6.12.2012

pensamentos catatónicos (274)

Desde que acordei até à hora do almoço tive um dia mais ou menos cinzento. Andei sozinho pela cidade à  procura de nada, a olhar para algumas montras tristes. Acabei por tomar um café sem sabor numa pastelaria da baixa e voltar para casa sem vontade de fazer o almoço. Foi uma manhã sem gosto, pode-se dizer. Não sei porquê.
Gosto de gostar, passe a redundância. Às vezes é como se a vida, infelizmente, não me desse a possibilidade de gostar de coisas suficientes para ser feliz. Pelo menos é isso que sinto e acho que é essa é a grande arma do facebook: poder gostar de um ror de coisas com um simples click. Abro a página inicial e em dez minutos já gostei mais vezes do que no resto da semana. É uma sensação efémera de prazer, mas ainda assim funciona.
Na verdade, aquilo de que o facebook se apercebeu a tempo é de que todos sofremos um défice no verbo gostar. Por um lado, sentimo-nos permanentemente insatisfeitos com as poucas coisas de que realmente gostamos, por outro, não nos chega a quantidade de vezes de que somos gostados. O facebook tornou o verbo gostar uma questão administrativa. Até podemos estar a mentir, mas fica lá carimbado que gostamos de qualquer coisa.
Não estou a dizer mal do facebook. Hoje, por exemplo, já gostei de uma mão cheia de coisas de que já nem lembro quais foram, tudo para compensar a falta de coisas que tive para gostar de manhã. Soube-me bem gostar delas, assim como me soube bem saber que há mais pessoas que ficaram a saber que eu gostei. Gostei disso, pronto. Às vezes é o que se tem. Mais nada.
O meu telemóvel tocou há bocadinho. Vi um número que não conhecia e demorei a atender. Era uma mulher muito simpática a representar uma rede de supermercados, a propósito duma reclamação que lá deixei a semana passada. Explicou-me o que se tinha passado e acabou por me dizer que espera que eu lá volte. Que gosta muito de me ter como cliente, concluiu.
Lá está o cabrão do verbo gostar, pensei. Serve para tudo e mais alguma coisa. Fiz imediatamente uma chamada, a quem de direito, para lhe dizer que a Amo. Senti-me melhor. Amar é um luxo, gostar pode ser um lixo. E eu gosto de Amar.

6.10.2012

coisas que fascinam (148)

Resmungar baixinho com uma mulher é próprio dum homem que até pode saber o quer quer, mas não sabe certamente o que não quer. Resmunga-se o suficiente para afirmar uma opinião, mas baixinho para que não haja demasiado comprometimento com ela. É como atirar uma pedra e esconder a mão. Há muitos homens assim. Eu, por exemplo.

Ontem comprei umas alheiras de Mirandela, rúcula e duas garrafas de vinho branco para ver o jogo de futebol entre Portugal e a Alemanha. Já não costumo ver jogos de futebol, nem eu nem a Raquel, mas desta vez lá prometemos um a outro tentar. Dez minutos depois do início já bocejávamos os dois, e ela fez um pequeno zapping até parar numa série qualquer de que gosta muito. Eu resmunguei baixinho, mas ela disse que já tinha visto o fim, por isso só precisava de ver o princípio. Acabei por ser eu a pedir para ver tudo.

Hoje entrei numa loja de decoração no Porto onde, se não fosse acompanhado pela Raquel, nunca na minha vida entraria. Ela apressou o passo e disse que queria ir lá dentro ver umas coisas, eu resmunguei baixinho e lá a segui. Apetecia-me tudo menos estar ali. No fim ela não tinha comprado nada, eu sim.
Fiquei todo contente com um porta-guardanapos e uma placa retro para pendurar na minha cozinha.

Tenho a perfeita noção que vou resmungar baixinho com a Raquel mais não sei quantas vezes na vida com coisas que vou gostar de fazer. A resmungar baixinho, aliás, já conheci o norte de Itália, já fiz um desporto chamado canyoning, já passeei por diversas aldeias históricas de Portugal, já fiz campismo selvagem e já andei nalgumas das maiores montanhas russas do planeta. Gostei de tudo, mas resmunguei baixinho em todas elas.

Acho que é biológica, esta tendência para evitar a imprevisibilidade. Se estou no sofá a ler o jornal ou se tenho planeado fazer um percurso do ponto A ao ponto B, começo por resmungar assim que a Raquel me propõe qualquer alteração. No entanto, como já sei que ela tem sempre razão no que propõe, resmungo baixinho.


6.08.2012

entre a amizade e a paixão

Não sei se vos já aconteceu o mesmo. Às vezes crio laços de amizade tão fortes com uma mulher que, a determinada altura, já não sei se me estou a apaixonar por ela ou não. Não acontece sempre, claro, mas acontece às vezes e costuma ser tortuoso. Estranho, pelo menos, é. Saio regularmente com uma mulher durante algum tempo, apenas porque me sabe bem tomar um café com ela e dar dois dedos de conversa, mas depois começo a sentir-me tentado a envolver-me com ela para além dessa amizade.
Isto aconteceu-me, vá lá, umas dez vezes na vida. Uma dessas vezes foi em tempo recorde. Ia no comboio para Coimbra com a Jamila e, muito perto de nós, um tipo com uns auscultadores na cabeça ia a perguntar a todos os passageiros se gostavam da música, enquanto abanava a cabeça ao ritmo dum som que ninguém conseguia ouvir. Nitidamente, pensava que todos escutavam o mesmo que ele. Nitidamente também, tinha um parafuso a menos. Todos naquele compartimento iam a gozar com ele, aproveitando o facto de não poder ouvir ninguém. A Jamila nunca o fez e distribuiu olhares reprovadores por todos os que o fizeram. Foi o primeiro momento em que me senti a apaixonar-me por ela. Tinha-a conhecido três meses antes.
Por esses dias estava desempregado e tinha arranjado um trabalho com uma duração certa de seis meses. Tinha que filmar e montar um filme por mês, sempre numa cidade diferente. A Jamila fazia a voz off e por isso seguia-me para quase todo o lado. Faltavam, portanto, três meses para aquilo acabar. Comecei a contar os meses, as semanas, os dias, os minutos e os segundos que faltavam para me despedir dela definitivamente, com uma sensação crescente de perda. O tempo voava e escapava-se-me por entre os dedos como grãos de areia fina. Na última semana não aguentei mais e disse-lhe que não entendia bem o que se passava comigo, que só pensava em estar perto dela e que aquele fim iminente estava a dar cabo de mim. Ela deu-me um beijo na face e convidou-me para um fim de semana na terra dela mal o trabalho acabasse definitivamente. "Agora vamos trabalhar", concluiu depois. A mim foi como se me tivessem saído duas toneladas de cima.
Lembro-me que as nuvens pareciam as claras que a minha mãe batia em castelo quando eu era criança. Apeteceu-me erguer o dedo indicador da mão direita e ir lá roubar um pedaço para as provar. A Jamila estava ao meu lado, também deitada no chão, e riu-se com o meu gesto. Tínhamos passado três dias juntos sem fazer nenhum. Apenas a celebrar o fim de seis meses de trabalho intenso entre algumas garrafas de vinho e experiências gastronómicas variadas. Depois do jantar do dia anterior tinha-me perguntado se eu ainda sentia o mesmo por ela. Que não, respondi. Estava, de facto, a confundir o respeito e amizade que sentia por ela com uma espécie de paixão sem sentido. "É o que nos acontece quando passamos dias a fio com a mesma pessoa, sem mais ninguém", disse. Depois brindámos.
Acho que às vezes nos apaixonamos apenas por medo da solidão, por quem nos faz sentir bem quando está perto. É como aquela sensação de termos uma cama para nos deitarmos, depois de dois ou três dias mal dormidos num chão duro. Pelo menos foi o que ela me disse e eu compreendi. Hoje ainda somos amigos.

6.07.2012

conversa 1914

Ela - Se há coisa que eu detesto nos homens é chulé.
Eu - Chulé?
Ela - Sim, sou muito sensível aos cheiros. Se um homem se descalça ao pé de mim e me vem o cheiro a chulé, perco longo a vontade toda...
Eu - Por coincidência, ainda ontem estive a comer um queijo qualquer com cheiro a chulé. Pelo menos foi o que todos os presentes disseram. Eu adorei.
Ela - Ah! Eu sei que queijo é esse. Também adoro.
Eu - Pensava que eras muito sensível aos cheiros...
Ela - E sou, mas adoro esse cheiro nos queijos e detesto-o nos homens.

6.06.2012

conversa 1913

Ela - Estou que nem posso.
Eu - Então?
Ela - A minha sogra está sempre a aparecer lá em casa para dar sugestões sobre como devo educar o meu filho...
Eu - Ah! E o teu marido?
Ela - O meu marido diz que sim à mãe em tudo. Em vez de ajudar na solução do problema, ainda o agrava mais.
Eu - Porque é que não dizes muito educadamente à tua sogra que precisas de estar mais tempo sozinha?
Ela - Vou-te explicar uma coisa: quando uma mulher se queixa de alguma coisa a um amigo, não precisa que ele dê palpites. Só precisa que ele ouça e manifeste solidariedade.
Eu - Queres que eu te diga que te compreendo, é isso?
Ela - Sim, só isso.
Eu - Compreendo, mas se calhar é o que o teu marido faz, então. Compreende, mas não se põe a dar palpites...
Ela - Eu disse um amigo, não disse o marido.

6.05.2012

conversa 1912

(no café)

Ela - Porque é que lês o jornal de trás para a frente?
Eu - Não sei bem, mas de facto admito que o faço sempre.
Ela - É por seres estranho.
Eu - Sou estranho só porque leio o jornal a partir da última página?
Ela - Não. És estranho porque nem sequer encontras um motivo para o fazer.
Eu - Não tem que haver um motivo para tudo na vida.
Ela - Tem que haver uma explicação para tudo.
Eu - Então explica-me porque é que me estás a chatear desde que nos sentámos a tomar café, por favor, e nem me deixas ler o jornal.
Ela - Porque tenho prazer nisso, pronto. Vês?! Há sempre uma explicação para tudo.

6.02.2012

coisas que fascinam (147)

da beleza das mulheres
Existem as mulheres bonitas e existe a mulher bonita. À partida poder-se-ia pensar que a diferença está apenas no uso do plural e do singular, mas não está. Nem de perto nem de longe. É que a diferença entre a primeira e a segunda é tão grande que entre elas pode caber um Amor inteiro.
As mulheres bonitas são aquelas mulheres em que reconhecemos a beleza tal como ela é, a mulher bonita é aquela que nos ensina o que é a beleza. Todos os dias posso andar pela rua e reconhecer a beleza de muitas mulheres pelas quais não me apaixono. Agradeço-lhes em silêncio a existência porque me soube bem passar por elas. Depois continuo a andar procurando mentalmente referências. Uma era parecida com a Scarlett Johansson, outra era parecida com a Mayra Andrade, outra tinha o sorriso da Mona Lisa e assim por diante. Estas são as mulheres bonitas. Sabem-me bem, é isso.
A mulher bonita é aquela que só pode ser uma porque nela não reconheço nada. Nem a Scarlett Johansson, nem a Mayra Andrade, nem nenhuma outra. Olho para o nariz dela e passo a achar que o nariz dela é o mais bonito e único do mundo. O mesmo acontece com o resto do corpo. Os cabelos, as pernas, os lábios, o pescoço, as mamas, os olhos, o dedo mindinho do pé esquerdo ou os joelhos. Nessa altura não há nada a fazer. Estou apaixonado.

