1.25.2012

respostas a perguntas inexistentes (194)

sobre a decisão de Amar

O maior equívoco sobre o Amor é acreditar que ele acontece sem mais nem menos. Não acontece. O Amor é sempre uma decisão, tal como o é deixar de pôr açúcar no café, fazer uma viagem à América do Sul ou ficar a dormir num Domingo à tarde. Decidimos aquilo que vai modelar em grande parte os nossos dias, e normalmente as pessoas que andam sempre mal de Amor são aquelas a quem falta a coragem de tomar uma decisão.
O problemas das decisões é que nem sempre estão certas, e isso deve-se à nossa condição humana. Errar é humano, dizem. Pois nesse aspecto eu devo ser o mais humanos de todos. Passei a vida a tomar decisões erradas das quais, no entanto, não me arrependo. Foram decisões que, apesar de tudo, me foram permitindo Amar. É verdade que talvez tenha tomado algumas decisões menos boas porque, em vez da solidão, sempre fui preferindo os Amores possíveis. À falta de melhor era por eles que me decidia. Ainda bem que o fiz, no entanto, pois foi com eles que aprendi isso mesmo: que o Amor é uma decisão.
Sempre que me acreditava apaixonado por alguém, o meu primeiro pensamento era o de ter esse Amor que estava ali à mão de semear. Foi assim toda a vida, e só percebi esse meu grande erro quando me apaixonei pela Raquel. Quero que este Amor me tenha, pensei. Nessa noite ela ensinou-me que o Amor é maior do que eu e tomei a decisão de a Amar.
A diferença entre um Amor que temos, por muito bom que seja, e um Amor que nos tem a nós, tem exactamente a ver com a capacidade de decidir sobre ele. Perdemos o controle sobre tudo o que nos tem a nós e, por isso, também a capacidade de decidir o seu fim. É que o fim de um Amor também é sempre uma decisão.
Percebem?

1.24.2012

conversa 1878

Ela - Acho que aquela moda de se venderem calças novas rotas deve estar para acabar.
Eu - Calças novas rotas?!
Ela - Sim, nunca viste?
Eu - Se calhar já vi, sim.
Ela - Pois, agora com a crise essa moda deve estar para acabar.
Eu - Com a crise?! Porquê?
Ela - Dantes ficava bem usar calças rotas, agora fica mal. Podem pensar que se anda roto por se ser pobre.
Eu - Que raio de pensamento. Olha, eu, por exemplo, tenho estas calças rotas nos bolsos...
Ela - Eu reparei, por isso é que te estou a dizer isto. Não te fica nada bem andar com essas calças nos tempos que correm.

coisas que fascinam (138)

vaivém

Tomamos café. A Sónia pergunta-me como estou. Que estou bem, respondo. A Sónia pergunta-me se ainda estou apaixonado. Faço silêncio com os olhos e ela insiste. E tu, ainda estás apaixonado? Abano a cabeça afirmativamente e sem determinação. Sei que ela não quer saber a resposta, que apenas que eu saiba que ela não está. Então e tu? O Amor foi-se? Ela abana os ombros também afirmativamente.
Fico a pensar na minha pergunta. O Amor foi-se? É a assumpção de que o Amor se vem e se vai como se fosse um passageiro na nossa vida. Na vida de duas pessoas, porque o Amor é sempre isso, a vida de duas pessoas. O meu não se foi, mas também eu tenho medo que um dia destes ele se despeça de mim e saia num apeadeiro qualquer deste tempo que é o meu. Sorrio, talvez nervoso, e digo-lhe que a vida é assim.
Dizemos sempre que a vida é assim quando lhe perdemos o rasto; quando, de facto, nos apercebemos que não sabemos como ela é. Dizendo que ela é assim parece que a estamos a agarrar, mas não estamos. Estamos a escapar-lhe. Sabemos apenas como ela devia ser. Mais nada. E agora sorri a Sónia, talvez nervosa, e abana os ombros, desta vez negativamente. A vida não é assim.
Quando um Amor se vai a vida vai-se com ele. Da mesma forma que quando um Amor se vem a vida vem-se com ele. É assim, no sexo e fora dele, com o alívio de que a vida nunca se vai toda. Vai-se uma parte dela, talvez quase toda, talvez nervosa abanando os ombros esmorecidos. A que resta fica, às vezes, num amigo a quem se pergunta se ainda está apaixonado mesmo que não se queira saber a resposta. Quer-se só dizer que já não se está. E tomar um café.

1.23.2012

conversa 1877

Ela - O meu ex está sempre a dizer-me que não percebe o que é que falhou no nosso casamento.
Eu - Está?
Ela - Sim, e eu já lhe expliquei que o que falhou no nosso casamento foi precisamente ele não ser capaz de perceber onde é que o casamento falhou.
Eu - Admito que, só assim, também não percebi lá muito bem.
Ela - O facto de eu me sentir muito sozinha quando estava casada com ele, por exemplo, foi um motivo forte.
Eu - Ah! Isso já é um motivo com pés e cabeça.
Ela - Mas o grave foi ele nunca ter sido capaz de perceber isso.
Eu - Podias ter-lhe dito.
Ela - Se eu lhe tivesse dito, tudo o que ele mudasse para alterar as coisas não ia ter qualquer valor.
Eu - Assim dificultas muito as coisas.
Ela - Ninguém disse que manter uma relação é fácil.

1.20.2012

conversa 1876

Ela - Estou um bocado deprimida com o último gajo com quem fui para a cama.
Eu (risos) - Porquê?
Ela - No fim disse-lhe que tinha sido bom. Enfim, que eu tinha gostado.
Eu - Ainda bem, então.
Ela - Mas ele respondeu-me que sim, que até tinha sido mais ou menos.
Eu - Mais ou menos?! Ena!
Ela - Pois. Expulsei-o logo da cama e de casa.
Eu - Também não era preciso tanto.
Ela - Era, era. Será possível que um homem não tenha um mínimo de sensibilidade?!
Eu - Nem sei que te diga...
Ela - Agora queria era pedir-te uma coisa.
Eu - O quê?
Ela - Que lhe devolvesses as cuecas. É que eu não o quero ver mais.
Eu - Queres que eu vá devolver umas cuecas a um gajo que eu não conheço de lado nenhum?! Claro que não.
Ela - É que senão ele vai lá casa buscá-las e não me apetece vê-lo durante uns tempos.
Eu - Ele que esqueça as cuecas.
Ela - Mandou-me uma mensagem, porque eu não lhe atendo o telefone, a dizer que tem medo que a mulher dele dê pela falta delas.
Eu - A mulher dele?! Ele é casado?!
Ela - Pelos vistos. Eu também não sabia.
Eu - Eu não lhe dou cuecas nenhumas, desculpa lá. E se eu fosse a ti também não dava. Com essa do "mais ou menos", o melhor que podes fazer é pôr as cuecas no lixo e deixar que a mulher dele descubra e se chateie.
Ela - Bem visto. Sabes que às vezes pensas mais como uma mulher do que eu própria?

mamas e bolas

Em 2011, o Loto Libanês tentava convencer os libaneses a apostar no jogo desta forma, substituindo as mamas duma mulher por duas bolas do respectivo jogo e retirando-lhe parte da cara. Há alguma publicidade machista que, apesar de tudo, tem alguma criatividade. Esta, no entanto, é apenas a demonstração de que quando não há ideia nenhuma para fazer um anúncio publicitário, se cai normalmente na receita do corpo da mulher. Os anúncios às vezes nem chegam a ser machistas. São só estúpidos.

1.19.2012

os senhores dos anéis

Às vezes ponho-me a pensar nas coisas que nós fazemos e que não têm sentido nenhum. Manter um casamento onde já não existe pinga de Amor, por exemplo, é uma delas. O absurdo chega ao ponto de haver quem mantenha o casamento sendo vítima de violência doméstica. E eu, que acho que o Amor tem sempre que estar primeiro do que qualquer relação contratual, não compreendo.
Um casamento é isso mesmo, para o mal e para o bem, um contrato. Como é também, ou devia ser, por exemplo, o programa eleitoral dum partido. No casamento está-se a contratualizar, sobretudo, um Amor. Não se está a abrir portas para que o cônjuge use e abuse da vida do outro. Casamos, assinamos um papel, trocamos anéis, beijamo-nos e a vida continua. Deve continuar, aliás, como era antes, com Amor e cuidado de parte a parte.
Às vezes ponho-me a pensar nas coisas que nós fazemos e que não têm sentido nenhum. É quando percebo, por um momento, porque é que os portugueses (ou a maior parte deles) são uns falhados no Amor. É porque são absurdamente capazes de manter um casamento sem sentido. Sem sentimento também. São os senhores dos anéis e de mais nada. Talvez seja uma questão de comodidade e de aparência. Talvez. Só isso.
Um dos piores casamentos que os portugueses (ou a maior parte deles) mantêm é com políticos estúpidos. Casam repetidamente com eles de quatro em quatro anos assinando um contrato, dizendo que sim no mais importante dos altares, fazendo a festa, trocando anéis. Depois encolhem-se perante a violência de que são vítimas diariamente. Sofrem todos os dias em silêncio e, quando finalmente parece que o martírio está a acabar, lá vem o agressor com as desculpas do costume. Promete que vai mudar, pede mais uma oportunidade, que a vida vai ser melhor, que vai deixar as más companhias. Por fim, que ainda sente Amor. Mas não, não sente.
A Democracia não se pode limitar a um casamento de quatro em quatro anos, depois dessas desculpas esfarrapadas, porque o Amor não se pode confundir com casamento nenhum. É por isso que os portugueses (ou a maior parte deles) falha no Amor e na vida, mas é também por isso que pode, duma vez por todas, acertar o passo em ambos. Divorciem-se pôrra! Casem com outr@. Agora que já nos levaram os anéis, só somos senhores de nós mesmos. Levantemo-nos.

conversa 1875

Ela - Achas bem que uma mulher ande com um homem vinte anos mais velho?
Eu - Não acho bem nem acho mal. Não acho nada...
Ela - Caraças! Nem se pensares que quando ele tinha vinte anos ela ainda era um bebé?
Eu - Que raio de conversa, sinceramente.
Ela - Tinha esperança que tivesses uma resposta na ponta da língua...
Eu - E para que é que tu querias que eu tivesse uma resposta na ponta da língua?
Ela - Para quando os meus pais me perguntarem o mesmo.

1.18.2012

por gestos

Quando conheci a Sónia não consegui estabelecer contacto com ela a não ser através do olhar. Ela nasceu assim, sem ouvir e sem poder aprender a falar. Observei-a discretamente durante o resto da noite, a cortar o seu próprio e imenso silêncio com gestos mais ou menos bruscos, como se tivesse uma faca nas mãos e tentasse abrir caminho numa selva densa. Comunicava apenas com as poucas pessoas presentes que sabiam linguagem gestual, três ou quatro, e de vez em quando o irmão dela apresentava-a aos que iam chegando à festa da mesma forma que a tinha apresentado a mim. É surda e muda, dizia.
A festa devia-se, pelo menos pelo convite que me tinha sido feito, ao seu divórcio. O seu casamento tinha sido uma união violenta de quase quatro anos, e portanto o seu fim significava verdadeiramente um princípio. Era esse princípio que se festejava, embora ainda não se soubesse muito bem do quê. Talvez, pelo menos, duma vida melhor.
O irmão queria que esse princípio fosse rodeado por muitas e diversas pessoas, e por isso até a mim me pediu para participar. Eu, que era apenas um seu conhecido colega de trabalho com quem nunca trocara mais do que um "bom dia" ou "boa tarde". Às vezes podemos gostar muito de alguém com quem nunca falamos, disse ele justificando o convite inesperado.
E foi assim que me apaixonei por ela. Sem palavras e sem sons. Apenas um olhar tão profundo como um poço e um gesto tão universal como o de levar a minha mão ao peito dela. Corei. Toquei-lhe. Afastei-me e passei o resto da noite a segui-la disfarçadamente com os meus olhos nervosos.
Propositadamente fui ficando para o fim, e enquanto a porta daquele pequeno apartamento ia pingando para o exterior os convidados, eu ia ganhando espaço para o que o nosso olhar se pudesse tocar de novo, tal como a minha mão tocara no seu peito. Era o meu objectivo da noite, para depois poder adormecer aninhado nesse sentimento.
Há muitos anos que eu não dormia tão bem, que é como quem diz, tão perto dum Amor tão longínquo. No dia seguinte passei as horas do trabalho a pensar no que podia dizer ao irmão para me conseguir aproximar dela. À saída da fábrica cruzei-me calculadamente com ele e anunciei-lhe que, por coincidência, tinha começado a frequentar aulas de linguagem gestual. Era mentira, mas uma mentira inofensiva se eu começasse mesmo a fazê-lo num dos dias seguintes. Aliás, uma mentira que funcionou, porque ele convidou-me para ir lá a casa treinar com a irmã. Se eu quisesse, claro. Sorri-lhe.
Nessa mesma noite investiguei todas as possibilidades que havia na cidade para aprender a nova linguagem da minha vida. Fiz uma lista que percorri com o meu dedo indicador ao som do meu ritmo cardíaco, acabando por escolher um curso duma associação qualquer sem fins lucrativos. Inscrevi-me por email e compareci à primeira aula nessa mesma noite.
Primeiro bati à porta e ninguém abriu. Depois carreguei num interruptor e percebi, através dum vidro fosco, que uma luz vermelha se acendia lá dentro. Ouvi passos e senti a maçaneta rodar. Era ela, a Sónia, a professora. A mesma que me tinha ensinado que me podia apaixonar por gestos e na enormidade dum silêncio. Trocámos um olhar, ela pegou na minha mão e levou-a ao seu peito. Toquei-lhe, corei, entrei.

