4.26.2011

coisas que fascinam (124)

crisálida

Quase todas as pessoas desprezam as lagartas, quase todas as pessoas gostam das borboletas. Uma borboleta é uma lagarta com asas. 
Hoje vi, pela primeira vez este ano, uma borboleta. Esvoaçava perdida entre uma interminável fila de automóveis impacientes pela mudança de cor dum semáforo, e eu parei para a seguir com os olhos por ser a coisa mais bonita da minha manhã. Acabou por desaparecer perto do cano de escape dum camião qualquer e eu segui o meu caminho, olhando para os meu pés que se moviam contra a vontade enquanto uma pedrinha me crescia na alma.
Acho que é assim que nos apaixonamos, parando a vida por momentos para seguir com os olhos o voo errante duma borboleta sufocada por centenas de canos de escape nervosos. Pelo menos é assim que eu o faço, numa tentativa de fuga ao dióxido de carbono do Desamor. Lembro-me de seguir a Raquel com o meus olhos para todo o lado como se ela fosse a borboleta dos meus dias, até desaparecer numa curva qualquer e eu me afastar com a mesma pedrinha na alma. O Amor tem a mania de ser isso: duas asas fugidias que nunca conseguimos tocar.
Lembro-me também da primeira vez que vi um casulo e da minha mãe me explicar, enquanto afastava os meus dedos daquele pequeno berço de seda, que aquilo era uma crisálida, ou seja, uma lagarta em vias de se tornar borboleta. Nunca mais me esqueci desse nome, crisálida, e foi com essa memória que  mais tarde desejei que a Raquel deixasse de ser borboleta e passasse a ser uma, só para eu lhe conseguir tocar. Porque o Amor é isso mesmo: irreversível na metamorfose da vida.

30 comentários:

ana disse...

Lindo texto. (:

bagaco amarelo disse...

ana, obrigado. :)

Pearl disse...

Lindo!!!
Engraçado também ontem me perdi no voo duma borboleta, recordo-me que tinha tons cor de laranja e nem sequer estava no trânsito, nem a respirar co2! heheheh
;o)))***

Besta Artista disse...

Gostei muito =)

palavrasasolta disse...

Gostei de ler este post. E fiquei com a alma mais leve, nem sei bem explicar... Obrigada

Anónimo disse...

Muito bonito o texto :)
Mas dos canos de escape sai monóxido de carbono. Esse gás agarra-se muito mais aos nossos eritrócitos do que o dióxido de carbono. talvez seja um bocadinho como o desamor, que muitas vezes se agarra empedernido ao coração de cada um.

Joana

Anónimo disse...

Interessante analogia, ainda mais pelo sofrimento pelo qual a lagarta passa até se tornar borboleta.
CR

Helena disse...

Que linda declaração de Amor!!! :)

bagaco amarelo disse...

pearl, eu até pensava que era cedo para as começar a ver. :)

besta artista, obrigado. :)

palavrasasolta, obrigado. :)

joana, tens razão, sim. eu é que emano dióxido de carbono. :)

LM disse...

Irreversível e sem porquê.
Que lindo, Bagaço.Não páras de me espantar, tal e qual como a Primavera. E o amor também.;)

Cota disse...

"O Amor tem a mania de ser isso: duas asas fugidias que nunca conseguimos tocar."

Não concordo amigo, para mim o amor é (também) o plenoo prazer do toque

bagaco amarelo disse...

cr, exacto. :)

helena, obrigado. :)

lm, obrigado. :)

cota, é mais uma mania, portanto. :)

Carla Leite disse...

os teus textos ainda me conseguem surpreender. lindas palavras.
:)

Filipa disse...

Demasiado intenso, para ficr indiferente... Um texto tal qual como o voo de uma borboleta, belo!

bagaco amarelo disse...

carla leite, obrigado. :)

bagaco amarelo disse...

filipa, obrigado. :)

Moleskine disse...

gostei muito deste post!

Fatyly disse...

Olha que te dizer para além do que já foi dito? Tiro-te o meu chapeú!

Adorei!

bagaco amarelo disse...

moleskine, obrigado. :)

fatyly, obrigado. :)

Turtle disse...

Quando era criança, tinha alguns bichos-da-seda. Adorava fazer-lhes festinhas e contar-lhes os "anéis" à medida que eles iam crescendo. Adorava vê-los a tecer a crisálida, e ainda hoje me lembro de perguntar à minha mãe porque é que uns eram brancos e outros amarelos. Passava dias a ver se saíam as borboletas, e quando finalmente o faziam, deixava-as estar pela caixa um dia ou dois depois libertava-as: não as conseguia ver ali fechadas, por muito que as quisesse ter só para o meus olhos. Porque quando chega a altura de libertar o que nunca nos pertenceu, há que saber fazê-lo, guardando na memória o tempo que lhes dedicámos e os sorrisos que nos arrancaram, sejam eles borboletas ou amores :)

bagaco amarelo disse...

turtle, boa! obrigado pelo teu comentário. :)

bagaco amarelo disse...

turtle, boa! obrigado pelo teu comentário. :)

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Gosto muito. Bjs

bagaco amarelo disse...

pipoca dos saltos altos, obrigado. :)

Malena disse...

O que é mesmo bom é quando a borboleta pousa na nossa mão e se deixa tocar, exuberante, tal como o Amor! :))

bagaco amarelo disse...

malena, exacto. :)

sophie disse...

Muito bom... Como sempre... :)

bagaco amarelo disse...

sophie, obrigado. :)

Rufina disse...

Quanto ao texto não posso acrescentar muito mais, já foi tudo dito, muito bonito.
Agora quanto à Raquel, o que posso dizer é que assimque acabei de ler este post fiquei com uma inveja dela...
Carla

bagaco amarelo disse...

rufina, se me conheces já não tinhas assim tanta inveja, lol. :)