1.18.2012
1.16.2012
pensamentos catatónicos (269)
Devo dizer que detesto a palavra fashion ou, se preferirem, acho a indústria da moda e as passagens da Fátima Lopes a coisa mais imbecilóide que pode haver. A roupa e o calçado para mim são apenas isso mesmo: roupa e calçado. Ponto
O que eu me lembro de gostar de calçar, quando era a criança, é das botas de borracha que me permitiam saltar para as poças de água sem molhar as meias e os pés. A minha mãe também as adorava, mas porque eram baratas e me calçavam durante toda a época chuvosa do ano. Lembro-me de percorrer o caminho entre a minha casa e a escola primária com as minhas vermelhas calçadas, saltando de poça em poça de água como um gafanhoto errante.
Para além das crianças, as únicas pessoas que usavam botas de borracha eram os agricultores, exactamente com o mesmo motivo de não molhar as meias nem os pés. A única diferença é que as botas deles eram pretas e as das crianças eram às cores. A Helena, por exemplo, tinha umas azuis de que nunca me esqueci. Lembro-me delas a tentarem pisar as minhas numa brincadeira do recreio.
A Helena foi a minha namorada da infância, ou seja, foi a minha namorada que nunca o chegou a ser. Lembro-me de fugir da escola com ela para andar de baloiço no parque, de dividirmos os nossos lanches pelos dois, de nos sentarmos em cima do ramo duma árvore onde planeávamos construir uma cabana que nunca chegou a existir. Depois os pais dela foram viver para Lisboa e roubaram-na de mim. Nunca mais a vi.
Um destes dias, enquanto passeava com a Raquel, vi umas botas de borracha assim, iguais às que eu e a Helena usávamos em criança. Eram as mesmas, só que em vez de estarem amontoadas numa caixa na velhinha sapataria Lé, em Aveiro, estavam numa prateleira de vidro iluminadas por dois focos como se fossem o actor principal dum filme hollywoodesco qualquer. Custavam mais de cem euros e uma adolescente gritava com a mãe hesitante para que lhas comprasse.
A Raquel disse-me que agora é normal, que as botas de borracha estão na moda e são um produto quase de luxo. Por um momento pensei na Helena e desejo, em nome das memórias da minha infância, que ela não se tenha tornado assim, alguém que anula o sentido prático e divertido da vida para se colocar numa iluminada mas entristecida prateleira de loja, que é o que a palavra fashion nos faz a todos. É por isso que a detesto. Ponto.
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conversa 1874
Ela - As pessoas infelizes costumam ser histéricas de vez em quando.
Eu - Costumam?
Ela - Costumam. A histeria é uma máscara de felicidade.
Eu - Não sei se é.
Ela - Estou a falar daquela histeria festiva, em que uma pessoa faz a festa, lança os foguetes e ainda vai apanhar as canas.
Eu - Ah! Talvez...
Ela - Não é talvez, é de certeza. Eu sei porque também sou assim.
Eu - Histérica?
Ela - Sim.
Eu - Mas és infeliz, tu?
Ela - Sim, sinto-me infeliz.
Eu - Tem piada, nunca me pareceste uma mulher infeliz. Muito pelo contrário.
Ela - Lá está, isso é porque sou histérica. Tu és lento das ideias, não és?
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1.12.2012
conversa 1873
Eu - Desculpa lá interromper-te, mas estou cheio de dores de cabeça e preciso dormir. Dá para falarmos amanhã?
Ela - Dói-te a cabeça?
Eu - Sim.
Ela - Não costumas ter dores de cabeça...
Eu - Acho que é por não ter tomado café. Importas-te? Preciso dormir...
Ela - Ah! Sei que dor de cabeça é essa. Tomas um café e pronto, está resolvido.
Eu - Mas é que eu ando com a tensão muito alta e estou a tentar deixar o café.
Ela - Ah! Então não tomes. É perigoso ter a tensão alta.
Eu - Eu sei. Beijinho e até amanhã. Depois ligo-te...
Ela - Estás a despachar-me?
Eu - Não, é que preciso mesmo de dormir porque estou mal disposto.
Ela - Ah! Já podias ter dito.
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1.11.2012
respostas a perguntas inexistentes (193)
Não há Amores fáceis. Por estranho que pareça também não há Amores difíceis. Os Amores são todos mais ou menos iguais. A única diferença está em que alguns Amores o são mesmo, outros não. O que torna os Amores todos iguais é o facto de cada um ser único. É nisso que são todos iguais. Não há nenhum Amor que se compare ao meu, assim como o meu também não se compara a nenhum outro. É por isso que ele não é fácil, nem difícil. É o meu Amor. Só isso.
A unicidade do Amor acaba com a ideia de perfeição, seja ela a perfeição cristã de Santo Agostinho ou a positivista de Kant. No Amor busca-se precisamente o contrário: a imperfeição. É ela que é única e é ela que tem a capacidade de nos fascinar. Por ser isso mesmo: única. A ideia absolutista de perfeição é, aliás, uma seca de todo o tamanho e por isso impossível de ser objecto de Amor.
É como se cada um de nós se apaixonasse por um lugar, porque um Amor é isso mesmo. Um lugar. Ninguém mais lá entra, nessa grandiosa imperfeição que só duas pessoas são capazes de criar. Amo-o todo, esse lugar, e é por isso que cuido dele o melhor que sei e posso, para que um dias destes não me apeteça abandoná-lo. É a minha tentativa de prolongar o Amor no tempo. Hoje, por exemplo, acordei de manhã e plantei-lhe uns Amores Perfeitos, para lhe poder chamar também isso, pelo menos em parte. Um Amor Perfeito.
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1.10.2012
conversa 1872
Eu - Li no jornal que na Tailândia um homem casou com o cadáver da namorada.
Ela - Com o cadáver?
Eu - Sim. Ela morreu num acidente de viação e ele estava tão apaixonado que casou com ela já morta. É bonito, parece a história de Pedro e Inês...
Ela - Nem é mal pensado, se virmos bem.
Eu - Em que aspecto?
Ela - Pelo menos assim não se divorciam. Se o meu marido estivesse morto quando me casei com ele, tinha sido tudo muito mais fácil.
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depois a Raquel chegou
Hoje, quando peguei no jornal do café para ler as gordas enquanto esperava pela torrada seca e pelo galão directo do costume, subi-o mais um pouco do que o habitual de forma a que ele me tapasse a cara. Mesmo assim quase todos me perguntaram se eu estava bem. A dona do estabelecimento que passa mais tempo na caixa a contar o dinheiro do que a atender os clientes, a empregada que passa o dia a varrer o estabelecimento com os próprios pés, o homem que vende cautelas da lotaria, a mulher que tem um cabeleireiro mesmo ao lado e vem sempre tomar café de bata vestida.
Não gosto que me perguntem se estou bem quando não estou. Ainda fico pior. A pergunta "estás bem?" só devia surgir quando o inquirido se sente de facto bem, caso contrário fá-lo ter uma noção mais intensa do seu próprio mal-estar. O "sim" não sai por ser mentiroso, o "não" não sai por ser inesperado e doloroso. Abanei os ombros a todos com um mastigado "hum hum".
A torrada lá veio, não tão seca quanto o desejado, e o galão também, não tão quente quanto o desejado. Nunca vem nada como o desejado quando o próprio dia não está a ser o que desejámos. Dobrei o jornal em dois, como se fosse possível fechar ali para sempre as más notícias sobre violência e sobre a crise económica, e dei a primeira dentada numa das tiras de pão protestando com a empregada pelo excesso de manteiga derretida.
Depois a Raquel chegou, sentou-se ao meu lado, e perguntou-me se eu estava bem. E eu respondi que sim, até porque já estava.
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1.06.2012
conversa 1871
(ao telefone)
Ela - Vais ter ao café?
Eu - Vou. É só pôr um casaco e saio já.
Ela - Eu também vou só trocar de roupa. São cinco minutos...
Eu - Ah! Se vais trocar de roupa são mas é uns trinta ou quarenta minutos. Então espero mais um bocado.
