9.06.2013

respostas a perguntas inexistentes (260)

acordar

Uma vez disse à Marta que gostava de não ter que dormir. Claro que o disse com a suposição de que, mesmo não dormindo, o meu corpo não se ressentiria minimamente. Não dormia, mas também não andava cansado e, acima de tudo, não perderia tempo de vida por isso. A Marta deu um gole no copo de vinho branco e respondeu-me de forma lacónica.

- Eu gosto de dormir! - disse.

Depois expliquei-lhe que o que eu estava a dizer, de facto, é que estava a gostar imenso de estar ali com ela, a meio da noite, apenas com a Lua e o silêncio da cidade a acompanhar a nossa conversa. Eram quase quatro da manhã e nas ruas até os candeeiros públicos pareciam querer adormecer. Era como se a sua luz tivesse enfraquecido de propósito para não atrapalhar o ambiente. A generosa varanda do apartamento da Marta era, para mim, uma espécie de refúgio. Quando ali estava, era como se o mundo desconhecesse a minhas coordenadas e, talvez por isso, a Lua cheia parecesse mais curiosa e concentrada em mim.
Nunca cheguei a perceber muito bem o que a Marta significava naquela altura. Sei que tinha que fazer exactamente trinta e dois quilómetros para estar com ela na varanda e, mesmo assim, fazia-os regularmente. Talvez não estivesse, de facto, apaixonado por ela. Mas tenho a certeza que queria estar.Essa é, talvez, umas das mais desconfortáveis condições emocionais por que um homem pode passar.
A Marta tinha também uma estranha qualidade. Quase sempre, nos nossos silêncios, adivinhava o que eu estava a pensar. Nunca me ofereceu um tostão furado pelos meus pensamentos.

- Eu gosto de dormir, não apenas para descansar. O meu prazer está essencialmente em acordar. Acordar para um dia novo é uma espécie de viagem no tempo. Desapareço da vida num momento e regresso noutro, já no futuro. Mesmo que o mundo esteja praticamente na mesma quando regresso, posso sempre acreditar que não, nem que seja por una momentos... - desviou o seu olhar do meu e tornou a encher os copos.

A Lua continuava ali, suspensa no céu como se quisesse continuar a ouvir os nossos segredos, mas eu calei-me. Pedi à Marta que me emprestasse uma t-shirt e me arranjasse uma escova de dentes (sabia que ela tinha a mania de ter escovas descartáveis lá em casa). Fui dormir. Talvez no dia seguinte acordasse apaixonado por ela e ela por mim. 
É verdade que isso nunca aconteceu, mas eu passei a dar uma nova importância ao sono.
Por estes dias também dou. Talvez amanhã acorde e tudo esteja diferente...

conversa 2034

Ela - Há quantos dias é que eu não vinha a tua casa?
Eu - Estiveste aqui na segunda-feira, não foi?
Ela - Acho que foi. Há quatro dias, portanto.
Eu - Sim.
Ela - Muito interessante.
Eu - Porquê?
Ela - Porque ainda tens a mesma roupa a secar.
Eu - E depois?!
Ela - Não achas que já secou o suficiente?
Eu - Já está seca, sim.
Ela - E estás à espera de quê, para a apanhar?
Eu - De precisar duma peça qualquer que esteja pendurada.
Ela (suspiro)
Eu - O que é que foi?
Ela - Não interessa. Nada do que eu te diga te pode salvar.

9.04.2013

engole o teu piropo

ou solta o grunho que há em ti!

