1.26.2012

conversa 1879

Ela - Não compreendo os homens.
Eu - Então porquê?
Ela - O meu namorado passou quatro anos a dizer que não queria compromisso nenhum sério comigo, que a nossa relação era só de passagem e tal. Agora, de repente, pediu-me em casamento.
Eu - Parabéns!
Ela - Parabéns, nada. Eu disse-lhe que no princípio até tinha casado, se ele me tivesse pedido, mas agora habituei-me à tal relação sem futuro e estou muito bem assim.
Eu - Ah!
Ela - Acho que à medida que um homem e uma mulher se vão conhecendo, há um processo de inversão sentimental.
Eu - Inversão sentimental?! Que é isso?
Ela - Ele vai gostando cada vez mais dela, ela vai gostando cada vez menos dele.
Eu - Nalguns casos é capaz de ser verdade. Isso quer dizer que há um momento excelente, em que ambos gostam igualmente um do outro.
Ela - Sim, o nosso foi há um ano, mais ou menos. A partir daí vejo-o cada vez mais frágil e carente. Detesto homens carentes.
Eu - Preferes homens que te digam que não querem nada a sério contigo?
Ela - Sim, definitivamente. Têm muito mais interesse.

1.25.2012

respostas a perguntas inexistentes (194)

sobre a decisão de Amar

O maior equívoco sobre o Amor é acreditar que ele acontece sem mais nem menos. Não acontece. O Amor é sempre uma decisão, tal como o é deixar de pôr açúcar no café, fazer uma viagem à América do Sul ou ficar a dormir num Domingo à tarde. Decidimos aquilo que vai modelar em grande parte os nossos dias, e normalmente as pessoas que andam sempre mal de Amor são aquelas a quem falta a coragem de tomar uma decisão.
O problemas das decisões é que nem sempre estão certas, e isso deve-se à nossa condição humana. Errar é humano, dizem. Pois nesse aspecto eu devo ser o mais humanos de todos. Passei a vida a tomar decisões erradas das quais, no entanto, não me arrependo. Foram decisões que, apesar de tudo, me foram permitindo Amar. É verdade que talvez tenha tomado algumas decisões menos boas porque, em vez da solidão, sempre fui preferindo os Amores possíveis. À falta de melhor era por eles que me decidia. Ainda bem que o fiz, no entanto, pois foi com eles que aprendi isso mesmo: que o Amor é uma decisão.
Sempre que me acreditava apaixonado por alguém, o meu primeiro pensamento era o de ter esse Amor que estava ali à mão de semear. Foi assim toda a vida, e só percebi esse meu grande erro quando me apaixonei pela Raquel. Quero que este Amor me tenha, pensei. Nessa noite ela ensinou-me que o Amor é maior do que eu e tomei a decisão de a Amar.
A diferença entre um Amor que temos, por muito bom que seja, e um Amor que nos tem a nós, tem exactamente a ver com a capacidade de decidir sobre ele. Perdemos o controle sobre tudo o que nos tem a nós e, por isso, também a capacidade de decidir o seu fim. É que o fim de um Amor também é sempre uma decisão.
Percebem?

1.24.2012

conversa 1878

Ela - Acho que aquela moda de se venderem calças novas rotas deve estar para acabar.
Eu - Calças novas rotas?!
Ela - Sim, nunca viste?
Eu - Se calhar já vi, sim.
Ela - Pois, agora com a crise essa moda deve estar para acabar.
Eu - Com a crise?! Porquê?
Ela - Dantes ficava bem usar calças rotas, agora fica mal. Podem pensar que se anda roto por se ser pobre.
Eu - Que raio de pensamento. Olha, eu, por exemplo, tenho estas calças rotas nos bolsos...
Ela - Eu reparei, por isso é que te estou a dizer isto. Não te fica nada bem andar com essas calças nos tempos que correm.

coisas que fascinam (138)

