1.30.2015

Alabote

Não me lembro do dia em que decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta. Sei que foi uma decisão rápida e espontânea, não um processo de lento amadurecimento. Procuro esse dia no meu passado, como se procura num qualquer velho sótão empoeirado, e não o encontro. Por isso, e porque sei que ele está lá algures, fecho a porta à chave para que ninguém mo roube e volto ao presente.
No presente atendo uma cliente na minha loja de congelados que procura um peixe muito específico chamado Alabote.

- É aqui que vendem Alabote? - Pergunta-me da porta.
- É! - E ela sobe os três degraus da entrada.

Habituei-me a esta pergunta com alguma regularidade. Não faço a mínima ideia porquê, mas o Alabote é um peixe difícil de encontrar. Eu próprio só o saboreei pela primeira vez depois de ter iniciado este negócio. Normalmente, quem compra este peixe já sabe ao que vem.
Lá fora , três árvores nuas vão-se acariciando mutuamente com as pontas finas dos galhos, indiferentes ao trânsito automóvel que mastiga a estrada como se não soubesse muito bem para onde ir. Olho pela janela e ouço uma arca frigorífica a abrir-se.

-  Não sei muito bem quando é que comi este peixe pela primeira vez, mas sei que me sabe muito bem. Foi uma amiga que já cá veio que me disse que vendia Alabote.

Sorrio. A cliente não sabe, mas enquanto lhe faço a conta penso em como ela respondeu à minha dúvida. Decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta no exacto momento em que o provei e me soube bem. Ela sai, devagarinho, com a carteira numa mão e o saco de peixe noutra. Agradeço-lhe a compra e, sem ela saber, tudo o que ela me disse.
O vento amainou e as árvores pararam com as carícias. Talvez estejam a pensar em como lhes souberam bem. Acho que às vezes todos paramos por um momento ou dois para pensar no prazer de estar vivo. Mesmo que não saibamos de onde ele vem, guardamo-lo. Acho que é tudo.

1.27.2015

sou um enorme sucesso entre as mulheres

A verdade é que eu sou um enorme sucesso entre as mulheres. Não é ser convencido nem nada, mas nem posso sair à rua. Elas não tiram os olhos de mim. É incrível. A coisa chegou a um ponto que eu próprio não aguento mais. A sério que preferia ser um tipo banal e passar discreto entre a multidão.
Ainda ontem, por exemplo, para ver se conseguia passear sossegado pela cidade, disfarcei-me de pinguim. Vesti um pijama comprado na Primark que tem luvas e rabo incluído. Pois bem, não resultou. Assim que saí de casa, a primeira mulher por quem passei seguiu-me com o olhar durante o tempo todo. Nem disfarçou. Claro que não liguei. Acendi um cigarro e continuei.
Não aguento muito tempo sem tomar o café da manhã, pelo que entrei numa pastelaria venezuelana e sentei-me num canto onde, pensava eu, ninguém ia reparar em mim. Enganei-me. A empregada foi a primeira a não resistir ao meu charme. Em vez de, muito simplesmente, me perguntar o que eu queria, perguntou-me se estava tudo bem comigo. A fingir-se preocupada, a gaja. Nem lhe respondi. Disse-lhe só para me trazer um café. Acreditem que esteve o tempo todo a olhar para mim, ela e todas as outras clientes, sempre com risinhos comprometedores.
Uma delas até se meteu mesmo comigo. Ganhou coragem e deu-me o contacto dela num cartão de visita. É psiquiatra, a gaja. Eu já reparei que as psiquiatras têm todas um fraquinho por mim, mas não lhes ligo nenhuma. Fico sempre na minha, a ver se não me chateiam. A esta, por exemplo, prometi telefonar, mas claro que não o vou fazer. Uma vez telefonei a uma e marcámos um encontro. A primeira coisa que ela me disse foi para me deitar numa marquesa. O que ela queria sei eu muito bem. Virei logo costas, que para mim o sexo só faz sentido depois de travar algum conhecimento.
Detesto este tipo de cenas, mas não consigo que as mulheres deixem de olhar fixamente para mim. Alguns de vocês até podem pensar que é por eu me disfarçar de pinguim, mas acreditem que não. Hoje disfarcei-me de hipopótamo e foi a mesma coisa. É assim a vida de um homem charmoso.

