conversa 1726
Ela - Como é que é possível que um homem de quarenta anos se levante da cama às três da tarde?
Eu - Então! É bastante possível. Basta estar deitado a essa hora.
Ela (silêncio)
Eu - Que olhar é esse?
Ela - É um olhar incrédulo.
Ela - Como é que é possível que um homem de quarenta anos se levante da cama às três da tarde?
Eu - Então! É bastante possível. Basta estar deitado a essa hora.
Ela (silêncio)
Eu - Que olhar é esse?
Ela - É um olhar incrédulo.
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Ela - Hoje sinto-me feliz. O tempo está a ficar primaveril e eu sem nada de jeito para vestir.
Eu - Ahn?!
Ela - Vou passar a tarde a comprar roupa. Queres vir comigo?
Eu - Não... não posso. O tempo está a ficar primaveril e eu cheio de sede. Vou passar a tarde a beber. Queres vir comigo?
Ela - Não... não posso. Já te disse que vou às compras. Mas... vais passar a tarde a beber?
Eu - E a comer amendoins, azeitonas e tremoços. Talvez também faça umas palavras cruzadas, já que detesto sudokus.
Ela - Que vida tão desinteressante.
Eu - Anseio por uma vida assim desinteressante há muitos anos e não tenho conseguido.
Ela - Eu cá vou comprar roupa. E mesmo assim prefiro sudokus a palavras cruzadas.
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A Kodak tinha uma frase publicitária que dizia que recordar é viver. Recordar não é viver, muito pelo contrário. Quando olhamos para trás na nossa vida, seja através duma fotografia ou da própria memória, fazemo-lo quase sempre duma forma melancólica, porque o passado é isso mesmo, aquilo que não volta a ser.
Recordar um momento feliz pode desenhar-nos um suave sorriso nos lábios, mas também nos causa uma espécie de vácuo na alma. É uma felicidade reprimida pelo tempo, talvez por estarmos a tentar respirar um ar já respirado.
Só no Amor é que existe o olhar para trás como se fosse para a frente. Hoje, enquanto tomava café numa esplanada de Aveiro, vi um homem cruzar-se com uma mulher na mesma altura em que desviavam o olhar um do outro. Uns passos depois ambos olharam para trás ao mesmo tempo, apanhando-se mutuamente nessa coincidência cósmica que é querer ver e ser visto ao mesmo tempo. Ela acenou-lhe timidamente com a mão e continuou a andar até ser engolida numa curva da cidade. Ele ficou algum tempo mais, mesmo quando já não a podia ver, porque a podia sentir.
Ambos olharam para trás olhando para a frente, e nessa frente, tenho a certeza, poderão tornar a encontrar-se um dia destes.
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Ela - Hoje disse ao meu marido que ando a pensar deixá-lo. Sabes o que é que ele me respondeu?
Eu - O quê?
Ela - "Se me deixares, escreve antes a receita do teu pudim de pão e deixa-a em cima da mesa da sala, por favor".
Eu - Ena!
Ela - Incrível, não é?
Eu - Incrível deve ser o teu pudim de pão. Tens que me fazer um...
Ela - Ainda te faço um mas envenenado.
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a estátua de algodão
Quando ela se deita, tudo o que nela é brusco e violento adormece muito antes do seu corpo. É por isso que depois do jantar ele conta os minutos um a um, à espera do momento em que lhe pode perguntar como correu o dia, uma pergunta trivial que deixou de o ser há algum tempo, não se lembra bem quando. Ela responde sempre abanando os ombros como se quisesse enxotar a pergunta. Às vezes fazem amor, embora raramente, e quando o fazem acabam abraçados até adormecerem os dois. Nessas noites não há trivialidades.
Normalmente é ele quem adormece primeiro, e ela petrifica o corpo como uma estátua de algodão para não o acordar. Petrifica o corpo, não a mente, que fica a responder a si mesma à pergunta que nessa noite ele não fez porque fizeram Amor. A merda do dia nunca correu bem, e é só nessas alturas que ela gostava de lhe poder dizer isso, que a violência latente que nela habita não é por ele, é pela merda do dia. Pena ele estar a dormir.
Ele não sabe que nela, as palavras que lhe vão ficando prisioneiras nos lábios sempre que abana ombros também a vão aprisionado nelas. É uma ansiedade crescente que a impede de dormir depois do sexo.
Ela não sabe que nele, esses raros actos de Amor e sexo são sempre o sinal de que o dia seguinte será melhor, e que é essa aparente acalmia, aninhada numa estátua de algodão, que o põe apressadamente a sonhar.
