8.26.2008

francesinha

Hoje, numa rua qualquer de Aveiro, uma mulher perguntou-me em francês se eu lhe podia indicar o caminho para a praia de Mira. Indiquei-lhe o caminho em português. Ela perguntou-me, de novo em francês, quanto tempo demorava. Eu respondi-lhe em português. Ela agradeceu-me de novo em francês. De nada, tornei a responder.
Um dia vou perceber porque é que a maior parte dos emigrantes portugueses em França, quando cá vem de férias, tem a mania de falar francês. Ou talvez nunca perceba...

20 comentários:

P. disse...

tristeza... se for preciso, em França nem se atrevem a falar francês com medo de dizer asneira.. lol

that's all folks disse...

era por acaso uma coisa que me irritava imenso, pois sempre julguei que o faziam para se armar: "ai e tal peguei no carro e assim que entrei na auto-route..." irritava-me mesmo, achava insuportável.
Até que uma vez e durante três semanas tive que constantemente, falar ou português ou inglês ou francês, pois havia quem só falasse português, quem só entendesse inglês e quem só falasse e entendesse francês... e a maioria das vezes tinha que traduzir e eram termos técnicos por vezes difíceis de encontrar a correspondência... e dei por mim, quase no final das 3 semanas, exausta, a fazer um discurso completo em francês para uma pessoa que só entendia inglês e me olhava estupefacta... e eu convencidíssima que lhe estava a falar inglês, perguntava porque raio esta gaja está a olhar para mim feita parva?... passado algum tempo é que me dei conta, pedi-lhe desculpa e traduzi em inglês...
já para não falar que em determinadas alturas iniciava uma frase em inglês e não me lembrando de algumas palavras terminava-a em francês...
a partir daí comecei a compreender os emigrantes... às vezes é mesmo difícil mudar o disco... mesmo que se entenda o que o outro diz noutra língua... às vezes até me era mais fácil falar noutra língua, pela familiaridade das palavras naquele contexto específico, parecia que dizer determinadas coisas em português não fazia sentido...

agora o que não entendo é porque raio os emigrantes emerdam o trânsito até mais não, porque raio, andam a 30 à hora na faixa da esquerda quando a da direita está completamente livre, porque raio contornam as rotundas todas pela direita, porque raio são muito adeptos do tunning e do cd no retrovisor, porque raio insistem em obstruir as escadas rolantes impedindo alguém com mais pressa de os ultrapassar... isso são coisas que ainda não entendo, mas talvez o tempo me traga a resposta... lol

Si disse...

Isso tambem eu nao entendo e custa-me a perceber como a língua materna vai ficando de lado...
Mas sei que volta e meia, quando estou em Pt, basta falar uma palavra em ingles (dizer o nome da "minha" cidade inglesa, por exemplo) para o cérebro "sintonizar" logo outra língua e lá me sai ingles em vez de portugues... Aconteceu-me o mesmo durante o ano em que vivi na Eslováquia - aí até podia dizer o que quisesse que ninguem me entendia mesmo! :)

Pax disse...

É para que quando voltarem, na próxima semana, não tenham esquecido a língua...
;)

L u i s P e s t a n a disse...

E muitos que alugam carros topo de gama antes de vir para cá, para mostrarem uma qualidade de vida que não têm e se calhar nunca vão ter?

Imagem, Ivar, imagem...

Ilusões, ilusões...

Shakti disse...

Realmente tens toda a razão ...será que ainda têm uma mentalidade que acham ser fino falar em francês?!??

bjs

Anónimo disse...

Sabe, esta questão da emigração dos Portugueses é bastante sensível e tem um grande passado. Acredito que seja digna de diversos e deveras interessantes estudos sociológicos. Eu não pertenço, de todo, a essa área de estudo e a opinião que exprimo aqui é a de um estudante de informática que por vezes aconchega a frustação com uma área de estudo tão árida, "assaltando" bibliotecas alheias.
Acredito que tomar a decisão de emigrar seja muito difícil. Conheço alguns emigrantes de regiões mais ou menos rurais do país e parece-me que a falta de alternativas leva a alguns, por fim, a dizer, Estou farto desta merda deste país e a partirem com a certeza de nunca mais quererem voltar.
A vida nos outros países não é assim tão diferente. Os que têm formação pode ser que tenham alguma sorte, os outros mudam de país e acabam por considerar hipóteses de emprego que nunca considerariam no seu país.
Uma vez li um livro da Isabel Allende, antes dela ter começado a escrever livros "comerciais", em que a autora explica de forma excelente o que lhe aconteceu quando teve que abandonar o seu país. À medida que tentava assentar noutro país tinha a certeza de que as suas raízes estavam noutro sítio e sentia sempre que perdera um pedaço de si, ansiosa por regressar ao Chile. Quando finalmente regressou ao seu país encontrou uma terra que já não era a sua, mudada sob vários aspectos e com a qual ela não conseguia mais identificar as suas raízes.
O que acontece com os nossos emigrantes é uma espécie de sensação de traição que lhes corrói a alma. Acredito que no estrangeiro, todos os dias se lembrem da sua terra e tentem presevar costumes que os mantenham ligados ao princípio de tudo. Contudo, quando cá estão, não podem deixar de sentir que o país os desapontou, nem de tentar fazer parecer que mudaram para muito melhor.
Esta questão é muito mais abrangente porque podemos sempre considerar a imigração. Se se lembrar, por exemplo, dos habitantes das ex-colónias portuguesas e como muitos deles vieram de raízes na mão para Portugal e encontraram um país radicalmente diverso do seu e como muitos acabaram nos nossos guetos.
Como é bicuda a alma humana: em França nos 50's e nos 60's às portas dos restaurantes podia ler-se "proibída a entrada a cães e portugueses", hoje em dia demasiados portugueses ainda acham que os imigrantes lhes roubam o emprego e/ou o negócio.
Enfim, já vou demasiado longe na conversa, no monólogo perdão, e não quero exagerar porque depois demoro a regressar e ainda quero ir dormir a casa.
Talvez quisesse fazer só um post retórico, e se sim perdoe-me o comment apaixonado, mas que seria de nós sem paixão. Até Ricardo Reis foi apaixonado o suficiente para escrever
"
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio
(...)
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos com o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes
"

