7.12.2007

respostas a perguntas inexistentes (8)



Tinha pintado uma abelha na garagem dela, em resposta ao smile que ela me tinha enviado pela internet antes da ligação cair. Telefonei-lhe e disse-lhe que lhe devolvia o mesmo smile mas em forma de abelha, tudo porque ela era doce como mel. Ela zangou-se. Disse-me que eu tinha um dia para limpar aquilo. Foi nesse dia que senti a primeira picada de abelha da minha vida.

euromilhões

Uma mulher acha que lhe saiu o euromilhões porque, depois de levar um tiro na boca, apenas perdeu alguns dentes e inchou o maxilar e os lábios. O tiro foi dado pelo ex-companheiro que invadiu a casa onde ela estava a dormir. A notícia vem no Jn de hoje.
Ela diz que se separou dele porque estava farta de ser agredida e controlada por ele. Acredito que sim. Ele diz que está arrependido e não torna a fazer-lhe mal. Hum... hum... não sei porquê não acredito. Talvez o estado também não devesse acreditar.

conversa 282

Eu – O que eu não percebo é como é que duas pessoas que mantêm um relação íntima durante anos, depois não conseguem ficar sequer amigos quando essa relação acaba.
Ela – Mas isso é o que acontece normalmente.
Eu – Eu já verifiquei que é o que acontece normalmente. Mas não percebo. As pessoas dormem juntas, trocam carícias e experiências e, de repente, tornam-se super agresivas uma com a outra.
Ela – Pareces eu a falar aqui há uns meses. É como se amor só desse lugar ao ódio, normalmente, não é?
Eu – É...

7.11.2007

melhor que nada

Encontra-se uma amiga. Bebe-se um copo e depois outro. A conversa abre-se como as pétalas duma flor, e forma uma coroa só nossa. As palavras vão correndo sem se gastarem. Algumas esvoaçam à nossa volta, outras mergulham e afogam-se nas bebidas, outras sentam-se ao nosso lado e dão-nos o ombro.
O amor é um egoísta. Quando nos bate à porta entra e quer tudo para ele. Às vezes até cola um papel na porta da entrada a dizer "não chatear". Consome-nos como o fogo consome um fósforo, o cabrão, e depois só restam cinzas. Vivemos das cinzas, e esquecemo-nos que ainda temos o papel na porta. Ninguém bate.
Vou falando. Vou ouvindo. O copo deixou algumas marcas de líquido na mesa e, com os dedos, vou desenhando sorrisos que se desfazem em segundos. Vou falando e vou ouvindo. A última vez que a encontrei foi assim também. Depois fomos a minha casa, fizemos um chá vermelho que não chegámos a beber, mas cujas canecas cheias ficaram três dias na estante dos cd's. Abraçámo-nos e fiz-lhe um minete. Talvez o minete mais lento da minha vida. Acho que no último e suave gemido ela já estava a dormir. Levei-a para a cama ao colo, tirei-lhe as botas de cano alto e tapei-a com com um cobertor fino. Adormeci vestido ao lado dela, depois dum copo de uísque.
Vou falando. Vou ouvindo. Os olhos dela abrem-se às vezes, e parecem corais abrindo-se debaixo dum mar revolto. Apetece-me nadar para ali. Abrigar-me. Depois deixo de falar e já só ouço. A voz dela enrola-me com um cachecol no Inverno. Ela tem a mão esquerda em cima da mesa, e eu aproximo a minha até lhe tocar com a ponta dos dedos. Já sei porque é que as formigas gostam de tocar com as antenas, digo-lhe. Porque é bom.
Vou falando. Vou ouvindo. Não se chega a esta idade sem ter chorado, pois não? Não faz mal, também não se chega sem querer mais. Que não, dizem agora algumas palavras que saltam na mesa como peixes fora de água: que não gostamos assim tanto um do outro. Mas, e há sempre um mas, talvez hoje seja melhor que nada. O amor é um egoísta, sim, menos hoje. Outra vez.

três tipos

Disseram-me há bocado, a propósito de relações humanas, que há três tipos de pessoas: as que fazem com que aconteçam, as que esperam que acontençam, e as que perguntam se aconteceu alguma coisa.

crónicas da cidade que sopra | ontem houve um acidente qualquer

Amanhã, no Diário de Aveiro.

Ontem houve um acidente qualquer. O autocarro que a trazia a casa, depois de mais um dia a transformar oxigénio em dióxido de carbono num escritório silencioso, parou e desligou o motor. Helena manteve a cabeça encostada ao vidro da janela, onde um autocolante pede que o partam em caso de emergência, sem se importar minimamente com os vãos protestos de alguns passageiros. A verdade é que, naquele constante estado de solidão e de ausência de si mesma em que se encontra, tanto faz estar em casa como num transporte público estagnado pela hora de ponta da cidade. Não se importa.

7.10.2007

pensamentos catatónicos (86)

Numa Tv Guia antiga, li esta frase dita por um actor brasileiro que se chama Marcos Pasquim:

Corno ou você é, ou foi, ou será. Seria hipócrita se dissesse o contrário.

conversa 281

Ela1 - Sou lésbica sabes porquê? Os homens portugueses são mesmo muuuuuito desinteressantes.
Eu - Ena... ainda bem que as mulheres não são desinteressantes.
Ela1 - Porquê?
Eu - Ainda acabavas a foder com animais, tipo cães ou assim...
Ela1 - Que piadinha.
Eu - Não é piadinha. Podes ser lésbica à vontade mas esse motivo é estúpido. E, pronto, se és lésbica porque é que te envolveste comigo? Foi só uma vez, é certo...
Ela1 - Estava à espera que me desses umas palmadas no rabo mas nem isso sabes fazer.
Eu - Como português desinteressante que sou, é natural que nem isso saiba fazer...
Ela2 - Vocês querem estar calados? Parecem putos.
Ela1 - É este gajo....
Ela2 (virando-se para Ela1) - Chiu!
Ela1 - Foda-se!
Ela2 - Querem mais cerveja?
Eu - Não me vais deixar aqui sozinho com ela, pois não?
Ela2 - Porquê? Tens medo?
Eu - Tenho. Muito medo, até. Ainda me pede para lhe bater no rabo e estamos em público.
Ela1 - Percebes porque é os portugueses são todos uma cambada de idiotas?
Eu - Tu não és lésbica, és ressabiada.
Ela2 - Calem-se caralho, senão bato-vos eu aos dois no rabo.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

que estou a sangrar, diz ela


desafio sobre o número cinquenta e dois, no ministério da soltura

Que estou a sangrar, diz ela, e pega-me na mão esquerda como se fosse uma criança com uma borboleta na palma da mão. Que não há problema, respondo, e é a primeira vez que o cheiro a maçã dos seus cabelos penetra no meu suor. Sou uma borboleta na mão dela, sim, com as asas cansadas e o pensamento esvoaçante numa voz acariciante. Apetece-me pousar nela, brandamente, até que o ar fresco da manhã seguinte me reabilite o corpo.
Que estou a sangrar, diz ela, e ampara-me o corpo até uma pizzaria próxima. Avisa o empregado que vamos os dois entrar na casa de banho das mulheres porque eu estou ferido. Ferido, fico a pensar em como essa palavra é tão forte e fraca ao mesmo tempo. Ferido é alguém trepassado por uma bala perdida, alguém atropelado por um carro desgovernado, alguém electrocutado num poste de alta de tensão. Eu não, que apenas raspei os nós dos dedos duma mão enquanto ajudava uma mulher a mudar a roda do automóvel. Ela abre a torneira e mergulha a minha mão na água abundante. Deixo-me estar na condição de ferido, então, que dever ser obrigatória para ser socorrido por uma mulher tão bonita.
Que estou a sangrar, diz ela, e tira da carteira alguns pensos que me vai pondo, um a um, nos dedos. Primeiro o indicador, depois o médio, depois o anelar. Que não tenho aliança, diz, e pergunta-me se é por não gostar de anéis. Quer saber a minha vida, e eu opto por lhe abrir a porta deixando-a encostada. Não gosto de portas escaqueiradas. Nunca gostei. Que não é por isso, sopro-lhe ao ouvido, e o cheiro a maçã intensifica-se. A cabeça dela encosta-se ao meu peito, só por um segundo, mas como se fosse um helicóptero desvasta a área provocando um mini-ciclone.
Que estou a sangrar, diz ela, e alguém bate à porta da casa de banho. É o empregado e diz que temos que sair. Saímos mesmo, serpenteando as mesas da pizzaria enquanto os clientes nos atingem com o canto do olho. Que me leva a casa, diz ela, e pergunta-me onde vivo. No cinquenta e dois, respondo enquanto me sento no lugar do morto. Pergunta-me em que rua. Tanto faz, que não podemos entrar apesar de eu não usar aliança. Estou no lugar do morto e já percebo porquê. Sinto-me mesmo morto, de repente, e é tão abrupta a forma como a morte substitui a vida.
Que estou a sangrar, diz ela, e se sangro não estou tão morto assim. Talvez esteja mesmo ferido, afinal. Ferido por tantos anos sem me aventurar num olhar, num abraço, num cheiro. Está ali uma porta número cinquenta e dois, diz ela, e conclui que com aquele ar abandonado ninguém deve estar à minha espera. Depois abraça-me. Que sim, pode ser naquele cinquenta e dois. Ali já ninguém mora.

seis coisas sobre mim que não interessam a ninguém

1] Já sei que no primeiro fim de semana de Agosto chego ao nó da auto-estrada A1 mais perto da minha casa e viro para sul. Vou até à zona de Sintra, a convite duma pessoa simpática.

