10.21.2017

respostas a perguntas inexistentes (378)

A Minha Mãe E Um Saco De Tempo

Perdi a conta às más notícias que dei à minha mãe durante a minha vida. Dei algumas boas também, mas por qualquer motivo sinto que dei mais más do que boas. Uma delas foi que tinha perdido o emprego e estava sem dinheiro. Dessa vez, como em todas as outras, a primeira resposta da minha mãe foi sorrir e dizer que tudo tem solução.

A minha mãe não sabe, mas nesses momentos ensinou-me sempre que um sorriso pode salvar uma vida. É que uma vida inteira pode ter milhões e milhões de segundos, mas tem que se salvar em cada um que passa.

Foi também assim que aprendi a parar no tempo, esse monstro invisível que me estava a matar. Foi o tempo de estudar, o tempo de casar, o tempo de constituir família, o tempo de ter um emprego tão bom quanto o dos outros, o tempo de ter um carro e o tempo de ter uma casa. Foram vários tempos com tempo para tudo menos para viver.

E então parei e meti esse tempo todo num saco.

Andei por aí. Do que me lembro é de ter lido um livro no topo duma montanha, de ter ouvido uma música numa praia e de me ter apaixonado num jardim. Às vezes com dinheiro, outras vezes sem, mas sempre com o tempo todo só para mim. Ainda hoje vivo assim, com os outros a viverem mais depressa do que eu, e lembro-me sempre da minha mãe a sorrir e a dizer que tudo tem solução.

Talvez não haja outro truque nesta vida do que viver sem pressas, mas a pressa de viver não nos deixa percebê-lo. Digo-o eu agora, que quando espreito o saco do meu tempo passado reparo naquilo que não reparei quando o vivi.

Foi a minha mãe que mo ensinou.

9.30.2017

respostas a perguntas inexistentes (377)

Dedos

Estava a falar com a M. ao telefone. Já estivemos apaixonados um pelo outro, mas nunca ao mesmo tempo. Por isso mesmo, aquilo que existe entre nós é uma amizade profunda e, quando olhamos para o nosso passado, é também um desencontro.
Falámos sobre esse desencontro uma vez no sofá da minha casa, depois de vários copos de vinho e um enorme chocolate com passas que fomos comendo devagar. Não sei porquê, mas lembro-me muito bem desse chocolate. Quase que lhe posso sentir o sabor, apesar dos anos que já se passaram. Ela começou a comê-lo por uma das extremidades e eu pela outra, quadradinho a quadradinho. Quando chegámos aos dois últimos pedaços os nossos dedos tocaram-se e, por impulso, acariciaram-se. Lembro-me tão bem do intenso sabor desse toque indelével.
E então hoje liguei-lhe. Ela ficou surpreendida, claro. Há muitos anos que não ouvia a minha voz. Nem eu a dela. Fiquei aliviado por não me perguntar porque é que eu lhe estava a ligar. Sempre que me perguntam isso, a vontade que tenho é desligar o telefone imediatamente. Gosto de amigos a quem posso ligar só porque sim, sem precisar de um motivo técnico qualquer.
Ainda assim, se ela me tivesse perguntado, eu tinha a resposta na ponta da língua. Hoje caminhava em Stoke junto ao Trent & Mersey, um dos dois canais que atravessam a cidade, numa zona onde o cais é tão estreito que é muito difícil duas pessoas passarem uma pela outra sem se tocarem. Foi isso que aconteceu. Por acidente, os meus dedos tocaram nos dedos duma mulher que caminhava no sentido oposto. Pedi-lhe desculpa e ela respondeu "no problem", mas ainda antes de ela ter acabado de dizer a palavra "problem", já esse doce e adormecido toque nos dedos da M. tinha despertado em mim como um urso que termina a hibernação.
Lembrei-me dos dedos dela e do sabor desse chocolate que dividimos há mais de uma década. Essa carícia ficou-me gravada na memória como uma pequena tatuagem no corpo de um gigante, talvez porque tenha sido a forma de eu perceber por uma pequena fracção do tempo, como seria se nos tivéssemos apaixonado em simultâneo.
Sorri à mulher e continuei a caminhar. Ao chegar a casa telefonei à M, para lhe perguntar isso mesmo: se por acaso ela se lembrava desse nosso entrelaçar dos dedos, mas a conversa perdeu-se no nosso passado da mesma forma que eu me perco a caminhar sem destino nesta cidade.
Não perguntei.