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desenhos e fotografias
Um Amor pode ser um desenho ou uma fotografia de que se gosta. Olha-se e gosta-se, mas com uma diferença fundamental entre ambos. Um desenho faz-se a partir de uma folha de papel em branco, ou seja, do nada. Uma fotografia faz-se a partir da realidade, ou seja, do tudo.
A Ana e o Paulo começaram a namorar a partir do nada. Conheceram-se por acaso numa festa de amigos e nessa mesma noite acabaram na cama. Fizeram amor duas vezes antes de adormecer e, para surpresa de ambos, quando acordaram de manhã nenhum deles estava arrependido. A luz matinal do Sol cortava as frinchas das persiana do quarto mas não cortava a vontade de estarem juntos, acabando assim por morrer na pele deles que se misturava na poção química de mais beijos matinais.
A Helena e o Nuno começaram a namorar a partir do tudo. Conheceram-se em crianças e praticamente cresceram juntos. Dividiram o mesmo baloiço, a mesma escola, o mesmo liceu e a mesma universidade. Já jovens adultos dividiram algumas noites embriagadas, alguns filmes no cinema e, por fim, acabaram a dividir também a mesma cama. Não perceberam logo se tinham confundido amizade com Amor mas, como cada vez que se afastavam tinham imediatamente saudades um do outro, acabaram por se render a este último, e depois duma conversa acompanhada de um jantar entregaram-se formalmente um ao outro.
O desenho da Ana e do Paulo começou a falhar quando perceberam que não gostavam das mesmas cores. Era o efeito da novidade que lhes alimentava o sexo e a vontade de estarem juntos, e em pouco tempo o sabor dos beijos perdeu-se num gesto diário mecânico e vulgar. Separaram-se quase naturalmente, quase sem se despedirem um do outro.
A fotografia da Helena e do Nuno foi perdendo cor depois da formalização da coisa, como se o Sol a tivesse queimado. Não que não gostassem um do outro, mas porque a vida lhes parecia cada vez mais um corredor estreito. Conhecendo-se um ao outro desde sempre, não conheciam mais nada, e ambos sentiam um desejo secreto de desenhar. A separação foi mais difícil, e custou algumas lágrimas e muitas noites mal dormidas com a solidão.
Os quatro passeiam-se por aí nestes dias, à procura de poder fotografar e desenhar com alguém, que já perceberam que só uma das coisas não funciona.
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Ela - Andei a pensar nisso e acho que descobri qual é o meu problema com os homens.
Eu - Qual é?
Ela - É que não suporto miúdos mimados, egoístas e que acham que as mulheres só devem vir com um lado bom e têm que estar sempre disponíveis para tudo e mais alguma coisa, e que ainda por cima têm a mania de que são superiores ao nosso estado de espírito quando nos enervamos.
Eu - Estiveste a discutir hoje com o teu marido?
Ela - Sim.
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(na minha casa)
Eu - Vou-te fazer um vinho quente.
Ela - Vinho quente?
Eu - Sim. Com este frio sabe mesmo bem.
Ela - Nunca provei.
Eu - Vais provar agora. Fui comprar todos os ingredientes necessários há bocadinho. Podes acreditar que não há melhor bebida para engatar um homem numa noite fria.
Ela - E só agora é que dizes?!
Eu - Só agora, como?
Ela - Agora que eu comecei a namorar...
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comida
Não existe maior aproximação entre o Amor e o paladar do que quando alguém diz que anda a comer outro alguém. Um destes dias, e enquanto pousava os seus olhos nos meus, a Raquel apresentou-me a uns amigos como "o gajo que anda a comer". Eles olharam para mim, curiosos pela minha reacção, mas eu não reagi. Normalmente a comida não reage, disse-lhe depois enquanto nos afastávamos num abraço forte.
Na verdade acho que o sexo tem sabores. Há mulheres mais doces ao paladar do que outras, sendo que isso dependerá também de quem as saboreia. O mesmo, com toda a certeza, se passará com os homens. Mas neste maravilhoso mundo dos sabores o que interessa é como se come. Nunca fui, nem acredito que venha a ser, adepto da fast food, e o que mais admiro na comida é ser uma necessidade básica do corpo que o Homem sabe transformar num acto requintado.
A comida é o nosso denominador comum, e é também por isso que existe a expressão "comer com os olhos". Se não comêssemos com os olhos, a fome enlouquecia-nos antes da primeira trinca que damos nesta vida, seja ela um beijo gelatinoso numa noite primaveril, uma lambidela gelada numa noite de Verão ou uma experiência carnal a ferver numa noite de Inverno.
