10.18.2011

conversa 1836

Ela - Gostava de ter um marido que me dissesse que me Ama.
Eu - O teu não te diz?
Ela - Sim, às vezes até diz.
Eu - Estás a ver?!
Ela - Reformulo o meu desejo. Gostava de ter um marido que de vez em quando me dissesse que me Ama, não apenas quando quer jogar consola e me trata bem para ver se pode ficar com a televisão só para ele.

a árvore

Uma vez disse-lhe que a Amava. Assim, numa só palavra que no segundo seguinte já se tinha esfumado. Amo-te. E ela ficou a olhar para mim quieta, num estado que percebi ser de análise e igual ao do lobo que estuda a presa. Arrependi-me imediatamente de o ter feito.
As palavras não chegam para nada, muito menos para definir um Amor. São intocáveis e efémeras. É por isso que quando duas pessoas se Amam também se calam. Até costumam apagar a luz, para o silêncio ser ainda maior. Mas eu disse-lho com a luz acesa. E ela, a mulher, apagou-se.
Estávamos numa pastelaria. Eu a tomar café e ela a beber um chá. Eu bebi o meu num só gole, que queria sair dali o mais depressa possível. Ela demorou muito, acho eu que de propósito, e foi quando reparei nos dedos dela a abraçar a caneca. Eram bonitos, os dedos. Repete o que disseste, pediu ela. Eu recusei. Arrependi-me imediatamente de o ter feito.
Caminhámos pela cidade sem direcção. Eu sempre com vontade de a abraçar e ela sempre dois passos à minha frente. Estava frio mas eu tinha calor. Parámos debaixo duma árvore que, para meu alívio, já devia ter ouvido milhares de conversas de Amor. Não ia dar importância a mais uma. Disseste que me Amavas? Perguntou. Sim, respondi abanando os ombros como se assim pudesse enxotar o nervoso. Como é que me podes Amar se mal me conheces? E eu calei-me, não por não ter resposta mas sim por ter demasiadas respostas.
Hoje passei nessa árvore e parei dois segundos a olhar para ela. Ainda tem folhas, apesar de estarmos no Outono. Talvez não lhe apeteça despir-se. Depois disse-lhe, para o caso de lhe apetecer ouvir, que sim, que podemos Amar uma pessoa que mal conhecemos. A mim aconteceu-me e já lá vão três anos. É tão certo como podermos não Amar uma pessoa que conhecemos bem. Acho que ela se riu, não tenho a certeza.

10.14.2011

conversa 1835

Ela - Porque é que raio as bonecas insufláveis têm sempre a boca arredondada e aberta?
Eu - Estás a perguntar isso a sério?
Ela - Estou, claro. Se elas não podem falar, para que é a boca aberta?
Eu - Estás a gozar comigo.
Ela - Não estou nada. Diz-me.
Eu - Há mais coisas que se fazem com a boca durante o sexo para além de falar.
Ela - Tipo o quê?
Eu - Tipo sexo oral.
Ela - Não!
Eu - Não o quê?
Ela - Não acredito que os homens fazem sexo oral com uma boneca de plástico. Depois para onde é que vai o esperma?
Eu - Se não usares preservativo, vai para a boca. O melhor é lavá-la.
Ela - Já fizeste isso?
Eu - Não, nunca tive nenhuma boneca insuflável.
Ela - Então como é que sabes isso tudo?
Eu - Tipo, vejo uma boneca que é vendida com fins sexuais de boca aberta e não preciso pensar muito.
Ela - Sempre pensei que algumas bonecas insufláveis tivessem uma gravação, assim como alguns bonecos para crianças também têm...
Eu - Se calhar até há. Não sei... e a gravação diria o quê?
Ela - Diz-me que me Amas, diz-me que me Amas!
Eu - Agora sou eu que não acredito.
Ela - Não acreditas em quê?
Eu - Achas que uma boneca insuflável devia dizer "diz-me que me Amas, diz-me que me Amas" ?!
Ela - Só para chatear.

10.13.2011

respostas a perguntas inexistentes (183)

Às vezes, só às vezes, parece-me que o mundo se divide em pessoas que Amam e pessoas que não Amam.
Isto porque tenho uma amiga que não Ama, e quando digo que não Ama é porque não o faz nem o quer fazer. Convida-me de vez em quando para ir a casa dela beber um chá e conversar um bocado, mas nunca sai nem quer sair de casa. E fico ali, horas a fio, a assistir ao seu ar felino de quem não precisa de ninguém.
Muitas vezes, mesmo muitas vezes, ainda estou a limpar os sapatos e já estou também a perguntar-lhe se está tudo bem, assim como quem não quer a coisa e na esperança de que ela me diga que não. Quero que ela me conte uma desilusão de Amor qualquer, só para lhe sentir vida. Mas até hoje nunca o fez. Responde sempre que sim, que está tudo bem.
Quando comecei a namorar passei em casa dela e levei uma garrafa de vinho. Esperava que ela, ao saber da minha novidade, finalmente levantasse o véu sobre qualquer coisa que eu desconhecesse. Uma antiga paixão de adolescência, um Amor proibido ou mesmo um beijo solitário qualquer.

- Conheci uma mulher de quem estou a gostar bastante! - disse-lhe eu lançando o isco.
- Óptimo. - respondeu ela enquanto abria a garrafa e fechava a conversa.

Ontem perguntei-lhe, depois de ganhar finalmente coragem, o que é que faz uma pessoa que passa a vida a não Amar. Ela respondeu-me, para meu grande alívio, que faz o mesmo que as outras pessoas todas mas sem o dividir com ninguém. Percebeu a minha pergunta e percebeu que era sobre ela que eu falava. Menos mal.
Tinha-me feito um chá qualquer com alguns sabores exóticos, que me sabiam bem mesmo sem eu lhes conhecer o nome. Peguei neles como se pega num ingrediente qualquer essencial da vida e disse-lhe que, se eu soubesse fazer um chá assim, ia querer dividi-lo com alguém muito especial na minha vida.

- Estou à espera de encontrar um homem como eu. Um homem que queira estar sempre só, para poder dividir a sua solidão comigo. A minha solidão é a única coisa que eu posso dividir com alguém.

Fiquei a olhar, através da janela, para as luzes das ruas que se estendem até ao mar, a ver se encontrava nelas a resposta que não me nascia nos lábios. Desarmado, ia tentar explicar-lhe isso mesmo, que é ali nas ruas da cidade que está essa resposta. Mas ela, com o ar mais natural do mundo, pegou na minha caneca vazia e perguntou-me se eu queria mais chá.

10.11.2011

conversa 1834

Ela - O que é que andas a ler neste momento?
Eu - Ando a ler o Mau Tempo no Canal, do Vitorino Nemésio. E tu?
Ela - Eu andava a ler Saramago mas interrompi porque quero comprar algumas mobílias...
Eu - Não percebo.
Ela - Substituí o Saramago pelo catálogo do IKEA.

10.10.2011

conversa 1833

Ela - Estou tão cansada do meu casamento. Acho que já não há mesmo Amor entre mim e o meu marido...
Eu - Não é caso único, diria eu. Já falaste com ele sobre isso?
Ela - Ontem disse-lhe que gostava de o Amar e gostava que ele me Amasse...
Eu - E ele?
Ela - Ele perguntou onde.
Eu - Perguntou onde?
Ela - Sim. Tive que lhe explicar que gostava que ele me Amasse e não que ele mamasse.
Eu - Ah!
Ela - É desesperante.
Eu - Pois...

coisas que fascinam (134)

o Chico das Bicicletas

Quando eu era criança só existiam duas oficinas de bicicletas em Aveiro. Uma era a do Zé Gordo das Bicicletas, outra era a do Chico das Bicicletas. Eu ia sempre à do Chico das Bicicletas, por ser mais perto da minha casa, e aquilo nunca me pareceu um verdadeiro negócio. Ele alinhava-me a direcção, enchia os pneus e afinava os travões sempre de graça. Para mim, na minha ingenuidade de criança, era normal ele fazer isso sem cobrar, até porque com sete ou oito anos eu nunca tinha dinheiro no bolso.
O Chico das Bicicletas já tinha morrido quando em adulto pensei nele como uma pessoa boa, uma pessoa daquelas que arranja bicicletas a uma criança e recebe em pagamento apenas o seu sorriso. Tenho pena de nunca lhe ter agradecido ter-me proporcionado uma infância um bocadinho melhor, e se ele hoje fosse vivo era o que eu fazia. Dava-lhe um abraço do tamanho do mundo e dizia-lhe obrigado.
Nessa altura andava de bicicleta por motivo nenhum, e esse é o melhor dos motivos para andar de bicicleta. Agora faço-o para manter o peso e alguma resistência, mas quando era pequeno dizia à minha mãe que ia lá para fora andar de bicicleta e pronto, ia sem motivo aparente. Lembro-me que às vezes, muitas vezes mesmo, fingia que era uma mota e fazia vrruuuummmm vrruuuuuummmmm com a boca enquanto pedalava. Acreditar nas nossas próprias mentiras é uma capacidade que só temos enquanto somos crianças. Depois, quando crescemos, perdemo-la, principalmente com os primeiros desgostos de Amor. Aliás, acho que foi por isso que muito cedo a minha bicicleta passou a ser apenas isso mesmo, uma bicicleta.
Os desgostos de Amor têm a mania de transformar o mundo nele mesmo, tal como ele é, ou seja, de o transformar totalmente. São um serial killer dos nossos sonhos. Lembro-me, por exemplo, de em fases deficitárias de paixão deixar de atravessar as passadeiras como se fossem um jogo, colocando os pés apenas nos riscos brancos para não perder. Atravessar a estrada passava a ser apenas isso mesmo: atravessar a estrada. É o que faz a falta de paixão, mostra-nos o mundo como ele é, e eu não gosto de simplesmente atravessar a estrada.
O sinal vermelho deve ter demorado cerca de um minuto a passar para vermelho. Foi esse o tempo que eu estive a olhar para outra mulher à minha frente, que depois atravessou a rua no sentido oposto ao meu. Aconteceu-me hoje e ela sorriu-me quase por impulso, tal como eu. Depois não olhei para trás e ela quase de certeza que também não. Era apenas alguém que sabe transformar as coisas que são naquilo que devem ser. Há pessoas assim, o Chico das Bicicletas era uma delas.
Quase ninguém sabe porque é que Ama alguém, mas eu acho que é essencialmente por isso. Porque esse alguém nos permite viver noutro mundo que não este. Constantemente. É por isso que eu Amo a Raquel, e é por isso também que esta é a minha homenagem a esse homem que fez parte da minha infância.