9.11.2017

sem título

Às vezes, muitas vezes, dou por mim a convidar o meu passado para um copo. Tristezas profundas transformaram-se entretanto em sorrisos patetas e a felicidade transformou-se quase sempre em nostalgia.
Alguns dos melhores Amores que tive nunca o chegaram a ser. Foram, por assim dizer, meios amores. Não porque não pudessem ter sido algo mais, mas apenas porque não aconteceu.
Quando um meio Amor nunca chega a ser muito mais do que isso, tendemos a pensar que algo falhou, mas hoje, nesse copo de vinho que partilhei com o meu passado, dei-me conta que não.
É que um meio Amor não é Amar pela metade. Talvez seja apenas Amar mais depressa e, portanto, em menos tempo. Quando acreditamos que a durabilidade é a principal qualidade de um Amor, arriscamo-nos a tentar esticar o que não é esticável.
Não é que isto seja importante. É apenas uma forma de me explicar a mim como os meios Amores foram inteiros.

9.07.2017

conversa 2196

(por skype, com uma amiga portuguesa)

Ela - Vê se levas o meu marido uns dias aí para Inglaterra...
Eu - Ele está a precisar de sair de Portugal?
Ela - Sei lá!
Eu - Então queres que ele venha porquê?
Ela - Sou eu que preciso que ele saia de Portugal por uns tempos.

9.06.2017

está a chover

O último carro que passou era branco. Não sei a marca. Sei que antes de atravessar a estrada que dá para o maior supermercado da cidade, olhei para o lado direito num movimento que me é, de certa forma, pensado. Ainda não me habituei totalmente ao sentido do tráfego na Inglaterra e o meu primeiro impulso é sempre olhar para o lado esquerdo. O meu segundo movimento pensado seria, caso pudesse, atravessar a passadeira mesmo com o vermelho aceso. Chovia a cântaros.
O carro branco que passou era conduzido por uma mulher. Os nossos olhares cruzaram-se por uma fracção de segundo. Depois o motor tossiu e ela acelerou até desaparecer na curva seguinte.
No fim nada. Só a memória fresca dos olhos negros que tinham acabado de me tocar como se fossem vento frio. A cidade ficou deserta, mas mesmo assim os semáforos continuavam a alternar as luzes vermelhas e verdes num gesto mecânico, repetitivo e ausente. Talvez, durante uma parte da minha vida, eu tenha vivido assim, da mesma forma, repetindo gestos diariamente só porque sim. Talvez tenha sido um olhar fugaz como este a despertar-me para a vida e a fazer-me mudar.
Nunca fui muito influenciado por grandes discursos, sermões ou histórias. Já alguns olhares, abraços ou beijos foram capazes de alterar totalmente o sentido minha vida. É como se, de repente, o voo de uma borboleta pudesse alterar o percurso e o destino de um navio com um leve golpe de asas. É isso um beijo, por exemplo.
Andei por aí. Abriguei-me em alguns Amores do tamanho de um casarão até ser expulso. Digo-o assim, porque é sempre a sensação que nasce com o fim duma paixão, a de se ser um sem-abrigo. Depois a realidade transforma-se lentamente em memórias líquidas e incertas e nós andamos por aí até acabarmos no cruzamento deserto duma pequena cidade inglesa. Os semáforos funcionam sem motivo aparente, como quase todo o mundo, mas um olhar furtivo acordou-nos e faz-nos perceber o bom que é estar vivo.
Está a chover.

