4.23.2014

pensamentos catatónicos (304)

Há poucas coisas mais elucidativas do que uma boa conversa de treta. As conversas de treta, sejam elas sobre o estado do tempo, o campeão nacional de futebol ou a quantidade de açúcar dos bolos portugueses, são sempre conversas que só existem se todos os interlocutores as desejarem. Para que duas ou mais pessoas tenham conversas de treta têm, por isso, que se desejarem também entre si, pelo menos nesse momento em que conversam sobre coisa nenhuma.

Nunca me apaixonei nas Finanças, no Registo Civil ou no Notário. A razão é simples, são locais onde não há conversas de treta. A última vez que tirei o cartão de cidadão tive a felicidade de ser atendido por uma mulher bonita e a infelicidade de estar num local onde não há espaço para conversas de treta. Tudo o que ela me perguntou foi útil, tudo o que eu lhe respondi também. No Amor não há muito espaço para a utilidade.

Sobre o estado do tempo, por exemplo, eu sou incapaz de trocar uma só palavra com alguém de quem não gosto. Já com quem Amo posso estar a noite inteira a falar do Sol, da chuva, das nuvens e da precipitação. Com a vantagem de que também consigo estar em silêncio sem que o silêncio me incomode. A companhia de quem Amo é sempre uma contemplação e não há treta melhor do que saber isso.

Sei que uma mulher não gosta de mim o suficiente quando a convido para sair ou jantar e ela me pergunta para quê. Quando há um "quê" num convite para estar com alguém a coisa simplifica-se, mas tudo o resto desaparece. Se eu telefonar ao canalizador há sempre um "quê" muito simples. Uma sanita entupida, por exemplo. Se eu convido alguém para jantar é porque quero ter uma noite de treta.
O Amor é uma treta. Quando não é uma treta também já não é Amor. É uma utilidade.

4.22.2014

conversa 2089

Ela - Estás bem?
Eu - Sim, mais ou menos.
Ela - Bem me parecia.
Eu - Bem te parecia o quê?
Ela - Que não estavas bem.
Eu - Eu disse que sim, mais ou menos.
Ela - Ou seja, não estás bem.
Eu - Estou, estou. Mais ou menos...
Ela - Mais ou menos que dizer que não andas bem.
Eu - Mais ou menos que dizer que estou mais ou menos.
Ela - Não me parece nada.
Eu - Mas é o que é. E tu, estás bem?
Ela - Sim, mais ou menos.

Kotka

Desde pequeno que adoro mapas. Quando era miúdo, um dos meus passatempos preferidos era passar horas a analisar os mapas que o meu pai tinha no carro. Havia um mapa de Portugal, outro da península Ibérica e outro da Europa. Cheguei mesmo a conseguir juntar o dinheiro de algumas semanadas para comprar um imenso mapa do mundo. Através das linhas que os formavam fui-me apercebendo do tamanho do mundo e, consequentemente, também do meu.
Dias houve em que me dediquei às terras mais pequenas e desconhecidas. Lia os nomes e tentava decorá-los para sempre, como se fosse possível um dia conhecer o mundo como conheço as palmas das minhas mãos. Tal nunca aconteceu mas ainda hoje, quando atravesso as estradas e ruas deste país, me acontece passar por pequenas terras cujo nome me soa familiar.
Os mapas em suporte de papel não mostravam muito mais do que linhas e nomes. Não serviam, por isso, para que eu tivesse uma noção mínima de como era cada terra, mas serviam para eu conhecer a sua localização. A partir de Aveiro, a cidade onde eu cresci, passava tardes a percorrer com os meus dedos os caminhos que me podiam levar a cidades tão distantes como Roma ou Moscovo, ou a aldeias tão perdidas como Vilarandelo ou Amareleja. Aveiro deixou de ser então a cidade onde eu crescia para passar a ser um ponto de ligação ao mundo inteiro.
Naquele princípio dos anos oitenta, fruto da revolução de Abril alguns anos antes, o nosso país começou a receber turistas um pouco de todo o mundo, mas principalmente de países do norte da Europa. Eram pessoas que se distinguiam fisicamente dos portugueses e para as quais eu olhava com um misto de espanto e de curiosidade. A minha vontade de meter conversa com cada um desses estrangeiros, para saber de que ponto do meu mapa é que vinham, esbarrava normalmente na língua. Mesmo assim, através duma linguagem gestual improvisada, consegui que muitos apontassem naquele imenso desdobrável o seu local de origem. Cada vez que isso acontecia, eu ficava a conhecer um pouco mais do mundo que nunca tinha visitado.
Foram assim as minhas primeiras viagens, a estender um mapa numa mesa de um café de praia para tentar descobrir de onde vinha aquela gente com um aspecto tão diferente. Hoje lembrei-me de um desses pequenos pontos no mapa que um casal de loiros deslavados apontou enquanto sorria pela minha curiosidade. De acordo com a minha memória, em criança pensei que aquela terra ficava numa zona em forma de pistola futurista, algo que eu vira na série Espaço 1999. Fui ao Google Maps e percorri o mesmo caminho no computador que percorri no papel há mais de trinta anos atrás, na esperança de descobrir a origem desse casal simpático. Descobri. Chama-se Kotka, na Finlândia.