Talvez seja um exagero ofendermo-nos tanto com a metáfora entre o Amor e a comida. Afinal de contas, de metáfora mesmo até tem muito pouco. O Amor é o principal alimento da alma e do corpo. E a única verdade que eu conheço é que a fome dá em todos. Se vos der a vocês, comam.
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Ela - Eu já não amo o meu marido nem o meu marido me ama a mim, é a verdade.
Eu - E já falaram nisso?
Ela - Não, acho que nunca vamos falar, assim como também nunca nos vamos separar.
Eu - Porquê?
Ela - Porque somos muito amigos.
Eu - Quem acha que a amizade e o Amor são coisas parecidas, na minha opinião, está muito enganado.
Ela - Talvez não sejam bem o mesmo, mas confundem-se.
Eu - Eu não confundo nada. Acho que a amizade cabe no Amor mas o Amor não cabe na amizade. É mais ou menos isso.
Ela - Talvez. Estás a aconselhar-me a separar-me do meu marido?
Eu - Não, não estou. Estou a dizer-te que acho que estás a optar por viver com um amigo e por não viver um Amor. Não te estou a dizer que isso é bom nem mau.
Ela - Pois estou, mas como antes do meu marido vivi um Amor violento, que me ia destruindo, agora acho que estou muito bem assim.
Eu - Acho isso estranho.
Ela - O quê?
Eu - Acho que a amizade cabe num Amor mas a violência não. Nunca chamaria Amor a uma relação violenta.
Ela - Mas eu chamei, não devia ter chamado mas chamei. E sinceramente acho mesmo que Amor pode ser violento e ser Amor na mesma.
Eu - Achas?
Ela - Acho. O Amor é o expoente de todos os nossos sentidos. Nunca foste violento com uma mulher que amasses?
Eu - Já tive discussões mas nunca agredi nenhuma e tenho a certeza que nunca o vou fazer.
Ela - Lá está. Já tiveste discussões.
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Ela - Estou a ficar flácida.
Eu - Estás a ficar o quê?
Ela - Flácida.
Eu - Desculpa lá, mas assim de repente não me parece nada.
Ela - Isso é porque só me conheces vestida. Aos quarenta anos uma mulher começa a esconder-se atrás da roupa.
Eu - No Afeganistão é aos doze. São obrigadas a andar de burka.
Ela - Lá estás tu e a tua insensibilidade.
Eu - Era só uma piada.
Ela - Não tem piada nenhuma. Tenho quarenta anos, não tenho namorado e sinto-me mal com o meu corpo.
Eu - No Afeganistão têm namorado mesmo que não queiram. São obrigadas. Aliás, os namorados são mais donos delas do que namorados delas.
Ela - Outra vez uma piada?
Eu - Estava a tentar relativizar as coisas...
Ela - A minha flacidez não tem nada de relativo. Cala-te!
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Recebi de um leitor o texto seguinte:
Hoje pensei que o amor, como quase todos os equipamentos que compramos tem um selo de garantia. Normalmente nos equipamentos quando esse selo é de alguma forma danificado, nós ficamos sem garantia.
É o mesmo que dizer que a partir daquele momento se o equipamento se estragar temos que nos desenrascar. Se der para arranjar e se acharmos que vale a pena tudo bem. Caso contrário não nos resta outra hipótese senão atirar com o equipamento para o lixo e quando possível comprar um novo.
Inconscientemente passamos a olhar para o equipamento de uma forma diferente, começamos a tratá-lo com mais cuidado e se for algo mesmo importante por vezes damos por nós a rezar que ele não estrague, para que dure o máximo de tempo possível.
Nalgumas relações por vezes acontece o mesmo. A relação vai avançando no tempo, com altos e baixos, momentos bons, momentos maus. Aguentamos tudo. Mas porque no amor nada é garantido, por vezes acontece algo que nos deixa de rastos, sem reacção, sem vontade de continuar.
É como se esse selo de garantia tivesse sido quebrado. Olhamos para a relação e pensamos que falta ali qualquer coisa, algo que se perdeu. Seja porque houve uma discussão, um desentendimento, palavras ofensivas, um abre olhos, existem várias razões para que isso
aconteça.
Sem esse selo de garantia, aos nossos olhos a nossa relação vai estar sempre um pouco debilitada.
Sem esse selo de garantia, a relação já não parece tão forte.
Sem esse selo de garantia, a pessoa que nos acompanha já não tem tanto impacto na nossa vida.
Sem esse selo de garantia tudo muda.
