9.14.2012

conversa 1936

(na minha casa)

Ela - Estou desiludida contigo...
Eu - Porquê?
Ela - Andas a comprar vinho bag-in-box?
Eu - Ando. É mais barato e não se estraga tão depressa. Como faz vácuo, mesmo depois de abrires a embalagem, aguenta meses...
Ela - É por isso que estou decepcionada.
Eu - Então?
Ela - Acreditas que podes demorar meses a beber uma embalagem de dez litros de Capataz? Pelo que eu conheço de ti, demoras é dez minutos...
Eu - Estás a chamar-me alcoólico?
Ela - Não. Estou a dizer que não sabes fazer contas ao tempo.

9.13.2012

pensamentos catatónicos (280)

abraços

Numa das primeiras noites em que saí com a Cláudia, abracei-a enquanto olhávamos para a montra duma loja de chocolates. Ela pediu-me que eu tirasse o braço. Que não se sentia ainda à vontade comigo, disse. Eu tirei, e continuei caminho tentando perceber porque é que uma mulher com quem eu já tinha dormido não se sentia à vontade com o meu abraço.
Entrámos num bar onde ela escolheu a mesa do canto. Fez questão de ficar virada para o centro e eu, de costas, só a via a ela e à parede. Estive calado a noite toda enquanto ela me falava dos clientes atrás de mim. Dois deles, que eu não cheguei a ver, estavam aos beijos enquanto as suas cervejas aqueciam, e ela tinha a mão entre as pernas dele. Não percebi, no seu tom de voz, se havia crítica, inveja ou admiração.
Naqueles primeiros dias, percebi que a Cláudia nunca falava dela própria, apesar de nunca estar em silêncio.  Eu sabia que ela era divorciada e que tinha um filho que eu nunca tinha visto. Mais nada. Tinha-a conhecido naquele mesmo bar algum tempo antes e, desde então, dormido com ela algumas vezes, sempre na casa dela. Ela acordava antes de mim para ir trabalhar. Eu limitava-me a lavar a loiça, fazer a cama, e bater com a porta antes de sair. À hora do jantar, mais coisa menos coisa, ela telefonava-me para marcar um encontro e a história repetia-se. Saíamos, conversávamos, dormíamos juntos e eu nunca a podia abraçar.
Estávamos a olhar para a mesma montra da loja de chocolates quando eu lhe perguntei se o podia fazer. Para mim já era demasiado esquisito ter que lhe pedir licença para tal mas, ainda assim, foi o que fiz.

- Preferia que não. Eu não gosto nada de abraços, principalmente em público.

Nessa noite bebi mais do que o habitual. Estávamos sentados no mesmo canto do mesmo bar quando ela me disse que estava uma mulher a olhar para mim há muito tempo. Virei-me e o meu olhar cruzou-se com o de uma amiga que eu já não via há muito tempo. Estava de férias em Aveiro, depois de ter emigrado para a Alemanha. Levantámo-nos e demos um abraço longo. Perdi a noção do tempo nos braços dela. Quando tornei a olhar para a mesa do canto, a Cláudia já não lá estava. Ainda pensei que tinha ido à casa de banho ou coisa parecida, mas não. Nunca mais apareceu. Nunca mais a vi.

9.12.2012

conversa 1935

Ela - Gostas de mulheres mais altas ou mais baixas?
Eu - Nem sei. A altura não é determinante, na minha opinião.
Ela - É que eu estou um bocado farta de ser tão alta.
Eu - Tens o quê? Um metro e oitenta?
Ela - Um metro e setenta e seis.
Eu - Nunca te tinha ouvido a dizer que não gostavas de ser alta...
Ela - Sim, comprei uns sapatos com quinze centímetros de salto e não os consigo usar. Desequilibro-me toda!

9.11.2012

a nossa vida de volta!

Em defesa do meu género, devo dizer a todos os que me lêem que o Passos Coelho, actual primeiro-ministro deste país, não é bem um homem. Um homem (propositadamente escrito com h minúsculo) acerta e erra muitas vezes na sua vida, porque a vida é isso mesmo: uma aprendizagem. São as alegrias e as tristezas dessa aprendizagem, cujo epicentro é o Amor, que nos tornam capazes de olhar para os outros e para as outras como pessoas, homens ou mulheres que têm em comum connosco esse mistério da vida que se chama matéria, da qual todos somos feitos.
O problema de Passos Coelho é que, como nunca fez nada na vida, nunca aprendeu nada também. Foi um jotinha a vida inteira, num partido onde não se aprende muito mais do que a lamber as botas dos outros na esperança de que um dia nos lambam as botas a nós. Nisso, e só nisso, foi um excelente aluno. De tal forma que o sistema insistiu para que ele acabasse o curso de Economia, o que conseguiu apenas aos trinta e seis anos, mesmo sem fazer mais nada na vida. Depois elegeu-o para administrador de algumas empresas onde nunca pôs os pés e se limitou a assinar ordens dadas por terceiros.
Homens e mulheres, tive muitos como amigos e amigas. Ainda tenho, felizmente. São pessoas com nervo que choram, riem, sofrem, abraçam, beijam e Amam. Enfim, fazem pela vida. Passos Coelho nunca foi nada disso. Foi, e ainda é, um boneco preparado para defender os interesses do poder do capital que, por sua vez, está quase todo nos bancos centrais. Esse poder, para quem não sabe, escolhe os bonecos do mundo inteiro através de coisas como o Grupo de Bilderberg ou, de forma mais simples, através do media que controla em cada país.
O PSD, aliás, não é um verdadeiro partido. Um partido é uma organização política e ideológica, com uma ideia de organização para as cidades, para os países e para o mundo. O PSD é uma máquina de produzir bonecos mais ou menos iguais ao Passos Coelho. Os bonecos não têm, como é sabido, qualquer tipo de sentimento, mas têm uma enorme vontade de devorar.
A Troika, que é constituída pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu, também não passa duma máquina para roubar os Estados, entre os quais se encontra Portugal. Para o conseguir serve-se de duas coisas muito simples: um sistema financeiro que quase ninguém consegue perceber, e bonecos que põem esse sistema em funcionamento até às suas últimas consequências.
Esse sistema financeiro tem como consequência inevitável a gradual perda de valor da força de trabalho e o enriquecimento dos bancos, o que na prática quer dizer que as pessoas vão perdendo a sua própria vida para os bancos. A "ajuda" que a Troika está a dar Portugal, por exemplo, não é ajuda nenhuma. É um roubo! Os resultados estão à vista. Os bonecos apresentam-na como ajuda, mas na prática o que se passa é que o Banco Central Europeu, que é um banco público e por isso produz dinheiro à custa do trabalho de todos nós, empresta esse dinheiro (que é nosso) a bancos privados alemães a uma taxa muito baixa (normalmente 1%) e depois esses bancos emprestam-no aos Estados a um preço muito mais elevado (7%, 8% e por aí acima).
O pior, no entanto, ainda está para vir. Para os Estados terem direito a esse empréstimo, emitem títulos de dívida pública que são pagos ainda com mais juros a quem os compra. Quando um país qualquer não está a conseguir pagar esses juros ao dono do título da dívida, o banco Central Europeu vai lá e compra-o no Mercado Secundário, ou seja, tira a batatinha quente do investidor privado, mas o país continua com a dívida.
Se tivermos em conta que isto mexe com milhões e milhões de euros, é fácil perceber porque é que estamos todos cada vez mais pobres (vejam o vídeo) e alguns, muito poucos, cada vez mais ricos. É mais fácil ainda perceber que um sistema destes precisa de bonecos a mascará-lo.
A maior parte dos bonecos estão em partidos políticos, como o PSD, o PS e o CDS. O Sócrates, por exemplo, foi excelente a desempenhar o seu papel. O erro está em pensar que os políticos são todos iguais. Não são, e há políticos que nunca chegam ao Poder simplesmente porque se recusam a ser bonecos.
Eu sou político, por exemplo. Represento o Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Aveiro e acreditem que não me é fácil. Sei que o partido onde estou está cheio de problemas, discussões internas e que às vezes parece que andam todos à cacetada uns com os outros. Andam mesmo, aliás. Agora adivinhem uma coisa: é por isso que eu gosto dele. É feito de pessoas e não de bonecos.
Entretanto continuo a ser homem. Choro, rio, Amo, sofro, abraço, zango-me e mais o que for preciso. O Passos Coelho não. É por isso que estamos todos mais pobres.
Este sábado há manifestações um pouco por todo o país. Eu vou estar na de Aveiro, sábado às 17:00. Não por ser dum partido (a organização é da sociedade civil), mas sim por ser pessoa e, como tal, anticapitalista. Sou pessoa e estou farto de bonecos.

9.10.2012

carro de gaja

Talvez eu seja um dos poucos homens à Face da Terra que não gosta de conduzir. Aliás, abomino o automóvel como produto tecnológico e como solução de mobilidade. Acho que é um dos grande erros da humanidade, com consequências desastrosas a nível social, ambiental e económico, centrar a mobilidade de oitenta quilos de gente numa máquina de duas toneladas.
Infelizmente, e porque o nosso modelo político não deixa grandes alternativas a quem precisa e gosta de se deslocar frequentemente, também tenho um carrito. Está quase sempre parado e, em média, só o uso aí uma vez de quinze em quinze dias. De resto ando de bicicleta, a pé e nos transportes públicos que ainda existem.
Para além de ser um erro, esta utilização massiva do automóvel por tudo e por nada, é também uma demonstração das diferenças de género. Os homens, na generalidade, adoram carros. As mulheres nem adoram nem deixam de adorar. Estão-se nas tintas para eles e só os usam quando precisam. Nesse aspecto sou mesmo muito parecido com elas e, para confirmar esta minha tese, a última vez que peguei no meu pequeno Fiat houve um gajo que me mandou ir para casa com o meu "carro de gaja".
O que mais me confunde e entristece nesta ligação do género masculino ao automóvel, é o exibicionismo. Eu disse que não gosto de conduzir, não disse que conduzir é difícil. Conduzir é, aliás, uma coisa tão banal e fácil que não tem piada absolutamente nenhuma, e quem se exibe demonstrando as suas capacidades ao volante, é tão atado que parece que ainda não se deu conta que há milhões e milhões de pessoas a fazer exactamente o mesmo ao lado dele.
É claro que este gajo que me disse que eu tenho "carro de gaja", logo a seguir carregou no acelerador a fundo e desapareceu na estrada. A exibição dele foi essa, carregar num pedal. Puff! Eu, que estava a estacionar junto à estação de Aveiro, e que o tinha enervado por causa disso, desliguei o motor e pus-me a pensar naquela frase. O mundo era melhor se não existissem "carros de gajo", ou seja, montes de palermas a fazer asneiras na estrada porque descobriram um dia que sabem conduzir.
Aliás, talvez um dos problemas deste mundo seja as mulheres não mandarem mais. O modelo de desenvolvimento que seguimos, e que nos levou a esta coisa tão estúpida que é termos que gastar uma pipa de massa num automóvel para nos podermos deslocar, é capitalista mas também é masculino. Se as mulheres mandassem mais, talvez a mobilidade em transportes públicos fosse um direito de todos. Aí, teríamos todos "carros de gaja", só para andar de vez em quando.

9.07.2012

conversa 1934

Eu - Temos que pôr a conversa em dia.
Ela - Qual conversa?
Eu - A conversa... a conversa em geral.
Ela - Pensei que tinhas alguma coisa concreta para me dizer.
Eu - Não, não tenho. Estava só a dizer que já não falamos há muito tempo.
Ela - Ah! Que interessante.
Eu - Noto alguma ironia na tua voz...
Ela - E eu noto alguma ironia no facto de quereres pôr a conversa em dia sem teres nada de concreto para dizer.
Eu - Epá! Eu gosto muito de ti, mas às vezes a sério que nem sei que te diga.
Ela - Já reparei.