4.17.2014

coisas que fascinam (169)

É quando o Amor nos corre mal que percebemos que o mundo é estúpido. Mesmo estúpido, todo ele, desde o café matinal que perde o sabor até aos aviões que vemos no céu, dos quais deixamos de tentar adivinhar em segredo a origem e o destino. O mundo é estúpido simplesmente porque tudo continua a funcionar quando, tal como o nosso Amor, devia estar parado.
Encontrei-a num desses dias em que inexplicavelmente o mundo estava a funcionar e, inexplicavelmente também, os cafés estavam abertos. Abanei os ombros quando ela me perguntou se estava tudo bem e sentei-me na mesma mesa, mais por obrigação do que por vontade. Um televisor sujo mostrava uma telenovela qualquer.
Saímos dali e ela ordenou-me que a acompanhasse. Percorremos as ruas dum bairro suburbano a passo de caracol, até entrarmos num automóvel cuja porta direita não fechava bem.

- Tens que sair e fechar por fora. A mola partiu. - disse ela.

Foi a única coisa que disse durante as várias horas em que percorremos a praia de forma pendular, ao som das ondas que não conseguíamos ver. É verdade que hoje, quando a encontro, ela me costuma sorrir e dizer que lhe dei uma bruta seca nessa noite. Eu, pela parte que me toca, lembro-me dela como a mulher que parou o mundo.

4.16.2014

conversa 2088

(na minha casa)

Ela - Ah! Também compraste uma bicicleta de manutenção!
Eu - Comprei. Sinto necessidade de fazer algum exercício...
Ela - E tens usado?
Eu - Tenho. Até aponto todos os tempos e distâncias.
Ela - A minha está nova. Nunca a usei.
Eu - Mas tu compraste a tua há menos de um ano, acho eu.
Ela - Sim. Comprei-a por impulso. Um dia vi-me ao espelho e pensei que tinha que fazer qualquer coisa urgente para emagrecer. Fui à loja e comprei a bicicleta.
Eu - Se não a usares também não emagreces...
Ela - Eu sei, mas nesse dia senti-me bem por a ter comprado. Depois nunca tive força de vontade para a usar.
Eu - E não tentaste devolvê-la? Esta brincadeira ainda é cara!
Ela - Eu sei. Eu devolvo tudo o que não quero, mas a bicicleta não. Seria uma derrota na minha luta pelo emagrecimento.
Eu - Nunca vou mesmo compreender as mulheres!
Ela - É fácil. tem a ver com eu sentir que fiz alguma coisa para emagrecer ou não.

4.15.2014

conversa 2087

Ela - Só consigo estar com homens mais novos do que eu.
Eu - Estás comigo e eu sou mais velho que tu.
Ela - Mas nós só estamos a conversar. Para conversar gosto de homens mais velhos, para levar para a cama é que gosto de homens mais novos.
Eu - Ah! A vida pode ser difícil.
Ela - Pode mesmo. Está cada vez vez mais difícil arranjar um homem novo para levar para cama e, ao mesmo tempo, parece-me que os mais velhotes estão a perder conversa.
Eu - Só uma pergunta...
Ela - Diz.
Eu - Nunca conversas antes, durante ou depois do sexo?
Ela - Claro que não. Só se for para mandar o gajo despachar-se.