Duas aderentes do Bloco de Esquerda decidiram fazer, durante um evento anual que o partido organiza há já alguns anos, uma conferência chamada “Engole o teu piropo”. A mesma destinava-se a uma reflexão sobre o machismo no nosso país, ou seja, mais concretamente sobre a forma invasiva e desrespeitosa como alguns homens tratam as mulheres. Esse evento chama-se Socialismo e é composto por conferências com diversas e variadas temáticas. Eu próprio, no ano de 2012, fiz uma sobre o filme Blade Runner e o livro de Philip K. Dick que esteve na sua origem.
Voltando aos piropos, umas das coisas que eu gosto no Bloco é precisamente a sua capacidade de discutir tudo e mais alguma coisa que diz respeito à organização política. Machismo, feminismo, bem estar dos animais, exploração no trabalho, injustiça na Economia, etc. Não creio que haja temas menores quando neles há vítimas directas que, muitas vezes, sofrem em silêncio.
É o caso dos piropos, por exemplo, que na verdade me preocupam enquanto Homem e, já agora, enquanto pai duma menina que está a entrar na adolescência e a começar a perceber o grunho que existe dentro de alguns portugueses. É preocupante, tanto porque define um pouco o país em que vivemos, como porque afecta a vida de todas as raparigas que, tal como a minha filha, estão expostas a essa grunhice. Para mim, não restem dúvidas, é um tema a discutir. Sempre.
Fiquei ainda mais preocupado quando percebi a reacção de um vasto sector da sociedade portuguesa, maioritariamente masculino, a esta iniciativa. Vi, ouvi e li de tudo. Chamaram lésbicas às minhas camaradas, inúteis e, em tom jocoso num cartoon do Expresso, podres de boas. Enfim, todos deram razão à existência da iniciativa, porque todos pareceram soltar com vontade o grunho que tinham reprimido lá dentro. E não, não estou a exagerar. O piropo é para acabar.
Lembro-me muito bem de, quando tinha vinte anos de idade, uma colega minha entrar na sala de aula a chorar, como se uma nova e doentia condição humana lhe tivesse sido revelada naquela manhã de Outubro. Um homem qualquer, bastante mais velho, tinha-a perseguido durante alguns minutos e, antes dela entrar na escola, prometido que estaria ali à espera que lhe fizesse uma mamada. Só isso. Ela não aguentou. Alguns grunhos acharam que era normal. Eu não.
Percebi agora que, quase trinta anos depois, os homens portugueses evoluíram muito pouco ou nada. A questão atingiu uma proporção tão dantesca que ouvi comentários de quem nem sequer sabia o que se passava. Parecia que o Bloco tinha feito um projecto de lei sobre o assunto e esquecido que estamos em crise. Não esqueceu, mas a crise não implica esquecer o resto, o resto, ou seja, o respeito por cada um de nós, independentemente do género, da etnia, da religião ou doutra coisa qualquer.

E, por favor, poupem-me ao contraditório. Eu sei muito bem que há piropos e piropos. Há os que devem ser engolidos e os que devem ser livres. Por isso mesmo acabo este texto com um piropo a todas as mulheres que aqui me visitam: “Obrigado por existirem!”. Infelizmente, muitos homens homens não percebem que a normalidade em que vivem não é normal.

9.03.2013

conversa 2033

Ela - Ando a tirar um curso de pintura.
Eu - Fixe. Vou precisar de ti, então.
Ela - Porquê?
Eu - Porque as paredes da minha casa estão um nojo e vou ter que as pintar, coisa em que não tenho grande experiência.
Ela - Sabe-me sempre bem conversar contigo de vez em quando.
Eu - Porquê?
Ela - Porque me apercebo sempre do motivo pelo qual as coisas nunca resultaram entre nós.

9.02.2013

respostas a perguntas inexistentes (259)

Depois do meu divórcio e antes do meu novo casamento, marquei diversos encontros com mulheres um pouco por todo o país. Alguns correram melhor, outros pior. Algumas dessas mulheres ficaram minhas amigas, outras nem por isso. Lembro-me com frequência de alguns desses encontros, doutros nem por isso. 
Alguns amigos meus, com base num pensamento a que arrisco chamar mais conservador, criticaram-me ou avisaram-me, sempre com as melhores das intenções, que não é através de encontros com desconhecidas que se deve conhecer uma mulher. Ainda hoje discordo, até porque se se conhece uma mulher, é porque até então ela era desconhecida, seja numa saída à noite, numa inscrição num workshop de dança ou outra coisa qualquer. Eu queria conhecer pessoas. A internet é apenas um (mais um) meio para o fazer.
Apesar da minha actual relação ter sido uma das maiores coincidências da minha vida, creio que mesmo a maior, acabou por ser essa a via para a relação mais longa que já tive com uma mulher depois de me ter divorciado. Por isso, e independentemente da coisa continuar a resultar por muito mais tempo ou não, não me arrependo. 
Hoje, daquilo que mais me lembro dos meus encontros, é sobre como nos apresentamos ao outro e o que realmente somos. Nunca corresponde, ou quase nunca. Talvez por isso os ingleses lhes chamem blind date (encontro às cegas). Muitas vezes fui ter com mulheres que nunca tinha visto, nem sequer em fotografia, mas das quais fazia uma ideia. Aliás, fazemos sempre uma ideia sobre como são os outros, seja alguém com quem conversamos na net, seja um locutor de rádio ou outra coisa qualquer.
Entre esta distância que separa a forma como nos vemos e aquilo que realmente somos, existe também a variável do que somos e do que queríamos ser, variável essa que pode ser muito cruel. Acho que foi por isso mesmo que na primeira vez que vi a Anabela ela estava a chorar. É assim que me lembro dela hoje, sete anos depois. A chorar.
Saí de Aveiro num fim de tarde em direcção a Coimbra para tomar um café com ela. Nunca a tinha visto, mas a descrição dela, feita por ela mesma, revelava uma mulher morena de um metro e sessenta e cinco, magra, lábios grossos, tímida e que se escondia frequentemente nos seus longos cabelos negros. 
A primeira conclusão a que cheguei é que é que se atrasava bastante, porque apesar de termos combinado às oito da noite num café central, às nove ainda não tinha vislumbrado ninguém que se assemelhasse a tal apresentação. Foi nesse momento que uma "outra" mulher, loira, de cabelo curto e certamente com mais de cem quilos, se sentou na minha mesa a chorar. Estava ao meu lado, em segredo, desde o princípio, a ganhar coragem para se revelar.
Pediu-me mil desculpas por me ter feito andar tanto em busca do inexistente. A sua descrição baseara-se na minha assumida admiração pela Mayra Andrade.

