2.06.2016

conversa 2185

Ela - Há quatro aspectos em que um homem tem que preencher uma mulher.
Eu - Quais?
Ela - Sexual, emocional, intelectual e...
Eu - E quê?
Ela - Já não me lembro do outro, mas sei que se o outro falha, falha tudo.

2.05.2016

respostas a perguntas inexistentes (364)

No Amor, o resultado total é sempre maior do que a soma das partes. Começamos do nada mais nada para chegar à vontade de entrelaçarmos os braços um no outro, porque Amamos sempre alguém que já nos foi estranho e não nos dizia nada.
Se calhar não damos conta da quantidade de Amores possíveis que passam por nós todos os dias e nem reparam que existimos. A mulher que hoje de manhã deixou cair a chave do carro, por exemplo. Levava tantas coisas nos braços que não podia baixar-se para apanhá-la. Deixe estar, disse eu. Ela esticou o dedo indicador da mão direita onde eu a pendurei pela argola. Obrigada, disse ela.
Depois afastámo-nos. Ela entrou num edifício de cinco andares e eu caminhei mais uns dois quilómetros até casa.
E se nos tivéssemos conhecido em férias numa praia qualquer? Ou num workshop de fotografia? Ou numa sessão de cinema? 
Conhecermo-nos num contexto que permita apaixonarmo-nos é tão pouco provável como termos nascido e sermos quem somos num Cosmos em que, como disse Sagan, há mais estrelas do que grãos de areia nas praias da Terra.
Ainda assim nós nascemos.

2.04.2016

um coala e uma árvore

Éramos miúdos, umas vezes mais do que outras. Ela tinha uma saia verde que roubara à irmã mais velha e lhe ficava mal, mas que eu gostava. Eu quase que tinha um bigode onde o que tinha realmente eram borbulhas e espinhas. Se as pernas dela pareciam palitos naquela saia tão grande, a minha cara parecia a superfície da lua, de tanta cratera aberta. E foi assim que nos apaixonámos, num Domingo em que chovia a cântaros e por uma vez nos molhámos juntos.
Com excepção das andorinhas, que faziam os ninhos nos beirais dos telhados e por isso estavam protegidas, eu não sabia para onde iam os pássaros quando chovia na Primavera. Perguntei-lhe se sabia e ela olhou para as árvores do parque à procura da resposta. Não vejo nenhum, respondeu. Eu, na verdade, também não via. Depois trovejou e ela agarrou-me o braço com força. Foi a primeira vez que fui cavaleiro andante. E a última também, creio.
Estava à espera que nunca mais parasse de chover nem de trovejar, que nunca mais saíssemos dali, com ela a agarrar-me o braço e eu à procura de pássaros na copa da maior árvore que a minha vista alcançava. Mas saímos. Ela largou-me o braço e correu para debaixo da paragem de autocarro. Eu corri atrás. Foi a primeira vez que tive ciúmes duma paragem de autocarro. E a última também, creio.
Estávamos encharcados. A saia dela pontilhada pela lama e a minha cara por um Amor serôdio. Devia ter aprendido nesse dia que não se corre atrás de uma mulher que nos larga o braço e se afasta sem dizer nada, mas não aprendi. Talvez por ela ter dito que estava frio e se ter tornado a agarrar ao meu corpo, como se fosse um coala numa árvore.
A chuva finalmente parou, não sei bem quanto tempo depois. Talvez duas horas, talvez dois beijos. Sei lá. Às vezes tenho a sensação que ainda lá estamos, ela feita marsupial e eu feito uma árvore erecta na Austrália.
Foi isso que nos sobrou da vida.
Somos adultos, umas vezes menos do que outras. Ela tem uma saia preta que diz que é de Inverno e eu tenho a barba por fazer. Para além disso temos trinta anos desde esse dia e muitas histórias que gostávamos de conseguir contar um ao outro, mas não conseguimos. É incrível como as pessoas crescem e envelhecem, mas não perdem o olhar da juventude. É preto, o olhar dela. Tão preto que me anoitece. É ele que me sorri. Não os lábios.
Rasga o pacote de açúcar vermelho num dos cantos e põe apenas metade num galão fumegante. Parece neve a ser engolida por um vulcão. Tudo o que ela faz provoca alterações no mundo. Ora anoitece, ora neva num vulcão. Dou o primeiro gole na minha cerveja e pergunto-lhe se se lembra da molha que apanhámos no parque. Os lábios também lhe sorriem agora. Que bom.
Se ela tornasse a ser coala, eu tornava a ser árvore.


