9.15.2011

eu mudava este português

Adoro Portugal. Tanto, que a única coisa que eu mudava neste país eram alguns portugueses. Sublinhe-se o "alguns", claro. Todos ouvimos falar de um desses portugueses a semana passada, um homem de Valadares que entregou o filho à polícia quando descobriu que ele era homossexual.
Seguiu o filho discretamente numa das suas saídas nocturnas e, quando o viu entrar num bar gay do Porto, chamou a polícia. Como a polícia se limitou a multar o bar por ter deixado entrar um menor, ele entregou mais tarde o filho noutra esquadra dizendo que não o queria.
Eu mudava este português. Anulava-o e punha cá outro melhor. Um qualquer mas que fosse melhor. E quando digo melhor não digo apenas mais inteligente, porque até sou daqueles que acha que a burrice e a estupidez têm remédio.
O que não tem remédio é o desAmor, e quanto mais desAmor houver num país, pior ele é. Um homem que faz isto ao filho nunca foi capaz de Amar ninguém. Nem o filho, nem uma mulher, nem sequer ele mesmo. Nunca percebeu o que é a singularidade de Amar alguém nem porque é que nos apaixonamos por outra pessoa. Simplesmente não o sabe. É uma incapacidade biológica.
Amar alguém não está sujeito a nenhuma moral nem regra. Amamos alguém quando essa pessoa se torna única para nós, e essa unicidade só nós a sabemos explicar. Se não por palavras, nos nossos comportamentos de todos os dias. Num abraço, num beijo, no sexo, numa prenda ou no que for. Essa unicidade não diz respeito a ninguém a não ser àquele ou àquela que Ama. Essa unicidade é isso mesmo, aquilo que nos é único, e que faz um homem poder Amar outro homem ou outra mulher. É igual, é uma escolha de cada um. Mais nada.
Quem não percebe isto é porque nunca foi capaz de Amar. Este homem nunca olhou para uma mulher como a sua unicidade, mas sim como uma pessoa que se incluía no lote de quem lhe estava permitido tocar, por causa duma moral de tanga que só o desAmor sabe dizer. O problema do desAmor é esse mesmo, por um lado é estúpido, o que até poderia ter remédio. Por outro é triste e violento, e isso não tem remédio. Eu mudava este português.

9.14.2011

conversa 1825

Ele - Eu quero ter uma namorada outra vez, mas não quero uma muito bonita.
Eu - Não queres uma muito bonita?!
Ele - Não. Andar com uma mulher muito bonita na rua é mau. Todos os homens olham para ela e eu passo-me. Era o que me acontecia com a última...
Eu - Bem... eu olho para as mulheres bonitas que passam por mim na rua, e gosto de o fazer. Aliás, adoro fazê-lo. Não me importo nada que olhem para a minha namorada. Aliás, fazem-no muitas vezes e eu acho normal. Além disso sou namorado dela, não sou dono dela.
Ele - Olha! Foi isso que a minha última namorada me disse quando acabámos. Que eu não era dono dela e tinha a mania que era.
Eu - De qualquer maneira o que me faz mais confusão é tu conseguires namorar com uma mulher sem lhe conseguires dizer que a achas bonita.
Ele - Isso é fácil. Basta estar calado.

9.13.2011

conversa 1824

Eu - Tenho que ir embora. Tenho uma casa para aspirar...
Ela - Esse ar de chateado é por causa disso?
Eu - Sim, aspirar é a pior tarefa doméstica. Não me importo de passar roupa a ferro, limpar casas de banho ou lavar louça, mas aspirar chateia-me.
Ela - Mas porquê?
Eu - Acho que é por causa do barulho do aspirador. Não posso ouvir música enquanto aspiro...
Ela - Ah! Comigo é exactamente o oposto.
Eu - O oposto?
Ela - Sim. O barulho do aspirador não me deixa discutir com o meu marido. Pelo menos enquanto aspiro tenho paz e sossego.