- E o que é que bebes? - Perguntei como que querendo fugir àquela pequena explosão do meu dia.
- Não estás zangado?
- Estou zangado com o mundo. Contigo, obviamente que não.
- Tu também não és bem o que eu estava à espera... - concluiu.

Eu não era o que a Anabela estava à espera. A Anabela não era o que eu estava à espera. Depois mandámos vir vinho, bebida que nos acompanhou numa conversa até às três da manhã, já no seu pequeno apartamento. Dentro daquilo que não éramos, ficámos amigos até hoje. Estava aqui a pensar na quantidade de vezes que dei de caras com mulheres que correspondiam fisicamente ao que diziam, mas com quem não fui capaz de dividir um copo desse néctar da amizade que é o tinto maduro.

8.22.2013

nome


A Post-it, pelo menos través desta sua publicidade, parece dar uma estranha importância ao seu produto. Quando um homem leva uma mulher para a cama, escreve-lhe o nome na testa para se lembrar dele quando acordar. Quem teve a ideia de fazer este anúncio, se for homem, nunca foi para a cama com uma mulher. Se tivesse ido, sabia perfeitamente que os homens nunca engatam mulheres. O melhor que lhes pode acontecer é a mulher deixá-los pensar que sim, e isso acontece precisamente quando, uns dias depois, ainda se lembram do nome deles.

8.20.2013

conversa 2032

Ela - Já estou arrependida de ter comprado um carro novo.
Eu - Porquê?
Ela - O meu marido não faz mais nada senão limpar a porcaria do carro.
Eu - É por ser novo.
Ela - A minha casa tem três quartos e eu limpo-a em metade do tempo que ele gasta com o automóvel, mas ele em casa não limpa nada. Já o avisei que um dia destes vai dormir para o banco de trás do seu querido Renault...

8.19.2013

conversa 2031

Ela - O meu marido gosta demasiado de mim.
Eu - Demasiado?!
Ela - Sim. Precisava que ele gostasse menos de mim, que era para eu conseguir gostar mais um bocadinho dele...
Eu - Confundes-me totalmente.
Ela - Isso é porque não percebes nada de desafio.
Eu - Que desafio?
Ela - Desafio, pá. Se um gajo não nos desafia em nada, perde o interesse.

8.18.2013

não é só pelos touros

é por todos nós

Já lá vou ao episódio triste (mais um) da tourada de Viana do Castelo. Primeiro regresso trinta anos atrás, à minha Aveiro de criança e aos copos de gasosa Uprel que eu bebia por vinte e cinco tostões na genuína tasca do senhor Seabra, a uns vinte metros da fonte dos Amores.
Nessa tasca misturavam-se as crianças que bebiam Uprel e os adultos que bebiam vinho. Demasiado vinho, diga-se de passagem. Tanto, que mais tarde ou mais cedo as palavras começavam a sair da boca sem controle nenhum, sempre em direcção à filha desse homem que ainda teimo em chamar de senhor.
Um desses homens era conhecido por ter assassinado a mulher à pancada, numa lenta e longa tortura que hoje em dia já tem nome e algum enquadramento jurídico. Chama-se Violência Doméstica e é um crime público.
Era um fim de tarde e eu refrescava-me com esse milagre de água açucarada e gaseificada quando alguns homens, a custo, se levantaram para irem jantar. Um deles, tão inclinado como a torre de Pizza, também se ergueu, mas recusou-se a dar os primeiros passos.

- Eu só vou para casa quando me apetecer, que não tenho mulher em casa que mande em mim. A essa cabra, já a matei há anos!

É verdade que esse homem me assustava. Apenas o senhor Seabra me acalmou um pouco nesse momento, quando se aproximou dele e o expulsou do estabelecimento. Lá fora, ainda o ouvi praguejar.

- Oh! Seabra, se quiseres também mato a tua!

Gerou-se alguma confusão. Aquele tipo, que se orgulhava de ter assassinado uma mulher, estava de orgulho ferido e não aceitava ser expulso de lugar nenhum. Alguém tentava pôr água na fervura e pedia calma. Eu aproveitei uma abertura e fugi. Voltei a esta história uns dias depois, quando percebi que a maior parte desse grupo de clientes estava proibida de entrar na taberna pelo próprio senhor Seabra.

- Não é pela mulher. É por todos nós! - ouvi-o explicar a uns quantos clientes curiosos.

