8.01.2015

conversa 2143

Ela - Lembras-te da noite em que tentaste ir para a cama comigo? Foi tão engraçado...
Eu - Tenho uma ideia...
Ela - Tens uma ideia?! Só tens uma ideia da noite em que tentaste ir para a cama comigo?!
Eu - Foi há tanto tempo...
Ela - Nem sequer sabes há quanto tempo foi?!
Eu - Diz-me só se consegui ou não, por favor.
Ela - Claro que não, seu parvalhão.
Eu - Então querias que me lembrasse de quê?
Ela - De teres tentado...
Eu - E lembro... quer dizer, tenho uma ideia.
Ela - Foste para a cama assim com tanta gaja, que só tens uma ideia?
Eu - Não, não fui, mas tentar, lá isso tentei.
Ela - Percebes porque é que não foste, não percebes?
Eu - Percebo. Para as mulheres, uma tentativa já é digna de ficar na memória. Para um homem não.
Ela - Estás a chamar-me o quê?!
Eu - Nada. Estou só a dizer que a minha memória é muito má.

7.31.2015

conversa 2142

Eu - Estou a precisar de praia. Queres vir comigo este fim de semana?
Ela - Pode ser, se me explicares porque é que me estás a convidar...
Eu - Explicar o quê?
Ela - Porque é que me estás a convidar...
Eu - Tenho que te explicar porque é que te estou a convidar para ir à praia?!
Ela - Gosto de entender as coisas...
Eu - Para não ir sozinho, sei lá...
Ela - Pois, o problema é esse...
Eu - Qual?
Ela - O convite é razoável. A explicação é que é uma merda...

respostas a perguntas inexistentes (320)

como se alimenta um Amor

O Amor é um animal indomesticável. Todos sabemos disso e, às vezes, até agradecemos que ele seja assim. O problema é que ele só se alimenta de certezas, apesar de ser, ele próprio, uma incerteza.
Não tenho a certeza total do que digo. Sei que, no meu caso, foi assim que o alimentei toda a vida. Com certezas digo. Acordo de manhã, pego em todas as certezas que tenho e dou-lhas à boca. Até aqui tudo bem, não fosse ele às vezes perder a fome durante longos períodos de tempo ou, noutras ocasiões, morder-me à traição.
O Amor é um pouco assim, morde a mão que o alimenta.
Já tive um Amor, por exemplo, que só se alimentava dois ou três dias por semana. Nos outros dias preferia ficar em jejum. Dei-lhe um telefone para que ele me ligasse sempre que estivesse com fome, o que aconteceu durante alguns meses. Eu procurava os restos das minhas certezas para o alimentar, mas um dia deixou de me ligar. Fiquei sem ele e sem o telefone.
Por outro lado, tive outro que comia demais. Tinha tanta fome que um dia me mordeu os dedos. Fiquei a sangrar a acabei por abandoná-lo como se abandona outro animal qualquer. À sua sorte. Tive notícias dele algum tempo depois. Morreu.
Entre os dois tipos de Amor que já tive, no entanto, sempre preferi os esfomeados aos que entram em dieta constantemente. Mais vale uma ferida de vez em quando do que a solidão de um animal fugitivo. É por isso que às vezes pego nas certezas todas que tenho, cozinho-as como posso, e dou-as ao primeiro Amor que passa por mim.

7.30.2015

conversa 2141

Ela - Este fim de semana vens acampar comigo para qualquer sítio?
Eu - Deixa-me decidir na sexta. Ando a trabalhar muito e nem sei a quantas ando...
Ela - Estás à vontade.
Eu - Obrigado.
Ela - Estás à vontade para vires ou nunca mais falares comigo. Tu é que sabes.

índice ivariano no 12

Já passa das seis da manhã. Acabei de chegar a casa, depois de mais um turno de doze horas de trabalho numa fábrica nos arredores de Aveiro, e de encher um copo de vinho branco onde, depois de ter dado dois ou três goles, reparei que há um insecto a boiar.
Todas as noites, com excepção dos fins de semana, trabalho doze horas. Não me importo muito, para ser sincero. Faço-o, não para manter a minha vida num modo de sobrevivência, mas sim porque sigo um sonho de há muito tempo: o de poder fazer filmes.
Ainda antes do fim do ano conto ter uma empresa que me permita cumprir esse sonho. Até lá, tenho que comer qualquer coisa, pagar as contas e ter algum dinheiro para investir. É por isso que o faço, mesmo depois de ter investido num projecto empresarial que falhou e me deixou algumas dívidas.
Sei que é preciso ser forte, principalmente nos momentos em que a vida nos fragiliza, e eu sinto que estou num momento desses. Talvez por isso mesmo, numa altura em que o Amor me está a falhar e a deixar desamparado, seja capaz de me surpreender todos os dias com pequenos gestos de quem me conhece bem. Uma amiga investe o que pode num bolo que me oferece no dia em faço quarenta e quatro anos, atingindo oficialmente ameia idade; outra guarda a hora do café para me dar um abraço de meia hora à sombra duma história antiga; outra acorda às quatro da manhã e telefona-me para "colorir o meu turno na fábrica". 
Lembro-me duma altura estúpida da minha vida em que as mulheres eram, ou não, uma expectativa para mim. Os homens têm a mania de seguir essa estupidez. As mulheres são uma certeza, para o pior mas também para o melhor. É nisso que penso, agora que me vou deitar.
Já engoli o insecto que boiava no meu copo.
Entretanto, o índice ivariano, que reflecte o meu estado emocional/amoroso e estava no máximo há quase sete anos, desce para 12. Podem vê-lo no fim da barra do lado direito... 