Ela - Isso foi alguma boca foleira?
Eu - Não, não...
Ela - Bem, demora o tempo que quiseres mas não te arrisques a chegar depois de mim.
Eu - Então diz-me a que horas sais de casa...
Ela - Não digo nada. Não sei bem, por isso não digo. Só digo que não podes chegar depois de mim, senão fico sozinha numa mesa e não gosto.
Eu - Se chegar eu antes, fico eu sozinho numa mesa...
Ela - Claro, que é para eu não ficar.
Eu - Ah!
Ela - É preciso explicar tudo...
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pensamentos catatónicos (268)
Outra coisa que parece é que é fácil mas a sério que também não é. O verbo querer é um dos piores para quem Ama, porque é no Amor que queremos tudo e nada ao mesmo tempo. Acho que é por isso que as pessoas gostam de ir às compras. Para se conseguir o que se quer nas compras basta ter dinheiro. Para se conseguir o que se quer no Amor não há nada que baste. A não ser, talvez, a imensa sorte de Amar alguém que compreenda isto. Compreendem?
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1.04.2012
conversa 1870
Ela - O meu marido nunca percebeu muito bem o que eu queria realmente dizer quando lhe dizia que o Amava.
Eu - E querias dizer o quê? Não era que o Amavas?
Ela - Não, claro que não.
Eu - Ui! Então era o quê?
Ela - Que naquela altura me sabia bem estar com ele.
Eu - Não me digas, por favor, que as mulheres são todas como tu.
Ela - A maior parte são, acho eu.
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a última sessão
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1.03.2012
conversa 1869
(ao telefone)
Eu - Temos que beber um copo um dia destes.
Ela - Dizes sempre isso mas depois nunca convidas.
Eu - Por acaso tens razão, admito que sim...
Ela - Se não me telefonares para sair neste fim de semana, nunca mais falo contigo.
Eu - Não me digas que eras capaz de deixar de falar comigo só por eu não te telefonar este fim de semana.
Ela - Está bem.
Eu - Está bem o quê?
Ela - Não digo.
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batatas fritas
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1.02.2012
conversa 1868
Eu - Acho que gostava de assistir a uma mudança política para a esquerda que pusesse um fim definitivo à pobreza e à miséria. E tu?
Ela - Bem... com essa resposta até perdi a vontade de dizer...
Eu - Vá lá, diz lá...
Ela - Eu estava a pensar que gostava que me crescessem as mamas um bocadinho.
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coisas que fascinam (137)
Está tudo bem. Encho um copo de água e encosto-me ao parapeito da janela de onde, dissimulado por um cortinado amarelecido, vejo a minha paisagem de todos os dias como se fosse a primeira vez. É que há dias assim, em que todas as mulheres que passam são o que nós imaginamos. É a vantagem de lhes perceber apenas o vulto que a distância dum quinto andar permite. E eu imago-te a ti em todas elas.
A passagem dum ano é a mesma coisa que a passagem doutro dia qualquer. Vem a noite e depois a manhã outra vez. A única diferença é que por qualquer motivo há mais pessoas a fazer promessas a si mesmas. A partir de agora não bebo mais, a partir de agora vou correr para o jardim da cidade, a partir de agora vou ser feliz ou a partir de agora outra coisa qualquer. Eu prometi que a partir de agora vou olhar para ti todos os dias como se fosse a primeira vez.
Está tudo bem. O copo de água vai a meio e ouço-te entrar. Bateste a porta com mais força do que o habitual e eu sei que foi para avisar que chegaste. Sei também que até te encontrar tenho que passar pelo corredor comprido que liga o quarto à entrada. São cerca de três ou quatro segundos, o suficiente para amarrotar todas as preocupações que tenho como se fossem folhas finas e mandá-las para um escondido escaninho da minha memória. É assim que te vejo pela primeira vez todos os dias, é assim que me percebo apaixonado por ti. É assim que te desejo bom ano.
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12.29.2011
conversa 1867
Eu - É sinal que está vivo.
Ela - Eu também estou viva e não sou assim.
Eu - Pois...
Ela - Ao contrário dos homens, as mulheres não deixam que falta de sexo as deprima. Deixam é que as depressões as façam perder vontade de ter sexo.
Eu - Ah!
Ela - Pelo contrário, o meu marido quer sempre sexo, mesmo que esteja deprimido.
Eu - Mas isso é porque a depressão dele, segundo o que dizes, se deve à falta de sexo. A cura, portanto, só pode passar por "pinar" mais...
Ela - Lá está. Acho que é a única coisa que o deprime...
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Amor, política, segredos e 2012
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12.26.2011
pensamentos catatónicos (267)
Hoje, assim como quem não quer a coisa, comecei a fazer um desenho enquanto esperava pelo almoço, creio que uma árvore solitária junto a um caminho que desaguava na linha do horizonte. Mas acabei por fazer um gatafunho. Já não me lembro muito bem, mas acho que me desviei da ideia inicial quando me apercebi que a árvore estava a ficar desequilibrada. Pelo menos quando comparado com aquilo que eu queria. O gatafunho foi assim uma forma de eu não insistir mais num desenho que me estava a fugir da mão. Assumi o erro e aniquilei-o com uma bomba de tinta. Depois almocei calmamente.
O almoço, arroz com legumes e carne de aves, caiu-me bem. Acho que devia ter aprendido a fazer gatafunhos mais cedo na minha vida, ou melhor, devia ter tido a coragem de começar a fazer gatafunhos mais cedo. É que o Amor acaba por ser mais ou menos como um desenho a esferográfica. Não aceita emendas de ânimo leve. Quando as fazemos elas ficam lá para sempre. Notam-se, e mesmo que não queiramos, às vezes incomodam.
Depois da sobremesa tornei a olhar para o desenho e, em vez de do gatafunho, a minha primeira interpretação mental do desenho foi a de uma árvore. De novo. Não a árvore que eu queria, mas outra qualquer. Não interessa, afinal de contas era um desenho passado onde, tal como nos Amores passados, fica um bocadinho de nós, da nossa tinta e da nossa mão. Mas são para arrumar numa gaveta daquelas que não se abrem mais.
O desAmar é um processo tão legítimo como o de Amar. A única diferença é essa. A Amar desenhamos, a desAmar fazemos gatafunhos. Tentar desenhar enquanto se desAma é um erro. Pelo menos é um processo penoso. Acredita em mim.
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12.23.2011
conversa 1866
Ela - O Natal é bom é para as crianças, pelo menos aquelas que acreditam no Pai Natal.
Eu - Também acho.
Ela - Se ele existisse mesmo é que era fixe... com esta crise!
Eu - Sim, se me desse um bacalhau e uma garrafa de Porto, ficava-lhe grato.
Ela - Ah! Não estava a falar dessa crise. Estava a falar da minha crise.
Eu - Qual?
Ela - O que eu pedia ao Pai Natal era uma noite de sexo.
Eu - Ah!
Ela - E tu?
Eu - Por essa ordem de ideias não lhe pedia nada, a não ser que ficasse bem longe de mim.
Ela - És sempre o mesmo.
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respostas a perguntas inexistentes (192)
Nunca tive saudades da juventude. Ser adulto foi a melhor coisa que me aconteceu em quase todas as vertentes da vida, e no Amor também. Do que tenho saudades é de não contar o tempo. Não aquele que vai passando mas sim o que falta passar, esse que contabilizo atabalhoadamente por nem sequer saber quanto é. E é assim que Amo. É bom, mas também é uma pena.
Deixei de me ver ao espelho, porque na verdade nunca o fiz para me pôr mais bonito. Aliás, nunca acreditei que pudesse almejar beleza alguma. Acreditei, isso sim, que tinha toda uma eternidade para ser a estrela principal de um Amor qualquer, e por isso sempre me vi ao espelho para ensaiar gestos e palavras. Só isso, ou talvez tudo isso. Nem sei bem. Sei que foi por aí que o Amor me faltou algumas vezes. Porque o ensaiei em vez de o improvisar.
