2.10.2011

uma cerveja amortecida

É possível encontrar solidão no meio da multidão? É. Pelo menos é o que um homem qualquer pensa enquanto tantos olhares se vão desviando de si. Talvez da mesma forma que o Amor o tem feito nos últimos meses, parecendo que está sempre a ir ao seu encontro mas desviando-se no último momento. E é essa mania de tudo se desviar no último momento que o fez sentar-se agora na mesa de um café, virado para o espelho enferrujado numa das paredes, e tentar afogar a desilusão num copo de cerveja à pressão.
Numa cadeira pousou um saco de plástico com algumas refeições prontas para aquecer no micro-ondas, uns gramas de fiambre, de queijo às fatias e um pão de forma. Nos seus dias não tem havido investimento em nada, e até a alimentar-se o faz da mesma forma que os passa. Com indiferença.

O Amor tem essa mania de parecer que está sempre quase a chegar. Pelo menos é o que pensa uma mulher enquanto tantos olhares vão pousando sobre o seu corpo e não sobre si. Talvez da mesma forma que um abutre pousa sobre o cadáver dum animal qualquer. E é essa sensação de quase cadáver que a faz entrar agora num café qualquer, sentar-se numa mesa, e proteger-se lá dentro da mesma forma que uma presa o faz na sua toca.
Numa cadeira pousa uma carteira com um batom, algum pó de arroz e um creme para a pele. Lembra-se agora que nos seus dias não tem havido investimento em nada, e que aquelas coisa seriam para um corpo que não lhe tem apetecido tratar.

É um café, só isso. Um café, uma cerveja amortecida, um homem virado para um espelho numa parede e uma mulher virada para si mesmo. O olhar dela pousa nele com a mesma brandura de um pardal num ramo de árvore. O dele continua preso ao espelho mas vê-a, a ela e ao seu corpo. Pelo menos parece. Lá está ao Amor a fingir que está quase a chegar. Talvez hoje chegue mesmo.

23 comentários:

Spinova disse...

Sempre atento aos fluxos que te cercam, bagaço. A sensibilidade que (por parvoíce) não se espera num homem!
É o teu encanto, sem dúvida!

Plim disse...

ahah essa descrição do amro quase a chegar e depois nada, fez-me lembrar o o cumprimento do xô sócrastes ao luís amado! xD

Anónimo disse...

Subtilmente - é uma das formas do amor chegar.
CR

pois disse...

Sabe, "do mesmo modo que o Amor... parecendo que está sempre a ir ao seu encontro mas desviando-se no último momento", também ele parece estar sempre pronto para esse encontro e, aos mais distraídos, parce mesmo estar a pôr-se a geito. Mas não, também ele se desvia no último momento.

bagaco amarelo disse...

spinova, obrigado. na verdade eu não acredito em pessoas que sejam isentas do que as cerca. :)

plim, lol... e trocou-o por outro. :)

cr, é mesmo, sim. :)

pois, :)

Cristina disse...

O_O
Fiquei assim quando terminei de ler, sem saber o que dizer.
Mais uma vez surpreendes pela tua forma espontânea de dizer verdades inegáveis (á parte a boa escrita).
Sim Sr! Continua!

Missy* disse...

Bonito texto! Com tão simples palavras disseste uma grande verdade.

Beijos*

Pipoca dos Saltos Altos disse...

"O Amor tem essa mania de parecer que está sempre quase a chegar. Pelo menos é o que pensa uma mulher enquanto tantos olhares vão pousando sobre o seu corpo e não sobre si." é isso, é isso mesmo...
Beijos

bagaco amarelo disse...

cristina, obrigado. :)

missy, obrigado. :)

pipoca dos saltos altos, obrigado. :)

Fatyly disse...

Tiraste-me o pio e não sei o que dizer...tal e qual e basta observar para ver essa realidade que é mais comum do que julgamos e torço para que chegue a quem eu, mentalmente, tento juntar os cacos...!

Já agora e para aliviar...vou abrir a porta da rua, não, vou deixá-la aberta:):):)

euexisto disse...

nunca chega. ou lá muito de vez em quando. uma em 100 mil

Nawita disse...

:):)
muito bom.
o amor chega quando menos esperamos, tudo muda quando ele chega.
Por muito independentes que sejamos, falta-nos sempre alguma coisa e precisamos de nos ver através dos olhos do outro.

maria disse...

Ontem foi noticia uma senhora que estava morta no seu domicilio há 8 anos. Morreu na multidão, em plena cidade, mas estava completamente só!Conclusão: Ninguém a amava.

Nem o amor da vizinha que alertou a família e autoridades chegou a tempo...

bagaco amarelo disse...

fatyly, isso mesmo. abre. :)

euexisto, tens razão. quase que chega muitas vezes, no entanto. :)

nawita, obrigado. exacto. :)

maria, eu li isso... e pensei nisso também. numa aldeia qualquer isso não acontecia, ou seja, às vezes quanto mais pessoas à nossa volta há, quanto mais sós estamos. :)

memyselfandi disse...

Oh! Gostei tanto, pá! =)

Mikashi disse...

é bom chegar a casa...um pouco cansada do dia... e sorrir ao ler esta reflexão... Há um ano e tal encontrei esta frase num pacote de açúcar: "Haverá algo mais verdadeiro do que ser pessoa entre a multidão?"
Fernando Pessoa. e hoje ao ler este texto lembrei-me dessa frase de novo... o problema é q pior que sermos únicos...é sentirmos a solidão... há poucos ser humanos que conseguem viver apenas consigo próprios de maneira realizada...há sempre um Outro que se deseja... gostei mto desta reflexão...como sempre :)

Rana disse...

Mais um post que me deixa Oh!Reflete o espelho da vida.Tudo é verdade.
Eles estão à espera que o amor chegue.
Sim,talvez. "ele" pode andar por aí!

bagaco amarelo disse...

memyselfandi, obrigado. :)

mikashi, o problema do ser humanos, se calhar, é querer ser solitário e social ao mesmo tempo. :)

bagaco amarelo disse...

rana, pode sim... :)

Cota disse...

já devia ter dado uma tareia ao amor de tanto que me ameaça de igual maneira LOL

Tamensil disse...

Adorei! =,)

Hoje farei um post a apresentar o teu. Sei que tenho visitantes que não o conhecem mas a quem fazia bem vir aqui ler estes textos fantásticos que escreves.

Espero que não te importes...

beijinho*
e um bagaço!

sophie disse...

Talvez hoje chegue mesmo...

:)

Gosto mesmo de te ler...

bagaco amarelo disse...

cota, lol... e às vezes é preciso. também já me apeteceu. :)

tamensil até te agradeço. :)

sophie, obrigado. :)