5.15.2017

Yanka



A Yanka contou-me a vida dela enquanto bebia Guiness num bar irlandês em Sófia. Ë um dos bares mais conhecidos, mesmo no centro, mas ainda assim não sei o nome. Sei que, enquanto me contava tudo, eu ia bebendo cerveja em goles cada vez menos espaçados. Guiness também.
Mantive-me sempre em silêncio total. Não perguntei nada, não tossi e nem sequer a respirar fiz qualquer tipo de ruído. Fiquei a ver os riscos da espuma que iam ficando agarrados aos copos das minhas cervejas formando círculos que se assemelhavam a lama derretida. Ela não se chegou a aperceber disso, mas alguns desses riscos marcavam a mudança de episódios da sua vida.
Por algum motivo que não consigo explicar, desde o princípio que eu soube que toda a vida dela naquela noite equivaleria a quatro pints de cerveja negra e que a sua última frase coincidiria com o meu último gole. A voz dela desenhava-se no ar mesmo à minha frente, soltando um suave aroma de perfume de rosas em cada palavra, não porque ela cheirasse propriamente bem, mas sim porque eu estava apaixonado pela primeira vez desde a minha chegada à Bulgária. Estar com a Yanka em silêncio o dia todo tinha sido bom, mas ouvi-la era ainda melhor. A voz dela é o ponto-rebuçado da sua presença.
Nunca me sinto apaixonado quando não estou perto dela. Não sinto saudades nem vontade de lhe telefonar. Não a ressaco de forma nenhuma, mas assim que a tenho perto de mim não consigo afastar-me. A sua presença tem um enorme poder sedutor, muito provavelmente concentrado nos seus olhos. São pretos e são grandes. Aventurar-me neles dá-me medo. Posso perder-me para sempre. Daí preferir concentrar-me nos riscos de cerveja que decoravam os copos.
Há mulheres pelas quais um homem se apaixona uma vez e já está. Mesmo a distância nunca atenua essa paixão. No caso da Yanka, apaixono-me de novo cada vez que a vejo como se fosse sempre a primeira. Basta ela, por exemplo, ausentar-se de mim enquanto tomamos um café para ir falar ao telemóvel com alguma privacidade que, assim que regressa, tudo começa de novo. Apaixono-me.
Nessa noite ela nunca se ausentou, ou seja, quando a história da vida dela terminou a minha paixão por ela já ia em quarenta e seis minutos. Quase uma hora, portanto. Uma eternidade para uma paixão tão forte. Os nossos olhares encontraram-se mais ou menos a meio de nós e ela disse que quando voltou de Portugal o automóvel preto estava estacionado no mesmo sítio de sempre. Dei o último gole na minha quarta cerveja e ela sorriu.
Apeteceu-me beijá-la, mas não o fiz. Às vezes os beijos são apenas uma bomba. Explodem bem no centro de um Amor enorme e destroem-no para sempre. Acabam com tudo. Acho que ela percebeu a minha vontade e a minha hesitação. Sorriu, não sei se com alívio ou desilusão, mas sei que  ela foi sincera quando me pediu desculpa por ter estado tanto tempo a falar dela mesma.
- Gostei muito de te ouvir! – respondi.
Era verdade, mas também era verdade que a história do automóvel preto tinha-me interessado ainda mais do que tudo o resto.
A Yanka foi a primeira amiga que fiz na Bulgária por uma razão muito simples: fala português perfeitamente. Quando eu, como um náufrago perdido num imenso mar de solidão, abri um perfil num site de engate na internet, ela foi a primeira a responder-me. Foi também a única, mas valeu a pena. Entretanto já me apaixonei por ela tantas vezes quantas as que estivemos juntos.
