2.10.2013
2.08.2013
respostas a perguntas inexistentes (246)
Às vezes vou a casa duma amiga minha beber uma caneca de chá. Digo-o assim porque, por mais tempo que passe, é sempre para um chá que ela me convida. Seja de manhã, à tarde ou à noite, telefona-me de vez em quando e pergunta-me se quero ir beber chá. Admito que, não sendo um grande adepto dessa bebida, gosto muito do que ela faz e bebo-a com uma dose acrescentada de prazer. Não sei como é que ela faz, mas sei que para além de mergulhar a saqueta com uma planta qualquer na água a ferver, acrescenta ainda mais alguns ingredientes. Canela é um deles.
Há uns tempos, por qualquer motivo, acabou o assunto entre nós assim que ela me deu uma segunda caneca para beber. Eu tinha acabado de lhe dizer que gostava muito do chá dela, especialmente em noites frias como aquela, e ela tinha-me perguntado se eu queria aprender como é que se fazia.
- Não. - Respondi.
Não se sentiu ofendida. Calou-se, tal como eu, e encostou-se para trás no grande sofá da sala. Fez-se silêncio. Bebi todo aquele líquido saboroso em pequenos e delicados goles, para não fazer barulho. Não sei quanto tempo demorei, mas talvez uns quinze ou vinte minutos. O que eu sei é que foram quinze ou vinte minutos de tranquilidade total. Conseguia ouvir o respirar dela e, penso eu, o meu próprio bater do coração.
Depois, quando a caneca chegou ao fim, lá lhe expliquei porque é que não queria aprender a fazer o chá.
- Mesmo que me ensinasses a fazer este chá e mesmo que o conseguisse fazer da mesma forma, nunca ia ser igual. Já me habituei a bebê-lo aqui na tua casa, e é a estes momentos que eu associo este sabor e este conforto.
Ela sorriu. Percebeu, ou fingiu perceber, o que eu lhe tinha dito. Despedi-me e saí passado pouco tempo. No caminho para casa, de mãos nos bolsos e o casaco apertado até ao queixo para me proteger do frio, fui a pensar em como é confortável ter momentos destes. Pensei que nunca na vida conseguiria explicar a alguém a sua importância, até porque dizer que um dos momentos especiais que se tem na vida é quando se vai beber chá a casa duma amiga, pode parecer bizarro.
Foi nessa noite que decidi voltar a brincar com sons e experimentar fazer umas músicas. Estive até às quatro ou cinco da manhã a trabalhar e, assim que acabei, encontrei a minha amiga online no facebook. Mandei-lhe o mp3 por email e perguntei-lhe se ela conseguia ouvir tudo até ao fim.
Esperei uns minutos. Os cinco minutos e três segundos que a música tem e mais um bocado, sempre a olhar para o espaço em branco onde as letras escritas por ela apareceriam supostamente em qualquer altura. Era como se estivesse a olhar para o futuro e ele não quisesse ser presente.
Depois, por fim, ouvi o sinal de que tinha mensagem nova no facebook.
- É esquisita! - escreveu. - mas eu gostava de saber fazer músicas assim.
- Queres que eu te ensine a trabalhar com o software? - Perguntei.
- Não.
Não me explicou porquê.
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2.06.2013
conversa 1992
Ela - Já não te vejo há tanto tempo. Podemos tomar café amanhã à noite?
Eu - Podemos. Por acaso vou estar em Aveiro e sem nada para fazer.
Ela - Que pena. É que eu já tenho um jantar marcado...
Eu - Mas...
Ela - Depois ligo-te. Marcamos para outra altura!
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2.04.2013
respostas a perguntas inexistentes (245)
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2.01.2013
conversa 1991
Eu - Boa tarde. Tem fantasias para o Carnaval do Super Mário?
Ela - Do Super Mário acho que já não temos nada. Só do outro...
Eu - O Luigi?! Também serve...
Ela - De qualquer maneira para o seu tamanho não temos nada.
Eu - Hum... é para uma criança de oito anos. Não é para mim.
Ela - Ah! Então procure ali naquelas prateleiras, por favor.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!
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1.31.2013
conversa 1990
Eu - Ah!
Ela - Adoro tanto iogurtes que prefiro iogurtes a chocolate.
Eu - Hum, hum...
Ela - E olha que gosto muito de chocolate. Prefiro chocolate a aletria.
Eu - Ena!
Ela - E aletria é um dos meus doces preferidos desde criança...
Eu - Eu percebo...
Ela - Gosto mais de aletria do que de arroz doce, por exemplo. Mas adoro arroz doce.
Eu - Já não te via há muito tempo, mas parece-me que andas com uma fixação por comida.
Ela - Estou muito gorda, é?
Eu - Não, não estás. Falas é muito de comida.
Ela - Falo?
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1.30.2013
conversa 1989
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1.29.2013
respostas a perguntas inexistentes (244)
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1.26.2013
tudo isto é triste
Ela, uma ucraniana que não diz quantas cirurgias já fez para se parecer com a boneca lançada em 1959 pela Mattel, viajou até aos Estados Unidos para conhecer um homem que já fez cerca de cem cirurgias plásticas para se assemelhar ao popular boneco lançado nos anos sessenta pela mesma empresa. Conheceram-se, mas o Ken já fez saber que a considera "muito esquisita, muito formal e com falta de personalidade". Parece ser um casal sem futuro, portanto.
Eu defendo que cada um de nós tem direito ao seu próprio corpo e que, por isso, pode fazer com ele o que muito bem entender. Mesmo que esse entendimento passe por ficar igual ao Ken, à Barbie ou até ao Senhor Cabeça de Batata. Não os vou criticar, assim, por isso.
O que me assusta nisto tudo, é a forma como a sociedade mediática nos diz como deve ser o nosso corpo. Uma empresa lançou dois bonecos há mais de cinquenta anos e, entretanto, nasceu uma indústria que decide por nós o que é bonito e feio. Nos Estados Unidos há uma indústria gigantesca à volta de concursos de moda para crianças, em que o objectivo é ser o mais parecido possível com o Ken ou com a Barbie. Alguns pais investem milhares de euros nos seus filhos apenas com o objectivo de os vencer.
A própria moda emagreceu as mulheres, multiplicando os problemas de bulimia e anorexia na adolescência, colocando à margem social aqueles cujo corpo não se presta a tais semelhanças. A beleza deixou de ser uma contemplação e passou a ser uma violência.
Eu, como já referi aqui, defendo o direito de cada um ao seu corpo, e é por isso mesmo que me assusto com esta agressividade da indústria da moda, que nos tira esse mesmo direito sem sequer notarmos. Sem notarmos também, estamos a ceder todos os dias a nossa individualidade a um paradigma social que só tem um objectivo: servir um modelo de crescimento económico em que nada mais cresce a não ser ele mesmo. Nem os nossos salários, nem a nossa qualidade de vida, nem a nossa felicidade.
Tudo isto é triste.
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1.25.2013
conversa 1988
Eu - Este anos podíamos fazer uma sardinhada...
Ela - Sim, boa ideia.
Eu adoro sardinhas.
Eu - Eu também.
Ela - Ainda dizes que não nos entendemos. Estás a ver? Há uma coisa em que estamos em sintonia...
Eu - Sim, de facto. Adoro umas sardinhas com broa e pimento assado.
Ela - Com broa e pimento assado é que já não. Prefiro-as no prato com uma saladinha de tomate e alface.
Eu - Pronto... não é grave, desde que possamos escolher o mesmo vinho...