10.07.2011

pensamentos catatónicos (260)

um homem não chora

É difícil ser homem e toda essa dificuldade vem do simples facto de existirem mulheres. É que sem elas nem sequer vale a pena sê-lo. É mesmo assim, por muito que não se queira. Mas no meu caso até quero, embora admita que é por não saber mais. Não sei ser homem só por si. É isso, pronto.
Às vezes as mulheres entristecem-me. É raro, felizmente, mas acontece. É nessa altura que faço o enorme esforço de imaginar o mundo sem elas e é nessa altura que me calo. Chatear-me com elas é chatear-me com o ar que respiro, ou seja, com aquilo que existe porque tem que existir. Calo-me perante o que me é essencial e penso que um homem não chora.
Um homem, em abono da verdade, até chora, mas passa a vida a fingir que não. Não chorando parece que se é mais forte. As mulheres são realmente mais fortes e por isso choram à frente de toda a gente. Não fingem nem têm que fingir nada. O fingimento é uma característica dos mais fracos e essa é outra dificuldade de se ser homem, ter que se fingir que não se chora. Quando penso nisso apetece-me chorar.
O choro das mulheres é diferente do choro dos homens por isso mesmo. A elas fortalece-as, a eles enfraquece-os. São elas que dizem coisas do género "estava a precisar de chorar" ou "já chorei, por isso já estou melhor". Eles, quando choram, dão-se conta surpreendentemente de que afinal são frágeis e choram ainda mais.
É difícil ser-se frágil quando se deve supostamente ser forte, e tenho a certeza que é bem melhor ser-se forte quando se deve supostamente ser frágil. Os homens são frágeis pelos simples facto de existirem mulheres. É que sem elas nem sequer vale a pena sê-lo.

respostas a perguntas inexistentes (182)

um bocadinho
Ela dizia que gostava do meu café, aquele que eu fazia numa cafeteira velha herdada da minha avó. Sentava-se na mesa da cozinha com um cigarro na mão, ansioso por ser fumado, à espera que eu lhe enchesse a caneca estalada. Depois bebia-o em goles tão pequenos que me parecia impossível que um dia chegasse ao fim. Mas chegava sempre. E como eu sabia que o meu café era igual a qualquer outro, acreditava que o que ela queria dizer era que gostava um bocadinho de mim.
Quando não estamos apaixonados por outra pessoa mas gostamos um bocadinho dela, dizer que gostamos do café que ela faz é uma maneira de lhe agradecermos a existência. Assim, sem assumir uma responsabilidade demasiado grande pelo que se diz. E eu respondia-lhe sempre que o café era bom, não por minha causa mas por causa da cafeteira da minha avó. Depois ela ia fumar para a varanda e eu ficava dentro de casa, encolhido pela evidência de ter conhecido mais uma mulher que gostava um bocadinho de mim e de quem, na verdade, eu também só gostava um bocadinho.
Depois duma separação nunca se gosta muito de alguém. Gosta-se um bocadinho, aqui e ali, num processo terapêutico lento para que um dia se consiga Amar outra vez. Foi essa a importância da Márcia, que também se tinha divorciado pouco tempo antes e também estava de férias quando a conheci. Eu estava parado na margem duma estrada qualquer a encher-me do silêncio dum rio e ela veio do nada pedir-me água para lavar as mãos. Colocou-as em concha e eu verti generosamente da que estava a beber. Esfregou-as uma na outra com vivacidade e depois sentou-se ao meu lado. Ficámos ali algumas horas a cuspir palavras sobre nós, como se quiséssemos dizer quem éramos sem contar o que nos tinha acontecido.
Gostei dela nesse dia e nos dias que se seguiram. Um bocadinho só, mas gostei. Por isso é que lhe fiz café.

10.06.2011

mesmo antes duma coisa qualquer

Diz-me quem Amas, dir-te-ei quem és. Foi o que ela lhe disse, numa ordem que estranhamente lhe pareceu doce, para fazer enquanto abria a garrafa de vinho... [para ler no site amulher.com]

10.04.2011

conversa 1832

(ao telefone)

Ela - O meu marido disse-me que há uma miúda lá do escritório que anda interessada nele. Mas eu não acredito, acho que é só ele a tentar fazer-me ciúmes.
Eu - Porque é achas isso?
Ela - Quem é que raio se ia interessar pelo meu marido? Ele não tem interesse nenhum...

10.03.2011

o dedo do meio

Há várias formas de usar o dedo do meio. Para a Upyurs, pelos vistos, fazê-lo significa sempre ser auto-confiante. Pelo menos é o que revela esta publicidade. Por razões que me parecem mais ou menos óbvias, este gesto parece-me ter uma conotação com o género masculino. O verniz para as unhas, tanto quanto sei, é essencialmente usado por mulheres. Aqui está uma marca, portanto, que acha que uma mulher auto-confiante é aquela que adquire hábitos masculinos.
Eu discordo totalmente. O dedo do meio é o argumento de quem não sabe argumentar (e se calhar também aí seja um gesto tendencialmente masculino), de quem não se consegue expressar doutra forma. É a linguagem gestual de quem é mudo na Razão. Por isso mesmo, aliás, é que é fácil encontrá-lo nas claques de futebol. Não me parece que uma mulher que usa verniz nas unhas tenha que ser assim. Mas pronto, isso sou eu.

respostas a perguntas inexistentes (181)

fiatlux
Não me esqueço de ninguém nem de nada. Está toda aqui na minha cabeça, a minha vida e a pessoas que fazem ou fizeram parte dela, por um segundo que tenha sido. Basta-me um sinal qualquer e recordo uma situação antiga como se fosse hoje. Vivo-a, portanto. Ainda bem.
Há muito tempo que não faltava a luz em minha casa, um apartamento perdido entre tantos outros nos subúrbios de Aveiro. Desta vez fiquei às escuras e fui procurar a lanterna que funciona a energia solar. Encontrei-a rapidamente, que por ser solar está sempre numa das janelas a olhar para o Sol. Depois, sentado no sofá da sala, pus-me a brincar com as sombras dançantes ao som do tímido foco de luz, recordando simultaneamente outras sombras, aquelas que dançavam nas paredes da casa onde cresci.
A minha mãe tinha sempre velas num armário da cozinha. Quando faltava a luz acendia várias, umas na outras sucessivamente para poupar nos fósforos, e colocava-as em sítios estratégicos para que fosse possível caminhar. Uma na casa de banho, outra na entrada, outra na sala e outra na cozinha. Normalmente sobravam sempre duas ou três volantes. Eram essas as únicas noites em que o televisor se calava e as palavras se tornavam o mais importante. O meu pai a dizer que quando era criança era sempre assim, a noite e um candeeiro a petróleo; o meu avô a confirmar com uma saudade que eu não percebia mas sentia; a minha mãe a chamar constantemente pelos filhos todos, como se eles se pudessem perder na escuridão que povoava o apartamento.
Há muito tempo que eu não conversava assim com ninguém. Só que agora sou adulto, e à falta do meu pai e da minha mãe conversei comigo mesmo. Não estava mais ninguém em minha casa, mas na verdade também não me tenho feito muita companhia às claras. Talvez por falta de tempo, o tempo que apareceu num corte da energia eléctrica. No nada.
Foi assim, ou quase sempre assim, que me nasceu nos lábios a palavra Amor. No minimalismo da noite, digo. Sem televisor, sem música, sem livros. Às vezes também sem roupa. Os ambientes estéreis são os mais fecundos para a palavra Amor, pensei. Como se a paixão fosse um oásis qualquer. É assim contigo, por exemplo, que quando estás comigo o mundo é um deserto árido.
Depois fez-se luz.

9.30.2011

conversa 1831

Ela - Esta semana estive para adoptar um gatinho com três pernas...
Eu - Com três pernas?!
Ela - Sim, perdeu uma num acidente e os donos abandonaram-no. Vê lá tu como as pessoas são cruéis.
Eu - E não adoptaste?
Ela - Entretanto parece que alguém o adoptou primeiro. Também há gente boa...
Eu - A minha namorada tem um gato com três pernas. Deve ser boa, então...
Ela - A tua namorada tem um gato com três pernas?! Espectacular.
Eu - Até tem mais. Tem quatro...
Ela - Estás a gozar com os meus sentimentos pelos animais?!
Eu - Era só uma piada.
Ela - Vê lá se enfias a piada num sítio que eu cá sei.
Eu - Para quem gosta de gatinhos com três pernas estás muito agressiva.
Ela - Estou a contar-te uma coisa séria e tu começas a gozar...
Eu - Não estava a gozar contigo. Era a brincar...
Ela - O que interessa é o que eu sinto, não o que tu pensas.

conversa 1830

Eu - Importas-te de me dizer porque é que tens três telemóveis na carteira?
Ela - Este é para os meus colegas do trabalho, este é para os meus amigos e este é para o pessoal que conheço pela primeira vez.
Eu - Então e quando conheces alguém pela primeira vez mas depois acabas por ficar amiga?
Ela - Peço-lhe para actualizar o número.
Eu - E achas isso prático?
Ela - Muito prático. Às vezes, consoante o telefone que toca, nem me dou ao trabalho de atender.

esta noite dormimos juntos e não fizemos Amor

Esta noite dormimos juntos e não fizemos Amor. Há bocado disseste-me qualquer coisa como "Estás a ver que és capaz?" e eu não percebi onde querias chegar. Só agora, que me beijaste a testa e me chamaste melhor amigo é que fiquei esclarecido. Estavas a dizer que eu sou capaz de dormir contigo sem sexo.
Já te vi nua duas vezes. Do lado de cá e do lado de lá do espelho, mas fechei os olhos para não enfrentar a realidade. Eu Amo-te e tu não me Amas a mim. Pior ainda, eu Amo-te mas não sou suficientemente bom para que tu me Ames a mim. Só assim se justifica a falta de paixão por um homem que até consegue ser o teu melhor amigo.
O gato arranha a porta e tu abres uma frincha para o deixar entrar. Do lado de lá está o mundo para onde eu não quero ir, que me apetece ficar contigo neste quarto para sempre. Sentas-te com o felino ao colo na cadeira de balanço que já foi da tua avó, e eu sei que lhe estás a fazer festas enquanto eu finjo que durmo. Finjo para adiar o mais possível a conclusão de que passei a noite contigo sem te tocar. É só isso. E agora é o gato que está a ocupar o meu espaço. O teu corpo.
No chão ainda estava uma garrafa de vinho e os dois copos vazios da noite também vazia. Aproveito o momento em que os levas para a cozinha para me levantar, vestir e sair de casa. Digo-te adeus da porta sem te beijar e ainda por cima tu achas isso normal. Adeus, respondes. Vou embora com a convicção de que tu, apesar de estares tão sozinha quanto eu, não sofres de solidão. Desço os quatro andares tão zangado quanto apaixonado, e com uma estranha sensação de que estou a voltar a pôr os pés na terra. É uma merda e um alívio ao mesmo tempo.
Repito, durante cinquenta e seis degraus e em câmara lenta, o dormimos juntos e não fazermos Amor. Eu a abraçar-te e tu a afastares os meu braços de forma decidida. Eu a tocar-te com os dedos dos pés e tu a dizeres que estão frios, enquanto te embrulhas ainda mais nos cobertores de forma protectora. Boa noite, dizes como que para acabar com os meus avanços. Boa noite, respondo. Depois viro-me para o outro lado e adormeço também.
Repito, ao abrir a porta do prédio apenas na terceira e nervosa tentativa, a tua frase que me despertou: "Estás a ver que és capaz?". 
Não, não sou capaz. Só se me obrigares. É manhã. Esta noite dormimos juntos e não fizemos Amor.

9.29.2011

respostas a perguntas inexistentes (180)

a luta contra o tempo

A luta contra o tempo é a pior das lutas porque é uma luta perdida à partida. O tempo passa quando estamos a gostar da nossa vida e passa quando não estamos. Passa sempre. É mau mas é assim. É cruel, o gajo, e olha para nós sempre da mesma maneira sobranceira, sem sequer nos perguntar como é que andamos. Se passarmos a vida toda entristecidos, ele passa por nós sem nos ligar nada. Se andarmos sempre bem dispostos é mais ou menos igual.
Nós, portugueses, somos dos melhores povos a enfrentar esta arrogância do tempo. Achamos sempre que temos tempo para tudo mesmo quando não temos. Tomamos um café cinco minutos antes da hora de embarque num avião, dormimos mais um bocadinho depois do despertador já ter tocado três vezes ou pedimos mais um uísque quando o restaurante já fechou. Depois vivemos sempre atrasados, mas na verdade não faz mal. É a nossa forma de gozar com o tempo da mesma forma que ele goza connosco.
O orgulho que eu tenho nesta nossa forma de ser esbarra em mim mesmo. Tenho a mania de não me atrasar nunca. Muito pelo contrário, tento chegar sempre com cinco minutos de avanço. Em viagens, por exemplo, ainda a minha companheira está a acabar de fazer as malas, já eu estou à porta com tudo pronto e a olhar impacientemente para o relógio. Depois torno-me chato. Olha que vamos perder o avião, digo. E conto até dez para não me enervar.
As manhãs são uma excepção, talvez por eu trabalhar por turnos e andar invariavelmente cansado. Custa-me sempre levantar e o meu despertador já o sabe, pois toca invariavelmente três a quatro vezes por dia de cinco em cinco minutos. A Raquel também já o sabe, pois levanta-se sem me acordar para me deixar dormir mais uns minutos. Esta semana exagerei e saímos os dois de casa apressados. Ela já ia a uns cinquenta metros de distância quando eu parei, olhei para trás, e corri para lhe dar o beijo do dia que não tinha dado.
Depois tive que correr para o comboio mais que o normal, mas pela primeira vez com este orgulho de ser português e não deixar que o tempo, esse sacana sem lei, me ganhasse essa pequena batalha do dia. E acreditem que tive um dia melhor.