6.01.2012

pensamentos catatónicos (273)

azeitonas

Eu podia escrever um livro apenas sobre as mulheres que, estando à minha frente na fila do supermercado, saíram para ir buscar mais qualquer coisa de que se esqueceram. Normalmente são simpáticas, essas mulheres, até pedem desculpa quando deixam as coisas as compras a marcar lugar. Mas atrasam tudo e todos.
Hoje aconteceu-me mais uma vez. Eu só tinha um molho de agriões, um frasco de azeitonas recheadas e uma alface no cesto dum supermercado que só tinha duas caixas abertas. Escolhi uma delas à sorte e tive azar. Ou sorte, depende do ponto de vista.
A cliente que estava à minha frente, quando o rapaz da caixa já tinha lido praticamente todos os códigos de barras dos seus produtos, lembrou-se que também queria comprar alhos. Lá foi ela aos saltinhos, prometendo ser rápida, buscar os alhos. Demorou mais do que seria expectável. Quando voltou trazia um chocolate, um conjunto de três copos para vinho e uma embalagem de bolachas. Não trazia alhos.
O rapaz ia fechar a conta quando ela me perguntou se as azeitonas que eu tinha eram boas. Que sim, respondi. Diga-me só onde estão para eu não demorar muito a ir buscá-las, pediu-me fazendo também sinal ao rapaz para aguardar um pouco. Dei-lhe o meu frasco, mais por achar que as pessoas que estavam atrás de mim iam explodir do que por me sentir atrasado.
Depois de fazer as compras ela chamou-me. Tinha pedido um café num balcão ali perto da caixa mesmo sem saber se eu queria de facto bebê-lo. Mas bebi-o, enquanto mantive uma conversa animada sobre a razão de não ter posto açúcar, como é que costumo comer aquelas azeitonas, e fiquei também a saber que ela conduz sem ter carta de condução.
Ofereceu-se para me levar a casa. Não é preciso, respondi. A minha namorada vive aqui perto, conclui. E ela lá foi, com um estranho sorriso que nunca lhe saiu da cara durante este tempo todo. Não cheguei a perceber se fui propositadamente gozado ou não.

5.31.2012

coisas que fascinam (146)

amanhecer

Hoje acordei perdido no tempo. Naqueles primeiros momentos não sabia em que dia estava, que horas eram, nem o que era suposto fazer depois de me levantar. Não sabia se estava de folga ou se tinha que ir trabalhar, se tinha combinado alguma coisa com alguém ou, pelo contrário, teria o dia todo só para mim. Olhei para as coisas do quarto mas não encontrei nelas nenhuma resposta até ver uma camisola pendurada no cabide da porta.
Foi a camisola que usei durante o dia de ontem, uma t-shirt vermelha com um desenho à frente, e permitiu-me refazer os últimos momentos antes de adormecer. Cheguei a casa muito cansado, fui à cozinha e abri o frigorífico sem saber muito bem porquê, feri-me a abrir uma lata de cerveja que bebi rapidamente e deixei tudo o que trazia nos bolsos em cima da banca. Depois lavei os dentes, despi-me e deitei-me. A camisola ficou ali, à espera de me contar esta manhã isso mesmo: que cheguei cansado a casa por causa dum dia de trabalho intenso.
Fiz as contas a partir dessa informação e deduzi que hoje era novamente dia de ir trabalhar. Aos poucos, toda a informação se agregou no meu cérebro como se fosse um puzzle enorme e monocolor. Sempre soube onde estava, mas agora sabia também quando e como.
Este amanhecer no vazio acontece-me às vezes, mas apenas nos dias em que durmo sem ninguém ao meu lado. É uma espécie de amnésia momentânea sobre tudo o que foi a minha vida nos últimos dias. Fico ali, deitado na cama como se estivesse a pairar sobre nuvens, como se não tivesse havido ontem nem fosse haver amanhã. Apenas uma imagem me vem à cabeça, e é a da Raquel perto de mim, talvez também deitada sobre nuvens. Não sei bem.
Também não sei muito bem quanto tempo é que costumo estar assim, até a consciência se apoderar lentamente de mim e obrigar os meus olhos a procurar um sinal da minha vida. Uma t-shirt, por exemplo. Talvez dez segundos, talvez dez minutos, talvez meia-hora. Sei que depois acabo sempre por me vestir à pressa e ir a correr para o comboio. É no comboio, com a cabeça encostada ao vidro trémulo, com a pequena ferida que fiz no dedo a começar a doer-me, que me dou conta de como é bom estar ausente do mundo por um bocado. Distancio-me do dia-a-dia, do ordinário, do quotidiano. Por um momento percebo bem o que é importante.

5.29.2012

por todos nós...

Por uma vez serei mais do que sério. Por mim, pela minha filha, por este país, por todos os que por aqui passam. Enfim, pela liberdade. Passo a transcrever uma mensagem do senhor João Penha-Lopes, pai desta menina agredida brutalmente pela PSP. Por uma vez também, peço que ninguém fique indiferente.

Esta é a minha filha.....QUE FOI BRUTALMENTE AGREDIDA PELA PSP !! Claro que foi aberto de imediato um processo crime e ela foi hoje vista por um médico do Ministério Público que ficou literalmente aterrado com o que viu, não só em todo o corpo como na mente (pois ela agora não consegue olhar de frente para um agente da PSP nem andar de comboio), e solicitou a entrega de um TAC à garganta que mandámos fazer, numa clínica privada, pois na ida ao Hospital S.Francisco Xavier, imediatamente após a agressão, não tinham equipamento para ver os tecidos moles do pescoço onde os punhos fechados de um dos agentes fizeram pressão, estando ela contra uma parede. O TAC acusou os danos. Estava a viajar num comboio de Lisboa para a área de residência e saiu na estação perto de casa onde estavam 10 agentes que se juntaram aos 3 que vinham no comboio e onde tiveram problemas com um grupo de jovens que saíram duas estações antes dela. Ela até vinha a dormitar. Saiu na sua estação e um conhecido que vinha com ela começou a ser de imediato agredido pelos agentes na gare. Quando ela gritou a pedir para pararem de bater no jovem foi imobilizada e arrastada pela estação. Foi atirada de cabeça contra as cancelas de passagem dos passageiros tendo caído. O agente que a agrediu levantou-a pelos cabelos e arrastou-a pelos braços para dentro da esquadra localizada nas imediações da estação, onde a levou para uma área vazia, a atirou contra uma parede e lhe espremeu o pescoço com os punhos fechados. Não foi feito qualquer auto. Ela conseguiu telefonar-nos do telemóvel a pedir socorro porque foi espancada e estrangulada. O agente a quem ela passou o telefone disse não saber o que se passava ou o que o colega tinha feito (com a minha filha a gritar em background que era ele que a tinha espancado) mas que ela seria de imediato libertada pois não havia qualquer problema com ela. Vamos amanhã a uma consulta da APAV para receber acompanhamento e formação sobre segurança pois parece provável que hajam retaliações segundo nos foi comunicado por diferentes entidades, o que nos obriga a ter cuidados redobrados.... E agora ? Que devemos fazer ? Aceitam-se sugestões...

facebook de João Penha Lopes

piano

Estou numa casa que não é minha. Não sei de quem é, para ser sincero. Sei que tem um piano e que entrei aqui com uma mulher que acompanhei desde um restaurante na baixa da cidade, enquanto os candeeiros das ruas cochichavam em segredo sobre nós. É natural que o fizessem. Eles têm-me visto todas as noites por aí, sozinho que nem um cão, à deriva pelas ruas labirínticas de Aveiro.
Convidou-me a entrar. Aceitei na condição de ter dois copos e uma garrafa de vinho, como que a dizer-lhe que esperava sentar-me com ela a conversar antes de irmos para a cama. Se é que vamos para cama, pergunto-me em silêncio. Ela estende-me um copo generosamente servido com um vinho que diz ser do Douro. Reparo nos dedos dela, que de tão finos me espantam por conseguirem segurar um copo tão grande e cheio. O piano deve ser dela. A pianista deve ser ela. Talvez a casa seja dela também.
Dou o primeiro gole e sento-me num sofá de um só lugar que me parece demasiado limpo para a roupa que trago vestida desde manhã. Ela puxa uma cadeira de madeira e senta-se perto de mim, talvez para evitar que as paredes ouçam a nossa conversa. Sou eu quem está mais desconfortável, apesar de tudo. Começo a sentir-me um monstro na casa duma bela qualquer. É a primeira vez que me apetece beijá-la.
Nada lhe falha nos gestos, como se os tivesse ensaiado uma vida inteira. Já eu, a pousar o copo na mesa de vidro da sala tenho que fazer três tentativas para não entornar vinho. O som do vidro com vidro parece-me uma bomba a atingir o solo. Fico nitidamente em desvantagem. Estou inseguro, intimidado. Ela não.
As mesas do restaurante estavam todas ocupadas. Ela chegou sozinha e perguntou-me se podia sentar-se. Foi o empregado que moderou o nosso encontro, assim que nos viu juntos. Pelos vistos somos os dois clientes habituais do mesmo sítio, apesar de eu nunca a ter visto na minha vida. Não sabia que eram amigos, disse ele. Eu também não, respondi. Ela sorriu. A conversa entre nós continuou a partir daí, do simples facto de estarmos juntos por uma casualidade. Jantámos, bebemos, saímos dali.
Pego no copo de novo. As marcas redondas que foi deixando na mesa de vidro fazem o símbolo dos Jogos Olímpicos. Costumo fazer isso várias vezes, pousar o copo de forma a fazer um desenho qualquer. Talvez, afinal, eu não esteja assim tão nervoso.É a primeira vez que me recosto para trás. Sinto o veludo do sofá a segredar-me coragem enquanto ganho ângulo suficiente para lhe ver o corpo quase todo. É bonita. Não sei bem de quem é esta casa, mas uma conversa com um bom copo de vinho é a melhor forma de o descobrir. Tocas Piano? E ela sorri.

5.28.2012

conversa 1911

Ela - O meu marido fica todo roído de ciúmes quando lhe conto algumas coisas que se passam no meu escritório.
Eu - Porquê?
Ela - Porque sim. Se eu lhe digo, por exemplo, que um colega meu me convidou para almoçar, ele muda logo de cara. Não diz nada, mas eu noto que ele fica doente.
Eu - Não faças isso.
Ela - Faço porque quero que ele saiba que ainda há homens que se interessam por mim.
Eu - Se ele gosta mesmo de ti, acha que todos os homens no mundo se podem interessar por ti. Afinal de contas, ele é homem e interessa-se. Tu andares a provocar-lhe ciúmes dessa maneira, só pode fazer com que ele te ganhe alguma raiva e vá gostando cada vez menos de ti.
Ela - Tens a certeza?
Eu - Tenho.
Ela - Então hoje digo-lhe que é tudo a brincar.
Eu - Não digas nada. Está calada que chega.
Ela - Olha que esta. E eu lá sei estar calada?! Tenho que estar sempre a dizer qualquer coisa.

5.25.2012

coisas que fascinam (145)

a galope 

O símbolo dos correios era (acho que ainda é) um homem a cavalo com uma corneta. Fazia jus às cartas de Amor que se escreviam. Entre Aveiro e Setúbal, por exemplo, eram dois dias a cavalgar para lá e dois dias a cavalgar para cá. Escrevia-se uma carta e, quando se estava mais ansioso, escrevia-se outra ainda antes de ter recebido a resposta da anterior. Eram cartas que levavam tudo de quem as escrevia. Suores, nervos, medos e sobretudo saudade. Não admira que o cavaleiro fosse a abrir caminho e levasse uma corneta para anunciar a sua chegada.
As cartas de Amor encolheram-se com o tempo. Ficaram reduzidas a mensagens de telemóvel ou emails escritos à hora do almoço, naqueles dias em que se fica a comer uma sanduíche em frente ao computador do escritório. É uma pena. Uma carta de Amor era um investimento total numa paixão que se tinha, um sms é uma espécie de aposta no casino. Se der deu, se não der não deu. Gastou-se a moeda.
Eu decidi montar um cavalo e galopar de novo. Há uns dias, durante umas arrumações lá em casa, a Raquel mostrou-me uma pilha de cartas de Amor que recebeu durante a vida. Não as li, mas gostei de as ver ali arrumadinhas numa caixa colorida, como se alguém as tivesse deitado e ajustado o lençol para que dormissem bem. Não é possível guardar assim um email. Mesmo que se imprima, falta-lhe o cheiro, a cor, o nervo, a vida. 
A galope, portanto.

conversa 1910

Ela - Estou quase a fazer quarenta anos.
Eu - Nada que eu já não tenha feito.
Ela - Mas eu sou mulher...
Eu - E depois?
Ela - E depois?! Sabes muito bem...
Eu - Não sei nada...
Ela - A partir dos quarenta as mulheres começam a perder valor de mercado. Os homens começam a ganhar...
Eu - Isso não é bem assim, e acho que não te deves preocupar. Estás uma mulher bonita. Eu acho que estás no auge.
Ela - Pois... estou no auge. A partir daqui é sempre a descer.
Eu - Estás a sofrer de ansiedade.
Ela - Não estou nada. Estou é a ser realista.
Eu - Tem calma e vai mas é gozando a vida o mais que puderes.
Ela - Esse é o problema. Sinto que ainda não gozei nadinha. Preciso de muitas noites de copos, muito sexo, muitas festas...
Eu - Estás a sofrer de ansiedade.
Ela - Se calhar estou só um bocadinho.