Ela - Eu não bebo vinho. No máximo bebo uma cervejinha, mas actualmente é mais água..
Eu - Isso lá é bebida para acompanhar sardinhas?!
la - Então não é?! Vamos para o campo assar umas sardinhas, levamos umas cervejas fresquinhas e a ver se não bebes...
Eu - Para o campo?! Sardinhas é na praia. Em Mira, por exemplo.
Ela - Não gosto de piqueniques na praia. É só areia!
Eu - Bem... se calhar é melhor pensar noutra coisa, sem ser uma sardinhada.
Ela - Talvez... umas fêveras de porco, por exemplo.
Eu - Não como carne vermelha, actualmente.
Ela - Bem, talvez seja melhor adiar este projecto e pensar melhor lá mais para a frente...
Eu - Talvez...
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1.23.2013
conversa 1987
Eu - Deves ter tido razão. Por acaso sempre te achei simpática.
Ela - Normalmente sou simpática, sim. Não tenho outro remédio.
Eu - Não tens outro remédio?!
Ela - Não, porque não sou assim muito bonita. Se fosse uma mulher daquelas mesmo muito bonitas, já podia ser uma cabra com toda a gente.
Eu - Ia dizer-te que te acho bonita, mas de repente achei melhor ficar calado.
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1.22.2013
o lugar das mulheres é na cozinha
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1.21.2013
meia hora de vida
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1.18.2013
conversa 1986
Eu - Ena! Mudaste as mobílias todas. Está fixe, assim.
Ela - Mudei ontem. Estava aqui em casa sem fazer nada e decidi aproveitar...
Eu - Espera aí! Mudaste este armário pesadíssimo sozinha? Deves ser a super-mulher...
Ela - Não foi bem sozinha. Vieram aqui dois mormons todos simpáticos, perguntaram-me se eu precisava de ajuda e eu aproveitei. Pus os homens a carregar alguns móveis...
Eu - E depois não tiveste que os aturar a falar de Deus?
Ela - Não. Assim que mudaram as coisas mais pesadas, ofereci-lhes um café e aproveitei para lhes dizer que sou ateia e que não não valia a pena chatearem-me com essas coisas...
Eu - E eles não ficaram chateados?
Ela - Claro que não. São mormons...
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1.16.2013
Amor à porta duma casa de banho
Estava a detestar a sensação de ver os assuntos entre nós morrer rapidamente. Eu dizia qualquer coisa e ela nunca tinha resposta. O mesmo se passava no sentido inverso. Era como se a nossa conversa fosse composta por peças de puzzles diferentes. Estava a detestar o facto, principalmente porque sabia que a Irina era mulher para se levantar e ir embora ao mínimo suspiro. É que a mim agradava-me estar perto dela, mesmo quando as conversas não passavam de meras tentativas de encontro, e aquele fim de tarde no café estava a saber-me bem.
Eu estava a folhear o mesmo jornal pela quinta ou sexta vez, apenas para justificar a minha presença ali. Assim, evitava estar a olhar para ela frente a frente, sem termos nada que dizer um ao outro. Acho que ela se apercebeu, porque a certa altura passei três ou quatro folhas sem sequer olhar para elas. Foi então que se referiu a um livro qualquer que andava a ler (não me lembro do autor nem do nome) em que duas pessoas se apaixonavam na porta da casa de banho dum café.
- Na porta da casa de banho dum café?! - Perguntei. - Foi assim que conheci a minha ex-mulher...
- Que lindo! E também decidiram fazer uma viagem os dois até um país distante?
- Não. Decidimos tomar café uns dias depois. Porque é que eu havia de fazer uma viagem com uma pessoa que eu mal conhecia?
Senti o peso do olhar desiludido da Irina por, mais uma vez, ter estragado uma conversa que estava a começar. A ela apetecia-lhe falar sobre uma surreal aventura amorosa qualquer, eu estava muito terra-a-terra nesse dia. Ela acabou, uns cinco minutos depois, por se levantar e despedir-se.
- Vou andando! - disse.
Pedi uma cerveja e fiquei ali mais uma meia hora sem fazer nada de interessante. Uma espécie de meia hora vegetativa a ter pensamentos que eu próprio não poderia descrever, como se não fosse eu a tê-los realmente e não passassem dum ruído de fundo qualquer. Do televisor, por exemplo.
Uma mulher entrou no estabelecimento e foi directamente à casa de banho. Ao abrir a porta bateu de frente num homem que ia a sair. Ficaram ali uns segundos a falar um com o outro e depois acabaram sentados ao balcão, lado a lado. Primeiro com um banco de intervalo entre eles, depois ele moveu-se para mais perto dela. Pareceu-me que era a primeira vez que estavam a falar, mas talvez já se conhecessem.
A minha coincidência desse dia foi outra. Se a Irina tivesse ficado mais algum tempo no café, talvez tivesse visto aquela cena e teríamos certamente motivo de conversa. Talvez ficássemos o dia todo um com o outro, jantássemos juntos, bebêssemos um copo num bar pouco frequentado ou fôssemos ao cinema. Não aconteceu. Acho que passei a vê-la com menos frequência desde esse dia.
Nunca consegui contar-lhe isto, principalmente porque sempre achei que ela ia pensar que eu estava a mentir.
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1.15.2013
conversa 1985
Eu - Okay...
Ela - Diz-me a marca da última cerveja que bebeste...
Eu - Sagres.
Ela - Diz-me o nome do último vinho que bebeste...
Eu - Hum... Azinhaga de Ouro. É um Douro tinto.
Ela - Diz-me qual foi o prato da tua última refeição...
Eu - Esparguete à Bolonhesa.
Ela - Diz-me a marca do último café que bebeste...
Eu - Delta.
Ela - Diz-me a marca do último preservativo que usaste...
Eu - Hum... hum... hum... epá...
Ela - Pronto, a tua vida corre bem em quase tudo. Parabéns...
Eu - Isso não é justo.
Ela - Ninguém disse que a vida era justa.
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1.14.2013
conversa 1984
Eu - Só se for rápido. Tenho que fazer e ainda vou ali comprar uma ou duas camisolas de poliéster.
Ela - De poliéster? Eu não deixo o meu marido usar poliéster.
Eu - Porquê?
Ela - O poliéster é uma fibra artificial. Ainda agora, nos saldos, lhe comprei umas camisolas de lã. Nem o deixo escolher...
Eu - Eu prefiro poliéster. Assim não me preocupo quando lavo a roupa. É que a lã encolhe, o poliéster não...
Ela - Eu lavo a roupa ao meu marido, precisamente para ele não a estragar.
Eu - Se lhe comprasses poliéster já o podias deixar lavar a roupa dele.
Ela - Hum... talvez vá contigo às compras e também lhe compro poliéster.
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1.13.2013
das coisas inúteis à inutilidade em si...
No vídeo que eu vi, a Pepa Xavier propõe-se a comprar a mala, não a roubá-la. Parece-me legítimo, o desejo, e compreendo-o. Aliás, desculpem-me os mais sensíveis, mas eu tenho vários desejos do género. Não com malas mas com objectos igualmente inúteis. Ou ainda mais, se calhar. Estou desempregado neste momento, mas continuo a tê-los. Há coisas caríssimas e sem utilidade que eu gostava de ter
Eu compreendo a Pepa. Não compreendo é um país que reage desta forma por causa duma mulher revelar um simples desejo. Aliás, gostava de saber, de todos os que disseram mal dela nestes dias, quantos é que estão preocupados com a inutilidade de mais um jogo de futebol entre duas sociedades anónimas desportivas marcado para este fim de semana. Estou a falar do Benfica-Porto e, pelo que tenho reparado no Facebook e nos jornais, são muitos. É só um exemplo. Podia arranjar mais.
