11.17.2008

aguentar

Propus-lhe tomarmos um café numa esplanada na praia. Não a via há anos e, por isso, tê-la encontrado e reconhecido no meio dum hipermercado apinhado de gente tinha sido o meu milagre do dia. A diferença é que eu ia comprar uma garrafa de vinho e algumas cebolas, ela ia fazer as compras para a semana. Tudo bem, disse-lhe que esperava por ela na praça da alimentação e ia lendo o jornal.
Estive a ler o jornal uma hora. Ela chegou com um carrinho de compras tão cheio que me pareceu mais serem compras para um ano do que para uma semana. Que tinha ali congelados, disse-me depois, e que por isso não dava para ir à praia. Estava com alguma pressa mas que podíamos tomar o café logo ali. Olhei para os quatro monitores à minha volta a passar um jogo de futebol qualquer da liga inglesa e não achei o sítio indicado para falar com uma ex-quase namorada depois de anos sem a ver, mas tudo bem. Antes isso do que nada.
Ela sentou-se e reconheci imediatamente o movimento. Levantou a cadeira para não fazer barulho e sentou-se com a mesma brandura dum pássaro que pousa num ramo de árvore. Só não lhe reconheci o olhar, ou melhor, reconheci-o mas não lhe encontrei o brilho de outrora, o que percebi imediatamente quando, na conversa obrigatória entre duas pessoas que não se vêem há muito tempo, lhe disse que estava divorciado e ela me respondeu que estava casada. Deitou o açúcar na espuma do café como se fosse ela mesma a precisar de adoçante e as palavras arrastaram-se do interior da sua boca morrendo-lhe praticamente nos lábios: "enquanto aguentar continuo casada".
Como é que se explica a uma mulher que nos é querida que em cinco minutos percebemos que a vida dela devia mudar? Pois é.... não se explica. Nem me senti nesse direito. Nunca gostei do verbo aguentar. Sem esforço, disse-lhe que estava ainda mais bonita do que na nossa altura, e as palavras "nossa altura" ficaram retidas entre nós. Houve uma altura nossa, ainda que efémera, mas já passou. Há demasiadas pessoas a aguentar...

23 comentários:

Lita disse...

É verdade... como se explica a qualquer pessoa a quem o brilho de outrora parece ter-se desvanecido,de que a sua vida deveria mudar... quando a maioria de nós, em algum momento da vida, demorámos tanto tempo a chegar lá?

bagaco amarelo disse...

Lita, exactamente... :)

Papinha disse...

Há sem dúvida demasiadas pessoas a aguentar! E nos dias de hoje é-me difícil perceber porquê!! Já aguentei, estive casada, tenho uma filha e voilá sou divorciada...aguentar mais era impossível!! E sei que hoje não o volto a fazer!
Um beijinho
P@pinh@

Fá disse...

São cada vez menos as mulheres / homens que se sentem felizes no casamento...e vão aguentando a infelicidade.Eu não era capaz, juro que não.Preferia ser infeliz sózinha...nada pior que uma infelicidade acompanhada...digo eu...

zeni disse...

Ela pelo menos já tem essa noção, de que está a "aguentar", o que é meio caminho andado para mudar...

bagaco amarelo disse...

papinha, ainda bem que estás nessa fase. :) beijinho

fá, não acho que sejam cada vez menos os que se sentem felizes no casamento. acho é que cada vez há mais a manifestarem-se. ainda bem :)

zeni, sim... tens razão. :)

Maria Poppins disse...

Já dizia o outro (Rilke?), "antes a solidão que é inteira".

Maria Poppins disse...

Já dizia o outro (Rilke?) "antes a solidão que é inteira"

bagaco amarelo disse...

maria poppins, não sei se foi ele... mas é verdade. :)

bia disse...

há quem demore mais tempo a ganhar coragem para soltar as amarras... há quem não consiga enfrentar a solidão...

e afinal dp vêm que a solidão é um alívio comparando com a masmorra de uma relação que já não o é... a solidão transforma-se em liberdade!

lostinthoughts disse...

As pessoas, estão habituadas a aguentar, a aguentar a falta de sorte, a aguentar o casamento fracassado, a aguentar a vida esterotipada, a aguentar o emprego precário, a aguentar...
E conformam-se e esquecem-se de viver, contentando-se com o aguentar.
Essa miúda, pelo menos já tem consciência do que se está a passar, pode não parecer mas é um passo mt importante.

Ana Camarra disse...