1.15.2015

respostas a perguntas inexistentes (295)

Em criança, a minha mãe costumava dizer-me que eu estragava o calçado muito depressa. Tal não se devia ao facto de eu abrir a ponta dos sapatos quando jogava à bola, embora isso também acontecesse, mas sim à forma como gastava as solas. Pela minha forma de correr e andar, rapidamente os sapatos passavam a parecer um automóvel com os pneus furados de um lado. Ficavam tortos e desequilibrados.
Estou a olhar para os meus sapatos agora. Ainda é assim hoje em dia. Tem piada, reparar na forma como as minhas solas estão gastas trouxe-me várias recordações de infância. A voz doce da minha mãe, a luz do Sol a desenhar os buracos da persiana na parede do meu quarto e ao canto, sempre no canto, a minha velha bola de futebol a descansar dos pontapés que levava diariamente.
Às vezes jogava no tapete de relva que ainda está no bairro da Gulbenkian, em Aveiro, onde morava a minha avó. Jogava o dia todo, com intervalos apenas para comer o pudim amarelo, que ela fazia quase todos os dias, e para fugir dos funcionários da câmara que nos proibiam de pisar a relva.
Lembro-me de, ao fugir deles a sete pés, tropeçar no passeio, cair e ser apanhado por um.

- Um dia, quando cresceres, vais perceber porque é que não podes pisar a relva! - disse-me ele em tom ameaçador.

A minha avó viu tudo da varanda e saiu em meu socorro. O homem afastou-se, pareceu-me que frustrado por não me ter assustado mais.

- Eu já sou velha e ainda não percebo porque é que fazem tapetes de relva, se não os podemos pisar... - disse ela.

Eu tenho quarenta e três anos agora. Também ainda não percebo.

E foi nisto que pensei ao olhar para os meus sapatos.

1.13.2015

conversa 2116

Ela - Caraças! Devo ser uma gaja mesmo muito estranha...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Não sei... sinto-me estranha e nem sei bem porquê, o que já é estranho.
Eu - Não te preocupes. És uma gaja como outra qualquer.
Ela - Uma gaja como outra qualquer?! Não melhorou nada, preferia ser uma gaja estranha.

1.12.2015

um pássaro assustado

Neste momento quase só trabalho. As horas de lazer de que desfruto são roubadas a muita coisa que tenho que fazer e resumem-se a ver um ou outro filme à noite ou ler um ou outro livro. Quando posso vou ver a minha companheira, o que acontece menos vezes do aquilo que eu quero e preciso. Para além disso, a minha vida social resume-se quase só aos amigos e amigas que me visitam quando estou na loja e, claro, a alguns momentos com a minha filha.
Não me considero com jeito para vendedor, mas nunca me tinha acontecido isto: simplesmente não conseguir ter emprego e ter que iniciar uma actividade por conta própria. A minha loja ainda não está a dar dinheiro, mas as reacções da generalidade dos clientes dão-me alguma esperança de que eu possa vir a viver disto. Uma das vantagens é que converso com mais pessoas que não conheço de lado nenhum, clientes que entram, compram uma ou duas postas de peixe e falam sobre temas variados. Ainda assim, passo muitas horas sozinho.
Na rua onde estou não há árvores no passeio. É uma avenida preenchida por edifícios herméticos, com cerca de seis ou sete andares cada um, que parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Existe uma esplanada onde o Sol costuma tomar café depois do almoço e eu, sempre que posso, também. Tudo o resto é quase sempre sombra.
Foi num desses momentos que percebi que alguns pássaros pequenos pousam na frágil vegetação da faixa central da avenida. Cada vez que passam automóveis, eles assustam-se e voam. Depois tornam a pousar, como se o susto os tivesse cansado bastante. Não sei se é sempre assim, mas pelo menos foi uma vez.
Foi dessa esplanada, também, que vi um senhor de idade tropeçar e estatelar-se no chão. Ninguém se levantou para o ajudar, a não ser eu e o amigo que estava nesse momento comigo. Às vezes parece que quantos mais somos, mais sós vivemos. É por isso que aproveitamos a compra duma posta de peixe para falar sobre qualquer coisa, seja o que for. Eu também sou assim, uma espécie de pássaro assustado.

1.06.2015

a minha loja, ou como não consigo fazer as pazes com o mundo

Todos nós sabemos que não está tudo bem, nem connosco nem com o mundo. Há sempre qualquer coisa mal, mesmo que esteja quase tudo bem. Apesar de tudo, costumamos perguntar aos amigos se está tudo bem, como se não soubéssemos a resposta. Não sabemos mesmo, porque normalmente a resposta que ouvimos é sim. 
Talvez tenha a ver com a idade, não sei. Ando com uma vontade enorme de fazer as pazes com o mundo. O problema é que não consigo.
Os mais atentos leitores deste blogue sabem que estive dois anos desempregado, mas não sabem que acabei de abrir uma loja em Aveiro e que por isso é que deixei de escrever durante algum tempo. Foram dias agitados que, na verdade, ainda o são.
A minha loja fica na Avenida da Força Aérea, em Aveiro, e vende produtos alimentares livres de químicos, branqueadores, intensificadores de sabor, etc. Essencialmente tenho produtos congelados da marca Moreira, mas também conservas e mercearia essencial. Tudo marcas portuguesas de alguma qualidade e baixo preço que aprendi a consumir precisamente durante o meu período de desempregado.
Quis fazer as pazes com o mundo, mas no primeiro dia que abri, provavelmente a minha quinta ou sexta cliente, foi uma senhora que demorou cerca de dois minutos a subir os três degraus da entrada. ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou. Depois escolheu uma posta de Alabote e perguntou-me o preço.
 
