6.30.2009

conversas 1269

(ao telefone)

Ela - Olá.
Eu - Olá.
Ela - Telefonei-te só para dizer que não tenho tempo para te telefonar. Beijinho.
Eu - Beijinho.
Ela (desliga)

conversas 1268

(ao telefone)

Ela - Preciso que me faças um favor importantíssimo.
Eu - Diz...
Ela - Acho que deixei a minha chave de casa na porta, esta manhã. Vais lá ver?
Eu - Vou... por acaso ainda estou em Aveiro. Se lá estiver passo no teu emprego para ta entregar.
Ela - Nem penses nisso. Não te esqueças que eu tenho um trabalho de grande concentração. Se o meu patrão sabe que me esqueço das chaves na porta de casa, acho que me despede...

conversas 1267

Ela - Estou toda suada... de manhã estava frio e vesti esta camisola quente, agora de repente ficou este calorão...
Eu - É uma coisa que acontece muito.
Ela - Acontece muito eu suar, é? Quem é que te disse?
Eu - Acontece muito estar frio de manhã e calor à tarde...

crónicas de engate (8)

fantasma

Alguns raios de Sol espreitaram pela persiana e vieram deitar-se na cama dela, assim, sem sequer ousarem tapar-se com os lençóis empurrados para o chão pela fragilidade dos seus pés. Tal como ela, devem ter dormido sós e agora aproveitam o conforto da sua nudez. São como um fantasma quente e, a propósito, talvez seja a primeira vez que sente a luz aninhar-se no seu corpo.

Lembra-se que ontem entrou em casa com álcool a mais e felicidade a menos. Lembra-se que, quando fez algum barulho a rodar a chave na fechadura obstinada, sentiu o vizinho a espreitar pelo óculo da porta e lhe estendeu uma das mãos com o dedo do meio esticado. Depois o corpo cansado obrigou-a a dirigir-se directamente para a cama onde se despiu já deitada, expulsando com violência a roupa que a aprisionava. Aliás, foi também assim que empurrou os lençóis.

Talvez por essa roupa ter sido a única testemunha do fim de um amor, mais um, que acabou entre copos no balcão de um bar de que não sabe o nome. Sabe só que ele se despediu dela deixando-lhe cinco uísques pagos, dois bebidos e três por beber, e que se foi embora levando tudo o que nele interessava: o cheiro, o sexo e os efémeros abraços de todas as manhãs.

Os pais, que numa espécie de censura imediata ao seu anúncio de divórcio já a tinham avisado que não é fácil ser mulher divorciada e com filhos, têm parte da culpa da violência que ainda respira dentro da sua aparente serenidade. Enquanto o pai lhe dizia que nenhum homem ajuizado quer uma mulher assim, a mãe concordava com a cabeça abanando-a afirmativamente em silêncio. Ela calou-se e disse-lhes adeus baixinho, mas só o fez para evitar fazer-lhes o mesmo gesto que fez agora ao vizinho.

O suposto melhor amigo, que numa espécie de aprovação imediata ao seu anúncio de divórcio já a tinha avisado que é melhor estar sozinha do que mal acompanhada, também tem parte da culpa. Ela telefonou-lhe no primeiro dia em que se sentiu sozinha e pediu-lhe para passar lá em casa. Explicou-lhe que não podia sair por causa dos filhos e porque ainda se sentia socialmente perra pelos vários anos de um casamento atrofiante. Ele rejeitou o convite com uma desculpa mal inventada e ela nunca mais lhe telefonou.

Foi nos meses a seguir que descobriu que, por trás da enorme alegria dos filhos, há um também enorme fantasma de solidão. É esse fantasma que agora, parasitando a luz do Sol, está deitado ao lado dela, e é ele que com jeitinho e tempo lhe vai pedir para se tapar com os lençóis. Talvez ela se tape e talvez, por uns segundos em que se consiga aquecer nele, acredite outra vez em qualquer coisa.

pensamentos catatónicos (182)

Às vezes convenço-me que há um certo síndrome de Diógenes em todas as pessoas que se sentem apaixonadas. Diógenes foi um filósofo grego que desistiu de tudo o que tinha e acabou os seus dias a viver dentro de um barril abandonado. Não estou a dizer que quando nos apaixonamos vamos todos viver assim, estou a dizer que só somos capazes de nos apaixonar quando também somos capazes de abdicar um bocadinho de nós...