pensamentos catatónicos (257)

o princípio do fim das cartas de Amor

Lembro-me de estar a olhar para as folhas de papel amarfanhadas e espalhadas pelo chão. Era como se cada uma delas fosse um monumento à minha timidez de adolescente e à minha incapacidade de escrever um "Amo-te" convincente. Estava nesse dia a construir a minha primeira carta de Amor. Quando finalmente a terminei, analisei-a letra a letra primeiro e à distância depois. Escrever essa carta durou uma noite inteira e foi como partir pedra.
Li há uns tempos que mais de quarenta estados norte-americanos deixaram de exigir às suas escolas primárias que ensinem a escrita manuscrita. Em vez disso, ensina-se a escrever em letra de imprensa e principalmente em teclados de computador. É a vitória da tecnologia sobre a arte da caligrafia e é também o princípio do fim das cartas de Amor.
A caligrafia tem o nosso nervo. Através dela é possível adivinhar se estamos nervosos, calmos, felizes, tristes ou apaixonados, isto muito antes de começar a ler. Escrever "Amo-te" num computador é a mesma coisa que dizê-lo numa voz gerada automaticamente num programa de computador. Falta-lhe a emoção, falta-lhe a alegria e a lágrima no canto do olho. Enfim, falta-lhe tudo. É uma pena.

9.12.2011

conversa 1823

Ela - Detesto farmacêuticos.
Eu - Porquê?
Ela - Fui ali comprar uma embalagem de comprimidos para as dores que tenho nas costas e ele mandou-me tomar um depois do pequeno-almoço, outro depois do almoço e outro depois do jantar.
Eu - Qual é o mal?
Ela - Quando é que eu vou conseguir emagrecer? A fazer três refeições por dia nunca mais...

respostas a perguntas inexistentes (177)

estar bem

Que "está bem", diz ela. Tem um emprego que lhe dá para pagar a casa que sobrou dum divórcio recente, para comer e andar com as contas mais ou menos em dia. E repete, enquanto faz uma pausa no café do pequeno-almoço, que "está bem". Eu sorrio-lhe, mas ela sabe que o meu sorriso não é de concordância. "Estar bem" não é isso. "Estar bem" é outra coisa, que não tem nada a ver com o cumprimento de deveres legais ou financeiros.
Passei alguns anos, talvez oito ou nove, sem a ver. Depois encontrei-a uma vez por acaso no cinema. Estava sozinha e eu também. Ela acabada de se divorciar e sem saber muito bem onde pôr os pés no pântano em que a sua vida se tornara, eu apaixonado pela primeira vez depois da minha separação. O divórcio dela estava ali, bem presente em toda a ânsia dos seus gestos, enquanto o meu já não passava de um ponto escuro na linha do horizonte. Nessa altura ela não "estava bem" e via-se, e eu sei que é por isso que hoje ela insiste que "está bem". Não "está bem", mas pelo menos já não se vê.
Pergunta-me, enquanto se assoa a um lenço vermelho, porque é que sorrio. É que "estar bem" é estar como nos apetece, não como conseguimos estar. A mim, por exemplo, apetecia-me estar com quem Amo a beber uma garrafa de vinho e a comer figos. Não estou, mas logo à noite vou estar, porque é assim que me apetece "estar bem" no dia de hoje, uma condição da vida que passa sempre pelo Amor e não pelo desAmor.
O desAmor é o desgaste do tempo no Amor. O mesmo que o vento ou o mar fazem numa rocha qualquer. Lento, cruel e imperceptível. Foi ela quem mo disse. Apaixonou-se, casou-se e teve filhos. Com os anos viu o olhar meigo do marido transformar-se num olhar de ódio e as suas palavras doces petrificarem com esse ódio. É a lenta metamorfose de quem não consegue nem sabe Amar. Pensou que ia viver sempre assim, nesse clima de guerra fria, até ao dia em que lhe morreu alguém e se deu conta que só se tem uma vida.
Olho para o fundo da minha chávena vazia. Gosto de ver as marcas que o café vai deixando à medida que o bebemos, com níveis e intensidades diferentes. Insisto que ela não "está bem". Pensa que está mas não está, e só lho digo assim, desta forma crua, porque não quero que ela se fique por aqui. O Amor transforma-se em desAmor e o desAmor em Amor novamente. Só temos que perceber que a felicidade não se resume às nossas contas da luz, do gás, da água e o que mais houver. Temos que perceber isso... e às vezes apagar as marcas que nos ficaram para trás. Acho que "estar bem" é só isso.