2] Hoje fìz praia durante vinte e quatro minutos e, por isso, não pus protector solar. Acho que me lixei...

3] Na praia da Barra encontrei uma amiga minha do liceu. Já não a via desde 1992. Deu-me o número de telefone e disse-me para lhe telefonar na primeira semana de Agosto, para marcarmos um jantar. Está bem disse eu. Gostei de vê-la.

4] Faço a melhor mousse de chocolate do mundo, mas agora vou passar a fazer também a melhor mousse de manga do mundo.

5] Não vale a pena tentar não pensar numa mulher de que se gosta. Essa é a verdade. Mas vale a pena dosear a intensidade com que se pensa nela, que não é o mesmo que dosear a felicidade.

6] Estou a pensar se publico ou não uma conversa que tive. Vou tomar café e já decido.

cartaz

7.09.2007

pensamentos catatónicos (85)

Tento sempre escrever ou dizer algo a partir do nada. Não gosto nada de sentir que me estou a aproveitar de matéria incorpórea criada por outros, como o é, por exemplo, uma ideia. Nunca consigo.
Acho que este é um dos problemas nas minhas relações. Partindo do nada poucas vezes se chega a criar interesse, e quase nunca se estabelece um fio condutor entre duas pessoas. No fundo não gosto da verdade acção/reacção, e isso é um problema emocional criado por um método cognitivo que assumi há muitos anos.
Agora vou beber uma cerveja ao melhor bar do mundo.

conversa 280

Eu – Tu para mim, para ser sincero, tens muito a ver com a bandeira japonesa.
Ela – Explica-te lá. Agora não sais daqui sem te explicares muito bem.
Eu – Eu adoro a bandeira japonesa, percebes? Gosto mesmo da bandeira japonesa. É a bandeira mais bonita dos países todos do mundo. Mas eu não era capaz de viver no Japão...
Ela – E porque é que não eras capaz de viver no Japão?
Eu – Os japoneses, definitivamente, têm uma língua que eu não sou capaz de entender.
Ela – É isso que me queres dizer. Que não és capaz de comunicar comigo?
Eu – Não é só isso. Estou também a dizer que te adoro, mas não sou capaz de comunicar contigo.
Ela – Não foi isso que eu percebi.
Eu – Se não foi isso que percebeste estás a dar-me razão. Eu e tu não Communiqué.
Ela – Tu e eu não o quê?
Eu - Não Communiqué. É um álbum dos Dire Straits... deixa lá.
Ela – Dire Straits... eu conheço Dire Straits. Não gosto.
Eu – Eu tenho esse defeito, pronto. Ainda gosto de Dire Straits.
Ela – Sabes uma coisa? Tu, para mim, és como a bandeira da Arábia Saudita.
Eu – Explica-te lá...
Ela – Sei que tens uma espada afiada, mas não percebo nada do que tens escrito. E, foda-se, és bonito.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 279

Eu – É evidente que a XXXXXX anda triste, e isso deixa-me um bocadinho triste também.
Ele – Pois. Andava demasiado feliz. A felicidade em excesso acaba sempre mal.
Eu – Não percebo mas pronto. Agora queres que o pessoal comece a dosear a felicidade, é?
Ele – Não é isso. Ela andava aí que parecia que tinha o mundo a seus pés.
Eu – E muito bem. Quer dizer, eu não me estou a ver a acordar de manhã e dizer: "Estou demasiado feliz. Vou fazer qualquer merda para ficar só um bocadinho triste".
Ele – Pois... mas é mesmo isso: dosear a felicidade.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 278

Eu – Ficas já em casa ou queres ir a mais algum sítio?
Ela – Que sítio?
Eu – Sei lá... beber um copo.
Ela – Não. Vamos continuar a andar de carro, está bem?
Eu – Está bem.

maravilhoso coração maravilhoso...

Porque é que tenho a sensação que sou dos poucos que se está a marimbar completamente, mas mesmo completamente, para a eleição das sete maravilhas do terceiro calhau a contar do Sol? Ainda agora passeei pela praia em Espinho e vi umas dezenas de maravilhas que nem sequer foram a votos...

a alegria é soberana decisão

Às vezes é só isso que é preciso para ficar bem. Ir ver frigideiras à noite no céu com alguém que, só por estar a menos de trinta e dois centímetros de distância de nós, nos faz bem. No carro ouvia-se repetidamente A alegria é o alimento da alma / A alegria é nossa grande inspiração / A alegria recompensa os sacrifícios / A alegria é soberana decisão (Celso Fonseca). Ouçam também.

7.08.2007

conversa 277

Ela - Este pára-vento é tão grande... é maior do que o costume, não é?
Eu - Acho que sim. Comprei o maior que havia na loja...
Ela - Como o vi sozinho achei estranho. Uma pessoa sozinha ter um pára-vento tão grande...
Eu - Há coisas mais estranhas.
Ela - É verdade, mas isto também não é normal.
Eu - Quando a minha mulher vier dos Estados Unidos já tenho pára-vento para os dois...
Ela - Mas ela ainda vem antes do Verão acabar?
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

nas dunas...

tentou roubar-me e acusou-me de violação

Sei que é Domingo quando acordo. Normalmente tenho que pensar que dia é, quando acordo, mas hoje não. Sei que é Domingo. Quer dizer que ontem o meu corpo adormeceu ao mesmo tempo que a alma, e ambos descansaram bem. O corpo adormece normalmente antes, e depois acorda sempre com a alma a resmungar, a mendigar mais alguns minutos de sono e de sonho.
Como duas bananas, uma laranja e uma gelatina de morango. Não tomo banho porque decido ir à praia. Tomo, por isso, quando voltar. Visto a tanga, visto os calções, uma t-shirt e umas sandálias. No carro tenho, desde o ano passado, o pára-vento. Vou à gaveta do armário do quarto da minha filha e tiro uma toalha de praia. Numa carteira ponho o leitor mp3, o protector solar e uma nota de 5 euros. A ponte da Barra está em obras e a fila de trânsito é enorme. Ouço uma rádio local e abro os vidros para refrescar o interior do veículo. Naquele passo de caracol, e numa carrinha que segue ao meu lado direito, um casal discute duma forma exagerada qualquer coisa que se passou há uns dias, não percebo bem o quê. Ela diz que nem sei quem é uma ordinária e ele pede calma. Estou contente por ir à praia sozinho, sem discussões.
Bandeira amarela na Costa Nova e muito vento. Deito-me na toalha, abrigado pelo pára-vento às riscas brancas e amarelas, e ouço tinariwen de olhos fechados. Duas ou três músicas depois uma mulher toca-me no peito. Abro os olhos e tiro os auscultadores. Ela é muito bonita. Tem a pele mais branca do que eu e o cabelo encaracolado preto. Os olhos fogem-lhe para um azul marítimo e os lábios são tímidos. Pergunta-me se se pode abrigar ao meu lado, já que estou sozinho e está muito vento. Que sim, respondo. Sacudo a minha toalha, que estava paralela ao pára-vento e volto a colocá-la perpendicularmente ao mesmo. Ela deita-se ao meu lado depois de tirar as calças de ganga.
Deito-me de barriga para baixo e volto a colocar os auscultadores. Fecho os olhos. A voz dela continua por trás da música dos tinariwen mas eu não percebo o que diz. Merda, penso. Queria mesmo paz. Tiro os auscultadores e enrolo-os no leitor. Guardo tudo na carteira. Ela pergunta-me se seu sou dali. Não me apetece dizer-lhe a verdade e por isso digo que não, mas a conversa continua e a mentira aumenta. Acabo como um funcionário público da Câmara Municipal de Beja que está ali de férias, e sou casado com uma africana que está neste momento em Boston. A mentira é tão estúpida que me parece que ela acredita. Ao mesmo tempo dá para justificar porque é que estou sozinho e para lhe dizer que não ando no engate. Até tenho uma mulher em Boston e tudo.
Ela não se cala e eu não consigo descansar. Aproveito e passo-lhe os olhos pelo corpo, um pouco mais atentamente que no princípio. Sim, é mesmo bonita. É pena falar demais. Diz-me que é de Viseu mas, não sei porquê, não acredito. Diz-me que gosta muito de Aveiro e quer viver na cidade. Pergunta-me se sei de algum emprego. Não, não sei. Provavelmente, afinal, não acreditou que sou de Beja. Porreiro, penso, estou a ter uma conversa com uma mulher que não conheço de lado nenhum e estamos os dois a mentir um ao outro. Porreiro.
Tenho a pele quente. Interrompo-a quando me fala do irmão e digo que vou à água. Ela não vai, que o mar está muito agitado. Merda, penso, agora dá-me uma erecção espontânea. Viro-me de novo de barriga para baixo e começo a mexer na carteira, só para ganhar tempo. Tiro o telemóvel, tiro os óculos, tiro a nota de cinco euros, tiro o protector e tiro o leitor de mp3. Depois arrumo tudo de novo. Não sei se ela reparou que eu tive a erecção mas que se foda. Não a conheço de lado nenhum.
Já estou melhor. Já dá para me levantar e ir à água. Mesmo assim faço-o sem me virar de frente para ela. A água fria vai-me ajudar nesta questão. Aproximo-me do mar e dou um mergulho logo na primeira onda.
A água está mesmo fria e o mar um cadito perigoso. Torno a mergulhar mas não estou muito tempo no banho. Não dá. Volto para a toalha. Como sou míope tento guiar-me pelas riscas do pára-vento. Aproximo-me. Já não está lá a mulher. Nem ela nem a minha toalha, nem a minha carteira, nem a minha t-shirt nem sequer as minhas sandálias. Foda-se, para que é uma miúda com um metro e sessenta quer umas sandálias número 44? Foda-se, levou-me os óculos e o telemóvel. Foda-se, até a chave do carro estava na carteira. Olho em várias direcções atarantado mas não consigo distinguir quase nada à distância. Um homem pergunta-me se procuro a minha mulher. Que sim, digo-lhe sem me apetecer explicar o quer que seja. Acho que ele desconfiou de qualquer coisa e seguiu-a com o olhar. Deve ter sido um feeling. Distingo o vulto e começo a correr nessa direcção.
Corro, corro, corro. Correr na areia é difícil e eu não sabia que ainda era capaz de correr tanto. Já distingo melhor o vulto. É mesmo ela e leva as minhas coisas nas mãos. Ela começa a correr também, mas rapidamente percebo que a vou apanhar. Ela é lenta. Estou-me a aproximar e ela larga tudo, como um balão de hélio que quer subir rapidamente, mas eu estou zangado e nem ligo ao que ela largou. Apanho-a pelo braço já nas dunas.
Ela vira-se para mim e tenta dar-me uma chapada. Nem me deixa falar. Começa aos gritos que a estão a violar. Foda-se. É Domingo, passa levemente da uma tarde, e eu estou numa duna duma praia com uma desconhecida que me tentou roubar e ainda por cima grita que a estou a violar. Só a mim. Foda-se! É que só a mim. Dois gajos vêm na minha direcção a correr também. Ela aumenta os gritos e aponta na minha direcção. É ele! É ele! Eu não digo nada. Sei lá o que é que hei-de dizer. Foda-se! Está um pau na areia. Pelo sim pelo não pego nele. Eles chegam e param. Estão cansado e nem conseguem falar. Óptimo, falo eu então. Explico a história toda e justifico apontando para as minha merdas espalhadas na areia, que entretanto vou apanhar.
O Sol está aquecer e a minha pele branca a pedir repouso e sombra. Largo o pau e digo à gaja para se ir embora. Afasto-me devagarinho, para não parecer que estou em fuga. Ela fica a falar com eles. Eu vou é arrumar tudo e voltar pra casa. Só a mim, só a mim. Enrolo o pára-vento e agradeço ao tipo que me indicou a direcção dela. Explico-lhe tudo melhor e despeço-me.
Estou no carro. A fila para voltar é menor. Ainda bem. Ligo o rádio e a Rádio Clube de Aveiro está a entrevistar um gajo qualquer sobre como escrever textos cómicos. Não chego a saber quem é mas fico a ouvir. Vou parando e andando, parando e andando. Alguém me bate no vidro. É ela. Foda-se, outra vez ela. Abro o vidro e pergunto-lhe o que quer. Boleia para Aveiro, responde. E eu dou. Deixo-a no Alboi e vou para casa.
Tentou-me roubar, acusou-me de a tentar violar, mas era uma mulher e era bonita. Dei-lhe boleia e agradeço-lhe a existência. Mas, só em pensamento: Foda-se!

