9.30.2014

pensamentos catatónicos (315)

É verdade que todos nós precisamos, de vez em quando, de desabafar. É mais verdade ainda que pode ser mais fácil desabafar com um desconhecido do que com um amigo. 
Os amigos são aqueles que estão regularmente connosco e que, por isso, guardam o nosso desabafo para sempre. Se eu disser a um amigo que a minha vida está uma merda, não há forma de voltar atrás. Sempre que ele estiver comigo vai ter essa informação em conta, mesmo que a mim não me apeteça que tenha. 
Pelo contrário, se eu o disser a um desconhecido qualquer, nunca mais vou ter que enfrentar alguém que sabe que a minha vida estava uma merda num determinado momento. Desabafar com um desconhecido é como vomitar para um saco e lançá-lo para dentro de um comboio em andamento. Os desconhecidos são, assim, para as ocasiões.
Estava a pensar nisto quando me apercebi que alguns dos meus melhores amigos eram desconhecidos quando tive um qualquer desabafo com eles. O comboio afastou-se, mas depois voltou. A amizade entre duas pessoas tem que ser capaz de levar com alguns sacos de vómito. Na verdade, o Amor também.

9.29.2014

conversa 2113

Ela - Há muito tempo que não escreves nada no teu blogue das mulheres...
Eu - Ando sem tempo...
Ela - Mas vê lá se escreves, que eu tenho saudades tuas.
Eu - Estás comigo aqui, agora.
Ela - Quando digo que tenho saudades tuas é de ler o teu blogue. Estar contigo pessoalmente não tem piada nenhuma.
Eu - Pronto, está bem. Olha, vou começar com esta conversa.
Ela - Pode ser...

8.08.2014

a violência feminina

Na verdade, não tenho nenhum exemplo de casamento feliz à minha volta. Digo isto com alguma segurança desde que percebi que, para a maior parte das pessoas, a felicidade num casamento vem sempre temperada com alguma resignação. A F. não foi excepção.

- O meu casamento foi bom! - disse ela.

Nessa altura já estava na fase de arrumar todos os livros que tirara das suas inúmeras e preenchidas prateleiras para me ler, a espaços, uma frase escolhida de cada um. Eu estava impressionado com a sua capacidade para memorizar frases chave de romances e, admito, ainda mais por ser capaz de as encontrar com relativa facilidade.

- Quer dizer... não foi mau. - continuou.

E eu ri-me, não por achar piada à frase mas porque não sabia como reagir. Aquela verdade deixava-me nervoso porque ia de encontro ao que eu acabara de concluir nos meus trinta e cinco anos de vida: um casamento bom é um casamento que não é mau.
A F. ia organizando os livros por autores. As frases todas que me lera estavam preenchidas de vida. De Amor, de ódio, de viagens, lágrimas e abraços. Talvez em silêncio tenhamos tirado mais ou menos a mesma conclusão. Os nossos casamentos, por pouco maus que pudessem ter sido, tinham-nos tirado essa vida que ela acabara de resgatar daquelas páginas soltas.
Assim que a mesa ficou desimpedida, desapareceu por um minuto ou dois e voltou com uma garrafa de uísque e dois copos. Ela própria nos serviu, sem me perguntar se eu queria beber ou se preferia puro ou com gelo. Dei o primeiro gole apenas para lhe mostrar que estava de acordo com tudo. Depois cruzei as mãos e foi a primeira vez que a olhei olhos nos olhos. Reparei que era das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto.
Enquanto o seus cabelos pretos lhe banhavam os ombros como uma suave maré cheia, fui percebendo a forma como o seu ex-marido se apaixonara perdidamente por ela muitos anos antes. Provavelmente, eu estava a viver exactamente as mesmas sensações que ele. O ar começava a entrar e sair dos meus pulmões com alguma dificuldade e não encontrava as palavras certas para lhe responder a nada. Acabei por dar um gole sôfrego no uísque e tentar concentrar-me no que ela dizia.