9.06.2012

conversa 1933

(no comboio, um casal que se sentou à minha frente)

Ele - Íamos perdendo o comboio, caraças!
Ela - Tu não te despachas! Nunca mais saías do café...
Ele - Perguntei-te as horas e disseste que faltavam dez minutos.
Ela - Faltavam dez minutos no meu relógio. Isso não quer dizer que faltam dez minutos no relógio do comboio

porreiro, pá!

Em Portugal somos todos uns porreiros. Aliás, acho que o adjectivo "porreiro" e todo o seu alcance semântico deviam ser património nacional. Neste país crescemos a aprender que somos todos porreiros independentemente daquilo que verdadeiramente somos.
O único senão da coisa é que ser porreiro é muito pouco, principalmente quando comparado com a importância que se lhe quer dar. Ser porreiro, em abono da verdade, não é muito mais do que conseguir manter uma conversa de café sem dar um tiro no interlocutor. Conhece-se alguém à mesa do café, enquanto se bebe uma cerveja gelada e se fala de futebol, e pronto, já está: mais uma pessoa porreira que se conheceu.
É isso que é o porreirismo nacional, uma forma de esconder o que verdadeiramente somos. Qualquer sacana cobardolas que bate na mulher em casa, a tortura física e psicologicamente, se quiser passar da besta que verdadeiramente é a um gajo porreiro em menos de cinco minutos, só tem que ir ao café beber um copo com um amigo e já está. Entra uma besta e sai de lá um gajo porreiro.
As reacções à violência doméstica, aliás, não passam muito do espanto porreirinho. Afinal de contas ele até é um gajo porreiro, portanto ela deve ter feito alguma coisa. Talvez por isso haja cada vez mais gajos porreiros a agredir as mulheres em Portugal. Aliás, já há tantos que em menos de vinte e quatro horas foram assassinadas três. Duas a tiro, em Boticas e em Gaia, outra estrangulada em Olhão.
A Polícia de Segurança Pública tem, na sua página oficial, um aviso sobre violência doméstica que assume a forma de pedido, porque estamos a falar de um crime público e que portanto depende da queixa de qualquer cidadão. Não apenas da vítima. Se os cidadãos não se queixarem, a polícia fica de mãos atadas. Eu queixo-me. Para acabar com o nacional porreirismo.

9.05.2012

o cão é o melhor amigo do homem

Passear o cão pode ser uma bela forma de engate. Há mais mulheres que se metem com o nosso cão, quando o passeamos na rua, do que connosco. No meu caso particular, a relação é de muitas a meterem-se com o meu cão para zero a meterem-se comigo.
A vantagem do cão é que permite desbloquear aquela falta de assunto para iniciar conversa. Ela passa e pergunta se o cão morde, por exemplo, e o homem já só tem que responder. Quebrou o gelo, como dizem os brasileiros.
É claro que esta vantagem é muito maior do que se possa pensar, no caso dos homens, porque são eles que metem os pés pelas mãos quando tentam iniciar conversa. A falta de jeito masculina para a aproximação sexual é notória e transversal na sociedade. É por isso que, na maior parte das vezes, eles não passam de um motivo de riso delas.
O tuning automóvel, por exemplo, não passa de um processo animalesco para substituir a oratória num engate. Um gajo não tem nada de jeito para dizer, por isso atrai a atenção transformando o seu próprio veículo numa espécie de mata-moscas ambulante. Se a coisa não estiver a funcionar, fazem-se umas derrapagens e umas acelerações malucas em frente a uma esplanada cheia de mulherio. Nunca resulta, mas acredita-se sempre que sim.
A Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, explica mais ou menos isto. O género que tem que atrair o outro é o que dá mais nas vistas. Há muitas aves, por exemplo, em que o macho é colorido e espampanante e a fêmea é discreta. Na nossa espécie é mais ou menos igual. Os machos tornam-se uns parolos de todo o tamanho, as fêmeas estão sempre na mesma, à espera daquilo que não vem.
É claro que o tuning não é o único método para atrair indivíduos do género oposto através da cor, da distinção visual e comportamental.  Há homens que vão comprar roupa ao Fabio Lucci, há outros que praticam musculação até parecerem o Popeye com gases e há outros que coçam os órgãos genitais em público.
Podemos encontrar muitos exemplos, mas a verdade é que na nossa espécie quase nenhum funciona. A sério, eu próprio já os tentei quase todos. No caso do tuning falhei um pouco porque, por motivos económicos, em vez dum Opel Tigra usei uma bicicleta pasteleira.
Resta-nos, aos homens, passear um cão. É a única forma de ser a mulher a meter-se connosco e ser a ela a iniciar conversa. A partir daí só temos que ir atrás e inventar o menos possível para não estragar a coisa. É por isso que se diz que o cão é o melhor amigo do homem, mas nunca se diz que é o melhor amigo da mulher. É mesmo assim.

9.04.2012

respostas a perguntas inexistentes (218)

janela

Nunca disse isto à Raquel, mas uma das coisas que eu mais gosto na casa dela é a sala. Uma das suas paredes é toda em vidro, como se quisesse abocanhar a luz do Sol. É ali que às vezes me sento, num paciente cadeirão vermelho, a ver a repetida e lenta dança das sombras na rua.
Hoje de manhã fiz um grande copo de sumo de melão e fiquei ali cerca de uma hora. Uma mulher, que já conheço de vista, veio passear o cão, embora normalmente me pareça ser o cão a passeá-la a ela. O filho dela também estava. Passou o tempo quase todo a chutar uma bola contra uma parede e a perguntar que horas eram. Percebi, pela conversa com outros vizinhos que foram passando, que ele estava ansioso pela festa de aniversário que ia ter à tarde. A festa dos seis anos.
Este blogue também faz hoje seis anos. Neste tempo cabe assim a vida inteira duma criança que hoje vi a jogar à bola, e cabe também parte da minha. Perdi a conta às pessoas que conheci através dele. Algumas ficaram como amigas, outras foram-se com o tempo, e houve uma que ficou como minha companheira de vida: a Raquel. Nunca lhe disse isto, mas umas das coisas que eu mais gosto na casa dela é a sala.
Há seis anos atrás, a probabilidade de eu vir a encontrar a minha paixão do liceu, que na altura não via há mais de vinte anos, era baixa. A probabilidade de eu me tornar a apaixonar por ela e ela por mim era ainda mais baixa. Mas a vida é assim. Há tantas probabilidades baixas que podem acontecer, que uma ou outra acontece mesmo. De vez em quando, claro. E era nisso que eu estava a pensar hoje quando me sentei à janela.

9.03.2012

conversa 1932

Ela - Se quiseres jantar aqui em casa, eu posso fazer um jantarinho.
Eu - Vou tentar, então. Posso confirmar até às cinco da tarde?
Ela - Podes. Eu estou sem nada que fazer. Acho que vou dar um passeiozinho...
Eu - Porque é que estás sempre a usar dimunitvos? Jantarzinho, passeiozinho...
Ela - Incomoda-te?
Eu - Não... mas já tinha reparado nisso...
Ela - Desde que te vi uma vez na praia de nudistas, achei melhor começar a falar assim contigo.
Eu - Ei! Onde é que tu queres chegar?
Ela - Ih! Ih! Os homens reagem todos a esta provocação. São tão... crianças.

8.31.2012

conversa 1931

Ela - Não vais acreditar no que é que a minha sogra faz agora...
Eu - É o quê?
Ela - Passa a roupa a ferro do meu marido. Eu deixei de passar e ela faz-lhe isso.
Eu - E criticas a tua sogra?
Ela - Claro.
Eu - Não sei se é a ela que deves criticar. Talvez o teu marido tenha alguma responsabilidade nisso...
Ela - É sempre a sogra que se deve criticar. Ele é apenas filho dela...

au au

Eu a Raquel adoptámos um cão, ou melhor, uma cadela.
Na verdade não foi bem assim. A Raquel adoptou uma cadela e eu, mesmo resmungando muito, acabei por adoptá-la também. Sempre gostei de cães. Na verdade sempre pensei que um dia mais tarde acabaria por adoptar um, mas nunca a viver num apartamento. Precisava, por isso, que alguém que partilhasse a vida comigo partilhasse também essa responsabilidade. Assim é óptimo, a iniciativa partiu da Raquel e eu satisfiz a minha vontade indo apenas atrás dela.
Talvez seja uma coisa muito masculina, esta de deixar que a mulher tome a iniciativa naquilo que se quer fazer mas não se tem a coragem suficiente. É que isso é coisa que as mulheres têm a sobrar, principalmente quando falta nos homens.
A verdade é que adoptar um cão ganha ainda mais significado quando se vai a um canil municipal. Os animais ladram na nossa direcção como se estivessem a disputar entre eles a oportunidade de ter um lar. É um desfile de olhos tristes, aquele.
A Luna (o nome não é grande coisa mas já vinha assim baptizada) tem pulgas e um problema qualquer no pêlo que agora vamos tentar resolver com o tempo. Aquilo que ficou resolvido em menos de uma hora foi precisamente o seu olhar triste. Hoje de manhã levei-a a passear pelas ruas do bairro e, na segunda vez que passei em frente ao prédio, ela dirigiu-se para a porta e já não saiu dali, como se me estivesse a dizer que queria entrar. O respirar ofegante e a cauda a abanar diziam-me que ela estava contente.
Um vizinho que passou perguntou-me se eu a tinha adoptado. Menti, respondendo que sim. Na verdade foi a Raquel que adoptou. Eu apenas fui atrás.

8.30.2012

pensamentos catatónicos (279)

vinho

A Sílvia não me foi receber à porta, como é normal nela. Estava deitada no sofá, sem ligar nada às imagens que iam passando no enorme televisor sem som. Limpei, fazendo propositadamente mais barulho do que o normal, os sapatos no tapete da entrada, e então ouvi-a mandar-me entrar.
- Entra!
É-me difícil explicar o que a Sílvia significa para mim, talvez por significar tudo e nada ao mesmo tempo. Não somos propriamente amigos íntimos. Conheci-a, há já muitos anos, num jantar de aniversário de uma amiga comum. Depois acabámos por sair algumas vezes os dois. Íamos ao cinema, beber um copo a um bar qualquer ou, muito simplesmente, tomar café depois do jantar. Nunca, em vez alguma, senti um prazer especial pela sua companhia. Tenho a certeza que ela também nunca o sentiu pela minha. Mesmo assim, por qualquer motivo que nunca consegui explicar a mim mesmo, insistimos sempre em manter contacto um com o outro.
Já me senti totalmente apaixonado por algumas mulheres por quem, a partir de determinado momento, a coisa esfriou de tal forma que nunca mais as vi nem tive vontade de ver. Com a Sílvia, digamos assim, nunca tive uma relação quente, mas a verdade é que também nunca congelou. De vez em quando, sem nenhum motivo aparente, um de nós acaba por telefonar ao outro. Sem ser uma amiga do peito, é uma certeza da minha vida, e já tive momentos em que pensei que isso é mais importante do que qualquer outra coisa.
Foi assim que acabei por ir, mais uma vez, a casa dela. Tinha-me telefonado e dito, da mesma forma pragmática do costume, que sentia fome e não tinha vontade de cozinhar. Propus-me a passar em casa dela com uma garrafa de vinho, um frango de churrasco picante e uma salada de alface com tomate.
- Então, o que é que se passa? - perguntei enquanto abria a garrafa de vinho a custo, com uma imitação barata de um canivete suíço.
- Sinto fome. Não sinto mais nada. - respondeu ela ainda deitada no sofá.
- Mais nada?
- Mais nada. Não me sinto triste nem feliz, não me sinto apaixonada nem com vontade de me apaixonar. Tudo o que sinto tem estritamente a ver com as necessidades prementes do meu corpo: fome.
É isto que é estranho na Sílvia. Ela diz-me o que se passa com ela, de forma sucinta e resumida, e eu percebo-a tão clara e imediatamente que chega a ser assustador. Às vezes acho que é por sermos os dois tão parecidos que a nossa relação nunca aqueceu. Nunca discutimos, nunca discordamos. A vida a dois seria uma seca.
Fui à cozinha buscar dois pratos, dois garfos, duas facas e dois copos. Distribuí tudo na mesa da sala onde já estava uma toalha usada e com alguma nódoas antigas. Comecei por servir-lhe um copo de vinho que adivinhei ser necessário para que ela se conseguisse levantar e, finalmente, sentei-me à espera.
- Sentes-te só? - Perguntei adivinhando a resposta.
- Tenho-me sentido, mas apenas quando estou entre pessoas. No emprego ou na rua, por exemplo.
Ela levantou-se e veio para a mesa. Já tinha o copo vazio e servi-lhe outro. Vi-a sorrir pela primeira vez.
- Podemos jantar em silêncio, sem conversar? - Perguntou.
- Podemos.

