8.22.2012

respostas a perguntas inexistentes (216)

Voo

Na guerra de África, os helicópteros Alouette III eram a esperança dos soldados feridos em combate. Quando um homem caía atingido por uma bala, a primeira coisa que fazia era tentar ficar deitado de barriga para cima, a olhar para o céu na esperança de ouvir o ruído das pás de um destes anjos voadores. Se ele aparecesse, então o soldado estava salvo.
Talvez por isso, quando se sentiu cair sem forças, o primeiro-sargento Pires se tenha virado para bater com as costas no chão. Entre o som furtivo e quase compassado das balas, primeiro sentiu um calor abrupto na barriga, depois perdeu a capacidade de se mover. Tinha sido atingido e agora olhava para o céu, à espera duma réstia de esperança. Perdera o medo da guerra, ganhara o medo da morte.
Talvez por ironia do destino, um embondeiro angolano protegia-o do forte calor e da luz do Sol, acarinhando-o com um lençol de sombra fresca, como se ali tivesse crescido durante várias vidas humanas apenas para chegar àquele momento. Nesse ténue sopro de vida, o soldado viu a marca do seu próprio sangue desenhada no tronco daquela árvore imponente, pediu-lhe silenciosamente desculpa por estar ali e sentiu-se entregue à sua própria sorte.
O som das balas continuou mais alguns minutos, ou talvez horas. Não sabe bem. Depois ouviu uma frase que o fez sentir-se invasor: "Angola é nossa!". Mais um tiro, único e certamente cirúrgico. Silêncio. Aquele céu era estranhamente de um azul igual ao de Lisboa, e talvez o seu Amor, a mais de cinco mil quilómetros de distância, o estivesse a ver. Talvez.
Pires prometera total lealdade à pátria mãe, num juramento de bandeira em Mafra alguns anos antes. Prometera defender com a sua própria vida a causa nacional. Agora, perante o iminente beijo da morte, nada disso fazia sentido. Era só ela, cujo toque de pele ainda se lembrava como se tivessem feito Amor há alguns minutos, que contava.
As nuvens permaneceram quietas e indiferentes ao som das pás do Alouette, que mais parecia uma música encomendada pela vida. Alguns homens que nunca tinha visto puseram-no primeiro numa maca e depois na cabina. Sentiu que levantava voo. Levantava mesmo.

24 comentários:

do Paço disse...

Soberbo.
Muito Obrigado.

redonda disse...

E salvou-se?
Gostei muito deste texto. Espero que continue.

São Rosas disse...

Foste tu que viveste este momento? Tenho amigos que os viveram...

Bagaço Amarelo disse...

do paço, obrigado. :)

redonda, obrigado. :)

são rosas, eu tenho 41 anos. o meu pai é que fez a guerra toda... :)

São Rosas disse...

És um puto :O)

Posso publicar este teu texto num blog de amigos de Coimbra («Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos»?

Bagaço Amarelo disse...

São Rosas, como de costume, até agradeço. Só não publiques coisas que eu escreva com os copos. :)

Estudante disse...

Que bonito... eu adoro histórias de guerra :) "adorar" um tema tão triste chega a ser perverso, mas fascina-me a coragem dos soldados e a bravura com que defendiam causas que talvez nem fossem as suas...

Fatyly disse...

Como deves calcular fartei-me de chorar, de raiva, de ódio. Levantei-me e o filme voltou e vim responder, por ter passado e também tantos jovens - PRETOS-MULATOS-BRANCOS uma guerra estúpida (se é que existe alguma inteligente) que sentados em poltronas e sem entrarem no palco de guerra, porque só defendiam riquezas de um país que era tão meu como de qualquer um que nasceu lá, mas Salazar era quem mais ordenava e todos os de lá e de cá tiveram de:

"Pires prometera total lealdade à pátria mãe, num juramento de bandeira em Mafra alguns anos antes. Prometera defender com a sua própria vida a causa nacional."

Uma MERDA tanta "carne para canhão" sem conhecerem o que era uma mata africana, neste caso angolana.

Muitos militares da metrópole foram salvos pelos próprios "turras" como eram apelidados e muitos "turras" foram salvos pelos militares. Eu que fazia voluntariado no Hospital Militar de Luanda...sabia e sei de tanta coisa que "as altas patentes da época" hoje velhos e com reformas chorudas fizeram passar os jovens que iam daqui e os de lá e que até hoje ninguém falou.
Depois ainda hoje há (porque já vi e nem imaginas o que disse) por parte de alguns ex-combatentes a exibição de "trofeús, como dedos conservados em frascos por exemplo" e gabarolice do que fizeram, da valentia que quase sempre era feita sobre efeito de tanta coisa...porque aqueles que...se não atiro morro eu...jamais se gaba do que fez e do que sofreu - quer apenas esquecer - daí haver tantos homens com "stress-traumático de guerra".
Os Alouettes sobrevoavam a minha casa, e mal os ouvíamos, sabíamos que eram feridos e por vezes com macas do lado de fora.

e se os embondeiros angolanos falassem teriam muita coisa a contar...e muitos deles, dentro dos seus próprios troncos com uma dimensão que desconheces existiam pequenos hospitais de campanha...

