3.21.2010

respostas a perguntas inexistentes (76)

Um destes dias Lisboa atirou-me para dentro dum táxi qualquer. Fiz-lhe sinal enquanto dizia adeus a um amor antigo e ele abrandou para eu entrar. Gare do Oriente, pedi-lhe eu na esperança que o percurso fosse feito em silêncio para eu poder estruturar o dia que tinha tido. É que há dias assim, que se enrodilham como um novelo de lã e nos obrigam a desfiá-los num processo mais ou menos doloroso. Mas um taxista raramente conduz em silêncio e, depois de me emoldurar atentamente no espelho retrovisor, perguntou-me se eu sabia onde estava sentado. Que sim, respondi suspirando enquanto o novelo de lã se embrulhava de novo. Que estava num táxi, insisti.
Já dei a mão a Lisboa. Aliás, já a apalpei e já a beijei. Amei-a e ela amou-me, fodi-a e ela fodeu-me, segredei-lhe e ela segredou-me. Depois fui embora, deixando-a à espera numa janela qualquer, e nunca mais voltei. Descobri então que os amores não podem acabar sem palavras, senão são como um livro que acabámos de ler mas não conseguimos arrumar na prateleira. Era isso que eu tinha ido lá fazer: conversar com Lisboa.
Amália, disse o taxista. Depois, como que insultado pelo meu silêncio, repetiu: "A Amália já esteve sentada precisamente nesse sítio" e perguntou-me se a conhecia. A Amália Rodrigues? Que sim. Tentei fotografar o espaço com a memória: as cores dos tecidos, as costuras dos bancos e o auto-rádio antigo. Para aquele homem o seu Mercedes Benz era, antes de qualquer outra coisa, uma lembrança de Amália. Pois para mim Lisboa seria o mesmo, uma lembrança dela. Depois saí na Gare oriente, deixando o novelo num caixote de lixo qualquer.

17 comentários:

Sabina disse...

[muito, muito bonito]

Margarida disse...

Lisboa é um novelo.

Fatyly disse...

Vais bater-me mas não importa. Ao ler este fabuloso "novelo de palavras sentidas" acrescentei mais uma "ponta" à razão de não gostar de Lisboa...porque nunca gostei de Amália.:)

Salientei algo que só tu escreverias: "Descobri então que os amores não podem acabar sem palavras, senão são como um livro que acabámos de ler mas não conseguimos arrumar na prateleira.".

Parabéns e um bom domingo

Celeste disse...

se o novelo ficou para trás o assunto ficou quase resolvido. quase porque tinhas que deixar a recordação também...

Anónimo disse...

Sim...entendo,
A vida tem novelos...
Beijo x
P.S.

Olga disse...

Anda por aí muito livro fora da prateleira...

bagaco amarelo disse...

sabina, obrigado. :)

margarida, Lisboa é um novelo, sim. O Porto também, Aveiro também, a Guarda também, Évora também... :)

fatyly, eu não bato em ninguém... mas gosto da Amália, sim. Bom domingo. :)

celeste, eu não considero resolvidas algumas coisas só porque estão para trás, de facto. mas isso sou eu. :)

anónima, tem tantos. :)

olga, lol... pois anda. :)

Bichana disse...

Bonito amigo Bagaço... Lisboa é um lindo novelo!

bagaco amarelo disse...

bichana, é sim. :)

A Voar disse...

continuam a ser sempre os meus momentos favoritos, quando escreves assim. que bom. Um beijinho

Malena disse...

Sou Nortenha mas adoro Lisboa. Acho que também tenho com ela um caso de amor. É uma mulher na minha vida amorosa, ainda que goste de homens! E é bom amar os lugares. Pode-se amar muitos que não há traição! :-))

bagaco amarelo disse...

a voar, um beijinho. :)

malena, sim... sempre achei Lisboa uma cidade com tudo certo: o tamanho, a vida nocturna, a vida diurna... :)

Closet disse...

pois que me fizeste... pensar... os amores não podem acabar sem palavras, e é mesmo...

memyselfandi disse...

Se eu tivesse só um novelo para desenrodilhar...

Gostei do post. ;)

bagaco amarelo disse...

closet, pois não... mas muitas vezes acabam. :)

memyselfandi, acho que todos temos vários, sim. :)

nuvem disse...

Excelente texto. Gostei muito.

Beijos

bagaco amarelo disse...

nuvem, obrigado. :)