O meu problema é que até acredito que há aqui uma questão de género. A Pepa foi crucificada por ser mulher e querer uma carteira. Se fosse um homem a desejar estragar um automóvel com um tunning estúpido qualquer, a reacção seria mesma? Fica a pergunta.
E hoje, entre o Benfica e o Porto, que percam os dois. É o desejo de alguém que gostava de ter uma Playstation 3...
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1.11.2013
respostas a perguntas inexistentes (242)
Uma vez conheci uma mulher que fazia colecção de molas de roupa. O mais estranho é que, à época, ela nem sequer lavava ou secava a própria roupa. Levava-a a casa dos pais, pelo menos pelo que me disse no dia em que a conheci. Nesse dia bebemos uns copos e ela acabou por me convidar para ir a casa dela, onde me mostrou a sua colecção de molas de roupa com a mesma emoção que se mostra um álbum de fotografias a um amigo novo.
Passo a explicar. A colecção de molas de roupa tinha uma característica que me suscitou algum interesse, pois por trás de cada uma delas havia um rosto humano. Na verdade, a Fátima nunca tinha comprado nenhuma mola de roupa na vida. Coleccionava aquelas que apanhava no chão, caídas duma varanda ou duma janela qualquer. Fazia isso há anos e cada vez que encontrava uma mola tentava adivinhar de onde ela tinha caído. Depois visitava o mesmo sítio repetidamente até conseguir tirar uma fotografia ao antigo dono da mola enquanto estendia ou apanhava a roupa, imprimia-a e pendurava-a numa das cordas de roupa que tinha espalhadas pelas paredes da casa. Com a mola respectiva, claro.
Tinhas as paredes da sala e de um corredor repletas de fotografias com pessoas a estender ou a apanhar a roupa. Fotografias tiradas em pequenas varandas de cidades, pátios soalheiros de casas de aldeia, grandes terraços, etc. Percorri cada uma delas com interesse genuíno e fui parando naquelas que, por algum motivo, careciam de uma análise mais pormenorizada.
- Disseste-me que fazias colecção de molas... - disse-lhe eu.
- Sim.
- Mas isto é uma colecção de histórias. - concluí.
Ela concordou. Disse-me que eram as suas próprias histórias. Através daquela colecção conseguia lembrar-se de cada um dos momentos e das viagens da sua vida. Numa das fotografias, por exemplo, uma miúda loira com doze ou treze anos dizia adeus à máquina. Tinha sido, pelos vistos, uma criança que deixou cair uma mola duma varanda no Algarve e a quem o então namorado da Fátima a pediu encarecidamente para a sua colecção. O namorado da Fátima já tinha deixado de o ser muitos anos antes e, muito provavelmente, a miúda já andaria na Universidade por aqueles dias.
Cada mola pendurava um momento do passado dessa minha nova amiga como se fosse uma peça de roupa a secar ao Sol. A diferença é que ela nunca os apanhava e, por isso, estavam ali a perpetuar-se nos dias que passam com uma estranha insistência. Eram pequenos momentos que pareciam teimar em viver mais tempo do que aquele que a natureza lhes atribuíra por direito.
A Fátima acabou por me explicar que a memória cerebral não chega para que esses pequenos momentos vivam dentro de nós. Acabam por desaparecer, como grãos de areia engolidos por uma onda do mar. Eu concordei na altura, mas hoje de manhã lembrei-me desta história apenas porque estava a estender a roupa aos fracos raios deste Sol invernoso que tenta aquecer a cidade de Aveiro. Lembrei-me dela de repente, sem qualquer outra justificação para além de estar a estender a roupa. Talvez a nossa memória cerebral não seja assim tão má. Pelo menos aquela que está, duma forma ou de outra, ligada ao coração.
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1.10.2013
conversa 1983
Eu - Na capa dizia que tinha tudo sobre bonsais, mas de facto não tem quase nada. Fiquei desiludido, não a torno a comprar.
Ela - Pois... quem promete tudo, normalmente não tem quase nada para dar.
Eu - Pois... sobre bonsais tem quatro ou cinco parágrafos pobrezinhos...
Ela - És homem, já devias saber que não se deve acreditar em quem promete tudo...
Eu - O que é que isso tem a ver com ser homem?!
Ela - Já alguma vez prometeste Amor total a uma mulher?!
Eu - Já...
Ela - E cumpriste?
Eu - Bem... não propriamente, mas quando prometi estava a falar a sério...
Ela - Pois...
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1.09.2013
conversa 1982
Eu - Ainda bem.
Ela - Sinto-me calma e equilibrada, algo que nunca me aconteceu antes, muito por culpa dos homens que se atravessaram na minha vida.
Eu - Como te conheço há muitos anos, percebo o que dizes. Ainda bem que agora estás melhor.
Ela - Sim... a única coisa que me tira do sério, apesar de tudo, continuam a ser alguns homens que conheci.
Eu - Saudades?
Ela - Não. Raiva.
Eu - Raiva?!
Ela - Sim, quando me dou conta que perdi alguns anos da minha juventude por causa de homens que não o mereciam. Quando me ponho a pensar nisso, lá se vai a paz...
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1.08.2013
coisas que fascinam (158)
Acho que o Amor é um fósforo. Acende-se, queima-se e morre. Não existe, por isso, o Amor duma vida inteira. É falso. O que pode existir é uma vida inteira onde todos os dias nasce um novo Amor entre os mesmos Amantes, que o Amor é coisa para um dia. Não mais do que isso.
Dois Amantes que estiveram juntos durante um ano apaixonaram-se trezentas e sessenta e cinco vezes nesse ano. Basta terem-se apaixonado trezentas e sessenta e quatro que, lá pelo meio, é mais do que certo que tiveram um dia triste. Um dia em que, não o confessando a ninguém, duvidaram daquilo que sentiam.
A dúvida faz parte do Amor. Surge sempre naqueles dias em que nós acordamos, mas o Amor não. São dias de sonolência, esses. E no entanto, essenciais para que nos apaixonemos de novo, logo na manhã seguinte, pela mesma pessoa.
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1.07.2013
conversa 1981
Eu - Não.
Ela - Estragas sempre tudo.
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conversa 1980
Eu - E umas férias sozinha, já pensaste nisso?
Ela - Já pensei... mas não sei se ele vai gostar da ideia...
Eu - Tu é que sabes. Eu acho que é sempre bom falar nessas coisas. Pôr tudo em cima da mesa, amigavelmente, e discutir. Já falaste com ele sobre isso?
Ela - Não consigo falar com ele sobre isso.
Eu - Tens que ganhar coragem...
Ela - Não é bem uma questão de coragem, é mais uma questão de oportunidade.
Eu - De oportunidade?! Vocês vivem juntos...
Ela - Vivemos... mas ele está sempre a jogar Playstation 3 na sala e eu a ver televisão no quarto...
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1.04.2013
coisas que fascinam (157)
Talvez já tenha acontecido a todos nós. A mim, pelo menos, já me aconteceu mais do que uma vez não gostar duma pessoa não tendo motivo nenhum para tal. Lembro-me da Rosa, por exemplo, a quem nunca consegui apontar nenhuma característica que não me fosse simpática e de quem, no entanto, nunca gostei no seu todo. Nada mesmo, sublinhe-se.
