fotografia de Paulo Pimenta |
O que me sobra na memória, espremido o dia, é a mulher do lenço branco na cabeça e da face escondida. “Sorria! Está a ser filmado!”, lê-se na entrada da lojinha de cacarecos onde turistas esgravatam ímanes para frigoríficos como galinhas a cercar um monte de milho. As galinhas sorriem ao olhar a placa, mesmo em Português, entendendo-a por causa de um smile pateta.
É tão estranho passar o dia a ver pessoas sorrir apenas porque lhes mandam. Como se estar triste fosse motivo de censura. Pior! Como se sorrir sem vontade fosse natural. Aquela mulher, fugaz como um insecto ao Sol, ficou-me cravada na memória por ser a mais honesta: A única que não sorriu. Vendo-lhe a cara, sei que me apaixonaria por ela. Sempre me quis apaixonar por alguém que não sorrisse por obrigação. Vou pedir demissão de vigilante desta lojinha – onde a minha tarefa mais importante é desconfiar de pessoas que sorriem por obrigação – para estar atento ao sol que desenha as paredes da cidade. Talvez torne a ver a mulher do lenço branco na cabeça. A mulher que não sorri
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12.09.2015
respostas a perguntas inexistentes (357)
- Cala-te.
E eu calei-me. Cedi à complexidade neurobiológica que me fazia estar ali, de sorriso estendido numa cidade encolhida, a sentir o suor da tua mão chover na palma da minha. Depois parámos numa montra e tu apontaste para um quadro da cidade, pintado por alguém cujo nome não se reconhecia na assinatura.
- É por isso que te Amo. Vejo uma coisa bonita e tenho com quem partilhar.
E partilhaste. E abracei-te. É do que me lembro.
O Amor nunca foi de fiar. Há uma altura em que nem sequer conseguimos perceber como é que aquilo que é mais simples se torna tão difícil, ou seja, duas pessoas que gostam uma da outra gostarem-se de facto.
Talvez a tristeza de um desAmor vá sendo só isso. Ter os passos mais curtos porque nunca nos apetece chegar onde estamos a ir. Uma pequena mota ruidosa fere de morte o silêncio da manhã e uma interminável fila de cacos de vidro espreita-me de cima do muro de uma das casas da rua. É Dezembro e acabei de ver uma borboleta branca a pousar num poste público de iluminação.
Lembrei-me de ti. É do que me lembro, aliás. De gostares de mim.
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12.08.2015
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12.07.2015
O Dia do Mar, do Rui Oliveira
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um gato numa varanda
Ela tinha um gato que eu nunca vi. Sempre que a visitava perguntava-lhe por ele, mas ela dizia que em Lisboa é normal os gatos frequentarem os telhados dos edifícios dos bairros antigos. Cheguei à conclusão que ele só entrava em casa para comer e saía logo outra vez. De facto, na cozinha havia sempre uma taça com comida e outra com água.
- Como é que podes ter a certeza que é o teu gato, e não outro, que vem cá comer?
- E se for outro, isso incomoda-te?
Era Domingo e eu tinha chegado apenas no dia anterior. Como é que numa relação onde só nos víamos ao fim de semana já se notava um desgaste tão grande? Pensei na pergunta, mas engoli-a imediatamente, para não provocar uma discussão.
- Se queres ter sexo antes de ires embora tem que ser agora. A seguir tenho que estudar...
- Esta semana estava a pensar ir só amanhã...
- Então deixa estar. Temos logo à noite.
Se ela ia estudar, eu tinha a porta aberta para me perder em Lisboa. Dei-lhe um beijo seco nos lábios e saí. É, sem dúvida, uma das cidades que eu gosto de visitar e revisitar, Lisboa. Nunca me canso de tentar perceber o labirinto de ter muitas cidades pequenas numa cidade grande. Talvez Lisboa seja um bocadinho como a minha vida, uma cidade onde me posso perder, mas onde também me posso aconchegar num pequeno bairro qualquer.
De qualquer forma, aquela tarde foi diferente. Passei-a a olhar para os telhados a ver se descobria algum gato. Vi vários e cheguei à conclusão que ela podia ter razão. Fiquei cinco minutos a olhar para um que, empoleirado no ferro enferrujado duma varanda, me fitava também. Era cinzento com riscas mais escuras. Enfim, um gato normalíssimo que só me despertou a atenção por estar a olhar para mim. Tinha uma coleira vermelha.
