5.24.2013

respostas a perguntas inexistentes (254)

Conheci-a numa festa qualquer. Nenhum de nós gostava de dançar, nenhum de nós gostava da música demasiado alta, nenhum de nós queria acabar a noite com demasiado álcool no sangue. Acabámos por ficar os dois na cozinha, o local de culto habitual para quem está numa festa sem querer efectivamente estar e sem querer, efectivamente também, não estar. Falámos de nós e, tanto quanto me lembro, de temas tão diversos como a música pop nos anos oitenta, o queijo de cabra francês, a cordilheira dos Andes ou a forma como as Orcas caçam focas bebés.
A festa acabou para todos eram aí umas quatro da manhã. Menos para nós. Como se costuma dizer, a coisa aconteceu. Primeiro comprámos dois grandes copos duma espécie de café na máquina automática duma bomba de gasolina, que bebemos ainda dentro do meu carro minúsculo. Acabámos por aceitar que estávamos os dois a esticar a noite com o mesmo propósito. Ela levou-me para casa dela. Lembro-me, especialmente, do contraste entre o frio dos lençóis e o calor do corpo.

- É tão estranho! - disse ela.
- O quê?!
- Se passasses por mim na rua, serias apenas mais um transeunte sem qualquer tipo de interesse...

E eu a pensar que não. Se passasse por ela na rua seria apenas mais uma transeunte, sim, mas com todo o interesse do mundo. Olharia para ela fingindo que não o estava a fazer. Talvez me baixasse para dar um jeito aos atacadores dos sapatos e, tão certo como eu estar ali, suspiraria pelo menos uma vez.

É sempre essa a diferença entre um homem e uma mulher, pensei. Um homem é sempre um homem qualquer, enquanto aquela mulher é sempre aquela mulher.

5.21.2013

conversa 2013

Ela - Lembras-te daquela noite em que demos as mãos e passámos horas abraçados a olhar para a Lua cheia?
Eu - Hum... aquela em que finalmente, depois de anos a esforçar-me, tivemos sexo?
Ela - Essa mesmo.
Eu - Lembro, já foi há uns sete anos. Depois nunca mais...
Ela - Pois não. Acabo de perceber porquê.

5.20.2013

conversa 2012

Ela - O meu marido já te fez queixas, alguma vez, da vida sexual dele?
Eu - Não. Já nem falo com ele há bastante tempo. Porquê?
Ela - Constou-me que ele se anda a queixar da vida sexual que tem comigo.
Eu - Ah! Não sei de nada...
Ela - O que eu acho incrível é que ele a mim não me diz nada. Depois vai-se queixar aos amigos...
Eu - Não podes ter a certeza que ele se vai queixar aos amigos. Alguém pode ter inventado isso...
Ela - Deve ter queixado, deve...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Era muita coincidência inventarem isso exactamente na altura em que ele tem razões de queixa.

5.18.2013

conversa 2011

(ouvi hoje no comboio Aveiro-Porto)

Ele - Ainda me Amas?
Ela - Mais ou menos...
Ele - Mais ou menos?!
Ela - Sim, mais ou menos. Mas sabes isso, não sabes?
Ele - Ahn?!
Ela - Já estamos um bocado cansados um do outro. Sabes isso, não sabes?
Ele - Sei lá o que é que eu sei...
Ela - Preferes que te minta e te diga que estou louca por ti?
Ele - Se calhar prefiro.
Ela - Estou louca por ti. Amo-te muito. Sabe-te bem ouvir isto?
Ele - Não.

5.17.2013

respostas a perguntas inexistentes (253)

Até que enfim que é sexta-feira, disse ela. Eu não respondi e, para além da poupança nas palavras, tentei evitar a mais pequena reacção facial que fosse. Depois ela insistiu. Até que enfim que é sexta-feira, repetiu com o mesmo tom de voz. Por fim ficou a olhar para o fundo da chávena vazia.
Tomo café com a Cristina uma vez por outra. Na verdade, chamo-lhe a minha amiga dos cafés. Nunca saio com ela à noite, não vamos os dois ao cinema, nem sequer jantamos juntos uma vez que seja. Tomo café com ela de vez em quando, sempre depois do almoço. É que à noite noite, diz ela, gosta de ficar em casa sozinha.
Até que enfim que é sexta-feira, repetiu. Eu costumo sorrir. Menos hoje. Depois ela pediu-me explicações para o silêncio. Não me agrada a ideia de que a vida seja isto: andar cinco dias a suspirar pelo sexto. Pagámos os cafés, saímos, despedimo-nos e afastámo-nos. Telefonou-me três minutos depois a perguntar se podemos jantar um dia destes. Que sim, respondi.