6.26.2009

prolongar o sexo



Os preservativos Durex Performa contêm benzocaína, que ajuda os homens a prolongarem a actividade sexual na cama. A marca distribuiu na Erotica, a maior exposição anual de sexo na Nova Zelândia, fronhas de edição limitada com estes preservativos. Estas fronhas tiveram um tal sucesso que tiveram que fazer mais para vender em sex shops.
Eu acho muito bem que a Durex crie preservativos que resolvam os problemas de ejaculação precoce que alguns homens têm. Agora tentar tirara vontade toda a um tipo é que não acho boa ideia. Aquilo são fronhas que eu não quero lá em casa...

conversas 1266

Ela (mostrando-me um saco) - Fui às compras...
Eu - Ena... compraste três saias?!
Ela - Comprei... mas agora vou experimentar em casa e depois devolvo duas.
Eu - E porque é que não experimentaste na loja?
Ela - Nas lojas fico muito ansiosa e não escolho bem. Por isso é que só compro roupa onde sei que me devolvem o dinheiro na boa...

conversas 1265

Ela - Que é que tens?
Eu - Nada...
Ela - Conheço-te. Tens alguma coisa...
Eu - Nada. Estou com uma pedrinha na alma mas nem sei porquê.
Ela - Está tudo bem contigo?
Eu - Sim. Estou numa fase boa da vida. Acho que é quando estamos felizes que às vezes surgem estas pedrinhas...
Ela - Sim, quando andamos tristes surgem pedregulhos. Apetece-te uma caneca de cerveja?
Eu - Apetece.
Ela - Então anda, ofereço eu. Apetece-me chegar tarde a casa para chatear o meu marido.
Eu - Porque é que queres chatear o teu marido?
Ela - Não é bem chatear. Quero que ele tenha saudades minhas e fique assim como tu, com uma pedrinha na alma. Quando os homens estão assim fazem tudo o que nós queremos...

pensamentos catatónicos (181)

Lembro-me de reparar na forma meiga como ela pegava na esferográfica e de querer perceber essa meiguice que ela escrevia. Na janela do comboio pontilhavam alguma gotas duma refrescante e morna chuva de Verão e, lá fora, algumas nuvens aguarelavam de negro o intenso céu azul. Lembro-me que ela olhava prolongadamente pela janela, alternando a escrita com uma efémera contemplação à monotonia da paisagem. E eu, da mesma forma, olhava para ela sem alternar o meu olhar com o que quer que fosse.
Lembro-me de ela ser bonita quando bebíamos pelo mesmo copo de cerveja e quando brincava com o polícia austríaco que nos tinha revistado na fronteira, gritando alto as palavras "passport" e control". E foi num desses gritos que lhe dei a mão, depois o braço, depois os lábios e por fim o tempo. E devo ter-lhe dado o meu tempo e o tempo dos outros, porque tanto quanto me lembro os outros deixaram de existir.
Lembro-me dela. Só não tenho a certeza se realmente existiu. Acho que é por isso que às vezes vou ver a pedra que ela me deu no dia do meu regresso. Lembro-me de me dizer que talvez um dia nos víssemos por aí, num canto qualquer do mundo, e eu acenar que sim com a cabeça. Lembro-me dos meus olhos serem uma represa e de achar que os dela também. Só não sei se ela se lembra de mim.

6.25.2009

conversas 1264

(com uma amiga que encontrei na rua)

Ela - Olá. Estás bem?
Eu - Sim, e tu?
Ela - Também. Temos que tomar um café um dia destes. Tenho tantas saudades tuas...
Eu - Podemos ir agora.
Ela - Agora?
Eu - Sim...
Ela - Agora não posso... hum... hum... tenho que... hum... tenho que ir ter com uma amiga que está à minha espera.

olha, tu que estás aí...

Alguém se lembra duma música que se chamava "Canção do Rádio", cantada pelo Tó Zé e pela Tânia? A Tânia era uma menina pequenina que pedia ao senhor do rádio para sair de lá de dentro e o senhor respondia que não podia. Se alguém tiver isso, seja lá em que formato for, por favor envie-me. Estou capaz de matar por essa música...

