5.22.2012

respostas a perguntas inexistentes (210)

olha-me!

Às vezes, não sei bem porquê, há pequenas insignificâncias que se escrevem na minha memória de forma tão vincada que nunca mais me esqueço delas. Como se fossem um carimbo, surgem de vez em quando no meu raciocínio sem razão aparente. Normalmente são olhares. Chego a ficar anos sem me lembrar deles, mas num determinado momento relembro-os com tal frescura que parece que foi ontem que os vi.
Lembro-me, por exemplo, de ver dois homens a segurarem uma gaivota viva em Lagos, no Algarve, durante umas férias que fiz ali em criança. Eu tinha sete anos, portanto isto foi há trinta e três. Eu ia para a praia com o meu pai e a minha mãe, e vi-os pela janela de trás do carro. Lembro-me perfeitamente que um deles tinha uma camisa vermelha e o outro uma t-shirt branca e suja. A gaivota tentava soltar-se em vão e o homem da camisa vermelha, que lhe segurava o bico e uma das asas, fitou-me prolongadamente até o carro desaparecer numa curva. Era um olhar ameaçador, pelo menos na perspectiva duma criança, e assustou-me.
Outra memória é de há dezassete anos, numa esplanada em Praga, na República Checa, onde me sentei para beber uma cerveja com uma brasileira que tinha acabado de conhecer. Pois bem, nessa tarde em que nos sentámos na esplanada, numa outra mesa estava uma criança com uma máscara de caveira que nunca deixou de olhar para mim. Devo ter estado ali sentado quase uma hora com a máscara sempre a olhar na minha direcção. Fiquei de tal forma incomodado com aquilo que a certa altura me levantei e dirigi-me a ela. A criança fugiu, desaparecendo por entre a multidão de Národní Trída, e os adultos que estavam na mesma mesa nem sequer se mexeram. Só aí é que percebi que nem sequer eram parentes. Nunca mais a vi, mas também nunca mais me esqueci.
Já reconheci estes dois olhares várias vezes na minha vida noutras pessoas e situações. O olhar ameaçador do homem que prendia a gaivota e o olhar quieto, ameaçador e escondido da máscara daquela criança checa. Reconheci-os em entrevistas para empregos, nas alas de segurança de vários aeroportos ou em simples balcões de atendimento público. Reconheço-os por aí de vez em quando, e é quando os torno a lembrar como se fossem uma recordação de ontem.
Memorizo de tal forma alguns olhares que já pensei em catalogá-los por níveis de ameaça e de Amor. É só uma brincadeira, claro, mas ontem, enquanto tomava café, fiz uma tabela numa folha com vários olhares de que não me esqueço, incluindo os dois que já referi, e estabeleci para cada um deles uma intensidade emocional. Tenho lá olhares com apenas alguns meses e outros com muitos anos. O olhar da minha mãe quando me encontrou depois de eu ter fugido de casa em criança, que deve ter uns trinta e dois anos; o olhar da minha filha ao meu colo, em bebé, que tem onze anos; o olhar da Raquel quando me apaixonei por ela, que tem três anos e meio. Enfim, defini ao todo mais de quarenta olhares de que não me esqueço.
Acabei de beber o café e pedi uma cerveja. Estava só num bar em Aveiro e fui deixando o tempo passar enquanto olhava fixamente pela janela. Ainda tinha o meu moleskine aberto na tabela dos olhares quando, a duas mesas de mim, uma mulher e um homem começaram a discutir. Era nitidamente um discussão conjugal e, apesar de ela tentar falar baixo, ouvia-se nitidamente tudo o que dizia. Ele estava calado como uma criança envergonhada, de olhos postos no chão.
Acrescentei esse olhar à minha tabela. Era um olhar fugitivo, um olhar para o chão para não enfrentar a discussão. Um olhar de quem já Amou mas agora vê esse Amor como uma armadilha. Está preso, quer sair e não sabe como. Já se esqueceu do que é o Amor. E foi isso que escrevi.

11 comentários:

Pérola disse...