1.16.2012

pensamentos catatónicos (269)

botas de borracha

Devo dizer que detesto a palavra fashion ou, se preferirem, acho a indústria da moda e as passagens da Fátima Lopes a coisa mais imbecilóide que pode haver. A roupa e o calçado para mim são apenas isso mesmo: roupa e calçado. Ponto
O que eu me lembro de gostar de calçar, quando era a criança, é das botas de borracha que me permitiam saltar para as poças de água sem molhar as meias e os pés. A minha mãe também as adorava, mas porque eram baratas e me calçavam durante toda a  época chuvosa do ano. Lembro-me de percorrer o caminho entre a minha casa e a escola primária com as minhas vermelhas calçadas, saltando de poça em poça de água como um gafanhoto errante.
Para além das crianças, as únicas pessoas que usavam botas de borracha eram os agricultores, exactamente com o mesmo motivo de não molhar as meias nem os pés. A única diferença é que as botas deles eram pretas e as das crianças eram às cores. A Helena, por exemplo, tinha umas azuis de que nunca me esqueci. Lembro-me delas a tentarem pisar as minhas numa brincadeira do recreio.
A Helena foi a minha namorada da infância, ou seja, foi a minha namorada que nunca o chegou a ser. Lembro-me de fugir da escola com ela para andar de baloiço no parque, de dividirmos os nossos lanches pelos dois, de nos sentarmos em cima do ramo duma árvore onde planeávamos construir uma cabana que nunca chegou a existir. Depois os pais dela foram viver para Lisboa e roubaram-na de mim. Nunca mais a vi.
Um destes dias, enquanto passeava com a Raquel, vi umas botas de borracha assim, iguais às que eu e a Helena usávamos em criança. Eram as mesmas, só que em vez de estarem amontoadas numa caixa na velhinha sapataria Lé, em Aveiro, estavam numa prateleira de vidro iluminadas por dois focos como se fossem o actor principal dum filme hollywoodesco qualquer. Custavam mais de cem euros e uma adolescente gritava com a mãe hesitante para que lhas comprasse.
A Raquel disse-me que agora é normal, que as botas de borracha estão na moda e são um produto quase de luxo. Por um momento pensei na Helena e desejo, em nome das memórias da minha infância, que ela não se tenha tornado assim, alguém que anula o sentido prático e divertido da vida para se colocar numa iluminada mas entristecida prateleira de loja, que é o que a palavra fashion nos faz a todos. É por isso que a detesto. Ponto.

conversa 1874

Ela - As pessoas infelizes costumam ser histéricas de vez em quando.
Eu - Costumam?
Ela - Costumam. A histeria é uma máscara de felicidade.
Eu - Não sei se é.
Ela - Estou a falar daquela histeria festiva, em que uma pessoa faz a festa, lança os foguetes e ainda vai apanhar as canas.
Eu - Ah! Talvez...
Ela - Não é talvez, é de certeza. Eu sei porque também sou assim.
Eu - Histérica?
Ela - Sim.
Eu - Mas és infeliz, tu?
Ela - Sim, sinto-me infeliz.
Eu - Tem piada, nunca me pareceste uma mulher infeliz. Muito pelo contrário.
Ela - Lá está, isso é porque sou histérica. Tu és lento das ideias, não és?

1.12.2012

conversa 1873

(ao telefone, depois de uns minutos de conversa)

Eu - Desculpa lá interromper-te, mas estou cheio de dores de cabeça e preciso dormir. Dá para falarmos amanhã?
Ela - Dói-te a cabeça?
Eu - Sim.
Ela - Não costumas ter dores de cabeça...
Eu - Acho que é por não ter tomado café. Importas-te? Preciso dormir...
Ela - Ah! Sei que dor de cabeça é essa. Tomas um café e pronto, está resolvido.
Eu - Mas é que eu ando com a tensão muito alta e estou a tentar deixar o café.
Ela - Ah! Então não tomes. É perigoso ter a tensão alta.
Eu - Eu sei. Beijinho e até amanhã. Depois ligo-te...
Ela - Estás a despachar-me?
Eu - Não, é que preciso mesmo de dormir porque estou mal disposto.
Ela - Ah! Já podias ter dito.

1.11.2012

respostas a perguntas inexistentes (193)

amores perfeitos

Não há Amores fáceis. Por estranho que pareça também não há Amores difíceis. Os Amores são todos mais ou menos iguais. A única diferença está em que alguns Amores o são mesmo, outros não. O que torna os Amores todos iguais é o facto de cada um ser único. É nisso que são todos iguais. Não há nenhum Amor que se compare ao meu, assim como o meu também não se compara a nenhum outro. É por isso que ele não é fácil, nem difícil. É o meu Amor. Só isso.
A unicidade do Amor acaba com a ideia de perfeição, seja ela a perfeição cristã de Santo Agostinho ou a positivista de Kant. No Amor busca-se precisamente o contrário: a imperfeição. É ela que é única e é ela que tem a capacidade de nos fascinar. Por ser isso mesmo: única. A ideia absolutista de perfeição é, aliás, uma seca de todo o tamanho e por isso impossível de ser objecto de Amor.
É como se cada um de nós se apaixonasse por um lugar, porque um Amor é isso mesmo. Um lugar. Ninguém mais lá entra, nessa grandiosa imperfeição que só duas pessoas são capazes de criar. Amo-o todo, esse lugar, e é por isso que cuido dele o melhor que sei e posso, para que um dias destes não me apeteça abandoná-lo. É a minha tentativa de prolongar o Amor no tempo. Hoje, por exemplo, acordei de manhã e plantei-lhe uns Amores Perfeitos, para lhe poder chamar também isso, pelo menos em parte. Um Amor Perfeito.

1.10.2012

conversa 1872

Eu - Li no jornal que na Tailândia um homem casou com o cadáver da namorada.
Ela - Com o cadáver?
Eu - Sim. Ela morreu num acidente de viação e ele estava tão apaixonado que casou com ela já morta. É bonito, parece a história de Pedro e Inês...
Ela - Nem é mal pensado, se virmos bem.
Eu - Em que aspecto?
Ela - Pelo menos assim não se divorciam. Se o meu marido estivesse morto quando me casei com ele, tinha sido tudo muito mais fácil.

depois a Raquel chegou

Depois a Raquel chegou, sentou-se ao meu lado, e perguntou-me se eu estava bem.
Hoje, quando peguei no jornal do café para ler as gordas enquanto esperava pela torrada seca e pelo galão directo do costume, subi-o mais um pouco do que o habitual de forma a que ele me tapasse a cara. Mesmo assim quase todos me perguntaram se eu estava bem. A dona do estabelecimento que passa mais tempo na caixa a contar o dinheiro do que a atender os clientes, a empregada que passa o dia a varrer o estabelecimento com os próprios pés, o homem que vende cautelas da lotaria, a mulher que tem um cabeleireiro mesmo ao lado e vem sempre tomar café de bata vestida.
Não gosto que me perguntem se estou bem quando não estou. Ainda fico pior. A pergunta "estás bem?" só devia surgir quando o inquirido se sente de facto bem, caso contrário fá-lo ter uma noção mais intensa do seu próprio mal-estar. O "sim" não sai por ser mentiroso, o "não" não sai por ser inesperado e doloroso. Abanei os ombros a todos com um mastigado "hum hum".
A torrada lá veio, não tão seca quanto o desejado, e o galão também, não tão quente quanto o desejado. Nunca vem nada como o desejado quando o próprio dia não está a ser o que desejámos. Dobrei o jornal em dois, como se fosse possível fechar ali para sempre as más notícias sobre violência e sobre a crise económica, e dei a primeira dentada numa das tiras de pão protestando com a empregada pelo excesso de manteiga derretida.
Depois a Raquel chegou, sentou-se ao meu lado, e perguntou-me se eu estava bem. E eu respondi que sim, até porque já estava.

1.06.2012

conversa 1871

(ao telefone)

Ela - Vais ter ao café?
Eu - Vou. É só pôr um casaco e saio já.
Ela - Eu também vou só trocar de roupa. São cinco minutos...
Eu - Ah! Se vais trocar de roupa são mas é uns trinta ou quarenta minutos. Então espero mais um bocado.
Ela - Isso foi alguma boca foleira?
Eu - Não, não...
Ela - Bem, demora o tempo que quiseres mas não te arrisques a chegar depois de mim.
Eu - Então diz-me a que horas sais de casa...
Ela - Não digo nada. Não sei bem, por isso não digo. Só digo que não podes chegar depois de mim, senão fico sozinha numa mesa e não gosto.
Eu - Se chegar eu antes, fico eu sozinho numa mesa...
Ela - Claro, que é para eu não ficar.
Eu - Ah!
Ela - É preciso explicar tudo...

pensamentos catatónicos (268)

Gosto imenso de estar sozinho, no entanto detesto a solidão. Para conseguir aproveitar plenamente os momentos em que estou só, preciso de alguém que queira estar sempre comigo mas às vezes não esteja. E com quem eu queira estar sempre mas também não esteja de vez em quando. Sempre tive este problema com as mulheres, precisar muito da companhia especial duma para poder estar melhor comigo mesmo. Sozinho, queria eu dizer. Parece um paradoxo mas a sério que não é.
Outra coisa que parece é que é fácil mas a sério que também não é. O verbo querer é um dos piores para quem Ama, porque é no Amor que queremos tudo e nada ao mesmo tempo. Acho que é por isso que as pessoas gostam de ir às compras. Para se conseguir o que se quer nas compras basta ter dinheiro. Para se conseguir o que se quer no Amor não há nada que baste. A não ser, talvez, a imensa sorte de Amar alguém que compreenda isto. Compreendem?