É isso que é ser adulto, saber Amar de improviso neste incontável tempo que sobra. O Amor penteia-se ao espelho devagar enquanto eu olho ansioso para o relógio da vida. Peço-lhe em silêncio que pare, que me sirva um beijo numa taça de anis. Que me canse. É por isso que o meu reflexo lhe sorri enquanto os seus cabelos dançam na tempestade de vento do secador eléctrico. É igual à minha, essa tempestade, violenta e contida. É assim que se improvisa.
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12.21.2011
lamechices
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12.19.2011
conversa 1865
Ela - Prefiro ter pouco sexo do que muito.
Eu - Porquê?
Ela - O sexo é melhor quando se tem pouco.
Eu - Ah!
Ela - Até já disse isso ao meu marido, porque por ele é "dia sim, dia não".
Eu - "Dia sim, dia não" é muito?
Ela - Então não é?
Eu - Estava só a perguntar a tua opinião. E o que é que o teu marido disse, já agora?
Ela - Disse que prefere sexo menos bom em grande quantidade do que bom só de vez em quando.
Eu - Ena!
Ela - Pois... por isso é que no Natal lhe vou oferecer um vibrador.
Eu - Um vibrador?!?!?! Mas... não era mais indicado uma boneca insuflável?
Ela - Se o que lhe interessa é a quantidade, que pegue no vibrador e o enfie onde quiser.
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pensamentos catatónicos (266)
O pior é que crescemos a pedir. É natural numa criança pedir sempre o objecto do seu desejo. Depois, quando chegamos a adultos, percebemos que o pedido mais importante de todos não pode ser satisfeito. Pior, se temos que o pedir já é mau sinal. O pior sinal de todos. Ela pousou a chávena, deixou moedas em cima do balcão para pagar os dois cafés e deu-me um beijo com a palma da mão, beijando-a primeiro e acariciando-me depois. Até à próxima, disse.
Nunca percebi como é que ela sabia que eu lhe ia pedir para se apaixonar por mim...
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12.18.2011
conversa 1864
Ela - Uma discussão entre duas pessoas devia servir para perceber quem tem razão.
Eu - E não serve?
Ela - A maior parte das vezes não. Serve para que cada um imponha a sua razão.
Eu - Ah! Percebo o teu ponto de vista.
Ela - Às vezes, mesmo quando uma pessoa já percebeu que não tem razão, continua a insistir que tem. Principalmente entre marido e mulher, é muitas vezes assim...
Eu - Tu costumas fazer isso?
Ela - Não, não costumo. De facto só o faço com o meu marido.
Eu - Ah!
Ela - Mas ele também faz comigo.
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12.17.2011
um homem na meio di homem
Lembro-me de ver uma entrevista com a Cesária Évora na televisão em que, à pergunta sobre o que lhe fazia mais falta na vida, ela respondeu que era um marido. Respondeu assim, sem hesitações. Um marido. Depois encolheu os ombros e olhou para o lado. A Cesária Évora cantava para o mundo ou, se preferirem, para todos. No entanto, o que lhe fazia falta era um entre esses todos.
Há um Amor que não pode ser dado por todos, mas apenas por um, mesmo que todos o queiram dar. É o Amor que a nossa carne quer como se fosse música. Para além dessa música que ela ofereceu ao mundo, também me ofereceu esse pensamento nesse dia. Só a mim. Obrigado.
Um homem na meio di homem
Bô ta ser nha fidjo, um dia
Oiá sô pa bem dess mundo
Luminosamente bô caminhá
Pa entrá na vida d'home
Sem medo e sem angustia
Ah sofrimento é bem certo
Ma alegria t'existi
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12.15.2011
o bosão de Higgs
Pensando bem, talvez até tenha sido melhor assim. Ele também nunca olha nos olhos das mulheres que lhe interessam, pelo menos à primeira. Não tem coragem. Contou a história ao melhor amigo, pelo telefone, enquanto a água para o arroz branco ia fervendo, e ele não percebeu como é que uma mulher que apenas passou por ele lhe pode interessar tanto. Mas interessa, por isso é que se lembra dela e não das outras mais de mil pessoas que passaram por ele.
O Amor também tem um Bosão de Higss, uma partícula elementar à sua existência. Pode ser o olhar, por exemplo. Tudo começa à escala mais pequena possível deste mundo, até um grande Amor. E se um dia destes passar por ela de novo, talvez os seus olhos se evitem como o voo de duas moscas tontas para depois chocarem finalmente um no outro. Foi assim que se apaixonou a última vez e depois surgiram mais choques em cadeia: o dos lábios, o das mãos e o do corpo. Do corpo todo.
Hoje um homem passou por uma mulher e agora não consegue sentir o sabor do sal da comida. Nem sequer tem muita fome. Dá mais um gole no copo de vinho. Talvez um dia destes...
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12.14.2011
conversa 1863
Eu - É natural, tens trinta e três anos. A maior parte das mulheres começa a ser melhor na cama a partir dos trinta, mais coisa menos coisa. O divórcio não tem nada a ver com isso.
Ela - Achas mesmo?
Eu - Acho, mas é só uma opinião e vale o que vale...
Ela - Às tantas até me divorciei por causa disso mesmo.
Eu - Disso mesmo?
Ela - Sim, acho que tinha uma vida sexual frustrada, assim sem grande prazer. Agora que me sinto mais preparada não posso continuar com o mesmo namorado de sempre...
Eu - Ele não tem culpa nenhuma de ter começado a namorar contigo muito antes dos trinta...
Ela - Pois não... mas tem culpa de ter agido como um cavalo quando a mim não me apetecia nada ir para a cama com ele.
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12.13.2011
conversa 1862
Eu - Pois está, pois está.
Ela - O meu salário mal chega para as despesas essenciais: água, electricidade, comida, tv por cabo...
Eu - Tv por cabo?! A tv por cabo é essencial?
Ela - É, claro.
Eu - Olha, eu não tenho tv por cabo precisamente para poupar dinheiro.
Ela - Mas isso é porque vives muito tempo sozinho.
Eu - Por isso mesmo é que à partida precisaria de ter mais alguns canais de televisão.
Ela - Não, não. Não tens que fingir que estás muito interessado num programa qualquer só para não te chatearem a cabeça...
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conversa 1861
Eu - Está bem. Para ser sincero não me lembro de me teres dado nenhuma prenda de Natal nos anos anteriores. Nem eu a ti, aliás...
Ela - E não dei. Só que este ano ia dar, se não fosse a crise.
Eu - Ah!
Ela - Pronto, está explicado.
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12.12.2011
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12.09.2011
conversa 1860
Eu - Fui...
Ela - Estiveste em algum minete?
Eu - Em algum minete?!
Ela - Sim, aquelas torres das mesquitas... disseram-me que não se pode ir a nenhuma.
Eu - Talvez queiras dizer minarete...
Ela - É isso, vai dar tudo ao mesmo.
Eu - Pois... o problema é que não vai.
Ela - Não vai?
Eu - Não... não sabes o que é um minete?
Ela - É o quê?
Eu - Tecnicamente é passar a língua no clitóris e nos lábios vaginais duma mulher...
Ela - Ah! Caraças...
Eu - O que foi?
Ela - Já sei porque é o meu amigo muçulmano com quem falei sobre isto se estava a rir...
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a mulherzinha do metro de Londres
O racismo não é estúpido apenas pelo ódio gratuito que se tem a outras pessoas, mas também pela gratuitidade do seu espírito corporativista. Isto é, seria tão estúpido eu detestar alguém pela sua cor de pele, como seria eu acreditar que essa minha cor de pele pudesse constituir só por si um grupo social. Não constitui, e eu não me sinto parte de nenhum clube de brancos. Aliás, como em tudo, há brancos de que gosto e de que não gosto.
Mas a ignorância desta senhora que agrediu verbalmente 'estrangeiros' no metro de Londres, e que pergunta a si mesma onde é que o seu país chegou só por estar 'invadido' por 'pretos' e 'polacos' passa em muito esta evidência do materialismo dialéctico, ou da vida, se preferirem...