Encontrámo-nos no Borisova Gradina, um dos maiores jardins da cidade, num dia de Primavera. Reparei que ela tinha uma face bonita e que todos os sorrisos lhe morriam à nascença. Olhos pretos, capazes de entrar dentro dos meus e de me revistar como faz um polícia a um prisioneiro algemado. Veio até mim.
- Olá! És o português, não és?
E eu imediatamente a tentar libertar-me sem o conseguir.
- Sim...
Acabámos sentados num dos bancos verdes de madeira que pontilham o parque, a comer milho cozido comprado na entrada que dá para o edifício principal da Universidade de Sófia. A maior parte das pessoas passava à nossa frente sem sequer reparar na nossa presença, mas a certa altura pareceu-me que as árvores segredavam algo sobre o nosso encontro. Olhei para cima e vi que algumas folhas abanavam no que me parecia ser um movimento controlado e consciente. Tentei apurar os sentidos, mas ela interrompeu-me.
- É o vento... – disse.
No bar irlandês não havia vento, mas ainda assim eu olhava para as marcas de cerveja como se elas contivessem um segredo qualquer sobre nós, nem que fosse o pequeno pormenor de saberem que eu me apaixono por ela sempre que a vejo e que só por isso conseguia ouvir toda a sua história sem pestanejar.
Fiquei a saber que, depois da queda do regime comunista, a Bulgária passou alguns anos muito difíceis, principalmente já a meio da década de noventa. A inflação galopante percorreu o país e a fome entrou sem avisar nos lares búlgaros. Nessa altura Yanka era estudante universitária e tinha perdido o seu primeiro grande Amor logo a seguir à queda do muro de Berlim, na primeira vaga de emigração que o país sofreu e que acabou por atingir quatro milhões de pessoas. Lembra-se, por exemplo, de juntar todo o dinheiro com alguns dos seus colegas de quarto para poder comprar um pão negro que dividiam entre si. Às vezes era o único alimento que tinham durante vários dias.
Ainda assim, Yanka tinha casa. O direito à habitação do regime comunista transformara-se automaticamente em títulos de propriedade para os moradores. Apesar da fome, quase ninguém dormia ao relento e ela contou-me que se deitou muitas vezes no conforto da sua cama, sem comer, à espera que a fome adormecesse com ela. Chegou a sonhar que a sua casa era um enorme estômago esfomeado e ela um pequeno pedaço de pão à deriva lá dentro.
Foi num desses momentos que o som seco de três pancadas a acordou e a trouxe de volta ao mundo real. Alguém forçara a porta da entrada e invadira o seu apartamento. Ouvia os passos dos invasores, que seriam dois ou três, e gastou os últimos recursos energéticos para se manter alerta. Agarrou-se às barras metálicas da cama com a força com que um petroleiro se amarra ao cais e fechou-se num manto de silêncio. Um fio de saliva fria escorreu-lhe dos lábios quando eles entraram no quarto.
- Não me violaram! – disse olhando-me como se esperasse uma reacção de alívio.
Os quatro homens encostaram-lhe uma pistola à cabeça e deram-lhe dois dias para ela decidir vender-lhes a casa por tuta e meia. Era a máfia búlgara a fazer os seus primeiros negócios. No dia seguinte emigrou. O último vizinho que viu foi um homem do rés-do-chão que estacionava o carro preto sempre no mesmo sítio, debaixo duma árvore centenária da altura de quatro andares. Tinha acabado de o fazer e sorriu-lhe. Não podia imaginar que ela ia andar várias semanas à boleia até acabar em Portugal, numa pequena aldeia algarvia.
Quando voltou, muitos anos depois, ao chegar a casa viu exactamente o mesmo homem a estacionar o mesmo carro no mesmo sítio. Para ela, o mundo tinha mudado radicalmente, mas para aquele senhor a vida continuava como sempre, estacionando o carro exactamente no mesmo local.

