6.25.2012
6.18.2012
Barcelona
Boa semana!
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Etiquetas: férias
conversa 1916
Eu - E não explicou porquê?
Ela - Explicou. Mandou uma mensagem ao fim da tarde a dizer que tinha assuntos pessoais e inadiáveis para tratar.
Eu - Ah! Então não faz mal. Marcas para outro dia.
Ela - Nem pensar nisso. Nunca mais marco nada com ele.
Eu - Só por causa de ter falhado uma vez?!
Ela - Assuntos pessoais e inadiáveis à hora dum jogo de futebol entre Portugal e a Holanda, não sei porquê mas não acredito. Já percebi que é igual aos outros...
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6.14.2012
conversa 1915
Eu - Que parte de Portugal?
Ela - Estou a falar do jogo de futebol com a Dinamarca, burro.
Eu - Ah! Não me apetece...
Ela - És um desmancha-prazeres.
Eu - Porquê?
Ela - Porque sim. Nem um jogo de futebol queres ver comigo...
Eu - Disponibilizei-me para, eventualmente, ver uma parte de Portugal contigo. Tu, em contrapartida, convidas-me para ver um jogo de futebol na televisão. Desmancha-prazeres és tu.
Ela - És tu.
Eu - És tu.
Ela - És tu.
Eu - Pronto, sou eu.
Ela - Então sou eu...
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6.13.2012
respostas a perguntas inexistentes (211)
Comecei-lhe pelos dedos. Tem piada, sempre que penso numa mulher qualquer, a primeira parte do corpo que me vem à cabeça é a face. Depois podem ser as pernas, os seios, as mãos ou o rabo, mas a primeira é sempre a face. A face é o bilhete de identidade de cada uma delas. Só na Rita é que são sempre os dedos.
Já não a via há anos, mas quando ouvi inesperadamente a voz dela do outro lado do telefone imaginei-lhe imediatamente os dedos, magros e delicados como quando passávamos todos os fins de tarde na esplanada da praia. Era aí, entre algumas cervejas e refrescos, que eles tocavam em tudo como se tudo fosse frágil, e folheavam o jornal como se as suas folhas fossem de gelatina. Líamos os diários praticamente todos e depois ficávamos à conversa até as palavras se cansarem dentro de nós, normalmente já pela noite dentro.
Tinha conhecido a Rita precisamente por causa dum jornal. Num comboio urbano entre Porto e Aveiro onde viajei ao lado dela. Ela dobrou o Diário de Notícias depois de o ler e pousou-o sobre a saia, eu pedi-lho emprestado. Tinha uma notícia sobre o aumento de divórcios em Portugal que eu queria ler e acabámos os dois a falar sobre o tema. Ficámos a saber que éramos os dois recém-divorciados. Ela tinha saído de Braga sem direcção para desanuviar a cabeça (palavras dela), e agora estávamos ali os dois, tão distantes quanto próximos, a esticar o tempo entre os transeuntes apressados na estação de comboio de Aveiro. Foi o primeiro fim de tarde que passámos na praia.
Lembro-me de a achar forte, tão forte que estranhei ela caber dentro daquele corpo tão pequeno. Por outro lado, à medida que me fui apaixonando por ela comecei a perceber que o meu corpo era demasiado grande para a minha fragilidade. Ela queria distância de tudo o que era homem (palavras dela), e eu nem sequer sabia bem o que queria (palavras dela também).
No último dia ninguém leu jornais. Acho que amuámos os dois, ou melhor, amuei eu e ela retribuiu. Tinha passado a tarde entre banhos no mar e pequenos sonos na toalha. Num desses sonos senti os dedos dela a caminharem pelas minhas costas, como os dedos das Páginas Amarelas.
- Tens que perceber uma coisa. Tu estás triste com a tua separação, eu estou zangada com a minha. - disse.
Acho que foi a primeira vez que me ri por esses tempos. Levantei-me para dar um último mergulho e nesse mesmo fim de tarde fui levá-la ao comboio. Foi há quase seis anos e entretanto nunca mais a vi. Hoje telefonou-me e comecei-lhe pelos dedos.
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6.12.2012
pensamentos catatónicos (274)
Gosto de gostar, passe a redundância. Às vezes é como se a vida, infelizmente, não me desse a possibilidade de gostar de coisas suficientes para ser feliz. Pelo menos é isso que sinto e acho que é essa é a grande arma do facebook: poder gostar de um ror de coisas com um simples click. Abro a página inicial e em dez minutos já gostei mais vezes do que no resto da semana. É uma sensação efémera de prazer, mas ainda assim funciona.
Na verdade, aquilo de que o facebook se apercebeu a tempo é de que todos sofremos um défice no verbo gostar. Por um lado, sentimo-nos permanentemente insatisfeitos com as poucas coisas de que realmente gostamos, por outro, não nos chega a quantidade de vezes de que somos gostados. O facebook tornou o verbo gostar uma questão administrativa. Até podemos estar a mentir, mas fica lá carimbado que gostamos de qualquer coisa.
Não estou a dizer mal do facebook. Hoje, por exemplo, já gostei de uma mão cheia de coisas de que já nem lembro quais foram, tudo para compensar a falta de coisas que tive para gostar de manhã. Soube-me bem gostar delas, assim como me soube bem saber que há mais pessoas que ficaram a saber que eu gostei. Gostei disso, pronto. Às vezes é o que se tem. Mais nada.
O meu telemóvel tocou há bocadinho. Vi um número que não conhecia e demorei a atender. Era uma mulher muito simpática a representar uma rede de supermercados, a propósito duma reclamação que lá deixei a semana passada. Explicou-me o que se tinha passado e acabou por me dizer que espera que eu lá volte. Que gosta muito de me ter como cliente, concluiu.
Lá está o cabrão do verbo gostar, pensei. Serve para tudo e mais alguma coisa. Fiz imediatamente uma chamada, a quem de direito, para lhe dizer que a Amo. Senti-me melhor. Amar é um luxo, gostar pode ser um lixo. E eu gosto de Amar.
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6.10.2012
coisas que fascinam (148)
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6.08.2012
entre a amizade e a paixão
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6.07.2012
conversa 1914
Eu - Chulé?
Ela - Sim, sou muito sensível aos cheiros. Se um homem se descalça ao pé de mim e me vem o cheiro a chulé, perco longo a vontade toda...
