4.05.2011

mentiroso, sacana

O Amor é mais velho do que todos nós. Quando nós nascemos já o gajo andava cá há muito. É por isso que não acredito nos que acreditam que o conseguem dominar. Ele sabe mais do que nós. O melhor é tratá-lo bem e com delicadeza, não vá o gajo chatear-se connosco e amuar.
Os amuos do Amor são uma merda. Ponto. O nosso problema é que só percebemos que ele é o mais velho quando nós também já estamos velhotes. É então que aprendemos a lidar com ele com algum respeito e, portanto, a Amar. Quando somos mais putos só fazemos asneiras, mas aí a responsabilidade também é dele, que nos diz que a vida com ele é uma maravilha. Que é fácil. Não, não é. Mentiroso. Sacana.
Um destes dias enchi-me de coragem e fui falar com ele, assim cara a cara. Talvez tenha sido a primeira e última vez que o fiz, mas pelo menos deitei tudo cá para fora. Marquei com ele num café dos subúrbios e ocupei uma mesa do canto. Chegámos ao mesmo tempo, pelo que pedi um uísque para ganhar coragem. O gajo não pediu nada. Nitidamente não estava ali para falar comigo. Vinha ouvir-me por misericórdia. Só isso.
Bebi de golada o primeiro e pedi outro. Foi a primeira coisa que lhe disse: que se estava ali para me fazer um favor podia muito bem ir embora, que detesto quando se põe com compaixões. Aliás, o que mais detesto nele é a forma como se veste e fala. À conta disso já me tinha lixado a vida. "O que é que tu queres, pá?", perguntei-lhe. E ele mantendo um silêncio contínuo. "Deixa-te desse sorriso ignóbil senão fodo-te o focinho!", insisti e fiz o gesto como se o fosse esmurrar. O gajo nem se mexeu. É corajoso.
Acho que foi a primeira vez que todos nos café olharam para nós. Disse-lhes para terem calma, que nós éramos velhos amigos e essas coisas. Aproveitei para pedir mais um uísque e baixei o tom de voz. Perguntei-lhe porque é que eu só me apaixonava por mulheres que não gostavam de mim, daquelas que sorriem uma vez, dão uma volta à nossa frente e depois vão-se embora sem sequer olhar para trás. Disse-lhe que se era para isso mais valia nem sermos amigos, que ele podia ir embora e não voltar mais. Aliás, nunca o devia ter conhecido. E o gajo sempre ali quieto. "Mentiroso, sacana", desta vez chamei-lhe mesmo.
Pedi-lhe só que me explicasse uma mulher. Uma delas. A Sandra, por exemplo. Trabalhava na caixa dum supermercado onde fui comprar bebidas para uma noite com amigos. Ela disse, enquanto passava as várias garrafas no leitor de códigos de barras, que também andava a precisar duma festa. Nesse momento convidei-a, nessa noite ela apareceu e nessa mesma noite fizemos Amor e adormecemos juntos. De manhã ela não estava. "Que merda foi essa, pá?" E cuspi-lhe na cara.
A dona do café apressou o passo na nossa direcção. Tentei focá-la mas o uísque fez-me aninhar a cabeça nos meus próprios braços enrolados na mesa. "Mais um uísque", pedi. "Não pode ser, se quiser tiro-lhe um café. Já bebeu muito", respondeu ela. E percebi que me abraçava enquanto eu molhava as mangas da camisola com algumas lágrimas fugitivas, e que se me abraçava era porque estava sentada no lugar do Amor. Ele tinha-se ido embora sem sequer dizer adeus deixando-me ali sozinho com ela, sem saber se envergonhado ou apaixonado. Levantei a cabeça ao mesmo tempo que ela pousava o café na mesa e me punha a mão no ombro. "Vá lá, beba isso com calma...", segredou-me. A voz dela era doce. Obrigado.

31 comentários:

Malena disse...

Lindo!!! :)

Ps: Ainda bem que o Amor não está a ser fodido contigo! :)

bagaco amarelo disse...

malena, :)

Elsar disse...

já eu nem uma café consigo marcar.....o gajo mudou de pais!

Cota disse...

Epah estou parvo... Dizer que os teus textos são bons começa a ser clichê xD

Este é só, dos melhores

bagaco amarelo disse...

elsar, é só um amuo... os amuos são lixados. :)

cota, obrigado por estares aí. :)

hug * disse...

realmente gostava de te dizer algo de novo que ainda não tenhas ouvido... mas não, não tenho palavras novas...
são fantáticas as tuas palavras e não me canso de as ler.
obrigado pela escrita
abraço

bagaco amarelo disse...

hug *, obrigado. :)

Rufina disse...