Pouca gente sabe, por exemplo, que a Etiópia (um dos países do planeta com problemas mais graves de fome entre a sua população) arrendou este ano ao Reino Unido uma área agrícola equivalente à do distrito de Lisboa durante cinquenta anos por cerca de... setecentos euros por mês (um preço abaixo do de um apartamento minúsculo no centro de Londres). Nesta área enorme, latifundiários ingleses estão a produzir soja, óleo de palma, algodão e açúcar para, imagine-se exportarem para a própria Etiópia. Por causa deste negócio que visa apenas enriquecer os bolsos de alguns, poucos, milionários britânicos, foram relocalizados pelo governo daquele país africano cerca de quinze mil etíopes que viram a sua pobreza extrema ainda mais agravada.
É possível que alguns desses etíopes se vejam obrigados a deixar os seus lares e tenham que emigrar para Londres onde, apesar de escravizados num emprego de merda qualquer, sempre vão arranjando qualquer coisa para comer. É possível também, claro, que um desses etíopes encontre depois no metro um mulherzinha destas, alguém que se irrita com a presença de pessoas doutra cor e se ache no direito de as ofender. É tudo possível...
É claro que esta mulherzinha é mesmo só isso, uma mulherzinha, da mesma forma que eu sou um homenzinho. Temos isso em comum, somos tão insignificantes que a única coisa que nos une é podermo-nos cruzar um dia destes no metro de Londres sem sabermos o que o outro pensa, a não ser que um de nós decida levantar a voz. Eu, ela ou um etíope qualquer...
ver reportagem no The Guardian
opinião n'A Ilusão da Visão
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12.07.2011
conversa 1859
Ela - Há homens que não sabem mesmo beijar.
Eu - Há?
Ela - Há. Parecem aspiradores de alta potência.
Eu - É por isso que estás com esses 'chupões' na cara?
Ela - É.
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a máquina de fazer pipocas
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12.06.2011
conversa 1858
Ela - Este ano não vou comprar prendas de Natal a quase ninguém, que não há dinheiro. Compro uma ao meu filho e pouco mais.
Eu - Eu também só vou comprar uma à minha filha e outra à minha namorada. Mais nada. Por um lado até é bom, que é um alívio não ter que andar nas compras.
Ela - Mas às compras eu vou na mesma, que há sempre umas prendas que tenho que dar a mim mesma.
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12.02.2011
respostas a perguntas inexistentes (191)
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conversa 1857
Eu - Há-de correr, não te preocupes. De qualquer maneira é sempre preciso ter cuidado com a expectativa.
Ela - Com a expectativa?!
Eu - Sim, no princípio é preciso não pôr a expectativa muito alta, para depois não sofrer dissabores amorosos muito grandes.
Ela - Ah! O meu problema se isto correr mal nem é bem o dissabor amoroso.
Eu- Não?
Ela - Não. É que quando estou sozinha passo muito tempo em casa e engordo. Foi o que me aconteceu da última vez que me separei.
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respostas a perguntas inexistentes (190)
Às vezes Amar dá-me medo, principalmente quando me despeço de quem Amo e atravesso a rua dizendo-lhe adeus. Fico a vê-la desaparecer na primeira curva e a distância entre nós ganha peso. Ela vai de carro e eu a pé, sempre em direcções opostas. É quando me apercebo que um eventual fim desse Amor seria como uma amputação duma parte qualquer do corpo. Um braço ou uma perna, por exemplo. Seria consistente, seria físico.
Depois caminho contando os passos. É o que eu faço sempre que tenho medo: invento uma coisa inútil para fazer. Da casa dela ao primeiro semáforo são cerca de duzentos e vinte passos, e é nesse semáforo que deixo de os contar. Fico a ver os automóveis impacientes pela mudança de cor e lá dentro só estão pessoas sós. Algumas irão trabalhar, talvez a maior parte, e percebo que a normalidade é afastarmo-nos uns dos outros. Alívio.
Foi com esse alívio que hoje me detive perante o verde para peões e o vermelho para os automóveis. Fiquei a ver a condutora do primeiro carro da longa fila de automóveis que ali se forma de cada vez essa combinação de cores se dá. Fumava um cigarro nervoso, abria a porta do veículo e tornava a fechá-la como se estivesse estragada. Depois direccionou o espelho retrovisor para se pentear com os dedos. Quis acreditar que ela vinha de uma despedida apressada e que por isso ainda tinha tudo por fazer: fumar, fechar a porta e pentear-se.
É isso que é uma despedida entre duas pessoas que se Amam: o Amor e a vida que ficam por fazer. Não é medo. Ainda bem.
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não venhas tarde
Não venhas tarde,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde,
Do que me pedes baixinho.
Não venhas tarde,
E eu peço a Deus que no fim,
Teu coração ainda guarde,
Um pouco de Amor por mim.
Tu sabes bem,
Que eu vou para outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer.
Tu estás sentindo,
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer sorrindo,
Meu Amor, não venhas tarde.
Não venhas tarde,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde,
Na fogueira do ciúme.
Não venhas tarde,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela.
Tu sabes bem,
Que eu vou para outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer.
Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
Meu amor, não venhas cedo.
Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde de mais.
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11.30.2011
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conversa 1856
Ela - Não enchas tanto. Isto não é um tasco.
Eu - É a minha casa, o que vai dar mais ou menos ao mesmo.
Ela - Mas põe menos. Não gosto de copos tão cheios...
Eu - O.k.
(uns minutos depois, com ela a encher o meu copo)
Eu - Podes pôr mais um bocadinho? Isto aqui não é um hotel de luxo.
Ela - Estás a chamar-me dondoca?
Eu - E tu estavas a chamar-me tasqueiro, há bocado?
Ela - Estava. É o que tu és, a pôr vinho no copo até transbordar...
Eu - E tu?! a pôr umas gotas que nem para um gole decente chegam...
Ela - Achas que isto significa que entre nós os dois nunca poderia haver nada mais do que uma amizade?
Eu - Acho, definitivamente.
Ela - Pelo menos acertámos em alguma coisa. Nunca namorámos...
Eu - Sim... se bem que és uma amiga esquisita.
Ela - Esquisita porquê?
Eu - Estás sempre sóbria, séria e nunca abraças ninguém...
Ela - Tu é que és um bêbado. Sempre corado e a cantar o fado...
Eu - É só à noite. Tu é que nem à noite...
Ela - Bem... achas que a personalidade de cada um tem a ver com a maneira como enche o copo de vinho?
Eu - Tem, claro que tem.
Ela - Pois, deve ter. Ainda bem que somos amigos apesar das nossas diferenças...
Eu (abraçando-a) - Claro que sim.
Ela - Mas não me toques. Chega para lá que já cheiras um bocado a vinho...
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11.29.2011
conversa 1855
Ela - Era tão bom que os homens percebessem que nem sempre que uma mulher ralha com um homem é por estar zangada com ele.
Eu - Então é porquê?
Ela - Porque precisa, obviamente.
Eu - E como é que se distingue quando ela está zangada e quando não está?
Ela - Não distingue.
Eu - Então como é que um homem pode perceber?
Ela - Não pode, mas era bom que bom que pudesse. É só o que eu estou a dizer.
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coisas que fascinam (136)
Desta vez acrescentei um shot de uísque ao leite e uma música ao silêncio, como se já soubesse que tinha sido a saudade a despir-me os lençóis e acordar-me extemporaneamente. Ela e o facto de ter adormecido sem lhe enviar uma mensagem a dizer-lhe que gosto dela. São repetitivas, essas mensagens, mas por isso é que são importantes. É como se a repetição se renovasse de cada vez que nasce o dia. É por isso que quando as envio a meio da noite fico à espera que amanheça, que é como quem diz, à espera que ela acorde.
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11.25.2011
Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher
Hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, e não me lembro de nenhuma maneira melhor de o celebrar do que dizendo à Raquel que a Amo. Só.
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conversa 1854
Ela - Conheces alguém que precise de um candeeiro de pé alto?
Eu - Assim de repente não sei.
Ela - É que eu comprei um, mas como já tinha outro ainda em bom estado estou a dá-lo. Não o quero pôr no lixo.
