2.19.2020

pensamentos catatónicos (351)

Estou no comboio entre Manchester e Londres. Entrei apenas em Stoke-On-Trent e vou sair em Wolverhampton, onde tenciono apanhar uma ligação secundária para Cosford. É lá que existe um museu da Royal Air Force e uma base aérea militar importante que pretendo visitar.

Levo no pensamento que esta viagem de comboio pode ser um pouco como a vida. Entramos ignorando o passado e saímos desconhecendo o futuro. São assim o nascimento e a morte. É assim a vida e tento reconfortar-me precisamente com a ideia de que quando sair vou para outro lugar.

Em Stafford a vida faz uma paragem. As portas abrem-se e ajudo uma mulher a carregar duas malas pesadas para dentro do comboio. É a única passageira que entra, pelo menos pela porta onde eu estava encostado e perdido nos meus pensamentos. Dou-me então conta de que sou o único que decidiu não se sentar e seguir a viagem em pé. Ela agradece-me com um sorriso forçado. É bonita e é Inverno. Tem a pele feita de neve e o olhar azul e frio esculpido em gelo.

Enquanto eu coloco as malas, uma a uma, nas prateleiras que os comboios da Cross Country têm para o efeito, ela vira-se para a porta aberta. Lá fora três pessoas acenam um adeus em gestos lentos. São duas mulheres mais velhas e um rapaz que não deve ser ainda maior de idade. Bye, vão dizendo como se fossem um coro desafinado.

Conheço aquele adeus. Vi-o na minha mãe quando emigrei. É um adeus tortuoso, uma tristeza grande escondida por um sorriso maior. Depois o comboio apita e a porta fecha-se. É a vida que continua apesar de nós, apesar do que sentimos e do que queremos. Apetece-me abraçar a menina Inverno mas não o faço. Ela torna a agradecer-me e vai-se sentar. Thank you, diz.

Pudesse eu ser Primavera por um momento e abraçava-a. Ter a pele quente e os olhos dum campo florido qualquer. Mas não tenho. Adivinho que ela amanhã vai estar tão longe quanto eu estou agora e desejo-lhe sorte. Se é que isso existe.

2.17.2020

Nazdrave

Sou um homem de meia idade. É assim que se diz, não é? Meia idade. Como se a vida soubesse sempre quando vai acabar e qual o princípio, o meio e o fim. Vejo-me, sem se me ver, no espelho da pequena farmácia da casa de banho. O que quero é o pormenor e não a face. Procuro na minha pele os sinais de como aqui cheguei. Os meus dedos percorrem-na como se lessem braile e na sua textura pudessem descobrir algo: uma memória ou uma história. É a minha pele, pá. Deve ter alguma coisa escrita.
Tenho um copo de uísque pousado no lavatório, o que indica que estava a beber quando decidi vir aqui procurar os caminhos vazios do meu passado. Não percebo nada disto, pá. Como é que vim aqui parar? Não era suposto a vida ser um dos muitos sonhos que tivemos em jovens? Eu nunca sonhei viver aqui, nesta casa longe da minha infância e com uma namorada que escreve num alfabeto que não é o meu.
Sou um homem de meia idade. Não tenho a certeza que a luz que decidiu entrar pela janela e deitar-se no meu corpo saiba disso. Gostava que sim. Assim podia aceitar esse gesto como uma carícia, como uma lógica apaziguadora da Natureza. Como um gesto. É isso, gosto de gestos. A última vez que me apaixonei foi por um gesto. Já me lembro.
Foi num jardim da cidade de Sófia. As árvores estavam a dançar no silêncio do vento e eu tinha-a acabado de conhecer. Estávamos num velho banco de madeira a dividir o tempo e uma garrafa de vinho branco barato. O mundo estava todo ali condensado. Um casal de namorados deitado na relva num beijo que parecia ser eterno, um bêbado adormecido num muro baixo que parecia ter sido construído exactamente para bêbados, um yuppie numa conversa com um telemóvel nervoso e um pedinte que ziguezagueava no espaço pedindo moedas.
Os nossos copos eram de plástico e o vinho já estava quente. Então ela quis brindar. Nazdrave, disse. Depois aproximou o copo dela do meu e eu o meu do dela. As nossas mãos pararam perto uma da outra e por fim brindaram sem saberem muito bem porquê. Vi-a a beber com a delicadeza de um deus, como se uma barragem enorme pudesse por opção deixar passar apenas uma gota para hidratar-lhe os lábios. Foi esse o gesto. Nazdrave, repeti. Depois esbocei um Sorriso.
É ela que aparece agora na porta da casa de banho. Traz dois copos de vinho e encosta-se à parede a ver-me a ler a minha pele. Pergunta-me o que é que estou a fazer. Não sei, respondo.
Sou um homem de meia idade. Para além dos cabelos brancos que se insurgem na minha cabeça contra o que ainda permanece da minha juventude noto duas ou três rugas. Não sei, repito. A vida não é muito mais do que um gesto. Ela passa-me um copo para a mão. Brindamos. Nazdrave, dizemos.

