12.19.2011

pensamentos catatónicos (266)

Um dos poucos pedidos que não vale a pena fazer é que alguém se apaixone por nós. Ninguém se apaixona por ninguém a pedido. Se calhar até era bom que fosse assim, mas não é. Foi uma mulher que me explicou isto, uma vez durante um café daqueles que se tomam em pé a olhar para o relógio, e embora eu já o soubesse (sabemos todos), ouvi-a como se fosse uma revelação. Há coisas que sabemos mas não praticamos até que alguém nos diga para o fazer. É como se sozinhos não quiséssemos acreditar que é assim.
O pior é que crescemos a pedir. É natural numa criança pedir sempre o objecto do seu desejo. Depois, quando chegamos a adultos, percebemos que o pedido mais importante de todos não pode ser satisfeito. Pior, se temos que o pedir já é mau sinal. O pior sinal de todos. Ela pousou a chávena, deixou moedas em cima do balcão para pagar os dois cafés e deu-me um beijo com a palma da mão, beijando-a primeiro e acariciando-me depois. Até à próxima, disse.
Nunca percebi como é que ela sabia que eu lhe ia pedir para se apaixonar por mim...

11 comentários:

Manuel disse...

É a triste verdade. Seria muito mais fácil gostar de quem quer tanto a nossa paixão.

bagaco amarelo disse...

manuel, pois seria... :)

Fatyly disse...

Bateu fundo e por vezes anda-se anos nessa ilusão.

Real e gostei muito!

Olga disse...

O que vale é que a vida não é só feita de "desencontros" e lá vai chegar o dia em que se encontra o que se procura. ;)

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)

olga, mais valia cortar os pulsos. :)

Olga disse...

Ai que dramático!! ;)

Carmo disse...

...sensibilidades femininas!

:)

Carmo disse...

...sensibilidades femininas!

:)

bagaco amarelo disse...

olga, tragicomédia... :)

carmo, :)

redonda disse...

E eu (como meu espírito de contradição) penso que não existem regras, que pode perfeitamente suceder que alguém se apaixone pela pessoa que lhe pede para se apaixonar por ele/a.
O problema é quando se sente aversão por quem está a fazer esse pedido. E agora lembrei-me de um livro que li há muitos anos da Françoise Sagan, "A cama desfeita". Pelo que me lembro neste livro contava-se a história de uma relação, muito real (talvez tenhamos assistido a várias assim). Um casal encontrava-se pelo sexo. Ele apaixonava-se e ela rejeitava-o, mas quando ele se afastava, era ela que o queria de volta.
Não acho que possamos gostar de alguém porque queremos, mas "um pedido" pode ser o início ou a revelação de algo que já existia.

bagaco amarelo disse...

redonda, já me aconteceu isso. é assustador. :)