Eu - Mas compraste um quando já tinhas outro?
Ela - Sim, qual é o problema? Apaixonei-me por um que vi numa loja, não resisti e comprei-o. No fundo é o mesmo que já fiz com homens.
Eu - Com homens?
Ela - Sim. Apaixonei-me por um novo, tive que dar o que já tinha em casa. Há sempre quem precise, principalmente se estiver em bom estado.
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os indignados
O "ir indo" é a repetição do mesmo verbo em dois tempos diferentes, sendo que acaba sempre com o gerúndio "indo". É uma pescadinha de rabo na boca em que um verbo auxiliar se auxilia a si mesmo.
Os portugueses devem ser os melhores do mundo a "ir indo". Vamos indo no emprego, vamos indo no Amor, vamos indo na vida. Por isso é que nunca vamos a lado nenhum a não ser onde nos levam.
Os polícias portugueses raramente percebem que fazem parte dos que "vão indo", e só por isso é que reagem de forma abrupta contra quem se indigna com esta forma de contornar a vida durante uma vida inteira. E esta é a minha homenagem sincera a todos os que se indignam, porque é por eles que a vida passa.
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11.22.2011
conversa 1853
Eu - Percebo perfeitamente. Nunca puseste a hipótese de ter um namorado que vivesse noutra casa?
Ela - Claro que sim, mas quando se é novo chega sempre a altura em que o homem quer juntar os trapos... e eu nunca quis.
Eu - E a coisa falhou sempre por causa disso, certo?
Ela - Sim, mais ou menos. Mas eu sempre quis dividir a minha com alguém. O que não quis dividir foi a minha casa.
Eu - Ah!
Ela - Cheguei a propor a um gajo por quem estive loucamente apaixonada, quando eu tinha aí uns vinte e cinco anos, que alugássemos apartamentos um ao lado do outro. Mas ele não quis...
Eu - E agora com quarenta, ainda pensas assim?
Ela - Agora tenho cinco gatos a viver comigo. São os homens que não querem viver comigo...
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Ainda bem que o fiz, de qualquer maneira. Foi a pontapear pedras que me apaixonei, quando uma delas falhou o alvo e foi bater nos pés duma mulher. Pedi-lhe desculpa pelo meu passatempo estúpido de pontapear pedras para buracos de esgoto e ela sorriu. "Que coincidência", disse. "É o que eu ando a fazer".
Dei-lhe a mão e um beijo e começámos a caminhar os dois. Até hoje, sempre a desviarmo-nos das pedras daqueles que escolheram o caminho mais fácil.
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11.21.2011
conversa 1852
(no café, eu a voltar da casa de banho)
Eu - Pedi mais uma cervejinha. Vamos embora depois, está bem?
Ela - Pediste mais cerveja?! Eu não queria mais. Já bebi o suficiente...
Eu - Não faz mal. Só pedi para mim...
Ela - Só pediste para ti? És dum egoísmo puro.
Eu - Mas ainda ainda agora disseste que não querias mais...
Ela - Uma coisa é eu não querer mais , outra coisa é tu te esqueceres de pedir uma cerveja para mim.
Eu - Não me esqueci. Foi de propósito que não pedi outra. Calculei que não queria mais...
Ela - Deixa-te de fazer cálculos sobre mim, está bem? Só te peço isso...
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pensamentos catatónicos (264)
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11.18.2011
conversa 1851
Ela - Como é que se Ama uma mulher que não quer ser Amada?
Eu - Não percebo. Estás a falar de quem?
Ela - Sei lá. Talvez de mim.
Eu - Mas quem é a mulher que não quer ser Amada?
Ela - Sou eu.
Eu - Se não queres ser Amada, qual é o problema em não saber como?
Ela - Eu não quero ser Amada, mas queria querer.
Eu - Desisto.
Ela - Desistes de quê?
Eu - De ter esta conversa. Por favor, poupa-me.
Ela - Estás a ver?
Eu - Estou a ver o quê?
Ela - Não consigo manter uma conversa com ninguém.
Eu - Também não ajudas.
Ela - Era o que eu estava a dizer.
Eu - Socorro.
Ela - O que é que foi? Sou assim tão chata?
Eu - Não és chata, és confusa.
Ela - Nunca foste uma coisa que não querias ser?
Eu - Já. Empregado duma fábrica a ganhar mal como o caraças, por exemplo.
Ela - Estava a falar de Amor. Nunca te sentiste indeciso no que querias ser ou não?
Eu - Sei lá.
Ela - Pronto, é isso.
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11.17.2011
conversa 1850
Ela - Cortaste o cabelo!
Eu - Cortei.
Ela - Ainda bem. Já estavas com umas guedelhas que não te ficam nada bem.
Eu - Pois estava.
Ela - Mas assim tão curto também não te fica lá muito bem, para ser sincera.
Eu - Então o que é que sugeres?
Ela - Talvez... talvez... sei lá. Não faço a mínima ideia.
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só um desabafo
A imensa grandeza do que já fizemos ou deixámos de fazer só tem lugar no Amor, onde por isso nunca perguntamos a ninguém se já Amou este ou aquele. Talvez fosse interessante viver num mundo assim, com o João a perguntar-me se eu já Amei alguma vez a Clara de Sousa ou a Paula Moura Pinheiro e eu pudesse responder: "A Clara de Sousa está na minha mesa de cabeceira, à espera que eu acabe de Amar a Uma Thurman, mas da Paula Moura Pinheiro nem ouvi falar". Mas não vivemos. O Amor é tão mais grande quanto mais pequeno for, para que possa ser só nosso.
E ainda bem que o Amor é pequeno. Só assim é que pode caber num automóvel estacionado num lugar ermo a meio da noite, numa cama de solteiro onde já estão duas pessoas ou num elevador que avariou e ainda espera pelo técnico. Ainda bem que é tão pequeno que é capaz de se infiltrar nesses lugares em forma de beijo ou sexo, e é nessa gratificante pequenez que tentamos aconchegar a nossa vida o maior espaço de tempo possível. Ainda bem que o grande cabe no pequeno ou o maior no menor.
Vi hoje duas pessoas enxovalharem outra em público, tratando-a como ignorante porque ela ainda não tinha lido um livro qualquer daqueles "obrigatórios". A ignorância está, digo eu na minha imensa pequenez, em não perceber que o mundo é demasiado grande para que um só livro possa ser obrigatório, e que o Amor é demasiado grande para que um enxovalhamento público possa ter lugar. E é só um desabafo...
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11.16.2011
amor entre zombies
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respostas a perguntas inexistentes (187)
As mulheres não gostam de ser comparadas a nada. Nem como ofensa, nem como elogio. Nada. Preferem sempre a autenticidade, embora às vezes finjam que não. Quando fingem que não e sorriem a uma comparação elogiosa qualquer, na verdade não estão senão a chamar estúpido ao homem que a faz. Estão a divertir-se em silêncio, portanto.
Um homem como eu demora muitos anos a perceber isto, e vai fazendo-o durante a vida como se estivesse a atalhar caminho no jogo da sedução, até um dia perceber que nunca seduz ninguém. A razão pela qual o faz durante tanto tempo é simples: um homem gosta sempre dum elogio, seja ele qual for. Chega até a gostar dos elogios que não compreende, desde que lhe pareçam como tal.
Quando um homem diz a uma mulher que ela tem a irreverência da Amy Winehouse, o olhar profundo da Mayra Andrade ou a simplicidade da Scarlett Johansson, não está senão a meter a pata na poça. A mulher quer sempre ser ela mesma. Por outro lado, um homem fica tão feliz se for elogiado pela força do Sylvester Stallone como pelo humor profundo do Woody Allen. Vai dar ao mesmo, desde que seja um elogio.
Um homem sente-se bem se for o melhor, uma mulher sente-se melhor se for única. É essa a diferença e é esse o encanto delas. É que ninguém é melhor do que ninguém mas todos nós somos únicos em alguma coisa, nem que seja por sermos aquilo que mais ninguém é: nós. Um homem vive, portanto, bem com a mentira que o coloca no topo do mundo. Uma mulher só pede que se a descubra. Às vezes é difícil, mas é sempre possível.