5.24.2012

por acidente

Houve uma determinada altura na minha vida em que me tornei amigo de várias mulheres por razões muito concretas, isto é, dava-me bem a conversar com elas sobre temas muito específicos, sendo que a cada uma delas correspondia um único tema. Por exemplo, sempre que saía com a Sónia acabava a falar de música, sempre que saía com a Cristina acabava a falar de política, sempre que saía com a Susana acabava a falar do trabalho dela e do meu. Nunca aconteceu apaixonar-me por nenhuma destas mulheres, mas sei que tive com elas uma forte relação de amizade. Com algumas, aliás, ainda tenho.
Isto aconteceu-me de forma tão intensa (num ano devo ter feito cerca de vinte amigas assim), que cheguei a confessar a um amigo meu que se calhar nunca mais ia conseguir apaixonar-me na vida. Cada vez que conhecia uma mulher, estabelecia-se automaticamente entre nós este tipo de relação monotemática. Às vezes em casa, outras vezes num bar qualquer, ficávamos horas a falar e nunca sobrava espaço nem vontade para um mínimo de sedução que fosse. Com esse amigo meu, por engraçado que possa parecer, assim como com todos os meus amigos homens, isso nunca aconteceu. As conversas sempre variaram de assunto com a mesma velocidade com que se abre uma cerveja ou se enche um copo de vinho.
Um dia distraí-me ao volante e bati na parte de trás doutro carro. Foi num semáforo, em que eu era o segundo da fila. Quando mudou para verde, não reparei que o condutor à minha frente continuava parado e avancei. Não foi nada de grave, apenas uns riscos no pára-choques, mas o condutor da minha frente era uma mulher que se mostrou bastante nervosa. Gritou e empurrou-me várias vezes enquanto eu lhe dizia para ter calma, que aquilo não tinha sido nada e que eu assumiria sem problema nenhum os poucos danos do acidente. Por fim, quando se acalmou, explicou-me que o marido dela adorava o automóvel e se ia zangar. Acabou mesmo por me confessar em jeito de desabafo que ele, para além do necessário para a gestão da vida a dois, só falava de automóveis. E foi assim que conheci a Tatiana.
Inventámos uma desculpa qualquer para não ir trabalhar, eu e ela, e começámos a procurar uma oficina que arranjasse o carro no próprio dia. O objectivo era o marido dela nem sequer chegar a saber do acidente. Encontrámos uma, mas que ia precisar do dia quase todo para o fazer, por isso convidei-a para almoçar e acabámos por passar  bastante tempo juntos.
Podem não acreditar, mas foi dos melhores dias que tive naquela fase da minha vida. Almoçámos num pequeno restaurante da zona histórica de Aveiro, depois fomos passear para a praia, onde tirámos os sapatos e deixámos quilómetros de pegadas na areia, sempre a conversar sobre todos os temas possíveis e imaginários. Praticamente não houve silêncios entre nós, com excepção dum momento ao fim da tarde em que o Sol se começou a pôr e nos calámos ao mesmo tempo. Foi mesmo antes de voltarmos para ir buscar o carro dela e, nessa altura, já eu me sentia completamente apaixonado por ela.
Passei os dias seguintes a pensar praticamente só nela. Nela e no vento que tinha feito da nossa prolongada conversa um segredo daquela praia. O mesmo vento que tinha feito dançar os seus longos cabelos castanhos e desenhado perfeitamente o perfil dos seus seios na camisola verde escura. Pensei na forma como os seus profundos olhos negros me tinham trespassado o corpo, fazendo-me sentir transparente. Pensei em tudo, até em telefonar-lhe para tornarmos a sair.
Nunca o fiz. Despedi-me dela à porta da oficina com um estranho abraço quente e frio ao mesmo tempo. Quente por gostar dela, frio por saber que era o primeiro e o último. A Tatiana nunca o soube, mas foi ela que me fez acreditar que em mim ainda podia haver paixão e Amor, foi ela que que me fez perceber que as minhas conversas monotemáticas com tantas mulheres não eram senão um produto de mim mesmo. Não das minhas amigas. Era como se o meu coração tivesse sido um campo estéril durante muito tempo, até esse dia.
Passado pouco tempo apaixonei-me outra vez, por acidente. Até hoje.

5.23.2012

conversa 1909

(na minha casa)

Ela - O teu gato é tão lindo! Como é que se chama?
Eu - Aníbal Cavaco Silva.
Ela - Aníbal Cavaco Silva?! És maluco!
Eu - Como é que se chama o teu gato?
Ela - Bolinhas.
Eu - Desculpa lá, mas chamar Bolinhas a um gato é que não está com nada.
Ela - Chama-se Bolinhas porque tem bolinhas espalhadas pelo pêlo todo. Tem tudo a ver.
Eu - Pronto. O meu  chama-se Aníbal Cavaco Silva por ser cor de laranja e estúpido ao mesmo tempo. Também tem tudo a ver...
Ela - Sabes... às vezes acho que eu e tu...
Eu - Eu e tu o quê?
Ela - Ainda bem que nunca fomos mais do que amigos.

5.22.2012

respostas a perguntas inexistentes (210)

olha-me!

Às vezes, não sei bem porquê, há pequenas insignificâncias que se escrevem na minha memória de forma tão vincada que nunca mais me esqueço delas. Como se fossem um carimbo, surgem de vez em quando no meu raciocínio sem razão aparente. Normalmente são olhares. Chego a ficar anos sem me lembrar deles, mas num determinado momento relembro-os com tal frescura que parece que foi ontem que os vi.
Lembro-me, por exemplo, de ver dois homens a segurarem uma gaivota viva em Lagos, no Algarve, durante umas férias que fiz ali em criança. Eu tinha sete anos, portanto isto foi há trinta e três. Eu ia para a praia com o meu pai e a minha mãe, e vi-os pela janela de trás do carro. Lembro-me perfeitamente que um deles tinha uma camisa vermelha e o outro uma t-shirt branca e suja. A gaivota tentava soltar-se em vão e o homem da camisa vermelha, que lhe segurava o bico e uma das asas, fitou-me prolongadamente até o carro desaparecer numa curva. Era um olhar ameaçador, pelo menos na perspectiva duma criança, e assustou-me.
Outra memória é de há dezassete anos, numa esplanada em Praga, na República Checa, onde me sentei para beber uma cerveja com uma brasileira que tinha acabado de conhecer. Pois bem, nessa tarde em que nos sentámos na esplanada, numa outra mesa estava uma criança com uma máscara de caveira que nunca deixou de olhar para mim. Devo ter estado ali sentado quase uma hora com a máscara sempre a olhar na minha direcção. Fiquei de tal forma incomodado com aquilo que a certa altura me levantei e dirigi-me a ela. A criança fugiu, desaparecendo por entre a multidão de Národní Trída, e os adultos que estavam na mesma mesa nem sequer se mexeram. Só aí é que percebi que nem sequer eram parentes. Nunca mais a vi, mas também nunca mais me esqueci.
Já reconheci estes dois olhares várias vezes na minha vida noutras pessoas e situações. O olhar ameaçador do homem que prendia a gaivota e o olhar quieto, ameaçador e escondido da máscara daquela criança checa. Reconheci-os em entrevistas para empregos, nas alas de segurança de vários aeroportos ou em simples balcões de atendimento público. Reconheço-os por aí de vez em quando, e é quando os torno a lembrar como se fossem uma recordação de ontem.
Memorizo de tal forma alguns olhares que já pensei em catalogá-los por níveis de ameaça e de Amor. É só uma brincadeira, claro, mas ontem, enquanto tomava café, fiz uma tabela numa folha com vários olhares de que não me esqueço, incluindo os dois que já referi, e estabeleci para cada um deles uma intensidade emocional. Tenho lá olhares com apenas alguns meses e outros com muitos anos. O olhar da minha mãe quando me encontrou depois de eu ter fugido de casa em criança, que deve ter uns trinta e dois anos; o olhar da minha filha ao meu colo, em bebé, que tem onze anos; o olhar da Raquel quando me apaixonei por ela, que tem três anos e meio. Enfim, defini ao todo mais de quarenta olhares de que não me esqueço.
Acabei de beber o café e pedi uma cerveja. Estava só num bar em Aveiro e fui deixando o tempo passar enquanto olhava fixamente pela janela. Ainda tinha o meu moleskine aberto na tabela dos olhares quando, a duas mesas de mim, uma mulher e um homem começaram a discutir. Era nitidamente um discussão conjugal e, apesar de ela tentar falar baixo, ouvia-se nitidamente tudo o que dizia. Ele estava calado como uma criança envergonhada, de olhos postos no chão.
Acrescentei esse olhar à minha tabela. Era um olhar fugitivo, um olhar para o chão para não enfrentar a discussão. Um olhar de quem já Amou mas agora vê esse Amor como uma armadilha. Está preso, quer sair e não sabe como. Já se esqueceu do que é o Amor. E foi isso que escrevi.

5.21.2012

conversa 1908

(ao telefone)

Ela - Preciso que me ajudes aqui em casa numas mudanças.
Eu - Hoje não. Tem que ser amanhã, está bem?
Ela - Porquê?
Eu - Este fim de semana quase não dormi por causa do trabalho. Estou muito cansado.
Ela - Então descansa depressa e depois telefona-me.
Eu - Não sei descansar depressa. Descansar só tem uma velocidade que é estar deitado a dormir. Amanhã, está bem?
Ela - Então dorme depressa.

os adeptos de futebol

Os adeptos de futebol são muito parecidos com as testemunhas de Jeová ou com os operadores de telemarketing, isto é, são uns chatos. Na verdade, eu até acho que são os mais chatos e palermas de todos. As testemunhas de Jeová chateiam-nos porque nos querem salvar a alma, os operadores de telemarketing querem vender-nos robôs de cozinha porque têm que ganhar a vida, os adeptos de futebol é porque gostam de um clube de futebol.
Não há nada mais egoísta do que passar a noite a buzinar um penduricalho qualquer só porque uma equipa qualquer ganhou um jogo. Pior, enchem as redes sociais na internet com fotografias e frases baratas, centram a discussão pública na porcaria dum fora-de-jogo que não foi e devia ter sido, alimentam uma indústria milionária que não produz nadinha.
A má notícia para os adeptos de futebol é que só é assim porque o futebol é fácil, e quem não consegue discutir mais nada porque não chega lá, acaba mesmo a pensar no que é mais fácil e não tem interesse nenhum:  o futebol. Estava tudo bem, desde que não chateassem mais ninguém.
A Rita é uma amiga minha que, a mim não me engana ela, sabe tão pouco do que passa no futebol como eu. Provavelmente sabe os resultados dos jogos porque o marido dela lhos diz. Mais nada. Mesmo assim mandou-me uma dessas frases feitas, com uma imagem azul por trás, a dizer que Ama o Futebol Clube do Porto. Não faltava mais nada do que agora virem dizer que Amam um clube qualquer, que normalmente até já nem é um clube mas sim uma Sociedade Anónima Desportiva, da qual fazem parte vários accionistas que só pensam no valor das suas acções.
Mas percebi. Finalmente percebi. Quem acha que pode Amar um clubezeco qualquer é porque anda mesmo alheado da vida. Tão alheado que nunca se apercebeu do que quer dizer a palavra Amor. Por mim podem continuar assim mas, por favor, não me chateiem.

5.18.2012

conversa 1907

Ela - Ontem tive, finalmente, sexo com aquele rapaz de quem te falei...
Eu - Aquele com quem andavas a sair há quase meio ano?
Ela - Sim. Até chorei.
Eu - Doeu-te?
Ela - Não estúpido. Fiquei emocionada.
Eu - Ah!
Ela - Ah?! É só isso que tens para me dizer?
Eu - Eu não estava lá. Queres que te diga o quê?
Ela - Como amigo, podias perguntar-me como é que me sinto.
Eu - Já sei que choraste porque te emocionaste. Como é que sentes, então?
Ela - Nem sei bem...

