6.25.2012

coisas que fascinam (149)

Uma vez parámos no Alentejo, num café da estrada nacional, e ouvi um grupo de homens a chamar fascista ao meu pai. Não percebi o que aquilo queria dizer, mas quando voltámos para o carro o meu pai explicou que tinha a ver com o carro novo. Não era um veículo propriamente de luxo, mas tinha um aspecto diferente da maior parte dos carros dos anos setenta. O Morris Marina arrancou em direcção ao Algarve, eu sentei-me de joelhos no banco e fiquei a olhar para a aquele grupo de homens até eles se tornarem pontos negros e indecifráveis no horizonte.
Talvez essa tenha sido a primeira vez que tive uma noção real da existência de classes. Não que o meu pai ou a minha família fosse rica, porque não era mesmo, mas porque percebi que alguns se ofendiam pelo facto de poder ser. Quem parava por ali, normalmente eram pessoas que iam de férias para o Algarve, e isso era uma afronta para alguma pobreza que se vivia no Alentejo pós 25 de Abril.
Em Lagos havia uma gelataria muito movimentada, onde todas as noites os meus pais me compravam um sorvete de máquina (era uma das coisas que eu mais gostava nas férias, ter direito a um gelado por dia). Numa dessas noites a minha irmã, que tinha na altura apenas dois ou três anos, deixou cair o sorvete dela no chão e ficou apenas com o cone de bolacha na mão. Começou a chorar e o meu pai comprou-lhe imediatamente outro. Eu, que fiquei cá fora, vi um miúdo da minha idade a ajoelhar-se no chão e a lamber avidamente aquela bola amarela de baunilha que o passeio ia absorvendo. Procurei explicações junto dos meus pais para aquilo, mas não obtive muito mais respostas do que a assumpção de que há gente pobre e gente com dinheiro. Reagiram como se nem quisessem tocar no assunto e continuámos a andar. Eu é que nunca mais me esqueci daquilo.
Esta semana, mais de trinta anos depois, sentei-me no banco duma esquina de Barcelona para acabar de comer um gelado que se derretia demasiado depressa. A minha mãe sentou-se ao meu lado e fiquei a ver a minha filha, que já tinha acabado o gelado dela, a dirigir-se a um caixote do lixo para pôr o papel do seu Magnum Amêndoas. Um homem rebuscava o caixote do lixo e, praticamente em simultâneo, retirou de lá uma garrafa de água quase vazia que acabou de beber. Depois abriu o papel da minha filha e lambeu-o.
A minha filha veio procurar junto de mim explicações para aquilo, e por uma vez percebi porque é que os meus pais evitaram a minha questão semelhante há mais de trinta anos. Num só momento não se consegue explicar a uma criança como é que a humanidade se permite a ter isto nas suas cidades, nem há nenhuma explicação plausível para que tal se passe, a não ser uma organização política atroz e uma massa enorme de gente com muito pouca capacidade crítica. Ela olhou para mim e percebeu a minha impotência perante os factos, pegou no dinheiro que tinha e foi atrás dele para lho dar. Depois, só uns minutos depois, é que me disse que as pessoas não gostam suficientemente umas das outras. Foi a explicação possível para alguém que tem doze anos de idade. E é a verdade.
Só no avião de regresso, e já longe do envolvimento emocional do momento, é que consegui falar com ela mais abertamente sobre o que se tinha passado. A minha filha não sabe, mas fiquei orgulhoso dela por se ter sentido mal com o que viu, e por se sentir inquieta perante a pobreza e a injustiça. Ainda bem.

8 comentários:

Margarida disse...

Tens mesmo motivos para ficar orgulho da tua filha.
Se todos os adultos continuassem a ter o coração de criança este mundo seria muito melhor.

Bagaço Amarelo disse...

margarida, obrigado. :)

R. disse...

Ponto 1: parabéns pela tua filha e pelo espírito observador e interrogativo dela;

Ponto 2: o grupo de alentejanos pode considerar-se vingado, tal a quantidade de problemas e chatices que os Morris Marina deram aos seus donos.

R.

Bagaço Amarelo disse...

R. eu adorava o Marina Coupé. :)

Anónimo disse...

alivia saber que há gente ainda pequenina, já no bom caminho :)
linda!

Etelvina

Bagaço Amarelo disse...

etelvina, obrigado. :)

Fatyly disse...

Comovi-me e a frase da tua filha é uma autêntica bomba que deveria ser afixado em cartazes em vez da publicidade mafiosa que prolifera por todo o lado: "As pessoas não gostam suficientemente uma das outras" e ao que se deve isso? a educação que tem!!!

Os políticos (há excepções) mas no governo, nas instituições de solidariedade, na famosa APAV, nas câmaras, prédios, nos bairros, nos comboios... nos...nas...nos...as pessoas viraram "vira-latas" ou "meros números"!

Partilho esta que podem criticar-me e atacar-me que me estou c****:

- Há quem dê aos gatos e cães de rua o que sobrou das TRAVESSAS/PANELAS - NÃO DOS PRATOS, de um um almoço ou jantar...quando têm vizinhos COM FOME. Vergonha de dar? sim, mas há que acabar com essa porra desse "medo" (não era este o adjectivo mas não me ocorre outro) bater à porta e dizer: partilho com vocês...tomem!

Certo ou errado?

Parabéns a ti, à tua filha, à mãe da tua filha e à avó ou avós...porque só criadas/educadas dessa forma é que poderemos ter um futuro melhor!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado. concordo contigo. :)