2.10.2013

O que se pode fazer com a vagina?

(enviaram-me isto pela net)

2.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (246)




Às vezes vou a casa duma amiga minha beber uma caneca de chá. Digo-o assim porque, por mais tempo que passe, é sempre para um chá que ela me convida. Seja de manhã, à tarde ou à noite, telefona-me de vez em quando e pergunta-me se quero ir beber chá. Admito que, não sendo um grande adepto dessa bebida, gosto muito do que ela faz e bebo-a com uma dose acrescentada de prazer. Não sei como é que ela faz, mas sei que para além de mergulhar a saqueta com uma planta qualquer na água a ferver, acrescenta ainda mais alguns ingredientes. Canela é um deles.
Há uns tempos, por qualquer motivo, acabou o assunto entre nós assim que ela me deu uma segunda caneca para beber. Eu tinha acabado de lhe dizer que gostava muito do chá dela, especialmente em noites frias como aquela, e ela tinha-me perguntado se eu queria aprender como é que se fazia.

- Não. - Respondi.

Não se sentiu ofendida. Calou-se, tal como eu, e encostou-se para trás no grande sofá da sala. Fez-se silêncio. Bebi todo aquele líquido saboroso em pequenos e delicados goles, para não fazer barulho. Não sei quanto tempo demorei, mas talvez uns quinze ou vinte minutos. O que eu sei é que foram quinze ou vinte minutos de tranquilidade total. Conseguia ouvir o respirar dela e, penso eu, o meu próprio bater do coração.
Depois, quando a caneca chegou ao fim, lá lhe expliquei porque é que não queria aprender a fazer o chá.

- Mesmo que me ensinasses a fazer este chá e mesmo que o conseguisse fazer da mesma forma, nunca ia ser igual. Já me habituei a bebê-lo aqui na tua casa, e é a estes momentos que eu associo este sabor e este conforto.

Ela sorriu. Percebeu, ou fingiu perceber, o que eu lhe tinha dito. Despedi-me e saí passado pouco tempo. No caminho para casa, de mãos nos bolsos e o casaco apertado até ao queixo para me proteger do frio, fui a pensar em como é confortável ter momentos destes. Pensei que nunca na vida conseguiria explicar a alguém a sua importância, até porque dizer que um dos momentos especiais que se tem na vida é quando se vai beber chá a casa duma amiga, pode parecer bizarro.
Foi nessa noite que decidi voltar a brincar com sons e experimentar fazer umas músicas. Estive até às quatro ou cinco da manhã a trabalhar e, assim que acabei, encontrei a minha amiga online no facebook. Mandei-lhe o mp3 por email e perguntei-lhe se ela conseguia ouvir tudo até ao fim.
Esperei uns minutos. Os cinco minutos e três segundos que a música tem e mais um bocado, sempre a olhar para o espaço em branco onde as letras escritas por ela apareceriam supostamente em qualquer altura. Era como se estivesse a olhar para o futuro e ele não quisesse ser presente.
Depois, por fim, ouvi o sinal de que tinha mensagem nova no facebook.

- É esquisita! - escreveu. - mas eu gostava de saber fazer músicas assim.
- Queres que eu te ensine a trabalhar com o software? - Perguntei.
- Não.

Não me explicou porquê.

USDA no Facebook USDA no Bandcamp

2.06.2013

conversa 1992

(ao telefone)

Ela - Já não te vejo há tanto tempo. Podemos tomar café amanhã à noite?
Eu - Podemos. Por acaso vou estar em Aveiro e sem nada para fazer.
Ela - Que pena. É que eu já tenho um jantar marcado...
Eu - Mas...
Ela - Depois ligo-te. Marcamos para outra altura!

2.04.2013

respostas a perguntas inexistentes (245)

Porque é que se fazem bolos?

Acho que foi ali que fiz os meu primeiros desenhos a sério, nos vidros embaciados da marquise da casa onde cresci. Comecei por fazer simples smiles, com um único círculo à volta de duas pintas a fazer de olhos e um traço a fazer de boca que sorri. Depois disso, lembro-me de chegar a pegar no velho escadote de alumínio que o meu pai usava para trocar lâmpadas, para conseguir chegar aos vidros mais altos. Desenhava paisagens com montes, ruas, casas, árvores, aviões  e nuvens. 
O que aprendi nesses vidros, no entanto, não foi a desenhar. Foi sim a perceber como as coisas da vida podem ser efémeras. Os desenhos ficavam lá apenas algumas horas, às vezes minutos, até as janelas perderem toda a humidade.
Houve um dia em que esperei ansiosamente que a minha mãe chegasse para almoçar, para lhe mostrar o enorme desenho que tinha feito durante toda a manhã. No entanto, a minha obra de arte não chegou até ao meio-dia.
Para compensar a minha tristeza, a minha mãe fez um bolo com uma cobertura de chocolate e deixou-me lamber a taça onde tinha feito a massa. Porque é que se faziam bolos era, aliás,outra coisa que não percebia muito bem. A massa sabia-me muito melhor antes de ir ao forno. Era mais doce e tinha uma textura mais consistente.
Com o tempo, ou melhor, com a idade, acabei por resolver ambas as questões. Por um lado passei a desenhar em papel, normalmente nuns cadernos baratos que comprava numa mercearia ao pé de casa; por outro, já num estado de jovem adulto, aprendi a fazer diversos tipos de bolos e passei a apreciar mais o produto final do que a massa em si.

Para meu desespero, as pilhas do walkman acabaram muito antes do comboio chegar a Lisboa. Para piorar a situação, devido a um acidente qualquer na linha, a composição estava parada muito perto de Pombal há mais de uma hora e não havia maneira de retomar o percurso. Tirei a cassete do aparelho e guardei-a numa velha mochila Monte Campo que, à data, era uma espécie de minha companheira de vida. Dela tirei um caderno de folhas brancas por estrear e uma esferográfica preta, para me ajudar a matar o tempo com desenhos.
Viajava no centro da carruagem dum Intercidades que ia lotado e, por isso, levava um passageiro ao meu lado e dois à minha frente, virados para mim. 
Ao meu lado esquerdo seguia um homem de fato e gravata, provavelmente dedicado a pequenos negócios. Assim sentado, lembro-me que as calças lhe ficavam exageradamente curtas e a gravata vermelha parecia não lhe ser natural, mais ou menos como se alguém tivesse amarrado um pano colorido à volta do galho morto duma árvore. Ia calado e assim continuou toda a viagem.
À minha frente ia uma mulher com o filho. Ela aparentava ter mais uns dez anos do que eu, que tinha pouco mais de vinte na altura, e mostrava sinais de cansaço com o facto do miúdo não parar quieto. Olhei para ela de relance e achei-a bonita, mas com uns traços faciais que lhe tiravam personalidade. Enfim, como se fosse um corpo bonito sem alma. Assim que comecei a desenhar, senti o peso dos olhos dele na minha mão. 

- Mãe! Quero uma caneta e um papel! - Ordenou ele.
- Não tenho. Pára quieto, por favor, que estou a perder  paciência. - Pediu ela.

As janelas do comboio estavam já, nessa altura, totalmente embaciadas, e ele começou a fazer desenhos no vidro. O primeiro de todos foi um smile, tal como aqueles que eu fazia em criança. Parei de desenhar e passei-lhe a minha caneta e o meu caderno para as mãos, explicando-lhe exactamente o meu desespero de criança por os desenhos nos vidros durarem tão pouco. Ele começou a fazer alguns riscos no meu caderno e continuou, mais calmo, a falar comigo.
A mãe, mais aliviada, acabou por entrar na conversa, Primeiro pensei que fosse apenas para me aliviar um pouco da pressão dum miúdo que fazia várias perguntas por minuto. Porque é os vidros embaciam? Porque é que as canetas escrevem? Porque é que o comboio não anda? Porque é que o pai nos abandonou? Foi assim que percebi que ela estava divorciada. 
Quando o comboio começou a andar, finalmente, já éramos amigos. Descobri que eu e ele tínhamos uma coisa em comum. Também ele, criança com sete anos de idade, preferia a massa dos bolos aos bolos propriamente ditos. E assim fez uma última pergunta.

- Porque é que se fazem bolos?

Expliquei-lhe a minha relação com a doçaria. Como é que passei de um estágio ao outro ao nível de bolos domésticos e como é que ele podia fazer um simples e delicioso bolo de chocolate. A mãe convidou-me para ir a casa deles fazer um  bolo desses, para lhe demonstrar porque é que se fazem bolos. E foi assim que conheci a Cristina...

2.01.2013

conversa 1991

(no Toys 'r' Us)

Eu - Boa tarde. Tem fantasias para o Carnaval do Super Mário?
Ela - Do Super Mário acho que já não temos nada. Só do outro...
Eu - O Luigi?! Também serve...
Ela - De qualquer maneira para o seu tamanho não temos nada.
Eu - Hum... é para uma criança de oito anos. Não é para mim.
Ela - Ah! Então procure ali naquelas prateleiras, por favor.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

1.31.2013

conversa 1990

Ela - Adoro mesmo iogurtes.
Eu - Ah!
Ela - Adoro tanto iogurtes que prefiro iogurtes a chocolate.
Eu - Hum, hum...
Ela - E olha que gosto muito de chocolate. Prefiro chocolate a aletria.
Eu - Ena!
Ela - E aletria é um dos meus doces preferidos desde criança...
Eu - Eu percebo...
Ela - Gosto mais de aletria do que de arroz doce, por exemplo. Mas adoro arroz doce.
Eu - Já não te via há muito tempo, mas parece-me que andas com uma fixação por comida.
Ela - Estou muito gorda, é?
Eu - Não, não estás. Falas é muito de comida.
Ela - Falo?

1.30.2013

conversa 1989

(no carro dela)

Ela - Tenho que ir pôr gasolina.
Eu - Mas... ainda tens o depósito a meio.
Ela - Nunca deixo passar disto. Tenho medo de me distrair e ficar parada, sem gasolina, num sítio qualquer.
Eu - Está bem, compreendo. Mas pôr já gasolina quando ainda tens meio depósito é um exagero. Com o que tens fazes pelo menos duzentos quilómetros...
Ela - Não me interessa. Vou encher o depósito e pronto.
Eu - Pronto, okay... tu é que sabes...
Ela - Antes de me divorciar, acho que a última discussão que tive com o meu marido foi igualzinha a esta.
Eu - Que discussão de merda para se ter.
Ela - Estás a ver?! Achas que é uma discussão de merda para se ter entre marido e mulher, mas não achas que seja uma discussão de merda para se ter entre dois amigos.
Eu - Na verdade também acho.
Ela - Então porque é que começaste a tê-la comigo?!
Eu - Não sei... só estava a dizer que é muito cedo para pores gasolina...
Ela - Não, não. Estavas a criar uma discussão onde ela não devia existir.
Eu - Mas se ainda tens meio depósito...
Ela - E pensas que não sei isso?! Sou burra ou quê?! Eu sei que tenho meio depósito, mas o meu método de pôr gasolina é este. Podes ter respeito pelo meu método de pôr gasolina no meu automóvel?
Eu - Posso. Já cá não está quem falou.
Ela - Ah! Bom!