2.03.2016

respostas a perguntas inexistentes (363)

Eu estava a lavar a louça e parti um copo

Lembro-me de três coisas. Quando eu lavava a louça ela pedia-me sempre para não partir os copos de vinho, na cozinha havia um relógio mecânico que se ouvia no quarto quando havia silêncio e de manhã havia sempre um intenso cheiro a café.
Entre o vinho, sempre tinto e bebido à noite em doses mais ou menos generosas, e o café matinal fazíamos Amor. Passávamos o resto do tempo a tentar não quebrar o que havia entre nós, o que implicava um esforço tão grande como aquele que eu fazia para não partir o pé alto dos copos de cristal que ela guardava como relíquias numa armário da sala.
Era uma estranha sensação de conforto não nos apercebermos que o nosso Amor já tinha acabado. Talvez por isso repetíssemos sempre as mesmas rotinas na cama e fora dela, enquanto o relógio marcava o tempo a passar como se cada segundo fosse uma pequena e indelével ferida.
Além disso, pouco mais. Às vezes o vento batia nas janelas e abria-as. Vinha ver se ainda estávamos entretidos um com o outro, esquecendo-o a ele e àquilo que ele varria quando o Outono pintava a rua de amarelo e de vermelho escuro. Uma vez ela suspirou e fechou a janela com mais força do que o habitual. Parecia zangada. Depois encostou a cabeça ao vidro e esperou doze segundos até falar.

- É estranho a morte das folhas das árvores ter cores tão vivas.

Eu estava a lavar a louça e parti um copo.

2.02.2016

conversa 2184

Ela - E então, como é que andas de Amores?
Eu - Não ando nada. Nem mal, nem bem.
Ela - Eu até nem ando mal...
Eu - Não andar mal não quer dizer que se ande bem.
Ela - Pois, o problema é esse. Acho que desisti de ser feliz para passar a ser assim assim.

2.01.2016

conversa 2183

Ela - Conheço uma mulher que gosta de ti.
Eu - Conheces?! Quem é?
Ela - Não posso dizer.
Eu - Se não podes dizer, nem devias ter começado a falar.
Ela - Mas estás curioso?
Eu - Não.
Ela - Estás, estás...
Eu - E não podes dizer, porquê?
Ela - É que não é bem gostar de ti. É mais andar desesperada...

coisas que fascinam (203)

Mãos ao ar, isto é uma paixão!

Acho que ninguém sabe como é que nasce um Amor. Aliás, também ninguém sabe como é que ele morre. Apenas nos apercebemos que ele já nasceu ou que ele já morreu. É por isso que o Amor que se promete eterno é sempre uma mentira. A vida precisa tanto da morte como a morte precisa da vida.
É claro que se pode Amar alguém até ao fim da vida. Mesmo que o Amor não seja eterno, a vida também não o é. Neste caso basta que a vida de duas pessoas dure menos que o seu Amor.
É também por isso que me cansa que alguém justifique o seu Amor com uma enxurrada de adjectivos pomposos. Na verdade, ninguém opta por Amar ninguém ou, melhor ainda, se há quem o faça é porque não sabe Amar.
A questão central é que só nos apaixonamos realmente quando somos assaltados. Alguém que se cruza connosco e nos rouba a paz de espírito com uma arma poderosa como um olhar, um gesto, uma voz ou uma palavra. Mãos ao ar, isto é uma paixão!
É claro que, como em tudo, há pessoas que são assaltadas com mais facilidade e outras com menos. Depende, essencialmente, das más ou boas companhias com que andamos e dos locais que frequentamos.