7.07.2007

conversa 276

Ela - Pai, tu nunca mais arranjas uma namorada?
Eu - Filha... sei lá... nem sei que te diga.
Ela - Opá, já estou a ficar farta. Vê lá mas é se te despachas.
Eu - Mas porque é que queres que eu me despache? Não achas que se tem que ter cuidado a arranjar uma namorada? Já viste se eu arranjo uma namorada e depois chego à conclusão que afinal não gosto dela? Já viste se é ela que chega à conclusão que não gosta de mim?
Ela - Se isso acontecer arranjas outra e pronto. Mas despacha-te que eu preciso de mais pessoas à minha volta.

conversa 275

Eu - Sou eu...
Ela - Então, como andas?
Eu - Estava aqui sozinho a pensar que me apetece estar contigo.
Ela - Mas tu... não te estavas a apaixonar por outra pessoa?
Eu - Sim, lentamente... só estou a dizer que me apetece estar contigo... ir tomar café, passear, conversar e essas merdas.
Ela - Ah! fixe... eu telefono-te lá para as onze para combinarmos.
Eu - Ok...

dei a minha toalha do rato Mickey

1] Passei a tarde a brincar às lojas com a minha filha. Comprei um livro do feiticeiro de Oz, um golfinho de peluche, uma tesoura partida, uma tartaruga de plástico, uma caneta de escrever em azulejo e um mealheiro do Noddy. Paguei um euro e oitenta por tudo. Depois ainda brinquei aos restaurantes, na cozinha.

2] Passei o dia a perguntar a mim mesmo como é que nos sentimos quando não nos sentimos tristes nem felizes, nem assim assim. Não consegui responder. Ao fim da tarde telefonei a uma amiga e disse-lhe que me apetecia estar com ela. Daqui a um cadito vamos dar uma volta. Só isso, dar uma volta. Tenho a certeza que no fim me vou sentir mais definido.

3] Dei a minha toalha do rato Mickey à minha filha. É uma toalha com um valor emocional enorme, mas nunca consigo dizer que não a um certo olhar e um certo timbre da voz da minha filha. Ela levou-a para casa da mãe.

4] Há mais duma semana que estou sem ler nada. Reli apenas o segundo conto do Dias Exemplares, do Cunningham, porque gosto mesmo muito dele. Decidi que amanhã vou à praia e depois vou passar numa livraria. É bom poder decidir estas coisas triviais, não é? É, é. Decidir estas coisas quer dizer que estamos equilibrados.

5] Ainda não sei onde vou de férias. Aliás, neste momento nem sei se vou de férias a algum sítio. Tanto me apetece voltar a Barcelona como escolher uma aldeola qualquer no interior do país e passar lá uns dias isolado. Talvez Almeida ou Marialva, por exemplo. Talvez vá às Asturias sozinho... não sei. Provavelmente vou decidir só no dia em que entrar no carro para sair daqui. Quando chegar ao primeiro nó da auto-estrada decido se viro para norte, este ou sul...

7.06.2007

pensamentos catatónicos (84)

É verdade que às vezes as pessoas não têm cuidado com outros. Digo, nas relações em que se metem. Acabam por não ter cuidado com elas próprias também, sejam homens ou mulheres.

vamos dançar a lambada

Em 2006, em Portugal, morreram 39 mulheres vítimas de violência doméstica e 43 foram vítimas de agressões graves ou tentativas de homicídio. O Jornal de Notícias publica hoje uma reportagem em que revela estes números.
Dos vários exemplos que se podem ler, há um sobre uma mulher de 44 anos, de Nelas, encontrada morta na sua casa. O marido admite publicamente que de vez em quando lhe dava umas lambadas, como se isso fosse a merda mais natural do mundo. Não me apetece perder tempo com um filho da puta que se acha no direito de dizer isto. Farto de parolos ando eu. Mas não consigo deixar de pensar na vã tentativa do Bloco de Esquerda em facilitar juridicamente o divórcio. Acho que a mesma não visava promover o divórcio, mas sim preservar a dignidade humana que se perde em casos como este.
A falta de vontade política é enervante. Os projectos de lei não são aprovados apenas porque são feitos por partidos da oposição, e entretanto promove-se a lambada como dança tradicional portuguesa. Vão-se foder!

maioridade

Tempo de qualidade é quando não damos por ele a passar. O índice ivariano sobe um valor, e está agora em 18.

