11.05.2008

lembro-me dela no Inverno

Lembro-me dela no Inverno. Logo pela manhã, aquecíamos os dedos nas chávenas escaldadas do café e raramente nos cumprimentávamos. Uma vez perguntámo-nos porquê. Eu disse-lhe que gostava dela, e que por isso precisava que fosse ela a primeira a dizer-me bom dia ou outra coisa qualquer. Ela sorriu. Foi assim que descobrimos que gostávamos um do outro.
Lembro-me dela no Inverno. Nessa manhã virámos à esquerda em vez de virarmos à direita. Não fomos às aulas. Esquadrinhámos uma avenida onde acabara de chover, desviando-nos dos pingos que caíam da ponta das varetas dos guarda-chuvas ainda abertos e molhados. Aproveitei esse jogo para lhe dar a mão. Talvez o fim da chuva fosse também o fim do choro ansioso de dois adolescentes. E foi.
Lembro-me dela no Inverno. Espremíamos dos dias a descomunal sensatez de sorrir a todas as horas e todos os minutos. E foi assim, a sorrir, que a vi passar do lado de fora dum café onde só eu aquecia os dedos de manhã. Acho que não a via há vinte anos. Corri para a porta e chamei-a. Ela ia acompanhada, de braço dado a um homem que olhou para mim e depois para o chão. Disse-me adeus e os dois afastaram-se. Ela ainda olhou para trás, uma e outra vez antes de dobrar a esquina.

9 comentários:

Ana Camarra disse...

Muito belo!

Joana disse...

Ela também se lembra de ti...

bagaco amarelo disse...

ana camarra, :)

joana, não sei... mas gostava de saber que sim. :)

Anónimo disse...

Provavelmente nunca te esqueceu, mas agora, passados tantos anos, ela seguiu com a vida dela para a frente, daí ela estar de braço dado com outro homem...
Ah, que bons os tempos de adolescência!!

bagaco amarelo disse...

anónimo, tens razão, sim... são os melhores tempos. e eu estou a ficar nostálgico. :)

Carla disse...

hummm quase seria o "Inverno do nosso descontentamento"...não fosse a esperança daquele último olhar!

bagaco amarelo disse...

carla, não foi bem esperança... :)

CCF disse...

São as coisas que nunca esquecemos que fazem de nós o que somos. A chuva, o inverno, a chávena de café: são as molduras do amor. São às vezes tão importantes como o que está lá dentro.
~CC~

bagaco amarelo disse...

ccf, é verdade... todas essa coisas contribuem para a nossa formação emocional.:)