Eu - Por coincidência, ainda ontem estive a comer um queijo qualquer com cheiro a chulé. Pelo menos foi o que todos os presentes disseram. Eu adorei.
Ela - Ah! Eu sei que queijo é esse. Também adoro.
Eu - Pensava que eras muito sensível aos cheiros...
Ela - E sou, mas adoro esse cheiro nos queijos e detesto-o nos homens.
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6.06.2012
conversa 1913
Eu - Então?
Ela - A minha sogra está sempre a aparecer lá em casa para dar sugestões sobre como devo educar o meu filho...
Eu - Ah! E o teu marido?
Ela - O meu marido diz que sim à mãe em tudo. Em vez de ajudar na solução do problema, ainda o agrava mais.
Eu - Porque é que não dizes muito educadamente à tua sogra que precisas de estar mais tempo sozinha?
Ela - Vou-te explicar uma coisa: quando uma mulher se queixa de alguma coisa a um amigo, não precisa que ele dê palpites. Só precisa que ele ouça e manifeste solidariedade.
Eu - Queres que eu te diga que te compreendo, é isso?
Ela - Sim, só isso.
Eu - Compreendo, mas se calhar é o que o teu marido faz, então. Compreende, mas não se põe a dar palpites...
Ela - Eu disse um amigo, não disse o marido.
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6.05.2012
conversa 1912
Eu - Não sei bem, mas de facto admito que o faço sempre.
Ela - É por seres estranho.
Eu - Sou estranho só porque leio o jornal a partir da última página?
Ela - Não. És estranho porque nem sequer encontras um motivo para o fazer.
Eu - Não tem que haver um motivo para tudo na vida.
Ela - Tem que haver uma explicação para tudo.
Eu - Então explica-me porque é que me estás a chatear desde que nos sentámos a tomar café, por favor, e nem me deixas ler o jornal.
Ela - Porque tenho prazer nisso, pronto. Vês?! Há sempre uma explicação para tudo.
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6.02.2012
coisas que fascinam (147)
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6.01.2012
pensamentos catatónicos (273)
Eu podia escrever um livro apenas sobre as mulheres que, estando à minha frente na fila do supermercado, saíram para ir buscar mais qualquer coisa de que se esqueceram. Normalmente são simpáticas, essas mulheres, até pedem desculpa quando deixam as coisas as compras a marcar lugar. Mas atrasam tudo e todos.
Hoje aconteceu-me mais uma vez. Eu só tinha um molho de agriões, um frasco de azeitonas recheadas e uma alface no cesto dum supermercado que só tinha duas caixas abertas. Escolhi uma delas à sorte e tive azar. Ou sorte, depende do ponto de vista.
A cliente que estava à minha frente, quando o rapaz da caixa já tinha lido praticamente todos os códigos de barras dos seus produtos, lembrou-se que também queria comprar alhos. Lá foi ela aos saltinhos, prometendo ser rápida, buscar os alhos. Demorou mais do que seria expectável. Quando voltou trazia um chocolate, um conjunto de três copos para vinho e uma embalagem de bolachas. Não trazia alhos.
O rapaz ia fechar a conta quando ela me perguntou se as azeitonas que eu tinha eram boas. Que sim, respondi. Diga-me só onde estão para eu não demorar muito a ir buscá-las, pediu-me fazendo também sinal ao rapaz para aguardar um pouco. Dei-lhe o meu frasco, mais por achar que as pessoas que estavam atrás de mim iam explodir do que por me sentir atrasado.
Depois de fazer as compras ela chamou-me. Tinha pedido um café num balcão ali perto da caixa mesmo sem saber se eu queria de facto bebê-lo. Mas bebi-o, enquanto mantive uma conversa animada sobre a razão de não ter posto açúcar, como é que costumo comer aquelas azeitonas, e fiquei também a saber que ela conduz sem ter carta de condução.
Ofereceu-se para me levar a casa. Não é preciso, respondi. A minha namorada vive aqui perto, conclui. E ela lá foi, com um estranho sorriso que nunca lhe saiu da cara durante este tempo todo. Não cheguei a perceber se fui propositadamente gozado ou não.
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5.31.2012
coisas que fascinam (146)
Hoje acordei perdido no tempo. Naqueles primeiros momentos não sabia em que dia estava, que horas eram, nem o que era suposto fazer depois de me levantar. Não sabia se estava de folga ou se tinha que ir trabalhar, se tinha combinado alguma coisa com alguém ou, pelo contrário, teria o dia todo só para mim. Olhei para as coisas do quarto mas não encontrei nelas nenhuma resposta até ver uma camisola pendurada no cabide da porta.
Foi a camisola que usei durante o dia de ontem, uma t-shirt vermelha com um desenho à frente, e permitiu-me refazer os últimos momentos antes de adormecer. Cheguei a casa muito cansado, fui à cozinha e abri o frigorífico sem saber muito bem porquê, feri-me a abrir uma lata de cerveja que bebi rapidamente e deixei tudo o que trazia nos bolsos em cima da banca. Depois lavei os dentes, despi-me e deitei-me. A camisola ficou ali, à espera de me contar esta manhã isso mesmo: que cheguei cansado a casa por causa dum dia de trabalho intenso.
Fiz as contas a partir dessa informação e deduzi que hoje era novamente dia de ir trabalhar. Aos poucos, toda a informação se agregou no meu cérebro como se fosse um puzzle enorme e monocolor. Sempre soube onde estava, mas agora sabia também quando e como.
Este amanhecer no vazio acontece-me às vezes, mas apenas nos dias em que durmo sem ninguém ao meu lado. É uma espécie de amnésia momentânea sobre tudo o que foi a minha vida nos últimos dias. Fico ali, deitado na cama como se estivesse a pairar sobre nuvens, como se não tivesse havido ontem nem fosse haver amanhã. Apenas uma imagem me vem à cabeça, e é a da Raquel perto de mim, talvez também deitada sobre nuvens. Não sei bem.
