10.07.2013

coisas que fascinam (163)

As árvores despem-se no Outono, disse ela. Eu confirmei, abanando a cabeça afirmativamente, enquanto aquecia os dedos das mãos na chávena de chá escaldada. Lá fora, como se estivéssemos perante uma pintura viva, as folhas mortas avermelhadas pontilhavam a cidade cinzenta. Lembro-me de acompanhar, com o olhar, um pássaro assustado que batia freneticamente as asas em direcção a lugar nenhum. Acabou por ser refugiar na beira duma janela triste, que muito provavelmente deixara de apreciar as vistas havia muitos anos. Estava fechada, tão fechada como os olhos de alguém que dorme um sono eterno.

A Marta era a companhia ideal para as minhas tardes de silêncio. Tinha sempre qualquer coisa para dizer e não se importava que eu não lhe respondesse. Falava sobre tudo e era capaz de mudar de assunto várias vezes por minuto. Normalmente eu limitava-me a ouvi-la. Lembro-me que gostava de o fazer porque também gostava de a ver sorrir, o que ela fazia constantemente. De resto, ela tinha uma habilidade muito especial para... para qualquer coisa importante que nunca percebi o que era.

- É estranho as árvores despirem-se no Outono! - insistiu ela.
- Porquê?
- Porque está frio. No Inverno deviam vestir-se com um casaco quentinho de folhas. Talvez fosse melhor despirem-se no Verão.
- As árvores não sentem frio nem calor... - respondi.

Ela desfez o sorriso enquanto eu verificava se o chá já tinha a cor pretendida, mergulhando o saco com as ervas várias vezes seguidas no caldo de água quente. Pelo canto do olho, percebi que ela estava desiludida com alguma coisa, mas não fazia ideia do que era.

- O que é que foi? - Arrisquei.
- Quando eu estiver a conversar contigo e te disser uma inverdade, por favor, leva-me a sério. Para seres meu amigo tens que acreditar que eu acho que as árvores têm frio. Está bem?

Tornei a abanar a cabeça afirmativamente. Foi aquela a única vez que a Marta me chamou a atenção numa conversa e mostrou desagrado pela minha resposta. Percebi, nesse dia, que mesmo numa conversa de pacotilha como aquela era importante estarmos os dois ao mesmo nível. A minha observação, embora coerente, tinha cortado a conversa pela raiz. 

- Desculpa. - pedi.

Hoje fui dar uma volta aqui pela zona onde vivo, em Aveiro, que não é propriamente a zona mais bonita da cidade. Sentei-me numa paragem de autocarro e ao meu lado sentou-se uma mulher com a filha, uma miúda com uns cinco ou seis anos de idade. Uma árvore nua contemplava-nos num silêncio sepulcral e a criança perguntou à mãe se ela não tinha frio.
Há muitos anos que não vejo a Marta. Sei que ela foi viver para o estrangeiro há muitos anos e perdi-lhe o rasto. Hoje, no entanto, percebi qual era a habilidade dela de que eu sinto falta. Ser criança. Não pelos gestos infantis, nem sequer por alguma ingenuidade inerente, mas sim pela capacidade que tinha de humanizar tudo o que via. Incluindo eu.

10.03.2013

pensamentos catatónicos (300)

Tenho uma cómoda no meu quarto que foi feita pelo meu avô. Sempre que a vejo, por um curto momento que seja, lembro-me dele. "Olha a cómoda do meu avô", penso. Nela tenho seis gavetas, três mais pequenas e três grandes, e reservo uma destas para guardar tudo o que não cabe em mais sítio nenhum. Ali estão fotografias, cartas, postais, canetas e as coisas mais estranhas que se pode imaginar. Muitos objectos que não têm interesse nenhum, a não ser para mim, porque num determinado momento da minha vida foram importantes. Sempre que os vejo lembro-me desses momentos, tal como a cómoda me lembra o meu avô.
É o caso duma joaninha de corda, por exemplo, que a Raquel me ofereceu quando passámos em frente a uma velha loja de brinquedos na República Checa. Estávamos tão felizes nesse dia, que experimentámos imediatamente o brinquedo no passeio, perante o olhar espantado dos transeuntes que se desviavam daquele insecto metálico que rodopiava no chão. Lembro-me de olhar para a Raquel e de pensar como o mundo se dividia entre nós e todos os outros habitantes do mundo. Depois ri-me. É desse momento que a joaninha me lembra.
Agora mesmo acabei de ler a primeira carta que a minha filha escreveu ao Pai Natal, quando ainda acreditava nele. Emocionei-me. Não pedia nada para ela, mas sim para mim, assim, como "poderes" em vez de "puderes"

Venho dizer que o meu pai queria uma PSP, sabes  eu não sei se podes dar. Se poderes agradecia, eu queria que o meu pai tivesse uma prenda de Natal mesmo que não seja uma PSP. Beijinho

Os objectos têm esta mania estúpida de me fazer viajar no tempo. É por isso que os guardo, seja uma pedra que encontro no caminho ou uma máquina de escrever antiga; um simples lápis de carvão ou um copo de vidro comum.