9.11.2011

conversa 1822

(num bar)

Ela - Desculpa. Não te cumprimentei porque não te estava a conhecer. Vi-te há bocado mas nunca pensei que fosses tu.
Eu - Não faz mal. Tudo bem.
Ela - É que olhei primeiro para os teu pés e vi umas sapatilhas. O meu cérebro afasta automaticamente do grupo dos meus amigos qualquer homem que saia à noite de sapatilhas.
Eu - Hum... comprei estas esta semana numa promoção. Estavam a menos de dez euros e gostei delas...
Ela - Ainda pior. Não me devias ter dito isso.
Eu - Porquê?
Ela - Nunca se diz o preço da roupa que se está a usar.
Eu - Desconheço essa regra de etiqueta, sinceramente. Mas tu é que começaste a falar das minhas sapatilhas...
Ela - Mas porque é que raio vieste para aqui de sapatilhas?
Eu - Porque não gosto de andar descalço na rua. Mas até acho que isso é normal.
Ela - Bem, se calhar ainda nos cruzamos por aí esta noite. Até já.
Eu - Até já.

mulheres que eu gostava de poder não compreender (84)



nome: Elena Poulou
origem: Inglaterra
info: É a actual teclista dos The Fall e vocalista secundária, precisamente por trás do sortudo do seu marido, o líder espiritual desta banda de Manchester. Não é só bonita, a Elena Poulou. Tem também assim qualquer coisa em palco que me seduz. Acho que é o ar de mau feitio. Neste vídeo, num concerto na minha querida cidade de Oslo em 2006, ela é especialmente focada.

ei! best blog here. cool!

A Cármen deu-me um ramo de flores num dia em que eu estava de cama com gripe e, para a além de a identificar, é suposto dizer sete coisas sobre mim. É estranho, porque a confusão que é este blogue acaba por ser toda sobre mim, por isso só considero legítimo referir aspectos técnicos, daqueles que o sendo não deixam dúvidas.
1] Estou apaixonado pela Raquel.
2] Sou de esquerda e estou convencido que um modelo económico baseado no marxismo é o mais justo e melhor para todos.
3] Quem acompanha este blogue já o sabe, mas Sult foi o filme que mais me marcou até hoje e podem baixá-lo gratuitamente (com legendas em inglês) aqui.
4] Já gostei de futebol mas actualmente não consigo ver um jogo inteiro e não sei nadinha sobre o assunto, o que me deixa de fora em algumas conversas entre amigos.
5] Faço colecção de objectos antigos e tenho em casa coisas como um ferro de passar a roupa a carvão, um quadro do menino que chora antigo, máquinas de filmar super 8, notas e moedas, brinquedos, etc, etc...
6] Neste momento só tenho a RTP2 sintonizada em casa, isto depois de ter estado sem televisão uns meses.
7] Adoro bacalhau assado com batatas, cenouras e couves cozidas, azeite q.b. e broa. 