- As mulheres têm uma violência dentro delas que os homens não são capazes de perceber.
- Ahn?! - estava assustado.
- Durante anos observei a lenta degradação do meu casamento na expectativa de que o meu marido se apercebesse do mesmo que eu. Queria que ele chegasse à conclusão que o nosso Amor não merecia acabar assim, como um velho que se vai encolhendo até morrer...
- E ele apercebeu-se?
- Claro que não. Todos os dias saía de casa para trabalhar e voltava como se tudo estivesse normal, mesmo naquelas fases em que passávamos dois meses sem sexo. E eu todos os dias ia tendo cada vez mais pena dele...
- É essa violência que dizes que só as mulheres é que têm?
- Sim, exactamente. Observei-o durante anos como se ele fosse um rato de laboratório, porque era isso que ele era de facto. Até que um dia me cansei de o estudar e pus fim àquilo tudo com o divórcio.

Depois disto ela calou-se e senti os seus olhos, pesados, sobre mim. Naquele preciso momento o rato de laboratório era eu, que passara dum desejo enorme de a levar para a cama para uma estranha sensação de incapacidade total para fazer fosse o que fosse. 
Imaginei-me, também eu, a ser o objecto de pena da minha companheira de vários anos. A sair todos os dias e a voltar para casa debaixo do seu olhar estudioso, mesmo quando passávamos dois meses sem sexo. Imaginei-a a questionar-se sobre o meu comportamento mecânico e diário, como se fosse possível assim fugir à desilusão da própria vida.
Com o terceiro gole acabei o uísque e, sem pedir licença, servi-me de outro. O copo da F. ainda estava cheio.
Acabara de me aperceber que eu próprio, sem ser capaz de o perceber, sentira essa violência feminina durante anos, como se um chicote silencioso todos os dias me abrisse mais uma ferida invisível na pele. A normalidade da vida passara a ser uma merda e eu adaptara-me cobardemente a ela. Mesmo assim, apesar de tudo, tinha sido ela a salvar-me, essa violência feminina.
A F. ainda me olhava em silêncio, com um sorriso que indicava ser capaz de ler os meus pensamentos.

- Vamos para a cama? - perguntou.
- Sim.

7.30.2014

coisas que fascinam (173)

O Amor morre sempre ao mesmo tempo que a saudade que temos de quem Amamos. Quando deixamos de sentir falta de alguém, então não estamos apaixonados de facto. Podemos fingir que sim, até por uma questão de conforto, mas o Amor morninho nunca será igual ao Amor a sério.
Isto é uma merda, porque a saudade morre por causa do próprio Amor. É ele que nos impele a matá-la a cada momento da nossa vida, sem perceber que se está a matar a si mesmo.
Agora, desde que me apaixonei pela última vez, mantenho a saudade sempre nos seus níveis máximos. É, muito provavelmente, das coisas mais difíceis de se conseguir fazer mas, fazendo-o, mantém-se o Amor vivo. A vida também.
Manter a saudade significa, ao mesmo tempo, manter a individualidade e alguma distância. Viver para além do meu próprio Amor, para que ele não se transforme em mim mesmo e morra sem que eu me dê conta. 

7.29.2014

conversa 2112

(numa loja de desporto)

Eu - Não tem tendas de campismo familiares?!
Ela - Só no outdoor showroom.
Eu - Onde?
Ela - No outdoor showroom.
Eu - Onde é que fica?
Ela - Lá fora.
Eu - Ah! O outdoor showroom são aquelas tendas devastadas pelo vento lá fora?
Ela - Sim.
Eu - Não percebo porque é que não diz simplesmente "lá fora". Muito obrigado na mesma.

7.28.2014

respostas a perguntas inexistentes (288)

Lembro-me perfeitamente da primeira casa onde vivi e de onde saí definitivamente antes dos dois anos de idade. Tendo em conta este último facto, acredito que a frescura dessa memória seja apenas uma concepção minha. Uma mentira que eu imaginei tantas vezes que passei a acreditar nela. Ainda assim é a memória da minha primeira casa e, por qualquer motivo que nem sequer consigo explicar muito bem, é importante.
Uma porta velha de madeira escondia-se num muro sujo que dava para um pequeno caminho cimentado. À esquerda dele ficava um terreno onde crescia uma árvore de fruto e à direita a casa propriamente dita. Na casa entrávamos pela cozinha e, depois dela num corredor que desaguava em todas as divisões da casa: uma casa de banho, quatro quartos e uma sala pequena.
A memória que eu tenho desta casa, de onde saí há pouco mais de quarenta e um anos, é similar à memória da primeira namorada que tive. Sei que ela existiu, mas admito que ponho a hipótese de eu próprio ter criado grande parte das memórias que tenho dela. Era bonita e envergonhada. Costumava tapar a cara com a própria mão, num gesto que surgia por impulso sempre que por acaso era o centro das atenções. Também se ria nervosamente. Às vezes ainda tenho algumas saudades dela.
A minha primeira casa já não existe. Deu lugar a um edifício de quatro ou cinco andares na estrada de São Bernardo, para quem conhece Aveiro. Passei lá há uns dias e encostei o carro, só para me certificar que é exactamente ali que está sediada a minha memória. Depois ri-me do tempo que passa e arranquei.
A minha primeira namorada também já não existe. Passei por ela há uns dias, na fila para pagamento duma pastelaria no centro da cidade, e ela nem sequer me reconheceu. Observei-a a sair, depois de lhe ter dito "olá" e ela ter respondido com aquele sorriso nervoso de que me lembro tão bem, para ter a certeza que é exactamente nela que está sediada a minha memória. Depois ri-me do tempo que passa e arranquei.