Este texto está muito bom, retrata bem o amuo, penso que era esse o objectivo.
O problema, como disseste no texto, é que "ele sabe muito", quando somos (mais) novos faz-nos pensar que é fácil lidar como gajo. Depois crescemos (mais) um bocado e, como em qualquer relação, começam os problemas. Afinal o gajo é tramado. Não é fácil, nada fácil.
Eu ando com medo dele, confesso. Já me fez passar das boas. Sei que também, pelo caminho, perco algumas coisas. Que se lixe, não estou para amar. Felizmente existem outras formas de amar e, garanto, igualmente gratificantes (menos num aspecto claro!)Outras formas de amar que descuramos por às vezes estarmos demasiado ocupados com aquele amor que julgamos ser o único que nos preenche a vida. Neste momento e em todos os momentos da minha vida amo a minha mãe, o meu irmão, amo aquela amiga. E por agora chega. Faz-me feliz.
Carla

bagaco amarelo disse...

rufina, também já andei assim... percebo bem. e sim, é esse o retrato. :)

Fatyly disse...

Vou ser repetitiva mas é o que me ocorre: SENSACIONAL e tiro-te o meu chapeú! Adorei!

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)

Gharcia disse...

Ora pois que tomo alguma coragem e dizer-te que sou um gajo que descende de espanhois, mas sou brasileiro.
Ando a ler este blog e percebi que desde que percebi que eras de portugal tendo a ler isto tudo com sotaque portugues. Confesso que já fiz algumas gravações desta galhofada que se passa em minha mente. Adoro o blog. Identifico-me com isto como o diabo.

bagaco amarelo disse...

gharcia, obrigado. brasileiro descendente de espanhóis, só podes ser um homem feliz. :)

Isis disse...

Caramba. Muito bom este retrato do "sacana". Sinto que ando sempre em "contra mão". Será que algum dia vou andar na "mão certa"? Estou na mesma onda que a Rufina. Sabe bem também :)

bagaco amarelo disse...

isis, obrigado. acho que a maior parte de nós anda em contra-mão a maior parte da vida. :)

Anónimo disse...

Lindo, lindo, lindo!

Anónimo disse...

Acabei de o ver na Estação de Campanhã, tive vontade de lhe falar mas faltou-me coragem. Talvez numa próxima vez mas quis vir aqui dizer-lhe isso. Beijo.

bagaco amarelo disse...

anónimo, obrigado, :)

anónimo, passei lá hoje de manhã, sim. :)

Jil disse...

Oficialmente este passou a ser dos meus favoritos! Maravilhoso! :)

bagaco amarelo disse...

jil, :)

elisa disse...

fez me lembrar isto
http://youtu.be/wiOsr0ZHSR0
Espero que saibas francês:)

bagaco amarelo disse...

elisa, que fixe! obrigado. :)

memyselfandi disse...

Não é fácil e concordo: mentiroso, sacana!

memyselfandi disse...

Elisa, também adorei o video. Vou até roubar... =)

bagaco amarelo disse...

memeyselfandi, :)

Helena disse...

O tanto que faz de "mossa", faz de sensações únicas, maravilhosas, por isso é aproveitar enquanto está ao nosso lado, sentadinho. :)

bagaco amarelo disse...

helena, concordo... concordo mesmo. :)

Briseis disse...

Este tète à tète com o Amor pareceu-me de uma semelhança extraordinária com histórias que ouvi sobre Deus... Porque também desejamos confrontá-Lo, insultá-Lo e cuspir-Lhe na cara pelos seus cprichos que nos são tão dolorosos. E, no final, há sempre uma purificação saborosa. O próprio Amor é o Deus de muita gente, é o que concluo. =)

sophie disse...

A falta de tempo, não me tem deixado passar por aqui tantas vezes como gostaria... Mas cada vez que volto, surpreendo-me sempre, positivamente, com a tua escrita...

Adorei a forma como descreves os amuos do Amor... Muito bom... Como sempre!!!

:)

elisa disse...

ahh, que bom que gostaram:)

bagaco amarelo disse...

briseis, lá está, eu sou ateu. :)

sophie, obrigado. :)

elisa, :)