5.17.2012

locutora

Confunde-me esta coisa de me apaixonar pelo desconhecido, mais propriamente pelas desconhecidas. Uma vez, por exemplo, andei doente de Amor por uma locutora de rádio que nunca cheguei a ver. Para além da voz, nada mais. Creio que a culpa foi essencialmente do meu despertador, que me acordava sempre à mesma hora na mesma estação. Naquele período do dia em que ainda não estamos despertos, mas também já não estamos a dormir e em que, portanto, o sonho se dissolve facilmente na realidade, era a voz dela que me embalava.
É verdade que nunca a cheguei a ver, mas também é verdade que ela me fez perceber uma das muitas coisas que um homem procura numa paixão: um abrigo. Durmo sempre com a persiana corrida, deixado os seus buracos abertos. Desta forma, todas as manhãs a luz do Sol vai entrando devagar no quarto, como se tivesse que pedir licença para me vir despertar dum sono bom. Nesse momento não sei como está o mundo lá fora. Talvez haja uma revolução, talvez um acidente na rua tenha feito vítimas mortais, talvez dois homens se agridam um ao outro depois de um desentendimento no trânsito. Nunca me interessou. Dentro do meu quarto, por aqueles dias, a voz dela era o meu mundo e dizia-me que estava tudo bem. Ela também gostava dessa ténue luz que me espreitava, e depois punha uma música a condizer Só para mim.
Senti a falta dela quando, por causa do meu horário de trabalho, passei a acordar mais tarde. Durante alguns dias, por não a sentir perto de mim, levantava-me ainda ensonado e passava o resto dos dias a dormir em pé. Alguma coisa estava mal comigo, e demorei tanto a curar a falta dela como se fosse um outro Amor qualquer. Mas, claro, como se fosse outro Amor qualquer, lá acabei por passar a ressaca.
Hoje acordei mais cedo do que o costume e foi dela a primeira voz que ouvi. "Se ainda está no vale dos lençóis, fique a saber que tem mais sorte do que eu, e aproveite para ouvir esta música ainda de olhos fechados", disse. Eu fechei os olhos e ouvi-a.

5.16.2012

respostas a perguntas inexistentes (209)

Paralisia "distancial" 

O meu Amor pela Raquel sofre de Paralisia "distancial". O que é isso? À medida que a distância entre nós aumenta, eu vou-me sentido mais limitado nos movimentos. Por exemplo, estou em casa e dou por mim com a cabeça aninhada entre as mãos, sem vontade sequer de pegar no copo de uísque à minha frente que já enchi há mais de vinte minutos. Ao lado do copo tenho o telefone mas, apesar da vontade, não lhe telefono mais. Já o fiz hoje umas dez vezes, sempre para lhe dizer o mesmo. Que a Amo.
Se eu me visse assim, sozinho em casa sem vontade de nada, dava-me um pancadinha nas costas e convidava-me para sair, beber um copo por aí e dar dois dedos de conversa comigo mesmo. É o que faço às vezes. Foi o que fiz ontem. No princípio as pernas pareciam com pouca vontade de andar, mas depois lá acabaram por ceder.
Acabei num café dos subúrbios com um televisor bêbado aos gritos para mim e mais três homens também sozinhos, cada um na sua mesa, cada um com a sua bebida. Eu a beber Bushmills, outro a beber cerveja de garrafa, outro cerveja de pressão e outro um licor qualquer. Todos me pareceram homens exageradamente sós. Eu também, apesar de saber que não o sou.
A minha Paralisia "distancial" acabou aí, nesse preciso momento, pouco antes da empregada começar a varrer o chão e nos expulsar delicadamente a todos. Levantei-me com energia, paguei os dois uísques sem gelo e fui dar uma volta a pé pela cidade de Aveiro, já quase deserta de vida. É bom sentirmo-nos sós sabendo que não o estamos, pensei.  É bom perceber que por trás de cada história de solidão há sempre uma mulher.

5.15.2012

conversa 1906

Ela - O meu marido ainda me pergunta, no fim de cada vez que fazemos sexo, se eu o acho bom na cama.
Eu - Há quanto tempo é que são casados?
Ela - Vinte e dois anos...
Eu - E é bom na cama ou não?
Ela - Sei lá. Há vinte e dois anos que não vou para a cama com outro. Nem comparar posso...

5.14.2012

pensamentos catatónicos (272)

O Amor corre sempre bem ou mal. Nunca corre mais ou menos. Quando corre mais ou menos é porque está a definhar, se é que ainda não está morto. Essa é a sua maior desvantagem, ao mesmo tempo que também é a maior vantagem. Estar mais ou menos é a única forma de nunca se sofrer, mas é também um atalho para que se morra sem ter dado pela vida.
Pensei nisto agora mesmo, depois de ter visto a Ana como é costume, de braços cruzados num dos cantos da sala. Parece que está à espera que a vida lhe traga alguma coisa. Mas eu até sei que não está. Quando a cumprimentei e lhe perguntei como anda, ela respondeu isso mesmo: que vai andando. Não estiquei mais a conversa. Deixei de o fazer há uns tempos, quando ela me disse que detesta conversas de circunstância e me deixou especado a olhar para uma parede branca, a pensar no mal lhe teria feito. Acho que lhe disse que estava bonita. Só isso. Ela não ligou e afastou-se.
Por essa altura a  Ana deixou-se derrotar por um Amor acabado, que é como quem diz, ela acabou com esse Amor. Parecia um náufrago em alto mar que não queria ser salvo. Ainda parece. A história é a do costume: o marido deixou-a e ela ficou mal. Depois, para não andar mal, decidiu que ia estar mais ou menos para sempre.
De vez em quando encontro-a por aí, como hoje, numa festa organizada por amigos comuns. Estou à espera de lhe poder dizer, numa oportunidade qualquer, que é uma sorte podermos sofrer por Amor. Sofrer por Amor é a única forma de saber o que é Amar. É a única forma de agarrar a vida e deixarmos de andar mais ou menos. Para isso só preciso que ela passe a gostar de conversas de circunstância, porque o Amor é uma circunstância da vida.

5.11.2012

respostas a perguntas inexistentes (208)

taras e manias

Todos nós temos uma mania qualquer. Beber um uísque sempre depois de jantar, por exemplo, ou conduzir com o braço do lado de fora da janela do automóvel. Na verdade há manias para todos os gostos e feitios e, de uma forma natural, acabamos todos por conhecer aquelas que são dos nossos amigos mais próximos. Nunca tinha pensado nisto desta forma até conhecer a Wong, uma empregada dum pequeno restaurante perto de Mong Kok, em Hong Kong. Foi ela que me explicou que, para fazer um bom trabalho no dia-a-dia, tentava conhecer todas as manias dos seus clientes habituais e, mesmo dos clientes que não conhecia de lado nenhum, tentava percebê-las o mais depressa possível.
Acho que ficou surpreendida pelo meu súbito interesse naquele tema, e por isso explicou-me que tinha sido assim que tinha conquistado um dos seus melhores clientes. Um homem qualquer de meia idade que tinha a mania de comer de faca e garfo (como é sabido, os chineses comem com pauzinhos). Ele só lhe disse isso uma vez e, quando lá voltou muito tempo depois, ela ainda se lembrava dele e trocou imediatamente os pauzinhos pelos seus talheres preferidos. A partir desse dia, ele passou a ir lá quase todos os dias.
Fixei a Wong nos olhos, o que admito que me dava um prazer enorme, já que as mulheres asiáticas, na minha opinião, independentemente de serem mais ou menos bonitas, têm sempre uns olhos que vale a pena contemplar como se estivéssemos a olhar para uma paisagem de perder a respiração. Fixei-a nos olhos e disse-lhe que estava a pensar se aquilo era respeito pelo próximo ou servilismo exagerado. Ela amuou, e os seus olhos grandes fizeram questão de me repreender. Por isso mudei de assunto.
Fiquei com a impressão de que, a partir desse dia, ela ficou um pouco mais distante de mim. Sempre simpática, mas com uma distância que me incomodava, já que tinha sido a primeira chinesa com quem eu tinha feito amizade e me tinha sentido realmente bem. Por isso, alguns dias antes do meu regresso a Portugal, comprei dois pastéis de nata (que lá se chamam Portuguese Egg Tarts) e uma garrafa de vinho do Porto numa das melhores garrafeiras que já vi na minha vida. Depois telefonei-lhe e convidei-a para ir beber um copo comigo ao fim da noite. Antes ainda de decidir qual o primeiro bar a que íamos, sentámo-nos num dos bancos da praça da alimentação do Festival Walk, ofereci-lhe a garrafa e comemos cada um o seu pastel. Aproveitei esse momento doce para lhe pedir desculpa por, mesmo sem querer, a ter ofendido. Ela sorriu mas não disse nada.
Estranhamente, ainda hoje acho que essa foi uma das melhores noites da minha vida. Caminhámos por toda a cidade, quase sempre em silêncio, comigo a contemplar a imponência dos edifícios que ali se erguem como velhos que recusam morrer, e com ela sempre ao meu lado como que a perceber os meus pensamentos. Os meus pensamentos eram de que me estava a apaixonar por uma mulher impossível, que vivia a mais de dez mil quilómetros de distância de mim, e que por isso tinha que controlar muito bem as minhas emoções. Acabámos sentados junto ao mar, no lado continental, sentados num muro qualquer a olhar para a ilha, e senti-a abraçar o meu braço direito e pousar nele a cabeça. Perdi a noção do tempo.
Recordei e ainda recordo, como já disse, essa noite do ano de mil novecentos e noventa e nove como uma das melhores da minha vida. Esta semana, por email e já sem a pressão de qualquer envolvimento emocional, disse-lhe isso mesmo. Ela respondeu-me que se lembra que eu tenho a mania de catalogar tudo: os melhores filmes da minha vida, as melhores músicas da minha vida, as melhores paisagens da minha vida, as melhores cidades da minha vida, etc. Enfim, as melhores noites da minha vida também.
Treze anos depois voltámos assim ao tema das manias, e perguntei-lhe se ela era capaz de me explicar o que é que a tinha ofendido na minha observação sobre o servilismo exagerado. Demorou alguns dias a responder-me, de tal forma que cheguei a pensar que tivesse amuado de novo, e quando me respondeu disse-me que se se lembra das minhas manias é porque eu sou importante para ela. Quem gosta de alguém faz tudo o que pode para que esse alguém se sinta bem, explicou-me, e não quer ser confundido com um escravo por causa disso. Simples, não é? Perguntou.

5.10.2012

conversa 1905

(ao telefone)

Ela - Queres ir beber um copo?
Eu - Não.
Ela - Não?!
Eu - Não, desculpa lá. Tive um dia mesmo mau e só me apetece ir para casa, beber um uísque a ler qualquer coisa, e deitar-me...
Ela - Ah! Se estás mal disposto também não quero sair contigo. Normalmente és um chato quando estás assim...

quase ninguém


O problema que temos com o nosso governo é o mesmo problema dos casais que, de facto, não o são. Falta de Amor. O nosso governo devia gostar de nós tal como nós gostamos dele (afinal de contas, por muito que espingardeemos, somos nós que o elegemos ), mas não gosta. Diz que sim, mas passa a vida na cama com outros.
O nosso governo é uma merda, e aqui já nem aceito discutir e peço aos direitosos invertebrados que me poupem ao contraditório. É uma merda. Ponto. Para além de se deitar com outros, gasta com eles o nosso dinheiro todo. Depois engasga-se para nos explicar o que fez. Primeiro promete devolver daqui a uns anos, depois diz que afinal não dá, por fim acaba a pedir ainda mais dinheiro e agredi-nos antes de tornar a sair. É um caso nítido de violência doméstica em que a vítima não é capaz de se salvar a si mesma.
A maior parte dos portugueses vota constantemente à direita por um motivo muito simples: a maior parte dos portugueses é uma cambada de mal amados que só vive bem com o mal dos outros. É a lógica do "se eu estou mal, tu pior estarás". Vai-se nivelando tudo por baixo até não haver mais por onde cair.
Ao contrário do que possa parecer, a Política e a Economia são as coisas mais simples do mundo. É por isso, por ser tão simples, que meia dúzia de gajos do mundo da finança se deitam com os do nosso governo e nos conseguem roubar descaradamente, todos os dias e todas as horas. O que é mais complexo, pelo menos para os portugueses, é o Amor. Ninguém, ou quase ninguém, sabe o que é isso por cá.