1.29.2013

respostas a perguntas inexistentes (244)

Não sei todos chegaram a fazer isto. Eu pelo menos cheguei, no meu princípio da adolescência. Estou a falar de rasgar um bocadinho de papel duma folha do caderno de escola e escrever uma mensagem de Amor. Depois amarfanhá-la e entregá-la discretamente a uma miúda da mesma turma, a duas ou três secretárias de distância, normalmente por via aérea.
Os telemóveis acabaram com isto, cobrando alguns cêntimos para fazer exactamente o mesmo, evitado até o risco que o papel caia nas mãos erradas. Pensei nisto hoje, quando ouvi uma mãe ralhar com o filho por causa da quantidade de mensagens que ela anda a enviar a uma miúda qualquer. É uma questão de dinheiro, não de conteúdo. Estamos lixados.
Percebo perfeitamente que aquele rapaz que vi no café, corado pela vergonha que a voz alta da mãe o fazia passar, não envie papelinhos como eu fazia na idade dele. Deve ser foleiro ou, como dizem agora os miúdos, "não cria cenário" (aprendi esta com a minha filha). A tecnologia liberta-nos, mas ao mesmo tempo aprisiona-nos. Aquele rapaz não pode enviar mensagens de Amor se a mãe não lhe carregar o telemóvel. Eu podia.
A Eva, na verdade, não me ligou nada quando lhe disse que gostava dela. Pegou na bolinha de papel, olhou para mim com um certo ar de desprezo e rasgou-a em dois ou três pedaços enquanto abanava os ombros. A minha história de Amor com ela morreu ali, à nascença. Não se falou mais nisso. Os meus pais não me controlavam o saldo de folhas de papel dos meus cadernos.

1.26.2013

tudo isto é triste


A Barbie e o Ken encontraram-se finalmente. O problema é que o Ken não compreendeu a Barbie.
Ela, uma ucraniana que não diz quantas cirurgias já fez para se parecer com a boneca lançada em 1959 pela Mattel, viajou até aos Estados Unidos para conhecer um homem que já fez cerca de cem cirurgias plásticas para se assemelhar ao popular boneco lançado nos anos sessenta pela mesma empresa. Conheceram-se, mas o Ken já fez saber que a considera "muito esquisita, muito formal e com falta de personalidade". Parece ser um casal sem futuro, portanto.
Eu defendo que cada um de nós tem direito ao seu próprio corpo e que, por isso, pode fazer com ele o que muito bem entender. Mesmo que esse entendimento passe por ficar igual ao Ken, à Barbie ou até ao Senhor Cabeça de Batata. Não os vou criticar, assim, por isso.
O que me assusta nisto tudo, é a forma como a sociedade mediática nos diz como deve ser o nosso corpo. Uma empresa lançou dois bonecos há mais de cinquenta anos e, entretanto, nasceu uma indústria que decide por nós o que é bonito e feio. Nos Estados Unidos há uma indústria gigantesca à volta de concursos de moda para crianças, em que o objectivo é ser o mais parecido possível com o Ken ou com a Barbie. Alguns pais investem milhares de euros nos seus filhos apenas com o objectivo de os vencer.
A própria moda emagreceu as mulheres, multiplicando os problemas de bulimia e anorexia na adolescência, colocando à margem social aqueles cujo corpo não se presta a tais semelhanças. A beleza deixou de ser uma contemplação e passou a ser uma violência.
Eu, como já referi aqui, defendo o direito de cada um ao seu corpo, e é por isso mesmo que me assusto com esta agressividade da indústria da moda, que nos tira esse mesmo direito sem sequer notarmos. Sem notarmos também, estamos a ceder todos os dias a nossa individualidade a um paradigma social que só tem um objectivo: servir um modelo de crescimento económico em que nada mais cresce a não ser ele mesmo. Nem os nossos salários, nem a nossa qualidade de vida, nem a nossa felicidade.
Tudo isto é triste.

1.25.2013

conversa 1988

Ela - Andamos sempre a dizer que vamos organizar um jantar com os nossos amigos de antigamente e nunca mais...
Eu - Este anos podíamos fazer uma sardinhada...
Ela - Sim, boa ideia.
Eu adoro sardinhas.
Eu - Eu também.
Ela - Ainda dizes que não nos entendemos. Estás a ver? Há uma coisa em que estamos em sintonia...
Eu - Sim, de facto. Adoro umas sardinhas com broa e pimento assado.
Ela - Com broa e pimento assado é que já não. Prefiro-as no prato com uma saladinha de tomate e alface.
Eu - Pronto... não é grave, desde que possamos escolher o mesmo vinho...
Ela - Eu não bebo vinho. No máximo bebo uma cervejinha, mas actualmente é mais água..
Eu - Isso lá é bebida para acompanhar sardinhas?!
 la - Então não é?! Vamos para o campo assar umas sardinhas, levamos umas cervejas fresquinhas e a ver se não bebes...
Eu - Para o campo?! Sardinhas é na praia. Em Mira, por exemplo.
Ela - Não gosto de piqueniques na praia. É só areia!
Eu - Bem... se calhar é melhor pensar noutra coisa, sem ser uma sardinhada.
Ela - Talvez... umas fêveras de porco, por exemplo.
Eu - Não como carne vermelha, actualmente.
Ela - Bem, talvez seja melhor adiar este projecto e pensar melhor lá mais para a frente...
Eu - Talvez...

1.23.2013

conversa 1987

Ela - Hoje fui tão antipática com um gajo que me atendeu numa loja...
Eu - Deves ter tido razão. Por acaso sempre te achei simpática.
Ela - Normalmente sou simpática, sim. Não tenho outro remédio.
Eu - Não tens outro remédio?!
Ela - Não, porque não sou assim muito bonita. Se fosse uma mulher daquelas mesmo muito bonitas, já podia ser uma cabra com toda a gente.
Eu - Ia dizer-te que te acho bonita, mas de repente achei melhor ficar calado.

respostas a perguntas inexistentes (243)


Aconteceu-me numa das raras vezes em que conduzo. Ela ia ao meu lado, no lugar do morto, silenciosa. Era como se a cidade nos estivesse a seguir e quiséssemos passar despercebidos. O meu telemóvel tocou e encostei à direita para atender. Senti que a minha voz era demasiado alta, por muito baixinho que eu falasse. Tínhamos combinado ir buscar um amigo comum, sem hora certa marcada, e ele queria saber se já estávamos a caminho. Depois disso, iríamos os três de fim de semana.

- Ainda demoro uns quinze minutos! - disse eu antes de desligar e retomar a marcha.

Um pouco mais à frente parei num sinal vermelho. O silêncio continuou mas, por qualquer motivo, senti que não era igual ao anterior. Talvez o respirar dela me tenha deixado perceber isso, não sei. Sei que me lembrei dum amigo meu, já adiantado numa noite de copos, quando uma vez me disse que a respiração dos outros nos permite perceber o seu estado de espírito. Não liguei nada, porque ele estava bêbado, mas nesse momento lembrei-me dele.

- Porque é que disseste que demoramos quinze minutos, se vamos demorar uns cinco? - Perguntou ela.

Demorei a responder propositadamente. Era uma forma de diminuir o ritmo da discussão. Afinal de contas, era de pressa e de ritmo que estávamos a discutir.

- Assim sei que ele não está à minha espera. Não gosto de fazer esperar os outros. - Sorri, na esperança de que a coisa ficasse por ali.
- Pois, pois. Assim espero eu, não é? - Ouvi-a suspirar.

Estava a começar a apaixonar-me por ela nesses dias. Pensava eu, enganado, que talvez ela o estivesse por mim. A discussão acabou de forma educada, mas fria. Percebemos uma grande diferença entre nós, assumida de forma clara na última coisa que cada um disse.

- Se eu lhe disse que o ia buscar depois de fazer a minha mala e de te apanhar, não vou fazer com que ele fique agora à minha espera no cruzamento duma estrada, caso demore um pouco mais do que o previsto. - disse eu.
- Se lhe dissesses que estava mesmo a chegar, ele já lá estava de certeza quando chegássemos. Era o que eu faria. Só isso. - disse ela.

O fim de semana nem correu mal, numa casa de turismo rural em que o tempo parecia não existir. Ouvimos música os três, vimos um filme ou outro, caminhámos na serra e jogámos xadrez. Percebi, no entanto, que  seria incompatível com ela num contexto onde o ritmo fosse outro.

1.22.2013

o lugar das mulheres é na cozinha


Este anúncio de 1893 a um produto de limpeza chamado Gold Dust (Pó de Ouro) não deixa margem para dúvidas: o lugar das mulheres é em casa, longe de lugares onde se trabalha a sério, ou seja, longe dos lugares onde os homens trabalham. De forma interessante, admite no entanto que o trabalho doméstico ocupa catorze horas, enquanto o trabalho fora ocupa normalmente oito.
O trabalho doméstico é, de facto, duro. Lembro-me de em criança, quase um século depois deste anúncio ter sido publicado, a realidade em Portugal não ser muito diferente. Apesar do Pó de Ouro ter sido substituído por aspiradores...

1.21.2013

meia hora de vida

A primeira coisa em que pensei foi em recusar o convite. Afinal de contas, embora gostasse muito da Vienna, a impressão que eu tinha é que ela era dum meio social muito diferente do meu. Vestia-se com muito cuidado e tinha um comportamento, vá lá... bastante fino para aquilo que eram os meus padrões. Na verdade, só ficámos a falar um com o outro porque eu achei piada ao facto de conhecer uma Vienna no primeiro dia em que estive na capital da Áustria. 
Eu andava de mochila às costas há algumas semanas pela Europa e, para ser sincero, com um aspecto já bastante sujo e descuidado. Numa rua qualquer ela veio falar comigo e avisou-me que não devia continuar naquela direcção por causa dum grupo de extrema direita que estava uns metros à frente. Não gostavam muito de estrangeiros e podiam tornar-se agressivos. No princípio fiquei um bocado assustado e perguntei-lhe por onde é que devia seguir, pois nem sequer fazia a mínima ideia onde estava, e ela acabou por me convidar para beber uma cerveja num sítio seguro.

- I'm Vienna! - Disse ela.
- Are you Vienna or do you live in Vienna? - perguntei.
- No, no... my name is Vienna. - sorri.