Diz-se normalmente que é uma questão de pele, o que nos leva a não gostar duma pessoa contra a qual até nem temos nada. Que eu me lembre, nunca toquei na pele da Rosa, nunca a cheirei nem senti. Mas até acredito que possa ser mesmo uma questão de pele, já que nunca encontrei nenhuma justificação para tal.
A Rosa até era bonita. Tinha uma cabelo curto encaracolado e algumas sardas nas bochechas. Parecia uma menina de escola mal comportada e, se eu a tivesse visto apenas numa fotografia, acho que tinha gostado dela. Mas ela era apenas amiga duma amiga, ou seja, uma conhecida que nunca tinha passado desse estatuto, apesar de nos termos sentado um número infindável de vezes à mesma mesa do café.
Convém acrescentar, claro, que eu sempre tive a perfeita noção de que eu, para ela, também não era flor que se cheirasse.. As nossas conversas de café tinham sempre a Susana, a tal amiga comum, como intermediária.
Uma vez, tínhamos acabado de nos sentar os três à mesa do café e de pedir uma cervejas, quando a Susana recebeu um telefonema urgente qualquer e teve que se ausentar durante quase uma hora. Ficámos nós os dois, eu e a Rosa, duas peças dum puzzle que não encaixavam claramente uma na outra, frente a frente.
Lembro-me perfeitamente que me tentei refugiar na televisão mas estava a dar uma partida de ténis qualquer, desporto pelo qual nunca nutri grande simpatia e do qual sei muito pouco. Além disso, todos os jornais disponíveis no estabelecimento eram desportivos, coisa que eu também não consigo ler durante mais do que cinco minutos. Acabei por me refugiar na própria cerveja, que bebi mais depressa do que seria normal por não ter com quem falar.
O silêncio começou a ser perturbador e eu olhava ansioso para a entrada à espera que a Susana regressasse ou que, pelo menos, um outro amigo qualquer entrasse e desanuviasse o ambiente pesado. A Rosa, de cujo olhar o meu fugia como uma borboleta tonta, estava sentada como se fosse uma estátua intocável, o que me incomodava ainda mais.
Foi nesse momento que tudo mudou. Ela começou a rir, abriu a carteira e deu-me uma pequena consola de jogos para a mão, uma Game Boy Color. Eu fiquei perdido e perguntei-lhe para que é que eu queria aquilo.
- Nós, por qualquer motivo, não gostamos um do outro. Isso é ponto assente. Mas escusas de estar aí tão inquieto só porque não temos assunto. Eu posso estar aqui quieta e não te chateio com nada e tu, se quiseres, podes jogar com a consola do meu filho.
Posta esta coragem em cima da mesa, que me surpreendeu de forma positiva, abriu-se uma porta para eu lhe dizer o que estava a sentir.
- Desculpa lá. Não tenho mesmo nada contra ti. Apenas não me sinto muito bem contigo, nem sei bem porquê...
A Susana acabou por demorar bastante mais do que o previsto e, quando chegou, estávamos ainda nós em amena cavaqueira sobre a forma como as pessoas podem ou não gostar umas das outras. Nesse dia ficámos finalmente amigos e ainda hoje o somos. Pode haver, de facto, uma questão de pele, mas também há uma questão verbal, semântica ou de conversa de café (como lhe queiram chamar) que não é menos importante.
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1.03.2013
respostas a perguntas inexistentes (241)
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1.02.2013
a romã
Pode não parecer importante, porque não é, mas a forma como se come uma romã pode definir a compatibilidade, ou a falta dela, entre duas pessoas. Eu como-a sempre da segunda maneira, optando por fazer primeiro todo o trabalho árduo de separar as sementes para depois aproveitar o seu sabor sem mais preocupações.
Nunca consegui manter uma relação duradoura com mulheres que a comem com o primeiro método, roendo-a com se fosse uma presa aos pés dum predador carnívoro. A romã desfaz-se e sangra, derrotada perante a ansiedade de quem a come. No fim satisfez-se a fome e a necessidade nutritiva do corpo, mas não com o prazer que o sabor daquela espécie de fruto permite.
Ao comer uma romã, sinto-me sempre no estado do guerreiro que descansa depois da batalha. Já lutei com ela, por isso mereço um momento de paz enquanto a saboreio. Normalmente ouço música ou, embora raramente, começo a ver um filme.
A romã é assim, um bom teste de compatibilidade entre duas pessoas que pretendem Amar-se. Não apenas pelas suas conclusões mais precipitadas, mas porque quando se descobre que se namora há vários anos com uma mulher que não come a romã como nós, é porque esse teste foi superado da melhor forma. Sem cedências, digo.
O índice ivariano regressa ao vinte.
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12.28.2012
pensamentos catatónicos (290)
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conversa 1979
Eu - Vais deixar o teu namorado?
Ela - Credo! Achas que o meu namorado é um banana?
Eu - Não é bem isso. Desculpa, saiu-me.
Ela - Estava a falar do fruto chamado banana.
Eu - Ah! E porque é que tens que deixar as bananas?
Ela - Por causa dos meus intestinos...
Eu (silêncio)
Ela - Que cara é essa?!
Eu - Preferia não saber isso...
Ela - Não saber o quê?
Eu - Que tens que te deixar de bananas por causa dos intestinos...
Ela - Mas o que é que raio estás a pensar? Não sabes que as bananas prendem os intestinos?! Estou a falar de prisão de ventre, homem.
Eu - Ah!
Ela - Ah?!?! Mas o que é que tu estavas a pensar?
Eu - Em nada de especial. Mudemos de assunto.
Ela - Temos que voltar a essa de achares que o meu namorado é um banana.
Eu - Não acho nada disso. Foi apenas a primeira hipótese que pus, tu achares que ele é um banana. Eu cá não acho nada. Nem o conheço bem...
Ela - Não acredito em ti.
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12.26.2012
conversa 1978
Eu - Não há muitos, de certeza. Tu é que deves ter amigos fora do normal.
Ela - É o que eu estou a dizer. Os homens são todos igualmente fora do normal.
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outra pessoa acampada na nossa cabeça
Talvez a maior parte das pessoas não simpatize muita com esta fria interpretação científica do que é o calor do Amor, mas a própria Helen passa da sua observação cientifica para uma sua interpretação pessoal, pois também ela sabe o que é estar apaixonada. Dos processos químicos resulta que a outra pessoa acampa na nossa cabeça. Pois é.
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12.24.2012
conversa 1977
Eu - Bebes um uísque ou um porto?
Ela - Não, obrigado. Não me posso meter no álcool já ao almoço...
Eu - Tudo bem. Era só por ser Natal.
Ela - Por falar nisso, qual é teu maior desejo para 2013?
Eu - Arranjar emprego.
Ela - O meu também. Gostava de arranjar emprego.
Eu - Estamos na mesma...
Ela - E já agora também queria que o meu marido arranjasse emprego. E o meu irmão... e o meu filho...
Eu - Eu também já perdi a conta a familiares e amigos desempregados.
Ela - Afinal sempre aceito o tal uísque.
Eu (dando-lhe um copo) - Bem... feliz Natal.
Ela - Feliz Natal.
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12.23.2012
conversa 1976
Eu - Porquê?
Ela - O meu marido quer que passemos a noite de Natal na casa da mãe dele, eu quero passar na casa dos meus pais... enfim, é sempre a mesma luta todos os anos.
Eu - Porque é que não alternam de ano em ano? Um ano na casa dos teus pais, outro ano na casa da mãe dele...
Ela - Ele já propôs isso, mas eu não posso aceitar.
Eu - Porquê?
Ela - Porque quero todos os anos na casa dos meus pais e depois, o almoço do dia seguinte, já pode ser na casa do pai dele.