vaivém

Tomamos café. A Sónia pergunta-me como estou. Que estou bem, respondo. A Sónia pergunta-me se ainda estou apaixonado. Faço silêncio com os olhos e ela insiste. E tu, ainda estás apaixonado? Abano a cabeça afirmativamente e sem determinação. Sei que ela não quer saber a resposta, que apenas que eu saiba que ela não está. Então e tu? O Amor foi-se? Ela abana os ombros também afirmativamente.
Fico a pensar na minha pergunta. O Amor foi-se? É a assumpção de que o Amor se vem e se vai como se fosse um passageiro na nossa vida. Na vida de duas pessoas, porque o Amor é sempre isso, a vida de duas pessoas. O meu não se foi, mas também eu tenho medo que um dia destes ele se despeça de mim e saia num apeadeiro qualquer deste tempo que é o meu. Sorrio, talvez nervoso, e digo-lhe que a vida é assim.
Dizemos sempre que a vida é assim quando lhe perdemos o rasto; quando, de facto, nos apercebemos que não sabemos como ela é. Dizendo que ela é assim parece que a estamos a agarrar, mas não estamos. Estamos a escapar-lhe. Sabemos apenas como ela devia ser. Mais nada. E agora sorri a Sónia, talvez nervosa, e abana os ombros, desta vez negativamente. A vida não é assim.
Quando um Amor se vai a vida vai-se com ele. Da mesma forma que quando um Amor se vem a vida vem-se com ele. É assim, no sexo e fora dele, com o alívio de que a vida nunca se vai toda. Vai-se uma parte dela, talvez quase toda, talvez nervosa abanando os ombros esmorecidos. A que resta fica, às vezes, num amigo a quem se pergunta se ainda está apaixonado mesmo que não se queira saber a resposta. Quer-se só dizer que já não se está. E tomar um café.

1.23.2012

conversa 1877

Ela - O meu ex está sempre a dizer-me que não percebe o que é que falhou no nosso casamento.
Eu - Está?
Ela - Sim, e eu já lhe expliquei que o que falhou no nosso casamento foi precisamente ele não ser capaz de perceber onde é que o casamento falhou.
Eu - Admito que, só assim, também não percebi lá muito bem.
Ela - O facto de eu me sentir muito sozinha quando estava casada com ele, por exemplo, foi um motivo forte.
Eu - Ah! Isso já é um motivo com pés e cabeça.
Ela - Mas o grave foi ele nunca ter sido capaz de perceber isso.
Eu - Podias ter-lhe dito.
Ela - Se eu lhe tivesse dito, tudo o que ele mudasse para alterar as coisas não ia ter qualquer valor.
Eu - Assim dificultas muito as coisas.
Ela - Ninguém disse que manter uma relação é fácil.

1.20.2012

conversa 1876

Ela - Estou um bocado deprimida com o último gajo com quem fui para a cama.
Eu (risos) - Porquê?
Ela - No fim disse-lhe que tinha sido bom. Enfim, que eu tinha gostado.
Eu - Ainda bem, então.
Ela - Mas ele respondeu-me que sim, que até tinha sido mais ou menos.
Eu - Mais ou menos?! Ena!
Ela - Pois. Expulsei-o logo da cama e de casa.
Eu - Também não era preciso tanto.
Ela - Era, era. Será possível que um homem não tenha um mínimo de sensibilidade?!
Eu - Nem sei que te diga...
Ela - Agora queria era pedir-te uma coisa.
Eu - O quê?
Ela - Que lhe devolvesses as cuecas. É que eu não o quero ver mais.
Eu - Queres que eu vá devolver umas cuecas a um gajo que eu não conheço de lado nenhum?! Claro que não.
Ela - É que senão ele vai lá casa buscá-las e não me apetece vê-lo durante uns tempos.
Eu - Ele que esqueça as cuecas.
Ela - Mandou-me uma mensagem, porque eu não lhe atendo o telefone, a dizer que tem medo que a mulher dele dê pela falta delas.
Eu - A mulher dele?! Ele é casado?!
Ela - Pelos vistos. Eu também não sabia.
Eu - Eu não lhe dou cuecas nenhumas, desculpa lá. E se eu fosse a ti também não dava. Com essa do "mais ou menos", o melhor que podes fazer é pôr as cuecas no lixo e deixar que a mulher dele descubra e se chateie.
Ela - Bem visto. Sabes que às vezes pensas mais como uma mulher do que eu própria?

mamas e bolas

Em 2011, o Loto Libanês tentava convencer os libaneses a apostar no jogo desta forma, substituindo as mamas duma mulher por duas bolas do respectivo jogo e retirando-lhe parte da cara. Há alguma publicidade machista que, apesar de tudo, tem alguma criatividade. Esta, no entanto, é apenas a demonstração de que quando não há ideia nenhuma para fazer um anúncio publicitário, se cai normalmente na receita do corpo da mulher. Os anúncios às vezes nem chegam a ser machistas. São só estúpidos.