1.04.2012

conversa 1870

Ela - O meu marido nunca percebeu muito bem o que eu queria realmente dizer quando lhe dizia que o Amava.
Eu - E querias dizer o quê? Não era que o Amavas?
Ela - Não, claro que não.
Eu - Ui! Então era o quê?
Ela - Que naquela altura me sabia bem estar com ele.
Eu - Não me digas, por favor, que as mulheres são todas como tu.
Ela - A maior parte são, acho eu.

a última sessão

Começo por lhe ver a mão. Treme de frio enquanto segura a chávena quente com chá verde fumegante, e eu finjo que não reparo. Dou-lhe dois beijos curvando-me o mais possível para ela não ter que se levantar da frágil cadeira do café. Tenho dificuldade em reconhecer a menina a quem há vinte anos atrás eu convidava disfarçadamente para ir à última sessão comigo. Hoje está um filme muito bom no Oita, dizia eu. E ela perguntava o nome. E eu, que nunca sabia, contornava a mentira dizendo que um amigo me tinha dito que o argumento era bom. Ela acreditava sempre. Ou não.
Os seus olhos demonstram alguma dificuldade em sair das covas que o tempo lhe escavou nos ossos da face. Enfrento-os. Houve uma noite em que o filme era tão mau que eu não tive como me desculpar. Enfrentei-a e ela a mim. Sorrimos um para o outro como se o nosso silêncio se explicasse a si mesmo. E o nosso Amor, já agora. Aquele filme mau tinha demonstrado que eu inventava as idas ao cinema só para estar com ela. Foi a primeira vez que nos beijámos.
Os lábios dela parecem uma represa de palavras e de beijos. Estão pintados com a mesma cor de sempre, como se o tempo tivesse conservado o batom propositadamente para um dia qualquer. Este dia, em que a torno a ver quase como que por acaso, quase como dois planetas que se tornam a cruzar depois de uma longa volta à sua estrela. Vejo-a pelo meu lado que anoitece. Pergunto-lhe se quer ir à última sessão. Ela ri-se engolindo o som do riso. Pergunta-me qual é o filme. Que não sei, respondo. Ela sacode os ombros como se quisesse enxotar os anos que passaram.
Por falar em ombros, são tão pequenos e frágeis, os dela. Não percebo como é que eu pousava ali a minha cabeça enquanto ela me abraçava. Talvez nunca a tenha pousado literalmente e ficasse sempre em esforço para não a magoar. Era mesmo isso, já me lembro. Foi dali, do ombro esquerdo dela, que os meus olhos lhe contemplaram pela primeira vez os seios, margens dum decote que corria como um rio em maré alta. Foi dali que mergulhei e me afoguei tantas vezes quantas pude, até ela me socorrer e salvar a vida numa lenta respiração boca a boca.
Não me mentiste, disse ela. O quê? E ela diz que eu não fingi que sabia que filme queria ir ver, nem fingi que um amigo me dissera que o argumento é bom. Não fingi porque já não a Amo, diz ela. Nem ela a mim, sublinho. É a nossa última sessão, este chá quente que nos provoca calafrios. É, não é? É. Sorri engolindo de novo o som do riso.

1.03.2012

conversa 1869

(ao telefone)

Eu - Temos que beber um copo um dia destes.
Ela - Dizes sempre isso mas depois nunca convidas.
Eu - Por acaso tens razão, admito que sim...
Ela - Se não me telefonares para sair neste fim de semana, nunca mais falo contigo.
Eu - Não me digas que eras capaz de deixar de falar comigo só por eu não te telefonar este fim de semana.
Ela - Está bem.
Eu - Está bem o quê?
Ela - Não digo.

batatas fritas

Costumava ver-me ao espelho antes de pensar em matar-me. E digo costumava porque o fazia todos os dias, ver-me ao espelho e pensar em matar-me. Também desistia todos os dias da segunda acção. Acho que o fazia porque era confortável não me matar sabendo que o podia fazer. Acabar, duma vez por todas, com aquilo que via ao espelho.
É que não havia muito mais para além disso, uma mulher que nunca se tinha achado bonita, nunca tinha Amado ninguém nem sequer tinha vontade o fazer. Pior, não sei se algum homem alguma vez na vida tinha tido vontade de me Amar a mim. Um dia troquei tudo por cigarros uns atrás dos outros, que é como quem diz, troquei uma morte rápida por uma lenta mas com algum prazer.
A minha mãe costuma dizer-me que eu nunca devia ter deixado o Bruno. Que ele era bom partido e até já tinha casa paga. E eu lembro-me sempre dele sair da minha cama com o pénis ainda erecto e sujo de esperma, a correr para a sala para tentar ver o final dum jogo de futebol qualquer. Não conseguiu e voltou frustrado. Para a próxima temos que ser mais rápidos, disse. Eu calei-me e fumei um cigarro, destes que ainda fumo agora, com uma vontade enorme que ele saísse dali.
Depois desse dia aprendi que a solidão e a fome são irmãs chegadas, que ambas precisam de ser saciadas rapidamente. O problema é que, numa e noutra, quando se come depressa demais há o risco duma mulher se engasgar. Engasguei-me com ele da mesma forma que já me engasguei com batatas fritas. Sei que todos os homens que vieram a seguir ao Bruno me pareceram iguais. Alguns bons à vista mas todos sem sabor. Nunca comi nenhum.
À minha mãe comecei a inventar casos amorosos, só para ela ficar descansada. Fui criando homens que se mostravam interessados por mim mas que, por um acaso qualquer da vida, acabavam por se afastar. Depois comecei a inventá-los também para mim, principalmente nas noites em que não conseguia dormir. Acreditei em todos, pelo menos até hoje. Cruzei-me com o Bruno numa avenida qualquer da cidade e ele abraçou-me. Os abraços são como as batatas fritas. Saciam. Já me tinha esquecido disso.
Vejo-me ao espelho agora sem pensar em mais nada. Sabe-me bem não querer matar aquilo que está do outro lado, mesmo que não consiga responder ao meu sorriso forçado. Ele perguntou-me se eu estava bem e respondi que sim. Trocámos os novos números de telemóvel e prometeu que me telefonava hoje. Estou à espera. Dum abraço.

1.02.2012

conversa 1868

Ela - O que é tu gostavas mesmo que acontecesse em 2012?
Eu - Acho que gostava de assistir a uma mudança política para a esquerda que pusesse um fim definitivo à pobreza e à miséria. E tu?
Ela - Bem... com essa resposta até perdi a vontade de dizer...
Eu - Vá lá, diz lá...
Ela - Eu estava a pensar que gostava que me crescessem as mamas um bocadinho.

coisas que fascinam (137)

bom ano

Está tudo bem. Encho um copo de água e encosto-me ao parapeito da janela de onde, dissimulado por um cortinado amarelecido, vejo a minha paisagem de todos os dias como se fosse a primeira vez. É que há dias assim, em que todas as mulheres que passam são o que nós imaginamos. É a vantagem de lhes perceber apenas o vulto que a distância dum quinto andar permite. E eu imago-te a ti em todas elas.
A passagem dum ano é a mesma coisa que a passagem doutro dia qualquer. Vem a noite e depois a manhã outra vez. A única diferença é que por qualquer motivo há mais pessoas a fazer promessas a si mesmas. A partir de agora não bebo mais, a partir de agora vou correr para o jardim da cidade, a partir de agora vou ser feliz ou a partir de agora outra coisa qualquer. Eu prometi que a partir de agora vou olhar para ti todos os dias como se fosse a primeira vez.
Está tudo bem. O copo de água vai a meio e ouço-te entrar. Bateste a porta com mais força do que o habitual e eu sei que foi para avisar que chegaste. Sei também que até te encontrar tenho que passar pelo corredor comprido que liga o quarto à entrada. São cerca de três ou quatro segundos, o suficiente para amarrotar todas as preocupações que tenho como se fossem folhas finas e mandá-las para um escondido escaninho da minha memória. É assim que te vejo pela primeira vez todos os dias, é assim que me percebo apaixonado por ti. É assim que te desejo bom ano.

12.29.2011

conversa 1867

Ela - O meu marido, se deixa de ter sexo durante uma semana, fica logo deprimido e triste. É vê-lo a andar cabisbaixo lá por casa...
Eu - É sinal que está vivo.
Ela - Eu também estou viva e não sou assim.
Eu - Pois...
Ela - Ao contrário dos homens, as mulheres não deixam que falta de sexo as deprima. Deixam é que as depressões as façam perder vontade de ter sexo.
Eu - Ah!
Ela - Pelo contrário, o meu marido quer sempre sexo, mesmo que esteja deprimido.
Eu - Mas isso é porque a depressão dele, segundo o que dizes, se deve à falta de sexo. A cura, portanto, só pode passar por "pinar" mais...
Ela - Lá está. Acho que é a única coisa que o deprime...

Amor, política, segredos e 2012


Ontem estive, como deputado da bancada do Bloco de Esquerda, numa Assembleia Municipal que aprovou o Orçamento e as Grandes Opções do Plano para 2012 do município aveirense. Não vos vou chatear muito com isto, mas aconteceu "por acaso" que a maioria do PSD votou a favor de um orçamento em que não se conseguiu explicar de onde se espera receber mais de 27 milhões de euros (ver imagem). Na prática, isto quer dizer que o Executivo fica com uma margem de 27 milhões de euros para realizar vendas e privatizações do que quiser sem ter que passar cavaco a ninguém, mesmo que essas vendas e/ou privatizações descapitalizem ainda mais o Estado, ou seja, todos nós. Três dos quatro deputados do CDS faltaram à sessão mais importante do ano, para assim não terem que votar nem discutir um Orçamento que é no mínimo... esquisito.
Porque é que Vos estou a falar disto? Porque hoje mesmo, na viagem matinal de comboio que fiz para o meu emprego, fui ouvindo uma discussão em que uma mulher dizia que "os políticos são todos iguais". Eu, como político, apetece-me dizer que os eleitores é que são todos iguais, porque vão votando sempre naqueles que mais os prejudicam para depois se queixarem. Ou então, pior ainda, nem sequer votarem e passarem apenas a dizer que os políticos são todos iguais. Mas sei que não é assim, que os eleitores não são todos iguais, e é por isso que não desisto de ter o meu papel político assumido. Nunca gostei de indefinições...
Sou assim na política, que é racional, mas também sou assim no Amor. Não gosto de indefinições nem de pântanos. Como na política, no Amor voto a favor ou contra o que a minha namorada diz ou faz, sempre com declarações de voto. Ela também, e ainda bem. Esse é um dos motivos pelos quais eu gosto muito dela. Muito mesmo. Entre mim e ela não há milhões escondidos para depois cada um usar como muito bem lhe apetecer. Não há segredos. É por isso que não há amuos nem divórcios.
E eu que sempre disse que na política não pode haver lugar para emoções, admito que me enganei. Pode, pode. E nós, eleitores, devíamos ser todos iguais nesta relação que temos com quem elegemos. Devíamos exigir que tudo se esclarecesse para depois não nos divorciamos a propósito duma discussão que nem sequer percebemos mas que... sentimos. Por estes tempos andamos todos, aliás, a sentir com mais intensidade.
Em 2012, já todos percebemos, vamos sentir ainda mais. É por isso que hoje Vos peço, com alguma humildade política e com toda a emoção que me liga a quem aqui passa, que dêem a mesma importância à política que dão ao Amor. É a única forma de ambos correrem bem. 

12.26.2011

pensamentos catatónicos (267)


Hoje, assim como quem não quer a coisa, comecei a fazer um desenho enquanto esperava pelo almoço, creio que uma árvore solitária junto a um caminho que desaguava na linha do horizonte. Mas acabei por fazer um gatafunho. Já não me lembro muito bem, mas acho que me desviei da ideia inicial quando me apercebi que a árvore estava a ficar desequilibrada. Pelo menos quando comparado com aquilo que eu queria. O gatafunho foi assim uma forma de eu não insistir mais num desenho que me estava a fugir da mão. Assumi o erro e aniquilei-o com uma bomba de tinta. Depois almocei calmamente.
O almoço, arroz com legumes e carne de aves, caiu-me bem. Acho que devia ter aprendido a fazer gatafunhos mais cedo na minha vida, ou melhor, devia ter tido a coragem de começar a fazer gatafunhos mais cedo. É que o Amor acaba por ser mais ou menos como um desenho a esferográfica. Não aceita emendas de ânimo leve. Quando as fazemos elas ficam lá para sempre. Notam-se, e mesmo que não queiramos, às vezes incomodam.
Depois da sobremesa tornei a olhar para o desenho e, em vez de do gatafunho, a minha primeira interpretação mental do desenho foi a de uma árvore. De novo. Não a árvore que eu queria, mas outra qualquer. Não interessa, afinal de contas era um desenho passado onde, tal como nos Amores passados, fica um bocadinho de nós, da nossa tinta e da nossa mão. Mas são para arrumar numa gaveta daquelas que não se abrem mais.
O desAmar é um processo tão legítimo como o de Amar. A única diferença é essa. A Amar desenhamos, a desAmar fazemos gatafunhos. Tentar desenhar enquanto se desAma é um erro. Pelo menos é um processo penoso. Acredita em mim.