8.25.2012

conversa 1930

Ela - Ser solteira aos quarenta tem uma enorme desvantagem.
Eu - Qual?
Ela - Todos os homens nessa idade são casados ou comprometidos.
Eu - Isso não é verdade. Tenho vários amigos da minha faixa etária que estão sozinhos.
Ela - Todos os homens interessantes, digo eu. Um homem que aos quarenta está sozinho, é porque é um bocó.
Eu - E tu não és uma bocó por estares sozinha aos quarenta?
Ela - Não. Eu só estou sozinha porque os homens da minha idade que também o estão é que são bocós.
Eu - Ainda bem que estás a brincar.
Ela - Pois estou, só não sei até que ponto.

8.24.2012

pensamentos catatónicos (278)

Balão

Uma criança de cerca de quatro anos de idade pisou-me hoje, no metro do porto, enquanto saltava sozinha num jogo qualquer próprio da infância. Ao seu lado ia a sua família, tão numerosa quanto silenciosa. O pai pegou-lhe delicadamente num dos braços e mandou-a pedir-me desculpa. A mãe gritou com o pai logo a seguir. "Não faças isso à menina", disse.
A criança ficou perdida, talvez com algum receio de vir pedir desculpa a um monstro de um metro e oitenta e quatro com um capacete de ciclista na cabeça. Olhava para mim de lado, com a mão pequena quase toda dentro da própria boca. Pisquei-lhe um olho. Ela voltou a sorrir.
Saíram algumas estações antes de mim e fiquei a vê-los pela vidraça. Lá fora as crianças dispersaram dentro dum certo limite, como se orbitassem num caos à volta dos dois adultos, que deram um beijo e se abraçaram num gesto notoriamente reconciliador. 
Os gritos são sempre surpreendentes numa relação, porque o são entre quem supostamente se Ama. São, assim, uma contradição em si mesmos. Quando aqueles dois pais começaram a namorar, suponho que há muitos anos atrás, ela não gritava com ele assim. De certeza. No princípio de qualquer relação, o próprio Amor trata de afogar esse tipo de impulsos. É com o tempo que eles vão emergindo de novo e passam a boiar entre beijos, doces trocas de olhares, abraços e sexo.
Os gritos por impulso são como pregos nesse grande balão de hidrogénio que é o Amor entre duas pessoas. Às vezes o balão acaba por cair. Outras vezes não. Por qualquer motivo olhei para aquele pai e para aquela mãe e, só em pensamento, desejei-lhes sorte. Que o balão não caia.

8.23.2012

conversa 1929

Ela - As sogras, as mulheres e os maridos constituem uma cadeia alimentar.
Eu - Uma cadeia alimentar?!
Ela - Sim, pelo menos no meu caso quando jantamos os três juntos. A minha sogra dá-me na cabeça porque acha que eu já devia ter filhos e nunca mais engravido, eu dou na cabeça do meu marido porque acho que ele devia mandá-la calar e nunca manda.
Eu - Então o teu marido está no fundo da cadeia alimentar e não dá na cabeça de ninguém. É isso?
Ela - É. Ele cala-se e bebe vinho.

respostas a perguntas inexistentes (217)

Éden

Nunca verbalizámos o Amor. A primeira vez que abri a boca para lhe dizer que a Amava ela tocou com o dedo indicador da mão esquerda nos meu lábios, encostando um ao outro como se os quisesse coser com um único ponto.

- Chiu!

Depois beijou-me e fizemos Amor.
A partir daí não precisou mais de usar os dedos. Quando eu falava em nós, tentando dar existência a essa primeira pessoa do plural, ela mudava de expressão. Passou a bastar-lhe o olhar para me silenciar.
Uma vez, por fim, explodi. Não com ela, mas com a situação. Foi como se as palavras que eu engolia há meses me tivessem provocado uma congestão. Vomitei-as, dizendo-lhe que a Amava. Só que o Amor nunca pode ser um vómito.
Depois beijei-a e não fizemos Amor.
Naquele tempo o corpo dela era o meu Éden, uma extensão de vales e montanhas perfumadas onde tudo, menos falar de Amor, me era permitido. E foi assim que fui expulso.

8.22.2012

respostas a perguntas inexistentes (216)

Voo

Na guerra de África, os helicópteros Alouette III eram a esperança dos soldados feridos em combate. Quando um homem caía atingido por uma bala, a primeira coisa que fazia era tentar ficar deitado de barriga para cima, a olhar para o céu na esperança de ouvir o ruído das pás de um destes anjos voadores. Se ele aparecesse, então o soldado estava salvo.
Talvez por isso, quando se sentiu cair sem forças, o primeiro-sargento Pires se tenha virado para bater com as costas no chão. Entre o som furtivo e quase compassado das balas, primeiro sentiu um calor abrupto na barriga, depois perdeu a capacidade de se mover. Tinha sido atingido e agora olhava para o céu, à espera duma réstia de esperança. Perdera o medo da guerra, ganhara o medo da morte.
Talvez por ironia do destino, um embondeiro angolano protegia-o do forte calor e da luz do Sol, acarinhando-o com um lençol de sombra fresca, como se ali tivesse crescido durante várias vidas humanas apenas para chegar àquele momento. Nesse ténue sopro de vida, o soldado viu a marca do seu próprio sangue desenhada no tronco daquela árvore imponente, pediu-lhe silenciosamente desculpa por estar ali e sentiu-se entregue à sua própria sorte.
O som das balas continuou mais alguns minutos, ou talvez horas. Não sabe bem. Depois ouviu uma frase que o fez sentir-se invasor: "Angola é nossa!". Mais um tiro, único e certamente cirúrgico. Silêncio. Aquele céu era estranhamente de um azul igual ao de Lisboa, e talvez o seu Amor, a mais de cinco mil quilómetros de distância, o estivesse a ver. Talvez.
Pires prometera total lealdade à pátria mãe, num juramento de bandeira em Mafra alguns anos antes. Prometera defender com a sua própria vida a causa nacional. Agora, perante o iminente beijo da morte, nada disso fazia sentido. Era só ela, cujo toque de pele ainda se lembrava como se tivessem feito Amor há alguns minutos, que contava.
As nuvens permaneceram quietas e indiferentes ao som das pás do Alouette, que mais parecia uma música encomendada pela vida. Alguns homens que nunca tinha visto puseram-no primeiro numa maca e depois na cabina. Sentiu que levantava voo. Levantava mesmo.

8.21.2012

chuva

Encontrei este anúncio quando pesquisava, na internet, a história duma das marcas mais emblemáticas de sempre para quem gosta de equipamento de fotografia e cinema vintage: a Bell & Howell. Em 1959, ano da revolução cubana, a Sabrina apresentava assim o novo projector de slides desta marca americana. Sinceramente, a esta distância temporal, não estou a ver quem é a Sabrina, mas percebo imediatamente a sua escolha para esta publicidade muito pouco subtil. É que os projectores de diapositivos não devem apanhar chuva. Só pode ser por isso...

a crédito

Quando eu era criança, a minha mãe fazia as compras lá para casa essencialmente na mercearia do senhor Orlando, perto do ainda existente café Convívio, em Aveiro. Ia lá praticamente todos os dias, enchia um ou dois sacos reutilizados pela enésima vez e depois pagava no fim do mês. Eu, nos dias em que tinha sorte, trazia um ou dois rebuçados de oferta. Desembrulhava o primeiro, enquanto o via a tirar o lápis detrás da orelha e apontar num caderno a despesa, e guardava o segundo no bolso.
Algumas vezes, enquanto a minha mãe fazia as compras lá dentro, eu ficava cá fora, junto aos caixotes da fruta e dos legumes, a brincar com a filha duma outra cliente que costumava ir lá à mesma hora. Não me lembro do nome dela, mas lembro-me que tinha o cabelo preto e comprido, olhos escuros e soltos como o voo duma borboleta. Costumava arrancar algumas uvas que dividia comigo e, apesar de ter na altura apenas uns seis ou sete anos de idade, foi ela que me ensinou como é que das uvas podíamos fazer passas.
Fascinava-me, aquela miúda. Aliás, como eu não tinha coragem de roubar uma única uva que fosse, foi com ela que comecei a perceber que as mulheres são demasiado corajosas para quem é do sexo fraco, e que os homens são demasiado cobardes para quem é do sexo forte.
O caderno do senhor Orlando seria, aos olhos de qualquer estudante de Economia dos dias de hoje, um produto financeiro de alta rentabilidade. Ali estavam promessas de pagamento da despesa mensal em alimentação de inúmeras famílias aveirenses, ou seja, de muito dinheiro. Esse produto financeiro seria, assim, nos dias que correm, alvo de especulação em bolsa e uma forma de cobrar juros pela demora no pagamento. O senhor Orlando, no entanto, limitava-se a abrir o caderno de vez em quando para informar os clientes em quanto é que ia a conta.
Com o tempo, todas as lojas pequenas como a do senhor Orlando foram substituídas por grandes superfícies comerciais. Simultaneamente, o caderninho onde se apontavam as despesas foi substituído por cartões de crédito. Ao contrário do senhor Orlando, os hipermercados não acreditam na palavra de pessoas como a minha mãe, por isso os bancos passaram a servir de garantia desse pagamento cobrando uma taxa a uns e outros.
Essa taxa chega, diz o grupo Jerónimo Martins, aos cinco milhões de euros por ano, por isso quer acabar com os cartões de crédito (e débito também) para despesas inferiores a vinte euros nos supermercados Pingo Doce. O senhor Orlando não faz ideia do dinheiro que deixou de ganhar por nunca ter cobrado taxa nenhuma aos seus clientes e eu, como não acredito que os supermercados Pingo Doce venham a ter empregados de caixa com um lápis atrás da orelha, nem acredito que uma mulher qualquer simpática venha a roubar uvas para dividir comigo, vou continuar a não ir lá.

8.20.2012

conversa 1928

(no café)

Eu - Está tudo bem?
Ela - Está. Porque é que perguntas?
Eu - Estás com um ar tão pensativo...
Ela - Sim, porque estou mesmo pensativa.
Eu - Alguma coisa que te preocupe?
Ela - Mais ou menos.
Eu - Posso ajudar?
Ela - Não. Estava a pensar como é que é possível que algumas mulheres usem roupa interior preta ou vermelha por baixo de vestidos quase transparentes. Fica tão mal...

respostas a perguntas inexistentes (215)

pickles

O Amor não chega, disse ela. E eu, que tinha acabado de sair do banho para lhe abrir a porta, pedi-lhe que entrasse, fosse ao frigorífico buscar duas cervejas e um frasco de pickles, e esperasse um pouco por mim enquanto eu me vestia. Algumas gotas de água escorriam-me pelas pernas formando pequenas poças no chão da entrada. A minha mão esquerda segurava a toalha de banho à cintura, a direita encaminhava-a para a sala de estar.
Vesti as calças do dia anterior e uma das t-shirts que estavam por cima na gaveta da roupa, atrapalhado e confuso por aquela frase que mais parecia uma pedrada: o Amor não chega. Quando entrei na sala, ela estava silenciosamente sentada numa cadeira, mesmo ao lado da mesa onde tinha posto duas cervejas, já abertas, e dois pequenos garfos apoiados num prato cheio de pickles.