7.29.2015

respostas a perguntas inexistentes (319)

um pardal qualquer

Não sei se já vos aconteceu ter uma fortíssima relação Amorosa de apenas alguns dias, mesmo tendo consciência desde o início que ela não ia durar muito. Ela era finlandesa e eu português. Ambos estávamos a fazer uma viagem sozinhos pela Europa e, depois de uma tarde estendidos num mar de relva a beber cerveja, decidimos que podíamos ficar juntos cinco dias. Era esse o curto limite do nosso Amor, que mesmo assim acabou prematuramente.
Acabou numa esplanada em Itália, no segundo dia, quando ela me contou que tinha um amigo em Helsínquia que tinha espatifado o automóvel a desviar-se de um pássaro pequenino que se atravessara à sua frente, na estrada. Num esforço de última hora para não o matar, travou a fundo e despistou-se contra umas árvores quaisquer. Ela riu-se.

- Que estúpido! - disse - despistar-se por causa de um pequeno pássaro...

Por qualquer motivo não gostei daquele riso. Pareceu-me  malévolo e, vindo de uma mulher tão bonita, ainda pior. Dei um gole na minha cerveja, que me lembro de estar a beber devagar por ser cara, e expliquei-lhe que ela tinha tecnicamente razão, mas demonstrava uma falta de entendimento emocional do seu próprio amigo.
Para mim, o mais provável é que ele não tenha pensado na equação que compara um pássaro ao valor de um automóvel, mas sim agido por impulso. Ao aperceber-se que ia matar o pássaro, travou a fundo sem pensar em mais nada. Por azar despistou-se. O riso dela era inadequado.

- E isso é bonito... - insisti - pode querer dizer que o teu amigo tem um fundo bom...

Eu sabia que, ao emitir a minha opinião, estava a pôr em risco cinco dias inesquecíveis. Por isso mesmo, assim que vi o olhar dela arrependi-me imediatamente, mas era tarde demais. Acusou-me de usar pouco o meu cérebro e de ver a vida como se fosse um filme. Levantou-se e partiu sem se despedir. Fiquei um bocado triste. Afinal de contas, por causa de uma espécie de pardal perdido na Finlândia, a muitos quilómetros de distância, não tive sexo nessas férias. 
Por coincidência, acabei por reencontrá-la mais tarde e, apesar de apenas termos conversado, permiti-me dizer-lhe que o nosso Amor tinha acabado cedo demais e de forma abrupta. Para meu espanto, ela respondeu-me com o que considero ter sido uma resposta equilibrada entre a razão e a emoção.

- Um Amor só pode acabar tarde demais ou cedo demais. Nunca acaba no momento certo. Se acabar, então não era Amor.

7.28.2015

conversa 2140

Ela - Adorei aquele filme que me emprestaste.
Eu - Qual foi? Já nem me lembro...
Ela - Também não me lembro do nome...
Eu - E do realizador?
Ela - Não sei...
Eu - E a história?
Ela - Também não me lembro...
Eu - Adoraste mesmo?
Ela - Para ser sincera, ainda nem o vi.

pensamentos catatónicos (328)

Hoje apeteceu-me aproximar-me de ti e, mesmo sabendo que não me conheces de lado nenhum, pedir-te que me abraçasses e fingisses Amar-me. Não era muito tempo. Talvez apenas um minuto ou dois. Podia ser mesmo no sítio em que te vi, com os edifícios decrépitos de um bairro social ao fundo. 
Eras a mulher ideal para o fazer, basicamente porque não te conheço de lado nenhum. Eu talvez até te Ame, mas não tenho a certeza. É tão bom quando isso me acontece, não ter a certeza de um Amor mas ter a certeza da vontade de um abraço. 
O Amor é um bocado hipócrita às vezes, sabes? O sexo, pelo menos é sempre honesto. É por isso que também é mais ansioso e apressado. Não perde tempo com rodriguinhos. Tem a desvantagem de não se deixar enganar. É por isso que o Amor é giro. Se me tivesses abraçado hoje, eu podia fingir que te Amava e depois partíamos para a honestidade do sexo.
Não aconteceu. Se acontecer um dias destes, não te esqueças de fingir que me Amas.