Eu - Ah! Pronto... tudo bem.
Ela - Tudo bem?!
Eu - Sim, para mim está tudo bem. Não tenho nada a ver com isso...
Ela - Pareces o meu marido. Também não discute, abana os ombros e aceita as coisas, mas depois amua e eu é que tenho que o aturar...
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12.21.2012
a segunda impressão
Apaixonado, perco muitas vezes o discernimento. O coração bate mais depressa e os pensamentos tropeçam nas palavras que me vão saindo da boca. Há uma sensação de euforia que se vai misturando com a de frustração, o que pode dar um cocktail emocional explosivo. Assim, apenas interessado, consigo apreciar a coisa com a Razão e, em abono da verdade, adoro isso. Adoro isso, claro, quando já estou apaixonado de forma correspondida e por isso não tenho a necessidade de me apaixonar mais.
Uma vez interessei-me por uma mulher sem estar apaixonado por ninguém. Vivia sozinho e, para ser muito sincero, acho que foi a única vez que me aconteceu. Foi estranho porque o que me interessou nela foi perceber que era uma mulher desprendida de tudo. Conheci-a numa festa em casa de uns amigos comuns, enquanto abria o frigorífico para tirar uma bebida e, como ela estava logo atrás de mim, lhe perguntei se queria cerveja ou vinho branco.
- Qualquer coisa! - disse estendendo-me um copo vazio de plástico.
Servi vinho branco aos dois e passámos o resto da noite a conversar numa enorme varanda que a casa tinha. Para além de desprendida, ela tinha uma surpreendente resistência ao álcool, de tal forma que bebemos uma garrafa de vinho cada um e ela, pelo menos aparentemente, ficou na mesma. Enquanto bebíamos e conversávamos, reparei que ela conhecia quase toda a gente naquela festa, onde deviam estar umas cinquenta pessoas, enquanto eu conhecia apenas três ou quatro.
Foi esse facto que fez com que ficássemos amigos. Quando lhe disse que ela era muito popular, ela respondeu que tinha tantos amigos que apenas costumava ficar sozinha na noite de Natal, o que achava óptimo. Ora, por essa altura também eu passava todas as noites de Natal sozinho, normalmente a jogar computador até de manhã.
Na noite de Natal, todas os nossos amigos estão com as suas famílias. Eu e ela, por assim dizer, estávamos divorciados e não tínhamos família para isso, por isso acabámos por combinar passar juntos a noite de vinte e quatro de Dezembro, que seria daí a três ou quatro dias. Passei assim, nesse ano, o Natal com uma mulher que mal conhecia.
Para além dum bacalhau assado com batatas e couves cozidas, enchi o frigorífico de vinho branco e esperei que ela chegasse para jantar, o que aconteceu à hora prevista. Abri a porta, ela entrou, cumprimentou-me e entregou-me uma prenda que me fez sentir um bocado envergonhado, pois eu não lhe tinha comprado nada. Era um moleskine.
Durante o jantar reparei em coisas dela em que não tinha reparado na festa. Por exemplo, que tinha um sinal no queixo e que uma das suas orelhas estava rasgada na parte inferior, como se alguém tivesse ali chegado e cortado a pele como se fosse uma folha de papel. Era magra e bastante bonita, de cabelos curtos muito pretos que contrastavam com a pele muito branca.
Quando acabámos a sobremesa ela fez-me um pedido muito estranho. Pediu-me que lhe indicasse uma cama, pois estava muito cansada e precisava dormir, e que escrevesse no moleskine, durante o sono, tudo o que pensava dela. Obedeci sem perguntar porquê.
Quando ela acordou já eu estava com o livro fechado e a caneta no bolso, bebericando um pequeno copo de uísque. Ela sorriu-me.
- Escreveste alguma coisa?
- Sim... como te conheço mal, chamei ao texto "a segunda impressão". A primeira impressão foi a que tive quando te conheci. Queres ler?
- Não! - respondeu ela sem hesitar.
- Não?!
- Não. Pedi-te que escrevesses sobre mim para que um dia mais tarde haja a possibilidade de leres isso e de te lembrares desta noite. Convenhamos que passar o Natal com uma mulher acabada de conhecer é estranho, e é essa a minha prenda para ti: uma memória única. Nunca fizeste isso com mais ninguém, pois não?
Arrumei o moleskine num armário, entre vários livros esquecidos e confortados pelo pó. Hoje, alguns anos depois, abri-o de novo pela primeira vez. Li o texto e regressei a essa noite, que foi tão estranha quanto agradável. Depois tornei a fechá-lo e coloquei-o no mesmo sítio. Foi a minha prenda de Natal, essa memória. A segunda impressão.
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12.20.2012
conversa 1975
Eu - Empresto. Qual é que queres?
Ela - Nem sei...
Eu - Queres um que dê para rir, um que dê para assustar ou um que dê para adormecer?
Ela - Chorar, quero um que dê para chorar.
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12.19.2012
maria
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conversa 1974
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12.18.2012
conversa 1973
Ela - Tu não ligas o televisor?
Eu - Não tenho a antena ligada. Só vejo filmes em dvd...
Ela - Mas não gostas mesmo de televisão?
Eu - Há canais que gostava de ter, mas é muito caro. Mas quando estou na casa da minha namorada gosto de ver algumas coisas... ainda ontem vi um filme de boches.
Ela - Também só pensas em sexo...
Eu - Boches! Eu disse boches.
Ela - Boches?!
Eu - Sim. Não sabes o que é um boche?
Ela - Se não for sexo oral com papas de Nestum na boca, não sei.
Eu - Um boche é um militar alemão nazi... estava a falar de um documentário da segunda guerra mundial.
Ela - Ah! Nunca me passou pela cabeça que um nazi pudesse ter um nome tão... sei lá... tão apetitoso.
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pensamentos catatónicos (289)
Pelo canto do olho podemos ler as notícias do jornal do passageiro que vai ao nosso lado no autocarro, podemos copiar num teste de condução, podemos perceber que alguém repete a dose num jantar de amigos. Podemos até dar conta de que alguém está bêbado num bar ou simplesmente a olhar para nós. Aquilo que nunca fazemos pelo canto do olho, com toda a certeza, é contemplar.
Contemplar exige a abertura total da íris e da sua comunicação com o exterior ou, pelo contrário, que se fechem os olhos. É que fechar os olhos pode ajudar-nos a ver para dentro. François Guizot, politico e historiador francês, dizia que "a consciência é a faculdade que o homem tem de contemplar quanto se passa no seu íntimo, assistir à própria existência. Ser, por assim dizer, espectador de si próprio.".
O canto do olho não é senão uma forma de intrujice. Uma forma de, eventualmente, nos enganarmos numa paixão. Pelo canto do olho descontextualizamos o que queremos ver do que vemos realmente, e o que vemos realmente do mundo inteiro. O canto do olho é um lugar fechado, para fora e para dentro de nós.
Estava há bocado numa estação de metro da cidade do Porto, à espera de vir a apanhar um comboio em direcção a Aveiro. Estou, por vários motivos, um pouco triste, e apercebi-me de que estava a olhar para tudo e para todos pelo canto do olho. Agora vou fechar os olhos.
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12.17.2012
conversa 1972
Lembrava mas, tal como ela, também eu tinha dúvidas que ela se lembrasse de mim. As memórias são apenas a paisagem dum caminho estreito, que percorremos sós. Assim, por um momento, fiquei a olhar para o meu passado sem lhe ver o horizonte.