Sei que um dia qualquer, quando eu morrer, alguém vai tratar de pôr tudo no lixo, mas aí já terão cumprido a sua função de manter a minha vida para além do presente, este presente que deixa de o ser assim que o é. É só por isso que estou a escrever este pequeno texto. Acabei de ir lá fora pôr o lixo orgânico no contentor, onde uma mulher estava encostada sem dizer nada, como se ela própria tivesse sido ali depositada por alguém, como que à espera que outro reparasse nela e ainda a aproveitasse.

- Precisa de alguma coisa? Está bem? - Perguntei.

Ela acordou, como se tivesse acabado de sair dum sono secular. Aos seus pés tinha um saco cheio de objectos que podiam muito bem ser os da minha gaveta. Um pouco de tudo, como se fosse possível embalar uma vida num saco. Abriu-o, pegou num ou dois e meteu-os no bolso, depois atirou o resto para a reciclagem.

- Ele morreu! - disse.

Fiquei a vê-la afastar-se. Compreendo-a.

10.02.2013

respostas a perguntas inexistentes (261)

Desde o fim de semana que estou praticamente remetido ao interior da minha casa, entre algumas canecas de chá muito quente e copos de água onde dissolvo saquetas de paracetamol. Quando passamos alguns dias seguidos fechados em casa, praticamente sozinhos, o mundo lá fora ganha outro significado. É como se fosse o mundo dos outros, o qual vamos observando através da janela como se fosse o telescópio dum submarino.
Saio muito raramente com a desculpa comum de tomar um café no tasco do outro lado da rua, mas a razão verdadeira é precisamente aventurar-me nesse outro mundo e ver algumas caras diferentes daquela que o meu espelho tem a mania de me mostrar. As caras dos outros, que se tornam interessantes mesmo que eu não as conheça de lugar nenhum. É que para além disso, este é o terceiro dia consecutivo em que a minha vida social se resume a conversas ao telefone com a Raquel, a minha mãe e um ou outro amigo. Com uma excepção.
Foi precisamente nesse café que marquei um encontro com a Olga. Ela tinha visto no facebook que eu estava doente e mandou-me uma mensagem privada. "Talvez seja uma boa oportunidade para nos vermos", dizia. E eu, que acho que todas as oportunidades são boas, combinei com ela. Tive que lhe explicar onde vivo, porque não a via há uns quinze anos. Cheguei uns dez minutos antes da hora marcada.
Lembro-me que ela tinha um namorado de quem eu não gostava muito. Um tipo pouco falador, um pouco mais baixo do que eu, que tinha a mania de andar com a chave do carro na mão e que a usava como sinal sonoro para tudo. Por exemplo, quando queria chamar o empregado do café, batia com chave na mesa para atrair a sua atenção. Era uma coisa que me irritava solenemente.
Outra coisa de que me lembro é que ele anulava a Olga totalmente. Quando ela estava sozinha era uma mulher interessante, faladora e que tinha uma opinião sobre tudo, algo que eu apreciava bastante. Quando ele estava com ela, no entanto, era praticamente impossível ouvir-lhe a voz. Transformava-se numa espécie de bicho do mato, mudo e surdo. Mesmo quando eu lhe perguntava fosse o que fosse, era ele quem respondia automaticamente.
Talvez por isso tenha sentido um certo alívio quando a vi chegar sozinha ao café.

- Estás melhor? - Perguntou.
- Já consigo falar. Ontem nem isso conseguia, por causa da garganta inflamada.

Ela riu-se. Pediu um café e um pastel de nata enquanto olhava para a minha chávena já vazia, com um ar compreensivo e como se assim me explicasse que já sabia que eu não queria pedir nada.

- Estás como eu, então! - concluiu.
- Como tu?!
- Sim. Também andei anos com a garganta inflamada. Agora já consigo falar.
- Casaste com aquele teu namorado...
- Sim, mas já me divorciei.

Não me espantou o facto dela ter casado com ele. Espantou-me o tê-lo feito com a perfeita consciência do que estava a fazer. Ela sabia que estava a anular a própria vida ao fazer aquela opção mas, por qualquer motivo que nem ela me conseguiu explicar, fê-lo. Conversámos sobre isso, de forma descontraída, e eu acabei por recorrer também à doçura duma nata. Andou alguns anos calada, a observar o mundo como se não fizesse parte dele. Era o mundo dos outros, disse-me.
Estava doente, concluí.

