3.10.2010

coisas que fascinam (97)

Nunca fui um miúdo que jogasse muito bem à bola. Normalmente preocupavam-me bastante as questões técnicas, como por exemplo as balizas feitas com casacos ou malas da escola terem que ter exactamente a mesma distância, mas depois nunca metia golos nem conseguia fintar os adversários. Acho que era por isso que acabava sempre na baliza, exactamente onde ninguém queria estar.
Foi numa dessas balizas que me apaixonei pela Sónia, irmã dum rapaz que costumava jogar connosco, que se costumava sentar numa pequena elevação do terreno baldio onde fazíamos o nosso campo. Com ela ali a ver o jogo, eu sentia a mesma pressão que um qualquer jogador num estádio enorme esgotado num jogo transmitido pela televisão: tinha os olhos do mundo postos em mim porque ela era o meu mundo.
Foi num domingo de manhã. Primeiro atirámos pedras aos cavalos para eles desimpedirem o terreno, depois fizemos as balizas com pedras soltas que por ali estavam entre a bosta dos animais e eu jurei a mim mesmo que ia fazer uma fazer uma grande exibição para ela ver. Logo no primeiro remate do adversário bati com a cabeça numa das pedras. Acho que estive algum tempo inconsciente e depois acordei com a cabeça a sangrar. O jogo parou e levaram-me pendurado pelas pernas e pelos braços para junto da Sónia, para ela tratar de mim.
Acho que foi esse o meu primeiro abraço, não sei. Sei que nunca mais o esqueci. Hoje de manhã andava a passear por Aveiro exactamente nesse local, agora uma zona urbanizada onde já não há animais nem espaço para jogar futebol, e tentei situar-me exactamente nesse sítio. É agora um prédio com uns dez andares, chamado Torre Simon Bolívar, situado no Bairro do Liceu. O mundo transforma-se, o encantamento das mulheres não.

15 comentários:

Adri disse...

Uau...

Patrícia Pinto disse...

Será que é verdade?
Que o brilho das mulheres não se apaga com o passar do tempo?
Já acreditei mais nisso! Agora no mundo machista em que vivemos os homens já não se deixam encantar assim... Esquecem o brilho e fazem perder a beleza das recordações!
Não sei... Preferia acreditar que ainda conseguimos marcar o mundo!!

bagaco amarelo disse...

adri, :)

patrícia, acho que sim, que tens razão quando falas no machismo existente, mas até acredito que parte desse machismo seja fruto do encantamento. Uma espécie de complexo de inferioridade nalguns homens... :)

Mulher a 1000/h disse...

Oh! Que querido! :)

bagaco amarelo disse...

mulher a 1000/h, :)

Fatyly disse...

Que te dizer? fiquei sem palavras!!!

Já imprimi para dar a uma admiradora tua muito especial, que ainda hoje me disse, não trazes nada para eu ler "das netes"???hehehehe

Anónimo disse...

Que saudades desse tempo...e do Bairro do Liceu!
Iamos ao pequeno jardim da Rua Jaime Moniz espreitar se o campo estava livre e lá íamos, via ponte de pau, até à fábrica e daí para o campo...lembro-me de pensar o enorme que o campo era!...corria até um terço do comprimento e já a língua ía de fora....lol

:::BeU::: disse...

Ooohh, que giro.
Adorei o post =)

GiGi disse...

Tampouco o encatamento de quem escreve coisas tão lindas!

Você está na minha lista, Bagaço. Seu blog ser-me-á objeto de estudo. Certamente.

AidaLemos disse...

As coisas acertadas que dizes! :-)
Aida Lemos

bagaco amarelo disse...

fatyly, gosto desses "das nets" :)

anónimo, lembro-me bem disso, sim. brinquei muito na fábrica campos degradada. :)

beu, :)

gigi, :)

aida lemos, :)

Rita disse...

Já morei na torre Simon bolivar... O tempo muda as cidades, os sitios onde fomos felizes e as recordações que ficam são saborosas... não sei se relacionado ou não, mas fui muito feliz no teu campo de futebol, apesar de transformado em T1 =)

Kiss kiss

bagaco amarelo disse...

rita, lol... o mundo é pequenino. eu cresci aí... no teu T1. :)

Paula Raposo disse...

Gostei especialmente da tua conclusão!

bagaco amarelo disse...

paula raposo, :)