12.23.2011

conversa 1866

Ela - O Natal é bom é para as crianças, pelo menos aquelas que acreditam no Pai Natal.
Eu - Também acho.
Ela - Se ele existisse mesmo é que era fixe... com esta crise!
Eu - Sim, se me desse um bacalhau e uma garrafa de Porto, ficava-lhe grato.
Ela - Ah! Não estava a falar dessa crise. Estava a falar da minha crise.
Eu - Qual?
Ela - O que eu pedia ao Pai Natal era uma noite de sexo.
Eu - Ah!
Ela - E tu?
Eu - Por essa ordem de ideias não lhe pedia nada, a não ser que ficasse bem longe de mim.
Ela - És sempre o mesmo.

respostas a perguntas inexistentes (192)

improviso

Nunca tive saudades da juventude. Ser adulto foi a melhor coisa que me aconteceu em quase todas as vertentes da vida, e no Amor também. Do que tenho saudades é de não contar o tempo. Não aquele que vai passando mas sim o que falta passar, esse que contabilizo atabalhoadamente por nem sequer saber quanto é. E é assim que Amo. É bom, mas também é uma pena.
Deixei de me ver ao espelho, porque na verdade nunca o fiz para me pôr mais bonito. Aliás, nunca acreditei que pudesse almejar beleza alguma. Acreditei, isso sim, que tinha toda uma eternidade para ser a estrela principal de um Amor qualquer, e por isso sempre me vi ao espelho para ensaiar gestos e palavras. Só isso, ou talvez tudo isso. Nem sei bem. Sei que foi por aí que o Amor me faltou algumas vezes. Porque o ensaiei em vez de o improvisar.
É isso que é ser adulto, saber Amar de improviso neste incontável tempo que sobra. O Amor penteia-se ao espelho devagar enquanto eu olho ansioso para o relógio da vida. Peço-lhe em silêncio que pare, que me sirva um beijo numa taça de anis. Que me canse. É por isso que o meu reflexo lhe sorri enquanto os seus cabelos dançam na tempestade de vento do secador eléctrico. É igual à minha, essa tempestade, violenta e contida. É assim que se improvisa. 

12.21.2011

lamechices

Ela pergunta-me porque é que os homens nunca falam de Amor, mas não é sobre os homens que ela quer saber seja o que for. É sobre mim. Quer saber porque é que eu nunca lhe digo que gosto dela, que a Amo ou pelo menos que eu defina verbalmente a importância dela para mim. Não sou capaz de o fazer e, pior do que isso, nem sequer sou capaz de lhe dizer que sou incapaz de o fazer. Sou homem, é isso, e portanto espero que ela adivinhe tudo o que eu sinto por ela. Não sei como, mas tenho esperança que o consiga fazer. Afinal de contas é mulher.
Ser homem é difícil porque um homem tem que parecer o mais forte a vida toda, e todos sabem que parecer uma coisa é bem mais difícil do que sê-lo. Ainda noutro dia fomos passear na praia que o Inverno limpou de gente. Ela descalçou-se e abraçou-me. Eu descalcei-me e deixei-me abraçar. Caminhámos durante largos minutos com os pés enterrados no seu silêncio, e eu sabia que ela estava à espera que eu lhe dissesse qualquer coisa. Um "Amo-te tanto!", por exemplo. Mas eu não consegui. Nunca consigo. Cheguei a elaborar uma frase qualquer com as palavras "gosto" e "sorte", mas os meus dentes bloquearam-na quando ela estava prestes a sair da boca. Demos meia volta e regressámos mais distantes, com as mãos enfiadas nos bolsos, eu com a sensação que estava a esconder o que sentia num deles. 
Foi a semana passada que me contou a história dum filme qualquer que viu na televisão, numa noite dessas em que eu fico horas seguidas sentado em frente ao computador sem concluir nada do que começo a fazer. Era sobre um homem incapaz de falar de Amor e que acabava um alcoólico solitário por causa disso. Eu percebi onde ela queria chegar mas respondi-lhe que o argumento me parecia "mais uma lamechice qualquer". Vi-a sorrir com a minha resposta mas com um sorriso triste, como se engolisse duma só vez a réstia duma esperança qualquer. E eu, que pareci mais uma vez o mais forte, na realidade senti-me mais fraco.
Agora estamos aqui num café dos subúrbios da cidade, onde algumas dezenas de pessoas preenchem boletins do totoloto como se isso lhes pudesse salvar a vida, e ela pergunta-me porque é que os homens nunca falam de Amor. Eu sei que responder pode salvar a minha vida, mas as ideias enrolam-se no meu cérebro como um áspero novelo de lã. Os olhos dela pousaram no meus como o pé dum vencedor que pisa o corpo imóvel do morto, e o meus parecem insectos à procura dum local para descansar. "Eu Amo-te", digo-lhe baixinho.  Depois concluo que não faço a mínima ideia porque é que os homens não falam de Amor. Ela levanta-se e dá-me um beijo na testa antes de sair a correr para o trabalho. Pareço mais fraco mas sinto-me mais forte.

12.19.2011

conversa 1865

Ela - Prefiro ter pouco sexo do que muito.
Eu - Porquê?
Ela - O sexo é melhor quando se tem pouco.
Eu - Ah!
Ela - Até já disse isso ao meu marido, porque por ele é "dia sim, dia não".
Eu - "Dia sim, dia não" é muito?
Ela - Então não é?
Eu - Estava só a perguntar a tua opinião. E o que é que o teu marido disse, já agora?
Ela - Disse que prefere sexo menos bom em grande quantidade do que bom só de vez em quando.
Eu - Ena!
Ela - Pois... por isso é que no Natal lhe vou oferecer um vibrador.
Eu - Um vibrador?!?!?! Mas... não era mais indicado uma boneca insuflável?
Ela - Se o que lhe interessa é a quantidade, que pegue no vibrador e o enfie onde quiser.

pensamentos catatónicos (266)

Um dos poucos pedidos que não vale a pena fazer é que alguém se apaixone por nós. Ninguém se apaixona por ninguém a pedido. Se calhar até era bom que fosse assim, mas não é. Foi uma mulher que me explicou isto, uma vez durante um café daqueles que se tomam em pé a olhar para o relógio, e embora eu já o soubesse (sabemos todos), ouvi-a como se fosse uma revelação. Há coisas que sabemos mas não praticamos até que alguém nos diga para o fazer. É como se sozinhos não quiséssemos acreditar que é assim.
O pior é que crescemos a pedir. É natural numa criança pedir sempre o objecto do seu desejo. Depois, quando chegamos a adultos, percebemos que o pedido mais importante de todos não pode ser satisfeito. Pior, se temos que o pedir já é mau sinal. O pior sinal de todos. Ela pousou a chávena, deixou moedas em cima do balcão para pagar os dois cafés e deu-me um beijo com a palma da mão, beijando-a primeiro e acariciando-me depois. Até à próxima, disse.
Nunca percebi como é que ela sabia que eu lhe ia pedir para se apaixonar por mim...

12.18.2011

conversa 1864

Ela - Uma discussão entre duas pessoas devia servir para perceber quem tem razão.
Eu - E não serve?
Ela - A maior parte das vezes não. Serve para que cada um imponha a sua razão.
Eu - Ah! Percebo o teu ponto de vista.
Ela - Às vezes, mesmo quando uma pessoa já percebeu que não tem razão, continua a insistir que tem. Principalmente entre marido e mulher, é muitas vezes assim...
Eu - Tu costumas fazer isso?
Ela - Não, não costumo. De facto só o faço com o meu marido.
Eu - Ah!
Ela - Mas ele também faz comigo.

12.17.2011

um homem na meio di homem



Lembro-me de ver uma entrevista com a Cesária Évora na televisão em que, à pergunta sobre o que lhe fazia mais falta na vida, ela respondeu que era um marido. Respondeu assim, sem hesitações. Um marido. Depois encolheu os ombros e olhou para o lado. A Cesária Évora cantava para o mundo ou, se preferirem, para todos. No entanto, o que lhe fazia falta era um entre esses todos.
Há um Amor que não pode ser dado por todos, mas apenas por um, mesmo que todos o queiram dar. É o Amor que a nossa carne quer como se fosse música. Para além dessa música que ela ofereceu ao mundo, também me ofereceu esse pensamento nesse dia. Só a mim. Obrigado.

Um homem na meio di homem
Bô ta ser nha fidjo, um dia
Oiá sô pa bem dess mundo
Luminosamente bô caminhá
Pa entrá na vida d'home
Sem medo e sem angustia
Ah sofrimento é bem certo
Ma alegria t'existi

12.15.2011

o bosão de Higgs

Hoje um homem passou por uma mulher. Quer dizer, passou por muitas pessoas na rua, num centro comercial, à porta da escola onde esperou o filho para almoçar e no gigantesco edifício onde vai fazendo intervalos na vida para trabalhar. Passou por muitas pessoas, mas agora que se afastou do mundo para poder jantar a sós com a luz da lua, e enquanto vai bebericando vinho dum copo embaciado, só se lembra duma mulher. Uma que não o olhou de frente mas talvez tenha olhado de lado, tão sorrateiramente como ele queria ter feito e não fez.
Pensando bem, talvez até tenha sido melhor assim. Ele também nunca olha nos olhos das mulheres que lhe interessam, pelo menos à primeira. Não tem coragem. Contou a história ao melhor amigo, pelo telefone, enquanto a água para o arroz branco ia fervendo, e ele não percebeu como é que uma mulher que apenas passou por ele lhe pode interessar tanto. Mas interessa, por isso é que se lembra dela e não das outras mais de mil pessoas que passaram por ele.
O Amor também tem um Bosão de Higss, uma partícula elementar à sua existência. Pode ser o olhar, por exemplo. Tudo começa à escala mais pequena possível deste mundo, até um grande Amor. E se um dia destes passar por ela de novo, talvez os seus olhos se evitem como o voo de duas moscas tontas para depois chocarem finalmente um no outro. Foi assim que se apaixonou a última vez e depois surgiram mais choques em cadeia: o dos lábios, o das mãos e o do corpo. Do corpo todo.
Hoje um homem passou por uma mulher e agora não consegue sentir o sabor do sal da comida. Nem sequer tem muita fome. Dá mais um gole no copo de vinho. Talvez um dia destes...

12.14.2011

conversa 1863

Ela - É estranho, divorciei-me mas sinto-me no auge das minhas capacidades sexuais.
Eu - É natural, tens trinta e três anos. A maior parte das mulheres começa a ser melhor na cama a partir dos trinta, mais coisa menos coisa. O divórcio não tem nada a ver com isso.
Ela - Achas mesmo?
Eu - Acho, mas é só uma opinião e vale o que vale...
Ela - Às tantas até me divorciei por causa disso mesmo.
Eu - Disso mesmo?
Ela - Sim, acho que tinha uma vida sexual frustrada, assim sem grande prazer. Agora que me sinto mais preparada não posso continuar com o mesmo namorado de sempre...
Eu - Ele não tem culpa nenhuma de ter começado a namorar contigo muito antes dos trinta...
Ela - Pois não... mas tem culpa de ter agido como um cavalo quando a mim não me apetecia nada ir para a cama com ele.

casamento

Sempre me fizeram muita confusão as perguntas do género "pensas que estás na tua casa?" ou "pensas que estás no café?". Acho que foi uma professora de português, a primeira que me perguntou se eu pensava que estava no café, quando um dia me viu com os pés estendidos em cima duma cadeira vazia. Eu respondi-lhe que não, até porque no café nunca fazia aquilo. Ela expulsou-me da aula.
Era óbvio que eu não pensava que estava no café, mas sentia-me tão bem ali como na minha casa, e por isso é que tinha estendido as pernas para a cadeira da frente. Sentia-me melhor enquanto lia Camões se estivesse ali como na minha casa, e esse é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. Eu achava-a boa professora e gostava das aulas dela. Era só isso. Era um elogio.
É também assim que se está no Amor, por exemplo, exactamente como se estivéssemos na nossa casa. Se não estivermos assim com alguém, então não é Amor. Até pode ser bom, mas não é Amor. Será eventualmente uma espécie de amizade, e então estamos como se estivéssemos no café, a pedir por favor que nos tragam uma bica e esperando que nos limpem a mesa com uma toalha antes de o servir. 
O Amor é a nossa casa, porque quando ali chegados atiramos um sapato para cada lado e andamos de meias pelo chão. O Amor é isso, estarmos sempre na posição mais confortável para o nosso corpo e alma sem que o outro pergunte onde é que achamos que estamos. É que estamos com ele, com esse Amor, e é por isso que é assim. É assim no que dizemos ou calamos, no que rimos ou choramos, no que abraçamos ou beijamos.
Foi a palavra casa que deu origem ao verbo casar (casa + ar), e é isso mesmo que é casar. Estou a dizer isto porque ontem, depois de um dia de merda, abracei a Raquel e pousei a minha cabeça no ombro dela durante alguns segundos e em silêncio. Ao mesmo tempo deixei cair a mochila e o casaco no chão do corredor enquanto me descalcei e atirei os sapatos para lugar incerto. Ela não me perguntou se eu sabia onde é que eu estava porque ambos o sabíamos. Se não for assim, até pode ser bom, mas não é Amor.