- Claro que lembro. Que patetice, então não me havia de lembrar? - Mas não era uma patetice.
Ela calou-se e fitou-me nos olhos, como se procurasse alguma coisa escondida em mim. Acho que sempre que perdemos alguma coisa noutra pessoa, os olhos são o primeiro sítio onde a vamos procurar. Deixei-me estar quieto, a ver o primeiro sinal de desilusão no seu rosto. O que quer que fosse que ela queria ver, não viu. Depois veio o silêncio.
- E então, que fazes? - Perguntei.
- Estou desempregada. Trabalhei muitos anos em Setúbal, em várias coisas...
- Eu também estou desempregado. Trabalhei sempre cá por cima, com alguns intervalos para trabalhos no estrangeiro...
Mas as palavras iam morrendo pouco a pouco, como que intoxicadas pelo desinteresse da banalidade. Temos os dois mais de quarenta anos e não nos víamos desde a adolescência, numa noite qualquer de Verão. Na verdade, foi essa a única noite em que a vi, e só me lembro que ficámos para trás de um grupo de vários amigos comuns que iam a uma discoteca qualquer. Passámos horas numa praia qualquer do Alentejo, onde fizemos da areia a nossa cama e do som do mar a nossa conversa.
Ela tornou a fitar-me nos olhos.
- Apaixonaste-te muitas vezes, desde então?
- Duas ou três. - respondi.
- Duas ou três?! Tens sorte.
- Sorte?! Porquê?!
- Eu já lhe perdi a conta...
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12.14.2012
respostas a perguntas inexistentes (240)
No ensino básico, em Matemática, ensinaram-me que um mais um é igual a dois. Deram-me como exemplo qualquer coisa tão estúpida como uma peça de fruta, creio que uma banana da Madeira, e explicaram-me que uma banana mais uma banana é igual a duas bananas. Erro crasso, passei a acreditar piamente nisso.
A Matemática, ou pelo menos a Álgebra, tem esta mania estúpida de escrever a vida sem a perceber. Até pode ser que uma banana mais uma banana seja igual a duas bananas, mas certamente que uma gota de água da chuva mais outra gota de água da chuva não é igual a duas gotas de água da chuva. Basta ver chover para perceber que o resultado é uma pequena poça de água.
Para piorar a coisa, o Marco Paulo veio cantar aos portugueses, creio que no princípio dos anos oitenta, que tinha dois Amores. Quem o ouvia dava conta de uma morena e de uma loira, deduzindo assim que um Amor mais outro Amor é igual a dois Amores. Pura mentira. Um Amor mais outro Amor é quase sempre igual a menos do que dois Amores. É uma questão de tempo. Mas a equação da soma ou subtracção do Amor é inócua de sentido, porque nela faltam sempre os factores que ninguém consegue entender.
Acredito que o Amor elevado à sua máxima potência é sempre igual a um. A partir do um, quanto mais se soma, menos se tem. Mesmo que a coisa não seja óbvia à primeira. O um é um número difícil de entender neste contexto, porque por ser o primeiro dos números inteiros nos parece sempre pouco. Um comparado com cem, por exemplo, assemelha-se a uma insignificância. No entanto, quando de Amor estamos a zero, buscamos o um como se fosse tudo. E é mesmo. Só que ninguém nos ensina isso na escola.
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12.13.2012
está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.
Estávamos de férias num parque de campismo há alguns dias, algures no norte do país, ambos hesitantes em começar um romance. Era de noite. Por um lado queríamos dormir juntos, por outro tínhamos medo de o fazer. Acho que é sempre assim quando se gosta muito de alguém mas não se está apaixonado. Perguntei-me muitas vezes sobre o que devia fazer naqueles momentos em que nos abraçávamos ou encostávamos a cabeça um no outro. E agora? Beijo-a? Digo-lhe que a Amo? Nunca me decidi por nada, a não ser por lhe dizer a coisa mais absurda do mundo. Do nada.
- Está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.
Ela olhou para mim e, ao contrário do que eu tinha imaginado, concordou com a minha ideia nonsense. Obrigou-me a desmontar a tenda, a arrumar a mochila e, depois de acordar um homem que dormia ao balcão da recepção, acabámos por nos pôr a caminho através das estradas sinuosas do distrito de Bragança, onde tínhamos chegado de autocarro e à boleia de um amigo.
Caminhámos a noite toda numa conversa amena, até a Lua se cansar de nos ouvir e se ir embora sem dizer adeus. Lembro-me que acabámos por montar a tenda junto a uma curva onde havia uma fonte e, a alguns metros, uma árvore com sombra suficiente para não morrermos com aquele calor abrasador próprio do Verão transmontano. A minha tenda montava-se em três segundos. Bastava atirá-la ao ar e já estava. Foi o que fizemos e, dado o cansaço, adormecemos imediatamente os dois.
Não me costumo lembrar dos meus sonhos, mas sei que nessa tarde sonhei com ela e com as histórias que ela tinha acabado de me contar nessa viagem a pé pela Via Láctea. Era uma história qualquer sem grande romance, mas que eu tinha ouvido com a maior das atenções. Era sobre coelhos.
Ela gostava muito de animais, particularmente de coelhos. Tanto, que fazia colecção de coelhos de toda a espécie e feitio: de peluche, de louça, de plástico e até um de arame, feito por um artesão boliviano qualquer com quem tinha namorado no passado. Quando o tal artesão voltou para a Bolívia ainda estavam apaixonados,. Ele prometeu-lhe fazer um coelho tão grande quando lá chegasse, que ela havia de o ver deste lado do Atlântico. Durante muito tempo, apesar de ela não acreditar que isso fosse possível, ia à janela todos os dias para procurar o tal coelho gigante.
Pois bem, eu sonhei que tinha construído esse coelho. Era tão grande que, quando estávamos em cima dele, podíamos praticamente tocar nas nuvens. Acho que acordei no momento em que lhe perguntei se ainda se lembrava do boliviano e ela me respondeu que tinha esperança que ele, da janela de casa dele, visse aquela minha construção e se lembrasse dela.
Quando lhe contei o sonho, que ao fim e ao cabo não passava dum sonho estúpido, ela riu-se e deu-me um beijo furtivo nos lábios. Depois tirou duas maçãs dum saco de plástico, limpou-as à própria camisola e deu-me uma enquanto trincou a outra de forma a prendê-la na boca.
Esse foi o único beijo que demos, mas a verdade é que sinto que gostei realmente dela, sem nunca me ter apaixonado. É uma sensação difícil de explicar porque nunca foi clara para mim próprio. Para ela, aliás, também não. De tal forma que quando acabámos por ter uma conversa séria sobre o assunto, sobre a nossa proximidade tão pouco consumada fisicamente, ela respondeu-me que o melhor, quando estivéssemos a sentir que íamos passar uma certa barreira, era começarmos a caminhar para lugar nenhum.
Percebi-a imediatamente e, apesar da minha ideia ter vindo do nada, acabou por encontrar o seu próprio contexto.
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12.12.2012
conversa 1971
Eu - Já lho disseste?
Ela - Não. Doze anos deviam dar para ele perceber ou adivinhar.
Eu - Isso de que os companheiros sexuais têm que adivinhar os desejos dos outros é um mito urbano. O melhor é dizeres-lhe.
Ela - Dizer-lhe, dizer-lhe... não posso fazer isso.
Eu - Porquê?
Ela - Agora é tarde demais.
Eu - Tarde demais?
Ela - Sim, se eu lhe dissesse agora algumas coisas, ele ia perguntar porque é que eu não lhe disse antes.
