6.30.2011

respostas a perguntas inexistentes (163)

temperatura

Ser morno é uma merda. Não sei dizer isto doutra forma. Posso estar errado, claro, mas é o que eu acho. Acho também que são as pessoas mornas que dizem mal do divórcio.
As pessoas que se divorciam ficam normalmente tristes, mas depois ficam felizes outra vez. A felicidade que volta é normalmente mais do dobro da tristeza que se sentiu antes. As pessoas que não se divorciam, pelo menos algumas delas, não são felizes apesar de também não serem tristes. São mornas, e por isso têm alguma inveja tanto da felicidade como da tristeza que vêem nas pessoas que acabam uma relação para tentar outra. Um divórcio é, aliás, apenas isso. Tentar ser feliz outra vez.
Não estou a defender o divórcio, estou a defender o Amor a sério. Aquele que nunca é morno. É que o Amor a sério não pode ser só felicidade. Tem que ser também tristeza. Acho que todas as pessoas sabem isso, mesmo que algumas não o admitam e se refugiem numa vida tão morna quanto a temperatura do corpo.
Quando alguém me diz que é feliz no casamento, posso acreditar ou não. Normalmente é pela temperatura da frase que tiro as minhas conclusões. Se a frase for quente acredito, se a frase for morna não acredito. Quando alguém me diz que é triste no casamento acredito sempre, porque a frase é sempre fria. Mas não tenho pena. Quem o diz de certeza que tem a capacidade de vir a ser feliz mais tarde ou mais cedo.
"A minha mulher excita-me!" é uma frase quente. "Tenho conseguido manter um casamento feliz ao logo destes quinze anos" é uma frase morna ou, se preferirem, uma frase de merda. "O meu casamento é um nojo" é uma frase fria. É tudo uma questão de temperatura. Todos sabemos isso.

conversa 1795

Ela - Ando triste e não consigo enfrentar isto sozinha.
Eu - Mas fazes alguma ideia do motivo pelo qual andas triste?
Ela - Não. Pode parecer bizarro mas não faço...
Eu - Não acho bizarro. A tristeza não tem sempre uma explicação óbvia.
Ela - Preciso é que o meu marido e o mundo me ouçam, acho eu.
Eu - O teu marido e o mundo?
Ela - Sim, o meu marido e o mundo.
Eu - O mundo, portanto. O teu marido faz parte do mundo.
Ela - Pois faz, mas mesmo assim digo que é do meu marido e do mundo que preciso.
Eu - Tecnicamente é a mesma coisa.
Ela - Não é nada. Sinto-me sozinha apesar do meu marido, que só fala em trabalho e nos amigos dele. O mundo é outra coisa.
Eu - Ah! Percebo...
Ela - Às tantas afinal até faço ideia do motivo que me põe triste.
Eu - Pois...
Ela - Pois...

6.29.2011

respostas a perguntas inexistentes (162)

a insustentável palavra Amor

Márcia não gosta da insustentável palavra Amor, por isso foge dela abanando os ombros. Foi a vida que lhe ensinou que um abanar de ombros enxota a palavra Amor da mesma forma que o rabo duma vaca enxota as moscas. Elas afastam-se num voo errante, mas mal o rabo do ruminante acalma voltam a pousar nele como se não fosse nada. É o que faz António quando os ombros dela param. Torna-lhe a dizer que a Ama.
Márcia não gosta da insustentável palavra Amor por ser uma ilha, e enquanto António insiste no verbo Amar ela sente-se cada vez mais só, como se um mar imenso a cercasse até à linha do horizonte. Preferia que ele lhe sorrisse, a convidasse para sair daquele bar inundado de pessoas que apenas parecem felizes, a levasse a um lugar só deles e arriscasse dar-lhe a mão, depois um beijo e por fim um abraço. Podia ser na praia, por exemplo, mas António não sabe isso. Insiste que a Ama sem um contacto físico que sustente a palavra Amor.
A impaciência bate na desesperança dela como uma bola de ping pong. Desde que se conheceram, há mais ou menos duas semanas, que tem sido assim. Ele quer levá-la para a cama e não consegue porque pensa que precisa de um bilhete de entrada. Pior, pensa que a palavra Amor é essa entrada. Não é. Nunca é. Ela queria que ele fosse entrando devagar, como quem chega a uma casa estranha, limpasse os pés no tapete, pedisse licença para entrar e depois se sentasse no sofá da sala. Talvez ela lhe servisse uma bebida.