5.08.2012

conversa 1904

Ela - Estou tão gorda...
Eu - Não estás nada.
Ela - Estou, estou. Agradeço-te a simpatia, mas sei que estou. E para emagrecer vou ter que emigrar...
Eu - Emigrar?! Emigrar para onde?
Ela - Para um sítio qualquer onde não haja pastéis de nata.

coisas que fascinam (144)

Passei a manhã e a tarde de ontem sozinho. Telefonei quatro vezes à Raquel, sempre com uma desculpa inventada à pressão, só para no fim da cada conversa lhe poder dizer que a Amo.
A estratégia é sempre essa: dizer que se Ama, assim como quem não quer a coisa, sempre que o coração aperta. Sei que a Raquel não se deixa enganar pelas razões que me levam a telefonar-lhe. Ainda bem. É por isso que o continuo a fazer.
Não faço a mínima ideia de quantas pessoas o fazem neste mundo. Para além de mim, talvez sejam todas ou talvez não seja uma única. Sei que é um luxo poder telefonar a alguém por uma merdice qualquer, só para depois poder dizer-lhe que se a Ama.

5.07.2012

respostas a perguntas inexistentes (207)

salvaste-me a noite

Tenho uma amiga de quem gosto muito mas que, por viver longe dela, só vejo muito raramente. Eu divido a minha vida entre Aveiro e Porto, ela divide a dela entre Castelo Branco e a Covilhã. A forma como nos conhecemos foi muito estranha, e levou-me a perguntar várias vezes o que é nos pode interessar ou não numa pessoa. Duma coisa tenho a certeza: há pessoas de quem gostamos muito, outras de quem não gostamos nada. Nunca na vida chegamos a saber o motivo.
Conheci-a há já muitos anos num pequeno bar em Bruges, na Bélgica, durante um fim de semana que ali passei sozinho. Mal entrei, sentei-me no único lugar ao balcão disponível e ela estava ao meu lado direito. Não me lembro de quem estava ao meu lado esquerdo porque, por qualquer motivo, ela me prendeu a atenção desde o primeiro momento. Depois de a ter visto a dar alguns goles numa cerveja tão grande quanto a que entretanto eu pedi, e sem lhe ter ouvido uma única palavra, perguntei-lhe se ela era portuguesa. Ela sorriu e respondeu que sim.
Passámos o fim de tarde e a noite toda a passear por aquela belíssima cidade medieval, entrando de vez em quando num bar à sorte para beber qualquer coisa. Ela mostrou-me um caderno que tinha onde pedia a todas as pessoas que conhecia que fizessem um retrato dela. Não tinha que ser um desenho aproximado. Podia ser um texto, um rabisco ou qualquer outra coisa que, para quem o fizesse, a definisse a ela como pessoa. Folheei todas as páginas e, como ela era uma pessoa que viajava muito, tinha textos em alemão, inglês, italiano e espanhol. Também tinha muitos desenhos, totalmente diferentes uns dos outros.
O interessante daquele caderno é que demonstrava os vários ângulos sob os quais ela tinha sido vista por pessoas diferentes, e acabámos a falar sobre isso mesmo. Ela tinha a teoria que nós somos o que os outros pensam de nós, e que aquele caderno acabaria por dar um puzzle sobre ela mesma. Um trabalho que a ajudaria a conhecer-se melhor a ela própria.
No fim da noite, e já no último bar, ela pediu-me para também lhe fazer um desenho. Com o que o meu estado parcialmente sóbrio me permitiu, desenhei-a duas vezes como se se estivesse a ver a um espelho. Por baixo escrevi que nós também temos o direito de pensar alguma coisa sobre nós mesmos.
Para ser sincero, já não me lembrava desse desenho. Lembrava-me apenas do abraço prolongado que demos quando me despedi dela em frente ao hotel onde estava alojada, e do percurso solitário que depois fiz até à minha pensão barata no perímetro urbano da cidade. Há uns dias fui jantar com ela, numa pequena pizzaria em Viseu, e ela mostrou-mo. Disse-me que nessa noite, apesar de ter vontade, não me convidou para subir ao quarto dela porque tinha lá o marido à espera.
O marido era um holandês viajado, homem de negócios, que lhe controlava totalmente a vida. Ela sentia-se extremamente só e, quando ele tinha reuniões, ela aproveitava para sair e ver pessoas. Como era, e ainda é, muito bonita, sempre lhe foi fácil acabar a conversar com um estranho qualquer. O caderno, confessou-mo nesse jantar, era o resultado dessas saídas.
Nessa noite em que a deixei no Hotel, e porque já era demasiado tarde, ele ralhou violentamente com ela. Foi também a primeira vez que ela lhe respondeu e ameaçou divorciar-se, o que veio a acontecer uns meses depois. Uma das coisas que ela lhe disse nessa discussão é que ele devia ver-se ao espelho, para perceber que não era apenas aquilo que os seus colegas de negócios lhe diziam, mas era também um homem violento, inseguro e sem o mínimo de respeito por quem gostava dele. Depois chorou.
Lembro-me que fui passar esse fim de semana a Brugges precisamente para estar sozinho, mas cinco minutos depois de sair à rua já estava extremamente arrependido. Queria estar com alguém porque me sentia só. Acho que vivi uma época assim, em que nunca estava bem como estava a não ser que alguém me surpreendesse. Não sabia, pelo menos da forma que sei hoje, o que é Amar e estar continuamente apaixonado. Era esse o meu problema.
Ela acabou a pizza dela uns cinco minutos depois de mim, cruzou os talheres e pediu dois cafés.

- De certa forma salvaste-me a vida. - disse.
- Salvaste-me a noite. - respondi.

5.04.2012

conversa 1903

(num bar)

Ela - O que é que vais beber?
Eu - Um Bushmills sem gelo.
Ela - Ainda bem.
Eu - Porquê?
Ela - Gosto de pessoas que bebem da forma mais simples possível. Uma cerveja, um uísque sem gelo e pronto, mais nada.
Eu - Porquê?
Ela - Normalmente são pessoas mais simples e, por isso, mais fáceis de lidar.
Eu - E tu, o que é que bebes?
Ela - Um cocktail qualquer que tenha uma cor berrante. Ainda estou a pensar nisso.

5.03.2012

é azul

Está a chover a cântaros, diz ela. Eu olho para avenida, que se estende até ao fim da vista, surpreendido. Apesar das gotas da chuva deslizarem suavemente pelo vidro da janela, e dos irrequietos guarda-chuvas que se movem lá em baixo como formigas desorientadas, eu ainda não me tinha apercebido da chuva. Estava deslumbrado com o cinzentismo do dia, pontilhado pelas cores vivas de alguns desses guarda-chuvas. Adoro quando chove na Primavera, respondo-lhe.
Olho-a de lado. Parece hipnotizada pela mesma dança de pontos coloridos que me seduziu a mim e parece adivinhar-me o pensamento. Os guarda-chuvas pretos são de homens, os guarda-chuvas coloridos são de mulheres. Só as mulheres é que dão cor aos dias cinzentos.Ela sorri timidamente. Eu também.
Tem sido assim desde manhã cedo, enquanto esperamos os dois por uma consulta de cardiologia na sala de espera dum oitavo andar qualquer, num edifício que tenta passar despercebido pela cidade. Não nos conhecemos, eu e ela, por isso não temos muito para dizer um ao outro. Vamos partilhando com frases curtas e soltas a paisagem amortecida que, enquadrada pela janela, mais parece um quadro vivo impressionista.
Os jornais e revistas em cima da mesa central são desinteressantes e estão desactualizados. Na verdade, mais parecem cadáveres retalhados pela ânsia dos doentes que ali esperaram a sua vez em dias anteriores. Eu e ela, estranhamente, estamos calmos perante esse desolador cenário de papel morto.
Ainda não lhe perguntei porque é que está ali, nem vou perguntar. Nunca são boas notícias, as que levam alguém a visitar um cardiologista. Por isso mantenho-me calado na esperança de que assim consiga também emudecer a doença. Não tenho dormido bem por causa de arritmias cardíacas, e os meus problemas de coração vêm de longe. É isso, penso. Calo-me.
Uma porta abre-se e chamam-na. Fico a saber-lhe o nome. Teresa. Ela é engolida pelo ávido consultório e, nem sei bem porquê, a paisagem lá fora deixa automaticamente de fazer sentido. Passo a sentir-me exageradamente só, e confunde-me sentir solidão pelo facto duma mulher que nem sequer conheço se ter ausentado assim, de repente.
Agarro num desses pedaços de papel e leio um pedaço duma notícia que deve ter, a ver pelo estado dele, pelo menos uns três meses. É sobre um acidente numa auto-estrada. Três feridos graves e um morto. Pergunto-me com estarão agora esses feridos. Talvez estejam em casa, a beber um café quente e a comer torradas com manteiga, numa espécie de aconchego recompensador. Amarfanho o papel e atiro-o para o caixote. Espero.
A porta que engole pessoas abre-se de novo e chamam o meu nome. Cruzo-me com a Teresa e tento perceber-lhe, através do olhar, como correu a consulta. Não consigo, mas pelo menos ela diz-me adeus. Adeus, repito. Fico a vê-la percorrer o longo corredor para a liberdade do dia, lá fora, sem médicos nem conversas sobre morte e doenças. Pega num guarda-chuva antes de sair. É azul.

5.02.2012

conversa 1902

Ela - Há dias vi na televisão uma coisa que me assustou.
Eu - O quê?
Ela - Um homem a dizer que se tinha esquecido de dizer regularmente à mulher o quanto gostava dela. Habituou-se tanto à presença dela que deixou de lhe dar importância, e só quando ela morreu é que ele percebeu a falta que ela lhe fazia...
Eu - É forte!
Ela - É assustador, não é?
Eu - É, mas se tens consciência disso, podes ir já dizer ao teu marido que o Amas.
Ela - Bem... o que me assustou é que é ele que nunca mo diz a mim.
Eu - E tu dizes-lhe a ele?
Ela - Não, mas peço-lhe para ele mo dizer a mim, o que vai dar ao mesmo. Não achas?
Eu - Pedes-lhe para ele te dizer que te Ama e ele nunca to diz?
Ela - Sim.
Eu - Pois... assim a pedido eu também não dizia. A palavra "amo-te" tem que sair sem ser a pedido.
Ela - Então agora não lhe vou pedir mais.
Eu - Se calhar devias dizer-lho tu primeiro.
Ela - Isso não. Tem que ser o homem primeiro.
Eu - Porquê?
Ela - Se uma mulher diz a um homem que o Ama, ele pensa logo que ela quer pinar. 

respostas a perguntas inexistentes (206)

Teolinda

A Teolinda gostava secretamente de mim. Tenho a certeza. Todos os dias, sem excepção, me cruzava com ela na rua que ligava o hospital ao jardim das árvores grandes. Todos os dias, sem excepção, ela fingia que não me via e continuava o seu passo apressado a fingir que tinha para onde ir. Não tinha, e eu sabia-o. Sabia também que era por falta de coragem que ela desviava o seu olhar do meu. Às vezes sorria timidamente, outras vezes não.
Eu acordava todos os dias bastante cedo, penteava-me e fazia a barba, punha umas gotas do after-shave do meu pai e treinava um ar bem disposto no espelho do elevador. Tudo para o caso de ela ganhar coragem e decidir falar-me. Bastava que me cumprimentasse uma vez que fosse e eu dir-lhe-ia o quanto também gostava dela, mas nunca o fez. Por falta de coragem, tenho a certeza. Foi uma pena.
Ficou a chamar-se assim, Teolinda, naqueles dias em que deixou de passar por ali e eu, doente, passava os dias dum lado para o outro à espera de a encontrar. Devo ter feito aquela rua umas centenas de vezes, na esperança de passar por ela para fingir que nem a via e que ela, uma vez que fosse, não fizesse o mesmo que eu. Nunca mais aconteceu, e por isso dei-lhe o nome que sempre me pareceu ter. Teolinda.

parêntesis neste blogue para três coisinhas

1) O meu amigo Tiago Leal precisa de trabalho. Uma das formas de o ajudarem a arranjar trabalho é gostarem duma ilustração dele no facebook. É assim que a empresa Princess Pea vai escolher o próximo ilustrador. Eu agradeço-vos...
2) Se ainda não estão fartos de ouvir falar do que aconteceu no Pingo Doce, podem ir ao meu blogue que ninguém lê. Se estão, não vão.

3) Podem também gostar do blogue do João Branco, num concurso de blogues de Cabo Verde. E prometo que não vos chateio mais...