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12.11.2012
conversa 1970
Eu - Até que enfim que te apanho. Preciso falar contigo.
Ela - Apanhaste-me na casa de banho.
Eu - Okay, desculpa. Ligo-te daqui a cinco minutos.
Ela - Não, não. Diz agora, que é o momento certo.
Eu - Não estás na casa de banho?
Ela - Estou. É na casa de banho que aproveito para fazer os meus telefonemas todos, ler revistas e livros, etc. Além disso, não saio daqui a cinco minutos, mas sim daqui a uma hora, mais ou menos.
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12.10.2012
coisas que fascinam (156)
Passei este fim de semana fechado em casa. Desde sexta-feira à noite até segunda de manhã, apenas saí uma vez para uma rápida refeição de fast food. De resto, não falei com ninguém a não ser pelo telefone. Em pouco mais de sessenta horas entre paredes vi oito filmes (documentários e ficção), li dois romances, ouvi alguns (não sei quantos) discos de música e joguei computador. Deitei-me duas vezes às seis da manhã e levantei-me por volta do meio-dia.
A minha alimentação, para além duma refeição pobre no Burguer King que não tenciono repetir nos próximos anos, passou por duas garrafas de vinho, umas fatias de presunto comidas directamente da embalagem, algumas fatias de queijo, pão, quatro ou cinco dióspiros, mousse de chocolate caseira e uma alface. Na única vez que cozinhei fiz arroz de peixe com tomate e coentros. Também bebi dois cafés sem açúcar e três ou quatro uísques Bushmills. Alguma louça suja acumulou-se na banca da cozinha e o mesmo aconteceu com a roupa num canto do quarto.
Tirei um fim de semana para viver sem regras, como se não existisse ninguém no mundo a quem a minha vida dissesse respeito, totalmente entregue às minhas vontades pontuais. Fiquei a conhecer melhor o sofá da minha sala e as minhas estantes onde guardo livros e discos.
Vivi satisfeito, como se não precisasse de mais ninguém à minha volta, nem sequer dessa coisa que já tanta falta me fez e que dá pelo nome de Amor. E, no entanto, só o consegui fazer porque a tenho, mesmo ao meu lado e à distância duma chamada telefónica ou dum pensamento fugaz. Para conseguir estar sozinho é preciso não estar só. Essa é apenas umas das maiores vantagens de estarmos apaixonados.
Qualquer dia repito...
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12.07.2012
conversa 1969
Ela - Ainda tens um televisor destes antigos?
Eu - Tenho e vou continuar a ter durante algum tempo.
Ela - Porque é que não compras um plasma?
Eu - Não tenho dinheiro para isso agora.
Ela - Eu também não tinha e comprei na mesma...
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pelo dedo mindinho do pé
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12.06.2012
respostas a perguntas inexistentes (239)
Nunca morri num sonho. Não sei se se passa o mesmo com todos os outros, mas sempre que estou a sonhar, ou melhor, a ter um pesadelo e chego a uma situação em que a minha morte é eminente, acordo uma fracção de segundo antes de morrer e já não morro. Às vezes abro imediatamente os olhos e percebo que estive a sonhar, outras vezes tenho o corpo inundado pelo meu próprio suor e passo algum tempo numa espécie de limbo, em que não sei bem onde estou.
O que eu sei é que nunca morri num sonho.
Uma destas noites estive com um amigo e uma amiga que são, vá lá, pelo menos um bocadinho misteriosos. Acreditam no ocultismo, na existência de espíritos maus e bons e em mais uma série de coisas que eu nem sei identificar. Eu não acredito em absolutamente nada disso, de tal forma que eles ficaram a falar a dois e eu apenas a ouvir enquanto bebia uísque.
A certa altura começaram uma discussão sobre pessoas que tiveram, supostamente, experiências de morte, ou seja, pessoas que morreram durante algum tempo e depois regressaram à vida. Foi então que tive este pensamento para mim mesmo e para um copo já quase vazio: nunca morri num sonho.
Sei que já tive algumas quase mortes bastante dolorosas, como ser enterrado vivo, ser esfaqueado por uma faca de cozinha ou cair do trigésimo andar dum prédio. São momentos em que sofro bastante e tenho a noção que vou morrer, mas depois acordo mesmo antes do momento final.
Acordar num momento destes acaba por ser uma enorme sensação de alívio. A última vez que me aconteceu, fiquei tão surpreendido por estar vivo que tive que tocar em várias coisas à minha volta, como os lençóis, o candeeiro da mesa de cabeceira ou o despertador, apenas para ter a certeza que no meu corpo ainda existia vida. Era precisamente numa queda vertiginosa que ia morrer. Acordei quando atingi o chão.
Tornei a servir-me de uísque e contei isto aos dois, até para que não pudessem dizer que eu tinha passado a noite toda calado que nem um rato, que não gosto de fazer apenas figura de corpo presente quando estou entre amigos. A Sandra fez silêncio e, para meu espanto, ficou a pensar no que eu lhe tinha dito. Acabou por concluir que o mesmo se passa com ela: nunca morreu num sonho.
Apesar desta certeza, a verdade é que raramente me consigo lembrar dum sonho do princípio ao fim. Mal acordo, ele torna-se tão pouco presente como uma qualquer memória de infância. A única coisa que guardo são esses momentos de pânico, mesmo antes de morrer e, portanto, de acordar.
Ficámos a falar a noite toda sobre este aparente contra-senso, que é conseguir acordar depois de morrer, e encontrámos várias metáforas da vida em que é possível fazê-lo. No Amor, por exemplo, quantos vezes acordamos depois de morrer? Aí, já nós os três o tínhamos feito.
Estava agora aqui a tomar café e a pensar como é bom ter amigos com quem consigo conversar assim, de forma desprendida e em que nos compreendemos tanto nos debates terra a terra como em contextos mais absurdos.
- É um sonho! - disse ela.
E eu nunca morri num sonho.
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12.05.2012
imprudence
![]() |
| tirando a roupa dela, sem o consentimento dela... 190 Cal |
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É uma pena que Deus não exista. Só a sua existência é que sustentaria a também existência do Diabo e, tal como acabei de ouvir numa conversa de homens envelhecidos pela solidão, ao Diabo e à mulher nunca falta que fazer. É um provérbio, como tantos outros, que explica como alguns homens jogam às escondidas com Deus.
Enquanto uma vida triste se torna feliz com uma paixão, uma vida feliz torna-se triste sem ela. Os homens que não sabem Amar escondem-se na tristeza de Deus, e empurram o seu enorme falhanço na vida para essa dupla conspiradora formada pela mulher e pelo Diabo.
Eu, se fosse um falhado no Amor, rezaria ao Diabo que me ajudasse. Nunca a Deus. É que fiquei ali a ver aqueles dois, de olhar triste espetado no chão, numa mesa de café despovoada, sem nada mais que fazer ou dizer. Se pudessem optar, diria eu, era melhor irem ter com o Diabo e, consequentemente, algumas mulheres. Sempre teriam que fazer.
Já percebi onde é que surgiu a ideia judaico-cristã do Diabo. É uma luz ao fundo do túnel para a felicidade e para o Amor. Às escondidas, é certo, mas ainda assim uma alternativa à submissão e à tristeza contínua. É por isso que ainda há homens que dizem isto...
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12.04.2012
conversa 1968
Eu - Eu sei. Foi de andar muitas noites seguidas ao frio, à procura da minha cadela...
Ela - Então se sabes, porque é que não pões nada?
Eu - O que é que hei-de pôr?
Ela - Batom de cieiro, claro.