9.28.2011

pensamentos catatónicos (259)

o índice waf

Hoje percebi que a maior partes das mulheres, ou pelo menos as mulheres com quem falei hoje à hora do almoço, não sabem o que é o índice waf. Eu, que insisto em fazer deste blogue também um serviço público, venho aqui explicá-lo. Primeiro porque é um termo usado entre algumas conversas de homens, segundo porque ainda ontem me lembrei dele.
Waf quer dizer Women Acceptance Factor (Factor de Aceitação nas Mulheres) e aplica-se geralmente a uma compra que um homem que fazer e ao medo correspondente que tem de chegar com essa coisa a casa. Ontem, por exemplo, tirei o dia para mim e para a cidade do Porto, onde depois de andar cerca de duas horas a pé sem direcção nenhuma fui dar a uma loja de perder a respiração. Foi nessa loja, que se chama Oportonidades, que me apaixonei por um projector antigo de Super 8 da Noris. Perguntei o preço e comprei-o, mas o meu primeiro pensamento foi que tinha um elevado índice de risco Waf. E tinha mesmo...
Tenho alguns amigos com a mesma mania coleccionista que eu tenho, ou com outras parecidas (alta fidelidade, jogos de vídeo, fotografia química, etc, etc), e todas elas envolvem um índice Waf mais ou menos elevado. Entre nós, tentamos descobrir qual será o risco de chegar a casa, por exemplo, com um amplificador Audiolab 8000c, uma consola 16 bits Megadrive ou, lá está, um projector Super 8 com mais de quarenta anos. A questão passa por saber responder à pergunta: "Para que é que queres esse lixo?". Eu, na verdade, ainda não sei. Costumo dizer que tudo o que eu quero tem um índice Waf muito elevado. Vai-me salvando a paixão...

[prolongamento no bagagem]

9.27.2011

conversa 1829

Eu - Diz ao teu marido, por favor, que preciso falar com ele. Ele não me tem atendido o telemóvel...
Ela - Ele perdeu o telemóvel, é por isso. Mas o que é que tu queres ao meu marido?
Eu - Só quero falar com ele. Ele que me telefone quando puder.
Ela - Mas o que é que tu queres ao meu marido?
Eu - Não é nada de especial.
Ela - Mas o que é?
Eu - Fosca-se! Pedes-lhe para me telefonar ou não?
Ela - Se não me disseres o que é que lhe queres, não peço.

o pedinte

Vejo-o a andar por ali a arrastar os pés nuns sapatos esburacados e dois números acima do pé, de mão estendida a pedir que lhe permitam viver mais algum tempo, seja com uma moeda para uma sopa ou o resto dum cigarro, e não é bem a miséria dele que me faz confusão. É a solidão, que nunca o vi acompanhado por ninguém.
Um dia ganhei coragem e convidei-o para almoçar.

- Sente-se aí, se quiser, e faça-me companhia durante a refeição. 


E ele olhou para o empregado como que a pedir autorização. Naquele café os pedintes podem entrar, pedir e sair. Só não podem sentar-se à mesa. Era o que faltava, o senhor Fernando ir servir aquele a quem às vezes dá uma moeda. Uma vez até me confidenciou que já serviu o presidente da República. Não este de agora mas o anterior, e que ele até lhe disse obrigado antes de sair.
E eu perguntei pelos pratos do dia.

- A feijoada está boa. - respondeu abanando o lóbulo da orelha com um orgulho singular.
- Duas doses, então.


O pedinte sentou-se e o senhor Fernando abanou os ombros como que derrotado pelas evidências. Enchi-lhe o copo de vinho enquanto os seus olhos se enchiam de brilho, e talvez por isso tenha sido sido ele o primeiro a falar.

- É casado? Perguntou.
- Oficialmente sou, na prática não. Meti esta semana os papéis do divórcio.
- Logo vi. Um homem casado não convida um pedinte para almoçar.

Deu um gole no vinho que mais me pareceu ser um mergulho no mar. Aaaaaahhhh! E beijou o próprio ar estalando os lábios. Vou-lhe dar um conselho, disse. E depois quis centrar os seus olhos nos meus.

- Foram as mulheres que me puseram assim, nesta condição de miserável. Se se vai ver livre duma, e se ainda gosta uma réstia de si, nunca mais se meta noutra.


Provei a feijoada, que realmente estava boa, e dei também um gole no vinho, que não estava assim tão bom. Não que me apetecesse falar sobre mulheres, que na verdade era o último tema que eu poria em cima da mesa dada a minha condição de recém separado, mas fiquei curioso e perguntei-lhe, tentando dar o ar mais descontraído do mundo, se ele nunca se sentia sozinho.

- Nunca me senti tão sozinho como durante o meu casamento, porque o pior é ter alguém ao nosso lado todos os dias que não quer saber de nós.


E como eu não reagia ele insistiu.

- Está a perceber?


Abanei afirmativamente a cabeça, mantendo propositadamente o silêncio. Com o meu divórcio mudei os meus hábitos e acabei por nunca mais voltar àquele café. Até hoje de manhã, em que o vi a entrar e sair com os mesmos movimentos de sempre. Acho que talvez seja isso, desistirmos de nos apaixonar: aceitar que os dias sejam todos iguais até ao dia da nossa morte, seja a pedir uma moeda num café como um prolongamento da vida, seja doutra forma qualquer. Apeteceu-me correr atrás dele e perguntar-lhe se se lembrava de mim, explicar-lhe que entretanto já me apaixonei outra vez e que vale a pena tentar de novo. Mas não o fiz.

9.26.2011

respostas a perguntas inexistentes (179)

Cada vez me emociono menos. Actualmente, com os meu quarenta anos de idade emociono-me cerca de metade das vezes que me emocionava quando tinha vinte. Se isto continua assim, aos sessenta não vou rir nem chorar. Tenho medo que isso me aconteça. Se lá chegar, claro.
Acho que só as pessoas que se emocionam é que são capazes de se apaixonar a sério. As outras, quando muito, fingem que se apaixonam. Já me aconteceu apaixonar-me por mulheres estéreis de emoções. Desapaixonei-me logo no momento seguinte. Ao menos é fácil e não se sofre. Percebe-se logo que aquela mulher não nos interessa. Nem nós a ela, muito provavelmente. Para que é que uma mulher assim quer um homem que chora no cinema? Para nada, claro.
Por falar em cinema, na arte também é só isso que interessa. Um filme, um livro, um quadro ou uma música só são bons se emocionarem. Se fizerem rir ou chorar. O Amor também é assim, portanto também é arte. Estou a falar do Amor de todos os dias, deste que tenho agora pela Raquel e que, de vez em quando, disponho todo num único pensamento como se pendurasse um quadro numa parede. Olho para ele e penso "Uau! Fantástico! Que obra de Arte!".
Temos isto quando já não temos mais nada. Estou a falar da capacidade de rir e de chorar, ou seja, de Amar.  Eu, como cada vez me emociono menos, proíbo-me de deixar de o fazer.

conversa 1828

Ela - Preciso de apaixonar-me por um homem mais velho do que eu. Uns dez anos, pelo menos...
Eu - Porquê?
Ela - Os homens da minha idade são uns inexperientes.
Eu - Inexperientes como? Na cama ou na vida em geral?
Ela - Na vida em geral, claro. Ou achas que eu ia procurar um homem dez anos mais velho que eu só pelo sexo?!
Eu - Sei lá... eu até tenho cerca de dez anos a mais do que tu, não tenho?
Ela - Tens, e pelo que acabas de me dizer pareces mesmo muito inexperiente para a tua idade.

9.23.2011

conversa 1827

Ela - Já sabes que na próxima segunda-feira afinal não posso jantar contigo.
Eu - Não podes?
Ela - Claro que não. Não estou cá.
Eu - Ah! Onde é que vais?
Ela -Se estivesses atento ao que eu digo já sabias que vou a Barcelona.
Eu - Disseste-me que ias a Barcelona? Não me lembro mesmo...
Ela - Disse ontem, quando estávamos a beber cerveja à noite.
Eu - Ah! Mas aí estavam mais pessoas.
Ela - Quando estás com mais pessoas, para além de mim, já não ligas ao que eu digo?
Eu - Não é isso. É que às vezes estão todos a falar ao mesmo tempo e não dá...
Ela - Por acaso, quando eu disse que ia a Barcelona não estava mais ninguém a falar. Tu é que estavas de copo na mão a olhar para a porta do bar, assim meio aluado.
Eu - Ah! Então lembras-te e já sabias que eu não tinha ouvido.
Ela - Calculava...

coisas que fascinam (133)

Lembro-me de ti, Helena

Lembro-me de ti, Helena, e das viagens que fizemos num carro que não saía do lugar. Eu ia rodando o volante para a esquerda e para a direita enquanto imitava o barulho dum motor com os lábios trementes, e tu olhavas para a figueira que nos fazia sombra repetindo que era tudo tão bonito, como se uma árvore pudesse ser uma paisagem fugitiva. Lembro-me de ti, porque sem o seres foste a minha primeira mulher.
Lembro-me de  ti, Helena, e de me pedires para parar mal passássemos  por um café. E depois obrigavas-me a sair daquele esqueleto ferrugento dum Citroën Ami 8 para me sentar num monte de terra e pedir-te uma limonada e um pão com manteiga. Está aqui, dizias tu, que eras empregada do café e viajante ao mesmo tempo, enquanto me punhas uma pedra e uns ramos à frente. A pedra era sempre o café, os ramos eram sempre o pão com manteiga. Eu devorava tudo e dizia que estava bom. Depois seguíamos viagem. Eu a conduzir e tu a olhar para a paisagem.
Lembro-me de ti, Helena, e da forma como me criticavas por conduzir depressa demais enquanto eu deitava sempre a culpa nos outros. Tu dizias-me para eu ir mais devagar, e eu chamava camelo a todos os que nos ultrapassavam. Depois suspiravas de impaciência imitando a tua mãe, eu dizia para teres calma imitando o meu pai.
Lembro-me de ti, Helena. Foste o meu primeiro Amor numa altura em que ninguém sabe ainda Amar, mas mesmo assim foste tu que me ensinaste o que seria a normalidade de uma vida a dois. Lembrei-me sempre de ti quando senti essa normalidade fugir-me. Mas hoje queria só dizer-te que já a tenho, e estou a falar precisamente disso, da normalidade. Há uns dias fui passear com a Raquel e ela pediu-me para parar no primeiro café que encontrássemos. Estacionei numa estrada qualquer do norte do país onde estava uma figueira. Ela perguntou-me o que é que eu queria e eu respondi que queria uma limonada e um pão com manteiga.
Lembro-me de ti, Helena, e como nunca te vi crescer quero dizer-te que para mim ainda és a criança de há trinta anos atrás, e que eu sei que também o sou para ti. Acho até que é bom nunca mais no vermos, Helena, porque só através de ti é que consigo nunca ter crescido. Lembro-me de ti, Helena, e este texto é só para te agradecer a existência.

a história duma centopeia

Compreendo perfeitamente a forma como a Fatyly abraçou a causa da Flávia, cuja história e petição (que eu já assinei) podem encontrar aqui. E compreendo porque pior que a sensação de injustiça é a sensação de impotência. Este post é uma extensão de um pedido que a mesma me fez, e que assim eu faço a quem passa por aqui para que também assine. 