Isso é horrivél.
Há anos atrás alguém olhou para mim e viu aquilo que tu viste nessa mulher, que te é querida, ainda hoje, teve a coragem a frontalidade e a ousadia de me dizer.
Confesso que no imediato fiquei agastada, mas depois isso provocou em mim a catarse de querer mudar de vida, decidi e tenho cumprido que nunca mais iria "aguentar" numa relação, balanço entre ser mais ou menos feliz, mas nunca mais deixei de ser eu.

beijos

Liana Andra Marques disse...

vou fazer o comentário mais sincero que conseguir porque os teus textos em que relatas coisas que te acontecem têm me feito pensar.
Confesso que sou leitora assídua do teu blog. Gosto do modo como escreves as coisas, como contas conversas que aparentemente, eu, como exemplar do sexo feminino, são completamente normais e compreensíveis. E depois de ler, penso: "hmmm então é por isso que eles não nos entendem". É que às vezes, por momentos, a LER devagar coisas que DIGO muitas vezes, percebo porque é que outras pessoas não percebem. Percebes-me?

Provavelmente não lês o meu blog. Normal. Afinal não lemos os blogs uns dos outros por troca. Do tipo: "eu leio o teu, e tu fazes o favor de ler o meu". As pessoas lêem o que querem porque gostam. Depois para ti devo ser uma "pita" (lol).

Mas talvez porque não tenho tanta experiência de vida é que gosto de vir aqui. De saber o que há do outro lado.
Tenho notado que cada vez mais existem pessoas divorciadas, ou casadas infelizes. Tu próprio já relataste aqui várias situações. Isso faz-me pensar e tira-me alguma esperança do que me reserva o futuro...

Patricia disse...

Pois é...ás vezes "com medo de chorar, deixamos de rir.."

Pax disse...

Bagaço :)

bagaco amarelo disse...

bia, exacto... e nem sempre é solidão. :)

lost in thoughts, verdade... às vezes é como se entrassem em piloto automático. :)

ana camarra, ainda bem. estás numa fase que já não volta atrás. :)

Liana Andra Marques, Não leio o teu blogue, de facto, mas admito que não leio blogues mesmo quando os acho interessantes. Se me ponho a ler blogues não tenho tempo para escrever neste e para ler romances. Mas, uma vez por outra, vou a alguns blogues da minha lista ali ao lado e leio muito...
Fui agora ver e tens 22 anos. Sim, és pita e ainda bem. Aproveita a tua mente e o teu corpo. Não precisas de se pessimista. Basta não fazeres com que um casamento cristão seja o objectivo principal da tua vida, A vida, mesmo a sentimental, não passa por aí. :)

patrícia, que frase oportuna... :)


pax, :)

P. disse...

As pessoas parece que passam o tempo a querer resolver a vida o mais depressa possível.. casam-se aos 23, têm um filho aos 24, compram carro aos 21, compram casa aos 25 em conjunto com o marido, têm o segundo filho aos 26... e depois passam o resto da vida a aguentar. Têm os primeiros flirts extra-matrimoniais aos 28, começam a tomar um copo a mais com uma certa frequência aos 30, começam a trabalhar até o mais tarde possível aos 32, começam a viver só para os filhos aos 35... e por aí fora.

A mudança parece sempre o passo mais complicado, mais difícil.. mas depois de tomado, normalmente já não apetece voltar atrás. Sem te conhecer penso que deves saber isso, também já optaste por mudar algo que não estava bem, julgo eu.

É preciso viver com calma, ver as coisas com o seu tempo, experimentar, viver primeiro com uma pessoa antes de mergulhar de cabeça em casamentos (ou nem sequer mergulhar porque pessoalmente nunca acreditei nessa "instituição".. lol).. já não vivemos nos anos 30, hoje em dia a ordem natural das coisas é aquela que nós queremos!

bagaco amarelo disse...

p. sim... o senso comum sustenta o que tu dizes... :)

Jo disse...

sim, demasiadas pessoas a aguentar, o que é triste.. falo por mim, que so soube o que era ser feliz quando percebi que tava farta de aguentar... e conheço pessoas na mm situaçao... por vezes nao queremos aceitar que o amor nao é para sempre... nao queremos aceitar que nos enganamos e aguentamos... pura burrice... mas a vida é mm assim...

bagaco amarelo disse...

jo, não gosto de lhe chamar burrice, embora tenhas razão. prefiro chamar-lhe inexperiência ou assim. :)

Jo disse...

Va...que seja :)

Anónimo disse...

Já não é um post de hoje ou um post de há pouco...
´´´´ só porque, só porque é bom não esquecer nunca que só reaprendemos a andar quando de facto nos arriscamos a perder essa capacidade para sempre! Para se poder ganhar muito, tem-se sempre que perder um pouco...
*mary

bagaco amarelo disse...

jo, :)

anónimo, sim, é uma metáfora interessante para esta discussão. aprender a andar de novo. :)