12.13.2011

conversa 1862

Ela - A vida está cada vez mais difícil.
Eu - Pois está, pois está.
Ela - O meu salário mal chega para as despesas essenciais: água, electricidade, comida, tv por cabo...
Eu - Tv por cabo?! A tv por cabo é essencial?
Ela - É, claro.
Eu - Olha, eu não tenho tv por cabo precisamente para poupar dinheiro.
Ela - Mas isso é porque vives muito tempo sozinho.
Eu - Por isso mesmo é que à partida precisaria de ter mais alguns canais de televisão.
Ela - Não, não. Não tens que fingir que estás muito interessado num programa qualquer só para não te chatearem a cabeça...

conversa 1861

Ela - Este ano não te vou dar prenda de Natal por causa da crise, está bem?!
Eu - Está bem. Para ser sincero não me lembro de me teres dado nenhuma prenda de Natal nos anos anteriores. Nem eu a ti, aliás...
Ela - E não dei. Só que este ano ia dar, se não fosse a crise.
Eu - Ah!
Ela - Pronto, está explicado.

12.12.2011

pensamentos catatónicos (265)

não estou pronto para outra

Este blogue começou porque eu sei o que é a vida desmoronar-se por causa do Amor ou, se preferirem, do desAmor. Sei o que é ouvir numa noite de sábado a frase "já não te Amo!" e conheço o sabor do copo de uísque seguinte e dos outros que se seguem a esse. Sei que é estranho aceitar que o planeta continue a girar indiferente ao nosso sofrimento, como se ele não fosse a coisa mais importante do mundo. Sei o que é não perceber absolutamente nada do que nos aconteceu e alternar, de cinco em cinco minutos, um choro  de desalento com uma raiva interior de quem se sente enganado pelo mundo.
Este blogue começou como uma estratégia de sobrevivência, uma forma de voltar à normalidade de quem já só queria voltar a conseguir dizer "bom dia" aos vizinhos. Por uma questão de justiça, e também de solidariedade com quem está a passar agora pelo mesmo que eu passei, devo dizer que só há uma pessoa capaz de ajudar realmente um desiludido do Amor, e essa pessoa é ela própria. Como mero exemplo, cabe-me ainda dizer que hoje acho que essa desilusão de Amor foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. De tal forma que não estou pronto para outra. E estou a dizer isto a alguém muito específico, porque sei como se sente, mas também a todos que o queiram entender como uma certeza de que tudo passa.

12.09.2011

conversa 1860

Ela - Foste a Marrocos este ano, não foste?
Eu - Fui...
Ela - Estiveste em algum minete?
Eu - Em algum minete?!
Ela - Sim, aquelas torres das mesquitas... disseram-me que não se pode ir a nenhuma.
Eu - Talvez queiras dizer minarete...
Ela - É isso, vai dar tudo ao mesmo.
Eu - Pois... o problema é que não vai.
Ela - Não vai?
Eu - Não... não sabes o que é um minete?
Ela - É o quê?
Eu - Tecnicamente é passar a língua no clitóris e nos lábios vaginais duma mulher...
Ela - Ah! Caraças...
Eu - O que foi?
Ela - Já sei porque é o meu amigo muçulmano com quem falei sobre isto se estava a rir...

a mulherzinha do metro de Londres



O racismo não é estúpido apenas pelo ódio gratuito que se tem a outras pessoas, mas também pela gratuitidade do seu espírito corporativista. Isto é, seria tão estúpido eu detestar alguém pela sua cor de pele, como seria eu acreditar que essa minha cor de pele pudesse constituir só por si um grupo social. Não constitui, e eu não me sinto parte de nenhum clube de brancos. Aliás, como em tudo, há brancos de que gosto e de que não gosto.
Mas a ignorância desta senhora que agrediu verbalmente 'estrangeiros' no metro de Londres, e que pergunta a si mesma onde é que o seu país chegou só por estar 'invadido' por 'pretos' e 'polacos' passa em muito esta evidência do materialismo dialéctico, ou da vida, se preferirem...
Pouca gente sabe, por exemplo, que a Etiópia (um dos países do planeta com problemas mais graves de fome entre a sua população) arrendou este ano ao Reino Unido uma área agrícola equivalente à do distrito de Lisboa durante cinquenta anos por cerca de... setecentos euros por mês (um preço abaixo do de um apartamento minúsculo no centro de Londres). Nesta área enorme, latifundiários ingleses estão a produzir soja, óleo de palma, algodão e açúcar para, imagine-se exportarem para a própria Etiópia. Por causa deste negócio que visa apenas enriquecer os bolsos de alguns, poucos, milionários britânicos, foram relocalizados pelo governo daquele país africano cerca de quinze mil etíopes que viram a sua pobreza extrema ainda mais agravada.
É possível que alguns desses etíopes se vejam obrigados a deixar os seus lares e tenham que emigrar para Londres onde, apesar de escravizados num emprego de merda qualquer, sempre vão arranjando qualquer coisa para comer. É possível também, claro, que um desses etíopes encontre depois no metro um mulherzinha destas, alguém que se irrita com a presença de pessoas doutra cor e se ache no direito de as ofender. É tudo possível...
É claro que esta mulherzinha é mesmo só isso, uma mulherzinha, da mesma forma que eu sou um homenzinho. Temos isso em comum, somos tão insignificantes que a única coisa que nos une é podermo-nos cruzar um dia destes no metro de Londres sem sabermos o que o outro pensa, a não ser que um de nós decida levantar a voz. Eu, ela ou um etíope qualquer...

ver reportagem no The Guardian
opinião n'A Ilusão da Visão

12.07.2011

conversa 1859

Ela - Há homens que não sabem mesmo beijar.
Eu - Há?
Ela - Há. Parecem aspiradores de alta potência.
Eu - É por isso que estás com esses 'chupões' na cara?
Ela - É.

a máquina de fazer pipocas

Ainda não fiz a árvore de Natal e talvez até nem faça. Não gosto que tenham pena de mim, e aquelas bolas e fitas que ficam a colorir a minha casa despovoada fazem-no exactamente por pena. Toma lá um bocadinho de cor nessa tua vida cinzenta, ouço-as pensar quando vou à sala buscar um uísque para voltar imediatamente para o quarto. E ignoro-as da mesma forma que ignoro o olhar dos passageiros do autocarro que me vêem sentar todos os dias num dos cantos lá atrás. Passo pelo meios deles para depois me isolar e, agora que penso nisso, tem sido assim toda a minha vida amorosa.
Talvez eu seja mesmo assim, nem carne nem peixe, como a minha avó costumava dizer. Na verdade, de todas as pessoas que conheço sou a que me conheço pior. Sou capaz de adjectivar toda a gente menos eu próprio. Não é triste, só que também não é alegre. Não é nada. É respirar involuntariamente entre uma casa e um emprego. A minha avó também costumava dizer-me que eu tinha que arranjar uma mulher. Tinha razão, ao mesmo tempo que não tinha. As mulheres não se arranjam. São elas que nos arranjam a nós, homens. Nunca nenhuma me arranjou.
Da janela do meu quarto vejo o mundo. A solidão num muro despenteado por cacos de vidros afiados, numa  cortina que se abre para se fechar imediatamente a seguir, num rapaz de capucho que joga sozinho à bola contra a parede duma garagem e na mulher que já espera pelo mesmo autocarro que eu também vou apanhar daqui a mais uns minutos. Está ali há cerca de meia-hora, a rodar o guarda-chuva de riscas vermelhas e brancas como se fosse a Mary Poppins num cinzento dia de chuva. Faz todos os dias o mesmo, desperdiçando o tempo a colorir uma rua vazia e cinzenta com aquelas cores riscadas.
O uísque promete sempre mais do que dá. Promete afogar a nossa solidão e nunca o faz, por isso é que nunca tenho forças para lavar o copo e agora acumulo mais um no balcão da cozinha. É o décimo, mais copo menos copo, que terei que lavar de enfiada um dia destes, quando já não tiver mais nenhum limpo e seco. Visto o casaco e saio.
Lá está ela, a Mary Poppins, a rodar o guarda-chuva que chuta os pingos de água como se fosse uma máquina de pipocas. Ponho-me a três metros dela para não ser atingido, mas ela dispara algo bem mais potente. Boa tarde, diz. E eu, que não queria que o dia chegasse sequer a conhecer-me a voz, respondo encolhido em mim mesmo. Boa tarde, cuspo. O autocarro também cospe, exactamente com a mesma vontade, dois ou três passageiros pela porta de trás. Eu entro pela da frente e percorro-o para depois me aninhar num dos cantos.
Sinto-lhe o cheiro. A Mary Poppins senta-se perto e estende o guarda-chuva molhado na única cadeira entre nós, virado para mim como se quisesse atingir-me com aquelas cores que violam o cinzentismo pacífico de mais um dia de Dezembro. Que está frio, diz. Que está chuva, diz. Que as nuvens não se vão embora, diz. Diz tudo o que não me interessa a mim nem a ninguém, mas que me obriga a responder com um "hum, hum..." controlado. 
Ela sai, como habitualmente, uma paragem antes da minha. Fico a desejar que amanhã se torne a sentar ao meu lado. Talvez até eu próprio vá mais cedo para baixo e fique a ser bombardeado pela sua máquina de fazer pipocas. Ainda não fiz a árvore de Natal, é verdade, mas talvez a faça um destes dias.

12.06.2011

conversa 1858

Ela - Este ano não vou comprar prendas de Natal a quase ninguém, que não há dinheiro. Compro uma ao meu filho e pouco mais.
Eu - Eu também só vou comprar uma à minha filha e outra à minha namorada. Mais nada. Por um lado até é bom, que é um alívio não ter que andar nas compras.
Ela - Mas às compras eu vou na mesma, que há sempre umas prendas que tenho que dar a mim mesma.