Eu - Nunca me lembro dessas coisas...
Ela - Eu tenho aqui um novinho em folha. Dou-to e tu pagas-me o café. Pode ser?
Eu - Tu tens cieiro agora?
Ela - Não.
Eu - Então porque é que andas com um batom de cieiro na carteira?
Ela - É uma coisa que pode ser precisa a qualquer altura.
Eu - Não acredito nisto...
Ela - Não acreditas em quê?
Eu - Que andas com um batom de cieiro na carteira sem teres cieiro, só porque pode ser preciso. Por acaso não tens papel higiénico?
Ela - Tenho, mas só tenho um bocadinho. Precisas?
Eu - Não. Dou-me por vencido...
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respostas a perguntas inexistentes (237)
- Esta chuva não pára... - disse eu, finalmente.
- Pois não. É Inverno. - e ela tossiu novamente.
Do que falamos quando falamos do tempo? Falamos disso mesmo: de não estarmos felizes nem tristes, nem quentes nem frios. Não estamos nada. Lá fora os guarda-chuvas amontoavam-se numa rua qualquer de Lisboa e eram todos da mesma cor, como se nenhum tivesse direcção ou soubesse para onde se dirigia. Numa das montras, alguns manequins nus observavam o dia sem o compreender.
- Vou hoje para Aveiro, está bem? - continuei o meu desenho infantil.
- Talvez seja melhor. - respondeu ela - dizemos "adeus" ou "até um dia destes"?
- Por uma mera questão de conforto, podemos optar por dizer "até um dia destes"... - conclui.
A viagem de comboio que fiz nesse fim de tarde não foi triste nem feliz. Fartei-me de tossir para mim mesmo, de forma a perceber que eu próprio ainda estava ali, algures numa viagem de regresso duma aventura que não cheguei a perceber. Do lado de fora da janela, a paisagem desfilava fingindo que não me via.
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12.03.2012
conversa 1967
Eu - Já. Estou tão feliz...
Ela - Como é que a encontraste?
Eu - Não fui eu. Foi uma vizinha, quando a cadela andava a rondar a casa.
Ela - Então foi a cadela que vos encontrou a vocês...
Eu - Sim, pode dizer-se que sim... mas demorou uma semana.
Ela - Coitadinha, teve uma semana de cão.
Eu - Hum... hum...
Ela - Que foi?
Eu - Ela é um cão. Dito assim não parece grave.
Ela - Pronto, teve uma semana de mulher. Está melhor assim?
Eu - Nem sei bem...
Ela - Sei eu. Ser mulher, às vezes, é a mesma coisa que andar perdida por aí.
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pensamentos catatónicos (288)
Li nos jornais que um adepto do Braga morreu atropelado quando fugia de alguns adeptos do Porto.
O problema do ódio é ser estúpido. Não fazia mal nenhum odiarmos uma ideia, uma cor, um quadro ou um estado do tempo. Odiávamos isso e pronto, estava odiado. Só que por qualquer motivo imperceptível, o ódio é sempre pessoal e egoísta. Odeia-se uma pessoa, um grupo de pessoas ou, uma vez por outra, até um cão ou um gato.
Se odiássemos o vermelho, por exemplo, bastava-nos pintá-lo de outra cor, estivesse ele numa parede da nossa casa, numa camisola ou num gadget qualquer. Como odiamos sempre um ser vivo, ou rangemos os dentes quando passamos por ele, ou então tornamo-nos violentos. É por isso que há quem bata em animais, é por isso que há adeptos de equipas de futebol a morrer durante fugas de outros adeptos. Nunca há uma verdadeira razão para odiar, há apenas uma emoção inócua de sentido, porque o ódio é estúpido.
Mais estúpido é dizer que o Amor é o contrário do ódio. O ódio, para ser o contrário do Amor, tinha que ter inteligência. Nunca tem. O contrário do Amor é o vazio, o vácuo emocional. Somos capazes nos perguntarmos porque é que Amamos tanto alguém, mas nunca nos perguntamos porque é que odiamos. O ódio é uma certeza sem conteúdo.
Em 1914, durante a primeira Guerra Mundial, soldados britânicos e alemães fizeram uma semana de tréguas durante o Natal e saíram das suas trincheiras para trocar saudações e até presentes. Esse momento ficou conhecido Christmas truce ou Weihnachtsfrieden. Depois recomeçaram os tiros.
Talvez alguns adeptos de futebol devessem ler e perceber esse período da História. É que o ódio é uma trincheira, seja ela no terreno ou em nós mesmos.
Só quem é capaz de Amar é que percebe isto, porque o Amor é uma inteligência
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Ivar C
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12.02.2012
a Luna apareceu!
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Agora, com mais calma, sei que não vou conseguir a todos os que nos ajudaram, a mim e à Raquel, nesta questão, mas vou tentar. Colámos mais de duzentos cartazes pelo Porto e por Matosinhos (chegámos a oferecer recompensa), cada vez que eu punha um anúncio no meu facebook as partilhas eram imediatas e atingiam milhares, recebi centenas de emails de leitores deste blogue e perdi a conta às chamadas telefónicas de todo o género e feitio. Eu, a pé, fiz uma média de doze horas por dia, perdendo conta aos quilómetros que percorri.
Por isso obrigado a todas as pessoas com quem falei na rua, a todos os que me telefonaram a dar pistas; a todos os que partilharam e participaram em buscas mesmo sem eu saber; ao encontra-me.org e ao sítio dos cães; aos meus incansáveis camaradas do Bloco de Esquerda de Aveiro, que me tiraram todo o trabalho das mãos para eu poder procurá-la; à Sara do Porto, que me mostrou todos os sítios mais recônditos entre a Lapa, a Cedofeita e o Palácio de Cristal; à Fernanda de Matosinhos, que perdeu uma tarde inteira comigo a andar a pé dum lado para o outro; à senhora que vende farturas nas Sete Bicas, que foi falando com os seus clientes sobre o caso; às senhoras que distribuem comida aos animais na Fonte do Cuco; aos senhores que apanham o lixo na zona da Senhora da Hora.
Por fim, também, à Raquel, por nunca perder a esperança.
Agora vou andar mais duas ou três tardes a arrancar os cartazes que coloquei. Acabou.
p.s.: eu sei que faltam aqui muitos agradecimentos, mas é mesmo impossível referir todos.
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Ivar C
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12.01.2012
pensamentos catatónicos (287)
Estou tentado a acreditar que é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. O pouco que nos separa, no entanto, é um pequeno machado capaz de destruir essa grande árvore que é a nossa união. E sim, falo de nós, pessoas comuns que procuram pelo preço mais barato dum produto no supermercado, que gostam de aquecer as mãos frias numa chávena de café fumegante, que choram, que riem ou ficam a leste das emoções uma vez por outra.
Não estou a falar do grandes conflitos entre classes e nações, como aquele que opõe israelitas a palestinianos, trabalhadores a accionistas ou direitosos a esquerdistas. Esses são os conflitos concebidos por interesses escondidos ou por ideias de como o mundo se deve organizar. São problemas fabricados e fazem parte doutra luta.
Estou a falar dos conflitos mais mesquinhos, entre duas pessoas que se Amam e que põem esse Amor em risco por causa de nada. É a mania que temos de acreditar que somos únicos, que os outros não pensam nem sentem como nós. Somos únicos, porque é por nós que passam todo esse cocktail que mistura inexplicavelmente emoção e razão.
Só nos falta perceber que, se formos por aí, somos tão únicos quanto outra pessoa qualquer.
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Ivar C
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