- O Amor não chega para quê?
- Não chega, é só isso! - disse ela pegando numa das cervejas.

Conheço a Joana e o Carlos há mais de vinte anos. Acompanharam, como um casal amigo, todo o meu primeiro casamento. Depois do meu divórcio continuámos próximos e a ter encontros mais ou menos regulares. Sempre achei que tinham uma relação perfeita, forte. Nunca discutiam, nunca davam sinais de fragilidade. Agora estão a separar-se porque, segundo a Joana, o Amor não chega.
Durante as férias recentes que realizaram, disse-me ela, foi ele a escolher todos os restaurantes onde comeram, as praias onde foram, os museus que visitaram e até os filmes que viram. Durante esses anos todos que passaram, ela deixou-se anular lentamente por ele, e agora já não existia a não ser para o seguir para todo o lado e contemplar as suas opções do dia-a-dia.
Nem ele nem ela fizeram de propósito. Talvez tenha sido um processo natural em que nenhum dos dois se apercebeu de quão incompatíveis podiam ser com o seu próprio Amor. O que ela sabe é que percebeu durante as férias que não é feliz com ele. Ponto.

As férias são isso mesmo, uma espécie de saída precária da prisão. Saímos de trás das grades que encerram a nossa normalidade de horários impostos por quem nos paga um salário de sobrevivência, de quatro paredes brancas e inócuas dum escritório sem sentido. Experimentamos, por alguns dias, uma nova relação com o mundo e ficamos surpreendidos por percebermos que não somos apenas máquinas de transformar oxigénio em dióxido de carbono. Afinal, estamos vivos e devemos tentar ser felizes.
Foi mais ou menos isto que eu lhe disse. Depois bebi a minha cerveja, tentando aproveitar ao máximo esse prazer corpóreo que é comer pickles ao mesmo tempo. Ela riu-se. Já não é mau, ou melhor, é óptimo.

8.03.2012

férias

Vou sair daqui a pouco de Aveiro em direcção a um lugar qualquer que ainda não sei qual é. Nem eu nem os que vão comigo, a Raquel e os "nossos" filhos. A única certeza que tenho é que na próxima semana andarei pelo Algarve.
Não levo muita vontade de ligar o computador, sinceramente. Por isso não sei quando cá voltarei. Talvez para a semana também... 

8.01.2012

conversa 1927

Ela - Até nos tipos de pénis alguns homens são uma desilusão.
Eu - Nos tipos de pénis?!
Ela - Sim, não sabias que há dois tipos de pénis nos homens? Os shower e os grower...
Eu - Não, não sabia. Só tenho um.
Ela - Os grower são homens que têm o pénis relativamente pequeno mas que cresce bastante na altura da erecção, os shower são homens que têm o pénis aparentemente grande mas depois nunca cresce muito mais.
Eu - A sério?
Ela - A sério.
Eu - Não fazia ideia.
Ela  - Pois... eu fui aprendendo com as desilusões da vida.

7.31.2012

respostas a perguntas inexistentes (214)

Ontem a Patrícia veio ver-me. Digo assim, que a Patrícia veio ver-me, porque é mesmo esse o sentido da coisa. Eu estava sem vontade de sair e ela veio visitar-me como se eu estivesse internado na minha própria casa. Ela era a visitante, eu o doente. Ouvi-a a estacionar o carro lá fora (distingo o som do motor do carro dela muito facilmente), mas mesmo assim esperei que ela tocasse à campainha para me levantar e abrir a porta.
Tinha-lhe dito ao telefone que não me apetecia estar com ninguém, mas ela insistiu que queria vir. Argumentou que não demoraria muito. Esperei, entre esse telefonema e a chegada dela, talvez uns vinte minutos. Depois vi-a entrar, servir dois copos de vinho duma garrafa que ela própria trouxe, e sentar-se ao meu lado no sofá.
O cd áudio que estava a tocar acabou nesse preciso momento. Ela levantou-se de novo e escolheu uma colectânea de música popular brasileira para encher a casa com alguma alegria. Palavras dela, pelo menos. Perguntou-me várias coisas sobre mim: se eu ando bem, se está tudo bem entre mim e a Raquel, se está tudo bem com a minha filha e se ando a ler algum livro. Respondi que sim a tudo. Por fim saiu de novo, sem se servir de um segundo copo, e disse-me para lhe ligar se precisasse.
A Patrícia é uma amiga rara. É leve. Acho que me Ama sem nunca ter estado apaixonada por mim. Quer-me bem e não quer mais nada. Atura-me nas minhas infinitas mariquices de homem adulto, sempre sem demonstrar cansaço ou impaciência. Não me pede nada em troca da sua atenção. Nem sequer a minha própria atenção.
Ouvi o motor do carro dela arrancar lá em baixo e fui à cozinha molhar os copos de vinho para que os resíduos não secassem. Vi a garrafa dela a meio, pus-lhe uma rolha e guardei-a. E eu, que não queria ver ninguém, fiquei imediatamente com saudades dela.  

7.30.2012

respostas a perguntas inexistentes (213)

A idade é uma vara curta. Pensamos na quantidade de anos que alguém já viveu e imediatamente sabemos como se deve comportar. Se sair dessa lógica, dizemos muito naturalmente que "já não tem idade para isso" ou que "já tem idade para ter juízo".
Usar a idade como argumento para o que quer que seja, revela o quão falsos e ingratos podemos ser. Dizer a alguém que a sua idade não se adequa ao comportamento que teve é, antes de mais, revelar que não se tem argumento melhor e que apenas se quer chatear a pessoa em questão. "Sou um merdas, por isso digo-te que a tua idade não te permite fazer isso!".
Isto é tão assim, que o próprio Amor parece não se adequar a partir duma certa idade. É muito raro, para não dizer inexistente, vermos idosos de mãos dadas e aos beijos na rua, como se os sentimentos secassem dentro de nós com o passar do tempo. É, provavelmente, o maior medo que tenho.
É que nos meus quarenta e um anos sinto-me apaixonado como quando tinha quinze ou dezasseis e, pior ou melhor, sofro da mesma maneira. Basta-me estar uma tarde sem receber um telefonema de quem Amo, que começo a sentir no peito uma espécie de novelo de lã molhado. É uma sensação de abandono e uma mistura de tristeza com felicidade extrema. Nem sei bem o que é, mas sei que sempre tive e ainda tenho idade para isto.
Quando isto desaparecer em mim, eu também desapareço.

7.27.2012

quarenta e um

Sou relativamente novo. Já fui relativamente velho.
Quando me separei tinha quase trinta e seis anos e passei, durante algum tempo, a olhar para o meu passado. Hoje faço quarenta e um anos e ando a olhar para o meu presente, piscando o olho aqui e ali ao meu futuro.
Obrigado Raquel.

7.26.2012

respostas a perguntas inexistentes (212)

sítios

Existem sítios diferentes de todos os outros sítios do mundo. São aqueles dos quais, por um acaso saído da improvável lei das probabilidades, nos tornamos familiares. Pode ser um banco no jardim, um café ou uma simples paragem de autocarro, qualquer sítio onde nos sintamos em casa. Todos temos sítios assim e eu, por exemplo, até tenho vários. Sou rico em sítios onde me sinto em casa. Normalmente, e como assumido egoísta que sou, vou a esses sítios quando me apetece estar sozinho sem, de facto, me sentir sozinho. 
Esses lugares são ideais para, nas fases em que não nos sentimos verdadeiramente apaixonados por ninguém, nos apaixonarmos momentaneamente por esta ou aquela mulher. As paixões momentâneas são óptimas para dar vida a uma alma morna, até porque vêm e vão tão depressa como um suspiro. Quem suspira não morre.
Houve um Verão qualquer da minha vida em que, todas as manhãs sem excepção, ia para a cidade do Porto passear sozinho e sem destino. Almoçava por lá e voltava para Aveiro num dos primeiros comboios da tarde. Nesse Verão adoptei como um dos meus sítios uma simples paragem dos STCP, onde de vez em quando autocarros paravam, largavam e engoliam uma quantidade sempre razoável de passageiros. Pareciam pulmões metálicos, e eu ficava ali bastante tempo, sentado num banco a ler o jornal e a sentir a sua respiração ofegante.
Não posso dizer que foi assim que conheci a Alice, porque de facto nunca a conheci verdadeiramente, mas posso dizer que foi assim que as nossas vidas se cruzaram numa única vez. Ela entrou num autocarro qualquer e, quando voltou duas horas depois e saiu na paragem do outro lado da rua, reparou que eu ainda estava no mesmo sítio. Atravessou a rua na minha direcção e, por qualquer motivo que nunca percebi muito bem, adivinhei que ela vinha falar comigo. De facto, eu tinha reparado nela, e a minha efémera paixão por ela, tal como muitas outras nessa manhã, tinha morrido praticamente à nascença.

- Estou aqui apenas porque gosto de estar aqui, a ver pessoas e assim... - justifiquei-me sem que ela me perguntasse nada. E ela sorriu. Reparei que pestanejava muito.

Nesse dia não apanhei um dos primeiros comboios da tarde para voltar para casa. Percorri primeiro parte da cidade do Porto, depois da cidade de Gaia, a pé. Durante horas e horas, sempre a falar com ela sobre temas tão triviais quando trabalho, férias, livros, filmes e música. Até ao fim da tarde, em que nos sentámos numa esplanada com vista para o rio Douro e falámos de Amor.
Um bando de pardais disputava, no que me parecia ser uma luta desigual, alguns pedaços de pão com muitos pombos. Era uma mulher idosa que lhos atirava, desde o banco contíguo à margem do rio onde estava sentada. E eu, que não era dali, disse à Alice que podia adivinhar que aquela mulher ia ali todos ou quase todos os dias. Que aquele era um sítio especial para ela, de certeza absoluta.
Algum silêncio se fez. A Alice a olhar para a paisagem e eu a torcer pelos pardais contra os pombos naquela luta desenfreada por comida, como se ali estivesse concentrada toda a injustiça do mundo. Foi então que ela me começou a dizer exactamente o mesmo que eu disse no princípio deste texto. Que existem sítios diferentes de todos os outros sítios do mundo. São aqueles dos quais, por um acaso saído da improvável lei das probabilidades, nos tornamos familiares.
Lembrei-me da Alice hoje de manhã. Passei a pé por uma paragem da MoveAveiro duas vezes, mais ou menos com uma hora de diferença, e das duas vezes vi lá o mesmo homem a ler o jornal.

7.25.2012

conversa 1926

(no café)

Ela - Já viste o rabo daquela gaja lá fora?
Eu (olhando) - É grande...
Ela - Grande?! É enorme.
Eu - E porque é que estás com uma cara tão feliz de repente? É por veres uma mulher com o rabo grande?
Ela - Não, não... nem sei bem porque é...

conversa 1925

(no café, ela a tirar um cigarro da carteira)

Ela - Vou lá fora fumar.
Eu - O.k.
Ela - Não vens comigo?
Eu - Não, estou a ler o jornal.
Ela - Eu e o maldito vício do tabaco. Já venho.
Eu - Quando eu te conheci tu não fumavas, pois não?
Ela - Não. Vê lá tu, comecei a fumar com vinte e nove anos. Já tinha idade para ter juízo...
Eu - Pois, isso já não é idade para começar a fumar. Normalmente, ou se começa quando se é adolescente ou então já não se começa...
Ela - Dispenso é a tua moral. Obrigado, não preciso.
Eu - Não é moral nenhuma. É uma constatação. Tu própria disseste que já tinhas idade para ter juízo...
Ela - Eu posso dizer o que eu quiser sobre mim, mas dispenso o julgamento dos outros. Vou fumar sozinha e ainda bem.