E foi assim que começou a nossa conversa. Ela era loira, tão loira e tão bem vestida quanto uma actriz de cinema consegue ser. Bastante bonita e energética. Não demorou muito a perceber que eu estava praticamente sem dinheiro e que andava a pé porque um bilhete de metro custava, já naquele ano de mil novecentos e noventa e cinco, o equivalente a seiscentos escudos. Uma brutalidade, portanto. Disse-lhe que ia apanhar um comboio às seis da manhã para Praga e, por isso, nem sequer ia dormir em lado nenhum, o que era verdade. Pagou-me duas cervejas que custaram também um balúrdio e convidou-me para uma festa na casa dela nessa mesma noite.Assim, poderia sair da festa e ir directamente para a estação de comboios.
Aceitei um papelinho com uma morada escrita à mão, pensando que nunca na vida a iria procurar, e por isso despedi-me dela com um "see you!" acreditando que, na verdade, nunca mais a veria. À noite, no entanto, e porque a solidão começou a pesar, acabei por ir dar à casa dela depois de ter conseguido comprar uma garrafa de vinho português num supermercado. Assim que entrei, perguntei por ela, pois foi um desconhecido que abriu a porta e eu não sabia mais o que dizer. Um homem alto e muito magro mandou-me entrar, ofereceu-me uma cerveja, fez-me algumas perguntas por causa da garrafa que eu lhe entreguei e apresentou-me algumas pessoas. Ele, pelos vistos, também não conhecia todos os presentes. A Vienna, entretanto, tinha ido a um sítio qualquer e não ainda não tinha chegado.
Acabei por me sentar numa cadeira que tinha outra igualzinha mesmo ao lado, onde acabei por ficar quase uma hora. A cadeira ao lado da minha estava livre e, por isso, de vez em quando alguém se sentava ali e começava a falar comigo sem mais nem menos. Alguns, que não sabiam que eu era português, falavam em alemão, ao que eu respondia sempre da mesma forma, dizendo em inglês que não estava a perceber.
Durante esse tempo reparei numa mulher que, por qualquer motivo, me interessou bastante. Não é que fosse especialmente bonita (a Vienna, por exemplo, era muito mais atraente). Foi qualquer coisa daquelas que não conseguimos explicar, mas que faz com que de repente não pensemos em mais nada senão em conhecer aquela pessoa. Como quase todos os presentes estavam a rodar pela cadeira junto à minha, decidi ficar ali sentado à espera que chegasse a vez dela. Dessa forma poderia meter conversa discretamente, com o álibi de quem nem sequer tinha sido eu a ir ter com ela. 
Pois bem... acho que ela foi das únicas que não se sentou ao meu lado. Na verdade, nem sequer olhou para mim durante todo esse tempo. Comecei, de certa forma, a ficar angustiado. Como tinha que ir embora, sabia que o tempo para a conhecer estava a passar e era limitado, como se de uma ampulheta se tratasse. Quando a Vienna chegou, finalmente, percebi que elas eram uma espécie de melhores amigas. Só nesse momento é que a conheci, pois foi-me apresentada. Chamava-se Lena e era portuguesa. Pelos vistos, a Vienna tinha-me dito que tinha uma grande amiga portuguesa mas eu, distraído como sou, nem sequer tinha ouvido.
Nesse momento, e porque entretanto já tinha bebido algumas cervejas, expliquei-lhe que tinha estado a noite toda à espera que se sentasse ao meu lado, só para a poder cumprimentar. Ela, não gostando muito do rumo da conversa, afastou-se. Lembro-me que fiquei desiludido e com uma pequena dor de barriga.
Eram cerca das cinco da manhã quando peguei na mochila para me ir embora e comecei a despedir-me dos poucos que ainda estavam presentes. A Lena era uma delas e ficou surpreendida. Expliquei-lhe que tinha um encontro em Praga nessa mesma tarde e tinha que mesmo que ir. Ela, para minha surpresa, ofereceu-se para me acompanhar à estação e foi assim que tive, muito provavelmente, umas das melhores meias horas da minha vida.
Nessa meia hora de vida apaixonei-me totalmente e, antes de entrar para o comboio, procurei-lhe no fundo dos olhos aquela sensação que tinha encontrado nas suas palavras: a de que valia a pena eu mudar de planos por uma incerteza. Tive dúvidas, para ser sincero. Trocámos contactos, um beijo tímido nos lábios e eu despedi-me. Nunca mais a vi.

1.18.2013

conversa 1986

(em casa dela)

Eu - Ena! Mudaste as mobílias todas. Está fixe, assim.
Ela - Mudei ontem. Estava aqui em casa sem fazer nada e decidi aproveitar...
Eu - Espera aí! Mudaste este armário pesadíssimo sozinha? Deves ser a super-mulher...
Ela - Não foi bem sozinha. Vieram aqui dois mormons todos simpáticos, perguntaram-me se eu precisava de ajuda e eu aproveitei. Pus os homens a carregar alguns móveis...
Eu - E depois não tiveste que os aturar a falar de Deus?
Ela - Não. Assim que mudaram as coisas mais pesadas, ofereci-lhes um café e aproveitei para lhes dizer que sou ateia e que não não valia a pena chatearem-me com essas coisas...
Eu - E eles não ficaram chateados?
Ela - Claro que não. São mormons...

1.16.2013

Amor à porta duma casa de banho

Conheci a única mulher com quem tive filhos na porta da casa de banho de um café. Dito assim pode parecer estranho, mas é verdade. Foi há muitos anos, no café Palácio em Aveiro. A casa de banho dos homens estava ocupada e fiquei à espera na entrada, talvez uns dois minutos. Ela estava numa mesa próxima e começámos a falar um com o outro.
Isto não é importante, mas penso muitas vezes como teria sido a minha vida se nessa noite não tivesse ido à casa de banho daquele café. Muito diferente, certamente. Não tinha passado dezasseis anos com ela e a minha filha não existia. Talvez nem tivesse filhos, mas se tivesse seriam outros. 
Não acredito no destino, mas acho mesmo muito interessante a forma como a probabilística nos molda a vida. A maior parte do tempo nem pensamos nisso, mas pequenas coisas sem importância nenhuma podem mudar significativamente o rumo da nossa vida.

Estava a detestar a sensação de ver os assuntos entre nós morrer rapidamente. Eu dizia qualquer coisa e ela nunca tinha resposta. O mesmo se passava no sentido inverso. Era como se a nossa conversa fosse composta por peças de puzzles diferentes. Estava a detestar o facto, principalmente porque sabia que a Irina era mulher para se levantar e ir embora ao mínimo suspiro. É que a mim agradava-me estar perto dela, mesmo quando as conversas não passavam de meras tentativas de encontro, e aquele fim de tarde no café estava a saber-me bem.
Eu estava a folhear o mesmo jornal pela quinta ou sexta vez, apenas para justificar a minha presença ali. Assim, evitava estar a olhar para ela frente a frente, sem termos nada que dizer um ao outro. Acho que ela se apercebeu, porque a certa altura passei três ou quatro folhas sem sequer olhar para elas. Foi então que se referiu a um livro qualquer que andava a ler (não me lembro do autor nem do nome) em que duas pessoas se apaixonavam na porta da casa de banho dum café.

- Na porta da casa de banho dum café?! - Perguntei. - Foi assim que conheci a minha ex-mulher...
- Que lindo! E também decidiram fazer uma viagem os dois até um país distante?
- Não. Decidimos tomar café uns dias depois. Porque é que eu havia de fazer uma viagem com uma pessoa que eu mal conhecia?

Senti o peso do olhar desiludido da Irina por, mais uma vez, ter estragado uma conversa que estava a começar. A ela apetecia-lhe falar sobre uma surreal aventura amorosa qualquer, eu estava muito terra-a-terra nesse dia. Ela acabou, uns cinco minutos depois, por se levantar e despedir-se.

- Vou andando! - disse.

Pedi uma cerveja e fiquei ali mais uma meia hora sem fazer nada de interessante. Uma espécie de meia hora vegetativa a ter pensamentos que eu próprio não poderia descrever, como se não fosse eu a tê-los realmente e não passassem dum ruído de fundo qualquer. Do televisor, por exemplo.
Uma mulher entrou no estabelecimento e foi directamente à casa de banho. Ao abrir a porta bateu de frente num homem que ia a sair. Ficaram ali uns segundos a falar um com o outro e depois acabaram sentados ao balcão, lado a lado. Primeiro com um banco de intervalo entre eles, depois ele moveu-se para mais perto dela. Pareceu-me que era a primeira vez que estavam a falar, mas talvez já se conhecessem.
A minha coincidência desse dia foi outra. Se a Irina tivesse ficado mais algum tempo no café, talvez tivesse visto aquela cena e teríamos certamente motivo de conversa. Talvez ficássemos o dia todo um com o outro, jantássemos juntos, bebêssemos um copo num bar pouco frequentado ou fôssemos ao cinema. Não aconteceu. Acho que passei a vê-la com menos frequência desde esse dia.
Nunca consegui contar-lhe isto, principalmente porque sempre achei que ela ia pensar que eu estava a mentir.

1.15.2013

conversa 1985

Ela - Isto é um jogo para ver como vai a tua vida. Faço-te cinco perguntas e tens que responder logo, está bem?
Eu - Okay...
Ela - Diz-me a marca da última cerveja que bebeste...
Eu - Sagres.
Ela - Diz-me o nome do último vinho que bebeste...
Eu - Hum... Azinhaga de Ouro. É um Douro tinto.
Ela - Diz-me qual foi o prato da tua última refeição...
Eu - Esparguete à Bolonhesa.
Ela - Diz-me a marca do último café que bebeste...
Eu - Delta.
Ela - Diz-me a marca do último preservativo que usaste...
Eu - Hum... hum... hum... epá...
Ela - Pronto, a tua vida corre bem em quase tudo. Parabéns...
Eu - Isso não é justo.
Ela - Ninguém disse que a vida era justa.

1.14.2013

conversa 1984

Ela - Queres tomar um café?
Eu - Só se for rápido. Tenho que fazer e ainda vou ali comprar uma ou duas camisolas de poliéster.
Ela - De poliéster? Eu não deixo o meu marido usar poliéster.
Eu - Porquê?
Ela - O poliéster é uma fibra artificial. Ainda agora, nos saldos, lhe comprei umas camisolas de lã. Nem o deixo escolher...
Eu - Eu prefiro poliéster. Assim não me preocupo quando lavo a roupa. É que a lã encolhe, o poliéster não...
Ela - Eu lavo a roupa ao meu marido, precisamente para ele não a estragar.
Eu - Se lhe comprasses poliéster já o podias deixar lavar a roupa dele.
Ela - Hum... talvez vá contigo às compras e também lhe compro poliéster.

1.13.2013

das coisas inúteis à inutilidade em si...


Um país inteiro caiu em cima da Pepa Xavier só porque ela admitiu que deseja ter uma mala qualquer. Acusaram-na de estar desfasada da realidade económica do país e de pôr a nu o quão hipócrita pode ser a sociedade.
No vídeo que eu vi, a Pepa Xavier propõe-se a comprar a mala, não a roubá-la. Parece-me legítimo, o desejo, e compreendo-o. Aliás, desculpem-me os mais sensíveis, mas eu tenho vários desejos do género. Não com malas mas com objectos igualmente inúteis. Ou ainda mais, se calhar. Estou desempregado neste momento, mas continuo a tê-los. Há coisas caríssimas e sem utilidade que eu gostava de ter
Eu compreendo a Pepa. Não compreendo é um país que reage desta forma por causa duma mulher revelar um simples desejo. Aliás, gostava de saber, de todos os que disseram mal dela nestes dias, quantos é que estão preocupados com a inutilidade de mais um jogo de futebol entre duas sociedades anónimas desportivas marcado para este fim de semana. Estou a falar do Benfica-Porto e, pelo que tenho reparado no Facebook e nos jornais, são muitos. É só um exemplo. Podia arranjar mais.
O meu problema é que até acredito que há aqui uma questão de género. A Pepa foi crucificada por ser mulher e querer uma carteira. Se fosse um homem a desejar estragar um automóvel com um tunning estúpido qualquer, a reacção seria mesma? Fica a pergunta.
E hoje, entre o Benfica e o Porto, que percam os dois. É o desejo de alguém que gostava de ter uma Playstation 3...

1.11.2013

respostas a perguntas inexistentes (242)

molas

Uma vez conheci uma mulher que fazia colecção de molas de roupa. O mais estranho é que, à época, ela nem sequer lavava ou secava a própria roupa. Levava-a a casa dos pais, pelo menos pelo que me disse no dia em que a conheci. Nesse dia bebemos uns copos e ela acabou por me convidar para ir a casa dela, onde me mostrou a sua colecção de molas de roupa com a mesma emoção que se mostra um álbum de fotografias a um amigo novo.
Passo a explicar. A colecção de molas de roupa tinha uma característica que me suscitou algum interesse, pois por trás de cada uma delas havia um rosto humano. Na verdade, a Fátima nunca tinha comprado nenhuma mola de roupa na vida. Coleccionava aquelas que apanhava no chão, caídas duma varanda ou duma janela qualquer. Fazia isso há anos e cada vez que encontrava uma mola tentava adivinhar de onde ela tinha caído. Depois visitava o mesmo sítio repetidamente até conseguir tirar uma fotografia ao antigo dono da mola enquanto estendia ou apanhava a roupa, imprimia-a e pendurava-a numa das cordas de roupa que tinha espalhadas pelas paredes da casa. Com a mola respectiva, claro.
Tinhas as paredes da sala e de um corredor repletas de fotografias com pessoas a estender ou a apanhar a roupa. Fotografias tiradas em pequenas varandas de cidades, pátios soalheiros de casas de aldeia, grandes terraços, etc. Percorri cada uma delas com interesse genuíno e fui parando naquelas que, por algum motivo, careciam de uma análise mais pormenorizada.