7.25.2014

conversa 2111

Ela - Tinha uma grande amiga que desapareceu assim que arranjou namorado. Agora nem cinco minutos para tomar um café comigo tem...
Eu - Pois... já ouvi essa história tantas vezes...
Ela - É triste, não é?!
Eu - Um bocado. Fica a parecer que a amizade é um remendo à falta de uma paixão. Por outro lado, percebo que uma paixão nova absorva muito tempo. Mas as amizades costumam sobreviver aos Amores. Mais tarde ou mais cedo ela volta a contactar-te...
Ela - Espero que sim. E se eu arranjar namorado nessa altura faço-lhe o mesmo.

7.24.2014

respostas a perguntas inexistentes (287)

A fotografia

A Susana e a mãe abraçam-se e sorriem naquela fotografia. Por trás há um muro amarelo desfocado e algumas árvores, entre as quais está uma figueira. Há também uma mancha cinzenta que, embora não assuma contornos figurativos, eu sei que pertence a um gato. É que fui eu que a tirei. Nunca mais me esqueci.
Tinha conhecido a mãe da Susana apenas uns quinze dias antes e ela tinha assumido, com alguma naturalidade própria da sua geração, que eu era o novo namorado da filha. Não era, mas o leve tom de censura com que ela o afirmou também nunca mais me saiu da cabeça.

- Agora vais namorar com este?! - Perguntou de forma a sublinhar que eu não seria o primeiro nem, muito provavelmente, o último.

Apesar de tudo simpatizou comigo, pelo menos em parte. Senão não me tinha convidado para uma viagem ao Minho onde, perto de Viana do Castelo, tirei aquela fotografia. As duas abraçaram-se e sorriram quando apontei a máquina e, assim que os braços se tornaram a soltar daquele laço efémero, desataram a discutir uma com a outra. Antes, era também o que tinham feito: discutir.
A discussão tornou-se como que um ruído de fundo, daqueles que nos incomodam da mesma forma que o zumbido de um mosquito no silêncio da noite, e enquanto o ouvia fiquei a olhar para o ecrã da máquina, onde aquele fragmento de tempo capturado deixava transparecer uma estranha sensação de felicidade e cumplicidade entre as duas.
Não cheguei , de facto, a declarar-me namorado da Susana, mas aceitei um convite dela para irmos ao Alto Alentejo duas semanas depois, desta vez sem a mãe. O carro dela era bastante melhor do que o meu e, por isso, nem sequer hesitei quando ela se ofereceu para me levar. Ainda bem, porque se já detesto conduzir, ainda detesto mais com esse ruído de fundo. 
Depois da primeira paragem numa estação de serviço, ainda perto de Aveiro, nasceu a primeira discussão entre nós, apenas porque eu tinha insistido que queria pagar a gasolina. Já no Alentejo, o mosquito ainda estava ali, apesar de ter pousado num sítio qualquer fora de vista. Aproveitámos essa paz momentânea para, numa rua qualquer com muitas laranjeiras, esticar as pernas. Ela pediu a um transeunte para nos tirar uma fotografia e, depois de lhe passar a máquina para as mãos, abraçou-se a mim e sorriu.
Não foram as discussões que impediram que nos continuássemos a ver depois daquela viagem. Foi esse tique de abraçar e sorrir no momento da fotografia. Lembro-me que lhe disse que até posso viver num ambiente de alguma discordância, pelo menos de vez em quando. Não consigo é abraçar e sorrir nesses momentos.
Ainda tenho essa imagem que tirámos no Alentejo. Ela sorri, eu não.