9.27.2013

serpentinas

Era um dos meus passatempos de criança. Durante a época carnavalesca, eu e o meus amigos da rua onde cresci abríamos um saco de serpentinas, desenrolávamos uma a uma e passámos a tarde a deixá-las ir nas antenas dos automóveis que passavam. A técnica era fácil, mas apurada. Cada um ficava numa das margens da rua com a serpentina esticada. Quando víamos um carro ao longe, se ele trouxesse antena (dantes só alguns automóveis é que tinham rádio), tentávamos que ela engatasse na serpentina e ficávamos a vê-la ir até aos limites do nosso mundo, ou seja, até à primeira curva.
As cores das serpentinas era normalmente um pouco apagadas, como se tivessem secado ao Sol durante décadas. Além disso variavam pouco. Havia o vermelho, o amarelo, o azul, o verde e, tanto quanto me lembro, a coisa ficava por aí. Mesmo assim eram essas as serpentinas dos meus sonhos. Na minha cabeça, os carros que as levavam nunca mais paravam. Com ela acabariam por colorir todas as regiões do mundo.
Lembrei-me desta minha sensação de criança há uns dias atrás, quando, com uns colegas meus da política, ocupei um lugar de estacionamento numa das principais avenidas de Aveiro e o ajudei a transformar num espaço verde. Hoje os meus sonhos são outros, mas tenho essa sorte de ainda conseguir sonhar. Sonho, por exemplo, que todos tenham direito ao que é fundamental, como a água, a mobilidade, a educação, a saúde, o lazer, o trabalho e... enfim. a própria vida.
Por isso mesmo, por causa desses sonhos, é que não tenho vindo aqui. Durante as últimas semanas tenho estado envolvido com a campanha do Bloco de Esquerda em Aveiro e foi por isso arranjei uns minutos para vir aqui escrever agora. É que pelas ruas só tenho encontrado desânimo e tristeza, o que eu compreendo perfeitamente. Também estou estou desempregado, por exemplo. Também eu pago a segunda água mais cara do país, também eu tenho uma filha a crescer num país onde não se vê futuro.
O que eu não compreendo é a desistência. Ouço demasiados jovens a dizer que desistiram da política, que não votam, que não querem saber. Cada um dos que diz isto, cada um dos que desiste em nome de nada, está a contribuir para que quem nos rouba há anos continue a fazê-lo por muito mais tempo. E era só isso que eu queria dizer-vos hoje. Não desistam, pelos vossos sonhos!
No Domingo saiam de casa, vão até às urnas e votem. Não vos estou a dizer para votarem no Bloco. Estou a pedir-vos que votem de forma consciente, que não deixem que os outros falem por vocês. Só isso. E se tiverem tempo e paciência, deixo-vos aqui alguns vídeos do que fomos fazendo por aqui nestas duas semanas.





9.12.2013

pensamentos catatónicos (299)

Hoje de manhã estava um casal de idosos a tomar o pequeno-almoço no café. Entre o ruído mais ou caótico das chávenas, dos talheres e da máquina de café expresso, era como se uma bolha de silêncio os envolvesse. Olhei-os de lado e fiquei com a sensação que não diziam nada um ao outro porque as palavras já se tinham esgotado há muito. As palavras esgotam-se com a vida? - Perguntei-me. Restava-lhes um incógnito olhar para duas chávenas de café vazias e uma presença ausente.
Do outro lado, na mesa à minha direita, um homem começou a levantar a voz à companheira. Não num tom violento, mas numa tentativa óbvia de a anular. Percebi que a conversa vinha já da noite anterior e se baseava toda na futilidade dela como companheira de vida dele. O Amor deve ser útil? - Perguntei-me. Restava-lhes um ar desconsolado para duas chávenas de café nervosas e tristes.

- Nunca dizes nada de jeito! - repetia ele.

Ela nada dizia.
O Amor é antidemocrático, eu sei. Pior ainda, é um golpe de Estado e uma usurpação do nosso trono. O poder do povo termina no momento exacto em que se apaixona. Compreendo bem a coisa. A sério que sim. O que não aceito é esta mania de viver em casamentos cansados e violentos. As revoluções nunca fizeram mal a ninguém. Muito menos ao Amor.
O casal de idosos levantou-se e saiu. Fiquei a vê-los pelo canto do olho. Deram as mãos e desapareceram lentamente na primeira curva, levando com eles o seu silêncio único. Ao meu lado direito a discussão agravou-se. Ela decidiu responder. Talvez as palavras não se esgotem sempre, mas era bom que às vezes o fizessem. Pelo menos foi o que pensei.

9.10.2013

conversa 2035

Ela - É tão bom quando um palerma tenta engatar uma mulher à noite.
Eu - Bom?! Porquê?!
Ela - Não há maior prazer nesta vida do que dar falsas esperanças a um homem durante uma noite inteira e, no fim, dizer-lhe simplesmente adeus com a mão e ir embora.

9.06.2013

respostas a perguntas inexistentes (260)

acordar

Uma vez disse à Marta que gostava de não ter que dormir. Claro que o disse com a suposição de que, mesmo não dormindo, o meu corpo não se ressentiria minimamente. Não dormia, mas também não andava cansado e, acima de tudo, não perderia tempo de vida por isso. A Marta deu um gole no copo de vinho branco e respondeu-me de forma lacónica.

- Eu gosto de dormir! - disse.

