1.15.2009

o desemprego e o sexo para totós

1] O Partido Socialista vai "chumbar" os três projectos de lei para alargar o subsídio de desemprego, do PCP, Bloco de Esquerda e CDS-PP, que hoje são debatidos na Assembleia da República. [ler notícia no Expresso]
Ao contrário do que o Partido Socialista quer fazer crer, os desempregados não são pessoas falhadas nem pessoas que não querem trabalhar. No modelo de produção capitalista em que vivemos, e que é manifestamente apoiado pelo partido do Governo, os desempregados são um factor fundamental à concentração de riqueza, pois servem como exército de reserva para as unidades de produção. Por este motivo o subsídio de desemprego devia ser garantido e vitalício, já que os desempregados são vítimas da organização política que lhes é imposta.
Nunca gostei que me impusessem a normalidade. A maior parte das pessoas convenceu-se que esta dicotomia da mão-de-obra em empregados e desempregados é normal, que o mundo é assim e não pode ser de outra forma. Isso tem a ver com o facto da nossa memória colectiva não ter arquivado um modelo de produção sem desempregados. Mas ele existe e é possível. É por isso que a luta por um subsídio de desemprego a sério deve ser apenas um passo. O objectivo é mudança total do modelo de produção.
Gostava de encontrar mais pessoas que percebam que não têm que levar com esta merdice de normalidade que nos é imposta, e que somos nós todos que devemos decidir o que é normal ou não. Gostava que essas pessoas se organizassem e fizessem qualquer coisa para alterar isto. Sem medos.

2] Também as crises económicas, ao contrário do que nos querem fazer crer, não fazem parte dum ciclo natural da Economia. São provocadas propositadamente para que o capitalismo se possa reorganizar, leia-se, para que os grupos económicos possam engolir os mais fracos mais facilmente. Foi assim em 1929 e está a ser assim agora. Depois inventam desculpas para criancinhas do género: os bancos emprestaram dinheiro a quem não podia pagar empréstimos. Não me fodam: nem eu empresto dinheiro a quem não me pode pagar. Vocês acham que o gerente dum banco o ia fazer? Porquê? Por misericórdia... deve ser isso.
As crises económicas não são só falta de dinheiro num lado e dinheiro a mais noutro. As crises económicas têm um impacto enorme na nossa vida emocional, e essa também uma forma de manter as pessoas quietinhas no seu lugar, à espera que alguém lhes faça o favor de as meter num emprego precário e mal pago onde vão ser exploradas a vida toda. Até o sexo fica mais conservador em períodos de crise económica, segundo um sociólogo britânico. [ler notícia no yahoo]. A minha proposta é simples: decidam vocês o que deve ser a vossa normalidade, e se não quiserem começar já por algum activismo político, ao menos fodam sem conservadorismos.

8 comentários:

Me disse...

Caro bagaço : como tu, também acho que os desempregados não são pessoas falhadas. Já quanto a serem pessoas que não querem trabalhar... acho que não devemos generalizar, isto é, nem todos os desempregados são pessoas que não querem trabalhar, assim como há, e se calhar mais do que pensamos, desempregados que não querem efectivamente trabalhar.
Assim como há quem tenha trabalho e ganhe subsídio de desemprego, aqui na minha terra chamamos-lhe "ganhar dois carrinhos".
Por tudo isto acho que deve haver um equilíbrio e,embora não conheça os diplomas ao detalhe, também votaria contra estes projectos lei.

bagaco amarelo disse...

Me, se os desempregados, se calhar, querem ou não trabalhar, não interessa, até porque os projectos de lei não se fazem com base nos "se calhar". para além de eu discordar da ideia judaico cristã de que o trabalho, só por si, dignifica, sei que os desempregados são vítimas deste sistema político.
Em Portugal, por exemplo, não é quase nunca dignificante. trabalhar, porque se ganha pouco e em condições precárias. Eu também não queria trabalhar assim.
Se há quem tem trabalho e ganhe subsídio de desemprego, é um erro do sistema que deve ser fiscalizado. Não se deixa de aprovar projectos de lei mais justos por causa disso.
Tu não votaria, de facto, num projecto que nem conheces bem, mas não me deste uma só razão decente para tal. :)

Me disse...