4.26.2012

respostas a perguntas inexistentes (205)

nuvens

Adormeço durante cerca de quinze minutos. Quando acordo, olho pela janela e a paisagem já é outra. Não assisto à sua lenta transformação, em que a densidade de casas e árvores se vai desertificando. Em vez disso, esta viagem de comboio parece mais uma aventura numa máquina de teletransporte. Torno a fechar os olhos e tudo torna a acontecer.
No escuro do sono, meio adormecido, sou assaltado pela ideia confusa de que estou a reviver toda a minha vida, todos os meus Amores. Tenho a noção de que foi assim que vivi, teletransportando-me de uns para outros, fechando os olhos e adormecendo entre eles. Algumas vezes saí em estações, mas a maior parte delas foi apenas em apeadeiros. Acordo.
À minha frente, uma mulher que aparenta ter cerca de dez anos a mais do que eu, adormeceu e pousou a cabeça no ombro do homem que a acompanha. Reparei também que, para não a incomodar, ele ainda não se mexeu desde o princípio da viagem. Vai ali como se fosse uma estátua feliz, talvez com formigueiro no braço, a embalar quem Ama.
A minha atenção centra-se nele. Leva um livro aberto numa das pernas, numa página marcada pelo próprio joelho, que não se atreve a ler. Tudo o que ele quer é manter o máximo de silêncio e quietude, para não incomodar o bem estar da mulher. Outro comboio qualquer cruzou-se com o nosso, e imediatamente o vi a pousar a mão numa das orelhas dela para abafar o ruído. De resto, tem ido sempre a olhar pela janela. Ele sim, a ver a paisagem modificar-se lentamente.
Acho que somos todos mais ou menos assim. Às vezes apetece-nos adormecer e acordar noutro lugar qualquer. Um lugar que seja diferente e que nos dê uma nova oportunidade para Amar. Outra vezes queremos desfrutar de cada segundo, como se o tempo fosse essa paisagem mutante que vai passando por nós. Isso acontece quando estamos apaixonados. Mais nada o permite.
Fecho os olhos. Sei que dentro de pouco tempo vou apanhar um avião para Madrid, onde conto passar todo o fim de semana. A Raquel também vai e, com ela, espero ver todo o céu sem perder uma única nuvem. Até ao meu regresso e fiquem bem.

conversa 1901

Ela - Este fim de semana podíamos beber um copo.
Eu - Não estou cá. Vou passar o fim de semana a Madrid.
Ela - Detesto esta sensação de ver todos a ir para qualquer lado e eu a ficar aqui, nesta cidadezinha de merda, sozinha.
Eu - Não precisas ficar aqui. O Porto, por exemplo, é aqui tão perto...
Ela - Detesto ainda mais perceber que todos vão facilmente para qualquer lado e que eu, apesar de não querer ficar aqui, também não quero ir a lado nenhum.

4.24.2012

por uma vida melhor

Há muitos tipos de ditadura. Tantos, que às vezes se veste com o nosso dia-a-dia e é fácil perder a noção de que se vive sob uma. Todas as ditaduras têm duas coisas em comum. Primeira: o poder executivo confunde-se com o poder legislativo, isto é, quem faz as leis é também quem executa. Segunda: as ditaduras surgem sempre em nome dum valor qualquer que se supõe ser mais importante que todos os outros. É por isso que na política, no Amor, assim como em tudo na vida, é fácil cair em tentação ditadura.
Por exemplo, até ao dia 25 de Abril de 1974 vivemos, em Portugal, na ditadura dum pequeno-fascista. Uma ditadura da direita social, portanto. Matou-se, prendeu-se e torturou-se, tudo em nome de valores tão falaciosos como Deus, Pátria e uma família sem pensadores e sem vontades. Nem Deus, se existisse, nem nenhuma pátria ou família, dependeriam uma vez que fosse dum regime que pode, quer e manda.
Actualmente vivemos uma Ditadura diferente. A dos Mercados e do capitalismo selvagem. Uma ditadura da Direita Económica, portanto. Leva-se pessoas à fome, à miséria e ao desespero, tudo em nome duma suposta Democracia. As pessoas votam e pensam que controlam tudo. Só que não controlam nada. Zero. O voto está sempre viciado à partida, principalmente através duma Educação que não o é, e também do contexto mediático.
As ditaduras de Estado, neste aspecto, são muito parecidas com as ditaduras no Amor. Aquelas em que, por exemplo, nasce a violência doméstica. Agride-se e tortura-se uma pessoa durante anos a fio, tudo em nome do Amor. Uma mulher pensa que é Amada, mas de facto não o é. Zero. O Amor está viciado à partida por uma relação de posse, de propriedade da pessoa como se ela fosse uma coisa. E sim, eu sei que também pode acontecer com um homem.
O Amor não existe em nenhuma ditadura. Nem o Amor, nem mais nada. Todos os dias luto, com as limitações que tenho, para que se faça um 25 de Abril nesta nova ditadura em que vivemos, ou melhor, em que sofremos.  São os recibos verdes, é a falta de acessibilidade à saúde, à educação, à mobilidade e aos recursos naturais. É a fome e o desemprego propositado. Olho para este país e só vejo ditadura e o consentimento de quem é agredido todos os dias.
Pode haver quem não perceba isso, mas o 25 de Abril que eu quero ver neste país é o mesmo 25 de Abril que eu vejo no meu Amor. É justo, sem violência e sem propriedade privada. É igual em ambos os sentidos. É Amor. Por uma vida melhor.

4.23.2012

orangotangos

Enquanto género, o homem é um ser desprezível. Torna-se ainda mais desprezível quando comparado com a mulher. É uma verdade que tenho como certa, ou uma certeza que tenho como verdade. Tanto faz. Pensei nisto hoje de manhã, quando entrei no metro do Porto, mas a verdade é que é um pensamento que se está a tornar repetitivo. Todos os dias, por um motivo qualquer, sou assaltado por ele. E todos os dias, meus amigos, é a estatística a dar-nos certezas.
Voltemos ao metro do Porto hoje de manhã. Entro na estação das Sete Bicas em direcção a Campanhã, uma estação depois entra uma das mulheres mais bonitas que já vi na minha vida. Sem exageros. Olho para ela e agradeço-lhe, em pensamento, o facto de ter tornado esta ordinária viagem de metro numa coisa extraordinária. Os olhos dela cruzam-se com os meus e eu desvio-me. Atrás de mim ouço um grupo de rapazes em risadas histéricas que são, obviamente, por causa dela. É uma atitude animalesca, de quem se manifesta fisicamente por ser incapaz de qualquer reacção intelectual à presença duma mulher bonita. Quando ela se levanta para sair, na Trindade, eles grunhem uma última vez. Depois calam-se. Um homem mais velho, embalado por aquela performance dantesca, grita-lhe qualquer coisa como: "Gandas marmelos!". É a primeira vez que tenho vergonha do meu género neste dia. Não será a última.
Chego ao meu local de trabalho e abro o meu email. Um amigo enviou-me um link para uma reportagem sobre abusos sexuais a orangotangos fêmeas na Indonésia. Os animais, uns, são capturados, acorrentados a camas e preparados para a prostituição. Outros, sempre homens, pagam esse abuso sexual. Por um momento faz-se luz. Há qualquer coisa em comum nesta notícia e naquilo a que assisti no metro. É a ausência total de emoção e de razão. E isto, meus amigos, só acontece em homens.
No género masculino, há um número significativo de indivíduos cuja vida é totalmente aniquilada por uma hormona. Quando digo vida, digo também capacidade de Amar. É por isso que  são sempre homens, os autores das notícias mais escabrosas sobre abusos sexuais. Ponto. As mulheres são diferentes. São melhores, e estranhamente mantêm a capacidade e paciência para viver no meio dos homens. Não as compreendo. Admiro-as.

conversa 1900

Ela - O teu blogue era muito mais interessante quando não tinhas namorada.
Eu - Eu gosto mais agora.
Ela - Agora, quando te pões com sentimentalismos, és um chato. Espero que a Raquel te deixe o mais depressa possível.

4.20.2012

conversa 1899

Eu - Achei muito estranho tu ontem nem sequer teres falado com a Guida.
Ela - Eu nunca mais falo com a Guida.
Eu - Estão zangadas?
Ela - Estamos. Ela disse-me uma coisa daquelas que ferem mesmo, só para me magoar.
Eu - A sério?! O que é que raio ela te pode ter dito assim tão grave?
Ela - Agora já não me lembro bem, mas sei que disse.

4.19.2012

conversa 1898

(ao telefone)

Ela - Não me devias ter telefonado agora.
Eu - Porquê?
Ela - Estou a fazer uma coisa que ninguém pode fazer por mim.
Eu - Estás na casa de banho?
Ela - Não. Estou a dizer mal das amigas todas do meu marido.
Eu - A quem?
Ela - Ao meu marido, claro. Nunca diria mal das amigas dele a mais ninguém. Não tenho mau carácter.
Eu - Estás mesmo?
Ela - Só de algumas, pronto.
Eu - E dizes mal de mim?
Ela - Tu és meu amigo. Ele é que me diz mal de ti, de vez em quando.
Eu - Quando é que te posso ligar, então?
Ela - Daqui a uma horinha, pode ser?
Eu - Uma hora?!
Ela - Sim. Sempre que nos pomos a dizer mal dos amigos do outro, precisamos de pelo menos uma hora.
Eu - E fazem isso regularmente?
Ela - De vez em quando. É uma forma de fortalecer a relação.
Eu - E o teu marido está aí a ouvir a nossa conversa?
Ela - Sim, e já está a dizer que és um chato.

4.18.2012

manual de instruções para zangas banais

Sei que há dois tipos de zangas entre pessoas que partilham a vida. Há zangas banais, daquelas que surgem de pequenos nadas do quotidiano, e que se resolvem sozinhas. Há zangas mais a sério, daquelas em que um acaba a tentar ofender o outro sem perceber muito bem porquê. Sempre pensei que as zangas banais acontecem entre pessoas que se Amam. Talvez até sejam necessárias, sei lá. Por outro lado, as zangas mais a sério acontecem entre pessoas que já se Amaram. 
São dez da manhã dum dia qualquer e o dia está como eu: cinzento. Não está chuva nem Sol, não está frio nem calor. Caminho de meias pela minha própria casa, à deriva, sem saber muito bem em que divisão devo parar. Ela acabou de sair, há cerca de dez minutos atrás e, para além duma taça de cereais suja em cima da banca da cozinha, não deixou mais nada. Nem um sorriso, nem um beijo, nem sequer um "até logo". O último som que ouvi na minha vida foi o da porta a bater, e tenho a sensação que foi há mais tempo do que esses dez minutos. Depois fez-se silêncio.
É nesse silêncio que tento perceber que tipo de zanga é a nossa. Não consigo. Sei que ontem tentei fazer Amor com ela quando nos deitámos e ela, que já tinha vestido a camisa de dormir, apagou a luz do pequeno candeeiro da mesa de cabeceira e disse-me que estava cansada. Não liguei. Adormeci também. Hoje de manhã disse-me que, apesar dos nossos dez anos juntos, parece que ainda não a conheço. Depois saiu. Sento-me no sofá da sala e faço uma lista daquilo que sei dela e que, dentro do que é humanamente possível, tento cumprir.

Lista das coisas que sei sobre a Teresa:

- gosta que eu ponha os copos maiores na parte de trás do armários da cozinha e os mais pequenos à frente.
- gosta que eu veja os jogos de futebol na televisão com o som desligado.
- gosta de ser ela a temperar as saladas, mesmo que seja eu a fazê-las, e não podem ter milho.
 - gosta que eu tire as palmilhas dos sapatos e deixe tudo, antes de me deitar, na janela da cozinha.
 - gosta de beber um chá de hortelã à noite, enquanto eu bebo um café expresso sem açúcar.
 - gosta que eu ponha os catálogos do IKEA e a Dica da Semana junto à sanita, para ela ler quando vai à casa de banho
 - detesta que o saco de lixo orgânico comece a deitar cheiro.
 - gosta de ser ela a escolher as peças de roupa que vão à máquina de lavar, por causa do tipo de tecido e das cores.
 - gosta que as garrafas de vinho fiquem na despensa e que, caso alguma já esteja aberta, fique dentro dum armário. 

São tudo coisas pelas quais já tivemos zangas banais. Uma vez, por exemplo, partiu um copo grande ao pegar num dos pequenos, que eu tinha guardado mais ao fundo, e ficou quase a noite toda sem me falar. Depois, antes de nos deitarmos, resmungou que a casa precisava de mais organização. Nessa noite também não fizemos Amor. Nunca fazemos quanto temos esse tipo de zangas. Tanto quanto me lembro adormeci já depois das quatro da manhã, a pensar se aquela palavra - organização - seria um pedido ou uma espécie de ordem nazi. Deviam ser umas três quando me levantei e fui um bocado até à sala, beber um copo de leite morno e deitar-me no sofá a ver as miúdas avantajadas dos programas nocturnos da televisão. Ela levantou-se e veio-me buscar assim que deu pela minha falta na cama. Ainda dá pela minha falta, pensei.
Devo ter adormecido neste mesmo sofá. Pelo menos é ela quem me acorda agora, depois de ter lido o papel com a lista que estava ligeiramente amarrotado entre os meus dedos. Nem sequer a ouvi entrar. 