12.02.2011

respostas a perguntas inexistentes (191)

castanhas
Senti a falta de um copo de jeropiga com as catorze castanhas assadas que comprei hoje na rua. É sempre assim: a senhora diz-me que são dois euros a dúzia e depois põe-me catorze num papel de jornal dobrado enquanto se queixa que o negócio vai mal. Hoje perguntei-lhe porque é que não põe o preço de dois euros por cada catorze, já que é o que ela vende de facto e talvez melhorasse o negócio. "Se eu fizesse isso, depois tinha que pôr dezasseis no pacote. É tão desconsolador não levar uma castanhinha a mais...", respondeu.
Gosto mais desta senhora hoje do que ontem, e também gosto mais dela do que das promoções tipo "leve dois, pague um" das grandes superfícies. Esta senhora sabe que a nossa felicidade depende da nossa expectativa, ao contrário de quem vende brindes de plástico em bolas ou pacotes opacos para ninguém ver o que está lá dentro. Os ovos kinder, por exemplo, ou as bolinhas de plástico que se abrem em dois, são máquinas de desiludir crianças. Prometem muito e dão pouco.
O mundo divide-se em dois: os que dão mais do que prometem e os que prometem mais do que dão. Os Amores também. Devíamos todos aprender a prometer menos. E esta é a minha homenagem sincera à senhora das castanhas, pelo mundo, e àquela que eu Amo, pelos Amores.

conversa 1857

Ela - Queria mesmo que esta nova relação me corresse bem...
Eu - Há-de correr, não te preocupes. De qualquer maneira é sempre preciso ter cuidado com a expectativa.
Ela - Com a expectativa?!
Eu - Sim, no princípio é preciso não pôr a expectativa muito alta, para depois não sofrer dissabores amorosos muito grandes.
Ela - Ah! O meu problema se isto correr mal nem é bem o dissabor amoroso.
Eu- Não?
Ela - Não. É que quando estou sozinha passo muito tempo em casa e engordo. Foi o que me aconteceu da última vez que me separei.

respostas a perguntas inexistentes (190)

O que fica por fazer

Às vezes Amar dá-me medo, principalmente quando me despeço de quem Amo e atravesso a rua dizendo-lhe adeus. Fico a vê-la desaparecer na primeira curva e a distância entre nós ganha peso. Ela vai de carro e eu a pé, sempre em direcções opostas. É quando me apercebo que um eventual fim desse Amor seria como uma amputação duma parte qualquer do corpo. Um braço ou uma perna, por exemplo. Seria consistente, seria físico.
Depois caminho contando os passos. É o que eu faço sempre que tenho medo: invento uma coisa inútil para fazer. Da casa dela ao primeiro semáforo são cerca de duzentos e vinte passos, e é nesse semáforo que deixo de os contar. Fico a ver os automóveis impacientes pela mudança de cor e lá dentro só estão pessoas sós. Algumas irão trabalhar, talvez a maior parte, e percebo que a normalidade é afastarmo-nos uns dos outros. Alívio.
Foi com esse alívio que hoje me detive perante o verde para peões e o vermelho para os automóveis. Fiquei a ver a condutora do primeiro carro da longa fila de automóveis que ali se forma de cada vez essa combinação de cores se dá. Fumava um cigarro nervoso, abria a porta do veículo e tornava a fechá-la como se estivesse estragada. Depois direccionou o espelho retrovisor para se pentear com os dedos. Quis acreditar que ela vinha de uma despedida apressada e que por isso ainda tinha tudo por fazer: fumar, fechar a porta e pentear-se.
É isso que é uma despedida entre duas pessoas que se Amam: o Amor e a vida que ficam por fazer. Não é medo. Ainda bem.

não venhas tarde



Quantas vezes fazemos asneiras irreversíveis no Amor? Poucas, porque a irreversibilidade é isso mesmo: basta acontecer uma vez. Se há coisas que quando se partem nunca mais voltam a ser as mesmas, o Amor é definitivamente uma delas, e este fado do Carlos Ramos é genial por causa disso. Porque é fado, e porque sabe que a angústia de quem é esperado é às vezes maior do que a de quem espera. Pelo menos se essa irreversibilidade estiver iminente...

Não venhas tarde,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde,
Do que me pedes baixinho.

Não venhas tarde,
E eu peço a Deus que no fim,
Teu coração ainda guarde,
Um pouco de Amor por mim.

Tu sabes bem,
Que eu vou para outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer.

Tu estás sentindo,
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer sorrindo,
Meu Amor, não venhas tarde.

Não venhas tarde,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde,
Na fogueira do ciúme.

Não venhas tarde,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela.

Tu sabes bem,
Que eu vou para outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer.

Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
Meu amor, não venhas cedo.

Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde de mais.

11.30.2011

respostas a perguntas inexistentes (189)

dar uma foda
"Dei uma foda" é a pior maneira de dizer que se fodeu com alguém, mas há quem o faça. O verbo "dar" é um verbo merdoso para usar no Amor e no Sexo que, digam o que disserem, têm muito em comum e ainda bem. Não é que foder e Amar seja a mesma coisa, porque não é, mas que uma coisa implica a outra lá isso implica. Pelo menos enquanto houver força na verga.
O problema disto é que o verbo "dar" é um verbo padreca, ou seja, é um verbo próprio da desigualdade e, portanto, da misericórdia. Alguém dar uma coisa a outro quer dizer que alguém tinha a mais do que o outro. No Amor isso é mentira. Pelo menos no Amor a sério, aquele em que o Sexo tem um fade out de quinhentos beijos enquanto o tesão amolece com o entardecer. No bom Sexo fode-se mas nunca se dá uma foda.
Depois sobra o défice de quem dá. Quem dá uma esmola na rua a um pobre raramente percebe que do outro lado está uma pessoa, ou seja, uma vivência. É por isso que considera o verbo "dar" adequado à situação. É esse o défice do benfeitor e o riso de quem recebe. Mas "dar" é o verbo mais estúpido do mundo, porque também é o mais hipócrita e mentiroso. Ninguém dá nada a ninguém. Na melhor das hipóteses redistribui, e portanto repõe alguma justiça no mundo mundo, ainda que pouca. É assim na Economia, em que há ricos e pobres. Não é assim no Amor, em que só há ricos.
Na Economia, de facto, dá-se uma foda. No Amor fode-se.

conversa 1856

(na minha casa, comigo a encher o copo de vinho dela)

Ela - Não enchas tanto. Isto não é um tasco.
Eu - É a minha casa, o que vai dar mais ou menos ao mesmo.
Ela - Mas põe menos. Não gosto de copos tão cheios...
Eu - O.k.


(uns minutos depois, com ela a encher o meu copo)

Eu - Podes pôr mais um bocadinho? Isto aqui não é um hotel de luxo.
Ela - Estás a chamar-me dondoca?
Eu - E tu estavas a chamar-me tasqueiro, há bocado?
Ela - Estava. É o que tu és, a pôr vinho no copo até transbordar...
Eu - E tu?! a pôr umas gotas que nem para um gole decente chegam...
Ela - Achas que isto significa que entre nós os dois nunca poderia haver nada mais do que uma amizade?
Eu - Acho, definitivamente.
Ela - Pelo menos acertámos em alguma coisa. Nunca namorámos...
Eu - Sim... se bem que és uma amiga esquisita.
Ela - Esquisita porquê?
Eu - Estás sempre sóbria, séria e nunca abraças ninguém...
Ela - Tu é que és um bêbado. Sempre corado e a cantar o fado...
Eu - É só à noite. Tu é que nem à noite...
Ela - Bem... achas que a personalidade de cada um tem a ver com a maneira como enche o copo de vinho?
Eu - Tem, claro que tem.
Ela - Pois, deve ter. Ainda bem que somos amigos apesar das nossas diferenças...
Eu (abraçando-a) - Claro que sim.
Ela - Mas não me toques. Chega para lá que já cheiras um bocado a vinho...

11.29.2011

conversa 1855

Ela - Era tão bom que os homens percebessem que nem sempre que uma mulher ralha com um homem é por estar zangada com ele.
Eu - Então é porquê?
Ela - Porque precisa, obviamente.
Eu - E como é que se distingue quando ela está zangada e quando não está?
Ela - Não distingue.
Eu - Então como é que um homem pode perceber?
Ela - Não pode, mas era bom que bom que pudesse. É só o que eu estou a dizer.

dores de cabeça

Reza a História que a mulher inventou a enxaqueca para as noites em que não lhe apetece ter sexo. Se não for a História a rezar, vá lá, que é pelo menos um mito doméstico todos concordam. A Emami, uma marca de pastilhas medicinais vai mais longe, e acha que as mulheres também inventaram as dores de cabeça dos homens. Para tal utilizam a sua mais usual forma de persuasão: o grito. Não sou eu que o digo, é a Emami.

coisas que fascinam (136)

Amanheci um dia destes antes da própria manhã. Quando isso acontece sei que não consigo voltar a anoitecer, pelo que costumo aquecer um copo de leite no microondas e bebê-lo devagar à janela da cozinha enquanto furo a negritude da noite com os meus olhos afiados. Já sei que lá fora alguns candeeiros públicos iluminam as ruas despovoadas e que o vento brinca com o lixo que se vai acumulando na curva da estrada. E é assim que tento descobrir o porquê da minha manhã serôdia.
Desta vez acrescentei um shot de uísque ao leite e uma música ao silêncio, como se já soubesse que tinha sido a saudade a despir-me os lençóis e acordar-me extemporaneamente. Ela e o facto de ter adormecido sem lhe enviar uma mensagem a dizer-lhe que gosto dela. São repetitivas, essas mensagens, mas por isso é que são importantes. É como se a repetição se renovasse de cada vez que nasce o dia. É por isso que quando as envio a meio da noite fico à espera que amanheça, que é como quem diz, à espera que ela acorde.

11.25.2011

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher

Hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, e não me lembro de nenhuma maneira melhor de o celebrar do que dizendo à Raquel que a Amo. Só.

conversa 1854

Ela - Conheces alguém que precise de um candeeiro de pé alto?
Eu - Assim de repente não sei.
Ela - É que eu comprei um, mas como já tinha outro ainda em bom estado estou a dá-lo. Não o quero pôr no lixo.
Eu - Mas compraste um quando já tinhas outro?
Ela - Sim, qual é o problema? Apaixonei-me por um que vi numa loja, não resisti e comprei-o. No fundo é o mesmo que já fiz com homens.
Eu - Com homens?
Ela - Sim. Apaixonei-me por um novo, tive que dar o que já tinha em casa. Há sempre quem precise, principalmente se estiver em bom estado.

os indignados

O "vai-se indo" é uma instituição portuguesa. Basicamente quer dizer que não se está a ir para lado nenhum, mas está a ser-se levado por alguma coisa para um sítio qualquer. Talvez pela vida e para a morte. O "vai-se indo" é desistência de optar, de querer e de mudar. É o fim antes dele mesmo.
O "ir indo" é a repetição do mesmo verbo em dois tempos diferentes, sendo que acaba sempre com o gerúndio "indo". É uma pescadinha de rabo na boca em que um verbo auxiliar se auxilia a si mesmo.
Os portugueses devem ser os melhores do mundo a "ir indo". Vamos indo no emprego, vamos indo no Amor, vamos indo na vida. Por isso é que nunca vamos a lado nenhum a não ser onde nos levam.
Os polícias portugueses raramente percebem que fazem parte dos que "vão indo", e só por isso é que reagem de forma abrupta contra quem se indigna com esta forma de contornar a vida durante uma vida inteira. E esta é a minha homenagem sincera a todos os que se indignam, porque é por eles que a vida passa.

11.22.2011

conversa 1853

Ela - Nunca tive um namorado durante muito tempo porque sempre gostei de viver sozinha. Detesto dividir o espaço que habito com mais alguém, percebes?
Eu - Percebo perfeitamente. Nunca puseste a hipótese de ter um namorado que vivesse noutra casa?
Ela - Claro que sim, mas quando se é novo chega sempre a altura em que o homem quer juntar os trapos... e eu nunca quis.
Eu - E a coisa falhou sempre por causa disso, certo?
Ela - Sim, mais ou menos. Mas eu sempre quis dividir a minha com alguém. O que não quis dividir foi a minha casa.
Eu - Ah!
Ela - Cheguei a propor a um gajo por quem estive loucamente apaixonada, quando eu tinha aí uns vinte e cinco anos, que alugássemos apartamentos um ao lado do outro. Mas ele não quis...
Eu - E agora com quarenta, ainda pensas assim?
Ela - Agora tenho cinco gatos a viver comigo. São os homens que não querem viver comigo...

respostas a perguntas inexistentes (188)

O Amor é o caminho mais difícil que todos teimamos percorrer. Nunca percebi muito bem porquê, até eu próprio o ter feito. Dei um pontapé numa pedra que se enfiou num buraco de esgoto e disse a mim mesmo que "mulheres, nunca mais". Continuei a andar e realmente tudo se tornou mais fácil, só que sem piada nenhuma. Sem uma mulher não consigo fazer nada de mim, a não ser pontapear pedras para os buracos de esgoto. E esse, convenhamos, é um caminho sem interesse.
Ainda bem que o fiz, de qualquer maneira. Foi a pontapear pedras que me apaixonei, quando uma delas falhou o alvo e foi bater nos pés duma mulher. Pedi-lhe desculpa pelo meu passatempo estúpido de pontapear pedras para buracos de esgoto e ela sorriu. "Que coincidência", disse. "É o que eu ando a fazer".
Dei-lhe a mão e um beijo e começámos a caminhar os dois. Até hoje, sempre a desviarmo-nos das pedras daqueles que escolheram o caminho mais fácil.