Esta foi uma das histórias de violência da minha vida, da qual nunca mais me esqueci. Outra delas passou-se ontem e vi-a apenas através do ecrã da televisão da casa duma amiga. Uma mulher ainda jovem, que se manifestava contra a organização duma tourada, era arrastada pela polícia. Alguns manifestantes, indignados, manifestavam-se a alguma distância.
Lembrei-me da frase do senhor Seabra, há mais de trinta anos atrás. É que não é só pelos touros e pelo sofrimento animal, embora o seja principalmente. É também por todos nós. A tourada não é uma tradição, não é um espectáculo cultural. Não é nada, a não ser um acto de violência que nos envergonha a todos pelo simples facto de existir. É um retrocesso civilizacional e uma amostra do quão animalesca pode ser a nossa espécie. A humana.
Agradeço a essa jovem arrastada e a todos os outros manifestantes de Viana do Castelo. Não só pelos animais, mas também por todos nós. Obrigado.

8.15.2013

pensamentos catatónicos (298)

Estou na piscina dum empreendimento turístico no Algarve. Ao meu lado direito deita-se uma mulher inglesa, que sei que é de Manchester porque já a conheci, para apanhar Sol. Está assim há vários dias, como se o Sol acabasse amanhã, e varia apenas entre duas posições: ora de costas, ora de barriga para cima. Normalmente está sozinha porque o marido dela, um homem um pouco mais velho do que eu, raramente sai do apartamento. Quando sai, é para lhe dar um beijo e desaparecer de novo.
Depois dela, uma irlandesa faz mais ou menos ou mesmo. Passa os dias a ler e a apanhar Sol, com a singularidade que o faz sempre em pé. Nunca a vi deitada. É capaz de estar horas seguidas na vertical. Deve ter cerca de cinquenta anos de idade e já a ouvi várias vezes a dizer ao marido para  deixar em paz.

- Leave me alone! - diz quando ele a chama por qualquer motivo.

À minha esquerda está um casal mais novo, dum país qualquer do leste. Ou russo ou ucraniano, acho eu. Ela é extremamente bonita e podia ser modelo. Passa os dias a ler deitada, de vez em quando protegida pela sombra dum guarda-sol. Pontilha os seus dias com um mergulho naquela sopa de cloro que está à minha frente e, quando o faz, o marido, que está sempre ao lado dela em silêncio, imita-a e mergulha também.
Por qualquer motivo, parece-me sempre que os homens são uma espécie de satélites das mulheres. Elas apanham Sol, eles esvoaçam à sua volta como moscas tontas. 
É o meu caso.Sempre foi.

8.14.2013

conversa 2030

(com uma inglesa, de Manchester, no Algarve)

Ela - Todos falam da crise económica em Portugal, mas quem cá vem não repara em crise nenhuma. Vive-se bem em Portugal.
Eu - Onde é que já foste, para além desta estância turística?
Ela - Não fui a lado nenhum. Passo os dias junto à piscina. Trabalho muito durante o ano todo e agora só me apetece estar aqui deitada a apanhar Sol.

8.13.2013

coisas que fascinam (162)

A memória mais forte que tenho dela é o toque dos seus dedos. Foi com ela que aprendi que a compatibilidade entre duas pessoas pode ser o toque, muito mais do que a voz, a semântica ou o cheiro. Ou melhor, os toques todos. Aqueles que acontecem quando se dá a mão na fila do supermercado e se discute o preço dos chocolates, mas também os outros, que nascem e morrem no segredo duma cama.
Por causa desses toques, caminhámos em silêncio durante uma parte importante da nossa vida, unidos pelos dedos. Uma vez parámos num pequeno café em Espanha, a caminho de lugar nenhum. Lembro-me das ruas desertas, do calor intenso e do estranho sabor agridoce na boca, logo pela manhã. Era ali que eu tinha prometido levá-la, para a devolver a casa depois daquele tempo que decidimos ser o nosso. Deu-me um abraço, estendeu-me a palma da mão esquerda no ar e colou a dela à minha. Ao afastá-la, brincámos com as pontas dos nossos dedos, como se todos os toques estivessem ali guardados.
Acho que ainda estão. Eu, pelo menos, ainda os sinto.

8.12.2013

conversa 2029

(ao telefone)

Ela - Eu pus fim à minha relação porque o meu marido me anulava constantemente.
Eu - Anulava?!
Ela - Sim, por exemplo, nas conversas com mais amigos ria-se sempre das coisas que eu dizia, como se eu fosse uma pateta. Era sempre assim...
Eu - Estou a ver... mas ainda andaste uns anos com ele.
Ela - Pois andei, não sei bem porquê. Ou melhor, até sei.
Eu - E porquê?
Ela - Quando estávamos só os dois, ele era fantástico.
Eu - Ah!
Ela - Nunca percebi como é que um homem tão bom a sós consegue ser tão mau quando se junta mais gente, mas acho que isso é uma coisa muito masculina.
Eu - Também há mulheres assim.
Ela - Também?!
Eu - Sim. Sei-o por experiência própria.
Ela - Lá está, nada impede uma mulher de ter algumas características masculinas.