Cabe às pessoas a partir desse momento puxaram ambas para o mesmo sentido, cuidarem ainda mais da relação. E mesmo assim, não podem nunca tomar nada por garantido. Porque o amor é mesmo assim: uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura.
por: António Figueiredo
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No casamento não devíamos dizer "sim", devíamos era dizer "não".
Este fim de semana passei os olhos por um programa chamado "Say Yes to the Dress" (Diz Sim Ao Vestido), sobre a forma como as noivas norte-americanas compram os seus vestidos de casamento, renovação de votos e afins. Um casal de classe média chega a gastar onze mil dólares num vestido, o que é uma tolice porque, para além de só se usar uma vez, é injustificadamente caro.
A única justificação, aliás, é que o "sim" que se diz com um vestido de onze mil dólares, é um "sim" tão pesado para a vida que tem que se andar de cabeça perdida antes de o dizer. Tipo, vou fazer uma asneira tão grande (dizer que "sim") que, antes dela, vou fazer uma mais pequenina (enterrar as minhas poupanças todas num vestido) para me ir habituando.
O "sim" do casamento é um "sim" a tudo menos ao Amor, porque esse "sim" já foi dado antes várias vezes. Em cada beijo que se deu, em cada entrelaçar das mãos, em cada acto sexual ou abraço já dissemos que sim. O "sim" do casamento é mais um "sim" contratual, ou seja, o oposto de todos os outros "sins" que dissemos antes. O "sim" do casamento, seja ele civil ou religioso, é uma promessa de que se vai gostar mesmo quando já não se gosta, e além disso se vai fazer as contas ao património, salários e o que mais houver.
Talvez o casamento fosse mais sério se pudéssemos dizer que não. Talvez o casamento devesse ser uma cerimónia para mostrar ao outro aquilo que não se quer nem se deseja para a vida, e se pudesse fazê-lo porque se parte já do pressuposto de que o Amor existe e por isso não é preciso contratualizá-lo. Se o casamento fosse isso, umas das coisas a que eu diria não, certamente, era a vestidos de onze mil dólares.
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compras
Ontem uma senhora tentou passar-me à frente no supermercado. Não a deixei passar. Primeiro posicionou-se ao meu lado e não atrás de mim como é normal numa fila daquelas. Depois, na altura exacta de começar a pôr as compras no tapete rolante, começou a fazê-lo apressadamente antes de mim, nunca cruzando o seu olhar com o meu. Com os braços abri atabalhoadamente espaço entre aquele monte de embalagens diversas e coloquei as minhas compras. Ela não disse nada, ou seja, tinha perfeita consciência que me estava a passar à frente.
O meu saco de salada ibérica passou a um euro e noventa e nove, um euro a mais do que estava marcado na prateleira. Protestei e pedi para verificarem o preço, o que demorou uns quatro ou cinco minutos. A empregada da caixa pediu-me desculpa pela demora e eu respondi que não fazia mal, até porque não estava com pressa. Os olhos da senhora incharam de um ódio invisível mas pesado e começou a bufar. Eu não tinha mesmo pressa nenhuma, e bastava ela ter-me pedido para passar que eu deixava sem problema nenhum.
Enquanto eu e ela esperávamos pela confirmação do preço da minha salada, lembrei-me que uma vez, no liceu (creio que no meu oitavo ano), andei uns três meses para arranjar coragem para convidar uma miúda para sair comigo. Quando finalmente consegui, ela disse-me que ia pensar e me dizia na semana seguinte. Esperei pela semana seguinte em vão, mas como era do Amor que estava à espera, acabei por esperar também pelo mês seguinte e por todos os outros até ao fim do ano escolar, sempre à espera duma resposta que nunca chegou. Mesmo nas férias, nas poucas vezes que me cruzei com ela na rua, tive esperança que ela finalmente me dissesse alguma coisa. Nunca disse.
É estranho como perdemos a paciência tão depressa numa fila do supermercado ou num semáforo vermelho, mas pela esperança do Amor somos capazes de estar eternamente à boleia numa estrada onde nem passam carros.
E lá veio a confirmação do preço da salada. Eu tinha razão, mas a empregada não podia sozinha alterar o preço por uma questão técnica qualquer (pareceu-me que precisava dum login informático duma superiora) e pediu-me para esperar mais uns minutos. Sorri-lhe e disse-lhe que não me importava, mas nesse caso que fosse atendendo a senhora seguinte. E nestes nossos confrontos mesquinhos do dia-a-dia, em que perdemos tanto tempo de vida a sério mas nos congratulamos por não deixar que alguém nos passe à frente no supermercado, fui derrotado por uma lembrança de Amor com uns trinta anos.