7.24.2012

pensamentos catatónicos (277)

a mulher-objecto

Os objectos são todos estúpidos. A maior parte das vezes não nos apercebemos dessa estupidez latente em tudo o que nos rodeia e não vive, e quando nos apercebemos é demasiado tarde. É o Amor, ou a falta dele, ou a confusão nele, que nos faz sentir a estupidez dos objectos.
O problema é que nós sentimos sempre alguma coisa pelos objectos, nem que seja desprezo, e os objectos nunca sentem nada por nós. Este desequilíbrio da vida começa logo quando ainda somos crianças e decidimos dormir com um objecto qualquer. Adoptamos um urso de peluche, por exemplo, e fazemos tudo por ele durante anos a fio. Aguentamos firmes uma infância inteira, sempre leais, e quando finalmente os nossos pais, já preocupados com a nossa criancice aguda, nos separam à força, somos sempre nós que choramos. Nunca ele.
Hoje sentei-me no estúpido do meu sofá, por exemplo, com as mãos na cabeça e preocupado com a minha vida. Depois levantei os olhos e estavam todos na mesma, os objectos. A minha caixinha de música à espera que lhe desse corda, o televisor desligado e os sapatos amontoados a um canto da sala.
Os objectos fazem-nos perceber a nossa própria insignificância. Estão sempre na mesma, demonstrando que o mundo existe para além de nós, do que sentimos e de quem Amamos ou odiamos. A maior parte das vezes não nos damos conta disso, e quando damos é demasiado tarde. Para nós, não para os objectos.
Acho que é daí que vem a expressão mulher-objecto. Acabei de a ouvir, vinda amargurada da boca dum amigo meu. Dizia ele, enquanto virava as páginas duma revista qualquer com mulheres bonitas, que detesta mulheres-objecto. Eu percebo-o. Mulheres-objecto são aquelas por quem sentimos alguma coisa mas que se estão nas tintas para nós. São objectos, só porque nos fazem perceber a nossa própria estupidez e insignificância.

7.23.2012

coisas que fascinam (153)

Que linda!
Nunca sei muito bem como reagir quando uma mulher bonita se senta à minha frente num transporte público, como ainda hoje me aconteceu no metro do Porto. Finjo que nem reparei nela ou aproveito o momento para encher a vista? Sei lá. Não lhe adivinho o pensamento. Penso nesta expressão: "encher a vista" e lembro-me de estar na The National Gallery, em Londres, com a Raquel em frente a um Van Gogh. "Deixa-me olhar para este quadro mais um minuto, para encher a vista", dizia ela, e eu assentia acenando afirmativamente a cabeça. Os girassóis ali mesmo à minha frente e eu só olhava para ela, que era ela a minha paisagem.
Comecei por lhe ver os dedos dos pés, com as unhas pintadas de vermelho e umas sandálias coloridas que pareciam vindas daí, dum campo florido qualquer. Levantei a cabeça e os nossos olhares cruzaram-se por um instante, para se transformarem num voo errante e fugidio logo a seguir. Os olhos dela pousaram nas páginas silenciosas dum livro, os meus continuaram esvoaçantes como se fossem uma borboleta tonta. Às vezes no tecto, outras vezes na paisagem que corria lá fora, raramente nela.
Que linda!

7.20.2012

conversa 1924

Ela - Tenho que ir para casa estudar e não me apetece nada...
Eu - Vais estudar o quê?
Ela - Vibrações em forças elásticas.
Eu - Hum...
Ela - O que foi?
Ela - Fizeste uma cara!
Eu - Lembrei-me duma coisa relativamente às vibrações em forças elásticas. Foi só isso.
Ela - Do quê?
Eu - Do Plastic Man. Era um dos meus heróis favoritos em criança...
Ela - Tenho a certeza que foi isso. Os homens são todos iguais...
Eu - Bem, percebo que não te apeteça estudar vibrações em forças elásticas no Verão
Ela - Pois... apetecia-me mais ter aulas práticas. Estou farta de teoria...

7.19.2012

conversa 1923

(num restaurante self-service, eu com um prato de comida e uma cerveja de lata no tabuleiro)

Ela - São cinco euros, por favor.
Eu - Quanto é que custa a cerveja?
Ela - Um euro.
Eu - Ali diz que o prato são três euros e trinta...
Ela - Pois diz.
Eu - Então, três euros e trinta mais um euro dá quatro euros e trinta.
Ela - Mas eu fiz-lhe o preço do menu. Tem direito a café.
Eu - Eu não quero café, mas mesmo assim o café custa sessenta cêntimos. Mesmo que eu quisesse...
Ela - É que agora já registei...
Eu - Então anule o registo.
Ela - Não posso.
Eu - Eu não vou pagar cinco euros euros por um produto que está marcado a quatro euros e trinta.
Ela - Não?
Eu - Não.
Ela - Vou chamar o patrão.
Ela - Chame também os Trabalhadores do Comércio.
Ela - Quem?
Eu - Os Trabalhadores do Comércio, uns que têm uma música que diz: "chamem a Polícia que eu não pago".
Ela - Não conheço... mas não vou chamar a polícia. Não é preciso.
Eu - Era só uma piada. 
Ela - É que eu cobro sempre o preço do menu... 
Eu - Mas só devia cobrar nos pratos mais caros. No prato do dia não faz sentido nenhum.
Ela - O patrão vem aí e fala com ele, está bem?
Eu - Está bem, mas daqui a bocado quero outro prato, que este fica frio.

coisas que fascinam (152)

Naqueles dias...

A Cristina, às vezes, não se reconhece ao espelho, diz ela. Olha para o seu próprio reflexo como se estivesse a ver outra pessoa qualquer. Distancia-se de si mesma e percebe que a sua existência começou exactamente por aí, pelo seu corpo. Não pela alma. Tudo o que ela é, para além do corpo, deve-se à existência deste. Depois pensa na morte, sem perceber se o que sente é tristeza ou felicidade, e telefona-me.
Tenho uma música só para ela no meu telemóvel. This Must Be The Place, dos Talking Heads. Por isso é que, mesmo estando no banho, já sabia que era ela a ligar-me hoje de manhã. Fechei a torneira e corri para atender. O meu corpo deixou pegadas de água nos azulejos da casa de banho e no flutuante do corredor, para as quais fiquei a olhar enquanto a cumprimentava entusiasmado.

- Estás em Aveiro? - Perguntou.
- Sim.
- Queres almoçar comigo?
- Sim.

A Cristina costuma ilustrar as suas palavras com gestos enérgicos, como se o verbo não chegasse para se fazer compreender. Diz-me que a filha dela está cada vez mais bonita, e passa a mão esquerda pela frente da própria face. Depois diz que está naqueles dias, e a  mesma mão cai inerte na toalha de papel da mesa do restaurante. Eu ainda não disse nada e já sei o que vem a seguir. Ela desenha um círculo enorme à volta da barriga e diz que se sente assim desde que engravidou. Só às vezes. Sorri.
Aqueles dias são esses mesmos, aqueles em que ela pensa na morte apesar de ser nova, porque é mãe, e telefona-me para conversar. Não é um pensamento obsessivo ou compulsivo, nem sequer uma depressão. É um lento descortinar da vida tal como ela é. Engana a morte assim, a falar comigo e a fazer gestos intercalados com garfadas numa salada de polvo.

- Está boa, a salada... - diz ela enquanto eu aceno afirmativamente.

Durante o silêncio que se segue, ambos sentimos o sabor da comida com mais intensidade. No meu caso, o da cerveja de pressão cuja espuma parece querer viver e o do azeite com alho por cima dos tentáculos tenros. A vida, a nossa vida, tem sido isso mesmo. O gesto das palavras e o sabor da comida. Dou-me conta de quem sou para ela, de quem sempre fui. Sou aquele que engana a morte, e digo-lho como se estivesse a chegar a uma conclusão fenomenal qualquer.
Ela ri-se. Sou mesmo.

7.18.2012

conflitos

Em "Conflitos", Hal é um graduado militar britânico destacado na ilha de Chipre, onde os ingleses mantêm seu império apesar das investidas do movimento independentista cipriota-grego Eoka (Enosis para os portugueses). A violência vai-se alastrando e Hal, que tem na ilha a sua mulher e as suas filhas, vai-se deixando consumir pela guerra. Nesta cena, ele regressa a casa depois de uma batalha com alguns dos mais importantes líderes da Eoka.

  E colocou a mão debaixo do algodão frio da camisa de dormir, e levantou-a até à coxa que lhe parecia secreta, bem conhecida e bela para ele. Aquilo era por fim real, aquilo tornava-a real. 
Tirou o conto e o coldre pesado com a pistola escorregou até ao chão de tijoleira com um ruído surdo. Agora era rápido e fácil tirar as calças, e manteve a mão pousada no pescoço dela, macio, pulsante, enquanto com a outra a puxava para si, e impeliu-se repentinamente para dentro dela; era-lhe tão difícil não a agarrar com muita força e penetrá-la, não ser bruto, apenas possuí-la com rapidez e entrar tão profundamente dentro dela quanto lhe fosse possível. Ela emitiu um som. Soou-lhe muito longe dele. Estavam demasiado próximos da borda da cama. Teve de lhe pegar com as duas mãos à volta da cintura, mantendo-se dentro dela, puxando-a mais para cima para facilitar as coisas, e mantendo os corpos de ambos em cima da cama. 
 - Não. Não... Hal... pára - disse ela, e durante alguns estranhos segundos hesitantes a mente dele absorveu o facto de ela estar a chorar, e reparou naquilo e misturou-o com a necessidade que sentia dela, a sua respiração nos seus dedos, a sua pele limpa, todas as outras partes dela que eram suas, e perdeu-se ali.

in "Conflitos", de Sadie Jones, Civilização Editora 2010.

7.13.2012

conversa 1922

Ela - Os homens não compreendem as suas próprias mulheres. Essa é que é essa...
Eu - Então?
Ela - Acabei de discutir com o meu namorado.
Eu - Porquê?
Ela - Ele não percebe que antes de ter o período, é perfeitamente normal uma mulher poder pensar que está grávida, e que essa sensação é boa e má ao mesmo tempo.
Eu - Ah! Discutiram porque tu lhe disseste que se calhar estás grávida?
Ela - Sim... mais ou menos. Ele respondeu que eu digo isso todos os meses e depois nunca estou, e que é melhor eu parar de o assustar.
Eu - Já algumas vez falaram abertamente sobre isso? Se querem ter filhos ou não... 
Ela - Eu disse-lhe uma vez que talvez gostasse de engravidar sem querer.
Eu - Engravidar sem querer?! É natural que isso o assuste.
Ela - Ora! A partir do momento em que eu digo isso é porque é por querer, embora possa parecer que é sem querer. Ele devia perceber isso, não devia?
Eu - Não sei...
Ela - Também nunca sabes nada.

7.12.2012

pensamentos catatónicos (276)

feijoada de búzios 

Ao vento, a toalha de papel mostra-se irrequieta como uma ave que bate as asas para levantar voo e não consegue. Naquele caso em particular, não consegue por causa dos dois pratos colocados frente a frente na mesa mais bem situada da esplanada, e também da panela de barro com duas doses fumegantes de feijoada de búzios. Ela levanta o testo e dá-lhe permissão, através dum simples abrir e fechar de olhos, para se servir primeiro, mas ele decide pegar antes no prato dela. É o primeiro motivo para a discussão que vem logo a seguir.

- Já devias saber que não gosto que me sirvam.