Ela - Olá, tu que estás aí dentro desse rádio. Vá lá, sai e vem aqui, para eu te ver.
Ele - Olá, tu que estás aí a ouvir a rádio. Sabes, eu não estou aqui, só está a minha voz...
Ela - Olá, para caberes aí és tão pequenino. Diz lá, posso entrar aí e ficar contigo?
Ele - Olha, não podes entrar, dentro do teu rádio. Sabes, eu não estou aqui. Tu tens de acreditar...

conversas 1263

Ela - Acho que me estás a dever dinheiro.
Eu - Porquê?
Ela - Eu dei-te dois euros para pagar a minha parte desta semana do euromilhões, certo?
Eu - Certo. É dois euros a cada um...
Ela - Depois deste-me vinte para eu registar o boletim, certo?
Eu - Certo. Somos dez e apostamos vinte euros por semana. Dá dois euros a cada um mas, como esta semana eu não tenho tempo de registar, dou-te os vinte euros e registas tu. No entanto faz de conta que fui eu a registar e os outros fazem contas comigo na mesma...
Ela - Mas se eu te dei dois euros e tu me deste vinte, na verdade só me deste dezoito. Agora vou ter que pôr mais dois para registar o boletim, ou seja, tenho que pagar quatro euros em vez de dois...
Eu - Andas muito cansada, não andas?

demónios

Uma igreja americana exorcizou um jovem homossexual e colocou o vídeo do exorcismo na internet. "Arranca-o pela garganta, anda, demónio homossexual, espírito homossexual. Ordenamos-te que saias imediatamente", grita uma mulher no vídeo. [ver notícia no Jn]
Desde pequenino que gosto de exorcismos. Isto porque, nessa altura, tive uma paixão enorme pela Regan MacNeil (interpretada por Linda Blair), a personagem possuída no clássico do cinema O Exorcista. Imaginem o que uma miúda capaz de girar assim o pescoço conseguirá fazer na cama. Milagres, milagres...
E por falar em milagres, se estes padrecas quiserem vir cá a Portugal exorcizar gajos como o Vitor Constâncio ou o Dias Loureiro, por mim estão à vontade. Não sei se eles são homossexuais ou não mas acredito que estão cheios de demónios por dentro...

6.24.2009

conversas 1262

Ela - Enquanto dormias fui arrumando a tua sala.
Eu - Oh! Não...
Ela - Não querias?
Eu - Agradeço-te... mas às vezes eu prefiro ter as coisas aparentemente desarrumadas e saber onde elas estão, do que ter tudo arrumado e precisar de duas horas para encontrar o que preciso.
Ela - Homens...
Eu - Mulheres...

6.23.2009

água

A água é um recurso natural ao qual não há alternativa. Por isso mesmo, na minha óptica, é um bem que deve ter uma gestão exclusivamente pública e deve ser gratuito dentro dos limites que a Organização Mundial de Saúde estipula como básicos. Depois, quem quiser encher a piscina lá de casa ou regar a relva do jardim todos os dias que pague.
A Câmara Municipal de Aveiro, à revelia do seu próprio programa eleitoral, prepara-se para privatizar os serviços de fornecimento de água em final de mandato. Sou contra a mercantilização da água e por isso assinei esta petição que um anónimo me deixou nos comentários...

conversas 1261

Ela - Passas a vida a jogar isso. Não tens nada de jeito para fazer?
Eu - Tenho. Jogar isto é uma coisa de jeito.
Ela - São só comboinhos e aviõezinhos e não sei quê...
Eu - Isto é um jogo que foi criado para o 386 e que eu adorava. Agora descobri que uns bacanos fizeram um clone gratuito para o Windows Vista...
Ela - Isso é um jogo de putos. Porque é que não fazes legos, já agora?
Eu - Por acaso estou a pensar comprar daqueles legos robotizados...
Ela - Estou lixada contigo..
Eu - Não estás nada. Não te obrigo a jogar nem a fazer legos...
Ela - Ufa. Estou mais descansada...

dez coisas que tenho para fazer hoje

1] Lavar a louça.
2] Fazer uma máquina de roupa e pôr essa roupa a secar.
3] Limpar o tecto da minha casa de banho.
4] Tomar café com a minha ex-mulher e tentar encontrar uma data para o jantar anual da celebração do nosso divórcio.
5] Aviar uma receita na farmácia para a minha filha.
6] Beber uma cerveja com uma amiga que já não vejo há meses.
7] Ir às compras.
8] Tomar café sozinho para sentir o prazer de folhear os jornais do dia.
9] Fazer o jantar para a minha companheira e para a minha colega dj.
10] Passar música no Clandestino bar.

crónicas de engate (7)

as duas torres

Gosto do murmúrio das folhas das árvores no Verão, aquele que me chega numa tímida dança das suas sombras frescas com farrapos da luz do Sol. Hoje passeei-me por aí, de manhã, e deitei-me num tapete de relva para o ouvir.
Gosto das duas torres que se esticam para tentar tocar as nuvens. São como um casal idoso que já não se toca mas também não se aparta e acho que se calhar o amor às vezes é só isso: o outro fazer-nos falta.
Gosto do avião que vi riscar o céu, e que aparecia e desaparecia entre as folhas da árvore que me segredou a história dessas torres. É uma história tão simples, quase infantil, como outra história de amor qualquer.