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Ela - Às vezes perco toda a réstia de fé e esperança que ainda tenho nos homens.
Eu - Então?
Ela - Ontem tentei ter uma discussão amigável com o meu marido sobre a forma morna como está a nossa relação.
Eu - E depois?
Ela - Ele esteve sempre calado e a olhar para a parede como se não me estivesse a ouvir. Só acordou quando eu disse que a nossa relação não tem nexo.
Eu - Acordou como?
Ela - Confundiu a palavra "nexo" com "sexo".
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Devido à greve da CP, e de eu ter ficado encalhado em Espinho, estou num bar perto da estação a alimentar a esperança que passe um comboio que me leve para Aveiro. Se não passar terei que dormir por aí, muito provavelmente no local onde trabalho. Logo se vê.
Mas não é disso que quero falar. Neste mesmo bar onde estou passei muitas horas antes de conhecer a Raquel, ou melhor, antes de a Raquel me conhecer (os que aqui costumam vir sabem que eu a conheci vinte anos antes dela me conhecer a mim). Passei-as ali ao balcão, também à espera do último comboio para Aveiro (mesmo quando podia apanhar um mais cedo, costumava ficar à espera do último só para matar o tempo). Aqui afoguei inúmeras noites em copos de uísque e conversei com estranhos ao balcão tão perdidos como eu. Lembro-me até de passar a noite toda em Espinho, na conversa com uma ex-prostituta com quem me distraí a falar da mania que a vida tem de ser doce e amarga ao mesmo tempo, e por causa da qual perdi o último comboio. Nessa altura o bar chamava-se Estado Líquido e agora chama-se Joker. Embora mantenha exactamente o mesmo aspecto de bar de subúrbio, nota-se que a gestão mudou.
Nessa altura a minha vida ganhara o ritmo dum barco à deriva num oceano tão calmo quanto turvo. Estava bem, ou melhor, estava calmo, mas a minha proximidade com o Amor era a mesma que se tem com os peixinhos dum aquário. Estão ali, são bonitos, mas nunca lhes tocamos.
Agora, neste preciso momento, esses momentos e essas sensações não são mais do que pinturas emolduradas na minha memória. A realidade mudou. Já não procuro cruzar-me com olhares tão perdidos quanto o meu para que o tempo se torne mais leve. Há bocado uma mulher pediu-me lume e eu limitei-me a dizer-lhe que não fumo, e eu tenho a certeza que há três anos atrás lhe teria dito para se sentar que eu ia buscar fogo onde fosse preciso.
Às vezes fala-se muito em elaboradas e românticas declarações de Amor. Eu continuo a pensar que não há nenhuma declaração de Amor tão grande como esta que faço para mim mesmo (e neste caso a vocês), para o horizonte longínquo e silencioso que a Raquel desenhou em mim mesmo. Estou aqui, encontrado num bar onde já me perdi, porque ela existe, e porque a amo mais do que nessa altura pensava que seria possível para um comum mortal como eu. Não sei se isto vai ser sempre assim, porque a única certeza que tenho da vida é a minha própria morte, mas não me custa nada acreditar que sim.
Sejam felizes, que eu vou ver se apanho um comboio.
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Não podemos ser patetas a não ser no Amor. Não o podemos ser no emprego, não o podemos ser nas compras, não o podemos ser em lado nenhum a não ser com quem nos ama. O Amor tem muito adjectivos, talvez até tenha todos os adjectivos do léxico, mas o de pateta assenta-lhe que nem uma luva.
É que há dois caminhos para analisar as patetices de outra pessoa. O caminho comum, em que se despreza o pateta porque não passa disso mesmo, e o caminho do Amor, que é aquele em que sorrimos face a uma patetice. E só o Amor pode transformar uma patetice num sorriso.
Pensei nisto hoje, quando me cruzei com um casal que caminhava de mãos dadas à minha frente, e ele ia a olhar para cima como se procurasse anjos nas nuvens. Bateu num poste de frente, parou e colocou as mãos na face como se elas pudessem absorver a dor. Ela abraçou-o, chamou-lhe pateta, e depois continuaram.
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Etiquetas: coisas que fascinam
O fim duma relação entre duas pessoas é sempre triste. Tão triste, que essa tristeza é certa mesmo quando o fim da relação beneficia ambos, que é o mesmo que dizer quando ambos a desejam. Talvez o fim duma relação seja o único exemplo nesta vida em que entristecemos ao mesmo tempo que damos um passo para ter uma vida melhor.
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