Depois expliquei-lhe que o que eu estava a dizer, de facto, é que estava a gostar imenso de estar ali com ela, a meio da noite, apenas com a Lua e o silêncio da cidade a acompanhar a nossa conversa. Eram quase quatro da manhã e nas ruas até os candeeiros públicos pareciam querer adormecer. Era como se a sua luz tivesse enfraquecido de propósito para não atrapalhar o ambiente. A generosa varanda do apartamento da Marta era, para mim, uma espécie de refúgio. Quando ali estava, era como se o mundo desconhecesse a minhas coordenadas e, talvez por isso, a Lua cheia parecesse mais curiosa e concentrada em mim.
Nunca cheguei a perceber muito bem o que a Marta significava naquela altura. Sei que tinha que fazer exactamente trinta e dois quilómetros para estar com ela na varanda e, mesmo assim, fazia-os regularmente. Talvez não estivesse, de facto, apaixonado por ela. Mas tenho a certeza que queria estar.Essa é, talvez, umas das mais desconfortáveis condições emocionais por que um homem pode passar.
A Marta tinha também uma estranha qualidade. Quase sempre, nos nossos silêncios, adivinhava o que eu estava a pensar. Nunca me ofereceu um tostão furado pelos meus pensamentos.

- Eu gosto de dormir, não apenas para descansar. O meu prazer está essencialmente em acordar. Acordar para um dia novo é uma espécie de viagem no tempo. Desapareço da vida num momento e regresso noutro, já no futuro. Mesmo que o mundo esteja praticamente na mesma quando regresso, posso sempre acreditar que não, nem que seja por una momentos... - desviou o seu olhar do meu e tornou a encher os copos.

A Lua continuava ali, suspensa no céu como se quisesse continuar a ouvir os nossos segredos, mas eu calei-me. Pedi à Marta que me emprestasse uma t-shirt e me arranjasse uma escova de dentes (sabia que ela tinha a mania de ter escovas descartáveis lá em casa). Fui dormir. Talvez no dia seguinte acordasse apaixonado por ela e ela por mim. 
É verdade que isso nunca aconteceu, mas eu passei a dar uma nova importância ao sono.
Por estes dias também dou. Talvez amanhã acorde e tudo esteja diferente...

conversa 2034

Ela - Há quantos dias é que eu não vinha a tua casa?
Eu - Estiveste aqui na segunda-feira, não foi?
Ela - Acho que foi. Há quatro dias, portanto.
Eu - Sim.
Ela - Muito interessante.
Eu - Porquê?
Ela - Porque ainda tens a mesma roupa a secar.
Eu - E depois?!
Ela - Não achas que já secou o suficiente?
Eu - Já está seca, sim.
Ela - E estás à espera de quê, para a apanhar?
Eu - De precisar duma peça qualquer que esteja pendurada.
Ela (suspiro)
Eu - O que é que foi?
Ela - Não interessa. Nada do que eu te diga te pode salvar.

9.04.2013

engole o teu piropo

ou solta o grunho que há em ti!

Duas aderentes do Bloco de Esquerda decidiram fazer, durante um evento anual que o partido organiza há já alguns anos, uma conferência chamada “Engole o teu piropo”. A mesma destinava-se a uma reflexão sobre o machismo no nosso país, ou seja, mais concretamente sobre a forma invasiva e desrespeitosa como alguns homens tratam as mulheres. Esse evento chama-se Socialismo e é composto por conferências com diversas e variadas temáticas. Eu próprio, no ano de 2012, fiz uma sobre o filme Blade Runner e o livro de Philip K. Dick que esteve na sua origem.
Voltando aos piropos, umas das coisas que eu gosto no Bloco é precisamente a sua capacidade de discutir tudo e mais alguma coisa que diz respeito à organização política. Machismo, feminismo, bem estar dos animais, exploração no trabalho, injustiça na Economia, etc. Não creio que haja temas menores quando neles há vítimas directas que, muitas vezes, sofrem em silêncio.
É o caso dos piropos, por exemplo, que na verdade me preocupam enquanto Homem e, já agora, enquanto pai duma menina que está a entrar na adolescência e a começar a perceber o grunho que existe dentro de alguns portugueses. É preocupante, tanto porque define um pouco o país em que vivemos, como porque afecta a vida de todas as raparigas que, tal como a minha filha, estão expostas a essa grunhice. Para mim, não restem dúvidas, é um tema a discutir. Sempre.
Fiquei ainda mais preocupado quando percebi a reacção de um vasto sector da sociedade portuguesa, maioritariamente masculino, a esta iniciativa. Vi, ouvi e li de tudo. Chamaram lésbicas às minhas camaradas, inúteis e, em tom jocoso num cartoon do Expresso, podres de boas. Enfim, todos deram razão à existência da iniciativa, porque todos pareceram soltar com vontade o grunho que tinham reprimido lá dentro. E não, não estou a exagerar. O piropo é para acabar.
Lembro-me muito bem de, quando tinha vinte anos de idade, uma colega minha entrar na sala de aula a chorar, como se uma nova e doentia condição humana lhe tivesse sido revelada naquela manhã de Outubro. Um homem qualquer, bastante mais velho, tinha-a perseguido durante alguns minutos e, antes dela entrar na escola, prometido que estaria ali à espera que lhe fizesse uma mamada. Só isso. Ela não aguentou. Alguns grunhos acharam que era normal. Eu não.
Percebi agora que, quase trinta anos depois, os homens portugueses evoluíram muito pouco ou nada. A questão atingiu uma proporção tão dantesca que ouvi comentários de quem nem sequer sabia o que se passava. Parecia que o Bloco tinha feito um projecto de lei sobre o assunto e esquecido que estamos em crise. Não esqueceu, mas a crise não implica esquecer o resto, o resto, ou seja, o respeito por cada um de nós, independentemente do género, da etnia, da religião ou doutra coisa qualquer.