9.08.2011

conversa 1821

(ao telefone)

Ela - Desculpa, mas hoje não posso ir ter contigo. Não me apetece sair de casa.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Está. Estou cheia de dores por causa daquela coisa que as mulheres têm todos os meses.
Eu - O período?
Ela - Sim.
Eu - Tudo bem. Tomamos um café para a semana...
Ela - É horrível ter que passar por isto todos os meses.
Eu - Deixa lá. Deves estar quase na menopausa.
Ela - Isso é para me animar?
Eu - Se achas horrível ter o período...
Ela - Se calhar nem para a semana tomamos café. Não te quero ver durante muito tempo.
Eu - Como tens quase cinquenta anos...
Ela (desliga)

respostas a perguntas inexistentes (176)

egoísmo 



Acho que há uma boa razão para eu nunca ter sido bom de Amores. É que sou um gajo egoísta e o egoísmo não se dá bem com Amor nenhum. Não estou a falar daquele egoísmo de quem quer tudo o que vê nas mãos dos outros, estou a falar daquele egoísmo de quem quer o seu tempo e os seus pensamentos só para si. É uma merda, eu sei, mas sou assim. Fui sempre assim. E o Amor costuma acabar no sábado à tarde em que optamos por ficar em casa a organizar os cd's por ordem alfabética em vez de ir passear com quem Amamos. Não é que acabe logo, mas acabará por certo uns dias depois.
O problema deste tipo de egoísmo é que nem sequer o conseguimos perceber, e por isso também não sabemos bem por que motivo não queremos estar com quem Amamos. Inventamos desculpas estúpidas em que ninguém acredita. Nem sequer nós mesmos, e vamos sufocando nelas e na nossa hermética solidão.
É por isso que Amar nunca chega para que um Amor se dê. Amar é apenas o princípio. Depois é preciso sermos capazes de nos ultrapassarmos. De sermos um bocadinho melhores do que fomos até então, e isso passa por deixar de esperar que as coisas aconteçam para fazer com que elas aconteçam de facto. Nenhum Amor existe só por si, e quem acreditar nisso vai esperar pela felicidade como um burro que corre atrás da cenoura.
Foi a Raquel que me ensinou isto, ou talvez a vida. Sei lá. É que neste momento a Raquel e a vida são a mesma coisa. É por isso que não espero nada dela. Antecipo-me tentando vivê-la, a ela e à vida, acreditando que ela me vive a mim. Perdi o egoísmo, pelo menos parte dele. O tempo, aquele tempo que eu sempre quis só para mim com os meus cd's organizados por ordem alfabética, não existe. Nunca existiu, porque não pode existir um tempo só nosso. O tempo e a solidão não fazem sentido.
Lembrei-me disto hoje de manhã, porque queria ouvir "You and Your Sister" dos This Mortal Coil antes de sair de casa e não encontrei o cd a tempo. Com os minutos que perdi, acabei por nem sequer tomar o pequeno-almoço para conseguir apanhar o comboio. Primeiro enervei-me, sem perceber que o tempo que eu não tenho para organizar os cd's é o tempo que eu tenho para Amar.
You say my love for you's not real, but you don't know how real it feels. All I want to do is to spend some time with you, so I can hold you, hold you...

9.07.2011

esta preta foi de boa para melhor

A nova publicidade da cerveja moçambicana Laurentina Preta está a causar celeuma naquele país africano. Uma garrafa em forma de mulher, com o símbolo da cerveja na genitália, é apresentada ao lado da frase: "esta preta foi de boa para melhor".
É verdade que o consumo de álcool está culturalmente ligado a uma certa masculinidade, e recordo-me de há poucos anos a cerveja Tagus, em Portugal, ter feito uma publicidade quase tão estúpida quanto esta, em que se afirmava como uma cerveja para heterossexuais. Chamava-se Orgulho Hetero.
A estupidez da Tagus não foi apenas partir do princípio que só os heterossexuais é que bebem cerveja. Foi também não perceber que ser heterossexual não significa ser estúpido. A estupidez da Laurentina não é apenas partir do princípio que só os homens é que bebem cerveja. É não perceber que ser homem não significa ser estúpido.

