Apaixonei-me por ela numa viagem de comboio. Primeiro vi-a sentada num dos bancos da estação, folheando um livro enquanto arrumava o seu próprio corpo na quantidade exagerada de objectos que a acompanhavam. Uma pequena e coçada mala vermelha cheia como um ovo; uma carteira de tiracolo de onde tinha tirado o livro e que agora esperava como um cão obediente, de boca aberta, que ela o tornasse a arrumar; um casaco comprido adormecido serenamente no seu colo apetecível e, ao seus pés, um saco de plástico de um supermercado qualquer com algumas compras.
Apaixonei-me por ela numa viagem de comboio. Depois vi-a a guardar calmamente o livro na carteira, acordar com doçura o casaco antes de o vestir, pôr a carteira a tiracolo ajustando-a milimetricamente ao seu corpo e, por fim, caminhar para o comboio com o saco de plástico numa mão e a mala vermelha noutra.
Eu já lá estava, observando-a privilegiadamente a partir duma janela, porque tinha corrido para a carruagem com a pressa de todos os outros passageiros. Foi só aí que me expliquei aquela paixão súbita, enquanto ela se instalava num banco à minha frente exactamente como se instalara no cais: com o casaco a adormecer de novo ao seu colo e a carteira de boca aberta ao seu lado. Ela tinha uma velocidade diferente. Era como se todos caminhassem rapidamente para a morte e ela, apesar de ir na mesma direcção, parasse de vez em quando para contemplar a vida.
Apaixonei-me por ela numa viagem de comboio. E se ela contemplava a vida eu contemplava-a a ela, e se ela se perdia num mar de letras eu perdia-me num mar de mulher. Um mar de ondas calmas e espaçadas, às vezes provocadas pelo virar de mais uma página, outras vezes por uma efémera troca de olhares e outras vezes pelo simples acto de respirar.
Apaixonei-me por ela numa viagem de comboio. Depois adormeci... e talvez por o meu sono ser ciumento do sono do seu casaco, fui mergulhando nessas ondas como num sono cada vez mais profundo. Quando acordei ela já não estava. Tinha saído numa estação qualquer. Não faz mal, às vezes apaixonamo-nos por quem não pode viajar connosco.