4.11.2014

conversa 2086

Ela - A minha relação anda a matar-me lentamente.
Eu - Isso está assim?
Ela - Está. Todas as manhãs o meu marido me pergunta pelo sítio onde estão as coisas dele. As meias, a camisa, os sapatos... é tão enervante.
Eu - E o que é que tu respondes?
Ela - Respondo que estão no sítio do costume e ele diz: "Ah! Obrigado".
Eu - É mesmo estranho.
Ela - É, não é?!
Eu - Nunca lhe disseste para ir directamente buscar as coisas sem te perguntar primeiro por elas?
Ela - Já, mas não resultou. Se ele não me perguntar primeiro, abre o armário e diz: "a minha camisa não está aqui!", mesmo que esteja. Depois eu digo: "procura melhor!" e ele responde: "Ah! Obrigado".

4.10.2014

respostas a perguntas inexistentes (273)

Os desgostos de Amor são óptimos, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa. Aliás, no que se refere ao Amor só há uma coisa melhor: os gostos de Amor. Tudo o que não é um gosto nem um desgosto, é estar ausente da vida. É mau.
Os desgostos de Amor, aliás, são mais difíceis de esquecer do que os gostos. Um gosto de Amor, que já o foi mas já não é, gastou-se. A sua memória é idêntica à duma fotografia na parede. Está morta, apesar de sabermos que já viveu. Pelo contrário, um desgosto de Amor torna-se saudade assim que nasce. É também assim que se mantém durante muito tempo, talvez até para sempre. Está vivo.
Quem se considera vítima por ter um desgosto de Amor é porque nunca teve um gosto de Amor a sério. Não faz mal. De um gosto de Amor a sério nunca desistimos. Vale a pena continuar a tentar.

4.09.2014

respostas a perguntas inexistentes (272)

O primeiro homem que eu conheci que falava constantemente ao telemóvel nem sequer tinha telemóvel. Era um tipo alto, coisa para mais de um metro e noventa, magro e bigode farto, que caminhava sozinho pelas ruas da cidade de Aveiro a falar sozinho com uma mão colada à orelha esquerda. Na altura nem sequer existiam telemóveis, mas ele lá imaginava que tinha um meio de comunicar com alguém.
Muitas vezes, a sair do BA (Bar da Associação que, na altura, ficava perto do estabelecimento prisional) às quatro ou cinco horas da manhã, via-o a caminhar como se estivesse numa missão secreta qualquer, de colarinhos levantados e sempre a comunicar com um entidade imaginária.

- Eles vêm aí, eles vêm aí! - dizia.

Eu e os meus amigos mais próximos começámos a chamar-lhe o 008, numa homenagem ao detective mais famoso da História do Cinema, mas o que era óbvio para todos é que ele, para além de sofrer duma doença mental qualquer, era também um tipo extremamente solitário.
Já não o vejo há alguns anos. Tanto quanto me lembro, a última vez que me cruzei com ele foi numa pastelaria perto da rotunda das Glicínias, provavelmente no ano de 2005, mas nunca mais me esqueci daquela pesada e abrangente solidão que ele carregava aos ombros. Nesse fim de tarde, estava ele à mesa da pastelaria a falar sozinho, com uma mão na boca e outra na orelha, quando eu reparei que ele não tinha meias dentro dos sapatos gastos nem estava a consumir nada. Decidi nesse dia pagar-lhe o lanche e, para meu espanto, ele agradeceu normalmente.

- Muito Obrigado! - disse.

Hoje lembrei-me dele quando fui tomar o primeiro café do dia ao tasco mais perto da minha casa. Uma mulher falava ao telemóvel com alguém que, não sei explicar bem porquê, me pareceu ser também uma entidade imaginária. Acho que era a conversa que não colava bem com nada. Quando finalmente se calou e pousou o objecto na mesa ao lado da minha, tive a certeza que sim, que a conversa dela era inventada. O telemóvel era bastante antigo e estava desligado. Depois olhei bem para ela e reconheci-a. Há pouco mais de vinte anos, creio que em 1988 ou 89, foi minha colega num daqueles primeiros cursos de formação que a CEE (agora UE) patrocinou neste país.
Ela não me reconheceu, isso é certo, mas eu lembro-me perfeitamente do momento em que, estávamos todos nós, alunos desse curso, a fazer um pequeno intervalo cá fora, na Avenida Lourenço Peixinho, quando o 008 passou por nós em passo apressado e a falar sozinho.

- Parece maluquinho! - disse ela.