OsLove

Gosto que a Raquel me pergunte sobre o futuro. Preciso que a Raquel me pergunte sobre o futuro. Hoje quero ter a certeza que amanhã vou estar com ela. É isso o Amor. É isso uma viagem, seja a Oslo ou a uma vida inteira.
Desembrulhei este fim de semana a prenda que ela me deu quando fiz quarenta anos. A vantagem de se receber uma viagem é que, apesar de já sabermos o que é, não sabemos o que está lá dentro. As cidades são assim, primeiro são vistas por fora e depois vão-se revelando por dentro a pouco e pouco. Como uma prenda, como uma mulher, como todos nós. À medida que as penetramos.
O resto é uma questão de pele. E de repente somos só nós, eu e a Raquel numa cidade que nos é estranha e que nos estranha. E é tão bom ser estranho quando se Ama alguém. Ficamos sós no meio de tudo e de todos. Um eléctrico que calcorreia triste a cidade, um bêbado que tenta manter em pé o que lhe resta de dignidade, uma criança que me pede para lhe passar uma bola de futebol ou um segurança que nos explica que um museu está fechado ao público. Ninguém sabe que a cidade nos vai sorrindo em segredo. Ainda bem. Sou só eu e a Raquel. Depois há os outros. Os outros.
Escolhe três museus, diz ela. E eu escolho. É uma certeza para o nosso futuro próximo. Sorrio. O das Forças Armadas, o dos barcos Viking e a Galeria Nacional de Arte. Ela acrescenta o museu do Munch, o Kon-Tiki, o Parque Vigeland e o IceBar. Vamos a todos menos ao do Munch, o tal que estava fechado. Entre as visitas dividimos umas sandes, uma garrafa de água e alguma fruta que comprámos num supermercado. Digo-lhe que a Amo uma vez mas penso-o centenas. Talvez milhares ou, de facto, só uma. Uma que se prolonga por cada dia inteiro. Depois cai a noite.
Subimos ao telhado da Ópera House, ao futuro do que foi o nosso dia. A nossa comida dividida, as nossas mãos dadas. Ainda cá estamos. Oslo também. Amanhã acordamos juntos.

9.06.2011

hoje

Hoje ainda não te disse que te Amo. Digo agora, está bem?

pensamentos catatónicos (256)

Suplementos

Vi hoje, no metro do Porto, um anúncio a um suplemento alimentar para reduzir o colesterol. Depois abri o jornal e vi outro a um suplemento para quem anda cansado e sem energia. De manhã já tinha ido ao supermercado comprar leite e rido com uma marca que traz mais cálcio do que o normal, diz a embalagem que para fortalecer melhor os ossos. Nos iogurtes é preciso tirar um curso para perceber o que cada um deles faz e que não é normal fazer. Há iogurtes para o coração, para os ossos, para os nervos e para o raio que o parta. O problema é que são tudo suplementos, como se a vida e a Natureza só por si não fossem suficientes.
Eu reduzi o colesterol a comer menos carne e mais legumes. Foi só isso e chegou. Quando quero emagrecer é o que eu faço também: como menos. Sou contra os suplementos no que quer que seja. As embalagens com suplementos dizem-nos que resolvem os problemas todos sem esforço, mas isso é mentira. No fundo ainda bem que é mentira, porque senão não éramos sequer obrigados a tomar conta de nós, e é a cuidar de nós que ganhamos algum Amor próprio.
Por falar em Amor, é nele que também sou contra os suplementos. Não há nada que resolva o Amor entre duas pessoas a não ser o facto de se Amarem realmente uma à outra. Às vezes também há quem ache que um ou outro suplemento pode ajudar uma relação, seja ele dinheiro, submissão ou hipocrisia. Não ajuda. Em tudo devíamo-nos deixar de suplementos e cuidar de nós. Cuidar de nós mesmo a sério. Era só isso.