1.19.2012

os senhores dos anéis

Às vezes ponho-me a pensar nas coisas que nós fazemos e que não têm sentido nenhum. Manter um casamento onde já não existe pinga de Amor, por exemplo, é uma delas. O absurdo chega ao ponto de haver quem mantenha o casamento sendo vítima de violência doméstica. E eu, que acho que o Amor tem sempre que estar primeiro do que qualquer relação contratual, não compreendo.
Um casamento é isso mesmo, para o mal e para o bem, um contrato. Como é também, ou devia ser, por exemplo, o programa eleitoral dum partido. No casamento está-se a contratualizar, sobretudo, um Amor. Não se está a abrir portas para que o cônjuge use e abuse da vida do outro. Casamos, assinamos um papel, trocamos anéis, beijamo-nos e a vida continua. Deve continuar, aliás, como era antes, com Amor e cuidado de parte a parte.
Às vezes ponho-me a pensar nas coisas que nós fazemos e que não têm sentido nenhum. É quando percebo, por um momento, porque é que os portugueses (ou a maior parte deles) são uns falhados no Amor. É porque são absurdamente capazes de manter um casamento sem sentido. Sem sentimento também. São os senhores dos anéis e de mais nada. Talvez seja uma questão de comodidade e de aparência. Talvez. Só isso.
Um dos piores casamentos que os portugueses (ou a maior parte deles) mantêm é com políticos estúpidos. Casam repetidamente com eles de quatro em quatro anos assinando um contrato, dizendo que sim no mais importante dos altares, fazendo a festa, trocando anéis. Depois encolhem-se perante a violência de que são vítimas diariamente. Sofrem todos os dias em silêncio e, quando finalmente parece que o martírio está a acabar, lá vem o agressor com as desculpas do costume. Promete que vai mudar, pede mais uma oportunidade, que a vida vai ser melhor, que vai deixar as más companhias. Por fim, que ainda sente Amor. Mas não, não sente.
A Democracia não se pode limitar a um casamento de quatro em quatro anos, depois dessas desculpas esfarrapadas, porque o Amor não se pode confundir com casamento nenhum. É por isso que os portugueses (ou a maior parte deles) falha no Amor e na vida, mas é também por isso que pode, duma vez por todas, acertar o passo em ambos. Divorciem-se pôrra! Casem com outr@. Agora que já nos levaram os anéis, só somos senhores de nós mesmos. Levantemo-nos.

conversa 1875

Ela - Achas bem que uma mulher ande com um homem vinte anos mais velho?
Eu - Não acho bem nem acho mal. Não acho nada...
Ela - Caraças! Nem se pensares que quando ele tinha vinte anos ela ainda era um bebé?
Eu - Que raio de conversa, sinceramente.
Ela - Tinha esperança que tivesses uma resposta na ponta da língua...
Eu - E para que é que tu querias que eu tivesse uma resposta na ponta da língua?
Ela - Para quando os meus pais me perguntarem o mesmo.

1.18.2012

por gestos

Quando conheci a Sónia não consegui estabelecer contacto com ela a não ser através do olhar. Ela nasceu assim, sem ouvir e sem poder aprender a falar. Observei-a discretamente durante o resto da noite, a cortar o seu próprio e imenso silêncio com gestos mais ou menos bruscos, como se tivesse uma faca nas mãos e tentasse abrir caminho numa selva densa. Comunicava apenas com as poucas pessoas presentes que sabiam linguagem gestual, três ou quatro, e de vez em quando o irmão dela apresentava-a aos que iam chegando à festa da mesma forma que a tinha apresentado a mim. É surda e muda, dizia.
A festa devia-se, pelo menos pelo convite que me tinha sido feito, ao seu divórcio. O seu casamento tinha sido uma união violenta de quase quatro anos, e portanto o seu fim significava verdadeiramente um princípio. Era esse princípio que se festejava, embora ainda não se soubesse muito bem do quê. Talvez, pelo menos, duma vida melhor.
O irmão queria que esse princípio fosse rodeado por muitas e diversas pessoas, e por isso até a mim me pediu para participar. Eu, que era apenas um seu conhecido colega de trabalho com quem nunca trocara mais do que um "bom dia" ou "boa tarde". Às vezes podemos gostar muito de alguém com quem nunca falamos, disse ele justificando o convite inesperado.
E foi assim que me apaixonei por ela. Sem palavras e sem sons. Apenas um olhar tão profundo como um poço e um gesto tão universal como o de levar a minha mão ao peito dela. Corei. Toquei-lhe. Afastei-me e passei o resto da noite a segui-la disfarçadamente com os meus olhos nervosos.
Propositadamente fui ficando para o fim, e enquanto a porta daquele pequeno apartamento ia pingando para o exterior os convidados, eu ia ganhando espaço para o que o nosso olhar se pudesse tocar de novo, tal como a minha mão tocara no seu peito. Era o meu objectivo da noite, para depois poder adormecer aninhado nesse sentimento.
Há muitos anos que eu não dormia tão bem, que é como quem diz, tão perto dum Amor tão longínquo. No dia seguinte passei as horas do trabalho a pensar no que podia dizer ao irmão para me conseguir aproximar dela. À saída da fábrica cruzei-me calculadamente com ele e anunciei-lhe que, por coincidência, tinha começado a frequentar aulas de linguagem gestual. Era mentira, mas uma mentira inofensiva se eu começasse mesmo a fazê-lo num dos dias seguintes. Aliás, uma mentira que funcionou, porque ele convidou-me para ir lá a casa treinar com a irmã. Se eu quisesse, claro. Sorri-lhe.
Nessa mesma noite investiguei todas as possibilidades que havia na cidade para aprender a nova linguagem da minha vida. Fiz uma lista que percorri com o meu dedo indicador ao som do meu ritmo cardíaco, acabando por escolher um curso duma associação qualquer sem fins lucrativos. Inscrevi-me por email e compareci à primeira aula nessa mesma noite.
Primeiro bati à porta e ninguém abriu. Depois carreguei num interruptor e percebi, através dum vidro fosco, que uma luz vermelha se acendia lá dentro. Ouvi passos e senti a maçaneta rodar. Era ela, a Sónia, a professora. A mesma que me tinha ensinado que me podia apaixonar por gestos e na enormidade dum silêncio. Trocámos um olhar, ela pegou na minha mão e levou-a ao seu peito. Toquei-lhe, corei, entrei.