9.21.2011

vai um café?

Recusei, no último post deste blogue, o seguinte comentário:

Serve o presente comentário para o informar que o senhor escreve demasiado mal para o meu gosto. Aconselho-o, por isso, a dedicar-se a outra actividade qualquer menos poluidora da blogosfera. Tem uma escrita forçada e que chega a enervar-me só pela pessoa que imagino estar por trás da mesma. O amor não ter tamanho e ter peso é uma contradição em si mesmo, por exemplo. O que é que eu imagino? Imagino alguém suficientemente arrogante para que nem um café eu aceitasse tomar consigo. 

Publico-o agora, em espaço nobre deste blogue, para informar o caro anónimo autor desta mensagem que o compreendo perfeitamente. A mim também me irrita ler algumas coisas por aí, seja na blogosfera ou noutro sítio qualquer. O que nos distingue é que eu acho que todos, escrevam melhor ou pior, têm o direito de o fazer. Aquilo que defende, que quem não escreve bem não o deve sequer fazer, cai na tendência do darwinismo social. Aquela que defende a sobrevivência apenas do individuo que se adapta melhor ao meio e que foi defendida no século passado pelos... hum... hum... nazis. Nazis, foi isso mesmo. Mas se quiser tentar ultrapassar-se a si mesmo um dia destes e adaptar-se melhor ao que o rodeia, podemos tomar um café quando quiser.

até logo

Amar custa. Pensa isto enquanto sente o beijo dela na testa e a ouve dizer-lhe "até logo" ao ouvido. Já sabe que são seis segundos até a porta bater e os passos dela emudecerem nas escadas do prédio como uma música suave que chega ao fim em fade out. Fica sozinho e repete para o seu silêncio que Amar custa. É uma verdade com a frequência de todas manhãs. Ela sai sempre de casa antes dele, e nessa altura pesa-lhe a solidão.
Amar custa, até porque temos que o fazer. A alternativa é não Amar e isso ainda custa mais. Ele já tentou não Amar algumas vezes e acabou sempre por chegar à conclusão que a vida lhe estava a passar ao lado. Era como se a tentasse agarrar e ela se desfizesse em pequenos grãos de areia entre as mãos. Não Amar custa ainda mais do que Amar, sendo que não há mais nada. Foi o que pensou num desses últimos dias em que decidiu não Amar. Depois aqueceu uma chávena de chá a ver se lhe sentia o sabor.
É desses dias sem sabor que se lembra agora, e de evitar o olhar dos casais apaixonados que passavam por ele na rua. Não queria ver neles aquilo que lhe faltava a ele. O Amor. Quando via duas pessoas num abraço ou num beijo era ainda maior a sua solidão. Talvez não maior, mas mais pesada.  A solidão não tem tamanho, tem peso. Muito ou pouco mas tem sempre algum. Ainda bem. É por isso que às vezes o seu fim está apenas a um metro de distância, por muito pesada que seja.
Ela estava a pouco mais de um metro dele quando, por acaso, os seus olhares se encontraram como o voo periclitante duma borboleta qualquer. Foi por isso que se tornaram a olhar, que as borboletas não voam em cafés cujo ar está viciado pelo fumo do tabaco de pessoas sós. Só podia ser outra coisa qualquer. Talvez Amor, talvez paixão, talvez apenas e tão só a solidão. Um homem sabe lá o que é quando dorme pela primeira vez com uma mulher. Nunca sabe. É tudo uma questão de sorte. Mas foi assim, dormiu com ela sem saber muito bem porquê.
Saíram dali e andaram à deriva pela cidade, a ganhar tempo até que um tivesse a coragem de dar o primeiro passo. Foi ele, que a abraçou depois dela dizer que estava frio. Acabaram na cama dela, onde ele adormeceu com um preservativo ainda pendurado num pénis que não se chegou a vir. Quando o dia clareou ela levantou-se primeiro, vestiu-se para ir trabalhar e despediu-se com um beijo na testa e um "até logo" em segredo. Ele acordou devagarinho, ouviu a porta bater e ouviu os passos dela a desfazerem-se lentamente naquela manhã em que o mundo mudara. Mesmo sem se vir tinha-lhe saboreado os lábios e o corpo. Amar custa. Não Amar custa muito mais. "Até logo", repetiu no seu imenso silêncio. E ficou.

9.20.2011

respostas a perguntas inexistentes (178)

Com o tempo ganhei alguma dificuldade em reconhecer na "minha mulher" aquela que tinha sido a "minha namorada". Cheguei a essa conclusão numa manhã qualquer invernosa, e foi aí que passei a detestar a expressão "minha mulher".
Ela estava a tentar encontrar uma meias num monte enorme de roupa por passar, eu estava  a tentar arrumar o aspirador numa despensa onde já não cabia mais nada. Caíram algumas coisas que estavam amontoadas à sorte naquele pequeno cubículo da casa e eu pedi ajuda. Ajuda aqui! E ela perguntou-me se eu achava que ela podia. Achas que posso?
Vivíamos lado a lado mas não vivíamos juntos. Nem ela me podia ajudar a arrumar o aspirador na despensa, nem eu podia ajudá-la a encontrar umas meias num enorme emaranhado de roupa. Nunca consegui explicar muito bem isso a mim mesmo, mas acho que tudo começou a acontecer quando ela deixou de ser minha namorada para passar a ser minha mulher. Fiquei a olhar para a despensa desarrumada como se aquilo fosse a minha vida, ou seja, demasiadas coisas sem importância a preencher todo o espaço existente.
O que sobrava era tentarmos ter pequenos momentos de privacidade, fosse na casa de banho a ler uma revista ou numa rápida ida ao café da frente para ler as gordas do jornal do dia. Porque esse era o problema de ela ser a "minha mulher" e eu o "marido dela".  Não tínhamos os nossos momentos. Aqueles que são mesmo só nossos. É isso que distingue um par de marido e mulher dum par de namorados.
Quando me divorciei acho que foi a primeira coisa em que pensei. Se me tornar a meter noutra espero que seja com uma namorada para sempre. E repeti para mim mesmo a palavra "namorada", mesmo sem perceber muito bem o que estava a dizer.

9.19.2011

worten sempre... ou quase sempre.


Se não fosse a mania que as mulheres têm de cuscar tudo até ao fim, ontem tinha sido bem enganado na compra de um lcd Samsung na Worten do Norte Shopping. Ir às compras com uma mulher pode ser uma seca, sim, mas também pode ser muito útil. A história aqui.

9.16.2011

pensamentos catatónicos (258)

Eu, homem, cobarde me confesso.

Uma mulher nunca acredita na desculpa que um homem lhe dá quando acaba um namoro com ela. Pode fingir que sim, que acredita. Mas não acredita. A razão é muito simples: nunca é verdade. Só há uma coisa capaz de segurar um Amor, que é Amar, e um homem nunca diz que já não Ama. Tem medo. Não dela, da mulher, mas dele mesmo e da sua incapacidade de viver um Amor a sério. Eu, homem, cobarde me confesso.
As mulheres não entendem porque é que os homens fazem isto, embora saibam que o fazem. Não entendem porque elas fazem-no sem problema nenhum. A mim já mo fizeram. Ela chegou ao pé de mim enquanto eu tinha a chaleira ao lume e disse-me que já não me Amava. O chá levantou fervura e apagou o seu próprio fogo, tal como me acabara de acontecer a mim. Admiro a mulher que fez isso. É de homem, embora apenas as mulheres o façam.
Também já acabei relações, namoros e coisas a que nem sei bem o que chamar. Nunca o fiz da melhor maneira. Uma vezes disse que não me sentia bem e precisava de tempo, outras vezes disse que sou um solitário por natureza. Outras ainda, as piores de todas, escondi-me num manto de silêncio e saí de fininho. Nunca fui capaz de dizer "Não te Amo", embora o tenha ensaiado inúmeras vezes. Eu, homem, cobarde me confesso.
Com a idade aprendi a nem sequer chegar lá, a esse ponto em que se tem que dizer que se Ama ou não alguém. É na mesma uma estratégia fugitiva, uma cobardia, mas pelo menos por caminhos mais transparentes. Esta coisa da obrigação depois do sexo é o mais difícil. Um homem enfia-se na cama duma mulher durante a noite e não sabe o que fazer na manhã seguinte. A estratégia passou a ser esperar pelo sinal dela, para embarcar na sua desresponsabilização do acontecimento ou então para fugir logo. Na primeira vez é legítimo fugir, não é? É. Até se pode dizer que foi bom mesmo que não tenha sido. O verbo ser no pretérito perfeito é mortal. Foi, e o que foi não volta a ser.
O que um homem não aprende com a idade é a não estar apaixonado. As mulheres, por seu lado, já nascem ensinadas. Não estão apaixonadas e esperam calmamente que lhes aconteça. Lêem um livro, vêem um filme, ouvem uma música ou tiram esse tempo da não paixão para dormir. Um homem esperneia na sua imensa solidão. É por isso que finge que se apaixona, a ver se acontece mesmo. Mas nunca acontece. Até um dia, claro, um dia que pode tardar. Nesse dia é o primeiro a dizer que Ama e é quem o diz mais vezes. É de mulher, embora apenas os homens o façam.

9.15.2011

conversa 1826

Ela - Acho que vou procurar um homem com o pénis mais pequeno que o normal.
Eu - O que é que te aconteceu?
Ela - Estou farta. Há homens que pensam que fazer Amor com uma mulher é a mesma coisa que abrir furos para captação de água no solo.
Eu - E tu não sabes dizer a um gajo para ter mais calma e não conduzir até ao fundo do túnel?!
Ela - Sei dizer, sei. Mas há tipos que ficam surdos durante o sexo. O melhor mesmo é começar a admitir apenas viaturas mais pequenas e mais lentas.

eu mudava este português

Adoro Portugal. Tanto, que a única coisa que eu mudava neste país eram alguns portugueses. Sublinhe-se o "alguns", claro. Todos ouvimos falar de um desses portugueses a semana passada, um homem de Valadares que entregou o filho à polícia quando descobriu que ele era homossexual.
Seguiu o filho discretamente numa das suas saídas nocturnas e, quando o viu entrar num bar gay do Porto, chamou a polícia. Como a polícia se limitou a multar o bar por ter deixado entrar um menor, ele entregou mais tarde o filho noutra esquadra dizendo que não o queria.
Eu mudava este português. Anulava-o e punha cá outro melhor. Um qualquer mas que fosse melhor. E quando digo melhor não digo apenas mais inteligente, porque até sou daqueles que acha que a burrice e a estupidez têm remédio.
O que não tem remédio é o desAmor, e quanto mais desAmor houver num país, pior ele é. Um homem que faz isto ao filho nunca foi capaz de Amar ninguém. Nem o filho, nem uma mulher, nem sequer ele mesmo. Nunca percebeu o que é a singularidade de Amar alguém nem porque é que nos apaixonamos por outra pessoa. Simplesmente não o sabe. É uma incapacidade biológica.
Amar alguém não está sujeito a nenhuma moral nem regra. Amamos alguém quando essa pessoa se torna única para nós, e essa unicidade só nós a sabemos explicar. Se não por palavras, nos nossos comportamentos de todos os dias. Num abraço, num beijo, no sexo, numa prenda ou no que for. Essa unicidade não diz respeito a ninguém a não ser àquele ou àquela que Ama. Essa unicidade é isso mesmo, aquilo que nos é único, e que faz um homem poder Amar outro homem ou outra mulher. É igual, é uma escolha de cada um. Mais nada.
Quem não percebe isto é porque nunca foi capaz de Amar. Este homem nunca olhou para uma mulher como a sua unicidade, mas sim como uma pessoa que se incluía no lote de quem lhe estava permitido tocar, por causa duma moral de tanga que só o desAmor sabe dizer. O problema do desAmor é esse mesmo, por um lado é estúpido, o que até poderia ter remédio. Por outro é triste e violento, e isso não tem remédio. Eu mudava este português.