- Disseste-me que fazias colecção de molas... - disse-lhe eu.
- Sim.
- Mas isto é uma colecção de histórias. - concluí.

Ela concordou. Disse-me que eram as suas próprias histórias. Através daquela colecção conseguia lembrar-se de cada um dos momentos e das viagens da sua vida. Numa das fotografias, por exemplo, uma miúda loira com doze ou treze anos dizia adeus à máquina. Tinha sido, pelos vistos, uma criança que deixou cair uma mola duma varanda no Algarve e a quem o então namorado da Fátima a pediu encarecidamente para a sua colecção. O namorado da Fátima já tinha deixado de o ser muitos anos antes e, muito provavelmente, a miúda já andaria na Universidade por aqueles dias.
Cada mola pendurava um momento do passado dessa minha nova amiga como se fosse uma peça de roupa a secar ao Sol. A diferença é que ela nunca os apanhava e, por isso, estavam ali a perpetuar-se nos dias que passam com uma estranha insistência. Eram pequenos momentos que pareciam teimar em viver mais tempo do que aquele que a natureza lhes atribuíra por direito.
A Fátima acabou por me explicar que a memória cerebral não chega para que esses pequenos momentos vivam dentro de nós. Acabam por desaparecer, como grãos de areia engolidos por uma onda do mar. Eu concordei na altura, mas hoje de manhã lembrei-me desta história apenas porque estava a estender a roupa aos fracos raios deste Sol invernoso que tenta aquecer a cidade de Aveiro. Lembrei-me dela de repente, sem qualquer outra justificação para além de estar a estender a roupa. Talvez a nossa memória cerebral não seja assim tão má. Pelo menos aquela que está, duma forma ou de outra, ligada ao coração.

1.10.2013

conversa 1983

Ela - Porque é que compraste a "Quero Saber"? Isso é literatura de casa de banho...
Eu - Na capa dizia que tinha tudo sobre bonsais, mas de facto não tem quase nada. Fiquei desiludido, não a torno a comprar.
Ela - Pois... quem promete tudo, normalmente não tem quase nada para dar.
Eu - Pois... sobre bonsais tem quatro ou cinco parágrafos pobrezinhos...
Ela - És homem, já devias saber que não se deve acreditar em quem promete tudo...
Eu - O que é que isso tem a ver com ser homem?!
Ela - Já alguma vez prometeste Amor total a uma mulher?!
Eu - Já...
Ela - E cumpriste?
Eu - Bem... não propriamente, mas quando prometi estava a falar a sério...
Ela - Pois... 

1.09.2013

conversa 1982

Ela - Agora que tenho quase cinquenta anos, acho que estou a atravessar a melhor fase da minha vida, sabes? Sinto-me em paz...
Eu - Ainda bem.
Ela - Sinto-me calma e equilibrada, algo que nunca me aconteceu antes, muito por culpa dos homens que se atravessaram na minha vida.
Eu - Como te conheço há muitos anos, percebo o que dizes. Ainda bem que agora estás melhor.
Ela - Sim... a única coisa que me tira do sério, apesar de tudo, continuam a ser alguns homens que conheci.
Eu - Saudades?
Ela - Não. Raiva.
Eu - Raiva?!
Ela - Sim, quando me dou conta que perdi alguns anos da minha juventude por causa de homens que não o mereciam. Quando me ponho a pensar nisso, lá se vai a paz...

1.08.2013

coisas que fascinam (158)

o Amor é um fósforo

Acho que o Amor é um fósforo. Acende-se, queima-se e morre. Não existe, por isso, o Amor duma vida inteira. É falso. O que pode existir é uma vida inteira onde todos os dias nasce um novo Amor entre os mesmos Amantes, que o Amor é coisa para um dia. Não mais do que isso.
Dois Amantes que estiveram juntos durante um ano apaixonaram-se trezentas e sessenta e cinco vezes nesse ano. Basta terem-se apaixonado trezentas e sessenta e quatro que, lá pelo meio, é mais do que certo que tiveram um dia triste. Um dia em que, não o confessando a ninguém, duvidaram daquilo que sentiam.
A dúvida faz parte do Amor. Surge sempre naqueles dias em que nós acordamos, mas o Amor não. São dias de sonolência, esses. E no entanto, essenciais para que nos apaixonemos de novo, logo na manhã seguinte, pela mesma pessoa.

1.07.2013

conversa 1981

Ela - Não sentes que há qualquer coisa de mágico num ano que começa de novo? Qualquer coisa que faz as pessoas sentirem uma nova força, uma energia redobrada?!
Eu - Não.
Ela - Estragas sempre tudo.

conversa 1980

Ela - Não te sei explicar muito bem o que sinto. Estou mesmo cansada de viver com o meu marido e já não o posso ver, mas ao mesmo tempo tenho um carinho muito especial por ele e não ganho coragem para o deixar...
Eu - E umas férias sozinha, já pensaste nisso?
Ela - Já pensei... mas não sei se ele vai gostar da ideia...
Eu - Tu é que sabes. Eu acho que é sempre bom falar nessas coisas. Pôr tudo em cima da mesa, amigavelmente, e discutir. Já falaste com ele sobre isso?
Ela - Não consigo falar com ele sobre isso.
Eu - Tens que ganhar coragem...
Ela - Não é bem uma questão de coragem, é mais uma questão de oportunidade.
Eu - De oportunidade?! Vocês vivem juntos...
Ela - Vivemos... mas ele está sempre a jogar Playstation 3 na sala e eu a ver televisão no quarto...

1.04.2013

coisas que fascinam (157)

uma questão de pele

Talvez já tenha acontecido a todos nós. A mim, pelo menos, já me aconteceu mais do que uma vez não gostar duma pessoa não tendo motivo nenhum para tal. Lembro-me da Rosa, por exemplo, a quem nunca consegui apontar nenhuma característica que não me fosse simpática e de quem, no entanto, nunca gostei no seu todo. Nada mesmo, sublinhe-se.
Diz-se normalmente que é uma questão de pele, o que nos leva a não gostar duma pessoa contra a qual até nem temos nada. Que eu me lembre, nunca toquei na pele da Rosa, nunca a cheirei nem senti. Mas até acredito que possa ser mesmo uma questão de pele, já que nunca encontrei nenhuma justificação para tal.
A Rosa até era bonita. Tinha uma cabelo curto encaracolado e algumas sardas nas bochechas. Parecia uma menina de escola mal comportada e, se eu a tivesse visto apenas numa fotografia, acho que tinha gostado dela. Mas ela era apenas amiga duma amiga, ou seja, uma conhecida que nunca tinha passado desse estatuto, apesar de nos termos sentado um número infindável de vezes à mesma mesa do café.
Convém acrescentar, claro, que eu sempre tive a perfeita noção de que eu, para ela, também não era flor que se cheirasse.. As nossas conversas de café tinham sempre a Susana, a tal amiga comum, como intermediária.
Uma vez, tínhamos acabado de nos sentar os três à mesa do café e de pedir uma cervejas, quando a Susana recebeu um telefonema urgente qualquer e teve que se ausentar durante quase uma hora. Ficámos nós os dois, eu e a Rosa, duas peças dum puzzle que não encaixavam claramente uma na outra, frente a frente.
Lembro-me perfeitamente que me tentei refugiar na televisão mas estava a dar uma partida de ténis qualquer, desporto pelo qual nunca nutri grande simpatia e do qual sei muito pouco. Além disso, todos os jornais disponíveis no estabelecimento eram desportivos, coisa que eu também não consigo ler durante mais do que cinco minutos. Acabei por me refugiar na própria cerveja, que bebi mais depressa do que seria normal por não ter com quem falar.
O silêncio começou a ser perturbador e eu olhava ansioso para a entrada à espera que a Susana regressasse ou que, pelo menos, um outro amigo qualquer entrasse e desanuviasse o ambiente pesado. A Rosa, de cujo olhar o meu fugia como uma borboleta tonta, estava sentada como se fosse uma estátua intocável, o que me incomodava ainda mais.
Foi nesse momento que tudo mudou. Ela começou a rir, abriu a carteira e deu-me uma pequena consola de jogos para a mão, uma Game Boy Color. Eu fiquei perdido e perguntei-lhe para que é que eu queria aquilo.

- Nós, por qualquer motivo, não gostamos um do outro. Isso é ponto assente. Mas escusas de estar aí tão inquieto só porque não temos assunto. Eu posso estar aqui quieta e não te chateio com nada e tu, se quiseres, podes jogar com a consola do meu filho.

Posta esta coragem em cima da mesa, que me surpreendeu de forma positiva, abriu-se uma porta para eu lhe dizer o que estava a sentir.

- Desculpa lá. Não tenho mesmo nada contra ti. Apenas não me sinto muito bem contigo, nem sei bem porquê...

A Susana acabou por demorar bastante mais do que o previsto e, quando chegou, estávamos ainda nós em amena cavaqueira sobre a forma como as pessoas podem ou não gostar umas das outras. Nesse dia ficámos finalmente amigos e ainda hoje o somos. Pode haver, de facto, uma questão de pele, mas também há uma questão verbal, semântica ou de conversa de café (como lhe queiram chamar) que não é menos importante.

1.03.2013

respostas a perguntas inexistentes (241)

- Um dia destes ainda havemos de jantar os dois! - disse-me ela.

Fiquei a pensar naquela fracção de tempo, "um dia destes", tão pequena quando comparada com a minha vontade estar com ela. Mais pequena ainda do que isso, já que nesse dia se reduziria a um jantar. Lembrei-me duma música que ouvira no carro uns minutos antes, numa rádio que só passa canções dos anos oitenta, e que dizia que "a culpa é da vontade que vive dentro de mim e só morre com a idade, a idade do meu fim".

- Um ano destes ainda havemos de nos Amar os dois! - respondi-lhe.

A partir desse momento perdi a coragem de a fitar nos olhos. Não porque me apetecesse fugir, mas sim porque passei a sentir-me um invasor. Estávamos a lanchar e ela escondera o sorriso tímido por trás duma chávena de chá fumegante. Esperei um pouco e passeei o meu olhar por todos as coisas desinteressantes daquele café de esquina até a ouvir dar sinal de vida.

- Uma vida destas ainda havemos de nos Amar os dois! - insistiu ela.

Foi a primeira vez que demos as mãos um ao outro e durante dois meses vivemos um Amor eterno.