4.18.2017

depósito

É quase pornográfico, isto que eu vou dizer, mas em certa medida um bar é como um banco. Num banco depositamos o nosso dinheiro, num bar depositamos a nossa vida. E agora que disse isto, sem dúvida que um bar é muito mais importante do que um banco qualquer.
E então decobri o meu banco preferido pouco tempo depois de chegar a este país. Chama-se Elite e fica numa esquina esquecida dum bairro em Mladost. É frequentado maioritariamente por pessoas de idade avançada que nunca souberam parar de beber, basicamente porque também nunca souberam como parar de viver. Esse é um dos problemas da vida, disse-me uma vez um velhote a tentar manter-se em pé com a ajuda do balcão. O que fazer da vida quando a idade no corpo fugiu à juventude da alma? E riu-se. Depois brindou comigo e calou-se, como se o silêncio fosse quem o melhor podia compreender naquele momento. E então pus-lhe a mão no ombro, porque também eu o compreendia.
O primeiro depósito que fiz foi sobre a saudade, essa palavra tão portuguesa e tão minha. A dona abriu conta em meu nome e ouviu-me a falar sobre a minha filha, a minha mãe e alguns amigos. Como é que vai pagar? Perguntou-me ela. Bebendo um uísque, respondi. E pagámos a meias, com um copo de Bushmills cada um.
Talvez seja difícil explicar a fininha lâminha de dor que corta continuamente a alma de quem decidiu emigrar, mas isso não é importante. Também há coisas boas, tão boas que não precisamos de juros pelos depósitos que vamos fazendo aqui e ali. Uma delas chama-se descoberta. Partimos do zero e vamo-nos descobrindo a nós mesmos à medida que fazemos novos amigos. É como se tivéssemos feito um reset à vida e nascido de novo. Podemos caminhar na avenida mais movimentada da cidade sem sermos reconhecidos por ninguém, parar para procurar a Lua entre o topo dos edifícios e inspirar fundo para absorver tudo duma vez. É o tempo à nossa disposição. Totalmente.
E então sentei-me sozinho na esplanada do banco. Do outro lado da rua, alguns homens bêbados urinavam entre os contentores do lixo, observados pelos velhos e grandes edifícios que ameaçavam ruir a qualquer momento. Um homem caiu no meio da rua e corri para o ajudar a levantar-se. Com a ajuda de mais alguns transeuntes, sentei-o numa cadeira. Quando voltei ao meu lugar a S. encostou a cabeça no meu ombro. Perdi o contacto visual com ela, mas sentia os seus cabelos longos a beijar-me o queixo.
Não lhe disse nada. Tal como numa bebedeira, o silêncio era quem melhor me podia compreender. É assim que se vive, depositando os dias num ou noutro copo até alguém encostar a cabeça no nosso ombro. Tão fácil... e eu nunca o tinha percebido.

4.13.2017

E quando acaba o Amor?

Faz-se sempre um balanço da vida quando se encontra um amigo de longa data que já não se vê há muito tempo. Trabalhas em quê? Acabaste o curso? Casaste? Tens filhos? Bem, quando encontrei o J. a minha vida estava uma desgraça. Tinha perdido o emprego e a minha namorada tinha-me dado um pontapé no rabo sem explicações. Os meus luxos resumiam-se a uma cerveja de vez em quando no café, ao mesmo tempo que via um jogo de futebol sem qualquer tipo de entusiasmo. Talvez por isso ele tenha começado por vincar como a vida lhe corria bem.
Eram duas equipas alemãs a jogar na emissão da Sporttv, uma amarela e uma azul. Sem saber porquê, enquanto o ouvia, torcia pela equipa amarela. A mão dele mexia numa chave electrónica dum Audi A4 como se fosse um reco-reco a tentar chamar a atenção. Trabalhava num banco, tinha um filho bom na escola e em desporto, tinha feito a Universidade sem qualquer hesitação e, cereja em cima do bolo, tinha encontrado e casado com a mulher da vida dele. O meu silêncio era incapaz de manter em segredo a minha vida, mas não havia muito a fazer.
Depois a equipa azul marcou um golo. Um homem só no balcão festejou-o e o telemóvel topo de gama do J, tocou. O toque era uma música qualquer de rock dos anos setenta da qual não me consegui lembrar do nome. Nem da banda nem do tema.

- É a minha mulher. O que é que a gaja quer agora? - Perguntou.

A minha cerveja estava no fim, mas eu não tinha dinheiro para outra. Fiquei a ouvi-lo falar com a mulher enquanto os amarelos tentavam empatar desesperadamente. Talvez fosse um jogo importante. Está bem, meu Amor. Encontrei um amigo do liceu. Está tudo bem. Sim, eu compro. Vai tu buscar o miúdo, podes? Amo-te. E depois suspirou. Olhei para os olhos dele. Neles, a falta de brilho era um reflexo perfeito dos meus. E então perguntei-me em silêncio: "E quando acaba o Amor?".
Aquele "Amo-te" tinha-lhe morrido nos lábios como uma onda do mar que não chega sequer à praia. A mulher da vida dele, em menos de um minuto, tinha-se transformado numa gaja que só o estava a chatear. E então foi a minha vez de falar.