3.18.2019

Aveiro

Há uns tempos, creio que na última vez que te visitei, perguntaste-me o que é que aconteceu entre nós. Eu não estava a contar com essa pergunta, sabes? Foi por isso que parei, para procurar uma resposta algures no nosso passado tão íntimo, e como não a encontrei passei as mãos pelos vários bolsos das calças e do casaco e fingi que estava à procura de outra coisa. Creio que das moedas que vou guardando. Tinha alguns euros perdidos na minha roupa.
Sei que és um vício, um Amor perdido que não consigo esquecer. Afastámo-nos, andei e ando com outras, mas nunca verdadeiramente te esqueci. Não me leves a mal. Acredita que és sempre tu no fundo do copo de cerveja quando ando por aí à deriva, a beber aos pingos o nosso passado e a reciclá-lo em lágrimas escondidas noutras ruas e avenidas que, apesar de longínquas, vão sempre dar a ti. Garanto-te que é assim.
Não me lembro muito bem do exato momento em que nos zangámos. Talvez até nem tenha existido um. Como em qualquer Amor forte, talvez eu tenha fingido sempre que não percebia que a nossa relação se estava a deteriorar. Saía de casa todas as manhãs, cumprimentava-te e agia como se estivesse tudo bem. Desculpa. Acho que foi isso.
Quero que saibas que quando tenho saudades tuas toco-te sempre, esteja eu onde estiver. Sinto-te no vento que dança com os meus cabelos curtos ou saboreio-te num copo de uísque qualquer.
As cidades são um pouco como as mulheres, pá. Há um tempo para o Amor, outro para a Saudade.

3.14.2019

Nunca sabemos do que são feitos os outros

Nunca sabemos do que são feitos os outros é a minha segunda crónica na AveiroMag, que me vai permitindo abrir o meu álbum de memórias de uma cidade distante. Obrigado a todos os que abdicam um bocadinho do seu dia para passarem por lá.

3.13.2019

a mulher do táxi

Uma vez apaixonei-me por uma mulher num táxi. Como não lhe vi a face, do que me lembro é das luzes tristes dos candeeiros públicos da cidade e da estrada a passar por mim da mesma forma que todos os outros Amores da minha vida já tinham passado.
Quando abri a porta de trás para lhe perguntar se me podia levar até ao bairro de Darvenitsa, ela não virou a cara. Disse "da", que em búlgaro quer dizer sim, e fixou o olhar no vidro da frente como se a vida não tivesse mais opções do que seguir por aí, sempre em frente.
Ia a chorar e tinha olhos negros. Mais negros do que a noite, digo. E grandes. Vi-os no espelho retrovisor central durante dois ou três segundos. Por qualquer motivo que não sei explicar, percebi que ela chorava por Amor. Talvez tenha sido o choro, que é sempre diferente dos outros choros.
Todos sabem que chorar por Amor é fazer um pedido à vida, que uma situação se reverta. Depois, como nunca nada se reverte, deixa-se de chorar e olha-se em frente, o único caminho possível. As lágrimas são uma desilusão porque nunca fazem nada do que lhes pedimos, mas pelo menos servem para percebemos a direcção que devemos tomar.
No rádio do táxi passava uma música inglesa da qual me lembro que o primeiro verso era "In the morning I am a recluse lost in memories, ideal situations and convulsions" e o refrão apenas uma repetição da frase "We don't need nobody else".
Quando ela parou o táxi no bairro onde eu vivia, o contador marcava quase dez levs. Dei-lhe a nota por cima do ombro direito dela e as nossas mãos tocaram-se por um segundo. Depois ela amassou a nota como se odiasse dinheiro e a minha mão caiu-lhe nesse ombro como se fosse um floco de neve. Desejei-lhe boa sorte em pensamento, mas tenho a certeza que ela ouviu como se eu tivesse gritado.
Foi nesse momento que me apaixonei por ela. É impossível não me apaixonar por uma mulher capaz de ouvir o que eu penso.
O táxi dissolveu-se na noite enquanto eu atravessava a estrada. Nunca mais a vi.

