12.14.2011

casamento

Sempre me fizeram muita confusão as perguntas do género "pensas que estás na tua casa?" ou "pensas que estás no café?". Acho que foi uma professora de português, a primeira que me perguntou se eu pensava que estava no café, quando um dia me viu com os pés estendidos em cima duma cadeira vazia. Eu respondi-lhe que não, até porque no café nunca fazia aquilo. Ela expulsou-me da aula.
Era óbvio que eu não pensava que estava no café, mas sentia-me tão bem ali como na minha casa, e por isso é que tinha estendido as pernas para a cadeira da frente. Sentia-me melhor enquanto lia Camões se estivesse ali como na minha casa, e esse é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. Eu achava-a boa professora e gostava das aulas dela. Era só isso. Era um elogio.
É também assim que se está no Amor, por exemplo, exactamente como se estivéssemos na nossa casa. Se não estivermos assim com alguém, então não é Amor. Até pode ser bom, mas não é Amor. Será eventualmente uma espécie de amizade, e então estamos como se estivéssemos no café, a pedir por favor que nos tragam uma bica e esperando que nos limpem a mesa com uma toalha antes de o servir. 
O Amor é a nossa casa, porque quando ali chegados atiramos um sapato para cada lado e andamos de meias pelo chão. O Amor é isso, estarmos sempre na posição mais confortável para o nosso corpo e alma sem que o outro pergunte onde é que achamos que estamos. É que estamos com ele, com esse Amor, e é por isso que é assim. É assim no que dizemos ou calamos, no que rimos ou choramos, no que abraçamos ou beijamos.
Foi a palavra casa que deu origem ao verbo casar (casa + ar), e é isso mesmo que é casar. Estou a dizer isto porque ontem, depois de um dia de merda, abracei a Raquel e pousei a minha cabeça no ombro dela durante alguns segundos e em silêncio. Ao mesmo tempo deixei cair a mochila e o casaco no chão do corredor enquanto me descalcei e atirei os sapatos para lugar incerto. Ela não me perguntou se eu sabia onde é que eu estava porque ambos o sabíamos. Se não for assim, até pode ser bom, mas não é Amor.

29 comentários:

Carmo disse...

Linda mens... e depois como é, a empregada arruma calculo eu... ou tu mais tarde depois de teres relaxado nos braços da Raquel.

:)

cycle disse...

Bonito...

bagaco amarelo disse...

carmo, não tenho empregada desde 2006. :)

cycle, obrigado. :)

Ana disse...

COMPLETAMENTE de acordo!

Olga disse...

É tão bonito este post que me deu vontade de ir já por aí à procura do amor. Começa bem o dia a ler textos como este. Obrigada :)

bagaco amarelo disse...

ana, :)

olga, eu é que agradeço. :)

Carmo disse...

Bom... eu estava a brincar contigo. Eu tb não gosto de regras e obrigações no que respeita a tarefas domésticas. Há casais que chegam a ser ridiculos um com o outro, tamanhas são as regras a serem cumpridas a 100%, como se fosse isso a prioridade.

Anónimo disse...

"Foi a palavra casa que deu origem ao verbo casar (casa + ar), "

Bem, tem tudo a ver. Chego a casa, e aquilo que mais gosto de fazer é despir-me!
Por isso, que nenhum pateta me pergunte se "pensas que estas em tua casa?". Podem ter uma resposta inesperada...
EJSantos

São Rosas disse...

E mais um que fica na forja para o blog porcalhoto.
Tu não queres mesmo poupar-me trabalho, publicando tu n'a funda São?

bagaco amarelo disse...

carmo, eu sei... eu sei... :)

ejsantos, e não é a brincar... tem mesmo a ver. :)

são rosas, já reparaste a que horas actualizei o blogue hoje?! É que ando mesmo sem tempinho... :)

São Rosas disse...

Tu não ligues. Eu só vou dizendo isso para ver se te apanho um dia com tempinho :O)

bagaco amarelo disse...

são rosas, com tanto pessoal a ir para o desemprego, nunca se sabe... :)

Paulo Moura disse...

Tu fala-me só em erotismo. Pornografia não.

bagaco amarelo disse...

paulo moura, de acordo, até porque a pornografia é pornográfica. :)

São Rosas disse...

Eu estou sempre a dizer isso ao Paulo Moura. Tantas vezes repito que ele também diz ;O)

bagaco amarelo disse...

são rosas, lol. :)

Ana Sá disse...

É mesmo isso! É relax absoluto, à vontade, verdade em tudo...

bagaco amarelo disse...

ana sá, :)

Never Told Words disse...

Eu hei-de ter um Amor assim :)

Anónimo disse...

Compreendo a analogia entre a doce languidez do Amor e a espontaneidade de quem descansa as pernas como se em casa estivesse; mas outrossim poderia ser estabelecida uma comparação com o inverso: também o Amor é uma casa onde a arrumação cuidada, tantas vezes assente em rituais e formalismos, é precisa - pois o desleixo que tudo permite até pode não violentar o sentimento em si, mas tal como a mulher de César, ao Amor não basta sê-lo, tem que parecê-lo. E no limite até umas migalhas indevidamente deixadas no chão o podem parecer ofuscar aqui e ali.

bagaco amarelo disse...

never told words. :)

anónimo, quem lê também escreve, de facto... :)

Fatyly disse...

DE tão belo e simples fiquei sem palavras...o que é muito raro!

estórias disse...

Não resisto em roubar:) apesar do texto ser um pouco grande, quero que mais gente tenha oportunidade de o ler. Tanto pelo lado do Amor, como pela parte das aulas e do estar à vontade. Estou ligada à educação e de facto tens toda a razão:) por vezes é tido como má educação (e nalgumas dessas vezes até é) mas em muitas outras não e temos que ter esse facto em atenção.
Muito obrigada por esta nova forma de ver as coisas:)

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)

estórias, eu é que agradeço: :)

Tany disse...

Pois e mm assim... e nao podia ser de outra maneira, nem pensar!

bagaco amarelo disse...

tany, :)

memyselfandi disse...

o meu comentário:
http://thefifthceiling.blogspot.com/2012/01/e-eu-fiquei-perdida.html =)

bagaco amarelo disse...

memyselfandi, vou ver... :)

Anónimo disse...

Dá sempre muito trabalho... e agora mais que nunca :( faltou o equilíbrio e a partilha. A nossa casa deve ser aquele sítio em que nos sentimos à vontade e onde criamos as condições para que as pessoas que connosco o partilham se sintam à vontade.