1.02.2013

a romã

Há duas maneiras de comer uma romã. A primeira é ir ingerindo as sementes à medida que, com algum esforço, se vai removendo a casca e a amarga película que cresce entre elas. A segunda é, com muita paciência, remover primeiro todas as sementes para uma taça e depois comê-las à colherada, já sem qualquer tipo de obstáculo.
Pode não parecer importante, porque não é, mas a forma como se come uma romã pode definir a compatibilidade, ou a falta dela, entre duas pessoas. Eu como-a sempre da segunda maneira, optando por fazer primeiro todo o trabalho árduo de separar as sementes para depois aproveitar o seu sabor sem mais preocupações.
Nunca consegui manter uma relação duradoura com mulheres que a comem com o primeiro método, roendo-a com se fosse uma presa aos pés dum predador carnívoro. A romã desfaz-se e sangra, derrotada perante a ansiedade de quem a come. No fim satisfez-se a fome e a necessidade nutritiva do corpo, mas não com o prazer que o sabor daquela espécie de fruto permite.
Ao comer uma romã, sinto-me sempre no estado do guerreiro que descansa depois da batalha. Já lutei com ela, por isso mereço um momento de paz enquanto a saboreio. Normalmente ouço música ou, embora raramente, começo a ver um filme.
A romã é assim, um bom teste de compatibilidade entre duas pessoas que pretendem Amar-se. Não apenas pelas suas conclusões mais precipitadas, mas porque quando se descobre que se namora há vários anos com uma mulher que não come a romã como nós, é porque esse teste foi superado da melhor forma. Sem cedências, digo.
O índice ivariano regressa ao vinte.


12.28.2012

pensamentos catatónicos (290)

preguiça

Sempre imaginei que as tardes de preguiça são o melhor para quem está apaixonado. Passar o tempo todo a deambular pela casa, acumulando louça suja na banca da cozinha, vendo filmes de histórias fáceis, lendo livros aos bocados e espreguiçando-me de tempos a tempos, ora na cama ora no sofá. A preguiça é excelente, mas regada com beijos espaçados é ainda melhor.
Assim, quando me apaixonei pela Cristina esperei ansiosamente pela primeira tarde de preguiça a dois. Lembro-me que acordei por volta do meio-dia com uma vontade enorme de sentir o aroma dum café quente. Ela já não estava na cama. Deambulava pela sala com ar de poucos amigos e, mal me viu entrar na cozinha, perguntou-me se eu ia passar o dia naquela ronha. Estava impaciente.
Uma semana depois já não estávamos juntos. Não se pode Amar quem não partilha a preguiça.

conversa 1979

Ela - Tenho que me deixar de bananas.
Eu - Vais deixar o teu namorado?
Ela - Credo! Achas que o meu namorado é um banana?
Eu - Não é bem isso. Desculpa, saiu-me.
Ela - Estava a falar do fruto chamado banana.
Eu - Ah! E porque é que tens que deixar as bananas?
Ela - Por causa dos meus intestinos...
Eu (silêncio)
Ela - Que cara é essa?!
Eu - Preferia não saber isso...
Ela - Não saber o quê?
Eu - Que tens que te deixar de bananas por causa dos intestinos...
Ela - Mas o que é que raio estás a pensar? Não sabes que as bananas prendem os intestinos?! Estou a falar de prisão de ventre, homem.
Eu - Ah!
Ela - Ah?!?! Mas o que é que tu estavas a pensar?
Eu - Em nada de especial. Mudemos de assunto.
Ela - Temos que voltar a essa de achares que o meu namorado é um banana.
Eu - Não acho nada disso. Foi apenas a primeira hipótese que pus, tu achares que ele é um banana. Eu cá não acho nada. Nem o conheço bem...
Ela - Não acredito em ti.

12.26.2012

conversa 1978

Ela - Tenho alguns amigos que fazem uma festa sempre que me vêem, a não ser que estejam com as respectivas namoradas ou mulheres. Aí, cumprimentam-me discretamente ou nem reparam em mim. Nunca percebi porque é que há tantos homens assim...
Eu - Não há muitos, de certeza. Tu é que deves ter amigos fora do normal.
Ela - É o que eu estou a dizer. Os homens são todos igualmente fora do normal.

outra pessoa acampada na nossa cabeça

O jornal Público traz hoje uma dissecação do Amor, feita pela antropóloga Helen Fischer. O Amor é uma intrusão, diz ela, explicando que "um grupo de neurónios localizados no mesencéfalo começa a produzir dopamina que se espalha a muitas partes do cérebro e nos dá aquela focalização, energia, possessividade, desejo, obsessão e motivação para ir ter com a pessoa". A intrusão dá-se porque, a a partir do momento que isto acontece, a outra pessoa está acampada na nossa cabeça.
Talvez a maior parte das pessoas não simpatize muita com esta fria interpretação científica do que é o calor do Amor, mas a própria Helen passa da sua observação cientifica para uma sua interpretação pessoal, pois também ela sabe o que é estar apaixonada. Dos processos químicos resulta que a outra pessoa acampa na nossa cabeça. Pois é.

12.24.2012

conversa 1977

(em minha casa)

Eu - Bebes um uísque ou um porto?
Ela - Não, obrigado. Não me posso meter no álcool já ao almoço...
Eu - Tudo bem. Era só por ser Natal.
Ela - Por falar nisso, qual é teu maior desejo para 2013?
Eu - Arranjar emprego.
Ela - O meu também. Gostava de arranjar emprego.
Eu - Estamos na mesma...
Ela - E já agora também queria que o meu marido arranjasse emprego. E o meu irmão... e o meu filho...
Eu - Eu também já perdi a conta a familiares e amigos desempregados.
Ela - Afinal sempre aceito o tal uísque.
Eu (dando-lhe um copo) - Bem... feliz Natal.
Ela - Feliz Natal.

12.23.2012

conversa 1976

Ela - Agora no Natal é uma confusão ser casada.
Eu - Porquê?
Ela - O meu marido quer que passemos a noite de Natal na casa da mãe dele, eu quero passar na casa dos meus pais... enfim, é sempre a mesma luta todos os anos.
Eu - Porque é que não alternam de ano em ano? Um ano na casa dos teus pais, outro ano na casa da mãe dele...
Ela - Ele já propôs isso, mas eu não posso aceitar.
Eu - Porquê?
Ela - Porque quero todos os anos na casa dos meus pais e depois, o almoço do dia seguinte, já pode ser na casa do pai dele.
Eu - Ah! Pronto... tudo bem.
Ela - Tudo bem?!
Eu - Sim, para mim está tudo bem. Não tenho nada a ver com isso...
Ela - Pareces o meu marido. Também não discute, abana os ombros e aceita as coisas, mas depois amua e eu é que tenho que o aturar...

12.21.2012

a segunda impressão

De vez em quando acontece interessar-me muito por uma mulher. Utilizo o verbo interessar sempre que conheço alguém por quem não me apaixono de maneira nenhuma mas por quem, de forma muito regular, me vou imaginando apaixonado. Normalmente isto acontece-me por um facto muito concreto, uma característica específica da mulher que pode ser física ou psicológica, e adoro que me aconteça porque, na verdade, é muito confortável estar interessado por alguém sem qualquer paixão envolvida.
Apaixonado, perco muitas vezes o discernimento. O coração bate mais depressa e os pensamentos tropeçam nas palavras que me vão saindo da boca. Há uma sensação de euforia que se vai misturando com a de frustração, o que pode dar um cocktail emocional explosivo. Assim, apenas interessado, consigo apreciar a coisa com a Razão e, em abono da verdade, adoro isso. Adoro isso, claro, quando já estou apaixonado de forma correspondida e por isso não tenho a necessidade de me apaixonar mais.
Uma vez interessei-me por uma mulher sem estar apaixonado por ninguém. Vivia sozinho e, para ser muito sincero, acho que foi a única vez que me aconteceu. Foi estranho porque o que me interessou nela foi perceber que era uma mulher desprendida de tudo. Conheci-a numa festa em casa de uns amigos comuns, enquanto abria o frigorífico para tirar uma bebida e, como ela estava logo atrás de mim, lhe perguntei se queria cerveja ou vinho branco.

- Qualquer coisa! - disse estendendo-me um copo vazio de plástico.

Servi vinho branco aos dois e passámos o resto da noite a conversar numa enorme varanda que a casa tinha. Para além de desprendida, ela tinha uma surpreendente resistência ao álcool, de tal forma que bebemos uma garrafa de vinho cada um e ela, pelo menos aparentemente, ficou na mesma. Enquanto bebíamos e conversávamos, reparei que ela conhecia quase toda a gente naquela festa, onde deviam estar umas cinquenta pessoas, enquanto eu conhecia apenas três ou quatro.
Foi esse facto que fez com que ficássemos amigos. Quando lhe disse que ela era muito popular, ela respondeu que tinha tantos amigos que apenas costumava ficar sozinha na noite de Natal, o que achava óptimo. Ora, por essa altura também eu passava todas as noites de Natal sozinho, normalmente a jogar computador até de manhã.
Na noite de Natal, todas os nossos amigos estão com as suas famílias. Eu e ela, por assim dizer, estávamos divorciados e não tínhamos família para isso, por isso acabámos por combinar passar juntos a noite de vinte e quatro de Dezembro, que seria daí a três ou quatro dias. Passei assim, nesse ano, o Natal com uma mulher que mal conhecia.
Para além dum bacalhau assado com batatas e couves cozidas, enchi o frigorífico de vinho branco e esperei que ela chegasse para jantar, o que aconteceu à hora prevista. Abri a porta, ela entrou, cumprimentou-me e entregou-me uma prenda que me fez sentir um bocado envergonhado, pois eu não lhe tinha comprado nada.  Era um moleskine.
Durante o jantar reparei em coisas dela em que não tinha reparado na festa. Por exemplo, que tinha um sinal no queixo e que uma das suas orelhas estava rasgada na parte inferior, como se alguém tivesse ali chegado e cortado a pele como se fosse uma folha de papel. Era magra e bastante bonita, de cabelos curtos muito pretos que contrastavam com a pele muito branca.
Quando acabámos a sobremesa ela fez-me um pedido muito estranho. Pediu-me que lhe indicasse uma cama, pois estava muito cansada e precisava dormir, e que escrevesse no moleskine, durante o sono, tudo o que pensava dela. Obedeci sem perguntar porquê.
Quando ela acordou já eu estava com o livro fechado e a caneta no bolso, bebericando um pequeno copo de uísque. Ela sorriu-me.

- Escreveste alguma coisa?
- Sim... como te conheço mal, chamei ao texto "a segunda impressão". A primeira impressão foi a que tive quando te conheci. Queres ler?
- Não! - respondeu ela sem hesitar.
- Não?!
- Não. Pedi-te que escrevesses sobre mim para que um dia mais tarde haja a possibilidade de leres isso e de te lembrares desta noite. Convenhamos que passar o Natal com uma mulher acabada de conhecer é estranho, e é essa a minha prenda para ti: uma memória única. Nunca fizeste isso com mais ninguém, pois não?

Arrumei o moleskine num armário, entre vários livros esquecidos e confortados pelo pó. Hoje, alguns anos depois, abri-o de novo pela primeira vez. Li o texto e regressei a essa noite, que foi tão estranha quanto agradável. Depois tornei a fechá-lo e coloquei-o no mesmo sítio. Foi a minha prenda de Natal, essa memória. A segunda impressão.

12.20.2012

conversa 1975

Ela - Tens tantos filmes... não me emprestas um para eu ver hoje à noite.
Eu - Empresto. Qual é que queres?
Ela - Nem sei...
Eu - Queres um que dê para rir, um que dê para assustar ou um que dê para adormecer?
Ela - Chorar, quero um que dê para chorar.