- Podes acrescentar aí uma coisa. - diz.
- Qual? - bocejo.
- Gosta que lhe perguntem como está, de vez em quando, principalmente nos dias em que anda doente.
- Como estás?
- Com vontade de te bater - beija-me.

4.17.2012

uma boa e uma má notícia

Acho que o fiz para passar a gostar, o mais depressa possível, de estar sozinho. Quando me separei, e em esforço, ganhei imediatamente um hábito novo. Cozinhar, ao jantar, sempre uma receita nova e que ultrapassasse em muito o facilitismo dos enlatados e das refeições pré-feitas dos supermercados. Utilizava quase sempre uma toalha lavada, uma banda sonora diferente e uma garrafa de vinho um pouco mais cara do que até então. 
Depois de jantar, e já com a louça lavada e um uísque bebido, saía de casa e caminhava sempre em direcção ao mesmo bar onde, se fosse possível, ocupava o mesmo lugar ao balcão e bebia todas as noites também o mesmo. Um café Delta e dois ou três uísques Bushmills. Às vezes aparecia um conhecido qualquer e acaba a conversar sobre uma trivialidade qualquer, outras vezes não aparecia ninguém e trocava apenas algumas ideias com o empregado.
Esta rotina teve em mim o óptimo efeito de fazer com que as minhas noites deixassem de ser más. Numa dessas noites, em que ninguém apareceu para conversar e o empregado andava demasiado ocupado para me aturar, apercebi-me que todavia nenhuma era muito boa. Eram, todas elas, noites mais ou menos.
Lembro-me perfeitamente do dia seguinte. Cozinhei uma quantidade generosa de Ameijoas à Bolhão Pato que comi com bastante pão de mistura, acompanhado por uma toalha nova amarela comprada numa promoção qualquer, e uma garrafa de Quinta da Bica que tinha escolhido por ser da região do Dão. Tudo ao som da Cesária Évora. Lavei a louça, bebi um uísque e saí de casa. Foi logo no primeiro cruzamento que decidi virar, pela primeira vez nessa fase da minha vida, à direita e seguir caminhando sem destino óbvio. Não sabia se ia ter uma noite boa ou má, mas o principal objectivo era que não fosse mais ou menos.
Já nos subúrbios da cidade, dissimulado pela fraca luz de alguns candeeiros público intermitentes, percebi que alguém empurrava um carro rouco e fui ajudar. O automóvel acabou por pegar, depois do motor soluçar duas ou três vezes, e o condutor desapareceu engolido pela noite enquanto agradecia com um braço fora da janela. Fiquei eu, ela e um vento fraco, sozinhos numa rua deserta. Nenhum reagiu prontamente àquele encontro inesperado, nem para se despedir, nem para se apresentar. Passou a ser óbvio que nenhum de nós tinha para onde ir e não queria ser o primeiro a admiti-lo.

- Ando à procura dum sítio para beber qualquer coisa. Há aqui algum bar perto? - perguntei.

Só a vi bem quando entrámos num café vazio, onde o dono via os resumos dos jogos de futebol e demorou uma meia hora para nos vir perguntar o que queríamos. Era, à vontade, uns vinte e tal anos mais velha do que eu, cujo semblante triste se deixava rasgar de vez em quando por sorrisos contidos. Contou-me que em nova tinha sido actriz de teatro e que, antes do 25 de Abril, tinha mostrado as mamas em palco. Não percebi se o dizia com vergonha ou com orgulho, mas percebi que tinha pagado um preço muito alto por tal atrevimento. A família tinha-a expulsado de casa deixando-a, ainda nova, entregue a si mesma. 
Comparado com a vida dela, o meu divórcio recente ganhava uma dimensão bastante reduzida e tentei não me mostrar muito triste quando lhe expliquei porque é que andava ali perdido. 

- Separei-me há pouco tempo. - expliquei-lhe - Ando a tentar ganhar novas rotinas de vida e hoje, não sei porquê, vim aqui parar.
- Tenho uma má e uma boa notícia para ti. - sorriu ela mais tempo do que em qualquer sorriso anterior.
- Diz...
- A má notícia é que te divorciaste e nunca mais vais poder viver a vida como fazias até agora. Não é possível porque a tua principal companheira já não está contigo.
- E a boa notícia, qual é?
- A boa é que estás divorciado, por isso podes viver as coisas como te apetecer.

Por um momento percebi as minhas receitas novas todos os dias, as minhas toalhas lavadas de novo, as minhas garrafas de vinho escolhidas a dedo e as minhas idas sempre ao mesmo bar para beber uísque. Percebi até porque é que tinha mudado de direcção e ido para um café rasca falar com uma mulher que nunca tinha visto antes. Nessa noite mudei.

4.16.2012

conversa 1897

Ela - Finalmente sinto-me preparada para viver um Amor eterno...
Eu - Mas... tens quarenta e cinco anos. Nunca te tinhas sentido preparada antes?
Ela - Estou a falar desde ontem à noite. Ontem acabei com o meu namorado...
Eu - Nem sabia que tinhas namorado...
Ela - Não te cheguei a dizer porque não deu tempo. Só namorámos três dias.

4.13.2012

respostas a perguntas inexistentes (204)

o primeiro beijo da morte
No prédio onde eu cresci eram raras, para não dizer inexistentes, as conversas entre vizinhos. Todos se cumprimentavam sempre que se cruzavam, mas não mais do que isso. Foi por isso que estranhei quando, no fim duma manhã qualquer de Primavera, ouvi um burburinho intenso nas escadas cortado ao meio por dois ou três gritos ameaçadores. Era um homem forte, cuja face zangada parecia esculpida com uma faca do mato, que queria bater no vizinho do quarto direito.
Algumas pessoas tentavam acalmá-lo, segurando-o de frente como se pegassem um touro enraivecido. Aquilo que, no entanto, não conseguiam estancar, eram os gritos que tentavam justificar aquela violência toda. Ele tinha visto a mulher beijar o meu vizinho e queria matá-lo.
Acho que foi essa a primeira vez em que me apercebi da importância que um beijo pode ter. Tanta que pode culminar em morte, pensei.

o beijo da Bonnie Parker
Devo ter visto pela primeira vez o filme "Bonnie and Clyde", de 1967, aí com uns dez anos de idade, ou seja, uns quatro anos após a cena no meu prédio. Era um filme proibido para crianças mas que, por algum milagre que nunca consegui explicar, o meu pai me deixou ver.  Ainda bem. Foi com ele que confirmei que um beijo pode acabar em morte, e foi com ele que aprendi que os maus também se Amam.
Os maus, neste caso, são os próprios Bonnie e Clyde, um casal apaixonado de assaltantes de bancos. A Bonnie Parker e o Clyde Barrow não tinham uma vida normal nem decente como todos os outros, muito menos aos meus olhos de criança, mas o filme retrata-os como um casal mais feliz do que qualquer outro. No fim o meu pai, quando se apercebeu que eu não saía do sofá durante a ficha técnica, disse-me que aquela história era verdadeira.
Nesse dia confirmei a importância do beijo e de como ele pode acabar em morte.

o meu beijo
Esperei anos pelo meu primeiro beijo, que todos dizem que é o mais importante duma vida. Num certo sentido até é. Foi com ele que aprendi que os beijos têm sabores e foi com ele que aprendi que o beijo mais importante é sempre o último. Teve, pelo menos, essa importância que ninguém lhe tira.
Fazíamos, eu e a Márcia, concursos para ver quem conseguia que uma pedra ricocheteasse mais vezes nas ondas do mar. Ela ganhava sempre, porque a mim me faltavam as forças que gastava na confusão de um não Amor de Verão. Ela sorria e era enérgica, eu parecia sempre um pouco apagado. É isso um não Amor, e garanto-vos que é bem mais difícil do que um Amor qualquer,
Um não Amor é uma vontade de Amar que não cabe em ninguém, e que por isso acaba por se adaptar a quem está mais perto. É próprio da adolescência, é próprio de quem ainda não aprendeu a Amar. É vão, e a Márcia parecia sabê-lo. Uma vez disse-me que tinha atirado uma pedra que queria recuperar, mas que não era capaz de ir sozinha até à rebentação das ondas. Deu-me a mão e levou-me com ela, beijou-me e fugiu a sorrir. O beijo soube-me a sal, logicamente.
Nesse dia aprendi que um beijo pode acabar em vida.

dos beijos todos
Não acredito no Amor cujo primeiro toque não seja o dos lábios, logo a seguir ao ainda mais suave contacto das palavras. O beijo é o corpo a soltar-se para tudo o resto: a pele com a pele, os olhos com os olhos, o verbo com o verbo. E por falar em verbo, o beijo é também a assinatura do tratado que nasce cada vez que se diz "eu Amo-te!". Sem ele, o verbo Amar é apenas uma declaração vazia de intenção. No Amor vale muito pouco falar, mas vale tudo beijar. É no beijo que acreditamos sempre. Ou não. Podemos duvidar de nós mesmos quando dizemos "Amo-te!", mas nunca duvidamos quando beijamos "Amo-te!".

4.11.2012

...da deterioração do Amor

Tenho um amigo que é obcecado por números. Quando digo que ele é obcecado por números, digo-o sem qualquer tipo de reserva. Tudo aquilo que ele sente, vê, ouve ou diz tem que estar relacionado com uma lógica numérica qualquer. Por exemplo, sempre que anda de autocarro anota num caderninho a matrícula do mesmo e o número do lugar em que se senta. De vez em quando faz as contas e passa a saber exactamente quantas vezes andou em cada veículo e em que lugar. Diz ele que o faz para ter uma noção mais real do que está a ser esta sua passagem pela vida.
Por princípio, poderia ser considerado um amigo nerd e insuportável, mas não é. É alguém que eu adoro visitar de vez em quando para ter daquelas conversas, sempre regadas com algum uísque, que se estendem pela noite dentro. Também gosto de o receber, e se me conseguir esquecer que ele sabe exactamente quantos degraus precisa de subir para chegar a minha casa, conseguimos ter conversas normais.
Noutro dia fui eu visitá-lo, e depois dele me dizer quantas vezes em média eu limpo os sapatos no tapete da entrada, sentámo-nos e ele serviu-me o primeiro de seis copos de uísque Bushmills (segundo ele, é essa a média de uísques que bebemos por cada noite destas). A partir daí, ficámos na conversa até às cinco da manhã e, suponho eu, ultrapassámos em muito a média do álcool ingerido. Todas as nossas conversas são, pelo menos a meu ver, interessantes precisamente por isso. Eu falo das coisas numa perspectiva sempre mais solta, ele sempre preso à sua lógica sequencial ou estatística.
A ele, durante estes mais de dez anos em que nos tornámos amigos, só lhe conheci uma namorada. Ele gostava tanto dela que passou a comprar cadernos de capa dura para registar tudo o que considerava importante, penso eu que para que esses registos durassem mais. Um dia a namorada nunca mais apareceu e ele nunca me explicou porquê. Abanava os ombros cada vez que eu lhe perguntava e rapidamente mudava de assunto.
Dei o primeiro gole e ele perguntou-me porque é que eu estava triste. Abanei os ombros e disse-lhe que a minha namorada me tinha dito que precisava de algum tempo para pensar na nossa relação e que, acabada de chegar de férias, nem sequer ainda me tinha vindo ver. Disse-lhe que o mais horrível de tudo era esta urgência que eu tinha de estar com ela e que ela, nitidamente, não tinha de estar comigo. Olhei-o de frente e ele sorriu, como se me percebesse e finalmente, com esse olhar, me estivesse a explicar o que lhe tinha acontecido a ele.
Vi-o levantar-se e voltar com um desse caderninhos de capa dura dos tempos em que tinha namorada. Na capa, com uma esferográfica azul, tinha escrito "...da deterioração do Amor". Abriu-o com muita calma e explicou-me que entre o princípio e o fim da sua relação, o número de beijos que a namorada lhe dava por sua iniciativa desceu de vinte e dois por dia para apenas três, o número de vezes que ela lhe dava a mão na rua desceu de cem por cento para apenas dois por cento. Olhou-me nos olhos para tentar perceber a minha reacção, mas eu ouvia-o impávido e sereno, sem esboçar fosse o que fosse. Por fim, disse ele, o número de vezes que tinham sexo desceu de seis vezes por semana para uma vez de duas em duas semanas.
Bebi tudo o que restava no meu copo de uísque e eu próprio me servi de outro, sem o servir a ele porque ainda tinha o copo cheio. Perguntei-lhe se tinha sido ele a acabar com ele ou se tinha sido ela, só para ver se ele, finalmente, abria um pouco o véu que cobria o fim da sua relação. Abanou os ombros e respondeu-me que, desde então, abana os ombros cerca de três vezes por dia, ou seja, sempre que alguém lhe fala de Amor.