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conversa 1849
(no café)
Ela - É verdade que adoptaste um gato?
Eu - É.
Ela (rindo) - Ainda bem. Sempre passa a haver um gato para ver quando eu for a tua casa.
Eu - Ahn?!
Ela - Não percebeste?
Eu - Não.
Ela - Estou a dizer que tu não és gato.
Eu - Claro que não sou gato. Já sei isso há muito tempo. Sou homem.
Ela - Passou aqui alguma gaja boazona?
Eu - Já passaram várias.
Ela - Ah! É que estás com uma enorme incapacidade de raciocínio.
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11.14.2011
conversa 1848
Eu - Foi o meu gato.
Ela - O teu gato?
Eu - Sim. Estava ao meu colo, um cão começou a ladrar lá fora, ele entrou em pânico e arranhou-me todo.
Ela - E eu a pensar que tinhas tido uma noite louca de sexo.
Eu - Credo! Isso dá medo! Achas que um gajo estar a sangrar é por ter tido sexo?!
Ela - Sabe tão bem espetar as unhas na carne dum homem...
Eu - Hum... acho que no Natal vou-te oferecer um cartão, daqueles para gatos, para poderes arranhar.
Ela - Se me ofereceres isso, garanto-te que nem sequer precisas de ter sexo comigo para eu te aleijar.
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11.11.2011
conversa 1847
Ela - Gosto de dias místicos como o de hoje.
Eu - Hoje é um dia místico?
Ela - É dia onze do mês onze do ano onze. É uma data só com onzes...
Eu - O ano não é onze, é dois mil e onze. É um bocadinho forçado dizer que a data só tem onzes.
Ela - Tens a mania de tirar a piada a tudo, não tens?
Eu - Tirar a piada?! Só te estava a informar que estás dois mil anos atrasada na contagem do tempo. Às vezes pode ser-te útil...
Ela - Pronto, já me estragaste a manhã.
Eu - Pelo menos foi só a manhã, não foi o dia todo. É que sendo um dia místico, era chato estragá-lo todo...
Ela - Opá! Saí de casa tão bem disposta, com uma sensação tão boa. Sabia que não devia ter vindo tomar café contigo.
Eu - Se sabias é porque realmente há qualquer coisa de místico no dia. Adivinhaste e tudo...
Ela - Cala-te um bocado, senão entorno-te o meu copo de água em cima.
Eu - Que agressividade latente! Mas o que é que eu fiz?
Ela - Tiraste a piada toda a tudo. Eu andei a ler sobre numerologia por causa disto e podíamos ter tido uma conversa interessante sobre o tema. Mas não, tu nunca deixas...
Eu - Mas se nem sabias em que ano estamos, ainda querias falar sobre numerologia?!
Ela - Socorro! Gosto muito de ti mas às vezes cansas-me.
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conversa 1846
Ela - Nota-se muito que eu sou uma solteirona?
Eu - Porque é que perguntas isso?
Ela - Hoje fui ao mercado comprar fruta e o raio da vendedora disse-me para eu levar mais maçãs para fazer doce, a ver se arranjo homem com esse doce...
Eu - Ah! Isso foi só para te vender mais maçãs.
Ela - Mas nota-se muito ou não?
Eu - Quer dizer... sei lá se se nota ou não.
Ela - Pronto, estou lixada. Nota-se! Está escrito na tua cara que se nota.
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11.10.2011
pensamentos catatónicos (263)
Adoro que não se lembrem de mim no meu aniversário. O melhor que me pode acontecer nesse dia é passar pelo meu melhor amigo e ele perguntar-me como é que ando, dar-me uma pancadinha nas costas e perguntar-me se tenho tempo para um café. Sempre sem me dar os parabéns por uma coisa para a qual não contribuí nada, que foi ter nascido nesse dia. Nascer num dia qualquer é fruto da lei das probabilidades. Mais nada.
Ontem mesmo jantei com uma amiga minha que interrompeu a refeição para enviar os parabéns a um amigo comum. O telemóvel alertara-a para o aniversário dele através dum software qualquer.
- Olha, o António faz anos hoje. Não lhe queres mandar os parabéns?
- Não, não quero.
- Estás chateado com ele?
- Não, não estou. É um bom amigo.
- E não lhe dás os parabéns?
- Não. Não sabia que ele fazia anos hoje...
- Mas agora já sabes. Eu tenho as datas de aniversário dos meus amigos todos no telemóvel. Assim não me esqueço nunca de ninguém.
- Por favor, esquece-te de mim quando for a minha vez... - pedi-lhe entre uma garfada cansada e um gole ansioso no copo de vinho.
Tenho o respeito suficiente por todos os meus amigos para não andar a fingir que decorei a data de nascimento deles. Não decorei nem lhe dou importância, e também não dou importância a que alguém se lembre de mim por causa duma base de dados num telemóvel ou num computador qualquer.
E não é o simples hábito de cumprir uma suposta obrigação que me chateia. O que me incomoda é alguém poder pensar que eu fico feliz porque uma máquina o fez lembrar-se de mim. Por favor, esqueçam-se de mim nesse dia. Se por acaso nos cruzarmos por aí, estou sempre disponível para um café.
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11.08.2011
conversa 1845
Ela - Gosto tanto do teu blogue.
Eu - Do "Não Compreendo As Mulheres"?
Ela - Sim, és um homem encantador.
Eu - Obrigado. Sinto-me lisonjeado.
Ela - És um homem encantador no blogue. Eu, infelizmente, conheço-te pessoalmente e a mim não me enganas tu.
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coisas que fascinam (135)
Tive uma namorada que me pedia constantemente que lhe dissesse que ela era bonita. Sempre me pareceu que ela patinava insegura no meu silêncio sobre aquilo que mais me atraía nela, e por isso obrigava-me a dizê-lo. E eu dizia-o, apesar de forçado e pouco convincente. Não é que ela não fosse bonita, porque era. O problema era ela nunca perceber que o meu silêncio era a maior homenagem a essa beleza.
Às vezes as palavras não chegam para descrever nada. No Amor, diria eu, nunca chegam. É que o Amor é indizível e por isso o silêncio sabe muito mais sobre ele do que todos os livros do mundo juntos. E nessa insuficiência eu lá lhe dizia que ela bonita, com a mesquinha sensação de que estava a dar uma esmola a um pobre, o que me fazia sentir ainda mais impotente. Ela nunca acreditava no que eu dizia porque não sabia acreditar no que eu não dizia. É uma pena as mulheres não saberem ler o silêncio dos homens, pensava eu.
Foi num sábado à tarde que decidimos que não nos sabíamos Amar, e entre algumas lágrimas de dor e alívio a vi diluir-se na multidão da avenida como uma aguarela num banho de cor. É na cor que o que foi não volta a ser, e nós nunca mais voltámos a sê-lo.
Quando uma mulher pede a um homem que lhe diga que ela é bonita, o pedido é fraco. É zero. Quando um homem se silencia perante a beleza duma mulher, o silêncio é forte. É infinito. O silêncio dum homem sobre a beleza duma mulher passa largamente o seu corpo. É um voo sobre a maneira como ela olha, como ela come, como ela adormece, como ela cheira, como ela se penteia, como ela se zanga, chora ou ri. Enfim, como ela respira e Ama. E depois desse voo, só depois desse voo, numa branda aterragem sobre os olhos dela, um homem pode dizer num suspiro que ela é tão bonita. És tão bonita.
A primeira vez que eu o disse assim, desta maneira, tinha trinta e oito anos. Hoje tenho quarenta, e isso fascina-me.
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11.07.2011
conversa 1844
Ela - Eu não aceito amizades no Facebook de quem não conheço pessoalmente.
Eu - Porquê?
Ela - Sei lá se posso confiar numa pessoa que nunca vi na vida. Por acaso conheço-a de algum lado?
Eu - Eu não aceito amizades pessoais de quem não seja meu amigo no Facebook.
Ela - Estás a gozar.