Também não sei muito bem quanto tempo é que costumo estar assim, até a consciência se apoderar lentamente de mim e obrigar os meus olhos a procurar um sinal da minha vida. Uma t-shirt, por exemplo. Talvez dez segundos, talvez dez minutos, talvez meia-hora. Sei que depois acabo sempre por me vestir à pressa e ir a correr para o comboio. É no comboio, com a cabeça encostada ao vidro trémulo, com a pequena ferida que fiz no dedo a começar a doer-me, que me dou conta de como é bom estar ausente do mundo por um bocado. Distancio-me do dia-a-dia, do ordinário, do quotidiano. Por um momento percebo bem o que é importante.
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5.29.2012
por todos nós...
Esta é a minha filha.....QUE FOI BRUTALMENTE AGREDIDA PELA PSP !! Claro que foi aberto de imediato um processo crime e ela foi hoje vista por um médico do Ministério Público que ficou literalmente aterrado com o que viu, não só em todo o corpo como na mente (pois ela agora não consegue olhar de frente para um agente da PSP nem andar de comboio), e solicitou a entrega de um TAC à garganta que mandámos fazer, numa clínica privada, pois na ida ao Hospital S.Francisco Xavier, imediatamente após a agressão, não tinham equipamento para ver os tecidos moles do pescoço onde os punhos fechados de um dos agentes fizeram pressão, estando ela contra uma parede. O TAC acusou os danos. Estava a viajar num comboio de Lisboa para a área de residência e saiu na estação perto de casa onde estavam 10 agentes que se juntaram aos 3 que vinham no comboio e onde tiveram problemas com um grupo de jovens que saíram duas estações antes dela. Ela até vinha a dormitar. Saiu na sua estação e um conhecido que vinha com ela começou a ser de imediato agredido pelos agentes na gare. Quando ela gritou a pedir para pararem de bater no jovem foi imobilizada e arrastada pela estação. Foi atirada de cabeça contra as cancelas de passagem dos passageiros tendo caído. O agente que a agrediu levantou-a pelos cabelos e arrastou-a pelos braços para dentro da esquadra localizada nas imediações da estação, onde a levou para uma área vazia, a atirou contra uma parede e lhe espremeu o pescoço com os punhos fechados. Não foi feito qualquer auto. Ela conseguiu telefonar-nos do telemóvel a pedir socorro porque foi espancada e estrangulada. O agente a quem ela passou o telefone disse não saber o que se passava ou o que o colega tinha feito (com a minha filha a gritar em background que era ele que a tinha espancado) mas que ela seria de imediato libertada pois não havia qualquer problema com ela. Vamos amanhã a uma consulta da APAV para receber acompanhamento e formação sobre segurança pois parece provável que hajam retaliações segundo nos foi comunicado por diferentes entidades, o que nos obriga a ter cuidados redobrados.... E agora ? Que devemos fazer ? Aceitam-se sugestões...
facebook de João Penha Lopes
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piano
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5.28.2012
conversa 1911
Eu - Porquê?
Ela - Porque sim. Se eu lhe digo, por exemplo, que um colega meu me convidou para almoçar, ele muda logo de cara. Não diz nada, mas eu noto que ele fica doente.
Eu - Não faças isso.
Ela - Faço porque quero que ele saiba que ainda há homens que se interessam por mim.
Eu - Se ele gosta mesmo de ti, acha que todos os homens no mundo se podem interessar por ti. Afinal de contas, ele é homem e interessa-se. Tu andares a provocar-lhe ciúmes dessa maneira, só pode fazer com que ele te ganhe alguma raiva e vá gostando cada vez menos de ti.
Ela - Tens a certeza?
Eu - Tenho.
Ela - Então hoje digo-lhe que é tudo a brincar.
Eu - Não digas nada. Está calada que chega.
Ela - Olha que esta. E eu lá sei estar calada?! Tenho que estar sempre a dizer qualquer coisa.
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5.25.2012
coisas que fascinam (145)
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conversa 1910
Eu - Nada que eu já não tenha feito.
Ela - Mas eu sou mulher...
Eu - E depois?
Ela - E depois?! Sabes muito bem...
Eu - Não sei nada...
Ela - A partir dos quarenta as mulheres começam a perder valor de mercado. Os homens começam a ganhar...
Eu - Isso não é bem assim, e acho que não te deves preocupar. Estás uma mulher bonita. Eu acho que estás no auge.
Ela - Pois... estou no auge. A partir daqui é sempre a descer.
Eu - Estás a sofrer de ansiedade.
Ela - Não estou nada. Estou é a ser realista.
Eu - Tem calma e vai mas é gozando a vida o mais que puderes.
Ela - Esse é o problema. Sinto que ainda não gozei nadinha. Preciso de muitas noites de copos, muito sexo, muitas festas...
Eu - Estás a sofrer de ansiedade.
Ela - Se calhar estou só um bocadinho.
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5.24.2012
por acidente
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5.23.2012
conversa 1909
Ela - O teu gato é tão lindo! Como é que se chama?
Eu - Aníbal Cavaco Silva.
Ela - Aníbal Cavaco Silva?! És maluco!
Eu - Como é que se chama o teu gato?
Ela - Bolinhas.
Eu - Desculpa lá, mas chamar Bolinhas a um gato é que não está com nada.
Ela - Chama-se Bolinhas porque tem bolinhas espalhadas pelo pêlo todo. Tem tudo a ver.
Eu - Pronto. O meu chama-se Aníbal Cavaco Silva por ser cor de laranja e estúpido ao mesmo tempo. Também tem tudo a ver...
Ela - Sabes... às vezes acho que eu e tu...
Eu - Eu e tu o quê?
Ela - Ainda bem que nunca fomos mais do que amigos.
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5.22.2012
respostas a perguntas inexistentes (210)
Acrescentei esse olhar à minha tabela. Era um olhar fugitivo, um olhar para o chão para não enfrentar a discussão. Um olhar de quem já Amou mas agora vê esse Amor como uma armadilha. Está preso, quer sair e não sabe como. Já se esqueceu do que é o Amor. E foi isso que escrevi.
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5.21.2012
conversa 1908
Eu - Hoje não. Tem que ser amanhã, está bem?
Ela - Porquê?
Eu - Este fim de semana quase não dormi por causa do trabalho. Estou muito cansado.
Ela - Então descansa depressa e depois telefona-me.
Eu - Não sei descansar depressa. Descansar só tem uma velocidade que é estar deitado a dormir. Amanhã, está bem?
Ela - Então dorme depressa.