9.14.2011

conversa 1825

Ele - Eu quero ter uma namorada outra vez, mas não quero uma muito bonita.
Eu - Não queres uma muito bonita?!
Ele - Não. Andar com uma mulher muito bonita na rua é mau. Todos os homens olham para ela e eu passo-me. Era o que me acontecia com a última...
Eu - Bem... eu olho para as mulheres bonitas que passam por mim na rua, e gosto de o fazer. Aliás, adoro fazê-lo. Não me importo nada que olhem para a minha namorada. Aliás, fazem-no muitas vezes e eu acho normal. Além disso sou namorado dela, não sou dono dela.
Ele - Olha! Foi isso que a minha última namorada me disse quando acabámos. Que eu não era dono dela e tinha a mania que era.
Eu - De qualquer maneira o que me faz mais confusão é tu conseguires namorar com uma mulher sem lhe conseguires dizer que a achas bonita.
Ele - Isso é fácil. Basta estar calado.

9.13.2011

conversa 1824

Eu - Tenho que ir embora. Tenho uma casa para aspirar...
Ela - Esse ar de chateado é por causa disso?
Eu - Sim, aspirar é a pior tarefa doméstica. Não me importo de passar roupa a ferro, limpar casas de banho ou lavar louça, mas aspirar chateia-me.
Ela - Mas porquê?
Eu - Acho que é por causa do barulho do aspirador. Não posso ouvir música enquanto aspiro...
Ela - Ah! Comigo é exactamente o oposto.
Eu - O oposto?
Ela - Sim. O barulho do aspirador não me deixa discutir com o meu marido. Pelo menos enquanto aspiro tenho paz e sossego.

pensamentos catatónicos (257)

o princípio do fim das cartas de Amor

Lembro-me de estar a olhar para as folhas de papel amarfanhadas e espalhadas pelo chão. Era como se cada uma delas fosse um monumento à minha timidez de adolescente e à minha incapacidade de escrever um "Amo-te" convincente. Estava nesse dia a construir a minha primeira carta de Amor. Quando finalmente a terminei, analisei-a letra a letra primeiro e à distância depois. Escrever essa carta durou uma noite inteira e foi como partir pedra.
Li há uns tempos que mais de quarenta estados norte-americanos deixaram de exigir às suas escolas primárias que ensinem a escrita manuscrita. Em vez disso, ensina-se a escrever em letra de imprensa e principalmente em teclados de computador. É a vitória da tecnologia sobre a arte da caligrafia e é também o princípio do fim das cartas de Amor.
A caligrafia tem o nosso nervo. Através dela é possível adivinhar se estamos nervosos, calmos, felizes, tristes ou apaixonados, isto muito antes de começar a ler. Escrever "Amo-te" num computador é a mesma coisa que dizê-lo numa voz gerada automaticamente num programa de computador. Falta-lhe a emoção, falta-lhe a alegria e a lágrima no canto do olho. Enfim, falta-lhe tudo. É uma pena.

9.12.2011

conversa 1823

Ela - Detesto farmacêuticos.
Eu - Porquê?
Ela - Fui ali comprar uma embalagem de comprimidos para as dores que tenho nas costas e ele mandou-me tomar um depois do pequeno-almoço, outro depois do almoço e outro depois do jantar.
Eu - Qual é o mal?
Ela - Quando é que eu vou conseguir emagrecer? A fazer três refeições por dia nunca mais...

respostas a perguntas inexistentes (177)

estar bem

Que "está bem", diz ela. Tem um emprego que lhe dá para pagar a casa que sobrou dum divórcio recente, para comer e andar com as contas mais ou menos em dia. E repete, enquanto faz uma pausa no café do pequeno-almoço, que "está bem". Eu sorrio-lhe, mas ela sabe que o meu sorriso não é de concordância. "Estar bem" não é isso. "Estar bem" é outra coisa, que não tem nada a ver com o cumprimento de deveres legais ou financeiros.
Passei alguns anos, talvez oito ou nove, sem a ver. Depois encontrei-a uma vez por acaso no cinema. Estava sozinha e eu também. Ela acabada de se divorciar e sem saber muito bem onde pôr os pés no pântano em que a sua vida se tornara, eu apaixonado pela primeira vez depois da minha separação. O divórcio dela estava ali, bem presente em toda a ânsia dos seus gestos, enquanto o meu já não passava de um ponto escuro na linha do horizonte. Nessa altura ela não "estava bem" e via-se, e eu sei que é por isso que hoje ela insiste que "está bem". Não "está bem", mas pelo menos já não se vê.
Pergunta-me, enquanto se assoa a um lenço vermelho, porque é que sorrio. É que "estar bem" é estar como nos apetece, não como conseguimos estar. A mim, por exemplo, apetecia-me estar com quem Amo a beber uma garrafa de vinho e a comer figos. Não estou, mas logo à noite vou estar, porque é assim que me apetece "estar bem" no dia de hoje, uma condição da vida que passa sempre pelo Amor e não pelo desAmor.
O desAmor é o desgaste do tempo no Amor. O mesmo que o vento ou o mar fazem numa rocha qualquer. Lento, cruel e imperceptível. Foi ela quem mo disse. Apaixonou-se, casou-se e teve filhos. Com os anos viu o olhar meigo do marido transformar-se num olhar de ódio e as suas palavras doces petrificarem com esse ódio. É a lenta metamorfose de quem não consegue nem sabe Amar. Pensou que ia viver sempre assim, nesse clima de guerra fria, até ao dia em que lhe morreu alguém e se deu conta que só se tem uma vida.
Olho para o fundo da minha chávena vazia. Gosto de ver as marcas que o café vai deixando à medida que o bebemos, com níveis e intensidades diferentes. Insisto que ela não "está bem". Pensa que está mas não está, e só lho digo assim, desta forma crua, porque não quero que ela se fique por aqui. O Amor transforma-se em desAmor e o desAmor em Amor novamente. Só temos que perceber que a felicidade não se resume às nossas contas da luz, do gás, da água e o que mais houver. Temos que perceber isso... e às vezes apagar as marcas que nos ficaram para trás. Acho que "estar bem" é só isso.

9.11.2011

conversa 1822

(num bar)

Ela - Desculpa. Não te cumprimentei porque não te estava a conhecer. Vi-te há bocado mas nunca pensei que fosses tu.
Eu - Não faz mal. Tudo bem.
Ela - É que olhei primeiro para os teu pés e vi umas sapatilhas. O meu cérebro afasta automaticamente do grupo dos meus amigos qualquer homem que saia à noite de sapatilhas.
Eu - Hum... comprei estas esta semana numa promoção. Estavam a menos de dez euros e gostei delas...
Ela - Ainda pior. Não me devias ter dito isso.
Eu - Porquê?
Ela - Nunca se diz o preço da roupa que se está a usar.
Eu - Desconheço essa regra de etiqueta, sinceramente. Mas tu é que começaste a falar das minhas sapatilhas...
Ela - Mas porque é que raio vieste para aqui de sapatilhas?
Eu - Porque não gosto de andar descalço na rua. Mas até acho que isso é normal.
Ela - Bem, se calhar ainda nos cruzamos por aí esta noite. Até já.
Eu - Até já.

mulheres que eu gostava de poder não compreender (84)



nome: Elena Poulou
origem: Inglaterra
info: É a actual teclista dos The Fall e vocalista secundária, precisamente por trás do sortudo do seu marido, o líder espiritual desta banda de Manchester. Não é só bonita, a Elena Poulou. Tem também assim qualquer coisa em palco que me seduz. Acho que é o ar de mau feitio. Neste vídeo, num concerto na minha querida cidade de Oslo em 2006, ela é especialmente focada.

ei! best blog here. cool!

A Cármen deu-me um ramo de flores num dia em que eu estava de cama com gripe e, para a além de a identificar, é suposto dizer sete coisas sobre mim. É estranho, porque a confusão que é este blogue acaba por ser toda sobre mim, por isso só considero legítimo referir aspectos técnicos, daqueles que o sendo não deixam dúvidas.
1] Estou apaixonado pela Raquel.
2] Sou de esquerda e estou convencido que um modelo económico baseado no marxismo é o mais justo e melhor para todos.
3] Quem acompanha este blogue já o sabe, mas Sult foi o filme que mais me marcou até hoje e podem baixá-lo gratuitamente (com legendas em inglês) aqui.
4] Já gostei de futebol mas actualmente não consigo ver um jogo inteiro e não sei nadinha sobre o assunto, o que me deixa de fora em algumas conversas entre amigos.
5] Faço colecção de objectos antigos e tenho em casa coisas como um ferro de passar a roupa a carvão, um quadro do menino que chora antigo, máquinas de filmar super 8, notas e moedas, brinquedos, etc, etc...
6] Neste momento só tenho a RTP2 sintonizada em casa, isto depois de ter estado sem televisão uns meses.
7] Adoro bacalhau assado com batatas, cenouras e couves cozidas, azeite q.b. e broa. 

9.08.2011

conversa 1821

(ao telefone)

Ela - Desculpa, mas hoje não posso ir ter contigo. Não me apetece sair de casa.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Está. Estou cheia de dores por causa daquela coisa que as mulheres têm todos os meses.
Eu - O período?
Ela - Sim.
Eu - Tudo bem. Tomamos um café para a semana...
Ela - É horrível ter que passar por isto todos os meses.
Eu - Deixa lá. Deves estar quase na menopausa.
Ela - Isso é para me animar?
Eu - Se achas horrível ter o período...
Ela - Se calhar nem para a semana tomamos café. Não te quero ver durante muito tempo.
Eu - Como tens quase cinquenta anos...
Ela (desliga)

respostas a perguntas inexistentes (176)

egoísmo 



Acho que há uma boa razão para eu nunca ter sido bom de Amores. É que sou um gajo egoísta e o egoísmo não se dá bem com Amor nenhum. Não estou a falar daquele egoísmo de quem quer tudo o que vê nas mãos dos outros, estou a falar daquele egoísmo de quem quer o seu tempo e os seus pensamentos só para si. É uma merda, eu sei, mas sou assim. Fui sempre assim. E o Amor costuma acabar no sábado à tarde em que optamos por ficar em casa a organizar os cd's por ordem alfabética em vez de ir passear com quem Amamos. Não é que acabe logo, mas acabará por certo uns dias depois.
O problema deste tipo de egoísmo é que nem sequer o conseguimos perceber, e por isso também não sabemos bem por que motivo não queremos estar com quem Amamos. Inventamos desculpas estúpidas em que ninguém acredita. Nem sequer nós mesmos, e vamos sufocando nelas e na nossa hermética solidão.
É por isso que Amar nunca chega para que um Amor se dê. Amar é apenas o princípio. Depois é preciso sermos capazes de nos ultrapassarmos. De sermos um bocadinho melhores do que fomos até então, e isso passa por deixar de esperar que as coisas aconteçam para fazer com que elas aconteçam de facto. Nenhum Amor existe só por si, e quem acreditar nisso vai esperar pela felicidade como um burro que corre atrás da cenoura.
Foi a Raquel que me ensinou isto, ou talvez a vida. Sei lá. É que neste momento a Raquel e a vida são a mesma coisa. É por isso que não espero nada dela. Antecipo-me tentando vivê-la, a ela e à vida, acreditando que ela me vive a mim. Perdi o egoísmo, pelo menos parte dele. O tempo, aquele tempo que eu sempre quis só para mim com os meus cd's organizados por ordem alfabética, não existe. Nunca existiu, porque não pode existir um tempo só nosso. O tempo e a solidão não fazem sentido.
Lembrei-me disto hoje de manhã, porque queria ouvir "You and Your Sister" dos This Mortal Coil antes de sair de casa e não encontrei o cd a tempo. Com os minutos que perdi, acabei por nem sequer tomar o pequeno-almoço para conseguir apanhar o comboio. Primeiro enervei-me, sem perceber que o tempo que eu não tenho para organizar os cd's é o tempo que eu tenho para Amar.
You say my love for you's not real, but you don't know how real it feels. All I want to do is to spend some time with you, so I can hold you, hold you...