Eu - Não estou nada. Sei lá se posso confiar numa pessoa que nunca foi minha amiga no Facebook. Ainda há dias uma mulher se meteu comigo ao balcão dum bar e eu perguntei-lhe: "Por acaso conheço-a de alguma rede social?"
Ela - Acho que te vou anular como amigo do Facebook.
Eu - Porquê?
Ela - Às vezes acredito que te conheço mas não, não conheço. És estranho.
Eu - Bem, se deixares de ser minha amiga no Facebook, eu deixo de ser teu amigo pessoal.
Ela - Não estou a gostar desta conversa.
Eu - Então não faças "like".
Ela - Às vezes és insuportável. Acho é que tenho que ir às minhas definições pessoais e bloquear-te.
Eu - No facebook ou na vida real?
Ela - Nos dois.
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respostas a perguntas inexistentes (185)
Porque é que beber uma cerveja fresca num dia quente de Verão há-de ser um pequeno prazer da vida? Para mim é um prazer enorme, porque é um dos que eu quero que seja constante. Assim como é um prazer enorme beber um café de manhã, beijar a Raquel quando chego a casa, espreguiçar-me ao meio-dia quando posso acordar tarde ou comer um chocolate com amêndoas em apenas duas dentadas. Esses são os grandes prazeres da vida porque são eles a própria vida, e eu quero que a minha vida seja toda ela um prazer. Não é, mas eu quero que seja na mesma.
Lembro-me de num desses dias de Verão convidar uma amiga para um copo de vinho na praia da Costa Nova. Levei eu uma das melhores garrafas que tinha em casa, dois copos de pé alto e um canivete suíço com saca-rolhas. Servi-a enquanto o Pôr do Sol nos espreitava corado no horizonte, e quando bebeu o primeiro gole começou a falar daquele momento como um pequeno prazer da vida. Para mim aquele era um prazer grande, talvez até dos maiores que se possa imaginar, mas ela continuou a insistir que um copo de vinho é apenas um pequeno prazer.
Talvez a diferença seja que para mim um prazer nunca vem só. Era o prazer do copo de vinho, era o prazer da companhia dela, o do cheiro do mar e o do calor das pedras onde estávamos sentados. Eram todos os prazeres convencionais e indizíveis dum dia qualquer de Verão, porque é isso que se quer que seja um prazer: uma convenção.
Apaixonei-me uns meses mais tarde pela Raquel, quando foi ela a convidar-me para um copo de vinho em casa depois de nos termos conhecido num shopping da cidade do Porto. "Tinha todo o prazer", respondi-lhe eu. "Eu também", insistiu ela. E até hoje não conheci prazer maior.
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11.03.2011
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De qual é que gostas mais? Quando somos crianças estamos sempre a perguntar isto em relação a tudo e, na verdade, também a responder. Gostas mais do amarelo ou do vermelho? Gostas mais do mar ou do campo? Gostas mais do pai ou da mãe? Depois crescemos e a coisa continua, embora de forma mais subtil. Sublinhamos no nosso grupo social os filmes de que gostamos mais, as músicas, os livros ou as cidades. Ainda há bocado tive essa discussão sobre vinho, por exemplo, e discuti os gostos entre as regiões da Bairrada, Douro, Alentejo, Dão e Setúbal. Queremos sempre gostar mais duma coisa do que doutra, mesmo que não saibamos muito bem porquê, e a razão é simples: do que gostamos mesmo mais é de gostar, e ao gostarmos mais do que quer que seja, aproximamo-nos rapidamente do verbo.
Daquilo que gostamos passamos a fazer parte, numa simbiose que exibimos com mais orgulho do que Razão. É por isso que, sem saber muito bem porquê, somos do Benfica ou do Futebol Clube do Porto. Somos e pronto, gostamos de o ser e somo-lo com intensidade, que gostar é sempre intenso. A vida torna-se mais fácil quanto mais gostamos de alguma coisa e de quantas mais coisas gostamos. Aliás, quando não gostamos de nada é porque andamos tristes e deprimidos. Torna-se urgente gostar do que quer que seja, nem que seja através do método aleatório desenvolvido na infância do "ti ti ti gosto mais de ti".
Gostar é assim uma questão de sobrevivência, é o último alimento que nos resta numa vida árida. Quem gosta sobrevive, quem não gosta morre. É por isso que quando não se Ama ninguém, pelo menos gosta-se. É essencial.
Já gostei de muitas mulheres que não cheguei a Amar. Aliás, sempre que não Amo ninguém passo a vida a gostar de alguém. Ainda bem, porque gostar é muito mais fácil de acontecer do que Amar, e por isso acontece também mais vezes ser recíproco. Acho que é assim que costumamos sobreviver a nós mesmos e à aridez dos nossos tempos de solidão. A gostar. Goste-se ou não.
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Etiquetas: respostas a perguntas inexistentes
11.02.2011
conversa 1843
Eu - Quando?
Ela - Quando passei por ti no Mercado Negro.
Eu - Liguei, liguei. Lembro-me que te acenei e tudo...
Ela - Acenar é o que se faz aos conhecidos. Uma amiga cumprimenta-se com dois beijinhos e pergunta-se se ela está bem.
Eu - Mas tu também não me vieste cumprimentar. Só me acenaste.
Ela - Claro que não. Fiquei à espera que viesses tu ter comigo...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!
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a distância mínima de segurança
Contra tudo o que eu próprio esperaria de mim mesmo, adoptei um gato esta semana.
Quando chegou a casa escondeu-se imediatamente no primeiro buraco que encontrou, mais propriamente debaixo do armário da cozinha. Quando me baixei para o espreitar ele ainda se chegou mais para trás, como se eu fosse uma ameaça à sua vida. Por isso deixei-o estar e fui deitar-me no sofá onde acabei por adormecer. Acordei umas duas horas depois com as cócegas que ele me fazia enquanto me cheirava o nariz. Assustou-se e deu alguns passos para trás, mantendo uma distância mínima de segurança de cerca de dois metros.
É essa a distância que o Aníbal (chama-se assim por causa duma votação que fiz no meu Facebook) gosta de manter de quem ainda não conhece muito bem, não vá ter alguma surpresa desagradável. Fiquei ali a dormitar no sofá e a pensar nisso, como se tivesse percebido o quão parecido ele é com algumas mulheres que conheci. Mantém essa distância de segurança e arranha quem a invade, a não ser que decida gostar desse alguém...
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10.28.2011
conversa 1842
(no café)
Eu - Vou adoptar um gato.
Ela - Tu?!
Eu - Sim.
Ela - Mas não foste tu que me disseste uma vez que nunca adoptarias um animal?
Eu - Fui, mas agora pensei bem e mudei de ideias.
Ela - Às vezes é melhor ter um animal em casa do que um homem.
Eu (silêncio)
Ela - Que foi? Tira esse sorriso estúpido da cara.
Eu - Bem... admito que te imaginei a...
Ela - A quê?
Eu - A fazer coisas esquisitas com animais.
Ela - És um depravado.
Eu - Eu?! Tu é que te puseste a dizer que é melhor ter um animal em casa do que um homem.
Ela - Realmente... deve ser melhor ter um animal em casa do que um homem como tu, pelo menos.
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pela noite dentro
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uma exigência
Uma das piores coisas que já me aconteceram na vida foi perder os meus amigos. Alguns perdi porque já morreram, outros perdi porque simplesmente deixei de os ver da forma mais violenta possível. Um dia disse-lhes "até amanhã" e nunca mais lhe pus a vista em cima. Não foi de propósito, mas o tempo fez com que isso acontecesse.
A diferença entre perder um amigo e perder um Amor é que perder um Amor dói mais no início, perder um amigo dói mais depois. Perder um Amor é levar uma sova, perder um amigo é empobrecer devagar. A razão é simples. O Amor tem um lugar que pode ou não estar ocupado. Quando esse lugar está desocupado, sentimo-nos mal e procuramos ocupá-lo. Para a amizade não há lugares nem numerus clausus, o que faz dum amigo alguém que não podia ser outra coisa senão isso mesmo. É que um Amor ocupa espaço, uma amizade não.