E, por favor, poupem-me ao contraditório. Eu sei muito bem que há piropos e piropos. Há os que devem ser engolidos e os que devem ser livres. Por isso mesmo acabo este texto com um piropo a todas as mulheres que aqui me visitam: “Obrigado por existirem!”. Infelizmente, muitos homens homens não percebem que a normalidade em que vivem não é normal.

9.03.2013

conversa 2033

Ela - Ando a tirar um curso de pintura.
Eu - Fixe. Vou precisar de ti, então.
Ela - Porquê?
Eu - Porque as paredes da minha casa estão um nojo e vou ter que as pintar, coisa em que não tenho grande experiência.
Ela - Sabe-me sempre bem conversar contigo de vez em quando.
Eu - Porquê?
Ela - Porque me apercebo sempre do motivo pelo qual as coisas nunca resultaram entre nós.

9.02.2013

respostas a perguntas inexistentes (259)

Depois do meu divórcio e antes do meu novo casamento, marquei diversos encontros com mulheres um pouco por todo o país. Alguns correram melhor, outros pior. Algumas dessas mulheres ficaram minhas amigas, outras nem por isso. Lembro-me com frequência de alguns desses encontros, doutros nem por isso. 
Alguns amigos meus, com base num pensamento a que arrisco chamar mais conservador, criticaram-me ou avisaram-me, sempre com as melhores das intenções, que não é através de encontros com desconhecidas que se deve conhecer uma mulher. Ainda hoje discordo, até porque se se conhece uma mulher, é porque até então ela era desconhecida, seja numa saída à noite, numa inscrição num workshop de dança ou outra coisa qualquer. Eu queria conhecer pessoas. A internet é apenas um (mais um) meio para o fazer.
Apesar da minha actual relação ter sido uma das maiores coincidências da minha vida, creio que mesmo a maior, acabou por ser essa a via para a relação mais longa que já tive com uma mulher depois de me ter divorciado. Por isso, e independentemente da coisa continuar a resultar por muito mais tempo ou não, não me arrependo. 
Hoje, daquilo que mais me lembro dos meus encontros, é sobre como nos apresentamos ao outro e o que realmente somos. Nunca corresponde, ou quase nunca. Talvez por isso os ingleses lhes chamem blind date (encontro às cegas). Muitas vezes fui ter com mulheres que nunca tinha visto, nem sequer em fotografia, mas das quais fazia uma ideia. Aliás, fazemos sempre uma ideia sobre como são os outros, seja alguém com quem conversamos na net, seja um locutor de rádio ou outra coisa qualquer.
Entre esta distância que separa a forma como nos vemos e aquilo que realmente somos, existe também a variável do que somos e do que queríamos ser, variável essa que pode ser muito cruel. Acho que foi por isso mesmo que na primeira vez que vi a Anabela ela estava a chorar. É assim que me lembro dela hoje, sete anos depois. A chorar.
Saí de Aveiro num fim de tarde em direcção a Coimbra para tomar um café com ela. Nunca a tinha visto, mas a descrição dela, feita por ela mesma, revelava uma mulher morena de um metro e sessenta e cinco, magra, lábios grossos, tímida e que se escondia frequentemente nos seus longos cabelos negros. 
A primeira conclusão a que cheguei é que é que se atrasava bastante, porque apesar de termos combinado às oito da noite num café central, às nove ainda não tinha vislumbrado ninguém que se assemelhasse a tal apresentação. Foi nesse momento que uma "outra" mulher, loira, de cabelo curto e certamente com mais de cem quilos, se sentou na minha mesa a chorar. Estava ao meu lado, em segredo, desde o princípio, a ganhar coragem para se revelar.
Pediu-me mil desculpas por me ter feito andar tanto em busca do inexistente. A sua descrição baseara-se na minha assumida admiração pela Mayra Andrade.

- E o que é que bebes? - Perguntei como que querendo fugir àquela pequena explosão do meu dia.
- Não estás zangado?
- Estou zangado com o mundo. Contigo, obviamente que não.
- Tu também não és bem o que eu estava à espera... - concluiu.

Eu não era o que a Anabela estava à espera. A Anabela não era o que eu estava à espera. Depois mandámos vir vinho, bebida que nos acompanhou numa conversa até às três da manhã, já no seu pequeno apartamento. Dentro daquilo que não éramos, ficámos amigos até hoje. Estava aqui a pensar na quantidade de vezes que dei de caras com mulheres que correspondiam fisicamente ao que diziam, mas com quem não fui capaz de dividir um copo desse néctar da amizade que é o tinto maduro.