- Não sei o que é que se passa comigo. Não consigo manter um emprego nem uma relação. Em pouco tempo, canso-me das minhas namoradas ou elas se cansam de mim. Acaba tudo e atravesso desertos até me apaixonar outra vez e acreditar que vai ser para sempre. Depois sou feliz durante algum tempo, até acabar o Amor.
Não falei do meu desemprego nem do meu carro que já devia ter ido à inspecção há mais de dois meses, mas eu não tinha dinheiro para lhe trocar o cano de escape e por isso andava a tentar evitar a polícia.
Sorri-lhe. Os amarelos marcaram um golo, mas o mesmo foi anulado pelo árbitro.
Ele guardou a chave do Audi A4 no bolso, pagou a conta toda e foi-se embora com um "tchau" tão convincente como o "Amo-te" que tinha dito à mulher da vida dele uns minutos antes. Pude pedir outra cerveja e acabei de ver o jogo sozinho. Os amarelos perderam.

- E quando acaba o Amor?

4.04.2017

bombardeamento

Subo as longas escadas rolantes da estação de metro do Levski Stadium, quieto e em fila indiana, engolido pelo emaranhado novelo de silêncio dos passageiros. À minha frente, uma mulher leva uma mochila às costas com a imagem duma banda qualquer de metal. São quatro homens com a face pintada de branco, os lábios e os olhos de negro e, por fim, um sorriso largo a lembrar-me o do Joker. Por causa do desnível dos degraus, essa imagem está mesmo à frente dos meus olhos.
No topo da escada está um polícia, com o habitual fato de macaco azul que os polícias búlgaros usam. Também sorri, mas não tanto, para cada uma das pessoas que a escada vai cuspindo. Sei que, de um momento para o outro, vai chamar alguém à sorte e pedir a documentação. Uma vez, há alguns meses atrás, calhou-me a mim. Fitou o meu cartão de cidadão português e o visa búlgaro durante mais tempo do que o necessário. Depois pôs um olhar inquisidor e disse: "Portugalsko...". Eu assenti com a cabeça e ele devolveu-me tudo para a mão. Hoje não. Será a vez de outro.
Assim que as grandes portas de vidro da estação se abrem, uma sirene e um aviso mecânico de que a cidade vai ser bombardeada enchem o espaço. Por um segundo acredito, mas depois percebo que a cidade continua a respirar como de costume, sem acreditar que vêm aí bombardeiros. Um homem percebe o meu susto e acalma-me dizendo que é apenas um teste. Ainda bem. Se eu morresse hoje, os últimos sorrisos que tinha visto seriam o de uma banda de metal e o de um polícia inquisidor.
Respiro fundo e enfrento de novo a cidade.  O nosso ritmo cardíaco é agora igual. Caminho pelas suas ruas à mesma velocidade que ela caminha por mim. Uma mulher refugiada disputa alguns pedaços de pão com uma dezena de pombos. Não sei como é o pão foi ali parar, muito menos os pombos, mas imagino o percurso dela. Talvez a Turquia, talvez o mares Mediterrâneo e Egeu num barco improvisado. Sei lá...
Sei que um grupo de ciganos toca guitarra e dança no meio do passeio. A maior parte das pessoas contorna-o mantendo pelo menos dois metros de distância. Quase todos os passageiros dos eléctricos que passam olham com curiosidade, como se estivessem a olhar para animais numa jaula sem perceberem que são eles mesmos que estão enjaulados. Há um homem branco, de idade avançada, que atira a mala para o chão e se põe a dançar com eles. Tenta manter-se na vertical com apenas um dos pés, o que consegue dificilmente. Uma cigana que tem vários cigarros na mão aproxima-se e pede-me mais um. Que não fumo, respondo. Ela aperta-me a bochecha e diz qualquer coisa incompreensível. Regressa ao grupo e entrega todos os cigarros a um homem que olha para mim e me agradece num gesto. Pensa que fui que lhos dei.
Enjaulo-me num desses eléctricos também. Uma mulher sem pernas pede-me ajuda com a cadeira de rodas. É pesada como a vida, pelo menos custa-me bastante colocá-la dentro do vagão. A mulher sobe fazendo dos joelhos os pés. Como será ver o mundo àquela altura? Não sei, mas sei que ela me devolve o melhor sorriso do dia. Apenas uma paragem depois, ajudo-a a sair.
Eu não queria sair já aqui. Na verdade, nem sei muito bem onde queria sair. Só o fiz para ajudar a tirar a cadeira de rodas do eléctrico. Volto para trás. Tudo o que posso e devo fazer hoje, já que não morri debaixo de nenhum bombardeamento, é oferecer uma refeição quente a quem anda a disputar comida com pombos.
Encontro a mulher. Encostou-se a um canto de mão estendida. Percebo que ela ainda nem sequer sabe pedir. Tem vergonha e faltam-lhe as forças. Todos os meus problemas se diluem num vazio incompreensível.
Esta cidade é louca. É por isso que estou apaixonado por ela. Até um dia estoirar. Até um dia...