Umolhar pode dizer mais do que queremos revelar.
Gosto de olhar as pessoas nos olhos, dizem mais que as bocas dos mesmos.
Fizeste-me recordar um olhar que me persegue. É um fantasma do qual não me consigo exorcizar.
Seá que escrever sobre ele, ajudará?

Bagaço Amarelo disse...

pérola, eu, por acaso, acho que ajuda mesmo. :)

Fatyly disse...

Li de seguida, tornei a ler e fui beber um copo de água a reflectir.
Tudo o que escreves põe-me a pensar e nem imaginas como isso é tão bom e gratificante.
Fizeste uma tabela e eu há muito que tenho a minha "gravada cerebralmente" porque para além de detestar falar com alguém sem ser capaz de me olhar nos olhos...há olhares que me ficaram gravados para sempre e que os revejo noutras pessoas...noutras situações!

Mas há dois que prevalecem sobre todos os outros e que me causa uma angústia dantesca:

- Num casamento aqui na serra de Sintra e já noite cerrada...O olhar de pânico da minha filha mais velha quando deu por falta da minha neta na altura com 4 anos. Uma aflição, parou tudo e aqueles 5 minutos foram uma eternidade...o noivo encontrou-a do lado de fora do salão e junto de um lago. Depois o olhar interrogativo quase inquisidor da minha neta, perante a gritaria de alegria de todos...agarrou a minha cara para eu olhar para ela e perguntou: Bó que é o que eu fiz? só queria ver os peixinhos. Falei-lhe com autoridade mas sem autoritarismo já que os pais ficaram KO! Hoje não consigo olhar as fotos que foram tiradas depois...e rasguei-as!

Outro olhar ao que eu chamo "opaco e seco de tanta tristeza": o do meu grande e eterno amigo Zé K, que era militar, que era preto, que era um doce de pessoa, quando me disse a chorar: "não vou porque tenho que atacar o kimbo dos meus avós, as minhas raízes" e na volta procurei-o, pois claro...foi dado como desaparecido, limparam-lhe foi o sarampo como faziam a quem - branco, preto ou mestiço - que desertasse!

e há mais...doces que te tão doces não consigo descrever.

E acabei de escrever a chorar...oh que porra de olhos...

Xauuuuuuuu e um beijo sincero

Anónimo disse...

Tu escreves maravilhosamente bem. RR

Eli disse...

Tenho alguns... e olha que qualquer dia começo a escrever tudo como se não houvesse amanhã... assim como tu e deixo de lado os mistérios...

(rindo)

Por acaso escrevi - recentemente - um texto sobre uma viagem que me aconteceu...

Never Told Words disse...

Numa altura da minha vida pedi a alguém que não me olhasse, mas que me visse :)

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado pela história, e olha que chrar pode ser bom. :)

eli, acho que o deves fazer. :)

never told words, boa... conheço a sensação. :)

jazzevedo disse...

Ola, fiquei a pensar nos meus olhares, so me lembro de um, o da minha filha quando nasceu. Logo apos o seu nascimento, enrolaram-na toda num cobertor e deixaram-na só com a cara destapada, ela deitada e eu de pé trocamos um olhar bem longo e muito intenso para mim...lembro-me que tinha as pupilas super dilatadas e um ar bastante sereno...
É o olhar que me vem logo à cabeça! Devo ter mais olhares ou momentos que me marcaram assim como os que tu contaste mas tenho a sensação que com o tempo os vou alterando ou esquecendo.
Para terminar, confesso que tenho uma má memoria, acho que as memorias estão relacionadas com as emoções.
Abraço

Margarida disse...

Gostei imenso!

*LaVieEnBleu* disse...

Não há mesmo dúvida de que mesmo que se tente disfarçar "os olhos são o espelho da alma", e mesmo que seja de relance ao observar o olhar duma pessoa se pode ficar a conhecer bastante sobre ela.

Bagaço Amarelo disse...

jazzvedo, esse é o melhor olhar de todos. :)

margarida, obrigado. :)

lavieenbleu, é assim que se acredita, ou não, em alguém. :)