Se há coisas que me tiram do sério são aqueles alarmes altíssimos instalados nos automóveis que disparam por tudo e por nada. Não percebo como é que alguém se pode achar no direito de acordar a vizinhança toda durante a noite ou, se for durante o dia, pôr-lhe os nervos à flor da pele só porque supostamente lhe estão a roubar o carro.
Roubar um automóvel é injusto? É sim, mas eu posso enumerar uma quantidade enorme de situações mais injustas neste mundo que não levam alarme nem acordam ninguém. A fome, por exemplo. Se cada estômago que entrasse na fase da fome disparasse um alarme tinha muito mais lógica. Mas não, isso não acontece. São sempre a merda dos automóveis, normalmente desportivos foleiros que pertencem a parolos que os tratam melhores a eles do que à família e aos amigos.
Esta noite cheguei a casa às duas e meia da manhã, depois de um dia inteiro de trabalho. Tinha acabado de adormecer quando fui acordado por um alarme desses. Um barulho contínuo e irritante durante uns quinze minutos. Levantei-me, fui à janela e, claro, tinha que ser, era a merda dum desportivo vermelho. Ainda por cima ninguém o estava a assaltar. Antes estivesse, que eu ia lá ajudar a partir os vidros.
Durante o dia tinha conversado com uma amiga sobre dois outros amigos que se divorciaram recentemente. Estão os dois na fase em que não sabem muito bem o que lhes vai acontecer e precisam de alguém que lhes faça companhia ao almoço, ao jantar, ou simplesmente a beber uma cerveja à noite. A solidão pesa sempre, mas pesa ainda mais depois de um divórcio. Sei-o por experiência própria. "Se não gostavam um do outro não tivessem casado", respondeu-me ela enquanto eu expunha este meu ponto de vista.
O egoísmo é fodido. Aceitamos facilmente que se ponham alarmes na propriedade privada mas nem ouvimos os alarmes das emoções. Roubarem-nos dá-nos o direito de acordar toda a gente, estarmos tristes e desamparados não, não dá. É alarmante.