8.09.2013

regador

Uma mosca bate insistentemente no vidro da janela da sala, provocando um ruído constante que corta o silêncio sepulcral daquele compartimento. É a primeira vez que Sofia, estendida no longo sofá vermelho, pensa em si mesmo em termos evolutivos. A mosca, que tendo em conta as origens unicelulares da vida até pode ser considerada um animal complexo, não consegue atravessar aquela superfície transparente, nem sequer consegue chegar à conclusão que não vale a pena insistir. Ao observá-la, Sofia dá-se conta do longo caminho que foi preciso percorrer para ser ela mesma, uma mulher estendida num sofá a pensar nas incapacidades duma mosca para atravessar um vidro.
Acredita que as moscas tentam apenas prolongar a existência da sua espécie, mesmo que nenhuma delas tenha propriamente consciência disso. Está-lhes nos genes. Voam, alimentam-se e reproduzem-se. Porque é que os Homens não são assim? Porque é que na nossa espécie há indivíduos com comportamentos que se desviam desse objetivo simples? Não sabe a resposta. Sabe apenas que não a consegue encontrar dentro daquilo a que se habituou a chamar probabilística e que está, muito provavelmente, na base desta estranha forma de ser da humanidade.
 Ela própria não se entende, o que é muito mau para começar. Está ali deitada com um profundo sentimento de derrota que não consegue contextualizar em nada de concreto. Talvez apenas na sua vida toda, desde que nasceu até há poucos dias atrás. Aos trinta anos não tem família que consiga tratar como tal, pois abandonou o pai e a mãe quando tinha doze anos. Além disso nunca teve filhos, nem tão pouco um homem a que pudesse chamar seu. Não por falta de candidatos, mas sim porque nunca se interessou verdadeiramente por nenhum dos que lhe passaram pelas mãos.
Agora que pensa nisso, a única vez que esteve realmente apaixonada foi ainda na escola primária, quando um rapaz chamado Sandro se sentou ao lado dela logo no primeiro dia de aulas. Não o fez por nenhum motivo especial, mas apenas porque o professor sentou todos os alunos por ordem alfabética. Olharam um para o outro e ela cumprimentou-o com o olhar. Ele sorriu-lhe, o que foi suficiente para criar essa sua primeira paixão.
 O Sandro era um rapaz diferente de todos os outros. Não jogava futebol no intervalo das aulas, nem sequer gostava de qualquer atividade física como qualquer criança da sua idade. Passava o tempo livre sozinho, com um regador de plástico na mão a deitar água a tudo o que era árvore, flor ou até erva daninha. Todos os colegas gozavam com ele, menos a Sofia, que um dia lhe declarou Amor.

- Gosto de ti! - disse.

 O Sandro continuou a regar um canteiro de rosas como se nada fosse. Desde então, nunca mais nenhum homem a cativou da mesma maneira. É como se o género masculino fosse composto por indivíduos todos iguais. Tirando um pormenor ou outro, nenhum consegue elaborar uma frase de engate que se encaixe no que ela quer, o que é uma pena porque adora sexo.
Sempre que tem sexo, aliás, é porque engata um homem qualquer. Nunca nenhum homem a engatou a ela. Normalmente prefere tipos um pouco mais velhos, com um máximo de cinquenta anos, que se vistam discretamente e possuam um sentido de humor constante mas que não seja óbvio. Não gosta de homens com o cabelo muito comprido e detesta aqueles que são mais baixos do que ela.
Com estas exigências, consegue engatar em média um homem por semana, sempre num bar de hotel. Desta forma, tem a certeza que o companheiro sexual não é de Lisboa, a cidade onde vive, e por isso não a tornará a chatear tão cedo para um novo encontro. Tem uma vida sexual satisfatória e nunca se prende a ninguém, o que lhe parece muito bem.
Ontem à noite vestiu uma saia curta e uma camisola apertada que lhe realça a forma dos seios. Depois apanhou um táxi e foi beber um copo no bar dum hotel central da capital. Esteve ali uma hora e meia sem que nada acontecesse, a fumar cigarro atrás de cigarro e a meter conversa com o barman para matar o tempo, até que finalmente avistou uma presa.
Um homem de meia idade, ainda com o cabelo todo e pouca barriga sentou-se no mesmo balcão, a três bancos de distância, e pediu um vermute com limão. Trazia uma mala e desapertou o nó da gravata assim que a pousou. Ela aproximou-se dele e perguntou-lhe se lhe podia fazer companhia. Disse que uma amiga, com quem tinha combinado um encontro, lhe tinha telefonado a dizer que afinal não podia aparecer. Desculpa habitual neste tipo de encontros. Ele concordou, acenando afirmativamente com a cabeça.
Vinte minutos depois estavam no quarto 408. Ele deitou-se vestido e foi ela que o despiu. Começou por massajar-lhe o pénis durante alguns minutos e depois pôs-se em cima dele, penetrando-se devagar com aquela excitação que parecia duma estátua. Ele não se mexia, mas continuava com o falo ereto como se fosse de pedra. Na altura exata ela pediu-lhe que se viesse, o que ele conseguiu fazer com uma competência fora do normal.
Ao contrário do habitual, deitou-se ao lado dele e dormitou um pouco. Quando acordou estava já viciada no seu cheiro e na sua pele. Elogiou-lhe a capacidade sexual e perguntou-lhe como é que ele conseguia vir-se na hora h. Ela não estava nada habituada a homens assim. Normalmente, ou são demasiado rápidos ou extremamente lentos.
Ele explicou-lhe que nunca teve uma companheira regular, por isso habitou-se a ter sexo apenas quando consegue e com quem consegue. Apesar de poucas vezes, a diversidade deu-lhe experiência suficiente para controlar o momento do orgasmo.