9.07.2011

esta preta foi de boa para melhor

A nova publicidade da cerveja moçambicana Laurentina Preta está a causar celeuma naquele país africano. Uma garrafa em forma de mulher, com o símbolo da cerveja na genitália, é apresentada ao lado da frase: "esta preta foi de boa para melhor".
É verdade que o consumo de álcool está culturalmente ligado a uma certa masculinidade, e recordo-me de há poucos anos a cerveja Tagus, em Portugal, ter feito uma publicidade quase tão estúpida quanto esta, em que se afirmava como uma cerveja para heterossexuais. Chamava-se Orgulho Hetero.
A estupidez da Tagus não foi apenas partir do princípio que só os heterossexuais é que bebem cerveja. Foi também não perceber que ser heterossexual não significa ser estúpido. A estupidez da Laurentina não é apenas partir do princípio que só os homens é que bebem cerveja. É não perceber que ser homem não significa ser estúpido.

OsLove

Gosto que a Raquel me pergunte sobre o futuro. Preciso que a Raquel me pergunte sobre o futuro. Hoje quero ter a certeza que amanhã vou estar com ela. É isso o Amor. É isso uma viagem, seja a Oslo ou a uma vida inteira.
Desembrulhei este fim de semana a prenda que ela me deu quando fiz quarenta anos. A vantagem de se receber uma viagem é que, apesar de já sabermos o que é, não sabemos o que está lá dentro. As cidades são assim, primeiro são vistas por fora e depois vão-se revelando por dentro a pouco e pouco. Como uma prenda, como uma mulher, como todos nós. À medida que as penetramos.
O resto é uma questão de pele. E de repente somos só nós, eu e a Raquel numa cidade que nos é estranha e que nos estranha. E é tão bom ser estranho quando se Ama alguém. Ficamos sós no meio de tudo e de todos. Um eléctrico que calcorreia triste a cidade, um bêbado que tenta manter em pé o que lhe resta de dignidade, uma criança que me pede para lhe passar uma bola de futebol ou um segurança que nos explica que um museu está fechado ao público. Ninguém sabe que a cidade nos vai sorrindo em segredo. Ainda bem. Sou só eu e a Raquel. Depois há os outros. Os outros.
Escolhe três museus, diz ela. E eu escolho. É uma certeza para o nosso futuro próximo. Sorrio. O das Forças Armadas, o dos barcos Viking e a Galeria Nacional de Arte. Ela acrescenta o museu do Munch, o Kon-Tiki, o Parque Vigeland e o IceBar. Vamos a todos menos ao do Munch, o tal que estava fechado. Entre as visitas dividimos umas sandes, uma garrafa de água e alguma fruta que comprámos num supermercado. Digo-lhe que a Amo uma vez mas penso-o centenas. Talvez milhares ou, de facto, só uma. Uma que se prolonga por cada dia inteiro. Depois cai a noite.
Subimos ao telhado da Ópera House, ao futuro do que foi o nosso dia. A nossa comida dividida, as nossas mãos dadas. Ainda cá estamos. Oslo também. Amanhã acordamos juntos.

9.06.2011

hoje

Hoje ainda não te disse que te Amo. Digo agora, está bem?

pensamentos catatónicos (256)

Suplementos

Vi hoje, no metro do Porto, um anúncio a um suplemento alimentar para reduzir o colesterol. Depois abri o jornal e vi outro a um suplemento para quem anda cansado e sem energia. De manhã já tinha ido ao supermercado comprar leite e rido com uma marca que traz mais cálcio do que o normal, diz a embalagem que para fortalecer melhor os ossos. Nos iogurtes é preciso tirar um curso para perceber o que cada um deles faz e que não é normal fazer. Há iogurtes para o coração, para os ossos, para os nervos e para o raio que o parta. O problema é que são tudo suplementos, como se a vida e a Natureza só por si não fossem suficientes.
Eu reduzi o colesterol a comer menos carne e mais legumes. Foi só isso e chegou. Quando quero emagrecer é o que eu faço também: como menos. Sou contra os suplementos no que quer que seja. As embalagens com suplementos dizem-nos que resolvem os problemas todos sem esforço, mas isso é mentira. No fundo ainda bem que é mentira, porque senão não éramos sequer obrigados a tomar conta de nós, e é a cuidar de nós que ganhamos algum Amor próprio.
Por falar em Amor, é nele que também sou contra os suplementos. Não há nada que resolva o Amor entre duas pessoas a não ser o facto de se Amarem realmente uma à outra. Às vezes também há quem ache que um ou outro suplemento pode ajudar uma relação, seja ele dinheiro, submissão ou hipocrisia. Não ajuda. Em tudo devíamo-nos deixar de suplementos e cuidar de nós. Cuidar de nós mesmo a sério. Era só isso.

9.05.2011

conversa 1820

Ela - Tenho um bocado de ciúmes da mulher do meu ex-marido.
Eu - Porquê?
Ela - Acho que ele a trata muito melhor a ela do que me tratou a mim durante o tempo em que fomos casados.
Eu - Achas mesmo?
Ela - Acho.
Eu - Isso, se calhar, é normal.
Ela - É normal?
Eu - Sim, ele agora está mais velho e já deve ter aprendido alguma coisa.
Ela - Não se isso é assim...
Eu - Acho que é, mas não quer dizer que seja sempre.
Ela - Eu, por exemplo, estou mais velha e não trato melhor o meu actual marido.
Eu - Se calhar é porque não aprendeste nada.
Ela - Ou então porque já sabia tudo.
Eu - Ou isso...

respostas a perguntas inexistentes (175)

a árvore

Na minha rua há uma árvore que é despida antes de todas as outras pelo vento. Todos os anos sem excepção. Quando faço um café quente e me dou ao luxo de parar na janela da sala para o beber, fico a olhar para os seus ramos magros e nus enquanto aqueço as mãos na chávena. Nunca percebi se ela se sente orgulhosa ou envergonhada da sua nudez prematura.
Sei que a mulher que eu Amo é assim, sólida como aquela árvore. Há uns dias, por exemplo, adormeceu ao meu colo durante uma viagem de avião e eu mantive-me quieto todo o voo para não a acordar. Ela não sabe que me senti o homem com mais sorte do mundo por poder respirar-lhe o sono. Nem lho vou dizer, claro. O sono dos outros é o que de mais precioso podemos ter e, por isso mesmo, costumo tapá-lo com um doce manto de silêncio. Prefiro dizer-lhe simplesmente que a Amo.
Do verbo Amar tenho só a certeza que sopra sempre como o vento. E é isso que vou fazendo...

9.01.2011

10 coisas que já fiz por estar na crise dos quarenta

1] Passei a comprar champô contra a queda do cabelo.
2] Deixei de comprar lâminas de barbear das mais baratas, para não ficar com a cara toda arranhada quando faço a barba.
3] Deitei a minha querida t-shirt do Calvin, que estava rota em vários sítios, no lixo.
4] Usei, pela primeira vez na vida, um perfume para homem daqueles caros em vez duma água de colónia baratucha do Lidl.
5] Aparei os pêlos do nariz e as sobrancelhas.
6] Passei a cortar as unhas com um corta-unhas em vez de as roer no escurinho do cinema.
7] Comprei um frasco de hidratante para a pele.
8] Passei a comer mais gelatina por causa do colagénio.
9] Inscrevi-me na natação e prometi a mim mesmo fazer pelo menos uma sessão por semana.
10] Iniciei um registo semanal com o meu peso e perímetro abdominal. Bem... para ser sincero ainda não iniciei mas estou a contar fazê-lo a partir da próxima semana.

conversa 1819

(na minha casa)

Ela - O sacana do meu ex, quando nos separámos, ficou-me com este cd dos Radiohead que tens aqui. Gravas-mo?
Eu - Gravo, mas porque é que não lho pedes a ele?
Ela - Porque lho ofereci num aniversário.
Eu - Ah! Então não ficou com ele. Já era dele, que é diferente.
Ela - Sim, mas eu ofereci-lho quando ainda não estava a contar separar-me e porque assim também era meu e podia ouvi-lo. Afinal de contas, quando se é casado tudo o que é dum também é do outro.

quatro

Em primeiro lugar uma meia verdade que não é uma meia mentira: a violência doméstica atinge ambos os géneros. Agora uma verdade inteira: as mulheres são as principais vítimas da violência doméstica. Em menos de uma semana foram assassinadas quatro em Portugal.
A violência doméstica precisa de dois ingredientes: uma vítima e um cobarde filho da puta. Foram esses dois ingredientes que se misturaram nestes quatro casos e que se misturam continuadamente um pouco por todo o país.
A vergonha é a máscara que encobre este tipo de violência, e é ela que devia estar só do lado do agressor. Mas não está por uma razão muito simples: os cobardes filhos da puta não nunca têm vergonha. Tenho dito.

8.31.2011

coisas que fascinam (132)

a paixão dá-se pelos peidos

Quem escreve sobre o Amor por uma mulher tem a mania de escrever sobre os olhos de quem Ama, sobre os cabelos, os seios ou o coração. É esse o erro da literatura sobre o Amor. Gostar do olhar duma mulher, dos seus cabelos ou seios é fácil. O coração então é mesmo algo que não leva a lado nenhum. Não prova nada, não quer dizer nada. O coração, tal e qual como é falado no Amor, é o abstracto. É uma bóia de salvação para quem está oco das ideias. "Como não sei o que te hei-de dizer, vou-te dizer que te amo do fundo do coração".
A paixão dá-se pelos cotovelos, pelos calcanhares, pelas orelhas, pelo ranho dos espirros, pelos arrotos e peidos. Quando Amamos isto numa mulher então Amamos mesmo essa mulher. "Eu Amo-te porque se deu a coincidência de gostar de tudo isto em ti. O resto, as mamas, as pernas, os cabelos e o cheiro a primavera, claro que também gosto. Mas disso gostaria sempre, mesmo que não gostasse de ti".

respostas a perguntas inexistentes (174)

Não vim aqui durante algum tempo por uma razão muito simples: quis aproveitar ao máximo os últimos dias de férias da minha filha e decidi ficar só com ela. Ficar só com ela significa que não perdi tempo a navegar na internet, não saí para estar com amigos e nem sequer fui a casa da minha namorada. Não fiz mais nada a não ser passear com ela, pôr a conversa de pai para filha em dia, fazer-lhe os almoços e os jantares, ensiná-la a filmar e levá-la ao cinema.
Uma pessoa pode estar com outra uma vida inteira, mas se não estiver a sós com ela de vez em quando é porque nunca está verdadeiramente com ela. É uma das manias que o Amor tem, não querer dividir a atenção por mais ninguém. Não se pode Amar e fazer outra coisa ao mesmo tempo, e é por isso que eu gosto de estar também a sós com a Raquel. Estar a sós com alguém é uma prova de Amor, porque não o conseguimos fazer com quem não gostamos verdadeiramente.

8.25.2011

conversa 1818

(na cozinha)

Ela - Abre a porta do terceiro armário a contar da esquerda, por favor.
Eu - Já está.
Ela - Agora, na prateleira do meio, tens quatro pacotes. O primeiro é de açúcar, o segundo é de farinha, o terceiro é de arroz e o quarto é de massa. Traz-me o terceiro, ou seja, o de arroz.
Eu - E porque é que não me pediste logo para te passar o arroz?
Ela - Eu até pedia, mas tu ias perder meia hora só a procurá-lo. Depois eu ia dizer-te que estava nesse armário, tu ias abri-lo e não o conseguias ver, e quando me respondesses "não está aqui nada!" eu ia ficar nervosa e gritar contigo. Assim é mais rápido e evita-me dissabores...
Eu - Epá...
Ela - Traz-me também uma mini, por favor.
Eu - E não me queres explicar onde estão as minis?
Ela - Essas eu sei que tu sabes. Vais lá direitinho...
Eu - Estou-me a sentir um idiota.
Ela - Mas é ou não é verdade que nunca encontras nada do que eu te peço a não ser que seja cerveja?
Eu - Maisssssoumenossssss!
Ela - Sim, e vinho também.