6.28.2011

conversa 1794

Ela - Gostaste de Marrocos?
Eu - Gostei muito de lá ir, sim. Se gosto ou não do país é outra questão mais complexa.
Ela - Pois, acho que os países e as mulheres são a mesma coisa para os homens em geral.
Eu - Porquê?
Ela - Gostam sempre de lá ir, mas se gostam mesmo a sério é sempre uma questão mais complexa.

coisas que fascinam (128)

apita o comboio

A China tem, pronto a estrear, o comboio mais rápido do mundo. Vai ligar Pequim a Xangai e fazer uma média de trezentos quilómetros por hora nos mais de mil que separam as duas cidades. Não gosto de viajar depressa por motivo nenhum, a não ser nas viagens que faço por Amor. Normalmente considero que o tempo em que estou sentado num avião, num comboio ou num autocarro é tempo que eu consigo que seja só meu. Posso ler, ouvir música ou simplesmente espreitar pela janela, mas esse tempo é sempre o meu tempo, em que aproveito de forma egoísta cada grão de areia dos que vão caindo na ampulheta da vida. Só tenho pressa quando quem eu Amo está à minha espera no fim do percurso, e aí suspiro de tédio porque a viagem me parece interminável.
Tenho a certeza que esta nova linha chinesa vai permitir que mais pessoas de Xangai e de Pequim se apaixonem. E pronto, era só isso.. ou pelo menos isso.

6.27.2011

respostas a perguntas inexistentes (161)

Acho que a maior parte das pessoas que sofre por Amor, sofre porque cai na esparrela de que o Amor só por si é uma coisa boa. Wrong! Só por si o Amor é uma coisa má. É que o Amor não se define por duas pessoas gostarem uma da outra mas sim por cada uma dessas pessoas querer que a outra se lhe dê, e ninguém gosta de se dar realmente porque somos a única que nos pertence de facto. Se nos damos ficamos sem nada, é uma verdade, e por isso damo-nos apenas a fingir. O Amor é isso: fingir que nos damos em troca do fingimento do outro.
Parece complexo mas não é. Torna-se simples na primeira discussão a sério, no primeiro olhar povoado por raiva, no primeiro abrupto bater de porta ou no primeiro pensamento do tipo "o que é que eu estou a fazer com esta pessoa?". É nesse momento que temos a certeza que o Amor é uma coisa má e que nunca realmente nos demos a ninguém.
Passei a ver o Amor como uma coisa boa quando lhe subtraí essa obrigação de me dar e também, sublinhe-se, de que alguém se me dê, substituindo a doação pelo empréstimo. Empresto-me com a total consciência que me pertenço, para que todos os dias me possa emprestar de novo como se fosse a primeira vez.