7.27.2015

conversa 2139

Ela - Parabéns!
Eu - Obrigado.
Ela - Não pareces nada ter quarenta e quatro anos.
Eu - Obrigado.
Ela - Pareces ter mais.
Eu - Mais?! Pensei que me ias dizer que pareço mais novo...
Ela - Só quando falas, às vezes, é que pareces bastante mais novo.
Eu - Tens alguma simpática para me dizer?
Ela - Sim, já disse. Parabéns!

7.26.2015

Um dia, quando tudo tiver passado

Tenho um amigo com exactamente mais trinta anos do que eu, ou seja, faz amanhã setenta e quatro anos. Só é meu amigo por causa disso mesmo. Uma vez, numa conversa banal, descobrimos que tínhamos nascido no mesmo dia e à mesma hora, apenas com trinta anos de diferença. A partir daí, cada vez que nos cruzávamos, ele dizia-me num tom de brincadeira: "Boa colheita, ahn?! A do nosso dia". Foi um passo até começarmos a tomar café de vez em quando e falar sobre a vida.
Gosto dele, primeiro porque o acho parecido comigo, segundo porque as nossas conversas são desprendidas de um passado em comum. O que nós fazemos, basicamente, é dividir uma mesa de café de vez em quando e falar mais do mundo do que de nós.
Talvez por isso, tenha sido o primeiro a saber que a minha vida já teve momentos melhores. Foi um desabafo com quem eu sabia que não ia fazer juízos pessoais sobre mim, mas sim dizer qualquer coisa mais generalista. Talvez até pagar-me o café e dar-me uma pancada no ombro, o que se veio a confirmar.
Expliquei-lhe que o meu Amor já teve dias melhores, apesar de eu estar ainda totalmente apaixonado e que a minha vida profissional está um caos, apesar de eu ter um caminho que pode vir a dar frutos muito em breve. Das minhas finanças, prefiro nem falar. Mexi devagar, com a colher, um café no qual não tinha posto açúcar, à espera de qualquer coisa, fosse o que fosse, que me pudesse fazer sentir melhor.
Ele dobrou o jornal que tinha nas mãos e pousou-o sobre as pernas. Pediu-me para olhar para ele de frente e, pela primeira vez, pareceu-me o homem mais sério do mundo.

- Um dia, quando tudo tiver passado, não te arrependas da vida que tiveste!

Tornou a abrir o jornal e eu encostei-me para trás na cadeira do café.

- Boa colheita, ahn?! A do nosso dia...

7.24.2015

respostas a perguntas inexistentes (318)

Estavam dois copos em cima da mesa, ambos já bastante babados por lábios cansados, sabe-se lá de terem falado muito ou de terem bebido demais. Provavelmente as duas coisas. Ainda assim o Fred dividiu irmãmente o que restava da última garrafa de vinho, alinhando-os lado a lado e igualando as quantidades como se estivesse num laboratório. Queria continuar a conversa.
Conversar era um hábito que perdera com o casamento. Uma vida a dois, preenchida por quatro filhos, afastara-o do mundo que conhecera alguns anos antes, mas que agora lhe parecia longínquo. Um mundo de conversas com amigos e de copos babados, de alguns abraços e de olhares soltos para mulheres desconhecidas.
Adormeceu à mesa.
A mulher dele tinha sido a minha primeira namorada. Éramos então dois adolescentes, cujo Amor parecia impossível de terminar um dia e cuja vida se adivinhava dinâmica e feliz. Sem sobressaltos, sem zangas, sem filhos. Sobretudo sem adormecermos à mesa derrotados pelo cansaço.
Creio que durou um mês, esse sonho.
O Fred ressonava. Acordei-o com o cuidado de um pai que acorda um filho, dei-lhe um cobertor e mandei-o para o sofá da sala. 
Fechei a luz, ouvi-o ressonar e telefonei à Laura.

- O teu marido dorme cá hoje!

Do outro lado ouvi o silêncio mais pesado que se pode ouvir. Passou-me tudo pela cabeça, incluindo a certeza que ela tinha de que estivéramos a beber até um de nós adormecer. Talvez estivesse desconfortável pelo leque de possibilidades temáticas que dois homens que dormiram com a mesma mulher podem ter. Talvez até já nem se lembrasse de mim.

- Laura?!

O silêncio continuou mais um pouco, mas desta vez com uma respiração libertadora.

- Que saudades que eu tenho duma noitada assim! - disse ela.
- Compreendo!
- Lembras-te de nós? - Insistiu.
- Lembro. Claro que lembro.

E o silêncio tornou-se mais leve.

conversa 2138

Ela - Este fim de semana vou para a minha casa da aldeia. Se quiseres libertar um bocado o stress, estás à vontade para vir também...
Eu - Se calhar até nem é má ideia, por acaso. Estou a precisar de desanuviar...
Ela - Óptimo. Traz a tua mala de ferramentas, que eu comprei umas tomadas eléctricas e uns interruptores novos, muito lindos, e não tinha quem mos trocasse...