- Nunca estiveste apaixonado? - Perguntou-lhe.
- Na escola primária houve uma miúda que me me disse que gostava de mim. Não lhe respondi porque estava entretido a regar rosas. Desde então, nunca mais consegui declarar amor a ninguém.

 Agora Sofia está ali, deitada num sofá vermelho a ver uma mosca bater insistentemente no vidro da janela.

7.30.2013

conversa 2028

Ela - Uma coisa que as mulheres costumam fazer, é dizerem às amigas que os maridos são melhores na cama do que realmente são.
Eu - Tens a certeza?
Ela - Tenho.
Eu - Como é que podes ter a certeza?
Ela - O meu marido, antes de casar comigo, era namorado da minha melhor amiga.

7.29.2013

conversa 2027

Ela - Desculpa lá não ter ido ao teu jantar de aniversário...
Eu - Não te preocupes. Não faz mal.
Ela - Não faz mal?!
Eu - Não... claro que não. Estava muito pessoal.
Ela - Estou a sentir-me rejeitada...

7.26.2013

Virginia Johnson

Na década de 50 o mundo recuperava lentamente de duas guerras mundiais. A memória da segunda, que atingira directa ou indirectamente todos os continentes e vitimara milhões de cidadãos, estava bem viva. Entre a frágil sensação de paz mundial, nascia a Guerra Fria e o mundo dividia-se em dois. O pacto assinado em 1950 pelas duas maiores nações comunistas ameaçava o mundo ocidental e abria uma nova frente de guerra nas Coreias. Nos EUA iniciava-se a Caça às Bruxas moderna, que é como quem diz, a Caça aos Comunistas.
Foi neste ambiente que Virginia Johnson deu andamento à expressão "Make Love, Not War" e revolucionou os estudos sobre a sexualidade. Com o seu marido, e com base na observação directa e métodos de medição por ela criados, explicou a esse mundo frio o que é o orgasmo. A mim parece-me bem.
Morreu ontem. Que o mundo agora a homenageie na cama.

7.25.2013

conversa 2026

Ela - Era bom que os homens percebessem o elemento chave de qualquer relação heterossexual...
Eu - E qual é?
Ela - Um homem apaixona-se por uma mulher, uma mulher apaixona-se pelo facto desse homem estar apaixonado por ela.
Eu - E é tudo?
Ela - É.

7.23.2013

respostas a perguntas inexistentes (258)

Nessa altura trabalhava numa fábrica de cerâmica, a alimentar durante oito horas seguidas a linha de produção com placas em bruto que alguns minutos mais tarde seriam já azulejos. O salário ainda era pior do que o trabalho, por isso não tinha outro remédio senão assumir esse tempo como uma subtracção à minha vida. Era como se aquelas oito horas diárias não fizessem parte dos dias. Para tal arranjava múltiplas e variadas formas de me abstrair durante o expediente.
O trabalho consistia em manobrar uma máquina cujos comandos se assemelhavam ao volante duma mota. Esse volante estava pendurado no tecto e, com aquilo que seriam os travões, abria e fechava uma boca capaz de segurar centenas de azulejos duma só vez. Eram esses azulejos que eu ia buscar a uma palete e depois largava sobre duas borrachas em constante movimento que os faziam cair, um a um, num circuito que os limpava, texturizava e envidraçava. No fundo era como se estivesse a conduzir oito horas seguidas, mas sem sair do mesmo sítio, sem luz natural e sem paisagens edificantes.
Quando saía da fábrica estava sempre tão cansado que tudo o que eu queria era beber umas cervejas com uns amigos, comer qualquer coisa e depois ir para casa dormir. Comecei a ter uma enorme vontade de escrever, mas as forças que me restavam depois de tudo não me permitiam fazer muito mais do as palavras cruzadas do jornal do café que eu frequentava. Por isso acabei por arranjar um método alternativo. Andava sempre no bolso com um pequeno caderno e uma esferográfica e, quando me vinha uma ideia qualquer à cabeça, fosse ela a base de um argumento ou apenas uma metáfora solta, apontava-a nesse caderno. Interrompia o trabalho por cinco ou dez segundos, escrevia o que queria e voltava a fechá-lo.
Foi assim que conheci a Margarida. Um dia o supervisor reparou no que eu fazia e confiscou-me o caderno como uma prova de que eu não cumpria totalmente com o meu contrato de trabalho. Ameaçou-me com despedimento e entregou-o, junto com uma queixa escrita, no departamento de pessoal. O supervisor era um tipo estranho de quem eu não gostava ali, naquele ambiente hostil e desconfortável, mas também não gostaria em nenhum outro local do mundo. Nem que o conhecesse numa ilha tropical durante umas férias de Verão.
Alguns dias depois ele passou por mim e, tugindo, informou-me que eu tinha que ir ao tal departamento de pessoal prestar informações.