Ele sorri para dentro, como se assim pudesse engolir o nervoso miudinho. Continua a encher o prato e depois troca-o pelo dele, de forma a que ela fique de novo com o vazio. Quantas coisas sobre aquela mulher é que ele deve, de facto, saber? Acima de tudo, que coisas sobre ela é que é suposto saber? Pica os primeiros feijões com o garfo enquanto, como um rádio mal sintonizado ao fundo, ela continua o seu protesto.
Não tem a certeza, mas talvez ele a tenha servido primeiro de propósito, precisamente para que ela pudesse soltar essa latente raiva que lhe vinha desenhando a face e moldando os gestos desde manhã. Da esplanada avistam-se as longas filas de macieiras alinhadas num dos montes, que mais parecem uma obra desenhada a régua e esquadro, cortadas por um tapete de alcatrão que serpenteia a paisagem até desaparecer no horizonte. Noutro monte, mais à esquerda, algumas e raras amoreiras povoam os terrenos riscados pelo arado dum tractor. Tudo está exactamente como há dez anos, quando eles se conheceram naquele mesmo local durante uma festa de amigos comuns e, adivinhando a paixão à primeira vista, acabaram por sair sorrateiramente para ficarem sozinhos. Tudo, até o céu de claras aguarelas azuis e brancas. Menos ela.
A deterioração daqueles almoços anuais, cada vez menos felizes e feitos mais por obrigação do que outra coisa qualquer, têm sido o barómetro que mede a relação dos dois. Ele acha que a culpa é do tempo, esses dez anos em que ele passou a ter que saber muitas coisas mesquinhas sobre ela. Aproveita o silêncio cansado dela e escreve na própria toalha de papel algumas dessas coisas.

1) Não misturar as embalagens de leite magro com as de leito meio gordo.
2) Não abrir a cama à noite, antes de se deitarem, apenas de um dos lados.
3) Ligar a máquina de café todas as manhã assim que entrar na cozinha.
4) Amarfanhar as garrafas de plástico antes de as colocar na reciclagem.
5) Não deixar os sapatos em cima da balança da casa de banho.
6) Não a abraçar por trás quando ela está a descascar fruta.
7) Não a beijar na testa quando ela está a ver televisão.
8) Não misturar os copos de champanhe com os copos de uísque.
9) Não entrar no carro sem puxar para trás o banco onde ela se vai sentar.
10) Não a servir quando estão a jantar juntos.

Rasga aquele pequeno pedaço de papel e põe-lho quase à frente dos olhos, mesmo ao lado do prato. Algumas gotas do molho da feijoada pontilham-no como se o quisessem ferir. Ela olha para ele enquanto mastiga um búzio mais difícil de roer do que os restantes.

- Estes foram os motivos pelos quais discutimos as últimas dez vezes. - diz, enquanto se levanta para se aproximar dum dos muros da esplanada. Dali, parece que quase pode tocar o céu com a ponta dos dedos. Ri-se de novo para dentro.

Ela ainda mastiga o mesmo búzio. É isto que ela quer que ele saiba sobre ela?


7.10.2012

sofás

Tenho um amigo com quem só estou de vez em quando, talvez duas ou três vezes por ano, mas com quem continuo conversas como se tivessem sido interrompidas apenas uma hora antes. Talvez seja um pouco estranho, mas quando o vejo é como se todos aqueles meses que estive sem o ver simplesmente desaparecessem. À superfície da minha memória vêm os últimos momentos em que estive com ele, e tudo o resta mergulha nas profundezas do meu cérebro como pedras no maior dos oceanos.
Ontem, por exemplo, quando me sentei num dos sofás que ele tem na cozinha (sim, ele tem dois sofás singulares na cozinha) tornei a levantar-me imediatamente para ir buscar a garrafa de uísque que ele tinha guardado numa das portas dos armários na última vez que lá estive, talvez há uns quatro meses. E lá estava ela, ainda a meio, à espera de despejar o seu conteúdo sobre as nossas palavras. Tirei também dois copos e servi-nos aos dois.
Quem decidiu pôr os dois sofás na cozinha não foi o André, assim se chama ele, mas sim a sua ex-mulher, quando os dois partilhavam aquele espaço durante a noite toda a seguir ao jantar, entre uma bebida e conversas ocasionais. Era, de facto, um casal que estava na cozinha mais do que noutra qualquer divisão da casa, e eu próprio cheguei a testemunhar isso.
Às vezes, nos dias que correm, ainda o vejo a tocar os sofás, em silêncio, como se assim pudesse também tocar um pouco do seu passado com ela. Mas não pode, e foi assim que ontem começámos mais uma conversa, precisamente onde tinha acabado a última há muito tempo atrás. No seu divórcio e nos motivos que o levaram a nunca mais conseguir estar com uma mulher. Dei o primeiro gole na garrafa de Bushmills (a garrafa ainda lá estava porque ele sabe que aquela marca de uísque é para as nossas conversas) e perguntei-lhe se ele, de facto, nunca tinha sentido uma atracção que fosse. Afinal de contas, concluí simplificando a coisa ao máximo, há tantas mulheres bonitas e interessantes por aí...
Ele também deu um gole prolongado antes de responder, como se tivesse a resposta toda na ponta da língua e quisesse apenas lubrificá-la antes de a transmitir. Foi então que me falou da tese mais estranha sobre paixão que já ouvi.
Diz ele que se farta de ver mulheres muito bonitas, cuja beleza o sufoca assim que as vê, mas que nunca tenta nada com elas porque simplesmente não acredita nesse tipo de paixão. A beleza é como o chocolate, disse, é doce mas pode enjoar. O André quer começar a sentir-se apaixonado por uma mulher apenas dois ou três meses depois de a conhecer. Devagarinho, como ele repetiu insistentemente, de forma a perceber que também ela se apaixona por ele da mesma maneira.

- Isso não é ser esquisito? - perguntei enquanto enchia de novo os copos.
- O Amor é como uma bola de neve. Se não estiver sempre a crescer, desfaz-se.
- É ser esquisito, sim. - concluí.
- Sabes porque é que somos amigos há mais de vinte anos? - Tocou de novo no sofá como se estivesse a tocar o passado, desta vez o nosso.
- Porque nos damos bem.
- Porque somos amigos lentos um com o outro. Não exigimos nada um do outro a não ser honestidade e companhia de vez em quando. É mais ou menos assim que eu me quero apaixonar, mas por uma mulher.

Dei-lhe uma certa razão na questão da bola de neve, embora por outro prisma. Vamos ficando cada vez mais exigentes com as relações que temos, e por isso talvez vá sendo cada vez mais difícil começar uma nova. Se eu acabasse a minha relação actual, não faço a mínima ideia do tempo que ia precisar para começar outra, concluí. Talvez muitos anos também. Depois fizemos silêncio, e será desse silêncio que nossa próxima conversa começará, talvez daqui a uns meses...

7.09.2012

conversa 1921

Ela - Preciso falar contigo.
Eu - Podes passar cá em casa esta noite.
Ela - Tens bolachas daquelas que tinhas a última vez que aí fui?
Eu - Bolachas?! Não, não tenho...
Ela - O.k. então está combinado. Passo aí às dez, pode ser?
Eu - Pode... 

coisas que fascinam (151)

à boleia

Tenho uma gaveta para onde atiro coisas. É  uma gaveta bem grande, numa cómoda que herdei do meu avô e que foi feita por ele há quase cem anos. Por exemplo, quando viajo e trago pequenas recordações como postais, bilhetes ou qualquer tipo de panfletos, atiro-os para ali. Faço o mesmo com algumas fotografias, pequenos objectos ou prendas. Não organizo nada, apenas atiro para lá coisas que, de outra forma, não saberia muito bem onde pôr. Na verdade é uma forma de sentir que organizo uma parte da minha vida que não é organizável.
Hoje de manhã, ao atirar para lá alguns panfletos da última viagem que fiz a Barcelona, decidi remexer naquele monte de pequenos pedaços soltos da minha vida. Meti a mão entre alguns papéis que se amontoavam e tirei um à sorte. Era uma fotografia da Marta.
A Marta deu-me uma vez boleia, de Aveiro para o Algarve, através dum site na internet. Eu andava um pouco perdido, sem estar bem em lado nenhum e, pior ainda, sem fazer ideia para onde devia ir. Vi num site alguém a oferecer boleia do Porto para a Fuzeta, com divisão de custos, e decidi ir passar o fim de semana àquela cidade do sul. Mandei-lhe um email e combinámos que ela me apanhava em Aveiro.
A meio do caminho ela perguntou-me o que é eu lá ia fazer e eu respondi, muito naturalmente, que nada. Só tinha decidido ir ao ver a oferta dela para uma boleia. Perante o silêncio curioso expliquei-me um pouco melhor, o mais que pude dizendo o menos possível, demonstrando que não tinha sítio nenhum para ir naquele fim de semana e por isso qualquer sugestão me parecia melhor do que ficar em casa. Não lhe expliquei que tinha acabado de me divorciar e que me estava ainda a habituar à ideia, tão triste quanto feliz, de ter fins de semana inteirinhos só para mim.

- Eu também só me pus a oferecer boleia para ver se alguém aceitava. Ando um pouco como tu. - respondeu.

Tanto quanto me lembro, depois desse diálogo fizemos grande parte da viagem em silêncio. Não um silêncio perturbador, mas sim um silêncio contemplativo. A sensação era a de que, de repente, se tinham encontrado naquele automóvel duas pessoas que vinham de caminhos similarmente tortuosos, e que naquele momento, pela primeira vez, seguiam numa auto-estrada a uma velocidade razoável e constante, exactamente como aquela que queriam nas suas vidas.
Passámos esse fim de semana juntos e, quanto mais não seja, foi nele que aprendi que a solidão se pode matar com alguém que não conhecemos de lado nenhum, que às vezes é mais fácil contarmos as coisas mais íntimas precisamente a quem até então nem sabia da nossa existência. Desta forma, não nos tornamos demasiado transparentes aos olhos de quem nos conhece mas sim aos olhos de quem não é suposto encontrarmos muitas mais vezes na vida.
De facto, não vi a Marta muitas mais vezes. Lembro-me de ter ido tomar café com ela ao café Ceuta, no Porto, numa ou outra tarde estéril. Mais nada. Mas hoje, quando olhei para a fotografia dela,tive a certeza de que foi uma mulher importante na minha vida. É isso que as mulheres têm a mania de ser: importantes na vida dos homens.

7.06.2012

coisas que fascinam (150)

menino

Tenho ido almoçar a um restaurante onde a dona me trata por menino. Não me lembro da última vez que me chamaram menino da maneira que ela o faz, mas isso chegou para ter ficado cliente assíduo logo na primeira vez que lá fui. A cozinheira saiu da copa com um prato de sopa fumegante e perguntou alto para quem era. "É para aquele menino!", disse a dona. Eu sorri. É que vou fazer em breve quarenta e um anos. 
Uma vez, em criança, recusei-me a comer um prato de sopa assim, também fumegante. Pior, recusei-me a almoçar. Não tinha fome. A minha tia disse-me que eu estava com cara de menino apaixonado e que era por isso que não queria comer. "Já está um menino!", concluiu ela olhando para o meu tio, que acenava com a cabeça concordando. Na altura não percebi como é que ela adivinhou uma das minhas primeiras paixões, mas liguei imediatamente as palavras "menino" e "apaixonado". Pelos vistos era preciso ser a primeira para sentir a segunda.
Não me sinto velho. Na verdade sinto-me mais novo do que velho, embora não seja nem uma coisa nem outra. O que eu sei é que estou continuamente apaixonado há três anos e meio, mais coisa menos coisa, e para ser franco acho que isso nunca me tinha acontecido na vida. Deve ser da idade, lá está. Pelo menos é o que penso de vez em quando. Talvez finalmente tenha aprendido a Amar. Ou então foi sorte, sei lá. 
Já estive apaixonado na vida durante mais de três anos e meio, claro, mas nunca assim desta maneira: ininterruptamente. Admito que isto às vezes me dá medo, mas o que me dá mais vezes, quase sempre, é o oposto. Uma coragem qualquer que não sei explicar bem. Pela primeira vez na vida sinto-me, de facto, menino outra vez.
Quando era novo, menino mesmo, fartei-me de ouvir incentivos para me tornar homem. "Faz-te um homem", "Vê lá se cresces e arranjas uma mulher!" ou "Estás um homem feito!". Cheguei a pensar que ser menino é ser inconsistente, que é um limbo entre a criancice e a vida a sério. Aquela em que, lá está, arranjamos uma mulher para a vida. Depois cheguei à vida a sério e apeteceu-me ser menino outra vez. É que é uma desilusão descobrir que o Amor pode morrer devagar.
Tem piada, agora que penso nisso acho que foi a maior desilusão que tive na vida, essa de acordar de manhã e descobrir que o Amor morreu. Tive que estar agora mais de três anos ininterruptamente apaixonado para o voltar a ser. Menino, digo. Menino!