6.26.2011

Fedoua e Imran

Uma marroquina que nunca se achou bonita abriu-me a porta de casa. Escondia o seu corpo dentro da roupa larga, de um lenço no cabelo, do nó cego dos seus braços e por trás de palavras que a mascaravam de sorrisos ténues. A sua arma são os olhos, grandes e negros, que se movem para qualquer lugar onde surja ruído com a astúcia felina que até hoje só conheci em mulheres. Quando não há ruído, as íris atravessam-nos de um lado ao outro do corpo, despindo-nos a alma e revelando o que pensamos. E foi assim que ela me adivinhou, fechando ainda mais os braços de forma a esconder os seios. Para mim, por trás de uns braços em nó cego há sempre uma amargura qualquer.
A Raquel sorriu-lhe, como se um sorriso pudesse ser uma primeira ponte entre duas pessoas. E pode mesmo, pelo menos às vezes. A casa é uma mistura de aguarelas negras e das suas cores cativas, e eu dei um passo atrás escondendo-me numa mancha de negritude da mesma forma que um camaleão se esconde mudando a cor da pele. Mantive-me assim enquanto elas falavam sem eu entender o que diziam e até ela desfazer o seu nó. Quando o fez, o seu primeiro gesto com a mão direita foi pedir-me para me aproximar. E foi assim que conheci Fedoua, uma mulher que não se acha bonita.
Foi ela quem me disse, num tom de voz que eu entendi como se fosse um aviso, que uma grande parte da população de Marrocos olharia para mim e para a Raquel como se fossemos uma nascente de dinheiro. E avisou bem. Esse é, aliás, o lado mais feio do país, porque a busca do dinheiro dos turistas se disfarça duma simpatia e afabilidade hipócritas. Nas medinas de Fès e de Marraquexe, o que não falta são pessoas que acham que tudo tem um preço, até a simples indicação de um lugar. Entre muitos exemplos, um rapaz ofereceu-se para nos levar ao palácio Al Badi e fez com que nos perdêssemos naquele formigueiro excitado que é a cidade. Depois pediu-nos dinheiro para nos tirar dali. No nosso caso teve azar, que o mandei em bom português ir à mãe dele e saí dali sozinho, mas é nitidamente alguém habituado a ter sucesso a enganar estrangeiros. Exemplos deste sucedem-se minuto a minuto, e quem lá for tem que ir preparado para isso. Mas é injusto dizer que Marrocos é só isso, principalmente para os que não são isso.
Visitei Fès e Marraquexe (com passagens por Tanger, Rabat e Casablanca). Fès é sem dúvida a cidade mais interessante, tanto por ter poucos turistas como por ter a maior medina do norte de África (6000 quilómetros num labirinto medieval incrível), mas dentro dessa magia medieval está o choque cultural. Eu não acho que tudo deva ser aceite por questões culturais, e não gosto de ver cidades onde milhares de pessoas são anuladas perante a sociedade apenas por uma questão de género. Resumindo, não gosto de ver mulheres tapadas com temperaturas acima dos quarenta graus nem gosto do véu islâmico. Fedoua também não gosta, mas abana os ombros quando discutimos o assunto como se não encontrasse de facto uma explicação para o assunto.
A explicação encontrei-a em Imran, um amigo muçulmano que me recebeu com muito boa vontade em Casablanca. Concorda que as mulheres andem tapadas para que a sua beleza pertença apenas ao marido, acha que eu sou um homem muito bom porque aceitei namorar uma mulher divorciada (o facto de eu ser um homem divorciado já não lhe faz confusão nenhuma), segundo ele com pouco valor mesmo por isso, e que ainda por cima trabalha e quer ser financeiramente independente. Imran interrompeu uma tarde de praia para nos ir buscar à estação Casa Voyageurs, mostrou-nos quase toda a cidade no pouco tempo que tínhamos para a visitar, deu-nos dormida e comida nas suas modestas instalações e ainda nos pediu desculpa por não ter melhor. É das melhores pessoas que já conheci na vida, mas... e há sempre um "mas".
Visitei Fès, Rabat, Casablanca e Marraquexe. Marrocos é provavelmente uma das viagens mais fascinantes que já fiz e mesmo assim um país onde eu não queria viver.

6.19.2011

marrocos

Tenho viajado o mais possível com a Raquel, e comecei a fazê-lo pouco tempo depois de a conhecer. Por Portugal, pela Europa e por nós. Viajar é uma forma de fazer alguma coisa pela primeira vez com alguém, e o Amor está sempre a pedir primeiras vezes. É que sendo a primeira vez que se está num sítio com alguém, esse sítio passa a ser dos dois. Só.
Os sítios que visitamos têm essa capacidade de marcar um Amor como se marca um animal com um ferro em brasa. Para sempre. É por isso que quando se regressa a um local onde já se foi feliz com alguém, é mais desse alguém que nos lembramos do que do local em si.
Esta semana vou marcar a quente mais uma página da minha/nossa vida, já que é a primeira vez que vou andar por Marrocos. Regressarei apenas no próximo domingo e, como não levo o computador, a actualização deste blogue estará dependente das ligações à net que eu conseguir encontrar. Não conto, como é óbvio, passar muito tempo em frente a nenhum computador, mas se puder venho aqui dizer olá.

respostas a perguntas inexistentes (160)

Apetece-lhe voltar a Amar, e disse-me isso enquanto um fio de chá morno sangrava da chaleira nas suas mãos. Deu-me uma chávena e ficou com a outra, onde deu um gole tão pequeno que duvidei que lhe tivesse sequer sentido o sabor. Estava à espera que eu dissesse alguma coisa.
Há alguns anos, três ou quatro, revelou-me naquela mesma sala que o Amor já lhe tinha dado tantos dissabores que decidira desistir dele. Estar sozinha não seria tão mau assim, desde que conseguisse fazer companhia a ela mesma, e até tinha a vantagem de poder decidir tudo o que fazer com o seu tempo.
À data compreendi-a, mas sublinhei que entre compreender e concordar vai a distância de um oceano. Para mim, desistir de Amar quando estou só, é desistir de cada mulher que passa por mim na rua e isso é só impossível. Sempre que passo por uma mulher bonita, mesmo que finja não a ver, pelo menos durante uma fracção de segundo imagino-a como minha.
Agora apetece-lhe voltar a Amar, e repete-o já com a chávena quase vazia. Ela e eu. Pergunta-me se quero mais. Que não, respondo. Vamos sair e beber um copo por aí, insisto. Sair de casa é a primeira coisa que se deve fazer quando se que desistir da solidão. Imaginar os outros como nossos.
Vestiu o casaco, soltou o cabelo e perfumou-se. Saímos.