12.19.2012

maria

É verdade que o menino Jesus cresceu e fez montes de milagres. Multiplicou pães e vinho, curou cegos e paralíticos. Depois disso, só o Pai Natal é que o conseguiu derrotar. Para além de ter renas voadoras, pôs milhões de pessoas, um pouco por todo o mundo, a gastar dinheiro que não têm para comprar coisas que não precisam, e bate-o aos pontos em popularidade.
Do milagre da Maria, mãe de Jesus, é que pouco se fala. Quer dizer, fala-se, mas ainda assim é um milagre secundário comparado com os do seu filho ou com os do gordo barbudo. A mulher engravidou mantendo-se virgem o que, convenhamos, é ainda mais incrível do que renas a voar, paralíticos a andar ou cegos a ver. Da multiplicação do pão e do vinho já não digo nada, porque quando a coisa mete vinho pelo meio é comum começar a ver a dobrar.
Serve este texto para dizer que eu considero que Maria conseguiu, de facto, um milagre enorme. Não através da acção do Espírito Santo no seu ventre, mas sim através da sua inteligência. Não é preciso muito para ver o que acontece a uma mulher adultera, ainda hoje, em alguns grupos sociais com maior fervor monoteísta. Na melhor das hipóteses, sobrevive depois de levar uma valente sova, mas o mais normal é acabar alguns palmos debaixo da terra.
Foi sempre assim que as coisas acabaram para as mulheres em regimes onde o poder político e a religião se confundem. Olhemos para a Inquisição ou para a recente introdução da Sharia na Nigéria. As mulheres saem sempre a perder, a não ser que se dê um milagre. Com a Maria deu, porque ela o soube criar.
Boas festas!

conversa 1974

- Quem é que acabou com quem?

A Madalena perguntou-me isto e eu não lhe respondi. Não que não soubesse a resposta, mas hesitei em dizê-la nem sei bem porquê. Tinha-me encontrado com ela num café da cidade para lhe devolver uns livros e receber de volta uns cd's emprestados e, assim como que não quer a coisa, disse-lhe que dois amigos comuns tinham entrado no processo de divórcio. Perguntou imediatamente quem tinha acabado com quem.
Eu tinha pedido um donut e uma bica. Não que eu costume comer donuts (na verdade, foi a primeira vez na vida que comi um donut comprado num café e não num supermercado), mas naquele momento, assim que os vi em exposição, fiquei com uma vontade inexplicável de dar uma dentada num. Ela, como se quisesse sustentar o seu aspecto frágil, tinha apenas um chá verde à frente.

- Nem sei bem. - respondi.  - Na verdade acho que isso é indiferente.

Sempre achei fantástica a forma meticulosa como a Madalena bebe chá. Consegue realizar todas as operações sem verter um único pingo, como se aquela operação de levantar a tampa do bule metálico e encher a chávena fosse uma coisa de todos os dias. Para mim, pelo menos, não é. Verto sempre uma parte significativa da infusão. Acho mesmo que é por isso que evito beber chá nos cafés. Ela deu um gole e olhou-me durante alguns segundos.

- Não é nada indiferente. - disse.
- Claro que é! - respondi. - Estão a divorciar-se um do outro, por isso ambos estão tristes. 

Ela tornou a dar um gole, desta vez mais curto. Pousou a chávena e sorriu-me complacente. Detesto quando ela me sorri assim. Fica ainda mais bonita do que já é normalmente, mas já sei que a seguir me vai explicar qualquer coisa como se estivesse a falar com um miúdo de dez anos. 

- Ambos estão tristes, é verdade, mas há um que está triste e a olhar para o futuro, enquanto outro está a olhar para o passado. É essa a diferença entre quem põe fim a uma relação e quem não põe, mesmo que ambos já se sentissem mal há algum tempo...
- Passado?! Futuro?! - Perguntei, começando a dar algum interesse à conversa.
- Sim. Quem tem a coragem de pôr fim a uma relação é porque está a olhar com algum optimismo para o futuro. Quer mudar de vida porque não se sente bem. Por outro lado, aquele que é rejeitado fica a olhar para o passado e a tentar descobrir o que é que correu mal. É um processo mais doloroso, normalmente.

Comi o donut todo antes de regressar às palavras. Sabia exactamente o que ela me ia responder quando eu lhe dissesse que tinha sido a mulher a pôr fim à relação, e que o homem estava em casa transformado num trapo velho. Ia fazer conjecturas de género, demonstrando por a mais b que a mulher é sempre quem toma a iniciativa precisamente porque é a mais inconformada. É ela quem pega o destino pelos cornos e o muda consoante a sua vontade. Sabia que ela o ia afirmar e dar-me a mim mesmo, e a ela, como exemplos.

- Foi ela que acabou com ele. - confessei.

Ela calou-se. Tornou a fazer aquele sorriso que eu Amo e detesto. 

- Gostei muito da tua música. - disse. - Gostaste dos livros?

Abanei a cabeça afirmativamente. Vi-a levantar-se, despedir-se de mim com um aperto de mão, deixar duas moedas em cima da mesa para pagar o chá e ser engolida pelo mundo lá fora. Também a admiro por isso, por fazer silêncio quando eu já sei o que ela vai dizer.

12.18.2012

conversa 1973

(em minha casa)

Ela - Tu não ligas o televisor?
Eu - Não tenho a antena ligada. Só vejo filmes em dvd...
Ela - Mas não gostas mesmo de televisão?
Eu - Há canais que gostava de ter, mas é muito caro. Mas quando estou na casa da minha namorada gosto de ver algumas coisas... ainda ontem vi um filme de boches.
Ela - Também só pensas em sexo...
Eu - Boches! Eu disse boches.
Ela - Boches?!
Eu - Sim. Não sabes o que é um boche?
Ela - Se não for sexo oral com papas de Nestum na boca, não sei.
Eu - Um boche é um militar alemão nazi... estava a falar de um documentário da segunda guerra mundial.
Ela - Ah! Nunca me passou pela cabeça que um nazi pudesse ter um nome tão... sei lá... tão apetitoso.

pensamentos catatónicos (289)

Já todos nós, em pelo menos um determinado momento da nossa vida, nos apercebemos da importância que pode ter o canto do olho. O canto do olho assume uma importância maior quando tudo o resto se torna desinteressante, mas também quando nele surge um ponto de interesse concreto. É essa a armadilha do canto do olho.
Pelo canto do olho podemos ler as notícias do jornal do passageiro que vai ao nosso lado no autocarro, podemos copiar num teste de condução, podemos perceber que alguém repete a dose num jantar de amigos. Podemos até dar conta de que alguém está bêbado num bar ou simplesmente a olhar para nós. Aquilo que nunca fazemos pelo canto do olho, com toda a certeza, é contemplar.
Contemplar exige a abertura total da íris e da sua comunicação com o exterior ou, pelo contrário, que se fechem os olhos. É que fechar os olhos pode ajudar-nos a ver para dentro. François Guizot, politico e historiador francês, dizia que "a consciência é a faculdade que o homem tem de contemplar quanto se passa no seu íntimo, assistir à própria existência. Ser, por assim dizer, espectador de si próprio.".
O canto do olho não é senão uma forma de intrujice. Uma forma de, eventualmente, nos enganarmos numa paixão. Pelo canto do olho descontextualizamos o que queremos ver do que vemos realmente, e o que vemos realmente do mundo inteiro. O canto do olho é um lugar fechado, para fora e para dentro de nós.
Estava há bocado numa estação de metro da cidade do Porto, à espera de vir a apanhar um comboio em direcção a Aveiro. Estou, por vários motivos, um pouco triste, e apercebi-me de que estava a olhar para tudo e para todos pelo canto do olho. Agora vou fechar os olhos.

12.17.2012

conversa 1972

-Lembras-te de mim? - Perguntou-me ela.

Lembrava mas, tal como ela, também eu tinha dúvidas que ela se lembrasse de mim. As memórias são apenas a paisagem dum caminho estreito, que percorremos sós. Assim, por um momento, fiquei a olhar para o meu passado sem lhe ver o horizonte.

- Claro que lembro. Que patetice, então não me havia de lembrar? - Mas não era uma patetice.

Ela calou-se e fitou-me nos olhos, como se procurasse alguma coisa escondida em mim. Acho que sempre que perdemos alguma coisa noutra pessoa, os olhos são o primeiro sítio onde a vamos procurar. Deixei-me estar quieto, a ver o primeiro sinal de desilusão no seu rosto. O que quer que fosse que ela queria ver, não viu. Depois veio o silêncio.

- E então, que fazes? - Perguntei.
- Estou desempregada. Trabalhei muitos anos em Setúbal, em várias coisas...
- Eu também estou desempregado. Trabalhei sempre cá por cima, com alguns intervalos para trabalhos no estrangeiro...

Mas as palavras iam morrendo pouco a pouco, como que intoxicadas pelo desinteresse da banalidade. Temos os dois mais de quarenta anos e não nos víamos desde a adolescência, numa noite qualquer de Verão. Na verdade, foi essa a única noite em que a vi, e só me lembro que ficámos para trás de um grupo de vários amigos comuns que iam a uma discoteca qualquer. Passámos horas numa praia qualquer do Alentejo, onde fizemos da areia a nossa cama e do som do mar a nossa conversa.
Ela tornou a fitar-me nos olhos.

- Apaixonaste-te muitas vezes, desde então?
- Duas ou três. - respondi.
- Duas ou três?! Tens sorte.
- Sorte?! Porquê?!
- Eu já lhe perdi a conta...

12.14.2012

respostas a perguntas inexistentes (240)

eu tenho dois amores, dizia ele

No ensino básico, em Matemática, ensinaram-me que um mais um é igual a dois. Deram-me como exemplo qualquer coisa tão estúpida como uma peça de fruta, creio que uma banana da Madeira, e explicaram-me que uma banana mais uma banana é igual a duas bananas. Erro crasso, passei a acreditar piamente nisso.
A Matemática, ou pelo menos a Álgebra, tem esta mania estúpida de escrever a vida sem a perceber. Até pode ser que uma banana mais uma banana seja igual a duas bananas, mas certamente que uma gota de água da chuva mais outra gota de água da chuva não é igual a duas gotas de água da chuva. Basta ver chover para perceber que o resultado é uma pequena poça de água.
Para piorar a coisa, o Marco Paulo veio cantar aos portugueses, creio que no princípio dos anos oitenta, que tinha dois Amores. Quem o ouvia dava conta de uma morena e de uma loira, deduzindo assim que um Amor mais outro Amor é igual a dois Amores. Pura mentira. Um Amor mais outro Amor é quase sempre igual a menos do que dois Amores. É uma questão de tempo. Mas a equação da soma ou subtracção do Amor é inócua de sentido, porque nela faltam sempre os factores que ninguém consegue entender.
Acredito que o Amor elevado à sua máxima potência é sempre igual a um. A partir do um, quanto mais se soma, menos se tem. Mesmo que a coisa não seja óbvia à primeira. O um é um número difícil de entender neste contexto, porque por ser o primeiro dos números inteiros nos parece sempre pouco. Um comparado com cem, por exemplo, assemelha-se a uma insignificância. No entanto, quando de Amor estamos a zero, buscamos o um como se fosse tudo. E é mesmo. Só que ninguém nos ensina isso na escola.

12.13.2012

está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.

Não sei bem o que é me levou a dizer-lhe aquilo. Se acreditar que as coisas podem sair do nada, então diria que foi isso mesmo que aconteceu: saiu-me do nada. De qualquer maneira não acredito nisso, por isso limito-me a assumir que não sei porque é que aquelas palavras me saíram da boca.
Estávamos de férias num parque de campismo há alguns dias, algures no norte do país, ambos hesitantes em começar um romance. Era de noite. Por um lado queríamos dormir juntos, por outro tínhamos medo de o fazer. Acho que é sempre assim quando se  gosta muito de alguém mas não se está apaixonado. Perguntei-me muitas vezes sobre o que devia fazer naqueles momentos em que nos abraçávamos ou encostávamos a cabeça um no outro. E agora? Beijo-a? Digo-lhe que a Amo? Nunca me decidi por nada, a não ser por lhe dizer a coisa mais absurda do mundo. Do nada.