5.15.2013

respostas a perguntas inexistentes (252)

ser pragmátic@

Existe por aí uma mania qualquer de considerar que o pragmatismo é a melhor coisa do mundo. Ser pragmático é optar pela eficiência em detrimento da emoção e do intelectual. Enfim, abdicar de tudo para ser eficiente. Ainda hoje, em conversa com uma amiga que se orgulha de ser pragmática, percebi que ela abdica de grande parte do tempo que tem para estar com quem Ama, em nome das horas extras no emprego.
Trabalha mais, vive menos. Tem orgulho nisso.
O problema das pessoas pragmáticas costuma ser  a morte. Não há nada mais pragmático do que a morte, já que no fim morremos todos. Quem abdica de alguma da sua vida antes da morte está a morrer antes do tempo. É isso que é ser pragmático e é isso que o mundo nos diz para sermos hoje em dia.
Eu orgulho-me de não ser pragmático. Costumo pôr a minha vida antes de qualquer outra coisa. Desculpem qualquer coisinha, mas nem a merda do produto interno bruto, nem a dívida externa portuguesa, nem as imposições da Troika me convencem a abdicar de mim mesmo. Opto pela vida. Quando me deixam, claro.
Sou pragmático o suficiente para perceber que o pragmatismo é uma merda. É a força de quem ainda não percebeu a lógica da existência, ou seja, do Amor.
Devia ser proibido ser pragmático. Por mim, a lei devia obrigar-nos a ser líricos, inúteis e crianças de vez em quando. Não é por nada de especial. Só para sermos felizes. Só para que a vida não passe por nós sem que passemos por ela. 

5.14.2013

conversa 2010

Ela - Tenho quarenta anos e ainda ando à procura da minha alma gémea. Tu, ao menos, já encontraste a tua.
Eu - Não encontrei nada.
Ela - Não?! Pensava que tu e a Raquel...
Eu - Sendo muito sincero, nunca quis encontrar a minha alma gémea. Para quê?! Ia eu apaixonar-me por uma alma idêntica à minha?! Que grande seca! O que sempre procurei no Amor, foi encontrar uma alma diferente pela qual me apaixonasse.
Ela - Arranjas sempre forma de me confundir.

5.08.2013

pensamentos catatónicos (295)

rosé

Os portugueses em geral detestam o vinho rosé. Inventaram-no, mas não o bebem, e dizem-no com orgulho. Tive uma namorada que me olhava de lado sempre que eu me servia um copo de rosé.

- Isso não é vinho! - tugia ela.

Eu gosto de rosé. Na verdade, posso dizer que adoro rosé. O rosé é o melhor de dois mundos: o mundo do tinto e o mundo do branco. Aliás, sempre que eu abria uma garrafa de rosé, ela abria uma de tinto ou de branco. Os dois bebíamos como se, naquele preciso momento, houvesse uma enorme cratera a separar-nos. Eu, sempre com a sensação que tinha mais mundo do que ela.
Namorámos, sei lá... talvez uns três meses. Quando ela se foi embora apertou-me a mão. Deu-me um passou bem, por assim dizer, e segredou-me que devia ter adivinhado que não podia ter uma relação com um homem que bebia rosé.
Perguntei-lhe se não me dava um abraço de despedida. Que não, respondeu ela. Os abraços dão-se quando existe Amor. Fiquei fodido. Vi-a fechar a portar de casa e, pela janela, afastar-se lentamente até se diluir no horizonte.
Os abraços dão-se quando são precisos, pensei. Eu precisava dum abraço. É esta mania das purezas que me revolta. Abraços puros, Amores puros e vinhos puros. Eu queria um abraço, mesmo que não tivesse a pureza do Amor. Precisava dele. O rosé, por exemplo, não é puro. Mas sabe bem...