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os adeptos de futebol
Não há nada mais egoísta do que passar a noite a buzinar um penduricalho qualquer só porque uma equipa qualquer ganhou um jogo. Pior, enchem as redes sociais na internet com fotografias e frases baratas, centram a discussão pública na porcaria dum fora-de-jogo que não foi e devia ter sido, alimentam uma indústria milionária que não produz nadinha.
A má notícia para os adeptos de futebol é que só é assim porque o futebol é fácil, e quem não consegue discutir mais nada porque não chega lá, acaba mesmo a pensar no que é mais fácil e não tem interesse nenhum: o futebol. Estava tudo bem, desde que não chateassem mais ninguém.
A Rita é uma amiga minha que, a mim não me engana ela, sabe tão pouco do que passa no futebol como eu. Provavelmente sabe os resultados dos jogos porque o marido dela lhos diz. Mais nada. Mesmo assim mandou-me uma dessas frases feitas, com uma imagem azul por trás, a dizer que Ama o Futebol Clube do Porto. Não faltava mais nada do que agora virem dizer que Amam um clube qualquer, que normalmente até já nem é um clube mas sim uma Sociedade Anónima Desportiva, da qual fazem parte vários accionistas que só pensam no valor das suas acções.
Mas percebi. Finalmente percebi. Quem acha que pode Amar um clubezeco qualquer é porque anda mesmo alheado da vida. Tão alheado que nunca se apercebeu do que quer dizer a palavra Amor. Por mim podem continuar assim mas, por favor, não me chateiem.
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5.18.2012
conversa 1907
Eu - Aquele com quem andavas a sair há quase meio ano?
Ela - Sim. Até chorei.
Eu - Doeu-te?
Ela - Não estúpido. Fiquei emocionada.
Eu - Ah!
Ela - Ah?! É só isso que tens para me dizer?
Eu - Eu não estava lá. Queres que te diga o quê?
Ela - Como amigo, podias perguntar-me como é que me sinto.
Eu - Já sei que choraste porque te emocionaste. Como é que sentes, então?
Ela - Nem sei bem...
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5.17.2012
locutora
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5.16.2012
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5.15.2012
conversa 1906
Eu - Há quanto tempo é que são casados?
Ela - Vinte e dois anos...
Eu - E é bom na cama ou não?
Ela - Sei lá. Há vinte e dois anos que não vou para a cama com outro. Nem comparar posso...
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5.14.2012
pensamentos catatónicos (272)
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5.11.2012
respostas a perguntas inexistentes (208)
Todos nós temos uma mania qualquer. Beber um uísque sempre depois de jantar, por exemplo, ou conduzir com o braço do lado de fora da janela do automóvel. Na verdade há manias para todos os gostos e feitios e, de uma forma natural, acabamos todos por conhecer aquelas que são dos nossos amigos mais próximos. Nunca tinha pensado nisto desta forma até conhecer a Wong, uma empregada dum pequeno restaurante perto de Mong Kok, em Hong Kong. Foi ela que me explicou que, para fazer um bom trabalho no dia-a-dia, tentava conhecer todas as manias dos seus clientes habituais e, mesmo dos clientes que não conhecia de lado nenhum, tentava percebê-las o mais depressa possível.
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5.10.2012
conversa 1905
Ela - Queres ir beber um copo?
Eu - Não.
Ela - Não?!
Eu - Não, desculpa lá. Tive um dia mesmo mau e só me apetece ir para casa, beber um uísque a ler qualquer coisa, e deitar-me...
Ela - Ah! Se estás mal disposto também não quero sair contigo. Normalmente és um chato quando estás assim...
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quase ninguém
O problema que temos com o nosso governo é o mesmo problema dos casais que, de facto, não o são. Falta de Amor. O nosso governo devia gostar de nós tal como nós gostamos dele (afinal de contas, por muito que espingardeemos, somos nós que o elegemos ), mas não gosta. Diz que sim, mas passa a vida na cama com outros.
O nosso governo é uma merda, e aqui já nem aceito discutir e peço aos direitosos invertebrados que me poupem ao contraditório. É uma merda. Ponto. Para além de se deitar com outros, gasta com eles o nosso dinheiro todo. Depois engasga-se para nos explicar o que fez. Primeiro promete devolver daqui a uns anos, depois diz que afinal não dá, por fim acaba a pedir ainda mais dinheiro e agredi-nos antes de tornar a sair. É um caso nítido de violência doméstica em que a vítima não é capaz de se salvar a si mesma.
A maior parte dos portugueses vota constantemente à direita por um motivo muito simples: a maior parte dos portugueses é uma cambada de mal amados que só vive bem com o mal dos outros. É a lógica do "se eu estou mal, tu pior estarás". Vai-se nivelando tudo por baixo até não haver mais por onde cair.
Ao contrário do que possa parecer, a Política e a Economia são as coisas mais simples do mundo. É por isso, por ser tão simples, que meia dúzia de gajos do mundo da finança se deitam com os do nosso governo e nos conseguem roubar descaradamente, todos os dias e todas as horas. O que é mais complexo, pelo menos para os portugueses, é o Amor. Ninguém, ou quase ninguém, sabe o que é isso por cá.
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5.08.2012
conversa 1904
Eu - Não estás nada.
Ela - Estou, estou. Agradeço-te a simpatia, mas sei que estou. E para emagrecer vou ter que emigrar...
Eu - Emigrar?! Emigrar para onde?
Ela - Para um sítio qualquer onde não haja pastéis de nata.
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coisas que fascinam (144)
A estratégia é sempre essa: dizer que se Ama, assim como quem não quer a coisa, sempre que o coração aperta. Sei que a Raquel não se deixa enganar pelas razões que me levam a telefonar-lhe. Ainda bem. É por isso que o continuo a fazer.
Não faço a mínima ideia de quantas pessoas o fazem neste mundo. Para além de mim, talvez sejam todas ou talvez não seja uma única. Sei que é um luxo poder telefonar a alguém por uma merdice qualquer, só para depois poder dizer-lhe que se a Ama.
