3.18.2009

pensamentos catatónicos (170)

atirar pedras a satélites

No liceu tive uma paixão assolapada por uma miúda que nunca me ligou nenhuma. Eu nem sequer a conhecia mas, como quando tinha a coragem de a olhar directamente nos olhos durante mais de três segundos ela simplesmente me ignorava, nunca passei a fronteira da timidez que me impedia todos os dias de ir falar com ela.
Lembro-me que acabei por aceitar a derrota e, como uma embarcação desgovernada pelas ondas agitadas duma paixão adolescente, permitia-me apenas espreitá-la a espaços sem que ela o percebesse.
Numas férias ela desapareceu e não voltou. Percebi-o logo nos primeiros dias de aulas e, enfraquecido por uma onda mais forte desse mar revolto, houve uma noite em que nem um jogo de bilhar com amigos me apeteceu terminar. Saí do café sem responder às perguntas preocupadas dos meus companheiros como que à procura de algo que sabia que não podia encontrar. O meu melhor amigo saiu um pouco depois e encontrou-me lá afora a atirar pedras ao céu.

- O que é estás a fazer? - perguntou-me ele enquanto me tentava passar uma cerveja para a mão.
- A tentar acertar em satélites. - respondi num mistura de riso e choro.
- É por causa dela?
- Sei lá.
- Não vais acertar em nenhum satélite. Anda jogar...
- Se atirar uma pedra com muita força talvez a pedra caia ao lado dela, esteja ela onde estiver...

Atirar pedras a satélites é uma coisa estúpida, admitir que é o que se está a fazer ainda é mais e acreditar que uma dessas pedras pode cair ao lado duma mulher que nem sequer sabe que existimos é mesmo o cúmulo da estupidez. Mesmo assim ele percebeu o que eu estava dizer, sentou-se ao meu lado no chão e ficou em silêncio.
Às vezes acho que em adultos nunca arranjamos amigos como na adolescência...

27 comentários:

Inês disse...

Eu dou sempre muito valor aos amigos da adolescência. Afinal conseguiram passar connosco aquela fase em que ninguém sabe com que disposição vamos acordar.
São os únicos que podem testemunhar (e relembrar) o que nos custou crescer :)

joaninha versus escaravelho disse...

Muito bonito! Mesmo muito bonito! :)

calamity disse...

Volta às conversas, pá!
Sarna de gajo!

Man Next Door disse...

É daquelas histórias que me emocionam. Quando se tem aquele nó que nos aperta a garganta em demasia, qualquer gesto se pode tornar compreensível.

Esse pormenor dos olhares até aos 3 segundos, ainda hoje os faço.

E os amigos, sim. Concordo. A inocência tem dessas coisas.

carl@ disse...

A adolescência é uma etapa muito bonita da nossa vida, apesar das grandes transformações, crises e mudanças por que passamos.. e os amigos dessa fase são os melhores, sem dúvida! uma compreensão e lealdade que é própria dessa idade, não sei... uma "ligação directa" única.. olha, deixo aqui estas minhas tontices.

;)

Helder Santos disse...

Faz parte da adolescência... o problema é quando continua para além dessa fase. No entanto os bons amigos não têm faltado. Disso não me queixo...

Está muito bem escrita e sinto-a como real... Obrigado!

bagaco amarelo disse...

inês, exacto... por isso é que só nessa fase se percebe que um amigo atire pedras a satélites. :)

joaninha vs escaravelho, :)

calamity, lol. :)

man next door, três longos segundos e ao mesmo tempo tão curtos... :)

carl@, não são tontices. obrigado :)

helder santos, ainda bem que tens amigos... e obrigado eu, por estares aí. :)

Lili disse...

nada disso é estúpido se tiveres em conta que naquele momento para ti fez sentido e te marcou :P
atirar pedras a satélites, com um amigo como testemunha e cúmplice, por causa de um grande amor, é fofo - fico-me pela simplicidade do "é fofo" porque a meu ver, tanto na adolescência como no resto da vida, a amizade e o amor devem ser feitas disso mesmo... :)

Kika disse...

Amigos, aqueles com que enchemos a boca para dizer o meu/minha amigo/a, com um orgulho enorme só existem os da adolescência.
Outros que possam vir depois não conseguem atingir o grau de identificação mutua que era atingivel quando se era mais novo.