7.05.2007

conversa 274

Ela - Há quanto tempo é que não jogas ao Verdade ou Consequência?
Eu - Desde puto...
Ela - Queres jogar comigo?
Eu - Não.
Ela - Porquê?
Eu - Tenho medo das consequências.
Ela - És um medricas.
Eu - Eu sei. Costumo pensar no medo como um sinal de alguma inteligência, para não me sentir mal.

no Woman no cry

Tenho um leitor de mp3 com 1Gb de espaço. Provavelmente foi a melhor compra que fiz este ano, já que me ajuda muito nas viagens de comboio entre Aveiro e Espinho, e também nas de carro, onde normalmente o ligo ao auto-rádio quando conduzo. A maior parte das vezes, quando ando com uma música no ouvido, ponho-a em repeat e ouço-a vezes e vezes sem fim, até me fartar.
Hoje, no comboio e a alguns metros de mim, ia uma mulher sentada a ler a crónica da cidade que sopra. Dobrou o jornal em quatro e começou a lê-la em Aveiro, com o comboio ainda parado. Em Avanca, ou seja, quase vinte minutos depois, ainda a ia a ler. Pensei para mim que, ou ela estava a gostar muito ou eu sou mesmo incompreensível. A música que eu ia a ouvir era “No Woman No Cry”, pelos Urban Love, e hoje a crónica é um cadito sobre a música.

restos

Aqueceu no micro-ondas restos do dia anterior, durante um minuto, e agora está sentado à mesa sem ter ainda tocado na comida. A mesa, apesar de ter apenas seis lugares, parece-lhe demasiado grande, ou talvez até seja ele que se tenha tornado demasiado pequeno. Demasiado pequeno para o silêncio que se sentou nas outras cinco cadeiras e não se quer levantar, demasiado pequeno para um minuto que demorou a aquecer a refeição, demasiado pequeno para a noite que se vai agigantando.
Aqueceu no micro-ondas restos do dia anterior, durante um minuto, e agora pensa na palavra restos. Porque é que que chama restos a tortellini de espinafres feitos no dia anterior? Todo ele é um resto também. Um resto duma vida sinuosa, um resto dum dia de trabalho, um resto dum regresso a casa entre anónimos peões e alguns semáforos vermelhos. Talvez até seja já um resto da noite que se vai agigantando.

conversa 273

Ela - É só para te dizer que gostei muito de estar contigo.
Eu - Só? Isso é muito...
Ela - É muito como?
Eu - É dizer muito...
Ela - Não é nada. É só uma frase...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

7.04.2007

conversa 272

(num café em Espinho)

Ele - São dois euros e oitenta.
Eu (dou-lhe uma nota de 10)
Ele - Não tem trocadinho?
Eu - Sou capaz de ter moedas, sim. (dou-lhe três euros)
Ele - Ora... dois euros e oitenta... três. (dá-me vinte cêntimos e vira a cara)
Eu - Pronto. Agora só tem que me dar os dez euros que tem na carteira e que são meus.
Ele - Ah! Não foi por mal.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 271

Ela – Não te vou dizer que és assim muito bonito. És um homem bonito mas não és assim muito, muito bonito, percebes? Não é por aí que as mulheres gostam de ti.
Eu – Ah! Então, é por onde?
Ela – Não sei... por alguma coisa há-se ser...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

respostas a perguntas inexistentes (7)



Eram cinco a dar as mãos e a correr pelos campos. Depois, como na vida, as velocidades de cada um foram-se alterando. Uns corriam mais depressa, outros mais devagar. Só eu e ela é que nos mantivemos de mãos dadas até ao fim. Estávamos cansados e eu perguntei-lhe se queria deitar-se comigo naquele manto verde que se estendia ao horizonte. Que não, respondeu ela, que ali havia sempre muitos cagalhões caninos. Nunca mais demos as mãos e passámos, também nós, a viver em velocidades diferentes.

Os Azeitonas III

A única vez que fiz karaoke na minha vida foi em Hong Kong, onde é uma indústria gigantesca. Suponho que no Japão e na China também, mas não tenho a certeza. Em Hong Kong há edifícios com salas de vários tamanhos (para duas, quatro, seis ou mais pessoas) que se alugam só para fazer karaoke. É giro porque as pessoas passam noites inteiras a cantar umas para as outras. Por exemplo, quando um homem quer cantar uma música romântica à namorada pode alugar uma sala para duas pesoas durante vinte minutos. Eu estou ansioso por levar a mulher da minha vida a uma sala destas para lhe cantar o "A minha Sogra é um Boi", dos Mata-Ratos, mas isso é outra história.
Na única vez que fiz karaoke na minha vida, o pessoal ficou tão abismado com a minha capacidade de cantar em chinês que eu, em memória daquele momento único da minha vida, comprei o cd e vcd da música. Uma vez falei dela aqui e, passados uns dias, recebi um email duma banda do Porto a pedir-me informação sobre aquela fenomenal obra de arte porque queriam fazer uma versão.
No princípio resisti. Tinha medo que uma banda qualquer vulgarizasse aquela música fenomenal. Mas depois, quando soube que eram Os Azeitonas, acreditei que aquilo até podia resultar, e lá mandei o mp3. Agora o próximo disco daquela banda vai ter uma versão da música e, para já, podem-na ouvir nos seus concertos.
Pronto. Era só isto. Agora podem ver o vídeo [original] no youtube e visitar os sites todos da banda... que, diga-se de passagem, é espectacular. Mesmo espectacular.



links: my space dos azeitonas, site oficial, maria azeitola

dia da Independência

Hoje é o primeiro aniversário do Dia da Independência.

crónicas da cidade que sopra | estão a tentar

Amanhã, por ser quinta-feira, é publicada mais uma crónica da cidade que sopra no Diário de Aveiro.

Prende o cigarro da manhã brandamente entre os lábios, enquanto se vê nua no espelho do quarto acariciando lentamente o corpo com uma toalha verde. Algumas gotas de água saltam-lhe da ponta dos cabelos para a pele macia, e aceleram em direcção ao solo numa vã tentativa de suicídio colectivo. Vai repetindo para si mesma a frase que acaba de ler na na embalagem que atirou para cima da cama: fumar pode matar. Aquela toalha com que se limpa foi uma prenda dum casamento falhado, e o corpo dá sinais evidentes de envelhecimento: alguns cabelos cinzentos que rareiam entre os outros como ervas daninhas, os seios que vão perdendo a altivez, as rugas que começam a desenhar o contorno dos olhos. Ainda não acendeu o cigarro mas pensa que viver também pode matar. E repete: viver pode matar.

7.03.2007

os azeitonas II

Amanhã vou revelar tudo sobre uma música que vai sair no próximo disco d'Os Azeitonas, a melhor banda de sempre de Portugal e arredores, incluindo Burkina Fasso.

conversa 270

Eu - Estamos em Julho e ainda não faço a mínima ideia do que vou fazer nas férias.
Ele - Eu vou para Barcelona, queres vir?
Eu - Não, obrigado.
Ele - Arranjo-te lá casa...
Eu - Eu já trabalhei lá. Também tenho onde ficar. Mas não me apetece ir contigo...
Ele - Porquê?
Eu - Vais com a XXXXXX, e eu não gosto de me sentir um empecilho.
Ele - Falamos daqui a uns dias. Se isto continua assim não chego ao fim de Julho com ela.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 269

Eu - Não me dou bem com isto, percebes?
Ela - Com quê?
Eu - Encontros clandestinos uma vez de vez em quando.
Ela - Esta vida são dois dias... temos que nos divertir também, não é?
Eu - Pois, eu percebo, mas também acho que se a vida são dois dias, não custa nada encontrar alguém para a vida toda.
Ela - Mas eu sempre achei que daqui a uns meses isto podia mudar...
Eu - Se a vida são dois dias, daqui a uns meses estou morto.
Ela - Então não tens que te preocupar, percebes?
Eu - Não, não percebo.
Ela - Eu estou farta de aturar canalha, percebes? Estar contigo faz-me bem, mas eu não posso fazer mais do que isso. Pelo menos agora.
Eu - Canalha? Estás a chamar canalha ao teu namorado?
Ela - É o que ele é.
Eu - Se eu tivesse começado uma relação contigo, daqui a uns tempos chamavas-me canalha a mim.
Ela - Tu não és canalha. Eu não acho que sejas. Além disso, daqui a uns tempos estás morto. Não foi o que disseste?
Eu - Mas quando começaste com o teu namorado já o achavas canalha?
Ela - Já, mas estava tão carente... percebes?
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 268

Ela - Telefonaste-me?
Eu - Telefonei. Era só para saber se querias boleia pra casa.
Ela - Estás muito solto.
Eu - Um bocadinho.

Jules, Jim e uma gaja com um sorriso parecido com um calhau esculpido



Ontem fui ao cinema ver um filme de 1962, do François Truffaut, chamado Jules e Jim. Uma história gira à volta dum triângulo amoroso cujos vértices são Jules, Jim e uma gaja que tem um sorriso parecido com um calhau esculpido.
Eles são muito amigos. Ela casa com Jules e mata Jim, atirando-se com ele dentro do carro de cima duma ponte. Acabei o filme a pensar que o François Truffaut, se na altura houvesse internet, teria criado um blog como este.
Bem, logo no princípio, quando eles a conhecem, ela atira-se ao rio Sena só para chamar a atenção. Eu, com o que sei hoje, deixava-a lá a alimentar os peixinhos. Eles não, foram a correr salvá-la. Depois tramaram-se.

7.02.2007

olha que te fodo todo

Pus o sono em dia. Acordei às 14:28, tomei um banho rápido ao som do cd Boss'n'Marley, tomei um pequeno-almoço rápido na cozinha, sem me afastar da porta do frigorífico, e fui tomar café. Na mesa ao lado da minha estava uma mulher bonita, mas mesmo muito bonita. Tinha um vestido verde escuro daqueles de praia (eu não sei o que é um vestido daqueles de praia mas não encontro outra forma melhor de o explicar), olhos mais ou menos da mesma cor e uns cabelos pretos e compridos. Uma criança, provavelmente o filho, com uns seis anos de idade, brincava com um avião de plástico entre uma garrafa de compal manga/laranja, dois copos, uma garrafa de água das Pedras e uma chávena de café. Provavelmente estavam a fazer de edifícios, aqueles cadáveres de bebidas. A mulher fumava um cigarro que aparentava alguma má disposição, e eu contemplava aquela agressividade latente com a sua beleza exterior. Estava a achar alguma graça. O avião bateu na garrafa de compal que tombou sobre a mesa e rolou até cair e partir-se em cacos no chão. Olha que te fodo todo, gritou ela. De repente deixou de ser bonita.

conversa 267

(pelo intercomunicador do prédio)

Ela – Boa tarde, ando a fazer uma demostração dum produto inovador que só vai entrar no mercado daqui a alguns meses.
Eu – Que produto é que é?
Ela – É um produto inovador que visa facilitar o dia-a-dia de todos.
Eu – Hum...
Ela – Tem dez minutos que me dispense?
Eu – Não.
Ela – Não?
Eu – Não. O meu dia-a-dia é muito fácil... não preciso de nada disso, está bem?
Ela - Muito bem. Pedia-lhe só que me abrisse a porta do prédio.
Eu - Eu prefiro que um vizinho qualquer que aceite falar consigo lhe abra.
Ela - Muito obrigado.
Eu - Muito obrigado, eu.