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Etiquetas: coisas que fascinam
5.07.2012
respostas a perguntas inexistentes (207)
Tenho uma amiga de quem gosto muito mas que, por viver longe dela, só vejo muito raramente. Eu divido a minha vida entre Aveiro e Porto, ela divide a dela entre Castelo Branco e a Covilhã. A forma como nos conhecemos foi muito estranha, e levou-me a perguntar várias vezes o que é nos pode interessar ou não numa pessoa. Duma coisa tenho a certeza: há pessoas de quem gostamos muito, outras de quem não gostamos nada. Nunca na vida chegamos a saber o motivo.
Passámos o fim de tarde e a noite toda a passear por aquela belíssima cidade medieval, entrando de vez em quando num bar à sorte para beber qualquer coisa. Ela mostrou-me um caderno que tinha onde pedia a todas as pessoas que conhecia que fizessem um retrato dela. Não tinha que ser um desenho aproximado. Podia ser um texto, um rabisco ou qualquer outra coisa que, para quem o fizesse, a definisse a ela como pessoa. Folheei todas as páginas e, como ela era uma pessoa que viajava muito, tinha textos em alemão, inglês, italiano e espanhol. Também tinha muitos desenhos, totalmente diferentes uns dos outros.
O interessante daquele caderno é que demonstrava os vários ângulos sob os quais ela tinha sido vista por pessoas diferentes, e acabámos a falar sobre isso mesmo. Ela tinha a teoria que nós somos o que os outros pensam de nós, e que aquele caderno acabaria por dar um puzzle sobre ela mesma. Um trabalho que a ajudaria a conhecer-se melhor a ela própria.
No fim da noite, e já no último bar, ela pediu-me para também lhe fazer um desenho. Com o que o meu estado parcialmente sóbrio me permitiu, desenhei-a duas vezes como se se estivesse a ver a um espelho. Por baixo escrevi que nós também temos o direito de pensar alguma coisa sobre nós mesmos.
Para ser sincero, já não me lembrava desse desenho. Lembrava-me apenas do abraço prolongado que demos quando me despedi dela em frente ao hotel onde estava alojada, e do percurso solitário que depois fiz até à minha pensão barata no perímetro urbano da cidade. Há uns dias fui jantar com ela, numa pequena pizzaria em Viseu, e ela mostrou-mo. Disse-me que nessa noite, apesar de ter vontade, não me convidou para subir ao quarto dela porque tinha lá o marido à espera.
O marido era um holandês viajado, homem de negócios, que lhe controlava totalmente a vida. Ela sentia-se extremamente só e, quando ele tinha reuniões, ela aproveitava para sair e ver pessoas. Como era, e ainda é, muito bonita, sempre lhe foi fácil acabar a conversar com um estranho qualquer. O caderno, confessou-mo nesse jantar, era o resultado dessas saídas.
Nessa noite em que a deixei no Hotel, e porque já era demasiado tarde, ele ralhou violentamente com ela. Foi também a primeira vez que ela lhe respondeu e ameaçou divorciar-se, o que veio a acontecer uns meses depois. Uma das coisas que ela lhe disse nessa discussão é que ele devia ver-se ao espelho, para perceber que não era apenas aquilo que os seus colegas de negócios lhe diziam, mas era também um homem violento, inseguro e sem o mínimo de respeito por quem gostava dele. Depois chorou.
Lembro-me que fui passar esse fim de semana a Brugges precisamente para estar sozinho, mas cinco minutos depois de sair à rua já estava extremamente arrependido. Queria estar com alguém porque me sentia só. Acho que vivi uma época assim, em que nunca estava bem como estava a não ser que alguém me surpreendesse. Não sabia, pelo menos da forma que sei hoje, o que é Amar e estar continuamente apaixonado. Era esse o meu problema.
Ela acabou a pizza dela uns cinco minutos depois de mim, cruzou os talheres e pediu dois cafés.
- De certa forma salvaste-me a vida. - disse.
- Salvaste-me a noite. - respondi.
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5.04.2012
conversa 1903
Ela - O que é que vais beber?
Eu - Um Bushmills sem gelo.
Ela - Ainda bem.
Eu - Porquê?
Ela - Gosto de pessoas que bebem da forma mais simples possível. Uma cerveja, um uísque sem gelo e pronto, mais nada.
Eu - Porquê?
Ela - Normalmente são pessoas mais simples e, por isso, mais fáceis de lidar.
Eu - E tu, o que é que bebes?
Ela - Um cocktail qualquer que tenha uma cor berrante. Ainda estou a pensar nisso.
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5.03.2012
é azul
Olho-a de lado. Parece hipnotizada pela mesma dança de pontos coloridos que me seduziu a mim e parece adivinhar-me o pensamento. Os guarda-chuvas pretos são de homens, os guarda-chuvas coloridos são de mulheres. Só as mulheres é que dão cor aos dias cinzentos.Ela sorri timidamente. Eu também.
Tem sido assim desde manhã cedo, enquanto esperamos os dois por uma consulta de cardiologia na sala de espera dum oitavo andar qualquer, num edifício que tenta passar despercebido pela cidade. Não nos conhecemos, eu e ela, por isso não temos muito para dizer um ao outro. Vamos partilhando com frases curtas e soltas a paisagem amortecida que, enquadrada pela janela, mais parece um quadro vivo impressionista.
Os jornais e revistas em cima da mesa central são desinteressantes e estão desactualizados. Na verdade, mais parecem cadáveres retalhados pela ânsia dos doentes que ali esperaram a sua vez em dias anteriores. Eu e ela, estranhamente, estamos calmos perante esse desolador cenário de papel morto.
Ainda não lhe perguntei porque é que está ali, nem vou perguntar. Nunca são boas notícias, as que levam alguém a visitar um cardiologista. Por isso mantenho-me calado na esperança de que assim consiga também emudecer a doença. Não tenho dormido bem por causa de arritmias cardíacas, e os meus problemas de coração vêm de longe. É isso, penso. Calo-me.
Uma porta abre-se e chamam-na. Fico a saber-lhe o nome. Teresa. Ela é engolida pelo ávido consultório e, nem sei bem porquê, a paisagem lá fora deixa automaticamente de fazer sentido. Passo a sentir-me exageradamente só, e confunde-me sentir solidão pelo facto duma mulher que nem sequer conheço se ter ausentado assim, de repente.