Nesse fim de tarde decidi que não fazia sentido voltar a Lisboa tão cedo para a visitar e acabei por apanhar um comboio para Aveiro. Estava farto de morrer de Amor ao Domingo. Não lho disse logo. Planeei telefonar-lhe na quarta-feira para a informar da decisão, o que acabei por não fazer. Por isso mesmo, a última conversa que tivemos foi sobre o gato dela.
- Conheci o teu gato. Estava na varanda dum prédio ao cimo da rua...
- Como é que sabes que era ele?
- Incomoda-te se for outro?
E saí. Ela também nunca mais me telefonou.
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12.03.2015
conversa 2175
Eu - Fixe!
Ela - Não é assim tão fixe...
Eu - Então?
Ela - Quer dizer que a partir daqui nunca vai melhorar. Só pode piorar...
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12.01.2015
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11.30.2015
é tudo uma questão de toque
À partida, seria num desses momentos que ele se apaixonaria de novo, não fosse o Amor ser sempre o contrário do que pensamos que vai ser. Comprou um bilhete de autocarro sem querer ir a lado nenhum, apenas para dar uma volta à cidade sem ter que se esforçar. As luzes dos candeeiros públicos misturavam-se com a negritude do fim de tarde numa estranha aguarela abstracta. Uma mulher sentou-se ao lado dele e adormeceu em poucos minutos. Encostou-se ao seu corpo como se fosse uma cria de pássaro num ninho e deu-lhe uma mão. Ele deixou-se ir até ao fim, respirando suavemente para não a acordar.
É tudo uma questão de toque, pensou.
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11.29.2015
conversa 2174
Eu - Como?!
Ela - Com palavras.
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11.27.2015
conversa 2173
Eu - Sim.
Ela - O quê?
Eu - Nada.
Ela - Então... tens ou não tens?
Eu - Tenho. Tirei sábado para estar sozinho e não fazer nada, portanto, se alguém me perguntar se estou ocupado, digo que sim.
Ela - Sabes que eu entendo porque é as mulheres se fartam de ti num instante?
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11.26.2015
uma bola no fundo do copo
- E a Márcia o quê?
- É bonita. Nunca te apaixonaste por ela?
O fundo do meu copo de cerveja tem uma bola verde. Não sei porquê, mas suponho que seja para o distinguir dos copos de cerveja dos outros bares, que são todos iguais. Não costumo sentar-me em praças de alimentação em shoppings a beber cerveja, mas desta vez não tive escolha. A Marta trabalha ali perto e não tinha tempo para ir a outro sítio.
Mesmo ali, num ambiente que considero inóspito, gosto de a ver. A Marta é uma daquelas amigas que tanto posso visitar cinco vezes numa semana, como depois passar três ou quatro meses sem lhe pôr a vista em cima. De qualquer forma, sei que quando ela me telefona para tomar café é uma ordem que, mesmo que seja num centro comercial, eu acato.
- Desde quando é que um homem se apaixona por uma mulher só por ela ser bonita?!
- Desde que é homem... - ri-se.
Rio-me também.
A Marta pensa que eu gosto muito de mulheres, o que até é verdade. O que não é verdade é que gosto de muitas ao mesmo tempo. Gosto de uma de cada vez e tenho uma enorme dificuldade em deixar de gostar. Normalmente, quando tenho que o fazer, começo a reparar em coisas tão absurdas como o facto de um copo de cerveja ter uma bola verde pintada no fundo. Por isso mesmo afasto o copo vazio para o lado e esqueço o que vi.
- E então?! Apaixonas-te por quê?! Diz lá. Inteligência? Sensibilidade?
- Sei lá...
- Não sabes?
- Claro que não. Normalmente apaixono-me por uma mulher. Nunca consegui simplificar com adjectivos uma mulher. Nem sequer tento...
Um homem aproxima-se e cumprimenta a Marta. Ficam os dois a falar um bocado sobre uma coisa qualquer que não me diz respeito. Por um momento não interesso para nada e gostava de ainda ter alguma cerveja no copo. Nem sequer sei para onde olhar ou onde pôr as mãos. Suspiro. Sei que ela me ia dizer qualquer coisa que eu queria ouvir, mas o mais provável é já nem se lembrar quando ele se for embora.
Levanto-me e faço, propositadamente, algum ruído com a cadeira. Escolho outro bar para ir buscar mais uma cerveja, apenas pela curiosidade da bola no fundo do copo. Escolho um onde uma mulher bonita, por trás do balcão, parece impaciente por não ter clientes.
- Uma cerveja de pressão, por favor.
- Um fino?!
- Isso...