- A doutora Margarida chamou-te! - disse.

Subi umas escadas curvas com a sensação que ia ser presente a um tribunal Inquisidor. Lá em cima inspirei e expirei profundamente três vezes seguidas e decidi, antes de entrar, que à mínima falta de respeito pela minha pessoa esticaria o dedo do meio e virava costas àquele sítio para sempre.
Como as minhas mãos estavam cheias de óleo, entrei ainda na casa de banho e lavei-as. Penteei o cabelo com a ponta dos dedos e, finalmente, dei por mim a bater à porta da tal Doutora Margarida, mulher de quem já tinha ouvido falar mas nunca tinha visto nem para assinar contrato, pois era sempre uma intermediária sua que falava comigo.
Para meu espanto era bonita. Nunca esperei que uma mulher de quem, na generalidade, os trabalhadores falavam tão mal pudesse ser tão bonita. Tinha o cabelo apanhado e uma camisa branca parcialmente aberta num decote generoso. Usava um lenço avermelhado e tinha um sinal no queixo que combinava com os seus grandes olhos castanhos claros. Além disso, a sua face transmitia, acima de tudo, alguma generosidade.

O meu livro estava em cima da secretária dela, junto a umas folhas que eu não sabia se tinham a ver com o meu processo. Ela perguntou-me, antes de qualquer outra coisa, se o livro era meu.

- O livro é meu! - respondi.

Ela sorriu, admitiu que o tinha lido todo, do princípio ao fim, e perguntou-me porque é que eu escrevia aquelas coisas todas durante o trabalho.

- Não é durante o trabalho, é durante a vida. Faço anotações em qualquer sítio ou altura porque gosto de escrever e de me sentir vivo. Apesar de não me sentir muito vivo quando estou na produção, faço os possíveis...

Ela tornou a sorrir e perguntou-me a que horas é que eu saía. Como o meu turno acabava uma hora depois do dela, convidou-me para jantar lá em casa. Lembro-me que fez carne guisada com batatas e ervilhas e serviu-me um bom vinho. Depois do jantar levantou-se e desapareceu dentro dum quarto que apenas tinha estantes e livros. Quando regressou trazia uma série de cadernos iguais ao meu, com anotações feitas por ela.

- Faço exactamente o mesmo que tu, sabes? A diferença é que eu estou sentada numa secretária e ninguém dá por ela.

Passei a noite a visitar esses cadernos dela. A partir desse dia ficámos amigos durante muito tempo, apesar de eu ter pedido demissão pouco tempo depois. A Margarida tinha mais doze anos do que eu e nunca quis envolver-se comigo para além dessa amizade. Era um problema para ela, essa diferença de idade, embora me tenha dito várias vezes que tinha pena de não ser da minha faixa etária.
Um dia encontrou um homem por quem se apaixonou perdidamente e nunca mais nos tornámos a ver. Ontem vi-a numa pastelaria e reconheci-a. Cumprimentei-a à distância com um sorriso que ela devolveu. Ao sair abraçou o marido, olhou para trás e cochichou-lhe qualquer coisa. Eu não sei o que foi, mas abri o meu caderno e escrevi este texto.