11.21.2011

conversa 1852

(no café, eu a voltar da casa de banho)

Eu - Pedi mais uma cervejinha. Vamos embora depois, está bem?
Ela - Pediste mais cerveja?! Eu não queria mais. Já bebi o suficiente...
Eu - Não faz mal. Só pedi para mim...
Ela - Só pediste para ti? És dum egoísmo puro.
Eu - Mas ainda ainda agora disseste que não querias mais...
Ela - Uma coisa é eu não querer mais , outra coisa é tu te esqueceres de pedir uma cerveja para mim.
Eu - Não me esqueci. Foi de propósito que não pedi outra. Calculei que não queria mais...
Ela - Deixa-te de fazer cálculos sobre mim, está bem? Só te peço isso...

pensamentos catatónicos (264)

Ninguém de nós nasce a conseguir apaixonar-se ou a Amar tal como o faz depois de crescer. Há, portanto, uma primeira vez em que isso nos acontece. Olhando para trás, não me lembro da linha de partida do verbo Amar na minha vida. Perdeu-se, tal como um  farol que se apaga no denso nevoeiro do mar. 
Olhando para a frente, no entanto, consigo adivinhar que a meta será a minha morte. Pelo menos é o que eu desejo, para que nunca morra antes de morrer. O Amor tem esta certeza de ser o oposto do trabalho em tudo, até na idade que lhe desejamos para a reforma. E hoje, enquanto ouvia uma amiga falar sobre a forma como pensa investir na sua carreira profissional, pensava em como eu tenho preferência que o Amor me corra bem. O resto não é bem viver. É sobreviver.

11.18.2011

conversa 1851

Ela - Como é que se Ama uma mulher que não quer ser Amada?
Eu - Não percebo. Estás a falar de quem?
Ela - Sei lá. Talvez de mim.
Eu - Mas quem é a mulher que não quer ser Amada?
Ela - Sou eu.
Eu - Se não queres ser Amada, qual é o problema em não saber como?
Ela - Eu não quero ser Amada, mas queria querer.
Eu - Desisto.
Ela - Desistes de quê?
Eu - De ter esta conversa. Por favor, poupa-me.
Ela - Estás a ver?
Eu - Estou a ver o quê?
Ela - Não consigo manter uma conversa com ninguém.
Eu - Também não ajudas.
Ela - Era o que eu estava a dizer.
Eu - Socorro.
Ela - O que é que foi? Sou assim tão chata?
Eu - Não és chata, és confusa.
Ela - Nunca foste uma coisa que não querias ser?
Eu - Já. Empregado duma fábrica a ganhar mal como o caraças, por exemplo.
Ela - Estava a falar de Amor. Nunca te sentiste indeciso no que querias ser ou não?
Eu - Sei lá.
Ela - Pronto, é isso.

11.17.2011

conversa 1850

Ela - Cortaste o cabelo!
Eu - Cortei.
Ela - Ainda bem. Já estavas com umas guedelhas que não te ficam nada bem.
Eu - Pois estava.
Ela - Mas assim tão curto também não te fica lá muito bem, para ser sincera.
Eu - Então o que é que sugeres?
Ela - Talvez... talvez... sei lá. Não faço a mínima ideia.

só um desabafo

Há uma imensa pequenez na grandeza de tudo o que achamos grande. Na literatura e na música, por exemplo, onde sempre que alguém me pergunta se eu já li ou ouvi uma merda qualquer de que nunca ouvi falar na minha vida, apetece-me responder-lhe que não faz ideia da quantidade de coisas que há para ler e ouvir. Seria uma coincidência enorme eu ter lido ou ouvido exactamente essa merdice por que me perguntam. Ou coincidência, ou então uma cedência desgastante às montras das livrarias e discotecas que me irritam por serem sempre iguais umas às outras.
A imensa grandeza do que já fizemos ou deixámos de fazer só tem lugar no Amor, onde por isso nunca perguntamos a ninguém se já Amou este ou aquele. Talvez fosse interessante viver num mundo assim, com o João a perguntar-me se eu já Amei alguma vez a Clara de Sousa ou a Paula Moura Pinheiro e eu pudesse responder: "A Clara de Sousa está na minha mesa de cabeceira, à espera que eu acabe de Amar a Uma Thurman, mas da Paula Moura Pinheiro nem ouvi falar". Mas não vivemos. O Amor é tão mais grande quanto mais pequeno for, para que possa ser só nosso.
E ainda bem que o Amor é pequeno. Só assim é que pode caber num automóvel estacionado num lugar ermo a meio da noite, numa cama de solteiro onde já estão duas pessoas ou num elevador que avariou e ainda espera pelo técnico. Ainda bem que é tão pequeno que é capaz de se infiltrar nesses lugares em forma de beijo ou sexo, e é nessa gratificante pequenez que tentamos aconchegar a nossa vida o maior espaço de tempo possível. Ainda bem que o grande cabe no pequeno ou o maior no menor.
Vi hoje duas pessoas enxovalharem outra em público, tratando-a como ignorante porque ela ainda não tinha lido um livro qualquer daqueles "obrigatórios". A ignorância está, digo eu na minha imensa pequenez, em não perceber que o mundo é demasiado grande para que um só livro possa ser obrigatório, e que o Amor é demasiado grande para que um enxovalhamento público possa ter lugar. E é só um desabafo...

11.16.2011

amor entre zombies

Vou fazer um filme com zombies. Não tenho dinheiro para grandes produções, por isso vou fazê-lo com a ajuda de voluntários e com muita animação. Muita mesmo.

respostas a perguntas inexistentes (187)

7do elogio da comparação ao elogio sem comparação 

As mulheres não gostam de ser comparadas a nada. Nem como ofensa, nem como elogio. Nada. Preferem sempre a autenticidade, embora às vezes finjam que não. Quando fingem que não e sorriem a uma comparação elogiosa qualquer, na verdade não estão senão a chamar estúpido ao homem que a faz. Estão a divertir-se em silêncio, portanto.
Um homem como eu demora muitos anos a perceber isto, e vai fazendo-o durante a vida como se estivesse a atalhar caminho no jogo da sedução, até um dia perceber que nunca seduz ninguém. A razão pela qual o faz durante tanto tempo é simples: um homem gosta sempre dum elogio, seja ele qual for. Chega até a gostar dos elogios que não compreende, desde que lhe pareçam como tal.
Quando um homem diz a uma mulher que ela tem a irreverência da Amy Winehouse, o olhar profundo da Mayra Andrade ou a simplicidade da Scarlett Johansson, não está senão a meter a pata na poça. A mulher quer sempre ser ela mesma. Por outro lado, um homem fica tão feliz se for elogiado pela força do Sylvester Stallone como pelo humor profundo do Woody Allen. Vai dar ao mesmo, desde que seja um elogio.
Um homem sente-se bem se for o melhor, uma mulher sente-se melhor se for única. É essa a diferença e é esse o encanto delas. É que ninguém é melhor do que ninguém mas todos nós somos únicos em alguma coisa, nem que seja por sermos aquilo que mais ninguém é: nós. Um homem vive, portanto, bem com a mentira que o coloca no topo do mundo. Uma mulher só pede que se a descubra. Às vezes é difícil, mas é sempre possível.

conversa 1849

(no café)

Ela - É verdade que adoptaste um gato?
Eu - É.
Ela (rindo) - Ainda bem. Sempre passa a haver um gato para ver quando eu for a tua casa.
Eu - Ahn?!
Ela - Não percebeste?
Eu - Não.
Ela - Estou a dizer que tu não és gato.
Eu - Claro que não sou gato. Já sei isso há muito tempo. Sou homem.
Ela - Passou aqui alguma gaja boazona?
Eu - Já passaram várias.
Ela - Ah! É que estás com uma enorme incapacidade de raciocínio.

11.14.2011

conversa 1848

Ela - Estás todo arranhado.
Eu - Foi o meu gato.
Ela - O teu gato?
Eu - Sim. Estava ao meu colo, um cão começou a ladrar lá fora, ele entrou em pânico e arranhou-me todo.
Ela - E eu a pensar que tinhas tido uma noite louca de sexo.
Eu - Credo! Isso dá medo! Achas que um gajo estar a sangrar é por ter tido sexo?!
Ela - Sabe tão bem espetar as unhas na carne dum homem...
Eu - Hum... acho que no Natal vou-te oferecer um cartão, daqueles para gatos, para poderes arranhar.
Ela - Se me ofereceres isso, garanto-te que nem sequer precisas de ter sexo comigo para eu te aleijar.

11.11.2011

conversa 1847

Ela - Gosto de dias místicos como o de hoje.
Eu - Hoje é um dia místico?
Ela - É dia onze do mês onze do ano onze. É uma data só com onzes...
Eu - O ano não é onze, é dois mil e onze. É um bocadinho forçado dizer que a data só tem onzes.
Ela - Tens a mania de tirar a piada a tudo, não tens?
Eu - Tirar a piada?! Só te estava a informar que estás dois mil anos atrasada na contagem do tempo. Às vezes pode ser-te útil...
Ela - Pronto, já me estragaste a manhã.
Eu - Pelo menos foi só a manhã, não foi o dia todo. É que sendo um dia místico, era chato estragá-lo todo...
Ela - Opá! Saí de casa tão bem disposta, com uma sensação tão boa. Sabia que não devia ter vindo tomar café contigo.
Eu - Se sabias é porque realmente há qualquer coisa de místico no dia. Adivinhaste e tudo...
Ela - Cala-te um bocado, senão entorno-te o meu copo de água em cima.
Eu - Que agressividade latente! Mas o que é que eu fiz?
Ela - Tiraste a piada toda a tudo. Eu andei a ler sobre numerologia por causa disto e podíamos ter tido uma conversa interessante sobre o tema. Mas não, tu nunca deixas...
Eu - Mas se nem sabias em que ano estamos, ainda querias falar sobre numerologia?!
Ela - Socorro! Gosto muito de ti mas às vezes cansas-me.

conversa 1846

Ela - Nota-se muito que eu sou uma solteirona?
Eu - Porque é que perguntas isso?
Ela - Hoje fui ao mercado comprar fruta e o raio da vendedora disse-me para eu levar mais maçãs para fazer doce, a ver se arranjo homem com esse doce...
Eu - Ah! Isso foi só para te vender mais maçãs.
Ela - Mas nota-se muito ou não?
Eu - Quer dizer... sei lá se se nota ou não.
Ela - Pronto, estou lixada. Nota-se! Está escrito na tua cara que se nota.

respostas a perguntas inexistentes (186)

As pilhas gastaram-se
Só nos costumamos aperceber do Amor quando nos apaixonamos, não quando nos desapaixonamos. Acho eu que é assim porque nos apaixonamos sempre de um momento para outro, enquanto nos costumamos desapaixonar devagar. Tão lentamente que nem damos por ela. Aliás, o maior perigo do Amor, ou da falta dele,  é esse: não nos apercebermos que nos desapaixonámos.
Um amigo meu desapaixonou-se e deu por ela. Aconteceu tão depressa quanto eu me costumo apaixonar, ou seja, deitou-se apaixonado e desapaixonou-se durante o sono. Foi isso, pronto. Nessa manhã, ainda na cama, fez uma declaração de falta de Amor à mulher. "Olha, não sei porquê mas deixei de te Amar esta noite". E ela, para seu enorme espanto, percebeu-o. Sorriu e disse-lhe que então o melhor era divorciarem-se. Os dois tomaram o pequeno-almoço com uma estranha sensação de felicidade, olhos nos olhos. Foi sorte, portanto. Os dois deram-se conta ao mesmo tempo da falta de Amor entre ambos.
Tem piada. Sempre pensei que um Amor só pudesse acabar assim, de um momento para o outro, por causa de outro Amor ainda maior. Mas não, também pode acontecer que ele se esgote por si só. Foi o que eu lhe disse quando ele me contou o sucedido. É o Amor que acaba no nada, como se fosse uma pilha gasta. E ele concordou acenando com a cabeça. "As pilhas gastaram-se", disse.