Edgar aka the-iguana disse...

wow. brutal... :o
*bate palmas*

bagaco amarelo disse...

lili, pois... eu não acho que a estupidez seja sempre má... mas tens razão. aliás, se eu achasse isso estva tramado. :)

kika, concordo contigo sim. os melhores amigos que tenho hoje ainda são os que vêm da adolescência. :)

Edgar aka the-iguana, tão brutal que ainda me lembro como se fosse hoje. :)

Joana disse...

Eu consegui arranjar desses amigos em adulta. Daqueles que nos pressentem e que por isso nos dão agradáveis surpresas :)
Muito bonito o texto.

Bichana disse...

Fantástico post...
Na vida adulta também temos amigos desses sim...

bagaco amarelo disse...

joana, ainda bem que conseguiste... deves ter conseguido porque também o és. :)

bichana, vamos tendo... :)

AnNa disse...

Há momentos nas nossas vidas que podemos dizer que nos vão acompanhar para sempre e este é, sem dúvida, um deles!

Este, para mim, é o exemplo de um amor puro, ainda que por ti determinado, proíbido mas que não deixou de ser vivido.

Melhor ainda, foi ter alguém com quem o partihar. Amigos conquistados na adolescência são únicos, verdadeiros e sentidos!
Eu não seria capaz de viver sem eles!

Beijinho *

Closet disse...

Eu já dei por mim a atirar pedras ao mar, pedras que levei nesse dia de propósito para atirar lá...de certa forma acho que acreditava que estava a afogar algo...às vezes é importante "acreditar" mesmo que não faça muito sentido.

pieces of me (Luna) disse...

E esses amigos sao para manter, e as paixoes platonicas sempre serao lembradas.. Eu tive uma assim parecida =)

beijinhoo

Salseira disse...

"Às vezes acho que em adultos nunca arranjamos amigos como na adolescência..."

Não será porque em adultos achamos que "atirar pedras a satélites é uma coisa estúpida"?

Ou porque achamos que "admitir que é o que se está a fazer ainda é mais"?

Ou ainda porque achamos que "acreditar que uma dessas pedras pode cair ao lado duma mulher que nem sequer sabe que existimos é mesmo o cúmulo da estupidez"?

sem-se-ver disse...

podes crer.

Catarina disse...

Gostei tanto deste texto... Gosto do teu blog. Dos teus textos sobressai uma pessoa boa, bem formada, com uma sensibilidade, uma perspicácia e um sentido de humor especiais!
E acho piada responderes a todos os comentários, significa que és um anfitrião bem educado.
Acho que já te elogiei demais! Portanto aproveito agora para te dizer que não gosto nada da camisola às riscas da "fotografia"!!! :-)

bagaco amarelo disse...

anna, tens razão. eu também não poderia viver sem eles. :)

closet, atirar pedras ao mar sempre é mais exquível do que acertar em satélites... é melhor. :)

pieces of me (Luna), as paixões platónicas são o que ficam da adolescência. isso e tocar às campainhas. :)

salseira, tens razão: eu também não sei. sei é que perdemos muito com isso. :)

sem se ver, :)

catarina, admito que estou corado. obrigado pela simpatia e por um bom momento. :)

elisa disse...

ahh, tens certamente amigos sensíveis que reconhecem a poesia de atirar pedras a satélites. Eu tenho uma, que não são se senta ao meu lado mas se junta e atira as suas própias pedras. E já se sabe, duas a atirarem pedras valem mais do que uma só:)
Bom fim de semana para ti!

bagaco amarelo disse...

elisa, tens razão, sim. :)

Ominona disse...

Gostei muito, penso que todos nós à nossa maneira também atiramos pedras a satélites na adolescencia ;)

Abraço!

Red disse...

começo a achar que sim, que não se fazem em adultos amigos como esses..por isso vou tentando conservar os meus enquanto cresço.. ;)

redonda disse...

Acho que arranjamos sim, em qualquer idade é preciso é sorte.


E se ela era míope? Deverias ter ido falar com ela ou tentar encontrá-la agora.

bagaco amarelo disse...

ominona, também acredito que sim. :)

red, fazes muito bem. :)

redonda, já tentei... :)