Sim, dei-te uma razão - "Por tudo isto acho que deve haver um equilíbrio ". Este equilíbrio é entre dar um subsídio de desemprego a quem precisa, dizes bem fiscalizando, assim como se deve fiscalizar o rendimento mínimo (e aí está se calhar o ponto-chave. O governo deve fiscalizar. E o povo não deve ter consciência ??), e entre dar um incentivo ao desemprego, alargando o prazo do mesmo, que é o que com mais ou menos fiscalização acontecerá em demasiados casos, não tenhamos ilusões. Eu conheço quem esteja no fundo de desemprego e não queira trabalhar. Também conheço quem esteja, queira e não tem emprego. Não conhecendo bem (qd digo bem é ao pormenor) os projectos lei, penso que é basicamente disto que se trata. Não acho que traga nada de contributivo, perdoa se estou enganado...
Ainda te deves lembrar da luta pela redução do horário de trabalho, cujo objectivo principal seria, tirando carga horária a uns aumentar o emprego para outros. Sabes o que é que aconteceu ? Os mesmos que lutaram pela redução de horário continuaram a fazer as mesmas horas e passaram a ganhar horas extras... é apenas um exemplo, REAL.
Enfim, é a minha opinião,de um gajo de esquerda e assalariado, embora reconheça que é um problema mt mais complexo, dava para horas de discussão.
Desculpa o testamento !

bagaco amarelo disse...

Me, tá na boa. curto testamentos quando é política.
Relativamente ao horário de trabalho, concordo com a redução do horário de trabalho e com o pagamento de horas extra no caso de elas serem feitas. Nem podia ser de outra forma. Os trabalhadores recebem muito menos do que aquilo que produzem e a maior parte do lucro da produção vai precisamente para quem não trabalha, apenas possui.
Acho que é errado ver o subsídio de desemprego como um incentivo ao desemprego, principalmente pelo que expliquei, o desemprego é uma arma deste modelo de produção e não do trabalhador.
Abraço

Nelson Peralta disse...

Me,

Dizes que é a opinião de um gajo de esquerda, mas o que estás a dizer é exactamente o que Victor Constêncio e qualquer neoliberal diz. Deriva de uma teoria concebida por Pareto, nada mais nada menos que um antigo senador de Mussolini, ver mais aqui por exemplo:

http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=9748&Itemid=67

Já agora, conheces quem está no desemprego e não queira trabalhar.. eu conheço muita gente que está no emprego e preferia não ter que trabalhar. Portanto, se moldas a leis a essas vontades que conheces, porque não moldar a esta realidade que relato... seria muito mais interessante :)

Anónimo disse...

Boas, sei por funcionários da Segurança Social que muitos desempregados (obviamente não todos) só no fim do subsídio de desemprego (3 anos) é que procuram emprego. Até lá deixam-se estar a receber o dito subsídio. Subsídio de desemprego vitalício? Em Portugal? Havia de ser lindo. Se houvesse uma fiscalização apertadíssima concordava com o aumento do valor. Com a mentalidade que os portugueses têm, nem pensar.

Filipe Cunha

Ana Camarra disse...

Bagaço

A situação de desemprego arrasta consigo uma angustia profunda, claro que existe de tudo.
Mas como dizes e bem não é inevitavél haver desemprego, é conveniente para alguns.
Quanto á crise económica tenho a mesma opinião que tu, mesminha.

beijos

bagaco amarelo disse...

Nelson Peralta, sim... há uma lógica fascista, leia-se judaico cristã, nesta forma de ver o trabalho quase escravo como uma forma de dignidade. Os próprios nazis escreviam nos campos de concentração "o trabalho liberta". Isto quer dizer que a maior parte das pessoas não percebe porque é uma pessoa não quer trabalhar 40 horas por semana para ganhar 500 euros num mês... :)

Filipe Cunha, Claro que num sistema de produção em que trabalhar significa inevitavelmente ser explorado, as pessoas preferem um subsídio de desemprego e um trabalho mal pago. Eu também preferiria. Tu não?
Essa lógica moralista e fascizante de que as pessoas têm que trabalhar por tudo e por nada, a mim não me convence nem um bocadinho. Ao Hitler, por exemplo, convencia... :)

Ana Camarra, vivemos num sistema em que o dinheiro produzido é centenas de vezes superior à riqueza real produzida, isto para benefício directo de especuladores, e depois deita-se a culpa nos desempregados que recebem um subsídio... parece-me, no mínimo, pouco inteligente. :) beijos