11.24.2012

respostas a perguntas inexistentes (233)

às compras

Estou numa longa fila de carrinhos de compras a pensar que não deve ser nada fácil ser caixa de supermercado. É uma mulher ainda jovem que está ali, provavelmente há horas, a passar o código de barras de milhares de produtos. De vez em quando olha disfarçadamente para todos os que esperam a sua vez. Alguns olhares de clientes mais impacientes mantêm-se fixos na direcção dela, como que a culpá-la pela demora, e ela defende-se desse ataque permanente com um sorriso forçado.
À minha frente, duas mulheres retiraram a Nova Gente do expositor de pastilhas elásticas, chocolates e revistas. Vão folheando páginas de notícias inúteis para não terem que folhear mentalmente a própria vida. É o que os seus maridos fazem e por isso estão em silêncio. Um deles começa já a pôr as suas compras no tapete rolante e ela interrompe a leitura, mantendo os dedos a marcar a página.

- Olha que as coisas pesadas vão primeiro. Os legumes são no fim. - diz.
- Se ajudasses em vez de ler essa merda. - resmunga ele.

Ela não liga. É fácil perceber que há muito tempo que aquele casal não tem uma conversa decente. Estão juntos fisicamente, separados em tudo o resto. E ele vai atirando as coisas para o tapete como se as quisesse aleijar.
Mais atrás, outro homem acordou do que parecia ser um sono profundo. A mulher mostra-lhe uma página qualquer e ouço-a falar sobre um bebé que é lindo.

- É escura e tem o cabelo loiro. Que linda!
- O pai dela é aquele jogador de futebol, não é? - Pergunta ele.
- É. Gostava de ter uma menina assim.
- Não temos dinheiro.

Faz-se de novo silêncio. Ela fecha a revista e coloca-a com precisão onde a tinha deixado. Os seus dedos percorrem todos os chocolates e agarram uma embalagem de Snickers

- Isso é para emagreceres? - Pergunta ele.
- Preciso dum chocolatinho. - responde ela e atira a embalagem para dentro do carrinho.

Ir às compras é uma tarefa deprimente, penso eu. Os meus olhos desviam-se e voam sobre aquele espaço fechado como um pássaro tonto, ansioso por sair dali. Pousam alguns segundos depois numa mulher da fila ao lado da minha. Deve ter uns trinta e cinco anos, mais coisa, menos coisa. As compras dela têm, entre embalagens de cereais, fruta e carne, algumas garrafas de vinho, uma de uísque e uma caixa de preservativos. Vejo-a sorrir e é o primeiro sorriso a sério que vejo nesta tarde. Um homem aproxima-se e abraça-a. Depois beija-a prolongadamente. Talvez tenha ido à casa de banho.
A vida é uma coisa estranha, penso. Se não nos damos ao trabalho de passar por ela, é ela que passa por nós a uma velocidade estonteante. Quero ser dos que seguem pela primeira opção. Procuro a minha companheira. Beijo-a. Começo a pôr as compras no tapete rolante.

13 comentários:

Sofia Duarte disse...

Descobri o blog hoje e devo dizer que adorei! :)

Carmo disse...

Se há coisa que eu não suporto de todo para além de ter que cozinhar é ir ao supermercado. Quando o pai das minhas filhas vivia comigo era sempre ele que fazia essa tarefa e chegava sempre com um sorriso na cara e com novidades. Eu nem olho para as prateleiras, mas tb reparo nas pessoas que aguardam na fila. E quando há uma que sorri parace que o dia se ilumina.

Bagaço Amarelo disse...

sofia duarte, e eu adoro que adores. bem vinda. :)

carmo, acho que também era eu quem fazia as compras quando estava casado. mas não sorria por isso. parece que me compreendes. :)

Anónimo disse...

Bem, que falta de paciencia.
Essa gente não é feliz, não sabe se-lo. Talvez, o que é mais triste, nem consigam vir a ser.
Um pouco de calma, paciencia, delicadeza fazem milagres numa relação.
Vi aí muita raiva; especialmente a parte do marido.
Mas assim não resolve nada. E conseguir explicar-lhe isso? E ele entender?
Enfim; até fiquei triste...
EJSantos

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, raiva, frustração... :)

Mammy disse...

Este mundo é feito de gente com relações tão vazias, vazias de sentimentos e de sintonia. Pessoas que se juntam, mas não se unem, que vivem vidas inteiras ao lado uma da outra, sem sequer se conhecerem, ou se esforçarem por se conhecerem.
Esta realidade assusta-me!
Bjs

Bagaço Amarelo disse...

mammy, a mim entristece-me. :)

AnnieLee disse...

Agora que tenho que ser eu a ir às compras esforço-me por dar um sorriso sincero à empregada, afinal de contas é ela que vê essa frustração toda a passar-lhe à frente durante horas, todos os dias

Bagaço Amarelo disse...

annielee, :)

Lucy Bell disse...

Constatações após ler o teu texto:

Gosto muito de imaginar a vida das pessoas pelas compras dos supermercados

Tambem tento dar um dia melhor a quem me fornece um serviço nem que seja com um sorriso, um obrigada

Um dia quando vi um casal que namorava há uns poucos anos sentados num café a um domingo à tarde cada um a olhar para um sítio diferente sem se falarem, nesse dia disse: eu nunca vou ser assim. E tenho mantido a minha palavra, tenha eu1 dia de namoro ou 5 anos!





Bagaço Amarelo disse...

lucy bell, boa. eu também mantenho. :)

Fatyly disse...

E há que ter sempre em mente esse trabalho que deverá ser diário.
Gostei imenso!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)