Agarro num desses pedaços de papel e leio um pedaço duma notícia que deve ter, a ver pelo estado dele, pelo menos uns três meses. É sobre um acidente numa auto-estrada. Três feridos graves e um morto. Pergunto-me com estarão agora esses feridos. Talvez estejam em casa, a beber um café quente e a comer torradas com manteiga, numa espécie de aconchego recompensador. Amarfanho o papel e atiro-o para o caixote. Espero.
A porta que engole pessoas abre-se de novo e chamam o meu nome. Cruzo-me com a Teresa e tento perceber-lhe, através do olhar, como correu a consulta. Não consigo, mas pelo menos ela diz-me adeus. Adeus, repito. Fico a vê-la percorrer o longo corredor para a liberdade do dia, lá fora, sem médicos nem conversas sobre morte e doenças. Pega num guarda-chuva antes de sair. É azul.
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5.02.2012
conversa 1902
Eu - O quê?
Ela - Um homem a dizer que se tinha esquecido de dizer regularmente à mulher o quanto gostava dela. Habituou-se tanto à presença dela que deixou de lhe dar importância, e só quando ela morreu é que ele percebeu a falta que ela lhe fazia...
Eu - É forte!
Ela - É assustador, não é?
Eu - É, mas se tens consciência disso, podes ir já dizer ao teu marido que o Amas.
Ela - Bem... o que me assustou é que é ele que nunca mo diz a mim.
Eu - E tu dizes-lhe a ele?
Ela - Não, mas peço-lhe para ele mo dizer a mim, o que vai dar ao mesmo. Não achas?
Eu - Pedes-lhe para ele te dizer que te Ama e ele nunca to diz?
Ela - Sim.
Eu - Pois... assim a pedido eu também não dizia. A palavra "amo-te" tem que sair sem ser a pedido.
Ela - Então agora não lhe vou pedir mais.
Eu - Se calhar devias dizer-lho tu primeiro.
Ela - Isso não. Tem que ser o homem primeiro.
Eu - Porquê?
Ela - Se uma mulher diz a um homem que o Ama, ele pensa logo que ela quer pinar.
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A Teolinda gostava secretamente de mim. Tenho a certeza. Todos os dias, sem excepção, me cruzava com ela na rua que ligava o hospital ao jardim das árvores grandes. Todos os dias, sem excepção, ela fingia que não me via e continuava o seu passo apressado a fingir que tinha para onde ir. Não tinha, e eu sabia-o. Sabia também que era por falta de coragem que ela desviava o seu olhar do meu. Às vezes sorria timidamente, outras vezes não.
Eu acordava todos os dias bastante cedo, penteava-me e fazia a barba, punha umas gotas do after-shave do meu pai e treinava um ar bem disposto no espelho do elevador. Tudo para o caso de ela ganhar coragem e decidir falar-me. Bastava que me cumprimentasse uma vez que fosse e eu dir-lhe-ia o quanto também gostava dela, mas nunca o fez. Por falta de coragem, tenho a certeza. Foi uma pena.
Ficou a chamar-se assim, Teolinda, naqueles dias em que deixou de passar por ali e eu, doente, passava os dias dum lado para o outro à espera de a encontrar. Devo ter feito aquela rua umas centenas de vezes, na esperança de passar por ela para fingir que nem a via e que ela, uma vez que fosse, não fizesse o mesmo que eu. Nunca mais aconteceu, e por isso dei-lhe o nome que sempre me pareceu ter. Teolinda.
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parêntesis neste blogue para três coisinhas
1) O meu amigo Tiago Leal precisa de trabalho. Uma das formas de o ajudarem a arranjar trabalho é gostarem duma ilustração dele no facebook. É assim que a empresa Princess Pea vai escolher o próximo ilustrador. Eu agradeço-vos...
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4.26.2012
respostas a perguntas inexistentes (205)
Adormeço durante cerca de quinze minutos. Quando acordo, olho pela janela e a paisagem já é outra. Não assisto à sua lenta transformação, em que a densidade de casas e árvores se vai desertificando. Em vez disso, esta viagem de comboio parece mais uma aventura numa máquina de teletransporte. Torno a fechar os olhos e tudo torna a acontecer.
No escuro do sono, meio adormecido, sou assaltado pela ideia confusa de que estou a reviver toda a minha vida, todos os meus Amores. Tenho a noção de que foi assim que vivi, teletransportando-me de uns para outros, fechando os olhos e adormecendo entre eles. Algumas vezes saí em estações, mas a maior parte delas foi apenas em apeadeiros. Acordo.
À minha frente, uma mulher que aparenta ter cerca de dez anos a mais do que eu, adormeceu e pousou a cabeça no ombro do homem que a acompanha. Reparei também que, para não a incomodar, ele ainda não se mexeu desde o princípio da viagem. Vai ali como se fosse uma estátua feliz, talvez com formigueiro no braço, a embalar quem Ama.
A minha atenção centra-se nele. Leva um livro aberto numa das pernas, numa página marcada pelo próprio joelho, que não se atreve a ler. Tudo o que ele quer é manter o máximo de silêncio e quietude, para não incomodar o bem estar da mulher. Outro comboio qualquer cruzou-se com o nosso, e imediatamente o vi a pousar a mão numa das orelhas dela para abafar o ruído. De resto, tem ido sempre a olhar pela janela. Ele sim, a ver a paisagem modificar-se lentamente.
Acho que somos todos mais ou menos assim. Às vezes apetece-nos adormecer e acordar noutro lugar qualquer. Um lugar que seja diferente e que nos dê uma nova oportunidade para Amar. Outra vezes queremos desfrutar de cada segundo, como se o tempo fosse essa paisagem mutante que vai passando por nós. Isso acontece quando estamos apaixonados. Mais nada o permite.
Fecho os olhos. Sei que dentro de pouco tempo vou apanhar um avião para Madrid, onde conto passar todo o fim de semana. A Raquel também vai e, com ela, espero ver todo o céu sem perder uma única nuvem. Até ao meu regresso e fiquem bem.
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conversa 1901
Eu - Não estou cá. Vou passar o fim de semana a Madrid.
Ela - Detesto esta sensação de ver todos a ir para qualquer lado e eu a ficar aqui, nesta cidadezinha de merda, sozinha.
Eu - Não precisas ficar aqui. O Porto, por exemplo, é aqui tão perto...