8.22.2013

nome


A Post-it, pelo menos través desta sua publicidade, parece dar uma estranha importância ao seu produto. Quando um homem leva uma mulher para a cama, escreve-lhe o nome na testa para se lembrar dele quando acordar. Quem teve a ideia de fazer este anúncio, se for homem, nunca foi para a cama com uma mulher. Se tivesse ido, sabia perfeitamente que os homens nunca engatam mulheres. O melhor que lhes pode acontecer é a mulher deixá-los pensar que sim, e isso acontece precisamente quando, uns dias depois, ainda se lembram do nome deles.

8.20.2013

conversa 2032

Ela - Já estou arrependida de ter comprado um carro novo.
Eu - Porquê?
Ela - O meu marido não faz mais nada senão limpar a porcaria do carro.
Eu - É por ser novo.
Ela - A minha casa tem três quartos e eu limpo-a em metade do tempo que ele gasta com o automóvel, mas ele em casa não limpa nada. Já o avisei que um dia destes vai dormir para o banco de trás do seu querido Renault...

8.19.2013

conversa 2031

Ela - O meu marido gosta demasiado de mim.
Eu - Demasiado?!
Ela - Sim. Precisava que ele gostasse menos de mim, que era para eu conseguir gostar mais um bocadinho dele...
Eu - Confundes-me totalmente.
Ela - Isso é porque não percebes nada de desafio.
Eu - Que desafio?
Ela - Desafio, pá. Se um gajo não nos desafia em nada, perde o interesse.

8.18.2013

não é só pelos touros

é por todos nós

Já lá vou ao episódio triste (mais um) da tourada de Viana do Castelo. Primeiro regresso trinta anos atrás, à minha Aveiro de criança e aos copos de gasosa Uprel que eu bebia por vinte e cinco tostões na genuína tasca do senhor Seabra, a uns vinte metros da fonte dos Amores.
Nessa tasca misturavam-se as crianças que bebiam Uprel e os adultos que bebiam vinho. Demasiado vinho, diga-se de passagem. Tanto, que mais tarde ou mais cedo as palavras começavam a sair da boca sem controle nenhum, sempre em direcção à filha desse homem que ainda teimo em chamar de senhor.
Um desses homens era conhecido por ter assassinado a mulher à pancada, numa lenta e longa tortura que hoje em dia já tem nome e algum enquadramento jurídico. Chama-se Violência Doméstica e é um crime público.
Era um fim de tarde e eu refrescava-me com esse milagre de água açucarada e gaseificada quando alguns homens, a custo, se levantaram para irem jantar. Um deles, tão inclinado como a torre de Pizza, também se ergueu, mas recusou-se a dar os primeiros passos.

- Eu só vou para casa quando me apetecer, que não tenho mulher em casa que mande em mim. A essa cabra, já a matei há anos!

É verdade que esse homem me assustava. Apenas o senhor Seabra me acalmou um pouco nesse momento, quando se aproximou dele e o expulsou do estabelecimento. Lá fora, ainda o ouvi praguejar.

- Oh! Seabra, se quiseres também mato a tua!

Gerou-se alguma confusão. Aquele tipo, que se orgulhava de ter assassinado uma mulher, estava de orgulho ferido e não aceitava ser expulso de lugar nenhum. Alguém tentava pôr água na fervura e pedia calma. Eu aproveitei uma abertura e fugi. Voltei a esta história uns dias depois, quando percebi que a maior parte desse grupo de clientes estava proibida de entrar na taberna pelo próprio senhor Seabra.

- Não é pela mulher. É por todos nós! - ouvi-o explicar a uns quantos clientes curiosos.

Esta foi uma das histórias de violência da minha vida, da qual nunca mais me esqueci. Outra delas passou-se ontem e vi-a apenas através do ecrã da televisão da casa duma amiga. Uma mulher ainda jovem, que se manifestava contra a organização duma tourada, era arrastada pela polícia. Alguns manifestantes, indignados, manifestavam-se a alguma distância.
Lembrei-me da frase do senhor Seabra, há mais de trinta anos atrás. É que não é só pelos touros e pelo sofrimento animal, embora o seja principalmente. É também por todos nós. A tourada não é uma tradição, não é um espectáculo cultural. Não é nada, a não ser um acto de violência que nos envergonha a todos pelo simples facto de existir. É um retrocesso civilizacional e uma amostra do quão animalesca pode ser a nossa espécie. A humana.
Agradeço a essa jovem arrastada e a todos os outros manifestantes de Viana do Castelo. Não só pelos animais, mas também por todos nós. Obrigado.