3.06.2019

pensamentos catatónicos (350)

Uma das últimas memórias que tenho de Portugal, antes de emigrar, é a de um homem pobre a olhar para uma máquina de venda automática perto de Viseu. Ele tinha fome e era pobre mas entre ele e a comida havia um vidro, ainda por cima transparente.
Eu, na verdade e para além de um pouco assustado, também estava esfomeado. Era a minha viagem em direcção à fronteira para voltar sabe-se lá quando e como. Ia emigrar para tentar resolver o problema da Fome com F grande, mas naquele preciso momento bastava-me comprar um dos croissants mistos da máquina para acabar com a fome com f pequeno. Foi o que fiz, enquanto ele ao meu lado contava algumas moedas na palma da mão como se procurasse um grão de areia entre muitos.
Não me pediu dinheiro, mas ofereci-lhe um euro que me sobrou.

- Obrigado! - disse. - talvez ainda me safe.

Ele não sabe que me lembro dele, nem sequer que me ajudou a apaziguar os meus medos interiores com a frase dele. Aquele "talvez ainda me safe" era precisamente do que eu estava a fugir. Do "talvez" e do "safar". Também dos vidros transparentes que me impediam de ter uma vida digna no país a que chamava meu.
Quando me sentei de novo no autocarro tive finalmente a coragem de olhar pela janela, já que até então e desde que saíra de Aveiro pouco mais fizera do que olhar para os meus próprios pés. Era de Portugal que me despedia, também através de um vidro ainda por cima transparente.
A transparência é uma coisa estranha sempre que nos separa daquilo que precisamos, mas naquele momento ajudou-me. Segui uma estrada esguia que serpenteava os montes envergonhados, ladeada por casas com persianas normalmente corridas, muros altos penteados por cacos de vidro ou arame farpado, automóveis exibicionistas e alguns transeuntes quase sempre sós.
Só na fronteira é que tornei a fechar os olhos. Recuei um pouco de tempo até um abraço quente de um Amor terminado e a sua voz doce a chamar-me do nada.

- Adeus! - pensei.

Sempre que procuramos a saudade vamos dar  a uma mulher.

3.01.2019

Origami!

O novo projecto AveiroMag convidou-me para escrever regularmente para o mesmo. Agradeço e será um prazer! De certa forma, enquanto emigrante, será também uma forma de manter alguma ligação com a cidade a que ainda chamo minha. Podem ler aqui: A Vida É Um Origami

Almoço

Estávamos a olhar para o céu apenas porque, pela primeira vez desde que nos conheceramos, os nossos olhares hesitavam em cruzar-se. O céu era apenas um refúgio momentâneo, com um azul mais ou menos gasto e alguns farrapos de nuvens solitárias.
Tanto quanto me lembro, ouvi-te a pensar em nós. Depois de um almoço desgastante com turistas franceses que pediram para se sentar na nossa mesa numa esplanada na Vitosha tão cheia como um ovo.
Passaram o tempo todo a falar demasiado alto e a mostrar quem eram. Um jornalista e adepto de futebol, uma estudante de cinema que não gostava de filme nenhum e um outro homem que só vestia fatos de uma marca específica qualquer.
Eles não falavam entres eles, mas sim para quem estava no seu amplo campo de audição. Foi o que eu te disse.
Há pessoas que não conseguem ser apenas pessoas. Têm que ser outra coisa qualquer porque a sua condição humana não lhes chega. Foi o que tu disseste.
Abstraímo-nos do mundo por um momento e olhámos os dois para cima, para onde não havia gente, e percebemos que quando os nossos olhares voltassem ao planeta Terra corriam o risco de se embrulharem como dois páraquedas descontrolados.
Foi assim que comecei a gostar de ti.

2.26.2019

pensamentos catatónicos (349)

O rapaz caiu no meio da estrada. Estatelou-se no alcatrão ao mesmo tempo que gritou. Não percebi porquê. À partida não havia nada que o pudesse fazer cair, mas quando olhei já ele estava no chão, já a mãe corria na sua direcção deixando um saco de compras pelo caminho, já um carro travava a fundo para não o atropelar.
Foram dois segundos em que nada mais interessou para aquela gente. Só a vida.
Eu fechei os olhos para não ver, mas ainda vi mais. O carro não conseguiu parar a tempo e passou por cima do jovem do corpo do rapaz, que passou a ser cadáver. A mãe ajoelhou-se e abraçou a morte em silêncio. O condutor deixou-se estar com as mãos no volante e o olhar no infinito, em estado de choque.
Depois abri os olhos e nada disso tinha acontecido. O rapaz levantava-se devagar e sacudia a roupa com as próprias mãos, a mãe apanhava as compras do chão e o automóvel já passara por mim e desaparecera na primeira curva.
Fiquei parado por um momento. Os dois passaram por mim e pude reparar na força com que as mãos de mãe e filho se agarravam. Era a força de quem precisa de agarrar a vida a si mesmo a acabou de perceber que em alguns momentos não há força que chegue para o fazer.
Continuei a caminhar. Quando te vir de novo vou-te dar a mão com a mesma força, pensei. Só para que entre nós nada morra hoje.