Ela - Detesto ainda mais perceber que todos vão facilmente para qualquer lado e que eu, apesar de não querer ficar aqui, também não quero ir a lado nenhum.
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4.24.2012
por uma vida melhor
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4.23.2012
orangotangos
Voltemos ao metro do Porto hoje de manhã. Entro na estação das Sete Bicas em direcção a Campanhã, uma estação depois entra uma das mulheres mais bonitas que já vi na minha vida. Sem exageros. Olho para ela e agradeço-lhe, em pensamento, o facto de ter tornado esta ordinária viagem de metro numa coisa extraordinária. Os olhos dela cruzam-se com os meus e eu desvio-me. Atrás de mim ouço um grupo de rapazes em risadas histéricas que são, obviamente, por causa dela. É uma atitude animalesca, de quem se manifesta fisicamente por ser incapaz de qualquer reacção intelectual à presença duma mulher bonita. Quando ela se levanta para sair, na Trindade, eles grunhem uma última vez. Depois calam-se. Um homem mais velho, embalado por aquela performance dantesca, grita-lhe qualquer coisa como: "Gandas marmelos!". É a primeira vez que tenho vergonha do meu género neste dia. Não será a última.
Chego ao meu local de trabalho e abro o meu email. Um amigo enviou-me um link para uma reportagem sobre abusos sexuais a orangotangos fêmeas na Indonésia. Os animais, uns, são capturados, acorrentados a camas e preparados para a prostituição. Outros, sempre homens, pagam esse abuso sexual. Por um momento faz-se luz. Há qualquer coisa em comum nesta notícia e naquilo a que assisti no metro. É a ausência total de emoção e de razão. E isto, meus amigos, só acontece em homens.
No género masculino, há um número significativo de indivíduos cuja vida é totalmente aniquilada por uma hormona. Quando digo vida, digo também capacidade de Amar. É por isso que são sempre homens, os autores das notícias mais escabrosas sobre abusos sexuais. Ponto. As mulheres são diferentes. São melhores, e estranhamente mantêm a capacidade e paciência para viver no meio dos homens. Não as compreendo. Admiro-as.
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conversa 1900
Eu - Eu gosto mais agora.
Ela - Agora, quando te pões com sentimentalismos, és um chato. Espero que a Raquel te deixe o mais depressa possível.
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4.20.2012
conversa 1899
Ela - Eu nunca mais falo com a Guida.
Eu - Estão zangadas?
Ela - Estamos. Ela disse-me uma coisa daquelas que ferem mesmo, só para me magoar.
Eu - A sério?! O que é que raio ela te pode ter dito assim tão grave?
Ela - Agora já não me lembro bem, mas sei que disse.
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4.19.2012
conversa 1898
Ela - Não me devias ter telefonado agora.
Eu - Porquê?
Ela - Estou a fazer uma coisa que ninguém pode fazer por mim.
Eu - Estás na casa de banho?
Ela - Não. Estou a dizer mal das amigas todas do meu marido.
Eu - A quem?
Ela - Ao meu marido, claro. Nunca diria mal das amigas dele a mais ninguém. Não tenho mau carácter.
Eu - Estás mesmo?
Ela - Só de algumas, pronto.
Eu - E dizes mal de mim?
Ela - Tu és meu amigo. Ele é que me diz mal de ti, de vez em quando.
Eu - Quando é que te posso ligar, então?
Ela - Daqui a uma horinha, pode ser?
Eu - Uma hora?!
Ela - Sim. Sempre que nos pomos a dizer mal dos amigos do outro, precisamos de pelo menos uma hora.
Eu - E fazem isso regularmente?
Ela - De vez em quando. É uma forma de fortalecer a relação.
Eu - E o teu marido está aí a ouvir a nossa conversa?
Ela - Sim, e já está a dizer que és um chato.
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4.18.2012
manual de instruções para zangas banais
- gosta que eu ponha os copos maiores na parte de trás do armários da cozinha e os mais pequenos à frente.
- gosta que eu veja os jogos de futebol na televisão com o som desligado.
- gosta de ser ela a temperar as saladas, mesmo que seja eu a fazê-las, e não podem ter milho.
- gosta que eu tire as palmilhas dos sapatos e deixe tudo, antes de me deitar, na janela da cozinha.
- gosta de beber um chá de hortelã à noite, enquanto eu bebo um café expresso sem açúcar.
- gosta que eu ponha os catálogos do IKEA e a Dica da Semana junto à sanita, para ela ler quando vai à casa de banho
- detesta que o saco de lixo orgânico comece a deitar cheiro.
- gosta de ser ela a escolher as peças de roupa que vão à máquina de lavar, por causa do tipo de tecido e das cores.
- gosta que as garrafas de vinho fiquem na despensa e que, caso alguma já esteja aberta, fique dentro dum armário.
- Qual? - bocejo.
- Gosta que lhe perguntem como está, de vez em quando, principalmente nos dias em que anda doente.
- Como estás?
- Com vontade de te bater - beija-me.
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4.17.2012
uma boa e uma má notícia
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4.16.2012
conversa 1897
Eu - Mas... tens quarenta e cinco anos. Nunca te tinhas sentido preparada antes?
Ela - Estou a falar desde ontem à noite. Ontem acabei com o meu namorado...
Eu - Nem sabia que tinhas namorado...
Ela - Não te cheguei a dizer porque não deu tempo. Só namorámos três dias.
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4.13.2012
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No prédio onde eu cresci eram raras, para não dizer inexistentes, as conversas entre vizinhos. Todos se cumprimentavam sempre que se cruzavam, mas não mais do que isso. Foi por isso que estranhei quando, no fim duma manhã qualquer de Primavera, ouvi um burburinho intenso nas escadas cortado ao meio por dois ou três gritos ameaçadores. Era um homem forte, cuja face zangada parecia esculpida com uma faca do mato, que queria bater no vizinho do quarto direito.
Algumas pessoas tentavam acalmá-lo, segurando-o de frente como se pegassem um touro enraivecido. Aquilo que, no entanto, não conseguiam estancar, eram os gritos que tentavam justificar aquela violência toda. Ele tinha visto a mulher beijar o meu vizinho e queria matá-lo.