6.17.2011

conversa 1793

(ao telefone)

Eu - Até que enfim que atendes.
Ela - É que pus aquele mp3 que me mandaste por email como toque do telemóvel.
Eu - E o que é que tem?
Ela - O problema de ter um toque de telemóvel de que se gosta muito é que nunca me apetece atender.
Eu - Ah!
Ela - Para a próxima, quando eu não atender, deixa tocar mais tempo...

conversa 1792

Ela - Há homens que deviam ter mais cuidado com as mãos durante o sexo.
Eu - Com as mãos?
Ela - Sim, apalpar umas mamas não é a mesma coisa que apalpar uma daquelas bolas anti-stress.
Eu- Não?
Ela - Não.
Eu - Por acaso consigo estabelecer um paralelismo entre ambos os casos.
Ela - Vê lá se uso as minhas mãos para te dar uma chapada.

respostas a perguntas inexistentes (159)

o erro

Sem o ter percebido, acho que fiz este blogue para falar de Amor numa altura em que ele, escorregadio, me escapava das mãos. Falar de Amor é difícil porque nunca conseguimos dizer o que realmente queremos dizer. Falar de Amor é fácil porque, diga-se o que se disser, quem lê entende sempre alguma coisa, mesmo que não o seja dito. É aqui que começa a complexidade do Amor e é aqui que ela acaba, e foi esse começo e esse fim que eu sempre quis aqui pôr.

Este blogue fala de um erro, porque o Amor é sempre um erro que cometemos. Um desacerto constante na vida. Apercebi-me disso ou, na melhor das hipóteses, convenci-me disso aqui mesmo, quando me dei conta que todos os dias, mal ou bem, escrevia torto por linhas direitas. É isso que é o Amor, uma sinuosidade na recta da nossa vida.

Olho agora para esse tortuoso caminho com a distância que me permite vê-lo melhor, e essa distância é a de um homem apaixonado. Há um ditado que diz que quando o que queremos ver é grande, vemos melhor se nos afastarmos. O Amor é sempre grande, o desamor também. Apaixonemo-nos para os ver melhor. Cometamos esse erro que enruga a estrada que nos liga do dia em que nascemos ao dia em que morremos, e que nos parece sempre ser a menor distância possível entre dois pontos. É o melhor erro que podemos fazer. Não sei mais nada, mas isto sei.

6.16.2011

pensamentos catatónicos (253)

já não gosto mais de ti

Quando somos crianças e nos zangamos com alguém, a primeira ameaça que nos vem à cabeça é dizer-lhe "já não gosto mais de ti". Parece estúpido, até porque à partida ninguém consegue deixar de gostar de alguém de um momento para o outro e só porque sim. O problema é que consegue, e é o Amor que nos ensina isso. Num dia alguém diz que nos Ama ardentemente, no dia a seguir nem por isso. Temos razão enquanto somos crianças, e quando crescemos escondemos a nossa própria verdade. Talvez por uma questão de defesa da sanidade mental. Alguém não gostar de nós é normal, alguém deixar de gostar de nós é fodido. É por isso que o Amor é difícil e é por isso que é uma luta.

conversa 1791

Ela - Acabo por ter pena dos homens que têm várias amantes, umas às escondidas das outras.
Eu - Pena?!
Ela - Sim. Fui casada com um homem assim, sei bem do que estou a falar. Um homem que tem amantes é um incapaz de Amar, incapaz de ser feliz só com uma mulher e, por fim, incapaz de ser feliz também com mais que uma.
Eu - Ah! Percebo... mas também há mulheres que fazem isso.
Ela - Isso o quê?
Eu - Que têm uma vida dupla.
Ela - Pois há, claro. Mas as mulheres que o fazem não é por incapacidade de Amar um só homem, é por precisarem de mais Amor do que aquele que o homem dá.