- Está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.

Ela olhou para mim e, ao contrário do que eu tinha imaginado, concordou com a minha ideia nonsense. Obrigou-me a desmontar a tenda, a arrumar a mochila e, depois de acordar um homem que dormia ao balcão da recepção, acabámos por nos pôr a caminho através das estradas sinuosas do distrito de Bragança, onde tínhamos chegado de autocarro e à boleia de um amigo.
Caminhámos a noite toda numa conversa amena, até a Lua se cansar de nos ouvir e se ir embora sem dizer adeus. Lembro-me que acabámos por montar a tenda junto a uma curva onde havia uma fonte e, a alguns metros, uma árvore com sombra suficiente para não morrermos com aquele calor abrasador próprio do Verão transmontano. A minha tenda montava-se em três segundos. Bastava atirá-la ao ar e já estava. Foi o que fizemos e, dado o cansaço, adormecemos imediatamente os dois.
Não me costumo lembrar dos meus sonhos, mas sei que nessa tarde sonhei com ela e com as histórias que ela tinha acabado de me contar nessa viagem a pé pela Via Láctea. Era uma história qualquer sem grande romance, mas que eu tinha ouvido com a maior das atenções. Era sobre coelhos.
Ela gostava muito de animais, particularmente de coelhos. Tanto, que fazia colecção de coelhos de toda a espécie e feitio: de peluche, de louça, de plástico e até um de arame, feito por um artesão boliviano qualquer com quem tinha namorado no passado. Quando o tal artesão voltou para a Bolívia ainda estavam apaixonados,. Ele prometeu-lhe fazer um coelho tão grande quando lá chegasse, que ela havia de o ver deste lado do Atlântico. Durante muito tempo, apesar de ela não acreditar que isso fosse possível, ia à janela todos os dias para procurar o tal coelho gigante.
Pois bem, eu sonhei que tinha construído esse coelho. Era tão grande que, quando estávamos em cima dele, podíamos praticamente tocar nas nuvens. Acho que acordei no momento em que lhe perguntei se ainda se lembrava do boliviano e ela me respondeu que tinha esperança que ele, da janela de casa dele, visse aquela minha construção e se lembrasse dela.
Quando lhe contei o sonho, que ao fim e ao cabo não passava dum sonho estúpido, ela riu-se e deu-me um beijo furtivo nos lábios. Depois tirou duas maçãs dum saco de plástico, limpou-as à própria camisola e deu-me uma enquanto trincou a outra de forma a prendê-la na boca.
Esse foi o único beijo que demos, mas a verdade é que sinto que gostei realmente dela, sem nunca me ter apaixonado. É uma sensação difícil de explicar porque nunca foi clara para mim próprio. Para ela, aliás, também não. De tal forma que quando acabámos por ter uma conversa séria sobre o assunto, sobre a nossa proximidade tão pouco consumada fisicamente, ela respondeu-me que o melhor, quando estivéssemos a sentir que íamos passar uma certa barreira, era começarmos a caminhar para lugar nenhum.
Percebi-a imediatamente e, apesar da minha ideia ter vindo do nada, acabou por encontrar o seu próprio contexto.

12.12.2012

conversa 1971

Ela - Em doze anos de casamento, o meu marido ainda não percebeu como é que sou na cama.
Eu - Já lho disseste?
Ela - Não. Doze anos deviam dar para ele perceber ou adivinhar.
Eu - Isso de que os companheiros sexuais têm que adivinhar os desejos dos outros é um mito urbano. O melhor é dizeres-lhe.
Ela - Dizer-lhe, dizer-lhe... não posso fazer isso.
Eu - Porquê?
Ela - Agora é tarde demais.
Eu - Tarde demais?
Ela - Sim, se eu lhe dissesse agora algumas coisas, ele ia perguntar porque é que eu não lhe disse antes.

12.11.2012

conversa 1970

(ao telefone)

Eu - Até que enfim que te apanho. Preciso falar contigo.
Ela - Apanhaste-me na casa de banho.
Eu - Okay, desculpa. Ligo-te daqui a cinco minutos.
Ela - Não, não. Diz agora, que é o momento certo.
Eu - Não estás na casa de banho?
Ela - Estou. É na casa de banho que aproveito para fazer os meus telefonemas todos, ler revistas e livros, etc. Além disso, não saio daqui a cinco minutos, mas sim daqui a uma hora, mais ou menos.

12.10.2012

coisas que fascinam (156)

Qualquer dia repito...

Passei este fim de semana fechado em casa. Desde sexta-feira à noite até segunda de manhã, apenas saí uma vez para uma rápida refeição de fast food. De resto, não falei com ninguém a não ser pelo telefone. Em pouco mais de sessenta horas entre paredes vi oito filmes (documentários e ficção), li dois romances, ouvi alguns (não sei quantos) discos de música e joguei computador. Deitei-me duas vezes às seis da manhã e levantei-me por volta do meio-dia.
A minha alimentação, para além duma refeição pobre no Burguer King que não tenciono repetir nos próximos anos, passou por duas garrafas de vinho, umas fatias de presunto comidas directamente da embalagem, algumas fatias de queijo, pão, quatro ou cinco dióspiros, mousse de chocolate caseira e uma alface. Na única vez que cozinhei fiz arroz de peixe com tomate e coentros. Também bebi dois cafés sem açúcar e três ou quatro uísques Bushmills. Alguma louça suja acumulou-se na banca da cozinha e o mesmo aconteceu com a roupa num canto do quarto.
Tirei um fim de semana para viver sem regras, como se não existisse ninguém no mundo a quem a minha vida dissesse respeito, totalmente entregue às minhas vontades pontuais. Fiquei a conhecer melhor o sofá da minha sala e as minhas estantes onde guardo livros e discos.
Vivi satisfeito, como se não precisasse de mais ninguém à minha volta, nem sequer dessa coisa que já tanta falta me fez e que dá pelo nome de Amor. E, no entanto, só o consegui fazer porque a tenho, mesmo ao meu lado e à distância duma chamada telefónica ou dum pensamento fugaz. Para conseguir estar sozinho é preciso não estar só. Essa é apenas umas das maiores vantagens de estarmos apaixonados.
Qualquer dia repito...

12.07.2012

conversa 1969

(na minha casa)

Ela - Ainda tens um televisor destes antigos?
Eu - Tenho e vou continuar a ter durante algum tempo.
Ela - Porque é que não compras um plasma?
Eu - Não tenho dinheiro para isso agora.
Ela - Eu também não tinha e comprei na mesma...

pelo dedo mindinho do pé

Existem as pessoas que dizem frequentemente asneiras, as que só as dizem de vez em quando e as que quase nunca as dizem. As caralhadas estão longe de ser uma questão transversal à sociedade e, suspeito eu, são também uma questão de género.
Os homens são, em geral, mais asneirentos do que as mulheres. Nunca fiz essa conta, claro, mas estou convencido que sim. É que as mulheres, embora também as digam, fazem-no menos vezes e apenas quando estão chateadas. É preciso ser mulher para conseguir tratar bem um palavrão, de forma a dar-lhe delicadeza suficiente para a transformar num aromático voo de borboleta.
Nas mulheres, assim, as asneiras são para ser levadas a sério. Quando o vocabulário vernáculo mais pesadão ultrapassa os lábios femininos é porque alguma coisa está realmente mal. É por isso, e só por isso, que um homem não deve dizer muito asneiredo quando está acompanhado por uma mulher. Descredibiliza o palavrão. Retira-lhe substância e torna-o ordinário. É uma espécie de história do Pedro e do Lobo: se um gajo diz asneiredo a mais, chegará o dia em que quer dizê-lo porque está realmente fodido chateado com a vida e ela não o leva a sério.
Aliás, quando um homem chega a esse intenso nível obscurantista do vocabulário, é quando uma mulher começa a fazer contas e a pensar que escolheu como companheiro para a vida, não um homem, mas sim um martelo pneumático com pénis. É também quando ela, para se distanciar de tal alarvidade, passa ao nível zero de asneiredo.
É claro que uma mulher que afirma nunca ter dito nenhum palavrão na vida mente descaradamente, a não ser que nunca tenha batido com o dedo mindinho de um pé na esquina de um móvel, percalço que já aconteceu a todos os habitantes deste planeta que vivem em casas ou apartamentos. Portanto é essa a forma de fazer uma mulher entender o armazém interminável de palavrões que existe dentro de cada homem.  Pelo dedo mindinho do pé. Aí, garanto eu, somos todos iguais.

12.06.2012

respostas a perguntas inexistentes (239)

Nunca morri num sonho

Nunca morri num sonho. Não sei se se passa o mesmo com todos os outros, mas sempre que estou a sonhar, ou melhor, a ter um pesadelo e chego a uma situação em que a minha morte é eminente, acordo uma fracção de segundo antes de morrer e já não morro. Às vezes abro imediatamente os olhos e percebo que estive a sonhar, outras vezes tenho o corpo inundado pelo meu próprio suor e passo algum tempo numa espécie de limbo, em que não sei bem onde estou.
O que eu sei é que nunca morri num sonho.
Uma destas noites estive com um amigo e uma amiga que são, vá lá, pelo menos um bocadinho misteriosos. Acreditam no ocultismo, na existência de espíritos maus e bons e em mais uma série de coisas que eu nem sei identificar. Eu não acredito em absolutamente nada disso, de tal forma que eles ficaram a falar a dois e eu apenas a ouvir enquanto bebia uísque.
A certa altura começaram uma discussão sobre pessoas que tiveram, supostamente, experiências de morte, ou seja, pessoas que morreram durante algum tempo e depois regressaram à vida. Foi então que tive este pensamento para mim mesmo e para um copo já quase vazio: nunca morri num sonho.
Sei que já tive algumas quase mortes bastante dolorosas, como ser enterrado vivo, ser esfaqueado por uma faca de cozinha ou cair do trigésimo andar dum prédio. São momentos em que sofro bastante e tenho a noção que vou morrer, mas depois acordo mesmo antes do momento final.
Acordar num momento destes acaba por ser uma enorme sensação de alívio. A última vez que me aconteceu, fiquei tão surpreendido por estar vivo que tive que tocar em várias coisas à minha volta, como os lençóis, o candeeiro da mesa de cabeceira ou o despertador, apenas para ter a certeza que no meu corpo ainda existia vida. Era precisamente numa queda vertiginosa que ia morrer. Acordei quando atingi o chão.
Tornei a servir-me de uísque e contei isto aos dois, até para que não pudessem dizer que eu tinha passado a noite toda calado que nem um rato, que não gosto de fazer apenas figura de corpo presente quando estou entre amigos. A Sandra fez silêncio e, para meu espanto, ficou a pensar no que eu lhe tinha dito. Acabou por concluir que o mesmo se passa com ela: nunca morreu num sonho.
Apesar desta certeza, a verdade é que raramente me consigo lembrar dum sonho do princípio ao fim. Mal acordo, ele torna-se tão pouco presente como uma qualquer memória de infância. A única coisa que guardo são esses momentos de pânico, mesmo antes de morrer e, portanto, de acordar.
Ficámos a falar a noite toda sobre este aparente contra-senso, que é conseguir acordar depois de morrer, e encontrámos várias metáforas da vida em que é possível fazê-lo. No Amor, por exemplo, quantos vezes acordamos depois de morrer? Aí, já nós os três o tínhamos feito.
Estava agora aqui a tomar café e a pensar como é bom ter amigos com quem consigo conversar assim, de forma desprendida e em que nos compreendemos tanto nos debates terra a terra como em contextos mais absurdos.

