5.11.2012

respostas a perguntas inexistentes (208)

taras e manias

Todos nós temos uma mania qualquer. Beber um uísque sempre depois de jantar, por exemplo, ou conduzir com o braço do lado de fora da janela do automóvel. Na verdade há manias para todos os gostos e feitios e, de uma forma natural, acabamos todos por conhecer aquelas que são dos nossos amigos mais próximos. Nunca tinha pensado nisto desta forma até conhecer a Wong, uma empregada dum pequeno restaurante perto de Mong Kok, em Hong Kong. Foi ela que me explicou que, para fazer um bom trabalho no dia-a-dia, tentava conhecer todas as manias dos seus clientes habituais e, mesmo dos clientes que não conhecia de lado nenhum, tentava percebê-las o mais depressa possível.
Acho que ficou surpreendida pelo meu súbito interesse naquele tema, e por isso explicou-me que tinha sido assim que tinha conquistado um dos seus melhores clientes. Um homem qualquer de meia idade que tinha a mania de comer de faca e garfo (como é sabido, os chineses comem com pauzinhos). Ele só lhe disse isso uma vez e, quando lá voltou muito tempo depois, ela ainda se lembrava dele e trocou imediatamente os pauzinhos pelos seus talheres preferidos. A partir desse dia, ele passou a ir lá quase todos os dias.
Fixei a Wong nos olhos, o que admito que me dava um prazer enorme, já que as mulheres asiáticas, na minha opinião, independentemente de serem mais ou menos bonitas, têm sempre uns olhos que vale a pena contemplar como se estivéssemos a olhar para uma paisagem de perder a respiração. Fixei-a nos olhos e disse-lhe que estava a pensar se aquilo era respeito pelo próximo ou servilismo exagerado. Ela amuou, e os seus olhos grandes fizeram questão de me repreender. Por isso mudei de assunto.
Fiquei com a impressão de que, a partir desse dia, ela ficou um pouco mais distante de mim. Sempre simpática, mas com uma distância que me incomodava, já que tinha sido a primeira chinesa com quem eu tinha feito amizade e me tinha sentido realmente bem. Por isso, alguns dias antes do meu regresso a Portugal, comprei dois pastéis de nata (que lá se chamam Portuguese Egg Tarts) e uma garrafa de vinho do Porto numa das melhores garrafeiras que já vi na minha vida. Depois telefonei-lhe e convidei-a para ir beber um copo comigo ao fim da noite. Antes ainda de decidir qual o primeiro bar a que íamos, sentámo-nos num dos bancos da praça da alimentação do Festival Walk, ofereci-lhe a garrafa e comemos cada um o seu pastel. Aproveitei esse momento doce para lhe pedir desculpa por, mesmo sem querer, a ter ofendido. Ela sorriu mas não disse nada.
Estranhamente, ainda hoje acho que essa foi uma das melhores noites da minha vida. Caminhámos por toda a cidade, quase sempre em silêncio, comigo a contemplar a imponência dos edifícios que ali se erguem como velhos que recusam morrer, e com ela sempre ao meu lado como que a perceber os meus pensamentos. Os meus pensamentos eram de que me estava a apaixonar por uma mulher impossível, que vivia a mais de dez mil quilómetros de distância de mim, e que por isso tinha que controlar muito bem as minhas emoções. Acabámos sentados junto ao mar, no lado continental, sentados num muro qualquer a olhar para a ilha, e senti-a abraçar o meu braço direito e pousar nele a cabeça. Perdi a noção do tempo.
Recordei e ainda recordo, como já disse, essa noite do ano de mil novecentos e noventa e nove como uma das melhores da minha vida. Esta semana, por email e já sem a pressão de qualquer envolvimento emocional, disse-lhe isso mesmo. Ela respondeu-me que se lembra que eu tenho a mania de catalogar tudo: os melhores filmes da minha vida, as melhores músicas da minha vida, as melhores paisagens da minha vida, as melhores cidades da minha vida, etc. Enfim, as melhores noites da minha vida também.
Treze anos depois voltámos assim ao tema das manias, e perguntei-lhe se ela era capaz de me explicar o que é que a tinha ofendido na minha observação sobre o servilismo exagerado. Demorou alguns dias a responder-me, de tal forma que cheguei a pensar que tivesse amuado de novo, e quando me respondeu disse-me que se se lembra das minhas manias é porque eu sou importante para ela. Quem gosta de alguém faz tudo o que pode para que esse alguém se sinta bem, explicou-me, e não quer ser confundido com um escravo por causa disso. Simples, não é? Perguntou.

23 comentários:

Quase nos "entas" disse...

das respostas mais simples que já ouvi ;)
Quando é feito com amor......

Bagaço Amarelo disse...

quase nos entas, de facto. :)

Anónimo disse...

"Simples, não é? Perguntou."

Tremendo! Adorei.

EJSantos

O Sexo e a Idade disse...

Tão simples quanto isso!

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, obrigado. :)

o sexo e a idade, :)

Lu! disse...

De facto é isso mesmo :) E é mesmo simples :)

Stiletto disse...

Simples e poderoso. Gosto de quase todos os teus textos Bagaço mas este é um bocadinho "mais igual" que os outros ;-)

Malena disse...

Concordo com ela! Adoro fazer "daqueles" detalhes uma festa para os outros! Isso constitui um prazer para mim e não me dá qualquer sensação de servilismo! :))

Estadista de Algibeira disse...

Uma observação tão simples e verdadeira...

Bagaço Amarelo disse...

lu, :)

stiletto, obrigado. :)

malena, eu nem sei se concordo ou não. tenho este defeito de achar que trabalho é uma coisa a vida é outra. :)

estadista de algibeira, :)

redonda disse...

Gostei da Wong :)

Bagaço Amarelo disse...

redonda, foi o que me aconteceu, gostar dela. :)

Branca de Neve disse...

é, realmente bem simples e real. A Wong pareceu uma pessoa bastante simpática (:

Sushi disse...

gostei muito. os teus textos são uma lufada de ar fresco.

cereais disse...

As pessoas é que têm a mania de complicar as coisas.
É simples, sim.
e gostei da teoria.

Fatyly disse...

Uma tremenda lição de vida e essa mulher trabalha com EMPENHO E DEDICAÇÃO, CORDIALIDADE E SIMPATIA, o que falta a tantos portugueses que por vezes atendem-nos tão mal, mas tão mal que...me leva a pensar...levaram uma nega ou dormiram mal e a gente é que paga...enfim!

e tudo isso não tem nada a haver com servilismo.

Tiveste um gesto igualmente belo...

Grande mulher!

Não gostei...adorei!

Bagaço Amarelo disse...

branca de neve a Wong é simpática, sim: :)

sushi, obrigado. :)

cereais, às vezes convenço-me que sim, que é simples, outras vezes que não. :)

fatyly, obrigado. :)

Never Told Words disse...

como diz o ditado, quem corre por gosto não cansa :)

Bagaço Amarelo disse...

never told words, :)

PontodeVista disse...

Gostava de conhecer a Wong :) Que bela história e que simples e verdadeira resposta.

Bagaço Amarelo disse...

pontodevista, há muitas wongs para conhecer... :)

Pipoca disse...

Mais uma vez, adorei o post.
Simples e claro. Infelizmente nem todas as pessoas pensam assim..é pena. :/

Aproveito para dizer que adoro o teu blog :)

Cumprimentos

Bagaço Amarelo disse...

pipoca, obrigado. :)