1.29.2016

respostas a perguntas inexistentes (362)

Pára com isso!

Tenho um dedo torto. Quase ninguém sabe porque não se nota. É preciso mexer-me nas mãos para perceber esta pequena deficiência no meu mindinho esquerdo. Às vezes quando estou sozinho, mesmo sabendo que isso é impossível, tento endireitá-lo com a mão direita, forçando-o a esticar-se. Ele estala, mas nunca me dói. Depois paro.
Acabei de o fazer agora mesmo, sentado na areia húmida desta praia que as ondas do mar estão a beijar como se beija repetidamente a face duma mulher que se Ama. São beijos pequenos e repetidos. Lembro-me da Ana, que às vezes me segurava as mãos, mas mandava-me sempre parar quando me via a esticar o dedo.

 - Pára com isso! - Dizia.

Depois dava uma estalada no ar, como se estivesse a enxotar moscas das minhas mãos. Eu parava. Enquanto caminhávamos os meus lábios iam dar à pele das bochechas dela em pequenas e inofensivas ondas de mar, até ela me informar que já estava cansada.

- Pára com isso! - Dizia.

Repetia o gesto da estalada no ar, mas enxotando as moscas da minha cara.
A Ana não sabe, mas às vezes parece-me que vou ouvir o "pára com isso" dela. Aconteceu-me neste exacto momento em que tentei esticar o meu dedo torto. Não ouvi, claro. Ela não está comigo.
Aquilo que ela me ensinou, no entanto, ainda está comigo. É a passagem do tempo e de como algumas coisas nos ficam para sempre. Outras não.

1.28.2016

coisas que fascinam (202)

Se uma mulher nos diz que gostava de fugir connosco para um sítio qualquer, está a fazer-nos uma declaração de Amor. Não por causa da intenção de fugir, mas sim por causa do sítio qualquer. As mulheres têm uma enorme vontade de fugir do sítio onde estão, mas nunca fogem. Os homens preferem ficar, mas às vezes fogem. Só que não é para um sítio qualquer.
Ela descasca uma laranja e diz-me que aquela parte branca, entre a casca e os gomos, é a melhor. Faz bem a tudo, insiste. Eu acabei de abrir uma cerveja e, tendo a garrafa na mão direita, brinco com a carica na mão esquerda. Não sei muito bem a que é a cerveja me faz bem. A não ser, talvez, à alma. Na verdade nunca penso no benefícios dos alimentos que ingiro. Limito-me a ingeri-los e pronto.

- Repete lá isso que disseste. - peço.
- A parte branca da laranja é a melhor...
- Não, não. Antes disso.
- Fugia contigo para um sítio qualquer...
- E que sítio qualquer é esse?

Ela abana os ombros. Por um momento tenho o desejo absurdo de que a minha cerveja nunca mais acabe nem a parte branca da laranja dela. Podíamos ficar aqui os dois, na varanda da casa dela, a olhar para a estrada em silêncio como se esperássemos alguma coisa. Mesmo sem esperar nada, digo.
A primeira linha que um homem e uma mulher podem atravessar juntos não é a do sexo. É a das palavras. Quando aquilo que dizem um ao outro não é óbvio nem claro, mas sim um pântano do qual ambos teimam não  abandonar.
A laranja acabou. A cerveja também. Ela é a primeira a levantar-se do sítio qualquer onde nos refugiámos durante alguns minutos. Tem os longos cabelos negros amarrados atrás das costas e põe as cascas no caixote do lixo com a mesma delicadeza de quem guarda um objecto precioso. 

- Queres outra cerveja?
- Não, obrigado... - respondo.
- Eu também não quero outra laranja.

É  estranho apaixonarmo-nos por uma mulher durante apenas uns minutos, mas é mais estranho percebermos que uma paixão pode durar apenas isso mesmo. O tempo de falarmos um com o outro apenas para sacudirmos a solidão do tempo. Desse tempo nesse lugar qualquer.