PS: Este post é anónimo de propósito. Diga-me lá, se eu lhe disser o meu nome, deixa de ser anónimo. Se um estranho se apresentar a si na rua, dizendo o nome e mostrando a face, deixa de ser anónimo. :P
Todos somos anónimos nesta selva de raposas iguais e igualmente merecedoras de respeito. O segredo está nas vezes em que uma princesa ou um princepezinho nos prende. E isto funciona sempre da mesma forma para mulheres e homens.
Agora que voltei à base, i.e., o título do seu blog, vou-me embora.

Atenciosamente,

David

bagaco amarelo disse...

p. sim. mas admito que é perigoso generalizar. :)

that's all folks, nem me irrita que cada um fale o que mais lhe apetecer. irrita-me a estética e a intensidade que às vezes acompanha o francês de alguns emigrantes. :)

si, tenho a certeza que se fores teres com um tipo que não conheces de lado nenhum, em Aveiro, lhe perguntas em português. mesmo que a primeira vez perguntes em inglês, à segunda já perguntas em português :)

pax, de certeza que é isso, lol. :)

pestana, eu faço o mesmo mas com bicicletas, aqui em Aveiro. em vez de andar de Buga ando com uma Shimano topo de gama alugada. :)

shakti, eu falo francês mas, com o meu sotaque, parece tudo menos fino. :)

anónimo/david, aquilo ali do "não aceito comentários anónimos" é para me defender de alguns comentários que aqui aparecem de vez em quando, principalmente desses imbecis que acham que os imigrantes vêm para cá tirar-nos os empregos. obrigado pela retórica. eu gosto da retórica. :)

Catarina disse...

E se fosse mesmo francesa? Como é que descobriste que era emigrante? Pela pronúncia ou assim?

Didas disse...

Esta é fácil. Porque acreditam que essa é uma das formas de fugir da miséria.

bagaco amarelo disse...

catarina, pela pronúncia, pela companhia e porque percebeu perfeitamente o meu português. :)

bagaco amarelo disse...

didas, isso deve ser verdade... só que não resulta. :)

Pax disse...

E qu' est ce que tu pense? Que falar português que nâ canse?!

Bia disse...

pois, eu também não entendo... devem achar-se os únicos portugueses a falar uma língua estrangeira, não sei!

Gato Aurélio disse...

... e não pode sentir-se envergonhada por já cometer muitos erros a falar português...?

;O)

ó biê lá disse...

Sim... quando descobrires a fórmula para fazer ouro avisa-me!

eu fui noutro dia a um baptizado de uns amigos de França...era Agosto.. e o emigrante era eu... era o unico ali que nao sabia falar Frances....e saí de lá a pensar que era o único que sabia falar portugues.

albana disse...

ola
as vezes dá vontade de rir, já assisti a uma cena assim:
"-Tony poe o menino dentro da voiture"

boa semana
Albana

bagaco amarelo disse...

pax, a mim cansa-me, por acaso, às vezes.... :)

bia, e logo comigo que falo norueguês e urdu. :)

gato aurélio, pode... mas não deve. :)

ó biê lá, lol... eu nem ia. arranjava logo uma má disposição. :)

albana, já vi cenas assim do género, já... mas essas nem me chateiam. são mesmo erros, não são armanços. :)

Isa disse...

Eu já estou habituada LOL
O motivo n interessa nada :P
Mas qt aos emigrantes.. acho triste que eles qd vêm p cá, n falem a lingua materna deles! e se exibam, sem qq mérito...

bagaco amarelo disse...

isa, sim, concordo contigo... mas nem todos o fazem. :)