Os gatos tornaram-se uma presença obrigatória nas casas de mulheres divorciadas ou separadas com mais de trinta anos. Eu dou-me mal com gatos, já o disse aqui, e cada vez que tento estabelecer comunicação com um, mesmo que de uma forma suave e amigável, acabo mordido e arranhado.
Hoje, mais uma vez, ando com a minha mão direita num estado vergonhoso. Tudo porque inocentemente a estiquei até à cabeça dum bicho desses para lhe fazer uma festa. Em troca, o sacana mordeu-me o dedo polegar e fez-me com as unhas três rasgos profundos. Dei-lhe instantaneamente uma chapada e ele caiu da banca da cozinha. A dona, quando ouviu aquela bola inútil de pêlos a miar como se alguém o tivesse acabado de torturar, entrou na cozinha e perguntou-me agressivamente o que é que eu tinha feito ao Docinho. Docinho?! Quem é que raio decide chamar Docinho a um ser que, para além das fezes malcheirosas, a única coisa que sabe fazer é comer e espalhar pêlos pela casa toda? Come on. Nem lhe respondi directamente, apenas lhe perguntei se tinha água oxigenada para desinfectar o estrago que o seu Docinho tinha feito na minha mão. Se o Docinho fez isso é porque lhe fizeste alguma coisa antes, respondeu.
Gostava de esclarecer de uma vez por todas, para quem ainda não descobriu, que os gatos são uns seres desprovidos de qualquer tipo de sentimentos, hipócritas e fétidos, cuja única qualidade que têm é que na panela, se forem bem tratados, se podem chegar a assemelhar a um coelho guisado.
No fim, quando saí para regressar a casa, olhei para cima e lá estava ele, empoleirado na janela dum segundo andar a rir-se de mim. Só em pensamento prometi a mim mesmo que qualquer dia há-de escorregar dali mesmo...