- Um euro e noventa e oito! - respondi.

Ela abriu o porta moedas, procurou com os dedos algumas moedas e tornou a fechá-lo. Agradeceu-me e saiu. Provavelmente nem percebeu que tinha escolhido um dos peixes mais caros do mercado, mas a dor de barriga com que fiquei impediu-me de a esclarecer. Não lhe ofereci porque, em abono da verdade, não posso oferecer nada que tenha a ver com o meu trabalho.
Alguns momentos depois um amigo entrou na loja e perguntou-me se estava tudo bem. Respondi-lhe que sim, mas menti. Obviamente.

De qualquer maneira, para quem tem Facebook e é de Aveiro, pode visitar-me aqui.

1.05.2015

engolida pelo Sol

Hoje encontrei uma amiga que já não via há muito tempo. Talvez há uns quatro anos, pelo que me lembro. A primeira vez que olhei para ela pensei que fosse apenas uma mulher parecida, mas depois reparei que era mesmo ela e então cumprimentei-a. Acho que lhe aconteceu o mesmo relativamente a mim, porque não me disse nada na primeira vez que trocámos olhares.
Estávamos num café em Aveiro. Eu sozinho numa mesa e ela acompanhada por um homem e uma criança noutra mesa. Levantámo-nos ao mesmo tempo, depois de um lapsus facial simultâneo, e demos um abraço a meio do caminho, muito perto duma outra mesa onde duas mulheres bebiam chá e comiam torradas. 
De certa forma apetecia-me contar-lhe e ouvir-lhe tudo sobre o tempo que passou por nós desde a última vez que nos vimos, mas a situação não o permitiu. Dois minutos depois do nosso abraço, o homem levantou-se e levou a criança pela mão até à porta do estabelecimento, onde ficou em pé a esperar por ela. Eram o marido e o filho que a chamavam sem chamar. Ela abanou os ombros como que desculpando-se, deu-me outro abraço e despediu-se. Disse-me que temos que falar para pôr a conversa em dia.
Não fiquei com o número dela nem ela com o meu. Acabei de o procurar e não consta da minha lista telefónica. Acho que o perdi numa das mudanças de telemóvel bruscas que fiz no passado recente. O mais provável é que se passem mais quatro anos até eu a encontrar de novo, por acaso, num café qualquer da cidade.
Não sei quando é que o tempo se tornou assim, imensamente pequeno e minuciosamente grande. Acho que fiquei alguns minutos em pé no meio do bar, a vê-la afastar-se e sair pela porta cujos vidros eram violentamente trespassados pela luz do Sol. Quando me sentei percebi que as mulheres que bebiam chá e comiam torradas cochichavam qualquer coisa sobre mim. Não sei bem o quê, mas suspeito que tinha a ver com o facto de eu ter ficado a suspirar assim que ela foi engolida pelo Sol.

12.01.2014

respostas a perguntas inexistentes (294)

Outono

É comum dizer-se que o tempo anda maluco. Anda mesmo. A única coisa que não mudou na rua onde acordo foi a cor das árvores. Parece que algum pintor chegou ali e deu umas pinceladas de vermelho para contrastar com o cinzento dos edifícios que se vêem até à linha do horizonte.
Existem dois tipos de árvores: aquelas que exibem com orgulho a sua cor outonal e aquelas que perderam totalmente a folhagem. As árvores são como as pessoas. Algumas estão felizes, outras estão tristes. Um pouco mais ao fundo, quase a desaparecer numa curva, uns ramos finos e articulados seguram em esforço uma última folha. É uma árvore triste, mas que não desiste de ser feliz. E é assim que me lembro dela.
Às vezes dou-lhe a mão e a folha sou eu. Sinto-me um enorme petroleiro puxado por uma frágil embarcação prestes a afundar-se. Ainda assim, todos os dias ela me salva também a mim, sem sequer perceber muito bem como ou porquê. É a existência, acho eu. Poucas pessoas percebem essa mensagem do Outono, quando ele varre de frio as ruas da cidade e empurra todo o calor do mundo para dentro de cada casa. Às vezes num abraço, outra vezes num sorriso, outras vezes até numa discussão sobre um copo partido.
Ninguém devia acreditar no destino, com excepção daquele que o Outono nos traz.