7.05.2012

conversa 1920

Ela - É sobre quê, esse livro é esse que andas a ler?
Eu - Sobre um casal de checoslovacos que casa antes da ascensão do Hitler ao poder , sendo que ele é um judeu rico, e de tudo o que lhes acontece com a invasão dos nazis à Áustria e à Checoslováquia.
Ela - Não parece muito interessante. Estou farta de guerras.
Eu - Ele tem uma amante que acaba por fugir, com ele e a própria mulher, para a Suiça. A história é também um pouco sobre ele e essa amante.
Ela - Amante?! Então deve ser giro. Emprestas-me quando acabares?

entremos dentro desta rapariga


Estava a olhar para esta publicidade da Reborn To be Alive, uma fundação belga para a promoção da doação de órgãos, que diz que tornarmo-nos doadores será provavelmente a única maneira de entrarmos dentro desta rapariga (becoming a donor is probably your only chance to get inside her).
Há dois erros grosseiros nesta forma de promover uma causa tão nobre quanto a doação de órgãos. O primeiro é que parte do princípio que todos os potenciais doadores querem, de facto, "entrar" desta rapariga. O segundo é que isso implica que esta bonita e jovem mulher tenha um acidente ou uma doença grave.
Ser sexista já é suficientemente mau, sofrer de total insensibilidade relativamente a quem nos rodeia ainda é pior. Ninguém se torna doador de órgãos para satisfazer a sua vida sexual, mas parece que a Reborn To be Alive ainda não percebeu isso.

7.03.2012

pensamentos catatónicos (275)

Balotelli

No trabalho devemos ser tristes. O trabalho é um dever de todos, durante o qual devemos sofrer e evitar qualquer manifestação de felicidade. Só a sofrer justificamos o pão de cada dia. É evidente que eu discordo totalmente deste princípio judaico-cristão, transposto estrategicamente para o modelo económico capitalista após a separação dos poderes político e religioso. Por isso mesmo é que fiquei estupefacto quando, durante o Euro 2012, vi tantas pessoas (incluindo amigos meus) elogiarem o Balotelli.
Eu nem sequer sabia quem era o Balotelli, mas fiquei a saber que é um jogador que não costuma festejar os seus próprios golos porque acha que eles fazem parte do seu trabalho. Para o demonstrar, comparou os seus golos com um carteiro a entregar uma carta. Ele não festeja, pois não? Perguntou.
Pois não, mas devia festejar. Era bom que todos pudéssemos festejar o nosso trabalho todos os dias, por nos sentirmos recompensados económica e socialmente com ele. Era bom que todos percebêssemos que devemos estar gratos a quem entrega uma carta, a quem entrega uma pizza ou a quem varre as nossas ruas.
Festejamos os golos do Balotelli sem perceber que, ao fazê-lo, estamos a contribuir para uma felicidade efémera e para uma infelicidade continuada. A do trabalho, a dos dias que passam.
A esse propósito, recebi hoje um postal que Raquel me enviou a semana passada durante uma visita que fez a um país estrangeiro. Entre outras coisas diz que ali, onde ela estava, só lhe faltava eu para se sentir feliz. Agradeci ao carteiro ter-mo trazido direitinho à minha caixa de correio. Para mim, ele é mais importante que qualquer jogador de futebol.

7.02.2012

fecho éclair

Suspirou assim que fechou a porta. Foi a primeira vez que mentiu declaradamente à mulher para ter um fim de semana sozinho. Não lhe mentiu no destino nem no nome do Hotel, caso ela quisesse telefonar, mas mentiu-lhe no motivo. Disse-lhe que ia em viagem de negócios a Madrid, mas foi apenas porque sentia uma desesperada necessidade de estar sozinho.
No avião teve o primeiro remorso e até chegou a pronunciar o nome dela, Ana, atraindo por instantes a atenção do passageiro ao seu lado. Pensou em como o corpo dela se está a transformar com a gravidez de quem vai ser, em breve, o seu primeiro filho. Os seios como frutos maduros, as pernas como raízes grossas e a barriga em forma de balão parecem pertencer já mais a esse filho do que a ele mesmo. Não fazem Amor há dois meses e as conversas entre ambos também não têm fugido muito às questões de organização doméstica. Contas por pagar, roupa por passar, louça por lavar, etc. Ana.
Mal saiu do avião e se pôs a passear pela cidade, a primeira sensação de novidade que teve foi a de poder olhar para todas as mulheres que passavam por ele como se fossem suas potenciais amantes. Talvez por isso precisasse de estar sozinho, para sentir de novo essa chama do sexo a arder-lhe no corpo. Andou toda a manhã alegremente perdido, até se meter num comboio e ir dar ao parque de diversões onde se encontra agora.
O Rui detesta fumar. Enjoou aquele sabor artificial do tabaco e a constante sensação de estar intoxicado, fartou-se daquele cheiro a fumo impregnado na roupa todas as manhãs (é sempre de manhã, ao vestir-se, que dá por ele) e até já se esqueceu do prazer que teve nos primeiros cigarros da sua vida. Mesmo assim acaba de acender um cigarro, talvez porque também deteste não fumar.
Para além do tabaco, detestar uma coisa e o seu contrário só lhe aconteceu no Amor. Lá está, sente-se cansado de Amar Ana mas também detestaria não Amá-la. Ri-se sozinho entre duas passas sem sabor e diz para si mesmo que não está maluco. Malucos estão aqueles que gritam na Montanha Russa que se agita mesmo por trás de si, cujos carros quando passam vão fazendo um ruído idêntico ao que seria o dum fecho éclair gigante.
Hoje parece ser o dia dos contrários para ele. Fuma detestando fumar, não Ama adorando Amar. Além disso, num dia em que se sente tão cinzento quanto a própria vida, acabou a passear sozinho num parque de diversões nos subúrbios de Madrid.
É neste lento contar do tempo que uma mulher se aproxima dele e lhe pede lume. A primeira coisa em que ele repara é que ela é bonita, ou melhor, que lhe apetece achá-la bonita. Tem os cabelos pretos, talvez pintados, e os olhos de um castanho claro contrastante. Depois de acender o cigarro dela no dele não se vai embora, mas antes decide sentar-se no mesmo banco a contemplar a diversão dos outros. Os gritos na Montanha Russa, mesmo por trás deles, continuam a intercalar o fecho éclair gigante.
Ali, à frente do silêncio de ambos, desfilam famílias de pais e mães que tentam divertir-se divertindo os filhos. Ele sabe que um dia fará exactamente o mesmo, com Ana e o seu filho. Talvez até venha a disputar com ela o colo da criança, como vê agora dois pais fazerem num momento em que a criança decide chorar. Mas neste momento, olhando para aquela mulher sentada mesmo ao seu lado, a fumar um cigarro cuja chama nasceu no mesmo fogo, apetece-lhe amá-la.
O fecho éclair atrás deles corre mais uma vez, salpicado de gritos de pessoas que lhe parecem tão assustadas quanto felizes. Também o das calças dele parece querer abrir, dada a pressão que o falo, entusiasmado pela simples imaginação de poder levar a estranha para o Hotel, lhe causa. Vai esperar que ela acabe o cigarro e convidá-la para uma bebida. Se ela aceitar, tentará ter sexo. A vida é uma montanha russa.

6.29.2012

conversa 1919

(no café)

Ela - A que é que os homens chamam normalmente uma mulher boazona?
Eu - A uma mulher fisicamente atraente.
Ela - A que é que os homens chamam uma mulher boazinha?
Eu - Acho que é a... uma mulher com boas intenções, que não faz mal a ninguém e assim...
Ela - Estás a ver?
Eu - Estou a ver o quê?
Ela- Os homens aplicam o aumentativo para definir o corpo duma mulher e o diminutivo para definir a maneira de ser...
Eu - E o que é que isso tem?
Ela - No seu subconsciente, dão mais importância ao corpo do que à maneira de ser.
Eu - E o que é que isso tem?
Ela - Tem que és um chato e daqui a bocado mando-te com esta garrafa de água tónica à cabeça.
Eu - Isso quereria dizer que não és boazinha.
Ela - E boazona, sou?
Eu - Não interessa, tu nem dás importância a isso.

6.27.2012

conversa 1918

(num hipermercado)

Eu - Então, por aqui?
Ela - Sim, o meu marido pediu-me para comprar lubrificante e não consigo decidir-me por um...
Eu - Há uns da Durex engraçados, mas são um bocado caros. O quente e o frio são fixes. O de Piña Colada cheira um bocado a anos oitenta.
Ela - Lubrificante para o carro... foi o que o meu marido me pediu...
Eu - Ah! Eu ia agora tomar café. Queres vir?
Ela - Acho que estás a mudar de assunto, mas pronto, vamos lá.

6.26.2012

tão sozinha e tão contigo

As cidades despovoadas fazem-se sempre confusão. Fico a olhar para os prédios silenciosos e não percebo onde é que se meteram as pessoas. Não parece que estejam nas suas casas, nas ruas também não estão. São três da tarde e aponto para o que parece ser um café aberto ao fundo da rua. Talvez ali possa beber uma cerveja fresca e comer qualquer coisa, enfim, recuperar as forças. A Sofia quer sorrir, mas já não consegue. Dou-lhe uma pequena e indelével palmada no ombro, como se assim a pudesse ajudar a andar. Não posso.
Dez minutos depois penetro numa imensa sombra ameaçada pelo calor exterior. Sinto o pescoço a arder por causa do Sol e ouço apenas algumas moscas esvoaçantes. De vez em quando há uma que é electrocutada numa lâmpada roxa. Não há ninguém a atender e eu não tenho forças para chamar. Sinto-me cansado e o suor que lacrimeja por todo o meu corpo faz-me sentir desconfortável. Sento-me numa mesa com a sensação de que acabei de escalar o Everest. A Sofia ficou à porta, depois de deixar cair o saco que trazia aos ombros, como se estivesse à espera da morte.
Decidimos percorrer Trás-Os-Montes à boleia na noite em que nos conhecemos. Não tens coragem, disse ela. Pode ser já para a semana, respondi eu. E assim foi. Agora estamos os dois aqui, perdidos numa cidade  na qual começava a ter dúvidas que existisse vida, não fosse uma mulher com um rosto esculpido pelos anos surgir duma porta aberta que parece abrigar a escuridão. Peço uma caneca de cerveja e um pacote de cones com sabor a queijo, ela pede um sumo natural de laranja lançando-me simultaneamente um olhar de censura. Não sei por que motivo pedi os cones com sabor a queijo, digo. De repente apeteceu-me, explico-lhe. Ela ri-se. É a primeira vez que se ri em muitas horas. O saco dela continua abandonado na porta.
Ganha cor enquanto bebe o sumo. Ganha vida. Fico a pensar na noite em que a conheci e como a achei logo tão bonita quanto acho agora. Estava aflita para ir à casa de banho num bar e a das mulheres estava ocupada, por isso pediu-me para ficar à porta da dos homens e que não deixasse ninguém entrar. Os homens partem sempre as fechaduras das casas de banho, disse ela quando saiu. Depois convidou-me para um copo.
Gosto de álcool como gosto de música. Emociono-me com ambos, não sei porquê. Foi o que eu lhe disse quando pedi um uísque duplo e ela um cocktail qualquer. Falámos sobre lugares, viagens e sonhos, acabando na promessa sofrida que faríamos esta viagem à boleia. No fim abraçámo-nos algum tempo e senti-a chorar para dentro. Disse-me que os abraços a fazem sentir-se só, embora os adore e precise deles para viver. Os abraços dela são os meus uísques, pensei.
Não gosto nada de ter dúvidas sobre o Amor, mas neste momento tenho. Não sei se a Amo ou não. Sei que só a tenho a ela e que nesta cidade esse sentimento é ainda mais intenso.Não preciso explicar-lhe nada do que sinto. Por qualquer motivo sei que ela sabe de tudo. Faço silêncio e acabo a cerveja. Procuro a senhora para pedir outra mas ela já não está. Provavelmente foi engolida pela porta da escuridão. Como os últimos cones de queijo e lambo os dedos. São bons.
O que é que estás a sentir? Pergunta. E eu nem sei. As cidades despovoadas fazem-me sempre confusão.  Fico a olhar para os prédios silenciosos e não percebo onde é que se meteram as pessoas. É como se todos   me tivessem abandonado e partido para um lugar incerto. Ao mesmo tempo ser abandonado e tê-la ali ao meu lado sabe-me bem. Os dois sozinhos no mundo, mais uma mulher que aparece e desaparece engolida pela noite, apenas para nos servir cerveja, sumos e cones com sabor a queijo. Sinto-me só, concluo.
É assim que eu me sinto quando me abraças, diz ela. Tão sozinha e tão contigo.