Não, definitivamente não me apaixono por uma mulher apenas por ela ser bonita. Esta é muito bonita, por exemplo, e sei que nunca me apaixonaria por ela. Na verdade, nem sequer gosto muito da forma como ela me atende, apesar de ser simpática.
- Um e vinte!
- Obrigado.
O homem está a ir-se embora. Óptimo. A Marta não mo apresentou e eu não tive que fazer um sorriso amarelo para parecer simpático. Sento-me. A bola no fundo do copo é amarela. Curioso, já sei porque é que não gostei da rapariga. Foi o sorriso amarelo. Os sorrisos desta cor não nos definem como pessoas, mas definem a incompatibilidade entre uns e outros. Acho eu, pelo menos.
- Lembras-te do que me ias dizer? - Pergunto.
- Não, desculpa. Foste buscar uma cerveja e não me trouxeste uma...
Ela levanta-se. Fico a vê-la a serpentear as mesas cheias de tabuleiros e restos de comida até se encostar a um balcão. É bonita e não me faz sorrisos amarelos, mas nunca me apaixonei por ela. Nem sequer na noite em que nos beijámos dentro de uma tontura alcoolizada. Acho que às vezes a vida é mais sobre as relações que não temos do que sobre as que temos.
Não sei qual é a cor da bola que ela trará no fundo do copo.
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11.24.2015
limpar os pés e pedir licença
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11.22.2015
conversa 2172
Ela - Tens o fogão todo sujo.
Eu - Eu sei...
Ela - As manchas de gordura são as mesmas da última vez que cá vim, na semana passada.
Eu - Isso é porque eu não o limpo há mais de uma semana.
Ela - Não sei se conseguia viver contigo, assim com as mesmas manchas de gordura no fogão durante uma semana.
Eu - Eu não sei se conseguia viver contigo, assim a criticar-me por eu não limpar o fogão todos os dias.
Ela - Percebes que não é normal ter o fogão assim?
Eu - Percebo que vivo sozinho precisamente para ninguém me chatear com essas coisas e tu estás a chatear-me na mesma.
Ela - Eu também devia viver sozinha, se calhar. O meu marido é mais ou menos como tu e estamos sempre em conflito com este tipo de coisas.
Eu - Coitado do teu marido.
Ela - Aí estamos de acordo.
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11.21.2015
Você é linda!
Mais uma vez não eras tu e acabei, como é costume, por dizer "olá" num tom decepcionado. Prendi o telemóvel entre o ombro e a orelha para libertar as mãos e poder continuar a cozinhar. Despejei os pedaços de tomate para o wook, juntei dois dentes de alho esmagados, um fio de azeite e uma malagueta. Depois acendi o lume e encostei-me a uma das paredes da cozinha a ouvir a minha interlocutora.
Uma vez perguntaste-me se havia alguma música que me lembrasse de ti e eu respondi-te que sim. Aconselhaste-me a configurar o telemóvel para tocá-la sempre que fosses tu a ligar-me. Deixa-me dizer-te que ainda bem que nunca o fiz. Assim, agora ganho uma vã esperança de seres tu mesmo quando não és. São alguns segundos em que a minha vida volta a ganhar cor. E sabem-me bem, esses segundos. Obrigado por seres uma música.
Não sei se já te aconteceu não conseguir ouvir uma pessoa por estares a pensar noutra. A mim acontece-me frequentemente por estar a pensar em ti e admito que perdi, muito provavelmente, mais de metade do telefonema. Ainda assim, nesse pântano sonoro em que me encontrava, uma frase ficou-me gravada na memória como se fosse uma tatuagem definitiva.
- Não era bem contigo que queria falar, mas ele não me atende o telefone e eu preciso desabafar...
Não percebi logo o contexto em que ela me disse aquilo, mas foi como se me despertasse do hipnotismo em que estava por ter saudades tuas. Talvez, não sendo tu a telefonar-me, eu possa aproveitar a voz de outra pessoa qualquer, mesmo que seja de alguém que me chama apenas para desabafar. É como se nós pudéssemos emprestar um bocadinho do que somos a quem não quer tudo mas, de facto, um bocadinho dá jeito naquele momento.
- O que é que estás a fazer? - perguntou.
- A pôr dois ovos a escalfar em tomate frito. Se quiseres ponho quatro e vens cá jantar...
Um quarto de hora depois ouvi-a tocar à campainha. Já eu tinha a mesa posta com dois pratos, uma garrafa de vinho branco e uma música a passar no antigo sistema midi que ainda tenho na sala. "Você é Linda" do Caetano.