8.24.2011

conversa 1817

(na praia)

Ela - Esta praia é mesmo bonita, não é?
Eu - É. Estás a falar da praia ou das pessoas que a frequentam?
Ela - Da praia, claro, e tira os olhos dessa morena para quem passaste a manhã toda a olhar.
Eu - Qual?
Ela - Essa que está com aquele mulato que é só músculo.
Eu - Não me digas que passaste a manhã toda a olhar para ele.
Ela - Estava a tentar descobrir a mulher para quem estavas a olhar e bati com os olhos nele. O que é que queres?
Eu - Não quero nada. Esta praia é mesmo bonita, não é?
Ela - É. Por acaso é.

coisas que fascinam (131)

o engolidor de fogo

Há duas maneiras de enfrentar um desaguisado com alguém: engolir ou cuspir. De facto, quem não quer discutir tem sempre a opção de engolir a sua própria opinião e contornar o problema. Eu prefiro sempre discutir, para que um dia mais tarde não tenha nada atravessado na garganta.
Foi o que me aconteceu hoje com a Raquel. Ela queria alugar um barco para passearmos com os miúdos na praia, eu não queria alugar nada. A minha opinião é que os putos, que estas férias já tiveram direito a um parque aquático, a doces todos os dias, a uma piscina e a uma praia, começam a ficar mimados e perdem a noção da realidade. Acho um perigo uma criança considerar que tudo está garantido à partida.
A Raquel até concorda comigo, por isso já tinha posto uma regra à compra de doces e impôs-lhes um limite de um euro por dia para um gelado. Quem quer comprar um gelado de €1,90, por exemplo, tem que andar nove dias a comer gelados de €0,90. Agora deu-lhes a escolher entre esse doce diário e o aluguer de barco. Ele abdicaram dos doces até ao fim das férias.
A discussão acabou, e quando digo que acabou é porque acabou mesmo. De vez. Chegámos a um acordo e não voltámos para casa chateados um com o outro. Já tive relações em que isto era impossível, e não estou a fugir à responsabilidade. Eu próprio já fui um engolidor de fogo, que é o que eu chamo a quem engole discussões. Aprendi isto com a idade. Não há Amor que resista à não discussão constante.

8.22.2011

conversa 1816

Eu - Meu Amor, preciso que me prometas uma coisa.
Ela - O quê?
Eu - Se algum dia reparares que eu estou careca no topo da cabeça, por favor, diz-me.
Ela - Porquê?
Eu - Para eu rapar o cabelo completamente. Não quero andar com o cabelo grande e uma roda careca lá no meio.
Ela - És um optimista.
Eu - Porquê?
Ela - Acreditas que vamos estar juntos quanto começares a ficar careca.
Eu - E não vamos?
Ela - Vamos, a não ser que me apareças com o cabelo grande e uma roda careca no topo da cabeça.
Eu - Por isso é que te estou a pedir para me avisares.
Ela - Se eu te tiver que avisar é porque já te vi assim...
Eu - Faço o quê?
Ela - Vê-te ao espelho com cuidado.

8.19.2011

o ponto zero

Conheci a Raquel num mês de Novembro. Gostei dela. Costuma ser sempre assim quando nos apaixonamos. Conhecemos alguém e gostamos. É só isso e não tem muito mais que dizer. Esse é o princípio ou, se lhe preferirem chamar assim, o ponto zero.
Fui com a Raquel pela primeira vez à praia em Junho do ano seguinte. Esticámos as toalhas e automaticamente começámos os dois a limpar as beatas escondidas na areia. Os dois odiamos beatas na areia e isso foi apenas mais uma das coisas que nos uniu depois do ponto zero. O ponto zero é importante porque acontece, mas tem o valor zero se a seguir não houver mais nada.
Todos os anos, numa acção que consideramos pedagógica, pedimos aos nossos filhos que limpem uma área da praia onde estamos e coloquem no lixo todas as beatas que encontrarem. É pedagógico porque os ensina que o pouco lixo que nós fazemos é essencial para o muito lixo que existe, e é pedagógico porque lhes ensina que podemos fazer alguma coisa por nós... e pelos outros. Hoje, por exemplo, apanhámos dois montes iguais a este só na zona das nossas toalhas.
As praias portuguesas de norte a sul estão cheias de lixo, principalmente beatas, porque o país também está cheio de ignorância. Quem deita uma beata na areia não se apercebe que está a contribuir para um problema ambiental grave. É que para além do nojo em si, a decomposição de um cigarro deixa vários metais pesados que contaminam o solo e a água.
Há um ponto zero que nos une a todos nós, aqueles que como eu não conseguem viver sem ir à praia. Devíamos ter alguma coisa a seguir a isso, tipo deixá-la exactamente como a encontramos. Mas não temos. É uma pena.

8.17.2011

preservativos

Precisei de chegar aos quarenta anos para corar durante uma compra de preservativos. Num supermercado estava uma senhora a promover uma marca, tal como acontece muito com iogurtes ou sumos, mas que eu nunca tinha visto na secção de preservativos e afins. Aproximou-se de mim e perguntou-me se eu queria experimentar a marca dela, até porque tinha também vários tipos de lubrificantes. Abriu um deles e deu-mo a cheirar. A mim aquilo cheirou-me àquelas árvores de Natal aromáticas que se penduravam nos espelhos retrovisores dos automóveis nos anos 80, e disse-lhe que não era cheiro que me levantasse a libido. Ela respondeu-me que para levantar fosse o que fosse não era com cheiros. Corei, sorri, e comprei outra marca.

férias II

É na férias que nos apercebemos que há muito tempo que o silêncio nos abandonou, e que vivemos constantemente ao lado do ruído. Não estou a falar apenas do ruído sonoro, embora também, mas sim de todo o tipo de ruído. O ruído de ter um comboio para apanhar, um trabalho para acabar ou uma hora para acordar. Há sempre qualquer coisa entre nós e o mundo, qualquer coisa que não nos deixa aproveitá-lo. De tal forma que já nem nos apercebemos disso.
O ruído da vida é muito parecido com o ruído do Amor. Aquele ruído que nos faz esquecer da importância da pessoa que está ao nosso lado, aquela que divide a vida connosco. Quando nos deixamos de aperceber que o ruído é isso mesmo, apenas um ruído, e ele passa a fazer parte da nossa normalidade, passa a estar sempre entre nós e o... Amor.
É assim, com ruído, que uma vida inteira pode passar sem ser vivida. É assim, com ruído, que um Amor grande pode passar sem ser Amado. É o pior e o mais injusto que nos pode acontecer, e só por isso já devia ser obrigatório haver uma regulamentação do trabalho para que todas as pessoas, sem excepção, tivessem direito a intercalar o trabalho consigo mesmas.

8.15.2011

férias

Podermos usufruir do nosso próprio tempo não é um luxo, é o que devia ser normal. Mas não é. Infelizmente, e sublinho o advérbio infelizmente, a maior parte dos portugueses já nem sabe o que é isso de poder ter algum tempo só para si. Eu ainda tenho de vez em quando. Chamo-lhe férias, e é um período em que, podendo disponibilizar o meu tempo da maneira que mais gosto, disponibilizo-o o mais possível à minha filha, aos meus enteados e à minha companheira.
Entrei hoje oficialmente de férias e vou descer o país até ao Algarve agora mesmo. Como este tempo é o meu tempo virei com menos regularidade à internet. Mas virei na mesma. Pelo menos uma vez por dia, para que uma parte do meu tempo seja também daqueles que aqui vêm de vez em quando e que, ao fim e ao cabo, também são importantes para mim.

conversa 1815

(no meu carro)

Eu - Irritam-me um bocado, estes gajos que andam tão devagarinho que nos fazem andar com o focinho do carro colado à traseira deles.
Ela - Tem piada, a mim irritam-me os gajos que se colam atrás de mim.

pensamentos catatónicos (255)

O Amor mesmo e o quase Amor

Há dois tipos de felicidade: a felicidade que se quer ter e a felicidade que se consegue ter. A felicidade que se quer ter é sempre a felicidade do Amor, a felicidade que se consegue ter é a felicidade do quase Amor. Sim, porque o Amor tem a mania de querer ser quase ele mesmo.
É muito fácil distinguir o quase Amor do Amor mesmo. O quase Amor acaba sempre bêbado, às tantas da manhã, num bar qualquer da cidade. O Amor mesmo acaba sempre na cama e tendencialmente sóbrio. Sim, porque a sobriedade é outro dos defeitos ou efeitos do Amor mesmo, e um defeito ou efeito tão grande que para sentirmos que Amamos temos que nos embebedar.
Há pessoas que passam a vida a quase Amar. É uma pena mas também é verdade, e é uma pena porque essas pessoas são a maioria. É como na política, acho eu. A maioria das pessoas é quase qualquer coisa que não sabe muito bem o que é, mas é como o quase Amor, ou seja, sempre uma merda. As pessoas que quase Amam acabam por mandar nas pessoas que amam mesmo. Não percebem é que as pessoas que Amam mesmo, por Amarem mesmo, se estão nas tintas para elas.
Eu recuso-me a ser seja o que for se for apenas quase. Tenho uma certeza na vida e só uma: o Amor não pode ser quase nada, tem que ser tudo. E acredito tanto no Amor mesmo que me recuso a viver um quase Amor, que é com quem diz um Amor mau. Se todos rejeitássemos a palavra quase, acho que vivíamos num mundo melhor. Ou quase...

8.12.2011

conversa 1814

Ela - Olá! Estás bem?
Eu - Sim, obrigado.
Ela - E a tua filha, está bem?
Eu - Sim, obrigado.
Ela - E a tua namorada, está bem?
Eu - Sim, obrigado.
Ela - E então?
Eu - Então o quê?
Ela - Não me vais perguntar, ao menos, se eu também estou bem?

respostas a perguntas inexistentes (173)

Química

Não fazemos a mínima ideia quem são aqueles com que nos cruzamos todos os dias. O homem atrás de nós na fila do supermercado, a mulher que senta ao nosso lado no cinema, o idoso que nos pede um lugar sentado no comboio ou a criança que no diz adeus pelo vidro dum automóvel qualquer. Podem ser assassinos em série, ateus ou pastores da Igreja Universal, comunistas ou fascistas, que nunca sabemos. A única certeza que podemos ter é que cada uma dessas pessoas tem uma vida tão grande e complexa como a nossa. E isso só por um motivo: o Amor. Todos nos apaixonamos às vezes e desapaixonamos outras, e a nossa vida acaba por andar à volta disso.
Com o tempo percebemos que as pessoas por quem nos apaixonamos vêm sempre desse enorme e imprevisível grupo. Um homem pode viver com uma mulher dez ou vinte anos e um dia tem uma surpresa. Não a conhecia o suficiente e por algum motivo deixa de gostar dela ou ela dele. É que nunca sabemos também, de facto, por quem nos apaixonamos nem quem levamos para a cama. É nessa altura que vem outra surpresa ainda maior: nem sequer a nós próprios nos conhecemos.
Somos sempre mais frágeis e vulneráveis do que pensávamos. Toda a estrutura que tínhamos como certa desaparece de repente deixando-nos a espernear num vácuo de emoções. É assim a primeira desilusão do Amor. Passa-se do tudo ao nada à velocidade da luz.
O vácuo dá-nos uma dose brutal de realidade ou, se preferirem, de humildade. Afogamo-nos na nossa própria condição humana de que somos apenas matéria e o resultado de inúmeros processos químicos que nela se dão. É assim que amamos, choramos e rimos, ao sabor das substâncias químicas que correm no nosso corpo como um rio. Ora calmo, ora agitado.
Foi nesse rio que esbracejei para tentar alcançar uma margem qualquer, nadando contra correntes sem direcção. Tentei desprezar o Amor e reduzi-lo a isso mesmo: uma equação química qualquer. Acho até que o consegui durante algum tempo, mas nem por isso deixei de me sentir náufrago. Até um dia em que essa equação se tornou maior do que eu. Apaixonei-me outra vez e abandonei por um momento o contexto materialista da vida. Voltei a sentir o sorriso como felicidade e o choro como tristeza. A Raquel era a Raquel e não uma lógica qualquer que já nem sei explicar.
Ainda bem que nunca fui grande aluno a Ciências. Não nos conhecermos não faz mal nenhum. Afinal, mais coisa menos coisa, somos todos o mesmo.

