1.08.2011

respostas a perguntas inexistentes (113)

Dias Cinzentos

Esta semana uma mulher sentou-se à minha frente no comboio (sentido Porto - Aveiro) e começou a falar comigo com a maior das naturalidades, apesar de eu nunca a ter visto até então na minha vida. Disse ela que adora estes dias cinzentos e que a cidade do Porto fica ainda mais bonita em dias de Inverno. Pelo sotaque e pelas características somáticas percebi que era estrangeira, provavelmente alemã ou polaca, e respondi-lhe que para alguém que gosta de dias cinzentos tem uma forma de comunicar bastante colorida e espontânea. Explicou-me então que gosta mais de dias cinzentos em Portugal do que na Polónia (era polaca) porque lhe lembram a cidade e a rua onde cresceu.
Lembrei-me também duma rua cinzenta, e de um dia qualquer da minha minha vida em que percebi que as ruas são uma concepção do Homem e não um elemento natural como, por exemplo, uma árvore ou um rio. Nessa rua algumas mulheres costumavam ficar tardes inteiras à janela aceitando como um presente as cócegas que o tempo lhes ia fazendo, como se ainda assim a morte nunca ali tivesse passado. Uma dessas mulheres era a avó da Helena, talvez a primeira rapariga do mundo por quem abdiquei de jogar futebol com os amigos para usufruir da sua companhia, que me conhecia e normalmente me fazia um copo de leite e uma torrada se me visse por ali à hora do lanche.
Foi assim durante três ou quatro anos, não me lembro bem, e só hoje percebo que esses lanches vinham duma senhora que me conhecia melhor do que eu mesmo, e que entre mim e a Helena havia uma primeira experiência de Amor, ainda que limitada à capacidade que uma criança tem de amar outra mais do que a ela mesma e que, convenhamos, não é muita. Talvez por isso só tenha percebido a sua importância quando ela morreu e a Helena foi viver para outra cidade, creio que Lisboa, e eu nunca mais a vi.
Eu, por mim, continuei a passar nessa rua quase diariamente, assumindo com alguma frustração que ela era indiferente à ausência da Helena e da sua avó, assim como ao meu consequente sofrimento. Alguns terrenos baldios foram-se transformando em casas, e algumas casas em pequenos edifícios com apartamentos onde regularmente iam surgindo caras novas. O tempo começava a fazer cócegas a mim mesmo. A única coisa que se mantinha era a cor do céu, normalmente um cinzento pálido pintado por aguarelas um pouco mais escuras e difusas.
"A mim também me lembra uma rua da minha infância", disse eu à polaca antes de ela se despedir de mim numa estação qualquer. Tenho a certeza absoluta que ela também tem uma história qualquer numa dessas ruas de que este tempo a faz lembrar. Disse-lhe adeus pela janela quando o comboio partiu e ela, do cais, olhou para trás na minha direcção.

17 comentários:

Malena disse...

As ruas fazem parte do nosso itinerário exterior e interior. Elas são feitas pelos momentos em que as percorremos. Tu és um homem de memórias e a Helena faz parte delas. Soubera-o e ficaria muito orgulhosa, de certeza! :))

bagaco amarelo disse...

malena, por acaso, às vezes pergunto-me se faço parte das recordações dela. :)

Miss B-Beautiful disse...

Escreve muito bem, muito bem mesmo! Parabéns!

bagaco amarelo disse...

miss B-Beautifull, obrigado. :)

Me,myself & I! disse...

Já te disse que adoro estas tuas mini-crónicas?
É que gosto mesmo muito!

bagaco amarelo disse...

memyselfandi, obrigado. :)

Anita disse...

Isso acontece-me na Vila onde passava férias em miúda, que tenho a sorte de não ser longe de onde moro e ainda manter muitas das características que tinha na altura... E é por isso e tantas coisas mais que eu digo que ali gosto de ir e ficar "mesmo que chovam raios e coriscos" :) é tudo cá dentro, na memória que temos das coisas e das cores que pintamos nessas memórias :)

bagaco amarelo disse...

anita, pois... percebo bem isso de querer lá ir. :)

sophie disse...

É por estas e por outras que gosto tanto de vir aqui... :)

bagaco amarelo disse...

sophie, obrigado. :)

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

O tempo começava a fazer cócegas

Pois isto da ciática é tramado....

bagaco amarelo disse...

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن, ciática? a ciática morde... :)

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

ah isso depende

há quem case com ela

há qwem a tenha por amante

e não é preciso ser masoquista

Anónimo disse...

"aceitando como um presente as cócegas que o tempo lhes ia fazendo"
Quem me dera que o tempo me fizesse apenas cócegas, em vez de por vezes me chicotear e deixar uma marca em jeito de ruga, ora na testa ora no contornos dos olhos ;)
CR

bagaco amarelo disse...

لرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن, lol. :)

cr, eu começo a pensar o mesmo. :)

Fatyly disse...

Os dias cinzentos de cá são bem diferentes dos da minha terra, porque lá o cinzento é muito mais escuro, chove a potes e nem imaginas a maravilha que era andar à chuva nas ruas cinzentas e terrenos baldios.

Voltando aos de cá, não uso chapeús porque vai chover e por vezes não chove nada e andar com aquele matacão na mão não dá. Apesar de não gostar deles, não serão eles que me tirarão a alegria e só me custa é ver que o cinzentismo dos portugueses ainda fica mais estampado nos rostos e mal começa a pingar ainda ficam pior e eu...adoro conversar nem que seja à chuva com quem parou por algo e meteu conversa:):):)

Como sempre, és Rei nestas crónicas

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)