9.05.2011

conversa 1820

Ela - Tenho um bocado de ciúmes da mulher do meu ex-marido.
Eu - Porquê?
Ela - Acho que ele a trata muito melhor a ela do que me tratou a mim durante o tempo em que fomos casados.
Eu - Achas mesmo?
Ela - Acho.
Eu - Isso, se calhar, é normal.
Ela - É normal?
Eu - Sim, ele agora está mais velho e já deve ter aprendido alguma coisa.
Ela - Não se isso é assim...
Eu - Acho que é, mas não quer dizer que seja sempre.
Ela - Eu, por exemplo, estou mais velha e não trato melhor o meu actual marido.
Eu - Se calhar é porque não aprendeste nada.
Ela - Ou então porque já sabia tudo.
Eu - Ou isso...

respostas a perguntas inexistentes (175)

a árvore

Na minha rua há uma árvore que é despida antes de todas as outras pelo vento. Todos os anos sem excepção. Quando faço um café quente e me dou ao luxo de parar na janela da sala para o beber, fico a olhar para os seus ramos magros e nus enquanto aqueço as mãos na chávena. Nunca percebi se ela se sente orgulhosa ou envergonhada da sua nudez prematura.
Sei que a mulher que eu Amo é assim, sólida como aquela árvore. Há uns dias, por exemplo, adormeceu ao meu colo durante uma viagem de avião e eu mantive-me quieto todo o voo para não a acordar. Ela não sabe que me senti o homem com mais sorte do mundo por poder respirar-lhe o sono. Nem lho vou dizer, claro. O sono dos outros é o que de mais precioso podemos ter e, por isso mesmo, costumo tapá-lo com um doce manto de silêncio. Prefiro dizer-lhe simplesmente que a Amo.
Do verbo Amar tenho só a certeza que sopra sempre como o vento. E é isso que vou fazendo...

9.01.2011

10 coisas que já fiz por estar na crise dos quarenta

1] Passei a comprar champô contra a queda do cabelo.
2] Deixei de comprar lâminas de barbear das mais baratas, para não ficar com a cara toda arranhada quando faço a barba.
3] Deitei a minha querida t-shirt do Calvin, que estava rota em vários sítios, no lixo.
4] Usei, pela primeira vez na vida, um perfume para homem daqueles caros em vez duma água de colónia baratucha do Lidl.
5] Aparei os pêlos do nariz e as sobrancelhas.
6] Passei a cortar as unhas com um corta-unhas em vez de as roer no escurinho do cinema.
7] Comprei um frasco de hidratante para a pele.
8] Passei a comer mais gelatina por causa do colagénio.
9] Inscrevi-me na natação e prometi a mim mesmo fazer pelo menos uma sessão por semana.
10] Iniciei um registo semanal com o meu peso e perímetro abdominal. Bem... para ser sincero ainda não iniciei mas estou a contar fazê-lo a partir da próxima semana.

conversa 1819

(na minha casa)

Ela - O sacana do meu ex, quando nos separámos, ficou-me com este cd dos Radiohead que tens aqui. Gravas-mo?
Eu - Gravo, mas porque é que não lho pedes a ele?
Ela - Porque lho ofereci num aniversário.
Eu - Ah! Então não ficou com ele. Já era dele, que é diferente.
Ela - Sim, mas eu ofereci-lho quando ainda não estava a contar separar-me e porque assim também era meu e podia ouvi-lo. Afinal de contas, quando se é casado tudo o que é dum também é do outro.

quatro

Em primeiro lugar uma meia verdade que não é uma meia mentira: a violência doméstica atinge ambos os géneros. Agora uma verdade inteira: as mulheres são as principais vítimas da violência doméstica. Em menos de uma semana foram assassinadas quatro em Portugal.
A violência doméstica precisa de dois ingredientes: uma vítima e um cobarde filho da puta. Foram esses dois ingredientes que se misturaram nestes quatro casos e que se misturam continuadamente um pouco por todo o país.
A vergonha é a máscara que encobre este tipo de violência, e é ela que devia estar só do lado do agressor. Mas não está por uma razão muito simples: os cobardes filhos da puta não nunca têm vergonha. Tenho dito.