1.16.2012

pensamentos catatónicos (269)

botas de borracha

Devo dizer que detesto a palavra fashion ou, se preferirem, acho a indústria da moda e as passagens da Fátima Lopes a coisa mais imbecilóide que pode haver. A roupa e o calçado para mim são apenas isso mesmo: roupa e calçado. Ponto
O que eu me lembro de gostar de calçar, quando era a criança, é das botas de borracha que me permitiam saltar para as poças de água sem molhar as meias e os pés. A minha mãe também as adorava, mas porque eram baratas e me calçavam durante toda a  época chuvosa do ano. Lembro-me de percorrer o caminho entre a minha casa e a escola primária com as minhas vermelhas calçadas, saltando de poça em poça de água como um gafanhoto errante.
Para além das crianças, as únicas pessoas que usavam botas de borracha eram os agricultores, exactamente com o mesmo motivo de não molhar as meias nem os pés. A única diferença é que as botas deles eram pretas e as das crianças eram às cores. A Helena, por exemplo, tinha umas azuis de que nunca me esqueci. Lembro-me delas a tentarem pisar as minhas numa brincadeira do recreio.
A Helena foi a minha namorada da infância, ou seja, foi a minha namorada que nunca o chegou a ser. Lembro-me de fugir da escola com ela para andar de baloiço no parque, de dividirmos os nossos lanches pelos dois, de nos sentarmos em cima do ramo duma árvore onde planeávamos construir uma cabana que nunca chegou a existir. Depois os pais dela foram viver para Lisboa e roubaram-na de mim. Nunca mais a vi.
Um destes dias, enquanto passeava com a Raquel, vi umas botas de borracha assim, iguais às que eu e a Helena usávamos em criança. Eram as mesmas, só que em vez de estarem amontoadas numa caixa na velhinha sapataria Lé, em Aveiro, estavam numa prateleira de vidro iluminadas por dois focos como se fossem o actor principal dum filme hollywoodesco qualquer. Custavam mais de cem euros e uma adolescente gritava com a mãe hesitante para que lhas comprasse.
A Raquel disse-me que agora é normal, que as botas de borracha estão na moda e são um produto quase de luxo. Por um momento pensei na Helena e desejo, em nome das memórias da minha infância, que ela não se tenha tornado assim, alguém que anula o sentido prático e divertido da vida para se colocar numa iluminada mas entristecida prateleira de loja, que é o que a palavra fashion nos faz a todos. É por isso que a detesto. Ponto.

conversa 1874

Ela - As pessoas infelizes costumam ser histéricas de vez em quando.
Eu - Costumam?
Ela - Costumam. A histeria é uma máscara de felicidade.
Eu - Não sei se é.
Ela - Estou a falar daquela histeria festiva, em que uma pessoa faz a festa, lança os foguetes e ainda vai apanhar as canas.
Eu - Ah! Talvez...
Ela - Não é talvez, é de certeza. Eu sei porque também sou assim.
Eu - Histérica?
Ela - Sim.
Eu - Mas és infeliz, tu?
Ela - Sim, sinto-me infeliz.
Eu - Tem piada, nunca me pareceste uma mulher infeliz. Muito pelo contrário.
Ela - Lá está, isso é porque sou histérica. Tu és lento das ideias, não és?