6.15.2011

pensamentos catatónicos (252)

O Amor como se fosse água


Primeira verdade sobre a água: ela quer-se transparente. Segunda verdade sobre a água: é um bem escasso e finito. A primeira verdade é reconhecida por todos nós, a segunda nem por isso. É como no Amor. Facilmente reconhecemos que ele deve ser transparente mas dificilmente aceitamos que ele é escasso e finito. É por isso que, como a água, também ele nos pode afogar.
Crescer ao lado do mar permitiu-me viver nessa ilusão da água, por vê-la todos os dias a ondular até à linha que se desenha num horizonte onde me parecia impossível chegar. Aconteceu-me o mesmo com o Amor, por viver nele e me parecer impossível atingir o seu fim. Depois atingi, numa noite qualquer em que mergulhei e me custou voltar à tona para respirar.
Aprendi com os dias que a ilusão da água é a ilusão do Amor. São bens escassos, e por isso tento usá-los de forma consciente para que a sua reserva não acabe. É assim que faço com o Amor. Todos os dias tomo um curto banho reconfortante, todos os dias mergulho a minha língua em água refrescante. De vez em quando mergulho o corpo.

6.14.2011

conversa 1790

Ela - Estou a envelhecer.
Eu - Não estás nada.
Ela - Estou sim. Vou fazer quarenta anos daqui a pouco tempo e já tenho rugas na cara.
Eu - Ah! Pensei que estavas a dizer que estás velha. A envelhecer assim normalmente, isso estás. Estamos todos, aliás.
Ela - Vês? Admitiste.

conversa 1789

Ela - O sexo cansa-me.
Eu - É normal que canse. É uma actividade física...
Ela - Não é isso, pá. Ando é com a libido em baixo, não sei porquê.
Eu - Ah!
Ela - Acho que preciso de inovar...
Eu - Já falaste com o teu marido sobre isso?
Ela - Já... disse-lhe que o sexo me anda a cansar.
Eu - E ele?
Ela - Ele disse que não sabia como se, afinal de contas, já não temos sexo há uns meses.
Eu - Teve mais ou menos o mesmo raciocínio que eu.
Ela - Pois... os homens são uma tristeza...

coisas que fascinam (127)

mousse de chocolate

Os olhos dela são uma mousse de chocolate. São doces. É neles que eu, coração de manteiga, me derreto nessa doçura do cacau e vou fervendo sem coalhar até ganhar a textura sedosa duma gema de ovo. É neles que o meu Amor se ergue como claras em castelo e se mistura finalmente num banho de saliva. Que não vem do mar.

puzzle bobble

Percebo o quão fácil pode ser uma vida quando me ponho a jogar a última aplicação que instalei no meu telemóvel. É uma versão em java do clássico Puzzle Bobble e, como não tem som, permite-me ouvir Serge Gainsbourg ao mesmo tempo. Ando feliz com esta possibilidade que a vida me ofereceu de bandeja: jogar Puzzle Bobble e ouvir Serge Gainsbourg em simultâneo.
Comprei um cartão de memória com mais espaço só para poder ter à minha disposição, a qualquer hora do dia, toda a discografia do Serge Gainsbourg, e isso chegaria para me fazer feliz, fosse numa viagem de comboio ou na sala de espera dum consultório médico. Mas mesmo assim acrescentei-lhe um jogo cujo único objectivo é fazer pontos. Pontos, pontos e mais pontos que não servem para mais nada do que se acumularem entre si no canto superior direito do ecrã do telemóvel.
Hoje aproximei-me dos dez mil, meta psicológica que tenho vindo a tentar alcançar desde há alguns dias. Por uns momentos o meu instinto de caçador de pontos sentiu-se satisfeito, por isso pousei a arma e dediquei-me a ouvir em looping o "My Lady Héroine". De olhos fechados, porque Amo a música tal como Amo muitas outras coisas na vida.
Acho que aprendi precisamente com a vida que é um erro misturar um jogo e Amor, principalmente quando o objectivo do jogo é apenas acumular pontos. É que podemos acumular milhares deles que no fim acabamos por perder na mesma. Da minha vida com a Raquel já desliguei o jogo, do telemóvel ainda não. Só de vez em quando.

6.13.2011

respostas a perguntas inexistentes (158)

montanha russa



Este fim de semana andei em algumas montanhas russas com a Raquel. Ela gritou, eu não. É óptima, esta sensação que permite a um homem armar-se em forte e corajoso por coisa nenhuma, mas também é falsa. No fim de cada uma, cada qual com o nome mais conceptual possível ("Superman - La Atracción de Acero", "Batman - La Fuga" ou "Stunt Fall"), ela esta estava na boa. A mim as pernas tremiam. Talvez as mulheres expulsem o medo da forma mais imediata possível enquanto os homens preferem engoli-lo, seja por vergonha ou não.