7.01.2007

conversa 266

Ela - Já me disseram que disseste mal dos meus amendoins no teu blog.
Eu - Eu?! Só disse bem...

conversa 265

Ela - Estou sem som...
Eu (só em pensamento) - Liga o microfone.
Ela - O técnico está a ouvir? Estou sem som.
Eu (só em pensamento) - Liga o microfone.
Ela - Mas o técnico está a dormir?
Eu (só em pensamento) - Liga o microfone.
Ela - Bem, vou ter que gritar.
Eu (aos gritos) - Ligue o microfone, pá!
Ela - Ah! esqueci-me...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

coisas que fascinam (55)

hoje acordei às 07:12 da manhã. Em dois dias dormi perto de seis horas. Mesmo assim estou bem disposto. Estou, estou... vou beber uma água tónica com limão.

pensamentos catatónicos (83)

Quando enviamos um sms e não obtemos resposta é como se algum amor nos morresse lentamente nos dedos.

respostas a perguntas inexistentes (6)



Ela disse-me, num tom acusatório, que eu só gostava dela quando estava bêbado. Tu embebedas-me, respondi-lhe antes de ir pedir mais um vermute com limão ao balcão. As pessoas estavam desfocadas, e quando voltei não a conseguia distinguir entre os demais. Foi nesse dia que percebi a importância da voz.

quem é este palhaço?

A sensação de vergonha que se tem quando se testa microfones num palco, e todos param para ouvir um gajo a dizer coisas como "som... som... um, dois, som", é semelhante à sensação que se tem quando se convida uma mulher para jantar e lhe diz que se gosta dela. Em ambas as situações alguém olha para nós e pensa: "quem é este palhaço?".

aveiro é deslumbrante



Uma amiga mandou-me esta foto (em alta resolução) para o mail, com o assunto "aveiro é deslumbrante". E é mesmo... e eu amo Aveiro. Espero que nunca se divorcie de mim. Nem eu dela. Só isso. Se quiserem ver a foto de alta resolução descarreguem-na aqui.

6.30.2007

conversa 264

Ela - Não estou numa de me ligar a nada, percebes? ando a dormir com o XXXXXX só para ter sexo...
Eu - Não deve ser só por isso.
Ela - Ele não é um gajo qualquer na minha vida. Isso não... mas sabe tão bem como eu que isto não dura sempre.
Eu - Não sei. Por mim tudo bem. Já fiz isso e não gostei muito, para ser sincero.
Ela - Não? Porquê?
Eu - Porque não. Não consigo mesmo andar a pensar em mais do que uma mulher ao mesmo tempo. Se calhar sou limitado...
Ela - Se pudesses ir prá cama comigo hoje, assim só na boa, ias?
Eu - Não.
Ela - Não ias mesmo?
Eu - Não.
Ela - Mas... é por isso que não me telefonas há que tempos? Tens alguém?
Eu - Tenho alguém a ocupar-me o objecto cardíaco. Só isso...

electro-bossa



Porque o índice ivariano se encontra alto, porque a fatyly me atribuiu o prémio blog com grelos, porque a maior parte das leitoras deste blog (e pronto, também dois ou três leitores) são boa onda, porque estou apaixonado por bossa nova, e também porque sim, deixo aqui o link rapidshare dum cd que é impossível não gostar. Versões do Bob Marley em electro-bossa que ninguém deve deixar de ouvir. Faz bem, fica-se feliz.

as mulheres gostam de homens fardados

Um gajo de Paredes fartou-se de ter encontros amorosos com mulheres à custa dum anúncio (ver edição JN) em que dizia ser um militar da GNR. Quer dizer, fartar até parece que não se fartou, mas a própria instituição fez uma investigação para descobrir se o tipo era mesmo daquela força de segurança e acabou-lhe com o esquema.
Daqui só tiro uma conclusão: as mulheres gostam mesmo de homens fardados e eu, definitivamente, tenho que mudar de emprego. Por isso é que ninguém respondeu ao anúncio em que eu fingia ser talhante, a ver se arranjava uma ou duas moças robustas, partindo do princípio que elas gostam de quem saiba mexer em carnes. Quer dizer, ainda cheguei a receber um telefonema, para ser sincero, mas a voz era demasiado grossa para o meu gosto e desliguei. Agora abro o JN e percebo tudo: elas querem é fardas. Foda-se (só em pensamento).

amendoins

Ai!... comi uns amendoins esta noite e agora estou com dores de barriga. Não foi da cerveja nem do vermute. Foram os amendoins... o índice ivariano sobe mais um valor, e está agora em dezassete (er nå er)

bom fim de semana com cinco cenas

1] Fazer uma ordem de despejo é sempre um processo doloroso, mesmo quando não tínhamos a relação mais pacífica do mundo com a inquilina antiga. Esta coisa de manter o objecto cardíaco só com um quarto não é fácil, mas pronto, lá terá que ser.
2] Estou mesmo a precisar dum copo. Isto de trabalhar ao fim de semana, incluindo noites, não é fácil. Não é a coisa mais difícil do mundo, e eu sei que há coisas muito piores no mundo, mas deixem-me lá dizer isto. Estou ansioso por ir pr'Aveiro beber um copo no melhor bar do mundo.
3] Não estou triste. Até estou numa fase feliz, mas não me sinto como se estivesse a dançar. Gosto desta cena das irmãs tesouras. Ouçam sempre que quiserem.
4] Em Espinho há um restaurante na rua 19 que vende pizzas com batatas fritas. Para além disso ser estranho, é também o restaurante mais barato que conheço neste país. Uma pizza (com batatas fritas) e uma bebida de lata custa 3 euros. Sim, 3 euros. A sério. Chama-se Cristo Rei e fica na rua 19. Os empregados têm sempre um ar de quem anda com o mundo às costas. Se calhar andam mesmo.
5] Estou a cheirar a suor e a óleo de máquinas de cinema, por causa dum problema técnico que tive esta tarde. Se calhar é melhor não me aproximar de nenhuma mulher esta noite.

6.29.2007

conversa 263

Ele – Eu não gasto uma folha de papel higiénico há anos...
Eu - Ah!
Ele (apontando para o rabo) – Ponho o chuveiro assim por aqui. A água corre por aqui...
Eu – Ah!
Ele – E não ando com as unhas cheias de merda.
Eu – Ah!
Ele – Depois lavo as mãos e tiro aqueles bocaditos que ficam entranhados...
Eu – Ah!
Ele – A minha mulher tira o papel aos cinco e seis bocados de cada vez...
Eu – Ah!
Ele – Jasus...
Eu - Ah!

conversa 262

Ela - Eu estava primeiro que este senhor.
Eu - Por acaso não estava.
Ela - Ai! Por acaso estava, faz favor.
Eu - Eu vi-a a entrar por aquela porta há dois minutos.
Ela - Eu também o vi a entrar por aquela porta há dois minutos.
Eu - Então podemos os dois entrar num episódio da twilight zone...
Ela - O quê?
Eu - Nada. Registe lá o euromilhões depressa. Não estou pra me chatear.
Ela - Não percebi o que disse mas não gostei. Se estivesse aqui o meu marido...
Eu - O seu marido conhece a twilight zone?
Ela - O quê?
Eu - Nada. Registe lá o euromilhões depressa. Não estou pra me chatear.

respostas a perguntas inexistentes (5)



A casa estava oca por dentro. Tinha sido abandonada. Aquelas janelas olhavam-me mendigando atenção. Lembrei-me dos olhos dela quando estávamos, no restaurante, frente a frente. Eram os mesmos. Ela estava oca por dentro. Eu também, para ser sincero, só que eu não o admitia. Levei-a a casa nessa noite e nunca mais lhe telefonei.

fé sacrificial

Uns bacanos quaisquer puseram-me um jornal no pára-brisas do carro, chamado Folha de Portugal, para eu ler depois de tomar café. Cool! Pensei. No princípio fiquei desiludido porque não vi nenhuma página de futebol, mas mesmo assim insisti.
Numa página, o bispo Edir Macedo dá como exemplo de fé sacrificial, Abraão. Abraão, lembro, foi um gajo que esteve quase a matar o seu filho Isaac porque Deus lhe pediu para o fazer. Eu pessoalmente, se ouvisse uma voz a dizer-me que tinha que matar o meu filho, mandava-a pró caralho imediatamente e, lá em casa, punha todos os chás que costumo beber no lixo. Provavelmente um dele andava-me a fazer mal.
O mais giro, no entanto, é que logo na página seguinte o jornal fala do trabalho infantil em Portugal, alertando que muitas crianças portuguesas ainda são exploradas.
A conclusão disto é que não se deve pôr os putos a trabalhar, e isso até concordo (com excepção para aqueles putos totós da JSD e não fazem nada na vida a não ser lamber as botas dos mais velhotes), mas se ouvirem uma voz a dizer para matarem um puto, nem que seja o vosso filho, estejam à vontade para o fazer. Não passa dum sacrifício pedido por Deus.

conversa 261

Ele - Estás a mandar mensagens há meia-hora. Não tens nada de jeito para fazer?
Eu - Não pá... a única coisa que podia fazer aqui era falar contigo...
Ele - Para quem é que estás a mandar tantas mensagens?
Eu - Para o mundo.
Ele - Queres ficar sozinho?
Eu - Quero.