Acho que foi essa a primeira vez em que me apercebi da importância que um beijo pode ter. Tanta que pode culminar em morte, pensei.
o beijo da Bonnie Parker
Devo ter visto pela primeira vez o filme "Bonnie and Clyde", de 1967, aí com uns dez anos de idade, ou seja, uns quatro anos após a cena no meu prédio. Era um filme proibido para crianças mas que, por algum milagre que nunca consegui explicar, o meu pai me deixou ver. Ainda bem. Foi com ele que confirmei que um beijo pode acabar em morte, e foi com ele que aprendi que os maus também se Amam.
Os maus, neste caso, são os próprios Bonnie e Clyde, um casal apaixonado de assaltantes de bancos. A Bonnie Parker e o Clyde Barrow não tinham uma vida normal nem decente como todos os outros, muito menos aos meus olhos de criança, mas o filme retrata-os como um casal mais feliz do que qualquer outro. No fim o meu pai, quando se apercebeu que eu não saía do sofá durante a ficha técnica, disse-me que aquela história era verdadeira.
Nesse dia confirmei a importância do beijo e de como ele pode acabar em morte.
o meu beijo
Esperei anos pelo meu primeiro beijo, que todos dizem que é o mais importante duma vida. Num certo sentido até é. Foi com ele que aprendi que os beijos têm sabores e foi com ele que aprendi que o beijo mais importante é sempre o último. Teve, pelo menos, essa importância que ninguém lhe tira.
Fazíamos, eu e a Márcia, concursos para ver quem conseguia que uma pedra ricocheteasse mais vezes nas ondas do mar. Ela ganhava sempre, porque a mim me faltavam as forças que gastava na confusão de um não Amor de Verão. Ela sorria e era enérgica, eu parecia sempre um pouco apagado. É isso um não Amor, e garanto-vos que é bem mais difícil do que um Amor qualquer,
Um não Amor é uma vontade de Amar que não cabe em ninguém, e que por isso acaba por se adaptar a quem está mais perto. É próprio da adolescência, é próprio de quem ainda não aprendeu a Amar. É vão, e a Márcia parecia sabê-lo. Uma vez disse-me que tinha atirado uma pedra que queria recuperar, mas que não era capaz de ir sozinha até à rebentação das ondas. Deu-me a mão e levou-me com ela, beijou-me e fugiu a sorrir. O beijo soube-me a sal, logicamente.
Nesse dia aprendi que um beijo pode acabar em vida.
dos beijos todos
Não acredito no Amor cujo primeiro toque não seja o dos lábios, logo a seguir ao ainda mais suave contacto das palavras. O beijo é o corpo a soltar-se para tudo o resto: a pele com a pele, os olhos com os olhos, o verbo com o verbo. E por falar em verbo, o beijo é também a assinatura do tratado que nasce cada vez que se diz "eu Amo-te!". Sem ele, o verbo Amar é apenas uma declaração vazia de intenção. No Amor vale muito pouco falar, mas vale tudo beijar. É no beijo que acreditamos sempre. Ou não. Podemos duvidar de nós mesmos quando dizemos "Amo-te!", mas nunca duvidamos quando beijamos "Amo-te!".
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4.11.2012
...da deterioração do Amor
Por princípio, poderia ser considerado um amigo nerd e insuportável, mas não é. É alguém que eu adoro visitar de vez em quando para ter daquelas conversas, sempre regadas com algum uísque, que se estendem pela noite dentro. Também gosto de o receber, e se me conseguir esquecer que ele sabe exactamente quantos degraus precisa de subir para chegar a minha casa, conseguimos ter conversas normais.
Noutro dia fui eu visitá-lo, e depois dele me dizer quantas vezes em média eu limpo os sapatos no tapete da entrada, sentámo-nos e ele serviu-me o primeiro de seis copos de uísque Bushmills (segundo ele, é essa a média de uísques que bebemos por cada noite destas). A partir daí, ficámos na conversa até às cinco da manhã e, suponho eu, ultrapassámos em muito a média do álcool ingerido. Todas as nossas conversas são, pelo menos a meu ver, interessantes precisamente por isso. Eu falo das coisas numa perspectiva sempre mais solta, ele sempre preso à sua lógica sequencial ou estatística.
A ele, durante estes mais de dez anos em que nos tornámos amigos, só lhe conheci uma namorada. Ele gostava tanto dela que passou a comprar cadernos de capa dura para registar tudo o que considerava importante, penso eu que para que esses registos durassem mais. Um dia a namorada nunca mais apareceu e ele nunca me explicou porquê. Abanava os ombros cada vez que eu lhe perguntava e rapidamente mudava de assunto.
Dei o primeiro gole e ele perguntou-me porque é que eu estava triste. Abanei os ombros e disse-lhe que a minha namorada me tinha dito que precisava de algum tempo para pensar na nossa relação e que, acabada de chegar de férias, nem sequer ainda me tinha vindo ver. Disse-lhe que o mais horrível de tudo era esta urgência que eu tinha de estar com ela e que ela, nitidamente, não tinha de estar comigo. Olhei-o de frente e ele sorriu, como se me percebesse e finalmente, com esse olhar, me estivesse a explicar o que lhe tinha acontecido a ele.
Vi-o levantar-se e voltar com um desse caderninhos de capa dura dos tempos em que tinha namorada. Na capa, com uma esferográfica azul, tinha escrito "...da deterioração do Amor". Abriu-o com muita calma e explicou-me que entre o princípio e o fim da sua relação, o número de beijos que a namorada lhe dava por sua iniciativa desceu de vinte e dois por dia para apenas três, o número de vezes que ela lhe dava a mão na rua desceu de cem por cento para apenas dois por cento. Olhou-me nos olhos para tentar perceber a minha reacção, mas eu ouvia-o impávido e sereno, sem esboçar fosse o que fosse. Por fim, disse ele, o número de vezes que tinham sexo desceu de seis vezes por semana para uma vez de duas em duas semanas.
Bebi tudo o que restava no meu copo de uísque e eu próprio me servi de outro, sem o servir a ele porque ainda tinha o copo cheio. Perguntei-lhe se tinha sido ele a acabar com ele ou se tinha sido ela, só para ver se ele, finalmente, abria um pouco o véu que cobria o fim da sua relação. Abanou os ombros e respondeu-me que, desde então, abana os ombros cerca de três vezes por dia, ou seja, sempre que alguém lhe fala de Amor.
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