4.06.2012

foi só isso...

Por definição não gosto de galerias de arte. Gosto de arte, todo o tipo de arte, quando de alguma forma ela me emociona. O problema das galerias de arte é exactamente esse: castram a emoção pela raiz. Primeiro enclausuram-na, depois silenciam-na e por fim exibem-na como se fosse uma coisa rara. Não é. A arte, todo o tipo de arte, é-nos natural.
Ainda não estava apaixonado pela Teresa no dia em que fomos ver uma exposição de pintura em Lisboa, dum pintor qualquer de que já nem lembro o nome, mas acreditava que isso me ia acontecer em breve. Ela foi pousando brandamente os olhos dela, de quadro em quadro,  e quando andava era como se o som dos seus saltos altos fosse uma espécie de crime. Aligeirou o passo e perguntou-me se eu estava a gostar.

- Mais ou menos... - respondi para não a desiludir totalmente - nenhum dos quadros é figurativo, então nenhum  me diz nada.
- Ao menos fala baixo. - pediu ela de forma embaraçada.

Eu saí da galeria e esperei por ela lá fora e, enquanto passeava os meus olhos de forma discreta pelas mulheres que iam passando, decidi-me a não me apaixonar por ela. Às vezes, não Amar pode ser a melhor solução. Pelo menos foi o que eu pensei. A Teresa era bonita, mas também ela era uma espécie de galeria de arte. Nela, às vezes tinha que falar baixinho para não parecer estúpido. Outras vezes vezes era mesmo melhor calar-me.
Nesse mesmo dia inventei uma desculpa qualquer e apanhei o intercidades para Aveiro, onde acabei a noite sozinho a beber Bushmills num bar que também tinha nas paredes uma exposição de pintura. Sem sair da minha cadeira ao balcão, vi os quadros todos. Eram retratos de pessoas que provavelmente nem existiam. A dona do tasco reparou e perguntou-me se eu tinha gostado.

- Sim, todas as pessoas retratadas me parecem serenamente felizes, como se tivessem acabado de passar por uma qualquer contrariedade na vida e agora se sintam calmas e aliviadas.
- Obrigado, vou dizer isso à minha filha. - Ofereceu-me o terceiro copo de uísque, que agradeci.

Nessa noite cheguei à conclusão de que, pelo menos para mim, era melhor que todas as exposições de qualquer tipo de arte fossem em bares e não em galerias. Nas galerias, por norma, não interpretamos sequer o que vemos. Pelo contrário, submetemo-nos totalmente àquilo que é suposto perceber, ou então é melhor fecharmo-nos na nossa esmagadora ignorância.
Eu acredito, e gosto de acreditar, que o ser humano é criativo em praticamente tudo o que faz. A Amar também. O Amor é uma arte como outra qualquer, embora não tenha suporte físico. É como a música, por exemplo, e nesse dia desafinei de propósito para acabar de tocar uma canção que nunca me iria sair bem. Foi só isso.

4.05.2012

Assim vai ser difícil casar

Há mulheres encantadoras, tão encantadoras que não devia ser permitido que homens banais se sentassem ao lado delas nos transportes públicos. Há homens banais, tão banais que não devia ser permitido que se sentassem ao lado de mulheres.
O homem banal sentou-se mesmo à minha frente, no comboio, com cara de poucos amigos, e começou a praguejar por causa dum idoso qualquer que tinha demorado muito a comprar o bilhete na máquina automática. A mulher encantadora continuou a ler umas fotocópias que, suponho eu, teriam a ver com a sua actividade profissional ou académica. Eu continuei a ler o meu livro do Murakami. Acho que tanto eu como ela só queríamos silêncio, mas não o tínhamos.
Foi ela quem decidiu falar primeiro, e disse-lhe aquilo que é óbvio. Que as novas máquinas automáticas da CP podem ser complicadas para algumas gerações pouco habituadas às novas tecnologias, que o dever dele era ter ajudado primeiro e protestado depois. Evitei entrar na discussão, porque logo à partida percebi que não valia a pena, e foi isso mesmo que me encantou nela: insistiu. As mulheres encantadoras nunca desistem facilmente dum homem banal. É um dos seus encantos. Foram precisos, aliás, dez minutos para ela perceber aquilo que eu já tinha percebido. "Assim vai ser difícil casar", disse-lhe ele. 
Os homens banais acham que uma mulher que argumenta não é boa para casar, por isso mesmo. A banalidade não consegue ser dialéctica. Não evolui. Um homem banal hoje é igual a um homem banal medieval. Nasceu, vive a protestar porque os idosos o fazem perder tempo, e depois morre. É isso que é ser banal. Ela encantou-me porque ainda luta contra essa banalidade. Eu não consigo. Sou banal.

conversa 1896

Ela - Imagina que engatavas hoje uma mulher qualquer.
Eu - Estou a imaginar.
Ela - Acabavas num hotel com ela...
Eu - Sim...
Ela - O que é que ias pensar se, quando ela se despisse, reparasses que ela tinha umas cuecas até acima do umbigo, daquelas que servem para ficarmos mais magras na barriga? Uma cinta...
Eu - Argh!
Ela - Obrigado, era o que eu queria saber. Vou à loja devolver as minhas.

4.04.2012

respostas a perguntas inexistentes (203)

das coisas que eu não percebo em mim

Merda de microondas. Acabei de queimar a língua. Todas as manhãs é a mesma coisa: ou aqueço demasiadamente o leite ou tenho que o beber frio. Dantes, quando o punha num fervedor de metal e o aquecia no fogão a gás, nunca falhava. Sabia exactamente qual a temperatura a que estava só de olhar para ele. Agora, com o microondas, é todas as manhãs um stress. O que eu não percebo em mim, é porque é que tendo o fogão a gás mesmo ao lado do microondas, insisto em usar este último todas as manhãs.
Há mais coisas que eu não percebo em mim. Todas as manhãs, todos os dias, todos os meses, todos os anos. Por exemplo, saber que a Primavera gosta de entrar pelas janelas da minha casa e, mesmo assim, nunca as abrir mal a vejo do outro lado dos vidros. Vejo-lhe a luz, não lhe sinto cheiro.
Movimento-me assim, num colete de hábitos que tem como único objectivo fazer com que o tempo passe por mim sem que eu passe por ele, até ao segundo exacto em que me dou conta disso mesmo. Por exemplo, de que a pessoa que eu Amo e que está ali ao meu lado, não é apenas uma sombra de todos os dias, de quem me vou despedindo todas as manhãs para depois cumprimentar à noite com um beijo na boca sem sabor.
São dez horas e dezasseis minutos dum dia qualquer primaveril. Raspo três vezes um fósforo na respectiva caixa para acender um dos bicos do fogão. Faz-se fogo, faz-se luz. Aqueço o leite enquanto abro as janelas de casa e corro para a porta para beijar de novo a minha companheira. Mais prolongadamente, desta vez, e com um "Amo-te!" à mistura. A minha vida é uma das coisas que eu não percebo em mim.

4.03.2012

conversa 1895

Ela - Gostava que te tivesses apaixonado por mim, pelo menos uma vez na vida.
Eu - Para quê? Já falámos sobre isso...
Ela - Pois já.
Eu - Somos bons amigos, acho eu, e se tu nunca te apaixonaste por mim, não percebo porque é que raio quererias que eu me apaixonasse por ti.
Ela - Para te fazer sofrer um bocadinho. Só isso.
Eu - Para me fazer sofrer?!
Ela - Sim, tenho esta sensação estúpida de que nunca ninguém sofreu por mim.
Eu - Estás bem?
Ela - Sempre que um homem se apaixonou por mim, eu apaixonei-me por ele. Sou uma fácil...
Eu - Não sabes se algum homem sofreu por ti em silêncio...
Ela - Pois não, mas queria tanto saber.

4.02.2012

conversa 1894

(no café)

Ela - Está ali um passarinho pequenino.
Eu - Onde?
Ela - Ali, junto àquela árvore, do lado de lá do vidro.
Eu - É um pardal. Os pardais são pequeninos.
Ela - Mas aquele é pequenino mesmo e deve andar à procura da mãe. Devíamos ajudá-lo.
Eu - Eu não sei quem é a mãe dele, por isso não o posso ajudar.
Ela - Que falta de...
Eu - Falta de quê?!
Ela - De sensibilidade, de disponibilidade. De tudo.
Eu - Queres que eu interrompa a leitura do jornal para ir procurar a mãe dum pardal?!
Ela - Pelo menos podíamos pegar-lhe, porque parece que ele nem sequer consegue voar.
Eu - Não és tu que adoras gatos?! Daqui a pouco, se ele não consegue voar, serve de lanche a um gato qualquer. É bem empregue.
Ela - Às vezes consegues ser mesmo horrível.
Eu - Mesmo horrível?! Só porque estou a ler o Público e não me apetece sair daqui para ir apanhar um pássaro ao qual nem saberia bem o que fazer?
Ela - Sim.
Eu - Pronto, está bem. Sou horrível. 

respostas a perguntas inexistentes (202)

mergulho no mar

Eu costumava passar as tardes na esplanada a beber cervejas e a tentar pôr em dia a leitura. Era essa, aliás, a maior vantagem das férias. De vez em quando ela perguntava-me qual era a história do livro que eu estava a ler, mas eu nunca lhe conseguia responder. Nunca li um livro por causa da história em si, embora ela também me interesse, mas sim por causa daquilo que é indizível  e que só quem está a ler é que consegue perceber.
Expliquei-lhe isto, numa das vezes em que fechei as páginas para poder saborear melhor a cerveja, e ela pediu-me para lhe explicar ainda melhor. Não tinha percebido. Para ela, o mais importante de qualquer livro era sempre a história, aquela que se pode resumir depois num vigésimo da duração do tempo que demorou a ser lida. Para mim, o mais importante é sempre saborear cada momento de cada personagem de cada romance. Perceber as suas reacções ao que vai acontecendo e ver ali aquilo que porventura também há em mim. Ou não, claro. 
Continuou sem perceber e riu-se. Um riso que, em abono da verdade, me desiludiu. Bebi duma vez toda a cerveja que ainda estava no copo, guardei o livro no saco onde ainda estava a toalha de praia, tão seca e limpa como no princípio das férias, e encostei-me para a frente com os cotovelos em cima da mesa, de forma a aproximar-me o mais possível. Reparei que a pele dela já era um moreno tapete de sal e de Sol, e que ela estava ainda mais bonita do que quando eu a conhecera, um mês antes, e me apaixonara perdidamente. Expliquei-lhe melhor.

- Se continuarmos os dois assim, a história das nossas férias será que eu as passei todas nesta esplanada a beber cerveja e a ler, enquanto tu as passaste a tomar banho na água gelada e agitada do mar, a apanhar Sol sozinha na areia e, de vez em quando, a vir aqui beber uma cerveja comigo nos momentos em que eu interrompia a leitura para desfrutar da tua presença. Essa história, a mim, não me interessa nada.
- Não?! - perguntou ela finalmente interessada no que eu lhe dizia.
- Não. A mim o que me interessará é que, à medida que ia bebendo, ia ficando também mais interessado nos livros que lia, e mais feliz, mas que essa felicidade nunca foi maior do aquela que sentia nos breves momentos em que vinhas fazer-me companhia. Mais ainda, interessa-me também que cada vez que te sentia ir embora, ficava com uma profunda sensação de tristeza apenas pela efémera distância física que crescia entre nós.

Ela não se riu. Só sorriu. Deu-me a mão esquerda, agarrou no meu saco com a direita e puxou-me para a areia.

- Também sinto essa tristeza momentânea, por isso agora vens comigo para a praia. É justo?

Era justo. Foi nesse fim de tarde que dei o meu primeiro mergulho no mar e acho nunca nenhum me soube tão bem.