6.28.2007

porque é que os homens morrem antes das mulheres

Há dias estava no melhor bar do mundo com uma amiga e ela disse-me que havia mais mulheres do que homens lá dentro. Contei e era verdade. Estavam aí umas vinte e cinco mulheres e uns vinte homens. Aqui está a justificação. Recebi estas imagens agora, por email. Se calhar já tinham visto mas não importa. Vejam outra vez.








Branca de Neve

Definitivamente, um dos maiores erros da literatura clássica infantil, é a merda do princípe e da princesa viverem felizes para sempre depois dele a salvar de qualquer perigo.
Na prática, por exemplo, quando o príncipe, na história d' A Branca de Neve, a acorda do sono prolongado com um beijo, estou mesmo a ver a reacção verdadeira dela: - "Opá! Antes de irmos pró castelo, passamos numa loja porque eu tenho que comprar cremes... de dormir tanto estou com a pele um bocado seca". O príncipe subia pró cavalo e dizia "Hoje não dá, querida. Para irmos à loja mais perto temos que fazer um desvio de trezentos quilómetros". A Branca de Neve deitava-se outra vez e amuava. O príncipe, depois de telefonar para o castelo a anular uma reunião importante, lá acabava por ceder. Depois pararem cinquenta e quatro vezes durante o caminho, ou porque ela estava cansada, ou queria mijar ou tinha dores de cabeça, ela tornava a amuar porque o cartão VISA dele tinha abanda magnética estragada devido à viagem.
Isto sim, seria educar os futuros homens deste país.

xadrez 10

acordei

hoje acordei de manhã, mesmo de manhã, pela primeira vez em meses. Para ser sincero, há um ano que eu não acordava às sete e vinte e seis da manhã, levantava-me e ia tomar café. O índice ivariano sobe dois valores... para dezasseis.

telemóveis

Ontem encontrei um telemóvel no comboio. Esperei que alguém ligasse e atendi. Disse que tinha encontrado o telemóvel e queria encontrar o dono. Do outro lado um gajo, que em vez de cérebro tem um pedaço pequenino de cloaca de galinha, disse-me que não me dava a morada de ninguém e que eu tinha que ir a Rio Tinto entregar-lhe o telemóvel. Mandei-o foder, literalmente. Entretanto atendi mais duas pessoas, diferentes, que se disseram mãe da menina dona do telemóvel, e deram-me duas moradas diferentes para eu enviar o achado pelo correio. Hoje entreguei-o na polícia.
Há bocado uma delas telefonou-me para o meu número (que eu, na minha boa fé, tinha dado ontem). Eu disse-lhe para ir à polícia e expliquei-lhe que, cada pessoa só costuma ter uma mãe, e como aquela parecia ter duas eu não sabia em qual delas acreditar. A tipa pergunta-me como é que era o telemóvel que eu tinha encontrado. Pergunte à sua filha, disse-lhe eu. Foda-se (só em pensamento).

6.27.2007

conversa 260

Ele - Porque é que não vais em frente?
Eu - Sei lá.
Ele - Foda-se! tens trinta e cinco anos, pá.
Eu - Eu sei.
Ele - Passaste demasiado tempo casado.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

pensamentos catatónicos (82)

Tinha prometido a mim mesmo que... sei lá... que não me ia meter noutra tão cedo...

conversa 259

Ela - Vivia com o meu gato desde os dezasseis anos. Casei-me aos vinte e dois e divorciei-me aos vinte e seis. O meu ex-marido foi-se. O gato continua.
Eu - Hum... eu tive uma tartaruga.
Ela - É parecido mas não largam pêlos. Eu sou mais tolerante aos gatos do que aos homens.
Eu - Se calhar também sou mais tolerantes às tartarugas do que às mulheres.
Ela - Pois.
Eu - Mesmo assim dei a minha.

conversa 258

Ela - Tu estás estranho?
Eu - Estranho?! Eu?! Não...
Ela - Estás, estás...
Eu - Não estou nada.
Ela - E não é normal estares tantos dias sem me telefonares...
Eu - Também não é normal passar semanas a telefonar a alguém com quem quase não saímos... só falamos pelo telefone...
Ela - Estás a ver? Estás estranho...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

azeitonas

Fixem bem este projecto inovador: Os Azeitonas. Fizeram a melhor música desde 1873 até 2009. Quer dizer, pelo menos a letra é fantástica, e eu dou muita importância às letras...

crónicas da cidade que sopra | segredos do verão passado

Amanhã, no Diário de Aveiro, é publicada mais uma crónica da cidade que sopra.

É um segredo. Uma mulher encostou-se à sua própria sombra, na parede do quarto, e pinta as unhas dos pés de vermelho vivo. Vai apoiando, um a um, os dedos dos pés no dedo indicador duma das mãos, enquanto com a outra pincela-os com vestígios de vida. Tão viva, que finalmente ela sente-se a acordar da solidão que a aconchegou durante a noite. Daqui a pouco vai sair de casa, para cumprir mais um dia num emprego onde se habituou a contar o tempo. As horas, os minutos e os segundos. Vai calçar uns sapatos fechados, deixando as sandálias a asfixiar num saco de plástico onde as arrumou no fim do Verão passado, e por isso só ela é que sabe que tem as unhas dos pés pintadas. É um segredo.

6.26.2007

conversa 257

Ela - Há uma regra de ouro nas amizades coloridas: uma queca tem que equivaler a uma semana de silêncio. Isso evita paixões.
Eu - Mas eu não quero evitar paixões. Paixão não significa casamento e vida conjugal, nem sequer monogamia.

eu gosto é do Verão

Ando com esta música no ouvido e, como a encontrei na net, passo-vos o link rapidshare. Divirtam-se!
Na primavera o amor anda no ar / Na primavera os bichos andam no ar / Na primavera o pólen anda no ar / E eu não consigo parar de espirrar
No Verão os dias ficam maiores / No Verão as roupas ficam menores / No Verão o calor bate recordes / E os corpos libertam seus suores...
Eu gosto é do Verão / de passearmos de prancha na mão / Saltarmos e rirmos na praia / de nadar e apanhar um escaldão / E ao fim do dia bem abraçados a ver o pôr do sol / Patrocinado por uma bebida qualquer
No outono a escola ameaça abrir / No outono passo a noite a tossir / No outono há folhas sempre a cair / E a chuva faz os prédios ruir

No inverno o natal é baril / No inverno ando engripado e febril / No inverno é Verão no Brasil / E na Suécia suicidam-se aos mil...


conversa 256

(com um amigo meu que pagou para se inscrever num site de encontro amorosos, enquanto eu o via a procurar mulheres na base de dados)

Eu - Mas... a maior parte não tem fotografia.
Ele - Pois... quando não têm fotografia é porque são um bocado gordas...
Eu - Ou tímidas, não é?
Ele - Geralmente é por causa do peso.
Eu - De certeza?
Ele - Sim. Já percebi isso...
Eu - Ena. Há éne de Aveiro. Não fazia ideia...
Ele - Pois há, vês? Em Aveiro é só miúdas... Devias inscrever-te nisto também...
Eu - Quanto custa?
Ele - 29 euros por mês.
Eu - Foda-se. Não sei porquê mas não acho que seja a melhor forma de conhecer miúdas.
Ele - És um forreta.
Eu - A sério. Acho mesmo uma tanga. Mesmo para gostar a sério duma que se conhece pessoalmente já é tão raro. Não me vou meter nessa merda, pá.
Ele - Daqui a uns anos, quando tiveres a minha idade e ainda estiveres na merda, logo te inscreves.
Eu - Eu não hei-de chegar aos 44 anos sem encontrar alguém.
Ele - Eu também pensava isso... na tua idade.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

leituras...

O JMO quer saber quais foram os últimos cinco livros que eu li. Aqui estão, com passagens e tudo. Nenhum tem a ver com mulheres.


1] Como Nunca se Esquecer de Baixar a Tampa da Sanita, de Walter Klism, 2007
Os primeiros três divórcios da minha vida foram por causa de tampas de sanita. Quando elas iam à casa de banho e se punham aos gritos, eu já sabia o que era: tinha-me esquecido de baixar a tampa da sanita. Foi por isso que, a partir do meu quarto casamento, procurei estratégias para que tal nunca mais me acontecesse. Hoje, posso-vos garantir, o meu décimo segundo casamento já vai em duas semanas e ainda não me esqueci uma única vez de baixar aquela merda. Foi para evitar que se casassem tantas vezes que escrevi este livro.