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O deve e o haver
Admiro as mulheres em geral e é por isso que preciso de me apaixonar. Admirar uma em particular é conseguir materializar aquilo que a generalidade não permite. O Amor também é isso, uma admiração, e eu gosto de viver admirado.
O que mais me admira, aliás, é que com as mulheres que já tive a sorte de particularizar alguma coisa, fiquei sempre com a sensação de ficar a ganhar na relação entre o deve e o haver. As mulheres dão muito mais aos homens do que os homens dão às mulheres. A mulher mais egoísta do mundo, no Amor é sempre uma mãos-largas. O homem mais mãos-largas do mundo, no Amor é sempre um pouco egoísta. Não é de propósito. Creio que é defeito, pelo menos no meu caso. Ainda hoje acho isso. 
Há uns dias, assim como quem não quer a coisa, e talvez porque a consciência me pesasse, disse-o àquela que Amo. Ela respondeu-me que o Amor só se dá quando ambos ficam a ganhar. Tem razão. O Amor é como um gerador que fornece um motor de corrente contínua. Converte-se a ele mesmo em energia mecânica e eléctrica. Quando deixa de o fazer é porque as pilhas se gastaram. E os motores só demoram um segundo a parar...

11.10.2011

pensamentos catatónicos (263)

Por favor, esquece-te de mim nesse dia...

Adoro que não se lembrem de mim no meu aniversário. O melhor que me pode acontecer nesse dia é passar pelo meu melhor amigo e ele perguntar-me como é que ando, dar-me uma pancadinha nas costas e perguntar-me se tenho tempo para um café. Sempre sem me dar os parabéns por uma coisa para a qual não contribuí nada, que foi ter nascido nesse dia. Nascer num dia qualquer é fruto da lei das probabilidades. Mais nada.
Ontem mesmo jantei com uma amiga minha que interrompeu a refeição para enviar os parabéns a um amigo comum. O telemóvel alertara-a para o aniversário dele através dum software qualquer.


- Olha, o António faz anos hoje. Não lhe queres mandar os parabéns?
- Não, não quero.
- Estás chateado com ele?
- Não, não estou. É um bom amigo.
- E não lhe dás os parabéns?
- Não. Não sabia que ele fazia anos hoje...
- Mas agora já sabes. Eu tenho as datas de aniversário dos meus amigos todos no telemóvel. Assim não me esqueço nunca de ninguém.
- Por favor, esquece-te de mim quando for a minha vez... - pedi-lhe entre uma garfada cansada e um gole ansioso no copo de vinho.

Tenho o respeito suficiente por todos os meus amigos para não andar a fingir que decorei a data de nascimento deles. Não decorei nem lhe dou importância, e também não dou importância a que alguém se lembre de mim por causa duma base de dados num telemóvel ou num computador qualquer.
E não é o simples hábito de cumprir uma suposta obrigação que me chateia. O que me incomoda é alguém poder pensar que eu fico feliz porque uma máquina o fez lembrar-se de mim. Por favor, esqueçam-se de mim nesse dia. Se por acaso nos cruzarmos por aí, estou sempre disponível para um café.

11.08.2011

conversa 1845

Ela - Gosto tanto do teu blogue.
Eu - Do "Não Compreendo As Mulheres"?
Ela - Sim, és um homem encantador.
Eu - Obrigado. Sinto-me lisonjeado.
Ela - És um homem encantador no blogue. Eu, infelizmente, conheço-te pessoalmente e a mim não me enganas tu.

coisas que fascinam (135)

És tão bonita

Tive uma namorada que me pedia constantemente que lhe dissesse que ela era bonita. Sempre me pareceu que ela patinava insegura no meu silêncio sobre aquilo que mais me atraía nela, e por isso obrigava-me a dizê-lo. E eu dizia-o, apesar de forçado e pouco convincente. Não é que ela não fosse bonita, porque era. O problema era ela nunca perceber que o meu silêncio era a maior homenagem a essa beleza.
Às vezes as palavras não chegam para descrever nada. No Amor, diria eu, nunca chegam. É que o Amor é indizível e por isso o silêncio sabe muito mais sobre ele do que todos os livros do mundo juntos. E nessa insuficiência eu lá lhe dizia que ela bonita, com a mesquinha sensação de que estava a dar uma esmola a um pobre, o que me fazia sentir ainda mais impotente. Ela nunca acreditava no que eu dizia porque não sabia acreditar no que eu não dizia. É uma pena as mulheres não saberem ler o silêncio dos homens, pensava eu.
Foi num sábado à tarde que decidimos que não nos sabíamos Amar, e entre algumas lágrimas de dor e alívio a vi diluir-se na multidão da avenida como uma aguarela num banho de cor. É na cor que o que foi não volta a ser, e nós nunca mais voltámos a sê-lo.
Quando uma mulher pede a um homem que lhe diga que ela é bonita, o pedido é fraco. É zero. Quando um homem se silencia perante a beleza duma mulher, o silêncio é forte. É infinito. O silêncio dum homem sobre a beleza duma mulher passa largamente o seu corpo. É um voo sobre a maneira como ela olha, como ela come, como ela adormece, como ela cheira, como ela se penteia, como ela se zanga, chora ou ri. Enfim, como ela respira e Ama. E depois desse voo, só depois desse voo, numa branda aterragem sobre os olhos dela, um homem pode dizer num suspiro que ela é tão bonita. És tão bonita.
A primeira vez que eu o disse assim, desta maneira, tinha trinta e oito anos. Hoje tenho quarenta, e isso fascina-me.

11.07.2011

conversa 1844

Ela - Eu não aceito amizades no Facebook de quem não conheço pessoalmente.
Eu - Porquê?
Ela - Sei lá se posso confiar numa pessoa que nunca vi na vida. Por acaso conheço-a de algum lado?
Eu - Eu não aceito amizades pessoais de quem não seja meu amigo no Facebook.
Ela - Estás a gozar.
Eu - Não estou nada. Sei lá se posso confiar numa pessoa que nunca foi minha amiga no Facebook. Ainda há dias uma mulher se meteu comigo ao balcão dum bar e eu perguntei-lhe: "Por acaso conheço-a de alguma rede social?"
Ela - Acho que te vou anular como amigo do Facebook.
Eu - Porquê?
Ela - Às vezes acredito que te conheço mas não, não conheço. És estranho.
Eu - Bem, se deixares de ser minha amiga no Facebook, eu deixo de ser teu amigo pessoal.
Ela - Não estou a gostar desta conversa.
Eu - Então não faças "like".
Ela - Às vezes és insuportável. Acho é que tenho que ir às minhas definições pessoais e bloquear-te.
Eu - No facebook ou na vida real?
Ela - Nos dois.

respostas a perguntas inexistentes (185)

Ouço falar dos pequenos prazeres da vida e fico sem saber quais são os grandes. É que para mim, aqueles que normalmente vejo associados à pequenez não têm realmente nada de pequeno. Um prazer nunca é pequeno, a não ser que nós próprios o encolhamos até quase não se ver.  E isso é o contrário do que se deve fazer.
Porque é que beber uma cerveja fresca num dia quente de Verão há-de ser um pequeno prazer da vida? Para mim é um prazer enorme, porque é um dos que eu quero que seja constante. Assim como é um prazer enorme beber um café de manhã, beijar a Raquel quando chego a casa, espreguiçar-me ao meio-dia quando posso acordar tarde ou comer um chocolate com amêndoas em apenas duas dentadas. Esses são os grandes prazeres da vida porque são eles a própria vida, e eu quero que a minha vida seja toda ela um prazer. Não é, mas eu quero que seja na mesma.
Lembro-me de num desses dias de Verão convidar uma amiga para um copo de vinho na praia da Costa Nova. Levei eu uma das melhores garrafas que tinha em casa, dois copos de pé alto e um canivete suíço com saca-rolhas. Servi-a enquanto o Pôr do Sol nos espreitava corado no horizonte, e quando bebeu o primeiro gole começou a falar daquele momento como um pequeno prazer da vida. Para mim aquele era um prazer grande, talvez até dos maiores que se possa imaginar, mas ela continuou a insistir que um copo de vinho é apenas um pequeno prazer.
Talvez a diferença seja que para mim um prazer nunca vem só. Era o prazer do copo de vinho, era o prazer da companhia dela, o do cheiro do mar e o do calor das pedras onde estávamos sentados. Eram todos os prazeres convencionais e indizíveis dum dia qualquer de Verão, porque é isso que se quer que seja um prazer: uma convenção.
Apaixonei-me uns meses mais tarde pela Raquel, quando foi ela a convidar-me para um copo de vinho em casa depois de nos termos conhecido num shopping da cidade do Porto. "Tinha todo o prazer", respondi-lhe eu. "Eu também", insistiu ela. E até hoje não conheci prazer maior.

11.03.2011

respostas a perguntas inexistentes (184)

ti ti ti gosto mais de ti

De qual é que gostas mais? Quando somos crianças estamos sempre a perguntar isto em relação a tudo e, na verdade, também a responder. Gostas mais do amarelo ou do vermelho? Gostas mais do mar ou do campo? Gostas mais do pai ou da mãe? Depois crescemos e a coisa continua, embora de forma mais subtil. Sublinhamos no nosso grupo social os filmes de que gostamos mais, as músicas, os livros ou as cidades. Ainda há bocado tive essa discussão sobre vinho, por exemplo, e discuti os gostos entre as regiões da Bairrada, Douro, Alentejo, Dão e Setúbal. Queremos sempre gostar mais duma coisa do que doutra, mesmo que não saibamos muito bem porquê, e a razão é simples: do que gostamos mesmo mais é de gostar, e ao gostarmos mais do que quer que seja, aproximamo-nos rapidamente do verbo.
Daquilo que gostamos passamos a fazer parte, numa simbiose que exibimos com mais orgulho do que Razão. É por isso que, sem saber muito bem porquê, somos do Benfica ou do Futebol Clube do Porto. Somos e pronto, gostamos de o ser e somo-lo com intensidade, que gostar é sempre intenso. A vida torna-se mais fácil quanto mais gostamos de alguma coisa e de quantas mais coisas gostamos. Aliás, quando não gostamos de nada é porque andamos tristes e deprimidos. Torna-se urgente gostar do que quer que seja, nem que seja através do método aleatório desenvolvido na infância do "ti ti ti gosto mais de ti".
Gostar é assim uma questão de sobrevivência, é o último alimento que nos resta numa vida árida. Quem gosta sobrevive, quem não gosta morre. É por isso que quando não se Ama ninguém, pelo menos gosta-se. É essencial.
Já gostei de muitas mulheres que não cheguei a Amar. Aliás, sempre que não Amo ninguém passo a vida a gostar de alguém. Ainda bem, porque gostar é muito mais fácil de acontecer do que Amar, e por isso acontece também mais vezes ser recíproco. Acho que é assim que costumamos sobreviver a nós mesmos e à aridez dos nossos tempos de solidão. A gostar. Goste-se ou não. 

11.02.2011

conversa 1843

Ela - Há dias não me ligaste nada.
Eu - Quando?
Ela - Quando passei por ti no Mercado Negro.
Eu - Liguei, liguei. Lembro-me que te acenei e tudo...
Ela - Acenar é o que se faz aos conhecidos. Uma amiga cumprimenta-se com dois beijinhos e pergunta-se se ela está bem.
Eu - Mas tu também não me vieste cumprimentar. Só me acenaste.
Ela - Claro que não. Fiquei à espera que viesses tu ter comigo...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

a distância mínima de segurança


Contra tudo o que eu próprio esperaria de mim mesmo, adoptei um gato esta semana.
Quando chegou a casa escondeu-se imediatamente no primeiro buraco que encontrou, mais propriamente debaixo do armário da cozinha. Quando me baixei para o espreitar ele ainda se chegou mais para trás, como se eu fosse uma ameaça à sua vida. Por isso deixei-o estar e fui deitar-me no sofá onde acabei por adormecer. Acordei umas duas horas depois com as cócegas que ele me fazia enquanto me cheirava o nariz. Assustou-se e deu alguns passos para trás, mantendo uma distância mínima de segurança de cerca de dois metros.
É essa a distância que o Aníbal (chama-se assim por causa duma votação que fiz no meu Facebook) gosta de manter de quem ainda não conhece muito bem, não vá ter alguma surpresa desagradável. Fiquei ali a dormitar no sofá e a pensar nisso, como se tivesse percebido o quão parecido ele é com algumas mulheres que conheci. Mantém essa distância de segurança e arranha quem a invade, a não ser que decida gostar desse alguém...