Claro que de ambas as partes havia de tudo...mas seres preto, teres de perfilar no exército português, saberes que a missão era queimar, matar, vandalizar e outros horrores, a sanzala onde tinhas a tua família...que farias? Assim perdi vários amigos de infância...desertaram. Desertaram? Não me convencem...foram simplesmente mortos...como eram mortos pela PIDE todos os que eram conta o regime e metidos vivos em Noratlas eram largados ao largo de S.Tomé e Principe. Agora descobre tu a razão...pois...carne para tubarões!

Se souberes de algum pidesco ou do exército que tenha sigo julgado e condenado "por atrocidades e violação do blá, blá...)" diz-me que eu não sei...ao contrário de outros países que depois de...olha temos cá agora um "caramelo velho" que veio de fora com 20 anos de cadeia. Oxalá que lhe limpem o sarampo!

Não há nada que me faça esquecer e suavizar a imensa pena e sofrimento de tantos jovens, para não falar dos milhares que morreram e que o cinismo de então, mandava-os em caixões "com pompa e circunstância" e afinal não passavam de pedras...porque não havia nada para enviar.

Ficarei imensamente feliz...quando morrerem algumas bestas que ainda mamam reformas chorudas à custa desses jovens.

Não sei se o texto tem erros porque não o reli e desculpem se feri a susceptibilidade de alguns...como esse Sr. Dr.Lobo Antunes o fez ao escrever "na primeira pessoa verdades inconvenientes em hospitais de campanha num teatro de guerra...como se subia na vida a troco de..."...ele que foi e é um grande médico e escritor!

AS TODOS OS EX-COMBATENTES DA GUERRA NO ULTRAMAR A MINHA MAIOR VÉNIA E SILÊNCIO PROFUNDO PELOS QUE TOMBARAM!

Os actuais governantes aprenderam alguma coisa? Os da minha geração souberam transmitir valores essenciais como a honestidade, não à ganância, solidariedade etc?? a meu ver não!
e hoje temos uma outra guerra nojenta em que nos enfiaram, como dizia esse meu amigo: "um saralho do carilho"!

Todos morremos e ninguém leva "bens materiais XPTO e mais e mais"!

Desculpa o meu desabafo!!!! e parabéns pelo teu texto


Olga disse...

Espectacular, fiquei colada ao monitor.

Bagaço Amarelo disse...

estudante, eu interesso-me por histórias de guerra, mas porque não a compreendo. :)

fatyly, obrigado pelo testemunho. este texto é ficção. eu não fiz, felizmente, guerra nenhuma, testemunhei-a através do meu pai, essencialmente. :)

olga, obrigado. :)

Fatyly disse...

Bagaço
Eu sei porque já o tinhas dito noutros textos...mas escreveste como ficção, mas acertaste numa realidade que só sabe quem passou por elas e o teu pai soube muito bem passar-te um testemunho real do que teve de aguentar em nome de uma Nação, cuja vontade era mais de fugir do que ficar...mas para mim e poderei estar enganada, ele fez parte dos 99,9% dos jovens que foram, comeram e calaram e jamais se gabaram dos "feitos".

Fechei de novo a gaveta da memória!

Um beijo rapaz

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, concordo plenamente contigo. beijo. :)

Fátima disse...

Porra, tiraste-me o fôlego!!
O meu pai viveu e sobreviveu dessa guerra estúpida; foi para África logo no início da guerra e voltou definitivamente para a Metrópole em 1974, sendo que durante este longo período de tempo, conheceu a minha mãe que foi madrinha de guerra dele, eu nasci, cresci e nunca entendi o porquê de as outras meninas terem pai e mãe e casa e eu tinha apenas mãe e avó materna...

Ainda hoje com 48 anos, não consigo entender...

Beijinhos,
Fátima

Bagaço Amarelo disse...

Fátima, beijinhos. Obrigado. :)

Vincent Silver disse...

Não percebi o que te fez escrever sobre isto. No entanto, foi um texto soberbo. Gostei de ler.

Bagaço Amarelo disse...

vicent silver, não tem que se perceber o que nos faz escrever sobre seja o que for. :)

São Rosas disse...

Já lá mora:

http://encontrogeracoesbnm.blogspot.pt/2012/08/voo-um-texto-de-bagaco-amarelo.html?showComment=1345888532648#c1358111123410443988

Obrigada, Bagacito ;O)

Bagaço Amarelo disse...

obrigado São Rosas. Eu perco-me com com os teus blogues todos e aqueles em que participas... :)

São Rosas disse...

Também eu :O)

Bagaço Amarelo disse...

São Rosas, :)

memyselfandi disse...

um bem-haja por teres partilhado isto, Bagaço! Mesmo!

Bagaço Amarelo disse...

memyselfandi, obrigado. :)

Carl_tt disse...

Muitos Parabéns pelo Excelente texto!
Vivido ou não... foi a realidade para muitos de nós enviados (obrigados) por um Governo autocrata a cumprir em nome de um Juramento de Bandeira em defesa de um Portugal que àquela época era enorme (não discuto se bem ou mal).
Tive a felicidade de fazer parte de uma Esquadra, que é depositária de todos os Valores e Tradições dos Helicópteros Ligeiros em Portugal e sei pelas Histórias que fui ouvindo ao longo da minha carreira que esta não é ficção, pois elas sucederam-se ao longo de mais de uma década nos vários Países onde Portugal teve interesses, de Angola a Timor… e sei que os Helicópteros foram a salvação para muitos de nós…
Bem Haja!

Bagaço Amarelo disse...

carl_tt, obrigado. eu não vivi guerra nenhuma, felizmente. o meu pai sim, viveu, e por isso ela não me é indiferente. :)