3.15.2017

E então vou de pé

E então vou de pé.
É que nunca me sento quando viajo de metro à hora de ponta, mesmo que na estação onde eu normalmente entro ainda costume haver alguns lugares livres. Sei que é uma questão de tempo, pouco, até que pessoas mais velhas do que eu invadam o espaço e o preencham como se fosse um ovo.
E então vou de pé.
A minha mão agarrou-se a um varão horizontal como se a minha vida dependesse disso. A vida não, mas o equilíbrio do corpo sim. Toda a força que faço está concentrada nos meus dedos para contrariar a aceleração e a desaceleração da carruagem.
E então vou de pé.
Ali dentro todos os olhares se escondem, a maior parte deles no ecrã de um telemóvel ou num livro. Os outros, aqueles que não têm um esconderijo próprio, colam-se a coisas tão absurdas como os próprios pés ou o vazio. Se fosse possível desenhar uma recta a partir de cada um desses olhares, tenho a certeza que nenhuma delas tocava noutra. É estranho, todos os olhares irem dar a um infinito dentro de uma carruagem de metro que me parece tão finita.
E então vou de pé e pergunto-me se a vida é só isto: uma viagem matinal para um trabalho que permite a toda a gente viver uma vida de que, pelo menos neste momento, parece não gostar muito. Pergunto-me se a vida é um homem cujo olhar se derreteu na palma da própria mão, uma mulher que encostou a cabeça a um vidro trémulo ou esta voz repetitiva a anunciar cada estação que se aproxima.
E então vou de pé. A vida é só isto?
Sou um explorador numa densa e quieta floresta de braços e pernas. Silenciosa também. Sem bússola, os meus olhos percorrem-na como se fossem uma afiada catana. Descobrem um outro olhar, também perdido, que talvez se pergunte o mesmo. Diz-me adeus. Respondo com um sorriso. É uma mulher a quem pedi ajuda uma vez quando estava totalmente perdido num dos bairros da cidade.
E então vou de pé. Já sei que a vida não é só isto.

3.07.2017

respostas a perguntas inexistentes (376)

A cidade

Vivo nos subúrbios de Sófia, onde os velhos edifícios me lembram as torres de caixotes de papelão que eu fazia quando era criança. Parece que se vão desmoronar a qualquer momento, mas uma força qualquer sobrenatural faz com que se mantenham em pé desde o período em que o país era comunista. O tempo que passou por eles passou também por mim, e revejo as cidades que eu construía na casa dos meus pais nessa infância que teima em não me dizer adeus.
Hoje de manhã, quando saía para o trabalho, cruzei-me com uma vizinha que me sorriu timidamente e me cumprimentou em português. Ensinei-a a dizer "Bom Dia" há alguns meses, mas depois disso nunca mais a vi. Até hoje, claro. Ainda se lembrava da nossa pequena conversa de apresentação e permitiu-me ouvir a minha língua materna logo pela manhã. Respondi-lhe em búlgaro, agradecido.
É claro que podemos ver a cidade como uma série de caixotes amontoados, em esforço para se manterem em pé. Podemos ver-lhe as igrejas, os jardins e o intenso trânsito de automóveis normalmente velhos e ruidosos, mas nunca a conhecemos mesmo enquanto não nos cruzarmos com um vizinho de manhã na escada do nosso prédio. Era essa a maior curiosidade da minha infância: como seriam as pessoas das cidades improvisadas por mim.
O tempo trouxe-me também o Amor de uma mulher. Depois de outra e mais outra. Aprendi, felizmente, pouco sobre essa matéria, mas o suficiente para saber que ele é como uma cidade. O que nunca percebi é se devemos procurá-lo a ele ou se é melhor que ele nos encontre a nós, por acaso, numa esquina e numa hora ao acaso. Falo ainda do Amor, claro.
Às vezes, muitas vezes, sou só eu e a cidade. É com ela que falo sobre isso enquanto caminho só. Os eléctricos mastigam o alcatrão da estrada velha, as pessoas caminham como se fossem formigas assustadas e os automóveis roncam como animais enfurecidos. A minha vizinha afasta-se e diz-me adeus com a mão esquerda, enquanto com a outra segura um saco térmico com o que suponho ser o almoço. Nunca senti falta desta cidade antes de a conhecer. E no Amor?

