11.07.2008

uma luta

Chegou a cadeira para trás levantando-a milimetricamente do chão para não fazer barulho. Depois sentou-se com a mesma brandura com que as estrelas dos mar se agarram às rochas. Silenciosa mas decididamente. Aliás, nela tudo era silêncio, e de repente pareceu-me haver uma conspiração das coisas dela para que se criasse o silêncio absoluto. O isqueiro não fez barulho quando lhe acendeu o cigarro, nem as chaves que pousou em cima da mesa, nem o porta-moedas que abriu e fechou duas vezes. Nessa ausência de ruído todos os meus movimentos se tornaram tempestades. O copo de uísque ao pousar na mesa, a minha cadeira que chiava e até o meu nariz ainda levemente constipado.
Era a luta do silêncio contra o ruído, uma luta que surge sempre quando as pessoas se tornam incompatíveis mas ainda não se aperceberam disso. Era também sábado de tarde e tínhamos o dia pela frente. Disse-lhe que precisava de ir tratar dum assunto e que talvez lhe ligasse à noite. Ela abanou afirmativamente a cabeça novamente sem qualquer som. Eu deixei as moedas para os cafés em cima da mesa e afastei-me. Não tinha assunto nenhum para tratar e ela sabia disso. Acho que foi um alívio para ambos.

4 comentários:

MYA disse...

Que horror Ivar! Credo.

provocação disse...

Ora aqui está uma excelente observação, as mulheres quando estão desinteressadas normalmente é quando são mais silenciosas...

MYA disse...

E nao pagaste o uisque ?

bagaco amarelo disse...

mya, :)

provocação, sim... tb acho. :)