- É um sonho! - disse ela.

E eu nunca morri num sonho.

12.05.2012

imprudence

tirando a roupa dela, sem o consentimento dela... 190 Cal
A Prudence, uma marca de contraceptivos sexuais do Brasil, foi obrigada a retirar uma publicidade aos seus preservativos onde era suposto fazer humor. A ideia da Dieta do Sexo era que cada um soubesse quantas calorias se perdem durante o acto sexual, mas uma das suas alíneas (logo a segunda) é tirar a roupa dela sem o seu consentimento.
Digamos que a Prudence devia ser mais prudente com a escolha dos seus publicitários, aos quais lhes fugiu a boca para o absurdo. À ideia do abuso sexual soma-se a de que o prazer no coito é todo do género masculino. 
Olhem que não... olhem que não...


respostas a perguntas inexistentes (238)

ao Diabo e à mulher nunca falta que fazer

É uma pena que Deus não exista. Só a  sua existência é que sustentaria a também existência do Diabo e, tal como acabei de ouvir numa conversa de homens envelhecidos pela solidão, ao Diabo e à mulher nunca falta que fazer. É um provérbio, como tantos outros, que explica como alguns homens jogam às escondidas com Deus.
Enquanto uma vida triste se torna feliz com uma paixão, uma vida feliz torna-se triste sem ela. Os homens que não sabem Amar escondem-se na tristeza de Deus, e empurram o seu enorme falhanço na vida para essa dupla conspiradora formada pela mulher e pelo Diabo.
Eu, se fosse um falhado no Amor, rezaria ao Diabo que me ajudasse. Nunca a Deus. É que fiquei ali a ver aqueles dois, de olhar triste espetado no chão, numa mesa de café despovoada, sem nada mais que fazer ou dizer. Se pudessem optar, diria eu, era melhor irem ter com o Diabo e, consequentemente, algumas mulheres. Sempre teriam que fazer.
Já percebi onde é que surgiu a ideia judaico-cristã do Diabo. É uma luz ao fundo do túnel para a felicidade e para o Amor. Às escondidas, é certo, mas ainda assim uma alternativa à submissão e à tristeza contínua. É por isso que ainda há homens que dizem isto...

12.04.2012

conversa 1968

Ela - Estás cheio de cieiro nos lábios.
Eu - Eu sei. Foi de andar muitas noites seguidas ao frio, à procura da minha cadela...
Ela - Então se sabes, porque é que não pões nada?
Eu - O que é que hei-de pôr?
Ela - Batom de cieiro, claro.
Eu - Nunca me lembro dessas coisas...
Ela - Eu tenho aqui um novinho em folha. Dou-to e tu pagas-me o café. Pode ser?
Eu - Tu tens cieiro agora?
Ela - Não.
Eu - Então porque é que andas com um batom de cieiro na carteira?
Ela - É uma coisa que pode ser precisa a qualquer altura.
Eu - Não acredito nisto...
Ela - Não acreditas em quê?
Eu - Que andas com um batom de cieiro na carteira sem teres cieiro, só porque pode ser preciso. Por acaso não tens papel higiénico?
Ela - Tenho, mas só tenho um bocadinho. Precisas?
Eu - Não. Dou-me por vencido...

respostas a perguntas inexistentes (237)

Acho que não tínhamos mais do que três meses juntos. Eu estava na cozinha, a fazer uns desenhos infantis nos vidros embaciados das janelas, quando ela entrou. Não olhei para trás, que não queria deixar o galho saliente duma árvore gorda sem um baloiço pendurado, e ela tossiu. Sei que ela tossiu apenas para anunciar a sua presença. Foi uma tosse forçada, daquelas que substituem um cumprimento qualquer.
Quando andamos felizes, costumamos dizer um "Olá! Tudo bem?" ao chegar a casa. Quando andamos tristes também dizemos sempre qualquer coisa, embora normalmente em tom mais amorfo. Só quando não estamos nem uma coisa nem outra é que tossimos, para assim não termos que dizer nada.

- Esta chuva não pára... - disse eu, finalmente.
- Pois não. É Inverno. - e ela tossiu novamente.

Do que falamos quando falamos do tempo? Falamos disso mesmo: de não estarmos felizes nem tristes, nem quentes nem frios. Não estamos nada. Lá fora os guarda-chuvas amontoavam-se numa rua qualquer de Lisboa e eram todos da mesma cor, como se nenhum tivesse direcção ou soubesse para onde se dirigia. Numa das montras, alguns manequins nus observavam o dia sem o compreender.

- Vou hoje para Aveiro, está bem? - continuei o meu desenho infantil.
- Talvez seja melhor. - respondeu ela - dizemos "adeus" ou "até um dia destes"?
- Por uma mera questão de conforto, podemos optar por dizer "até um dia destes"... - conclui.

A viagem de comboio que fiz nesse fim de tarde não foi triste nem feliz. Fartei-me de tossir para mim mesmo, de forma a perceber que eu próprio ainda estava ali, algures numa viagem de regresso duma aventura que não cheguei a perceber. Do lado de fora da janela, a paisagem desfilava fingindo que não me via.

12.03.2012

conversa 1967

Ela - Já encontraste a tua cadela?
Eu - Já. Estou tão feliz...
Ela - Como é que a encontraste?
Eu - Não fui eu. Foi uma vizinha, quando a cadela andava a rondar a casa.
Ela - Então foi a cadela que vos encontrou a vocês...
Eu - Sim, pode dizer-se que sim... mas demorou uma semana.
Ela - Coitadinha, teve uma semana de cão.
Eu - Hum... hum...
Ela - Que foi?
Eu - Ela é um cão. Dito assim não parece grave.
Ela - Pronto, teve uma semana de mulher. Está melhor assim?
Eu - Nem sei bem...
Ela - Sei eu. Ser mulher, às vezes, é a mesma coisa que andar perdida por aí.

pensamentos catatónicos (288)

Christmas truce ou Weihnachtsfrieden

Li nos jornais que um adepto do Braga morreu atropelado quando fugia de alguns adeptos do Porto.
O problema do ódio é ser estúpido. Não fazia mal nenhum odiarmos uma ideia, uma cor, um quadro ou um estado do tempo. Odiávamos isso e pronto, estava odiado. Só que por qualquer motivo imperceptível, o ódio é sempre pessoal e egoísta. Odeia-se uma pessoa, um grupo de pessoas ou, uma vez por outra, até um cão ou um gato.
Se odiássemos o vermelho, por exemplo, bastava-nos pintá-lo de outra cor, estivesse ele numa parede da nossa casa, numa camisola ou num gadget qualquer. Como odiamos sempre um ser vivo, ou rangemos os dentes quando passamos por ele, ou então tornamo-nos violentos. É por isso que há quem bata em animais, é por isso que há adeptos de equipas de futebol a morrer durante fugas de outros adeptos. Nunca há uma verdadeira razão para odiar, há apenas uma emoção inócua de sentido, porque o ódio é estúpido.
Mais estúpido é dizer que o Amor é o contrário do ódio. O ódio, para ser o contrário do Amor, tinha que ter inteligência. Nunca tem. O contrário do Amor é o vazio, o vácuo emocional. Somos capazes nos perguntarmos porque é que Amamos tanto alguém, mas nunca nos perguntamos porque é que odiamos. O ódio é uma certeza sem conteúdo.
Em 1914, durante a primeira Guerra Mundial, soldados britânicos e alemães fizeram uma semana de tréguas durante o Natal e saíram das suas trincheiras para trocar saudações e até presentes. Esse momento ficou conhecido Christmas truce ou Weihnachtsfrieden. Depois recomeçaram os tiros.
Talvez alguns adeptos de futebol devessem ler e perceber esse período da História. É que o ódio é uma trincheira, seja ela no terreno ou em nós mesmos.
Só quem é capaz de Amar é que percebe isto, porque o Amor é uma inteligência

12.02.2012

a Luna apareceu!

partilhas no facebook
A nossa Luna apareceu hoje perto de casa, magra e suja mas de boa saúde. Demorou exactamente uma semana a fazer os cerca de dois quilómetros que separam o sítio de onde desapareceu até ao seu lar. Suponho, portanto, que foi dar uma grande volta. Não imagino por onde ela terá andado, o que terá passado, mas tenho a certeza que fez um esforço enorme para encontrar o caminho de volta.
Agora, com mais calma, sei que não vou conseguir a todos os que nos ajudaram, a mim e à Raquel, nesta questão, mas vou tentar. Colámos mais de duzentos cartazes pelo Porto e por Matosinhos (chegámos a oferecer recompensa), cada vez que eu punha um anúncio no meu facebook as partilhas eram imediatas e atingiam milhares, recebi centenas de emails de leitores deste blogue e perdi a conta às chamadas telefónicas de todo o género e feitio. Eu, a pé, fiz uma média de doze horas por dia, perdendo conta aos quilómetros que percorri.
Por isso obrigado a todas as pessoas com quem falei na rua, a todos os que me telefonaram a dar pistas; a todos os que partilharam e participaram em buscas mesmo sem eu saber; ao encontra-me.org e ao sítio dos cães; aos meus incansáveis camaradas do Bloco de Esquerda de Aveiro, que me tiraram todo o trabalho das mãos para eu poder procurá-la; à Sara do Porto, que me mostrou todos os sítios mais recônditos entre a Lapa, a Cedofeita e o Palácio de Cristal; à Fernanda de Matosinhos, que perdeu uma tarde inteira comigo a andar a pé dum lado para o outro; à senhora que vende farturas nas Sete Bicas, que foi falando com os seus clientes sobre o caso; às senhoras que distribuem comida aos animais na Fonte do Cuco; aos senhores que apanham o lixo na zona da Senhora da Hora.
Por fim, também, à Raquel, por nunca perder a esperança.
Agora vou andar mais duas ou três tardes a arrancar os cartazes que coloquei. Acabou.

p.s.: eu sei que faltam aqui muitos agradecimentos, mas é mesmo impossível referir todos.

12.01.2012

pensamentos catatónicos (287)

somos únicos

Estou tentado a acreditar que é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. O pouco que nos separa, no entanto, é um pequeno machado capaz de destruir essa grande árvore que é a nossa união. E sim, falo de nós, pessoas comuns que procuram pelo preço mais barato dum produto no supermercado, que gostam de aquecer as mãos frias numa chávena de café fumegante, que choram, que riem ou ficam a leste das emoções uma vez por outra.
Não estou a falar do grandes conflitos entre classes e nações, como aquele que opõe israelitas a palestinianos, trabalhadores a accionistas ou direitosos a esquerdistas. Esses são os conflitos concebidos por interesses escondidos ou por ideias de como o mundo se deve organizar. São problemas fabricados e fazem parte doutra luta.
Estou a falar dos conflitos mais mesquinhos, entre duas pessoas que se Amam e que põem esse Amor em risco por causa de nada. É a mania que temos de acreditar que somos únicos, que os outros não pensam nem sentem como nós. Somos únicos, porque é por nós que passam todo esse cocktail que mistura inexplicavelmente emoção e razão.
Só nos falta perceber que, se formos por aí, somos tão únicos quanto outra pessoa qualquer.