3.02.2017

respostas a perguntas inexistentes (375)

deserto

Tomo um café logo pela manhã numa bomba de gasolina. É estranho, este prazer de sentir os primeiros aromas da Primavera misturados com o cheiro a alcatrão e a petróleo. Uma mulher bonita acabou de passar por mim, depois de pagar o seu abastecimento, e partiu num velho desportivo vermelho deixando atrás de si uma pequena nuvem de poluição. Ia em passo apressado, como se toda a vida dependesse da sua capacidade de chegar a tempo ao seu destino. Se eu pudesse dizer-lhe alguma coisa, era que a vida continuou depois dela partir. Mas não posso.
O que aconteceu então foi que um funcionário deixou cair um tabuleiro com copos e canecas de café que se desfizeram em cacos num barulho ensurcedor. Por um momento todos os presentes olharam por breves segundos para o local da explosão e logo voltaram aos seus pensamentos e pequenas acções. Eu também. A minha pequena acção foi terminar de comer uma fatia de banitsa com abóbora e agora o meu pensamento navega pelos desertos do meu passado.
De certa forma, todos encontramos desertos nas nossas vidas, sejam eles de trabalho, de alegria, de afeto ou de outra coisa qualquer. Quase todos os meus desertos foram de Amor e deram em longas viagens pelas áridas dunas de areia que se formam em nós quando a nossa palma da mão também se sente deserta. Penso numa dessas viagens e nas fotografias que fiz. De certa forma, vim dar aqui, a este país e a esta estação de serviço.
Todos os Amores têm sabor. Podem ser doces ou amargos, verdes ou maduros, insossos ou apurados. Só lhes sentimos o sabor se soubermos fazer cada um desses desertos a que a vida nos obriga ou, pelo menos, é nisso que acredito.
A banitsa soube-me bem. Tinha abóbora, queijo branco e, claro, massa folhada.


1.20.2017

coisas que fascinam (214)

Talvez duas mulheres que dividiam uma música na estação de metro de Musagenitsa tenha sido o que vi hoje de mais bonito. Uma delas segurava um telemóvel de onde saía um par de auscultadores. Um deles estava no ouvido esquerdo duma delas, o outro no direito da outra. Sorriam. Não ouvi a música, mas imaginei que era a Ayo a cantar.
Vinham na minha direcção, no meio de um mar de gente que acabara de sair do mesmo metro que elas. Algumas das pessoas faziam um ar zangado porque as duas andavam mais devagar e atrapalhavam o movimento normal dos passageiros que entravam e saíam da estação naquela hora de ponta. Um homem deu-lhes um encontrão com o ombro e uma mulher gritou-lhes qualquer coisa em búlgaro.
Eu parei e a multidão passou por mim como lama viva. Aconteceu-me o mesmo. Levei um encontrão e tenho a sensação que alguém me disse alguma coisa desagradável do tipo "mexe-te!". Quando, finalmente, todos já se tinham ido embora, percebi que elas eram as únicas que sorriam. Então sorri também. Estava sozinho no cais.
Não sei quando é que a normalidade dos dias se torna tão cinzenta que acaba por ser agressiva para quem tem o bonito gesto de dividir uma música, mas senti-me bem por perceber que lhe escapei. A essa normalidade cinzenta, digo.
Estou aqui longe, entre uma dor e uma alegria constantes. É duro, mas é vida mesmo. E em vez de dar encontrões em mulheres que sorriem, sorrio-lhes também.