2] Como Perceber se a Mulher quer Realmente Comer as Entradas Quando se Vai a um Restaurante, vol.III , de Jack Hall, 2004
A primeira vez ela limitou-se a abanar a cabeça em forma de negação. Eu mandei as entradas de camarão para trás, pois estava teso que nem um carapau e já sabia que ia pagar a conta com o cartão VISA. Mandei vir o vinho e ela disse que aquele tinto devia ficar bem com o camarão. Tremi logo. Jantámos um prato de peixe, um de carne, duas sobremesas cada um e no fim perguntei-lhe se tinha gostado. Ela disse que sim e abraçou-me. Depois disse que só tinha faltado camarão.


3] O suicídio Não é Solução, de Ingmar Blood, 2001
Ele tentou matar-se quando ela lhe perguntou se ele a considerava o amor da vida dele ou apenas um objecto sexual. Sabia que, qualquer que fosse a resposta dada, os próximos dias iam ser um inferno. Atirou-se do quinto andar mas não morreu. A queda foi amortecida por um automóvel que ia a passar cheio de romenos lá dentro e com um colchão em cima. Esteve em coma, no hospital, seis meses. Quando acordou pela primeira vez, ela lá estava, cândida e bonita como sempre. “Não me chegaste a responder se eu sou o teu amor ou apenas um objecto sexual”- disse.


4] Contornando Silêncios no Casamento, de George Prostat, 2005
Quando ela não fala durante mais de cinco segundos consideramos um silêncio. Há silêncios de vários níveis, consoante a duração e a cara dela. O silêncio mais temível é o silêncio de nível oito, que é aquele em que ela pega, por engano, na nossa camisola preferida, e limpa o chão da casa de banho com ela.


5] Escolhendo a Prenda de Aniversário, de Eduard Gift, 2005
Ela vai sempre dizer que gostou muito, no momento em que desembrulha a prenda. Não ligue. Apenas duas semanas depois, mais ou menos, é que é possível o leitor perceber se ela realmente gostou da prenda ou não. Normalmente, mas isso varia de mulher para mulher, o primeiro sinal de que ela não gostou, é a sua garrafa de uísque preferida, aquela que andava a guardar há anos para quando o seu clube de futebol preferido fosse campeão, aparecer todos os fins de tarde mesmo na beirinha da mesa de jantar. Ela está, nitidamente, à espera que a parta sem querer.

olhinhos

Estava a chover naquela noite. Ela disse-me que ia fazer olhinhos a um tipo que estava sentado, sozinho, a duas mesas de distância da nossa. Perguntei-lhe se queria me afastasse. Não, disse ela. Reparei que ele tinha um moleskine igual ao meu onde, nesse momento, batia com a ponta duma esferográfica. Queria escrever qualquer coisa mas não sabia o quê.
Estava a chover naquele dia. Ela afastou o copo de cerveja com a ponta dos dedos e atreveu-se. Impeliu-o com a crueldade dos seus brandos olhos. Eu abri o meu moleskine. Queria escrever qualquer coisa mas não sabia o quê.
Estava a chover naquela noite. Pelo canto do olho vi-o a rasgar uma página do caderno. Ninguém rasga páginas dum moleskine, pensei. Depois levantou-se e caminhou até à nossa mesa. Abriu-lhe a palma da mão e, nela, agasalhou o papel dobrado fechando-lhe os dedos. Segredou-lhe qualquer coisa e saiu.
Estava a chover naquela noite. Ela abriu a mão e deu-me o papel a ler. Era um número de telefone. Telefona-me, tinha-lhe ele pedido. Ela riu-se e assumiu um ar de vitória. Estava no pódio. Lá em cima.
Estava a chover naquela noite. Bebemos mais uma cerveja e, depois, talvez ainda outra. Demorámos mais meia-hora. Quando saímos do bar ele estava cá fora, encharcado pelo logro húmido. Nessa noite, antes de adormecer, finalmente escrevi qualquer coisa. Lembrei-me dum Natal em que abri, por engano, uma prenda do meu irmão. Era um avião que não chegou a ser meu.

conversa 255

Eu - Pois... eu percebo-te. Acho que também sou um homem de quem muitas mulheres gostam um bocadinho mas nenhuma gosta muito.
Ele - Não cries esse estigma. Há muitos factores a ter em conta para uma relação dar certo.
Eu - Mais ou menos. Não me estou a queixar. É uma questão estatística.
Ele - A estatística admite erros...
Eu (risos) - Fixe. Andamos todos à procura do erro, então?
Ele - Exacto.

6.25.2007

conversa 254

Eu - Uma tosta de queijo e um fino, por favor.
Ela - Tostas de queijo não temos...
Eu - Mas está ali escrito na parede "tostas mistas".
Ela - Sim, tostas mistas fazemos.
Eu - Então... se faz tostas mistas não é capaz de fazer uma só com queijo?
Ela - Ah! Quer uma tosta mista sem fiambre. É isso?
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 253

Ela (pousando o café) – A sua esposa saiu daqui agora há bocadinho.
Eu – Não deve ter saído.
Ela – Saiu, saiu. Era ela...
Eu – Ok. Obrigado.
Ela – Dantes os senhores vinham aqui os dois. Ela agora tem vindo sozinha. O senhor deixou de aqui vir...
Eu – Pois. Também não pretendo voltar mais vezes.
Ela – Ela vem muito aqui...
Eu – Posso tomar o café sozinho?
Ela – Pode, claro. Aliás, vai ter que o tomar sozinho. Não está com mais ninguém.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

conversa 252

Eu - Epá, desculpa lá. Quando me ligaste estava mesmo cheio de sono. Não te podia aturar...
Ele - Tudo bem. Desculpa lá ligar-te àquela hora da manhã...
Eu - Estás melhor?
Ele - Mais ou menos. A XXXXXX já voltou.
Eu - Fixe, então estás melhor...
Ele - Mais ou menos...
Eu (risos) - Mais ou menos não existe nesta merdas, pá. Deixa-te lá disso.
Ele - O que é que achas que eu devo fazer?
Eu - Tu é que tens que saber...
Ele - Mas eu não sei.
Eu - Às vezes sabemos e não queremos assumir que sabemos.

objectores de consciência

O Hospital Infante Dom Pedro já tem a Mifepristone, pílula abortiva usada na interrupção voluntária da gravidez. Também já iniciou o processo de aquisição da máquina de aspiração do feto. O artigo do semário "O Aveiro", em que li a notícia, diz ainda que apenas 30% dos 15 obstetras se declarou objector de consicência e que, por isso, a falta de recursos humanos para efectuar a IVG não se deverá colocar.
Mas... um funcionário público pode ser objector de consciência a uma das competências básicas do seu trabalho? Uau, eu também me vou declarar objector de consciência em tudo o que faço...

não gosta de homens ingleses, diz ela

A top model brasileira Gisele Brundchen, segundo o JN de hoje, não gosta de homens ingleses. Não é capaz de explicar a razão, simplesmente não gosta. Estava a pensar naturalizar-me inglês. Já não o faço.

6.24.2007

embriaguez

da elora, um comentário sobre emoções que promovo a post, até porque não se aplica só às relações amorosas entre pessoas, mas também entre governadores e governados, vendedores e clientes, patrões e trabalhadores, a minha vizinha de cima e o homem baixo que vive no rés do chão do prédio ao lado: O poder embebeda.

conversa 251

Ele - Tás acordado?
Eu - Acordaste-me...
Ele - Preciso falar contigo...
Eu - Deitei-me eram quase sete da manhã. Tenho que dormir mais um bocado...
Ele - A XXXXXX deixou a casa.
Eu - Deixou a casa ou deixou-te a ti?
Ele - Deixou-me a mim e foi-se embora.
Eu - Epá... era pior se te tivesse deixado e não tivesse ido embora. Deixa lá isso.
Ele - Foda-se!
Eu - A sério. Depois telefono-te. Tenho mesmo que dormir...

total Bagaço Amarelo's friends party

Na segunda-feira à noite o Bagaço Amarelo passa música no melhor bar do mundo. Entretanto vão-se preparando para o próximo dia 27 de Julho, dia em que, no Riff bar, há uma total Bagaço Amarelo's friends party, seja lá isso o que for. Mais informação oportunamente. :)

conversa 250

Ela - Eu já senti que tenho um certo poder sobre ele já comecei a abusar.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

6.23.2007

14 e pronto

Sinto-me a entrar num boa fase da vida. Apetece-me sair de casa sem nada combinado com ninguém e andar por aí... até me apetecer estacionar num bar qualquer à noite.
Acho que tenho uma relação de amor com Aveiro, e embora lhe reconheça defeitos nem sempre me apetece apontá-los. Hoje vou ser um glóbulo branco nas sua artérias. Apetece-me.
O índice ivariano sobe dois valores, fixando-se agora em 14. Como é que se escreve 14? É catorze ou quatorze?

conversa 249

Ela - Tu tens 35 anos?
Eu - Sim. Vou fazer 36 em Julho...
Ela - Não parece nada. A sério. Pareces muito mais novo.
Eu (só em pensamento) - Coooooooooooooooooool!

vida difícil

Este fim de semana está a ser difícil. Ontem fiz um jantar lá em casa e, quando demos por ela, eram quase seis da manhã. Estive agora a arrumar a casa e percebi que sete pessoas beberam quatro cervejas e oito garrafas de vinho tinto (várias marcas sempre alentejanas). Boa marca.
Hoje à tarde fui à praia comer areia, mas ainda deu para dar um mergulhito no mar. É difícil... a sério que é difícil...