No último andar duma das torres, uma mulher pousou as malas e os caixotes com todos os seus haveres. Estava ansiosa por começar a arrumar tudo, pois poder viver tão perto das nuvens era a realização dum sonho antigo, e como se por um instante acreditasse que lhes podia tocar, abriu uma das janelas daquele vigésimo andar e esticou o dedo em direcção ao céu. Não lhes tocou mas disse adeus ao avião que ia a passar.
No último andar da outra torre, já o pó se acumulara sobre as malas e os caixotes do homem que ali vivia. Ao contrário dela, ele tinha ido para ali para se isolar e não por causa de sonho algum, que queria esquecer um amor antigo e achava que um vigésimo andar o podia ajudar. Aliás, por ter uma vontade enorme de se afastar de tudo e de todos, apenas os aviões o fascinavam, e só ia à janela quando sentia que um estava a passar. Dessa vez, para além do avião, viu uma mulher na janela em frente a tentar tocar nas nuvens...
Consta que se apaixonaram e que ainda hoje vivem ali, tal como as duas torres, sem se tocarem mas sentindo a falta um do outro cada vez que um deles não vai à janela.

Gosto dos pássaros que fazem ninho nos edifícios decrépitos que envolvem o jardim. É como se eles não ligassem a essa ofensa da cidade que é a construção exacerbada. Hoje passeei-me por aí e, enquanto os via a brincar nas janelas abandonadas dum prédio em construção, pensei nesta história das torres. Talvez de certa forma seja também uma história minha...

a cidade à mesa do café

Com a minha viagem recente à Irlanda e à República Checa, as crónicas da cidade que sopra ficaram um pouco abandonadas. Esta semana a crónica a ser publicada no Diário de Aveiro chama-se "a cidade à mesa do café".

Um copo riscado e uma garrafa de sumo de laranja, um pires com um bolo de arroz, uma caneca e dois ou três maços de tabaco erguiam-se como edifícios na mesa do café onde um jornal silenciava o meu pai todas as noites. Nessa pequena urbe improvisada, ameaçada pelas nuvens do fumo dos cigarros, as minhas mãos de criança conduziam nervosas e apressadas miniaturas de automóveis. Depois o meu pai destruía parte da cidade para poder fazer as palavras cruzadas e eu ganhava o direito a um chocolate qualquer. Era o meu prémio da noite.

A propósito da cidade que sopra, hoje, no melhor bar do mundo, há músicas do mundo com os Couscous Prosjekt.

conversas 1260

Ela - Como é que tu conseguiste apaixonar-te outra vez? Eu não consigo... separei-me na mesma altura que tu e nada...
Eu - Eu também demorei e, como tu sabes, foi um processo tumultuoso.
Ela - Não consigo sentir nada por nenhum homem. Quer dizer, sinto sempre assim um carinho especial cada vez que me envolvo com um, mas nunca é nada de grandes paixões nem que me dê vontade de repetir.
Eu - Então deixa-te estar. Isso não é mau. Mau é uma pessoa apaixonar-se por outra que não lhe liga nada...
Ela - Mas eu queria mesmo apaixonar-me mesmo que fosse para sofrer. Só para saber que ainda sou capaz.
Eu - Sinceramente acho que é diferente apaixonares-te aos vinte anos e aos quarenta. Se calhar ainda não percebeste isso.
Ela - É diferente como?
Eu - Aos vinte eu apaixonava-me cada vez que via um par de olhos bonitos, ou seja, de cinco em cinco minutos. Aos quarenta tens que querer. É um processo consciente em que tens que investir. Nos primeiros tempos só tens esse tal carinho especial e depois, com o tempo, é que isso se vai transformando numa coisa mais forte.
Ela - Então porque é que demoraste tanto tempo?
Eu - Não sei. Se calhar esse carinho especial não me acontece assim tantas vezes como a ti...