Acho que foi por isso que, com a idade, passei a exigir Amizade ao Amor. Por muito que ele estrebuchasse, e fê-lo várias vezes, se não viesse dividir uma garrafa de vinho e uma conversa comigo de vez em quando, acabava por deixá-lo. Por isso é quando a semana passada a Raquel me disse que tem a sorte de namorar com um amigo, eu pensei que não é sorte. É uma exigência da idade. Ainda bem.
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Etiquetas: a segunda vez
10.27.2011
dia de acordar tarde
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Etiquetas: opinião
10.26.2011
conversa 1841
Eu - Qual é problema? Ele não é o teu ex-marido?
Ela - É o meu ex-marido, sim. E agora ela também é a minha ex-melhor amiga.
Eu - Não me digas que te vais chatear com ela só por causa disso.
Ela - Não é que me vá chatear, mas nunca mais lhe falo. Nem a ele.
Eu - Mas qual é o teu problema?
Ela - O meu problema é tudo o que eu lhe contei a ele sobre ela e a ela sobre ele. Imagino o que agora devem dizer um ao outro sobre tudo isso. E ainda há pior...
Eu - Pior?
Ela - Sim. Era a ela que eu contava quais eram as maiores taras sexuais dele.
Eu - Ei! A tua melhor amiga conhecia as taras sexuais do teu marido e meteu-se com ele mal te divorciaste?
Ela - Sim. Achas normal?
Eu - Sei lá o que é que eu acho. Quero é saber quais são essas taras...
Ela - Achas que te vou contar?! Essas coisas só se contam às amigas...
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10.24.2011
conversa 1840
Eu - Porquê?
Ela - Dei uma nega a um gajo que me convidou para sair e ele não insistiu mais.
Eu - Mas... se querias sair com ele, porque é que lhe deste a nega?
Ela - Para ter a certeza que ele queria mesmo sair comigo.
Eu - Que tolice! A mim, sempre que me deram negas nunca mais insisti...
Ela - A sério?
Eu - A sério, para não fazer figura de urso.
Ela - E agora? O que é que eu faço?
Eu - Agora convida-o tu, se quiseres.
Ela - Isso é que não.
Eu - Porquê?
Ela - Para não fazer eu figura de ursa.
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pensamentos catatónicos (262)
Ouvi esta semana uma mulher queixar-se do tempo. Dizia ela que os dias ainda pareciam de Verão apesar do Outono ter chegado há um mês. O tempo é um dos nossos melhores amigos, já que nos queixamos dele por tudo e por nada. Queixamo-nos quando está bom tempo e era suposto estar mau, queixamo-nos quando está mau tempo e era suposto estar bom. Até nos queixamos quando o tempo está assim assim, porque é suposto nunca estar. Hoje choveu e por coincidência tornei a vê-la no mesmo café. Estava a queixar-se da chuva intensa. Enfim, o tempo é como o Amor. Nunca está como queremos mesmo que esteja bom.
Tem piada, porque o maior problema do Amor é precisamente esperarmos que ele seja como as estações do ano: que surja a dias certos. É por isso que se diz dum homem feito, aquele que já estudou tudo o que tinha para estudar, que está na altura de ir trabalhar, arranjar casa, carro e casar. Como se houvesse uma altura para um homem se apaixonar. Não há, ou melhor, até há mas é a vida toda. Por isso é como se não houvesse.
Não sei quantas pessoas das que já morreram neste mundo desperdiçaram a vida por causa desta mania, mas tenho a sensação que foram muitas. Talvez a maior parte. Eu diria que todas aquelas que casaram no dia certo porque tinha que ser, e depois acabaram os dias a pensar como seria ter vivido com outra pessoa qualquer. Enfim, a queixarem-se do tempo que nunca chega a horas certas...
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10.21.2011
conversa 1839
(por sms, depois de eu ter desligado o telefone)
Ela - Não atendes o telefone?
Eu - Estou afónico.
Ela - Podias ter dito.
Eu - Estou afónico. Não posso dizer nada.
Ela - Preciso falar contigo. Hoje podes passar em minha casa?
Eu - Estou afónico. Não posso falar.
Ela - Não preciso que fales. Falo eu e tu ouves.
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10.20.2011
conversa 1838
(à saída do café)
Eu - Eu levo-te a casa.
Ela - Detesto que te ponhas com essas coisas de machista.
Eu - Que coisas?
Ela - De levar-me a casa. Posso ir muito bem sozinha e quero ir sozinha.
Eu - Ok, até à próxima então.
Ela - Só se quiseres ir lá a casa beber mais uma cerveja, para acabar a noite...
Eu - Isso não quero. Estou muito cansado.
Ela - Pronto, então está bem. Podes levar-me só à porta. Mas é uma excepção.
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adormecer
Tiro a rolha a uma garrafa e ponho dois copos na mesa em frente ao sofá. Um para mim, outro para quem eu sei que não vem. Tenho esta mania de me deitar depois da cidade, nos dias em que estou sozinho, só para poder beber um copo com ela sem que ninguém nos espreite. Falo com ela sobre o dia, com o doce incentivo do vinho. Depois, às vezes, adormeço ali no sofá, aconchegado também em quem Amo e não está lá.
Amanhã ela vai-me telefonar de manhã e perguntar-me porque é que estou com a voz cansada. Dir-lhe-ei que me deitei tarde sem lhe conseguir explicar porquê. Mas é por isso, por não saber adormecer quando ela não está.
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10.19.2011
conversa 1837
Eu - Tenho que ir embora. Amanhã tenho consulta de manhã.
Ela - Oh! Não vás.
Eu - Tenho que ir, ando a sentir-me doente. Além disso é lixado marcar uma consulta no serviço nacional de saúde e não aparecer. Outra pessoa podia ter ido em minha vez...
Ela - Telefona para lá e diz que não podes ir porque estás doente. Eles não levam a mal.
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pensamentos catatónicos (261)
Desde criança que ouço dizer que o tempo é dinheiro. Quer isso dizer que o tempo que se pode gastar a ganhar dinheiro é tempo que não se deve gastar a fazer mais nada. Tem piada, porque embora eu nunca tenha gostado dessa frase, acho foi nisso mesmo que nos tornámos. Falo de nós todos, Homens, cuja maioria defende com unhas e dentes que se deve sofrer em nome do bem estar da Economia.
Eu acho que a Economia é que nos tem que servir a nós, e por isso inverto por impulso a ordem da frase. Acho que o dinheiro é que é tempo. Tenho a tendência para tentar transformar o pouco dinheiro que tenho em tempo, em vez de transformar o meu tempo em dinheiro. Não o faço tanto quanto gostaria, claro, mas isso é porque tenho que comer qualquer coisa.
Fico sempre desiludido nos dias de eleições, não apenas por os portugueses terem a mania de escolher para seus governantes pessoas em que eu não acredito minimamente, mas principalmente por perceber que a grande maioria de nós não dá importância nenhuma ao tempo, ou seja, à vida. Por exemplo, actualmente, parece que é legítimo vivermos menos para conseguir pagar uma dívida que ninguém percebe bem como é que cresceu tanto. A crise não é apenas essa dívida, portanto. A crise é que ninguém gosta de viver. A maior parte das pessoas que votam nos partidos do poder são pessoas tristes, e isso causa-me tristeza a mim.
Por dedução se percebe facilmente que abdicar do tempo em nome do dinheiro implica Amar menos. Muito menos, e talvez por isso a solidão cresça a olhos vistos entre essa mania estúpida. É uma pena, porque se não fôssemos assim, estúpidos, podíamos definitivamente viver mais e melhor. Todos nós.
Uma certeza que tenho é que um dia vou morrer. Quando isso acontecer espero ter conseguido transformar o meu dinheiro no máximo de tempo possível. Isso quer dizer que Amei o mais possível também. O resto: a dívida que os bancos nos impingiram, a história da formiga que trabalha no Verão para poder comer no Inverno e o provérbio que diz que tempo é dinheiro... que se fodam!
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