6.22.2007

conversa 248

(borboleta, é sobre ti, esta)

Ele - Opá, adoro ler o blog daquela tua leitora...
Eu - Qual?
Ele -A borboleta. Escreve duma forma mesmo bonita.
Eu - Olha... ela é daí do Porto.
Ele - Eu sei...
Eu - É simpática, sim.
Ele - Desmond Morris diz que a forma como as mulheres escrevem é proporcional à beleza. Já leste?
Eu - Não.
Ele - Ela é bonita de certeza.
Eu - Como pessoa, pelo menos, é. Isso é o mais importante, não é?
Ele - É. Tens razão

pensamentos catatónicos (81)

Há mulheres que são capazes de fazer dum homem um ió-ió. Puxam, largam, puxam, largam. E um gajo vai... até que o fio parte.

conversa 247

(na net com alguém que se diz leitora deste blog)

Ela – O teu blog é verdadeiro?
Eu – Verdadeiro?
Ela – As conversas são verdadeiras?
Eu – Isso não se pergunta.
Ela – Não posso perguntar?
Eu - Podes. Mas eu não respondo.
Ela – Sabes porque é que nunca comento?
Eu – Não.
Ela – Porque acho que tu nem sequer és divorciado. Se calhar até és uma gaja.
Eu – Uau!
Ela – Pois.
Eu – É a primeira vez que me dizem isso. Tá fixe.
Ela – Tenho a certeza que se eu marcasse um encontro contigo nem aparecias.
Eu – E ela tinha bigode
Ela - ??????????
Eu - Ups... desculpa. Isto não era para ti. Era para outra conversa.
Ela - Quem é que tinha bigode?
Eu - Uma inglesa.
Ela - Tás a dizer isso a um gajo ou a uma gaja?
Eu - A uma amiga.
Ela - Tás a mentir.
Eu - Pois... mas tu tens razão.
Ela - Tenho?
Eu - Sim. Se marcasses um encontro comigo eu não aparecia.

a lei da selva

Não acrescento nem tiro uma única palavra a este texto de Manuel António Pina...

Almeida Garrett perguntava-se no século XIX quantos pobres seriam necessários para fazer um rico. Em Portugal, no século XXI, a resposta é 10. De facto, para que a situação económica em Portugal seja hoje "boa" para uns poucos ("bastante boa" para 8%, "muito boa" para 2% e decerto "muitíssimo boa" para a meia dúzia do costume), é "má" ou "muito má" para 90% dos portugueses. Os números são do Eurobarómetro, agora divulgado em Bruxelas, onde Portugal surge na cauda da Europa quanto à satisfação dos cidadãos com a situação económica. A jangada de pedra portuguesa vai à deriva a caminho do Terceiro Mundo e a responsabilidade não é de ventos e marés, é da marinhagem neo-liberal que nos tem conduzido. Os últimos governos de Portugal (o seu a seu dono do PS, do PSD e do CDS, todos "sociais" ou "socialistas" de nome) são os recordistas europeus da produção de pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos. E a coisa não ficará por aqui. Em 2008, iremos ter os piores aumentos salariais entre os países da OCDE. Um aumento real de apenas 0,2%, enquanto no resto da UE os aumentos vão ser de 1,4%. E os desempregados serão 7,1%, contra 6,6% na UE. O problema da desigualdade em Portugal já não é económico ou financeiro, é moral.

in Jornal de Notícias, 22 de junho de 2007 [Manuel António Pina]

coisas que fascinam (54)

É bom poder falar horas a fio de coisas que não interessam para nada, a não ser precisamente para serem faladas por pessoas que se gostam mas ainda não têm assunto.

coisas sobre mulheres que leio nas portas de casas de banho públicas (2)

Adriana adobeir komer a tua mães

casa banho do centro multimeios de espinho, quarta porta.

abro os olhos pela primeira vez no dia

Abro os olhos pela primeira vez no dia, e ouço o vaivém das pestanas a tocar no lençol. O corpo ainda não moveu nenhum dos seus componentes. Nem um lábio, nem um dedo, nem um braço, nem uma perna. Só as pálpebras piscaram duas ou três vezes. Talvez quatro, não interessa.
Abro os olhos pela primeira vez no dia, e agasalho-me no silêncio opaco que dormiu a noite toda ao meu lado. Quieto. O rádio observa-me. O despertador também, a toalha pendurada na porta também, as gavetas abertas do camiseiro também.
Abro os olhos pela primeira vez . Conto os dias a partir de hoje, que o nascimento de Cristo não me interessa mesmo nada. Nem sei bem que é o gajo. Sei que este é o dia zero, e se a vida são dois dias zer0 tem que amar doi2. Talvez possam até sair esta noite.

mulheres que eu gostava de poder não compreender (55)


nome: Carice van Houten
origem: Leiderdorp, Holanda
info: Nasceu em 1976. Vi-a agora no último filme do Paul Verhoeven, Black Book, e, para quem viu o filme, prometo que vou começar a coleccionar selos. Não digo mais nada...

a prostituta judia

O JN de hoje avança com uma teoria nova para justificar o holocausto: o Hitler era um putanheiro e apanhou sífilis por causa disso. Como se convenceu que apanhou a doença através duma prostituta judia decidiu matar todos os judeus do planeta. Hum... hum... hum...
Se isto for verdade, e mais uma vez, a culpa toda é duma mulher e não dum homem. O gajo até era um tipo porreiro, pá: ajudava velhinhas a atravessar a rua, comprava rebuçados às crianças da rua, etc, etc. Mas depois meteu-se com uma mulher...

conversa 246

Ela – Se amanhã chover ainda vou ao jantar em tua casa.
Eu – Só se chover?
Ela – Sim. Se não chover tenho coisas mais interessantes para fazer.
Eu (só em pensamento) – Foda-se!

6.21.2007

a mulher gorda

Uma das coisas a que sobrevivi (intelectualmente) quando era puto, foi a uma série de gajos com tambores a cantar uma música completamente idiota a que chamavam “a mulher gorda”. Eu tinha doze anos e ia sempre ver os jogos do Beira-Mar fora de Aveiro. Gostava muito, mas no autocarro aquilo é que era sofrer, horas a fio com meia dúzia de homens a tocar tambor e a obrigar os passageiros todos a fazer coro daquilo. Nunca percebi como é que nunca houve nenhum acidente. A letra da música era assim:

A mulher gorda a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com as banhas de ninguém.
A mulher magra a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com o esqueleto de ninguém.
A mulher alta a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com o escadote de ninguém.
A mulher baixa a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com as muletas de ninguém.
A mulher doutora a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com os volumes de ninguém.
A mulher do Mickey a mim não me convém. Eu não quero andar na rua com a rata de ninguém.
A mulher bonita a mim já me convém. Eu só quero andar na rua com a beleza de alguém

O refrão, que se repetia insistentemente entre os versos, era assim: Ai, Ai, Ai, Ai, eu gosto dessa mulher. Quero tê-la ao pé de mim, beijá-la quando quiser

Podem achar esquisito, mas numa letra tão estúpida quanto esta há algo de surpreendente. Algo que, conscientemente, se aparta dos métodos cognitivos habituais no ser adulto, para se aproximar oniricamente da herança do surrealismo que André Breton sonhou. É algo que nos liberta para um mundo melhor, onde os laços emocionais entre o homem e a mulher se tornam leve e sujeitos apenas à correnteza da imaginação. Resumindo... o que é aquela merda ali do Mickey e não querer andar na rua com a rata de ninguém? Foda-se, pá. Metem uma criança nisto, depois querem que ela, já adulto divorciado, seja normal...
Ah! de resto a letra é super romântica, isso é...

conversa 245

Acabei de receber um telefonema muito estranho, supostamente duma empresa de Viseu que marca encontros com alguém que, depois de uma profunda análise, nos marca um encontro com uma mulher que encaixa no nosso perfil. Fartei-me de perguntar à senhora onde é que tinha arranjado o meu número de telefone mas ela não me explicou. Acabei por perder a paciência e ser antipático. Juro que não atendo mais chamadas quando não der para ver o número de origem. Foda-se (só em pensamento).


Ela – Depois duma profunda análise ao perfil de ambos chegámos à conclusão que devemos marcar um encontro...
Eu – Mas como é que arranjou o meu número de telefone?
Ela – Somos uma empresa de meeting e...
Eu – De quê?
Ela – Meeting... temos a maior base de da...
Eu – Mas eu não me inscrevi em nada. Tem que me dizer como é que arranjou o meu número de telefone...
Ela – Somos uma empresa... temos aqui o perfil duma candidata de Viseu...
Eu – Não me interessa o que são. Como é que arranjou o meu número de telefone?
Ela – Estou a perceber aqui um problema qualquer...
Eu – Eu não me inscrevi em nada, não quero conhecer gaja nenhuma de Viseu e não quero que me telefone mais. Fui claro?
Ela (desligou)