8.11.2011


Um miminho da Sofia, que eu agradeço.

8.10.2011

conversa 1813

Ela - Tenho que mudar de vida.
Eu - Mudar de vida?
Ela - Sim, ando muito aérea e estou a deixar passar os poucos dias de férias que tenho.
Eu - Ah!
Ela - Deito-me tarde todos os dias porque fico a ver séries na televisão, depois durmo a manhã toda e nem à praia vou.
Eu - E vais ficar por Aveiro?
Ela - Sim, não tenho dinheiro para ir para lado nenhum. Nem dinheiro nem namorado...
Eu - Quantos dias de férias ainda tens?
Ela - Começo a trabalhar no dia 23.
Eu - Então é fácil. Só tens que deixar de ver televisão e de manhã ir para a praia.
Ela - Sim, é isso mesmo que tenho que fazer.
Eu - Mas é já, senão perdes as férias todas.
Ela - Exacto. Começo daqui a dois dias sem falta, que hoje dá uma série que eu gosto muito.

alarmes

Se há coisas que me tiram do sério são aqueles alarmes altíssimos instalados nos automóveis que disparam por tudo e por nada. Não percebo como é que alguém se pode achar no direito de acordar a vizinhança toda durante a noite ou, se for durante o dia, pôr-lhe os nervos à flor da pele só porque supostamente lhe estão a roubar o carro.
Roubar um automóvel é injusto? É sim, mas eu posso enumerar uma quantidade enorme de situações mais injustas neste mundo que não levam alarme nem acordam ninguém. A fome, por exemplo. Se cada estômago que entrasse na fase da fome disparasse um alarme tinha muito mais lógica. Mas não, isso não acontece. São sempre a merda dos automóveis, normalmente desportivos foleiros que pertencem a parolos que os tratam melhores a eles do que à família e aos amigos.
Esta noite cheguei a casa às duas e meia da manhã, depois de um dia inteiro de trabalho. Tinha acabado de adormecer quando fui acordado por um alarme desses. Um barulho contínuo e irritante durante uns quinze minutos. Levantei-me, fui à janela e, claro, tinha que ser, era a merda dum desportivo vermelho. Ainda por cima ninguém o estava a assaltar. Antes estivesse, que eu ia lá ajudar a partir os vidros.
Durante o dia tinha conversado com uma amiga sobre dois outros amigos que se divorciaram recentemente. Estão os dois na fase em que não sabem muito bem o que lhes vai acontecer e precisam de alguém que lhes faça companhia ao almoço, ao jantar, ou simplesmente a beber uma cerveja à noite. A solidão pesa sempre, mas pesa ainda mais depois de um divórcio. Sei-o por experiência própria. "Se não gostavam um do outro não tivessem casado", respondeu-me ela enquanto eu expunha este meu ponto de vista.
O egoísmo é fodido. Aceitamos facilmente que se ponham alarmes na propriedade privada mas nem ouvimos os alarmes das emoções. Roubarem-nos dá-nos o direito de acordar toda a gente, estarmos tristes e desamparados não, não dá. É alarmante.

8.07.2011

conversa 1812

Ela - Tens os sapatos...
Eu - Tenho os sapatos quê?
Ela - Ia dizer que estavam desapertados, mas têm é um nó estranho...
Eu - Ah! É porque os atacadores se partiram, então dei um nó para unir os dois bocados de cada atacador e depois ainda dei outro para atar os sapatos. Por isso é que fica assim, uma confusão.
Ela (suspiro)
Eu - O que é que foi?
Ela - Estava a pensar que se um dia tiver um filho, prefiro que seja rapariga...

8.05.2011

conversa 1811

Ela - Já pus a hipótese de ser mãe sozinha.
Eu - Sozinha como?
Ela - Recorrendo a um banco de esperma.
Eu - Ah!
Ela - Os namorados que eu tive até hoje não eram muito mais do que isso, no fundo.
Eu - Mais do que o quê?
Ela - Bancos de esperma.
Eu - Ah!
Ela - A diferença é que um namorado é um banco com contas a curto prazo, enquanto num banco a sério os depósitos são a longo prazo.
Eu - Já tomaste café? Tenho que ir embora...
Ela - A conversa desagrada-te?
Eu - Não é isso, tenho que ir fazer um depósito.

8.04.2011

pensamentos catatónicos (254)

mentiras

Hoje ouvi uma avó ordenar ao neto, uma criança de uns seis anos, que não mentisse. Fê-lo de mão levantada ameaçando uma chapada. Perguntei-me a mim mesmo quantas vezes terá aquela mulher mentido na vida. Se o fez metade da vezes que eu fiz, mentiu pelo menos umas centenas. Esta é a maior verdade.
Para além disso, não há nada melhor do que ver uma criança a mentir. A mentira surge quando as nossas capacidades cognitivas percebem que a mentira é uma ferramenta essencial à sobrevivência. De tal forma que passamos a vida a mentir a nós mesmos. A mentira é um sonho, e por isso repito que é também a maior das verdades.
Às vezes não importa o que aconteceu, importa o que nós queríamos que tivesse acontecido. É por isso que sonhamos, é por isso que mentimos uns aos outros. A mentira faz parte da forma como nos damos e por isso é um dos ingredientes essenciais do Amor, ou pelo menos da falta dele. Mentimos para não perder um amigo, mentimos para não passar fome, mentimos para Amar, mentimos para fazer Amor, mentimos para nos convencermos que o mundo é melhor do que realmente é.
Estava a pensar na maior mentira da minha vida, por exemplo. Acho que foi a que inventei depois da minha separação. Disse a mim mesmo que estava muito bem sozinho e que não precisava de encontrar ninguém em especial na vida. Disse-o a mim e disse-o aos meus amigos. Nenhum deles me levantou a mão ameaçando bater-me. Antes pelo contrário, pagaram-me um copo aqui e ali fingindo que acreditavam em mim.
A mentira está confirmada e ninguém me veio pedir satisfações. É isso que é um amigo e é isso que devia ser uma avó. Uma mão levantada, por exemplo, pode ser uma verdade nua e crua, mas é uma verdade de merda.

8.03.2011

respostas a perguntas inexistentes (172)

relógio

Foi com doze anos, e com o primeiro relógio que os meus pais me deram, que me aproximei dela na escola. Poucos alunos, ou se calhar nenhum, tinham relógio, e nós ficávamos os dois a olhar para o percurso cíclico dos ponteiros do meu como se isso fosse um privilégio, sem perceber que era por eles que um dia deixaríamos de ser crianças. É, aliás, essa a magia de contar o tempo quando se tem doze anos: pensar-se que se é imortal, tão interminável quanto o universo. Conta-se o tempo em direcção a lugar nenhum. Nem sequer à morte.
Perguntei-lhe uma vez quantas voltas já teriam dado aqueles ponteiros desde que tínhamos nascido, e ela respondeu-me simplesmente que o relógio tinha sido feito depois de nascermos, pelo que não era possível saber. Foi a resposta mais inteligente que me podia ter dado, pois foi também com esse relógio que me apercebi que uma volta inteira não demorava sempre o mesmo. Era rápida quando ela estava ao meu lado, era lenta quando ela não estava. O tempo era mais elástico do que o Amor que eu começava a sentir por ela.
Eu e ela fomos apenas crianças nessa elasticidade do tempo. Não mais do que isso. Nunca crescemos juntos, nunca trocámos olhares cúmplices, nunca fizemos Amor, nunca nos Amámos verdadeiramente. Por isso para mim ela ainda é a mesma miúda de sempre, que deve andar por aí a correr atrás de folhas secas para esconder dentro de livros, como me lembro de a ver fazer.
Lembrei-me dela uma vez, quando me apercebi que o Amor é uma armadilha. Acho eu, pelo menos. É que quando nos apaixonamos por alguém que se apaixona por nós também, acreditamos que temos resolvido o problema maior da vida: a felicidade. Depois disso é só tratar de coisas mesquinhas, tipo trabalho e dinheiro. Mas não é. O Amor não resolve definitivamente nada. E é por isso que é uma armadilha. Lembrei-me dela com alívio  nessa altura, por não ter sido ela a armadilhar-me.
Hoje lembrei-me outra vez, quando precisei de saber as horas e não tinha como. Tinha-me esquecido do telemóvel e em adulto decidi deixar de usar relógio no pulso. Decidi deixar de contar o tempo. Acho que foi por isso que decidi também Amar assim, da maneira que Amo hoje, como se não houvesse tempo e não tivesse que Amar tudo hoje.
Ontem uma amiga perguntava-me porque é que eu ainda não vivo com a minha namorada. Por isso mesmo, para que ela não se canse de mim, nem eu dela. Isso é Amar? Isso é querer Amá-la a vida toda, dê ela as voltas que der aos ponteiros do relógio.

8.02.2011

conversa 1810

Ela - O meu marido não tem ciúmes de mim. Não vale a pena tentar porque ele não tem...
Eu - Mas tem motivos para ter?
Ela - Não, não tem. Mas eu saio com amigos, vou jantar fora com colegas de trabalho, vou para o ginásio onde lhe digo que tenho um personal trainer com uns bíceps maravilhosos e ele não se importa nada.
Eu - Isso é óptimo. Evita mal entendidos.
Ela - Sim, isso é verdade. Mas...
Eu - Mas o quê?
Ela - Mas podia ter só um bocadinho de ciúmes. Não fazia mal nenhum...

8.01.2011

respostas a perguntas inexistentes (171)

entre homens

Não é fácil encontrar um homem com quem se consiga falar sobre mulheres. É uma verdade esquisita, ainda assim uma verdade. É fácil, no entanto, encontrar um homem que fale de gajas boas. Difícil é encontrar um a quem se possa confessar, por exemplo, um Amor secreto. Quer isto dizer que dois homens desconversam muito facilmente sobre mulheres, mas raramente conversam.
Há mulheres que acham que os homens falam de gajas boas pela sua carga sexual. Não é verdade. Os homens só falam em gajas boas porque têm medo de abordar o tema por outra perspectiva. A palavra Amor não é um tabu, mas é um monstro quando dita entre homens. Assusta. É por isso que se desconversa. É mais fácil dizer que "A Maria é boa como o milho" do que "Amo a Maria e só penso nela".
Dizer que uma mulher é boa como o milho não é problema nenhum. É só desnecessário. É a mesma coisa que dizer que um chocolate é doce. Todos o sabem mas ninguém o diz a não ser que queira desconversar. É isso que os homens fazem quando não tem coragem para falar de Amor. Desconversam.
Confessar a outro homem o Amor por uma mulher é isso mesmo: ir ao confessionário. Fala-se de Amor como se fosse uma fraqueza e por isso também uma culpa. Ou quase. Nunca me confessei na minha vida, nem sequer na igreja, com excepção de dois amigos que são os que me levam a sério quando eu digo que Amo alguém.
Quando conheci a Raquel, por exemplo, falei com um deles. Lembro-me de lhe dizer que tinha tido um encontro com uma mulher que me estava a fazer uma confusão enorme. Confessei-lhe que só me apetecia pegar no carro e ir ter com ela. "Devias ir", disse ele. "Estás apaixonado", insistiu. E eu fui. Não me perguntou se ela era loira ou morena, alta ou baixa, gorda ou magra. Não desconversou. Isso é raro entre homens.
Desconversar também sabe bem. Não podemos é estar de mal com o Amor.