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11.20.2015
coisas que fascinam (198)
Para tudo podemos ter um plano B. Menos no Amor. Se no Amor tivermos um plano B, então não é de Amor que falamos. É só por isso que nos sentimos perdidos quando alguma coisa corre mal com as nossas emoções. É que todos os planos, que não verdade são só um, parecem estar a falhar.
Ainda assim, o tempo que passa por nós e nos engelha a pele é o mesmo que nos ensina que podemos ter vários planos. Apenas não podem ser contemporâneos. Os planos A podem suceder-se, os planos B nunca existem.
Porque é de tempo que falamos quando falamos de Amor, foi esse mesmo tempo que me ensinou a perceber até quando me devo manter no meu plano A. É enquanto os olhares que se cruzam no ar se agarram como borboletas tontas e os braços se amarram como cordas de um navio. É só isso que define um Amor. É só isso que me mantém no meu plano A.
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11.19.2015
pensamentos catatónicos (340)
O dedo, o indicador da mão esquerda, ganhou uma dor latejante. Larguei o esfregão, a faca e o copo que tinha entre as mãos e disse uma asneira que só as paredes ouviram. É estranho. As paredes lembram-me sempre de ti. Talvez por ser com elas que falo da solidão que é não te ter.
Rio-me. Acho que a maior parte de nós não dá a devida importância às paredes. Em silêncio, construímos muros que nos separam, como os que dividem Jerusalém da Cisjordânia ou o México dos EUA. Só nos manifestamos quando eles caem, como quando caiu o de Berlim. De alegria, claro. Temos a mania de gritar felicidade e de engolir a tristeza.
Talvez um dia destes eu derrube estas paredes e grite ao mundo que gosto de ti. Talvez o mundo organize uma banda com tambores e oboés. Será o dia da revolução. Até lá, direi asneiras às paredes.
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11.16.2015
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11.12.2015
pensamentos catatónicos (339)
Das dores de que falamos quando falamos de Amor, a do coração é a mais conhecida. O coração dói-nos quando o Amor também nos dói. Há também quem fale na dor que sente no peito, quando a palavra "coração" parece demasiado específica e pequenina para falar de Amor. Depois vem a dor de corno, quando o Amor que falhou partiu para parte incerta e nós nos zangámos com o mundo.
Quanto tu me faltas eu falo da dor de pescoço, uma dor de que ninguém fala não sei porquê. Talvez nunca tenha sido diagnosticada nos Amantes falhados apesar de, tenho a certeza, ser bastante comum. É a dor da falta da tua cabeça encostada ao meu pescoço, num abraço que sempre me pareceu o mais bem encaixado do universo. A tua cabeça encostava ao meu pescoço como a peça de um puzzle. Sabes aquela parte redonda que encaixa de forma perfeita na peça ao lado? Era isso... depois abraçava-te e ficávamos assim...
Às vezes, quando estou sozinho e me lembro de ti, vem-me essa dor de pescoço que é também a minha dor de Amor. As dores do Amor são sempre dores de uma parte qualquer do nosso corpo, porque é no corpo que o Amor carimba o tempo que passa.
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O vinho e o Amor são os melhores amigos do Homem. Ambos prometem aquilo que não podem dar: uma vida inteira de paixão e de bebedeira. Não faz mal, porque ambos são capazes de nos fazer acreditar que sim. Com o Amor nos embebedamos e com o vinho nos apaixonamos, acreditando sempre na eternidade dum Amor bêbado, pelo menos até ele acabar.
O fim de um Amor é a sobriedade da vida e estar sóbrio é uma merda. É tornar a acreditar que a felicidade é um luxo a que só nos podemos dar de vez em quando, sempre depois de muita tristeza. Estar sóbrio é aceitar que a injustiça é a normalidade da vida. Assim como trabalhamos muito para ganhar um salário baixo, sofremos muito para ganhar uma felicidade precária.
Os melhores Amantes seriam aqueles que bebem, se não se perdessem na bebida. Os melhores bêbados seriam aqueles que Amam, se não se perdessem no Amor. É por isso que eu peço: Embebedem-se com paixão e apaixonem-se com vinho. É o melhor de dois mundos.
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11.10.2015
conversa 2171
Eu - A beleza física também conta...
Ela - Eu sei, mas para ti não é o principal.
Eu - Não, não é o principal...
Ela - E isso é apaixonante em ti. É pena tu próprio não seres assim muito bonito.
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11.08.2015
coisas que fascinam (197)
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11.05.2015
É por isso que estou aqui
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11.04.2015
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11.02.2015
pensamentos catatónicos (338)
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