8.15.2013

pensamentos catatónicos (298)

Estou na piscina dum empreendimento turístico no Algarve. Ao meu lado direito deita-se uma mulher inglesa, que sei que é de Manchester porque já a conheci, para apanhar Sol. Está assim há vários dias, como se o Sol acabasse amanhã, e varia apenas entre duas posições: ora de costas, ora de barriga para cima. Normalmente está sozinha porque o marido dela, um homem um pouco mais velho do que eu, raramente sai do apartamento. Quando sai, é para lhe dar um beijo e desaparecer de novo.
Depois dela, uma irlandesa faz mais ou menos ou mesmo. Passa os dias a ler e a apanhar Sol, com a singularidade que o faz sempre em pé. Nunca a vi deitada. É capaz de estar horas seguidas na vertical. Deve ter cerca de cinquenta anos de idade e já a ouvi várias vezes a dizer ao marido para  deixar em paz.

- Leave me alone! - diz quando ele a chama por qualquer motivo.

À minha esquerda está um casal mais novo, dum país qualquer do leste. Ou russo ou ucraniano, acho eu. Ela é extremamente bonita e podia ser modelo. Passa os dias a ler deitada, de vez em quando protegida pela sombra dum guarda-sol. Pontilha os seus dias com um mergulho naquela sopa de cloro que está à minha frente e, quando o faz, o marido, que está sempre ao lado dela em silêncio, imita-a e mergulha também.
Por qualquer motivo, parece-me sempre que os homens são uma espécie de satélites das mulheres. Elas apanham Sol, eles esvoaçam à sua volta como moscas tontas. 
É o meu caso.Sempre foi.

8.14.2013

conversa 2030

(com uma inglesa, de Manchester, no Algarve)

Ela - Todos falam da crise económica em Portugal, mas quem cá vem não repara em crise nenhuma. Vive-se bem em Portugal.
Eu - Onde é que já foste, para além desta estância turística?
Ela - Não fui a lado nenhum. Passo os dias junto à piscina. Trabalho muito durante o ano todo e agora só me apetece estar aqui deitada a apanhar Sol.

8.13.2013

coisas que fascinam (162)

A memória mais forte que tenho dela é o toque dos seus dedos. Foi com ela que aprendi que a compatibilidade entre duas pessoas pode ser o toque, muito mais do que a voz, a semântica ou o cheiro. Ou melhor, os toques todos. Aqueles que acontecem quando se dá a mão na fila do supermercado e se discute o preço dos chocolates, mas também os outros, que nascem e morrem no segredo duma cama.
Por causa desses toques, caminhámos em silêncio durante uma parte importante da nossa vida, unidos pelos dedos. Uma vez parámos num pequeno café em Espanha, a caminho de lugar nenhum. Lembro-me das ruas desertas, do calor intenso e do estranho sabor agridoce na boca, logo pela manhã. Era ali que eu tinha prometido levá-la, para a devolver a casa depois daquele tempo que decidimos ser o nosso. Deu-me um abraço, estendeu-me a palma da mão esquerda no ar e colou a dela à minha. Ao afastá-la, brincámos com as pontas dos nossos dedos, como se todos os toques estivessem ali guardados.
Acho que ainda estão. Eu, pelo menos, ainda os sinto.

8.12.2013

conversa 2029

(ao telefone)

Ela - Eu pus fim à minha relação porque o meu marido me anulava constantemente.
Eu - Anulava?!
Ela - Sim, por exemplo, nas conversas com mais amigos ria-se sempre das coisas que eu dizia, como se eu fosse uma pateta. Era sempre assim...
Eu - Estou a ver... mas ainda andaste uns anos com ele.
Ela - Pois andei, não sei bem porquê. Ou melhor, até sei.
Eu - E porquê?
Ela - Quando estávamos só os dois, ele era fantástico.
Eu - Ah!
Ela - Nunca percebi como é que um homem tão bom a sós consegue ser tão mau quando se junta mais gente, mas acho que isso é uma coisa muito masculina.
Eu - Também há mulheres assim.
Ela - Também?!
Eu - Sim. Sei-o por experiência própria.
Ela - Lá está, nada impede uma mulher de ter algumas características masculinas.

