2.04.2013

respostas a perguntas inexistentes (245)

Porque é que se fazem bolos?

Acho que foi ali que fiz os meu primeiros desenhos a sério, nos vidros embaciados da marquise da casa onde cresci. Comecei por fazer simples smiles, com um único círculo à volta de duas pintas a fazer de olhos e um traço a fazer de boca que sorri. Depois disso, lembro-me de chegar a pegar no velho escadote de alumínio que o meu pai usava para trocar lâmpadas, para conseguir chegar aos vidros mais altos. Desenhava paisagens com montes, ruas, casas, árvores, aviões  e nuvens. 
O que aprendi nesses vidros, no entanto, não foi a desenhar. Foi sim a perceber como as coisas da vida podem ser efémeras. Os desenhos ficavam lá apenas algumas horas, às vezes minutos, até as janelas perderem toda a humidade.
Houve um dia em que esperei ansiosamente que a minha mãe chegasse para almoçar, para lhe mostrar o enorme desenho que tinha feito durante toda a manhã. No entanto, a minha obra de arte não chegou até ao meio-dia.
Para compensar a minha tristeza, a minha mãe fez um bolo com uma cobertura de chocolate e deixou-me lamber a taça onde tinha feito a massa. Porque é que se faziam bolos era, aliás,outra coisa que não percebia muito bem. A massa sabia-me muito melhor antes de ir ao forno. Era mais doce e tinha uma textura mais consistente.
Com o tempo, ou melhor, com a idade, acabei por resolver ambas as questões. Por um lado passei a desenhar em papel, normalmente nuns cadernos baratos que comprava numa mercearia ao pé de casa; por outro, já num estado de jovem adulto, aprendi a fazer diversos tipos de bolos e passei a apreciar mais o produto final do que a massa em si.

Para meu desespero, as pilhas do walkman acabaram muito antes do comboio chegar a Lisboa. Para piorar a situação, devido a um acidente qualquer na linha, a composição estava parada muito perto de Pombal há mais de uma hora e não havia maneira de retomar o percurso. Tirei a cassete do aparelho e guardei-a numa velha mochila Monte Campo que, à data, era uma espécie de minha companheira de vida. Dela tirei um caderno de folhas brancas por estrear e uma esferográfica preta, para me ajudar a matar o tempo com desenhos.
Viajava no centro da carruagem dum Intercidades que ia lotado e, por isso, levava um passageiro ao meu lado e dois à minha frente, virados para mim. 
Ao meu lado esquerdo seguia um homem de fato e gravata, provavelmente dedicado a pequenos negócios. Assim sentado, lembro-me que as calças lhe ficavam exageradamente curtas e a gravata vermelha parecia não lhe ser natural, mais ou menos como se alguém tivesse amarrado um pano colorido à volta do galho morto duma árvore. Ia calado e assim continuou toda a viagem.
À minha frente ia uma mulher com o filho. Ela aparentava ter mais uns dez anos do que eu, que tinha pouco mais de vinte na altura, e mostrava sinais de cansaço com o facto do miúdo não parar quieto. Olhei para ela de relance e achei-a bonita, mas com uns traços faciais que lhe tiravam personalidade. Enfim, como se fosse um corpo bonito sem alma. Assim que comecei a desenhar, senti o peso dos olhos dele na minha mão. 

- Mãe! Quero uma caneta e um papel! - Ordenou ele.
- Não tenho. Pára quieto, por favor, que estou a perder  paciência. - Pediu ela.

As janelas do comboio estavam já, nessa altura, totalmente embaciadas, e ele começou a fazer desenhos no vidro. O primeiro de todos foi um smile, tal como aqueles que eu fazia em criança. Parei de desenhar e passei-lhe a minha caneta e o meu caderno para as mãos, explicando-lhe exactamente o meu desespero de criança por os desenhos nos vidros durarem tão pouco. Ele começou a fazer alguns riscos no meu caderno e continuou, mais calmo, a falar comigo.
A mãe, mais aliviada, acabou por entrar na conversa, Primeiro pensei que fosse apenas para me aliviar um pouco da pressão dum miúdo que fazia várias perguntas por minuto. Porque é os vidros embaciam? Porque é que as canetas escrevem? Porque é que o comboio não anda? Porque é que o pai nos abandonou? Foi assim que percebi que ela estava divorciada. 
Quando o comboio começou a andar, finalmente, já éramos amigos. Descobri que eu e ele tínhamos uma coisa em comum. Também ele, criança com sete anos de idade, preferia a massa dos bolos aos bolos propriamente ditos. E assim fez uma última pergunta.

- Porque é que se fazem bolos?

Expliquei-lhe a minha relação com a doçaria. Como é que passei de um estágio ao outro ao nível de bolos domésticos e como é que ele podia fazer um simples e delicioso bolo de chocolate. A mãe convidou-me para ir a casa deles fazer um  bolo desses, para lhe demonstrar porque é que se fazem bolos. E foi assim que conheci a Cristina...

12 comentários:

Anónimo disse...

Ivar, escreves cada vez melhor. Quando julgo que já conheço e identifico toda a tua escrita, bang!, levo assim um soco no peito.

Bagaço Amarelo disse...

anónimo, obrigado. :)

Anónimo disse...

É um prazer enorme lê-lo! Podia continuar pelos blogs que visito diariamente sem escrever nada e deixar que os elogios que recebe traduzam a minha opinião mas não posso ir embora sem dizer que é dos meus preferidos! É muito bom passar por aqui!

Carina

Bagaço Amarelo disse...

CArina, obrigado. Na verdade, sinto-me feliz e corado ao mesmo tempo. :)

redonda disse...

Uma forma especial de conhecer alguém...

Wicahpi disse...

Adoro lê-lo! A espontaneidade e o humor da sua escrita são revigorantes... inspirou-me a retornar a um dos maiores prazeres da minha vida: escrever. Por isso, devo-lhe um "Obrigada" :)

Wicahpi disse...

Adoro lê-lo! O humor e a espontaneidade naquilo que escreve são revigorantes... Inspirou-me a voltar a concentrar-me no prazer de escrever, pelo que penso que lhe devo um sincero "Obrigada"! :)

Bagaço Amarelo disse...

redonda, é... se bem que quase todas são. :)

wicahpi, eu é que agradeço a presença. para mim é importante. :)

Fatyly disse...

Já todos disseram o que poderia dizer...apenas acrescento que lamento profundamente que na actualidade "o imaginário de uma criança" seja destruído com tanta maquineta e brinquedos que não servem para nada...apenas para embrutecer.

És o que és hoje...um GRANDE ESCRITOR DE EMOÇÕES postas de uma forma simples e soberba...graças aos desenhos nos vidros e ao rapa bolos. Também fiz isso mas não escrevo como tu...mas vivo e sinto emoções que transbordam dos teus textos.

OBRIGADO e nunca desistas!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado... :)

Teresa Costa disse...

É sempre assim, simples e inesperadamente que acontecem as coisas mais marcantes da nossa vida, não é?
Também gostava e gosto muito mais dos bolos antes de irem ao forno e sempre me questionei domingo após domingo porque é que a minha avó que já se tinha deixado convencer a deixar-me "rapar" com os dedos o que ficava no recipiente não deixava mais um bocadinho para que eu me pudesse consolar. Para mim também era um desperdício levá-los ao lume... Enfim... é bom recordar :) Obrigada :)

Bagaço Amarelo disse...

teresa costa, eu é que agradeço. :)