5.31.2012

coisas que fascinam (146)

amanhecer

Hoje acordei perdido no tempo. Naqueles primeiros momentos não sabia em que dia estava, que horas eram, nem o que era suposto fazer depois de me levantar. Não sabia se estava de folga ou se tinha que ir trabalhar, se tinha combinado alguma coisa com alguém ou, pelo contrário, teria o dia todo só para mim. Olhei para as coisas do quarto mas não encontrei nelas nenhuma resposta até ver uma camisola pendurada no cabide da porta.
Foi a camisola que usei durante o dia de ontem, uma t-shirt vermelha com um desenho à frente, e permitiu-me refazer os últimos momentos antes de adormecer. Cheguei a casa muito cansado, fui à cozinha e abri o frigorífico sem saber muito bem porquê, feri-me a abrir uma lata de cerveja que bebi rapidamente e deixei tudo o que trazia nos bolsos em cima da banca. Depois lavei os dentes, despi-me e deitei-me. A camisola ficou ali, à espera de me contar esta manhã isso mesmo: que cheguei cansado a casa por causa dum dia de trabalho intenso.
Fiz as contas a partir dessa informação e deduzi que hoje era novamente dia de ir trabalhar. Aos poucos, toda a informação se agregou no meu cérebro como se fosse um puzzle enorme e monocolor. Sempre soube onde estava, mas agora sabia também quando e como.
Este amanhecer no vazio acontece-me às vezes, mas apenas nos dias em que durmo sem ninguém ao meu lado. É uma espécie de amnésia momentânea sobre tudo o que foi a minha vida nos últimos dias. Fico ali, deitado na cama como se estivesse a pairar sobre nuvens, como se não tivesse havido ontem nem fosse haver amanhã. Apenas uma imagem me vem à cabeça, e é a da Raquel perto de mim, talvez também deitada sobre nuvens. Não sei bem.
Também não sei muito bem quanto tempo é que costumo estar assim, até a consciência se apoderar lentamente de mim e obrigar os meus olhos a procurar um sinal da minha vida. Uma t-shirt, por exemplo. Talvez dez segundos, talvez dez minutos, talvez meia-hora. Sei que depois acabo sempre por me vestir à pressa e ir a correr para o comboio. É no comboio, com a cabeça encostada ao vidro trémulo, com a pequena ferida que fiz no dedo a começar a doer-me, que me dou conta de como é bom estar ausente do mundo por um bocado. Distancio-me do dia-a-dia, do ordinário, do quotidiano. Por um momento percebo bem o que é importante.

11 comentários:

Quase nos "entas" disse...

completamnete....faz falta....e dá-te tempo para "reanimares" até á dura e louca realidade
:)

Bagaço Amarelo disse...

quase nos entas, exacto. :)

Malena disse...

E, porém, sem o quotidiano ficamos perdidos... :)

Cristina Oliveira disse...

Gostei muito deste texto.
Por vezes também me acontece esse amanhecer sem saber bem q dia é, o q tenho de fazer, se é suposto continuar na cama ou despachar-me.
E isso acontece-me quando estou mais cansada ou triste por algum motivo relacionado também com o quotidiano, o dia-a-dia que por vezes nos consome e quase não deixa mais nada.
Por isso é importante termos coisas na vida q nos ausentem do mundo. No teu caso, penso eu (imagino eu), é a Raquel e a tua escrita no blog. No meu caso é o Eduardo e a minha poesia...

queriadeti.blogspot.pt

Paula disse...

as viagens de comboio são algo de extraordinário principalmente para pensar e descansar (:

Bagaço Amarelo disse...

malena, e é para isso que precisamos dele. para nos perdermos dele, sim. :)

cristina oliveira, obrigado. anda por aí, sim. :)

paula, pois são... ainda bem, que eu faço-as todos os dias. :)

Eli disse...

Em primeiro lugar, este texto tem uma ideia que me faz lembrar um comentário que deixei por aqui, quando disse que por "morar" num sítio e, por exemplo, passar o fim de semana noutro, quando acordo e estou mesmo exausta, não sei bem onde estou sequer, antes de abrir os olhos... e depois, ao dar conta que estou aqui e que tenho mesmo que ir trabalhar... (ai...) mas é bom, porque isso faz-me mesmo levantar.

Fatyly disse...

Xiiiii como te compreendo só não concordo com uma coisa e sem querer ofender-te estás a fazer (se é que fazes mais vezes) tomar uma cerveja gelada e adormeceres logo, por dores factores o colesterol sobe em flecha porque estás em repouso e pode parar-te a digestão. Toma cuidado amigo, mas não quero ser ave agoirenta, porque acompanhado é uma coisa mas sozinho cuida-te:)

Gostei!

Bagaço Amarelo disse...

eli, :)

fatyly, durmo tão bem depois duma cervejinha ou dum uísque... :)

enrico disse...

É uma bela descrição da metafísica da existência cotidiana. Também acontece o amor me perder no tempo, em vez de procurar o meu desaparecimento deste tempo à procura de um tamanho diferente ... pode ser este ou outro blog. A volta se torna cada dia mais pesado, e cinza.

Bagaço Amarelo disse...

enrico, obrigado. :)