6.25.2012

alarme

A Eli publicou hoje no blogue dela um texto bagaçólico: Alarme.

conversa 1917

Ela - Quero apresentar-te um novo amigo meu um dia destes...
Eu - O.k. Quando quiseres.
Ela - É um amigo muito importante para mim, por isso é que quero que o conheças.
Eu - Mas é amigo ou namorado?
Ela - Descobri uma nova forma de Amar.
Eu - Mas é amigo ou namorado?
Ela - Descobri uma nova forma de Amar.
Eu - Está bem, descobriste uma nova forma de Amar. Mas é amigo ou namorado?
Ela - A minha nova forma de Amar é que os amigos também podem dar excelentes amantes.

coisas que fascinam (149)

Uma vez parámos no Alentejo, num café da estrada nacional, e ouvi um grupo de homens a chamar fascista ao meu pai. Não percebi o que aquilo queria dizer, mas quando voltámos para o carro o meu pai explicou que tinha a ver com o carro novo. Não era um veículo propriamente de luxo, mas tinha um aspecto diferente da maior parte dos carros dos anos setenta. O Morris Marina arrancou em direcção ao Algarve, eu sentei-me de joelhos no banco e fiquei a olhar para a aquele grupo de homens até eles se tornarem pontos negros e indecifráveis no horizonte.
Talvez essa tenha sido a primeira vez que tive uma noção real da existência de classes. Não que o meu pai ou a minha família fosse rica, porque não era mesmo, mas porque percebi que alguns se ofendiam pelo facto de poder ser. Quem parava por ali, normalmente eram pessoas que iam de férias para o Algarve, e isso era uma afronta para alguma pobreza que se vivia no Alentejo pós 25 de Abril.
Em Lagos havia uma gelataria muito movimentada, onde todas as noites os meus pais me compravam um sorvete de máquina (era uma das coisas que eu mais gostava nas férias, ter direito a um gelado por dia). Numa dessas noites a minha irmã, que tinha na altura apenas dois ou três anos, deixou cair o sorvete dela no chão e ficou apenas com o cone de bolacha na mão. Começou a chorar e o meu pai comprou-lhe imediatamente outro. Eu, que fiquei cá fora, vi um miúdo da minha idade a ajoelhar-se no chão e a lamber avidamente aquela bola amarela de baunilha que o passeio ia absorvendo. Procurei explicações junto dos meus pais para aquilo, mas não obtive muito mais respostas do que a assumpção de que há gente pobre e gente com dinheiro. Reagiram como se nem quisessem tocar no assunto e continuámos a andar. Eu é que nunca mais me esqueci daquilo.
Esta semana, mais de trinta anos depois, sentei-me no banco duma esquina de Barcelona para acabar de comer um gelado que se derretia demasiado depressa. A minha mãe sentou-se ao meu lado e fiquei a ver a minha filha, que já tinha acabado o gelado dela, a dirigir-se a um caixote do lixo para pôr o papel do seu Magnum Amêndoas. Um homem rebuscava o caixote do lixo e, praticamente em simultâneo, retirou de lá uma garrafa de água quase vazia que acabou de beber. Depois abriu o papel da minha filha e lambeu-o.
A minha filha veio procurar junto de mim explicações para aquilo, e por uma vez percebi porque é que os meus pais evitaram a minha questão semelhante há mais de trinta anos. Num só momento não se consegue explicar a uma criança como é que a humanidade se permite a ter isto nas suas cidades, nem há nenhuma explicação plausível para que tal se passe, a não ser uma organização política atroz e uma massa enorme de gente com muito pouca capacidade crítica. Ela olhou para mim e percebeu a minha impotência perante os factos, pegou no dinheiro que tinha e foi atrás dele para lho dar. Depois, só uns minutos depois, é que me disse que as pessoas não gostam suficientemente umas das outras. Foi a explicação possível para alguém que tem doze anos de idade. E é a verdade.
Só no avião de regresso, e já longe do envolvimento emocional do momento, é que consegui falar com ela mais abertamente sobre o que se tinha passado. A minha filha não sabe, mas fiquei orgulhoso dela por se ter sentido mal com o que viu, e por se sentir inquieta perante a pobreza e a injustiça. Ainda bem.

6.18.2012

Barcelona

Conhecer cidades é um dos meus passatempos preferidos. Tentar perceber, através dum mapa, em que coordenadas da selva urbana me encontro e depois percorrê-la a pé ou de autocarro o mais possível. De vez em quando entrar num bar, num mercado ou numa feira e beber um copo como quem o faz todos os dias. Como se fosse dali, digo. Às vezes, se por acaso calhar, dar dois dedos de conversa com um estranho e depois seguir o mesmo caminho que nunca me leva a lado nenhum.
Sempre preferi fazê-lo sozinho, conhecer cidades, até o experimentar com a Raquel. Neste aspecto ela é igualzinha a mim. A primeira vez que saí do país com ela percebi que raramente, ou nunca mesmo, parávamos para decidir se virávamos à esquerda ou à direita. É como se os dois fôssemos dali e já soubéssemos para onde ir. Antes disso nunca tinha ido a Dublin. Depois disso percebi que poder partilhar aquilo que se conhece de novo é mil vezes melhor do que andar sozinho.
"Epá! Olha para isto!" é, por exemplo, uma óptima coisa para se dizer a quem está a conhecer uma cidade connosco. É uma sensação única, um momento que fica gravado. Tenho, por exemplo, uma joaninha mecânica que a Raquel me ofereceu depois de, na cidade de Praga, eu lhe ter dito: "Epá! Olha para esta joaninha. Parece um brinquedo dos nossos avós". Ainda hoje lhe dei corda e fiquei a vê-la a tentar subir o tapete da sala. Não conseguiu, apesar dos meus incentivos.
As cidades não são apenas ruas, museus, jardins, comércio e edifícios de habitação. Muito mais importante do que isso são as pessoas todas através das quais elas respiram. As pessoas que circulam nas artérias são, assim, o sangue de qualquer cidade, e é por elas que sou capaz de me apaixonar ou não.
Em Portugal também temos cidades boas de conhecer desta maneira, com a vantagem (e desvantagem) de que nelas não parecemos estrangeiros. Às vezes meto-me no carro e só paro onde e quando me der na telha. Meto conversa com uma cidade e depois volto para casa. Foi assim que me apercebi que elas são como as mulheres. Não há nenhuma que não tenha qualquer coisa de que se goste muito, não há nenhuma onde as estradas não se cruzem e nos façam hesitar na direcção a tomar. Conhecê-las é sempre bom.
Uma das cidades a que já voltei várias vezes, porque nela e por ela me apaixonei várias vezes também, é Barcelona. De tal forma que não gosto de pensar que vou ficar muito tempo sem lá ir. Primeiro comecei por ir lá sozinho, entretanto já lá fui com a Raquel, amanhã vou lá com a minha mãe e a minha filha. É como se estivesse a apresentar uma namorada a todas as pessoas de quem gosto. Espero que ela nos receba bem.

Boa semana!

conversa 1916

Ela - Hoje tinha marcado um jantar com um tipo que conheci na internet e ele não apareceu.
Eu - E não explicou porquê?
Ela - Explicou. Mandou uma mensagem ao fim da tarde a dizer que tinha assuntos pessoais e inadiáveis para tratar.
Eu - Ah! Então não faz mal. Marcas para outro dia.
Ela - Nem pensar nisso. Nunca mais marco nada com ele.
Eu - Só por causa de ter falhado uma vez?!
Ela - Assuntos pessoais e inadiáveis à hora dum jogo de futebol entre Portugal e a Holanda, não sei porquê mas não acredito. Já percebi que é igual aos outros...

6.14.2012

conversa 1915

Ela - Queres ver Portugal comigo?
Eu - Que parte de Portugal?
Ela - Estou a falar do jogo de futebol com a Dinamarca, burro.
Eu - Ah! Não me apetece...
Ela - És um desmancha-prazeres.
Eu - Porquê?
Ela - Porque sim. Nem um jogo de futebol queres ver comigo...
Eu - Disponibilizei-me para, eventualmente, ver uma parte de Portugal contigo. Tu, em contrapartida, convidas-me para ver um jogo de futebol na televisão. Desmancha-prazeres és tu.
Ela - És tu.
Eu - És tu.
Ela - És tu.
Eu - Pronto, sou eu.
Ela - Então sou eu...

6.13.2012

respostas a perguntas inexistentes (211)

dedos

Comecei-lhe pelos dedos. Tem piada, sempre que penso numa mulher qualquer, a primeira parte do corpo que me vem à cabeça é a face. Depois podem ser as pernas, os seios, as mãos ou o rabo, mas a primeira é sempre a face. A face é o bilhete de identidade de cada uma delas. Só na Rita é que são sempre os dedos.
Já não a via há anos, mas quando ouvi inesperadamente a voz dela do outro lado do telefone imaginei-lhe imediatamente os dedos, magros e delicados como quando passávamos todos os fins de tarde na esplanada da praia. Era aí, entre algumas cervejas e refrescos, que eles tocavam em tudo como se tudo fosse frágil, e folheavam o jornal como se as suas folhas fossem de gelatina. Líamos os diários praticamente todos e depois ficávamos à conversa até as palavras se cansarem dentro de nós, normalmente já pela noite dentro.
Tinha conhecido a Rita precisamente por causa dum jornal. Num comboio urbano entre Porto e Aveiro onde viajei ao lado dela. Ela dobrou o Diário de Notícias depois de o ler e pousou-o sobre a saia, eu pedi-lho emprestado. Tinha uma notícia sobre o aumento de divórcios em Portugal que eu queria ler e acabámos os dois a falar sobre o tema. Ficámos a saber que éramos os dois recém-divorciados. Ela tinha saído de Braga sem direcção para desanuviar a cabeça (palavras dela), e agora estávamos ali os dois, tão distantes quanto próximos, a esticar o tempo entre os transeuntes apressados na estação de comboio de Aveiro. Foi o primeiro fim de tarde que passámos na praia.
Lembro-me de a achar forte, tão forte que estranhei ela caber dentro daquele corpo tão pequeno. Por outro lado, à medida que me fui apaixonando por ela comecei a perceber que o meu corpo era demasiado grande para a minha fragilidade. Ela queria distância de tudo o que era homem (palavras dela), e eu nem sequer sabia bem o que queria (palavras dela também).
No último dia ninguém leu jornais. Acho que amuámos os dois, ou melhor, amuei eu e ela retribuiu. Tinha passado a tarde entre banhos no mar e pequenos sonos na toalha. Num desses sonos senti os dedos dela a caminharem pelas minhas costas, como os dedos das Páginas Amarelas.

- Tens que perceber uma coisa. Tu estás triste com a tua separação, eu estou zangada com a minha. - disse.

Acho que foi a primeira vez que me ri por esses tempos. Levantei-me para dar um último mergulho e nesse mesmo fim de tarde fui levá-la ao comboio. Foi há quase seis anos e entretanto nunca mais a vi. Hoje telefonou-me e comecei-lhe pelos dedos.