7.20.2013

páginas de silêncio

Páginas de silêncio

Página por página, talvez alguém tenha tido um sonho estranho durante a noite, com cadáveres semeando flores em extensões de campos estéreis. Ao acordar, Helena sentiu-lhes o aroma que rareava serpenteando as artérias da cidade, e saiu da cama mais depressa do que o habitual. Costuma ficar entre os lençóis com o sossego que foge das ruas e se vem deitar na cama dela. Normalmente nem fazem amor, ficam só a olhar para o débil e silencioso baile dos cortinados de pano branco sujo. É áspera a luz lá fora, vai pensando suavemente, e o silêncio concorda. Agora que se levantou precipitada, vê-se ao espelho ainda nua e consegue achar-se um bocadinho bonita, apesar do ar cansado e envelhecido. Talvez depois de ir ao psiquiatra passe numa loja e compre um frasco de tinta para o cabelo. Talvez isso a possa fazer feliz, pensa. O silêncio concorda de novo e conforta-a, diz-lhe que o sonho não passou disso mesmo: um sonho. Helena gosta de ir ao psiquiatra por dois motivos: porque pode reinventar os seus sonhos e porque pode nada dizer. Às vezes sabe bem estar com alguém a quem se pode nada dizer.

Página por página, um homem com sotaque do leste folheia em voz alta os últimos dias da sua vida, numa avenida desatenta, mas as suas palavras vão fraquejando entre os olhares flutuantes e ombros embrutecidos que passam. Sente-se um barco à deriva, o homem, e procura um farol algures entre a multidão. Diz que tem trabalhado para um construtor civil qualquer que não lhe paga, que tem filhos à espera numa garagem dum bairro da cidade que sopra, que implora mais alguns dias de vida. Que tem fome. Depois desiste. Deita-se embalado pela sombra duma árvore da avenida. Helena passa por ele sem reparar na sua mão ainda aberta.

As árvores sabem que ele decidiu morrer atirando-se à ria e que, mesmo assim, vai tomar um café com açúcar. Sabem que ele apertará os atacadores dos sapatos várias vezes, até sentir que os mesmos estão justos aos pés. Nem demasiado apertados nem demasiado largos. Depois, penteará ainda o seu reflexo na abundante montra duma pastelaria da cidade. As árvores sabem que ele agirá assim em silêncio, e estenderam um tapete vermelho e outonal que ele vai percorrer devagar, fascinado pela luz que se alonga ao horizonte. Desviar-se-á dum automóvel que não respeitou uma passadeira para peões, antes de esperar, junto à ria, que um autocarro pare e despeje uma dezena de pessoas silenciosas. As árvores sabem que agirá assim para não morrer antes de se matar.

Helena está na sala de espera. Ainda não decidiu de que cor vai pintar o cabelo quando sair dali, talvez porque assim possa continuar a ocupar o espírito com essa preocupação mínima. Não lhe apetecia nada chorar outra vez quando começar a contar os seus dias ao psiquiatra, página por página. Página por página vai lendo, de trás para a frente, uma revista que tirou à sorte dum monte. São só caras, pensa ela, caras empacotadas em fatos e vestidos caros, caras rotuladas por sorrisos torpes, caras sem mais nada. Só caras. Pousa a revista numa das cadeiras vazias ao seu lado. Há várias cadeiras assim e lembra-se de como cresceu dividindo um quarto com mais uma cama vazia. A mãe dizia-lhe que era para quando a família aumentasse, o que nunca chegou a acontecer. Nunca teve ninguém ao seu lado, pensa. Por isso viveu sempre em silêncio. Reprime um esgar de choro.
Vermelho, vai pintar o cabelo de vermelho. Sorri.

Uma morrinha parece segredar qualquer coisa à cidade. Helena nunca desvenda esse segredo, mas tenta encontrar nele qualquer coisa de bom. Às vezes consegue, numa criança que se estica no balcão duma pastelaria para escolher um bolo, num automóvel que pára para deixar atravessar peões que nem sequer estão numa passadeira, num guarda-chuva que se esforça em vão por abrigar mais do que uma pessoa. Às vezes noutra coisa qualquer. Quando consegue agarra esse momento e guarda-o bem na memória, explica ao psiquiatra, que lhe pergunta se ela se sente mais optimista ou pessimista do que na consulta anterior. Pessimismo? Optimismo? Não sabe o que é, diz ela. As coisas são o que são, vai-se vivendo página por página. Depois emudece durante cinco, dez, talvez quinze minutos. Levanta-se, despede-se e sai. Hoje não chorou.

Há páginas que são um erro e se devem rasgar, há outras que se rasgam sozinhas, mesmo quando não queremos. Helena caminha compreendendo o seu silêncio amante, mas sorri-lhe distanciando-se. Que não quer pensar nisso. Um grupo de pessoas agita-se junto a um dos canais da ria que, como sangue, percorre a cidade transportando algum oxigénio. O corpo dum homem oscila ali entre as mãos de dois médicos do INEM, e começa a expulsar alguma água suja pela boca. Já mexe, diz alguém. Que é ucraniano, conclui outro alguém. Que rasgue depressa da sua vida a página do dia de hoje, deseja Helena. Depois sorri. Vai pintar o cabelo de vermelho, como o vermelho das folhas que despiram as árvores. As árvores estão nuas mas conseguem achar-se bonitas, conclui. Em silêncio.