8.09.2013

regador

Uma mosca bate insistentemente no vidro da janela da sala, provocando um ruído constante que corta o silêncio sepulcral daquele compartimento. É a primeira vez que Sofia, estendida no longo sofá vermelho, pensa em si mesmo em termos evolutivos. A mosca, que tendo em conta as origens unicelulares da vida até pode ser considerada um animal complexo, não consegue atravessar aquela superfície transparente, nem sequer consegue chegar à conclusão que não vale a pena insistir. Ao observá-la, Sofia dá-se conta do longo caminho que foi preciso percorrer para ser ela mesma, uma mulher estendida num sofá a pensar nas incapacidades duma mosca para atravessar um vidro.
Acredita que as moscas tentam apenas prolongar a existência da sua espécie, mesmo que nenhuma delas tenha propriamente consciência disso. Está-lhes nos genes. Voam, alimentam-se e reproduzem-se. Porque é que os Homens não são assim? Porque é que na nossa espécie há indivíduos com comportamentos que se desviam desse objetivo simples? Não sabe a resposta. Sabe apenas que não a consegue encontrar dentro daquilo a que se habituou a chamar probabilística e que está, muito provavelmente, na base desta estranha forma de ser da humanidade.
 Ela própria não se entende, o que é muito mau para começar. Está ali deitada com um profundo sentimento de derrota que não consegue contextualizar em nada de concreto. Talvez apenas na sua vida toda, desde que nasceu até há poucos dias atrás. Aos trinta anos não tem família que consiga tratar como tal, pois abandonou o pai e a mãe quando tinha doze anos. Além disso nunca teve filhos, nem tão pouco um homem a que pudesse chamar seu. Não por falta de candidatos, mas sim porque nunca se interessou verdadeiramente por nenhum dos que lhe passaram pelas mãos.
Agora que pensa nisso, a única vez que esteve realmente apaixonada foi ainda na escola primária, quando um rapaz chamado Sandro se sentou ao lado dela logo no primeiro dia de aulas. Não o fez por nenhum motivo especial, mas apenas porque o professor sentou todos os alunos por ordem alfabética. Olharam um para o outro e ela cumprimentou-o com o olhar. Ele sorriu-lhe, o que foi suficiente para criar essa sua primeira paixão.
 O Sandro era um rapaz diferente de todos os outros. Não jogava futebol no intervalo das aulas, nem sequer gostava de qualquer atividade física como qualquer criança da sua idade. Passava o tempo livre sozinho, com um regador de plástico na mão a deitar água a tudo o que era árvore, flor ou até erva daninha. Todos os colegas gozavam com ele, menos a Sofia, que um dia lhe declarou Amor.

- Gosto de ti! - disse.

 O Sandro continuou a regar um canteiro de rosas como se nada fosse. Desde então, nunca mais nenhum homem a cativou da mesma maneira. É como se o género masculino fosse composto por indivíduos todos iguais. Tirando um pormenor ou outro, nenhum consegue elaborar uma frase de engate que se encaixe no que ela quer, o que é uma pena porque adora sexo.
Sempre que tem sexo, aliás, é porque engata um homem qualquer. Nunca nenhum homem a engatou a ela. Normalmente prefere tipos um pouco mais velhos, com um máximo de cinquenta anos, que se vistam discretamente e possuam um sentido de humor constante mas que não seja óbvio. Não gosta de homens com o cabelo muito comprido e detesta aqueles que são mais baixos do que ela.
Com estas exigências, consegue engatar em média um homem por semana, sempre num bar de hotel. Desta forma, tem a certeza que o companheiro sexual não é de Lisboa, a cidade onde vive, e por isso não a tornará a chatear tão cedo para um novo encontro. Tem uma vida sexual satisfatória e nunca se prende a ninguém, o que lhe parece muito bem.
Ontem à noite vestiu uma saia curta e uma camisola apertada que lhe realça a forma dos seios. Depois apanhou um táxi e foi beber um copo no bar dum hotel central da capital. Esteve ali uma hora e meia sem que nada acontecesse, a fumar cigarro atrás de cigarro e a meter conversa com o barman para matar o tempo, até que finalmente avistou uma presa.
Um homem de meia idade, ainda com o cabelo todo e pouca barriga sentou-se no mesmo balcão, a três bancos de distância, e pediu um vermute com limão. Trazia uma mala e desapertou o nó da gravata assim que a pousou. Ela aproximou-se dele e perguntou-lhe se lhe podia fazer companhia. Disse que uma amiga, com quem tinha combinado um encontro, lhe tinha telefonado a dizer que afinal não podia aparecer. Desculpa habitual neste tipo de encontros. Ele concordou, acenando afirmativamente com a cabeça.
Vinte minutos depois estavam no quarto 408. Ele deitou-se vestido e foi ela que o despiu. Começou por massajar-lhe o pénis durante alguns minutos e depois pôs-se em cima dele, penetrando-se devagar com aquela excitação que parecia duma estátua. Ele não se mexia, mas continuava com o falo ereto como se fosse de pedra. Na altura exata ela pediu-lhe que se viesse, o que ele conseguiu fazer com uma competência fora do normal.
Ao contrário do habitual, deitou-se ao lado dele e dormitou um pouco. Quando acordou estava já viciada no seu cheiro e na sua pele. Elogiou-lhe a capacidade sexual e perguntou-lhe como é que ele conseguia vir-se na hora h. Ela não estava nada habituada a homens assim. Normalmente, ou são demasiado rápidos ou extremamente lentos.
Ele explicou-lhe que nunca teve uma companheira regular, por isso habitou-se a ter sexo apenas quando consegue e com quem consegue. Apesar de poucas vezes, a diversidade deu-lhe experiência suficiente para controlar o momento do orgasmo.

- Nunca estiveste apaixonado? - Perguntou-lhe.
- Na escola primária houve uma miúda que me me disse que gostava de mim. Não lhe respondi porque estava entretido a regar rosas. Desde então, nunca mais consegui declarar amor a ninguém.

 Agora Sofia está ali, deitada num sofá vermelho a ver uma mosca bater insistentemente no vidro da janela.