10.29.2009

dedos nas meias

Há uma altura em que se deixa de ter noção dos limites do corpo. Já não sente os dedos dos pés embora saiba que eles se debatem nas meias como um cardume de sardinhas prestes a ser apanhado nas redes da pesca. É por isso que não tem a certeza se está a beber o último uísque da noite ou se se está a afogar nele.
Há uma altura em que se deixa de ter a noção dos limites da própria alma. Tal como os dedos nas meias ou as sardinhas nas redes, também os seus pensamentos se debatem liquefeitos no cérebro antes de se evaporarem em nuvens que orbitam a única mulher no café. Uma mulher num café é sempre o centro do mundo, pensa, e também esse pensamento dorido se desfaz em vapores que talvez não sejam nada. É por isso, por talvez não serem nada, que ele não tem a certeza se realmente a orbita ou se anda à deriva pelo desconhecido. Ela queixa-se ao empregado que ficou até àquela hora a fazer uma montra qualquer duma loja qualquer. Até a queixar-se sabe sorrir.
Nos homens há uma solidão que não tem a ver com estar sozinho, tem a ver com a falta de um gesto qualquer. Trezentos amigos não a resolvem mas um abraço duma mulher sim, resolve. É uma solidão estranha, como se se ouvisse continuamente a música que mais se gosta mas num rádio roufenho. Está lá tudo o que se quer ouvir mas distorcido... uma distorção que depois é física e emocional.
Pediu outro uísque mas viu o seu pedido recusado. Que são horas de ir dormir, respondeu o empregado numa mistura de impaciência e falso paternalismo. A mulher também já saiu... sem olhar para trás. Sem olhar para trás. O que ele queria mesmo era que o tempo congelasse num momento em que os seus olhares se cruzassem para poder contemplá-la. Contemplar mesmo, da mesma forma que se contempla o primeiro dia da Primavera.
Há uma altura em que se deixa de ter a noção do tempo e do espaço. Quando fecha o último café da noite é como se o mundo adormecesse. E a solidão de um homem também é isso: estar acordado quando o mundo dorme. Senta-se numa dessas esquinas dormentes do mundo saboreando um pingo de uísque sobrevivente num dos lábios. Do outro lado da rua, na montra dum pronto-a-vestir qualquer, há o manequim duma mulher que sorri. Talvez hoje possa congelar o tempo por aí, enquanto agita os dedos dos pés numas meias apertadas...

16 comentários:

Giovana disse...

Você acredita que mexi os meus dedos dentro das meias? LOL

É difícil chegar até esta solidão. Parece haver uma barreira impenetrável no coração de alguns homens, onde ali se esconde muito do que sequer podemos imaginar. Desejos e segredos que por vezes nunca são decifrados.

Por outro lado, pouco importa em saber o que lá existe. Basta conseguir tocar e acarinhar aquele coração com um simples abraço. Por vezes, é o suficiente. É tudo!

:-***

bagaco amarelo disse...

giovana, lol. é uma solidão diferente, esta daquela em que simplesmente alguém se sente só. esta é uma solidão que se sente quando se está acompanhado também. :)

Brunita disse...

Como diria Manel Cruz nos seus velhos tempos de Ornatos Violeta: "É só mais um dia mau". Mas passa. As meias apertam, a mulher sorridente do presente momento não passa de um manequim... "É só mais um dia mau". Mas passa.

"Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói.

Mas vendo bem
Não houve à luz do dia
Quem não tenha provado
O travo amargo da melancolia..."

São dias. Nada que um abraço não cure. É uma questão de paciência e fé :) Só não creio é que haja grande diferença de géneros nesta temática ;)

Isabel Rodrigues disse...

Já visito aqui o teu espaço há algum tempo, mas nunca tinha deixado nenhum comentário. Só para dizer que gosto muito dos teus textos, os profundos e os menos sérios.

bagaco amarelo disse...

brunita, olha... eu gostava dos ornatos, sim... também sou um monstro que precisa de amigos. :)

isabel rodrigues, obrigado. pela tua simpatia, pela tua presença e por teres desfeito o silêncio. :)

memyselfandi disse...

Também tenho muitos momentos em que o abraço de alguém, ou apenas a companhia de alguém estranho que quisesse conversar, ajudaria num "espaço" de solidão. Às vezes acontecem (o abraço e a conversa), mesmo assim, poucas para as vezes que me sinto só.

bagaco amarelo disse...

memyselfi, acho que esse 'poucas vezes' é generalizado. acredito muito naquela frase: "acredito no prazer da carne e na inevitável solidão da alma" :)

A Tela disse...

Não é solidão, é vontade de...estar, ir, voar, enfim, qualquer forma verbal que implique movimento.

Closet disse...

"Solidão é a falta de um gesto qualquer"? aquele que se espera ou sonha? Eu estou sempre rodeada de gente, mas neste momento... fazes-me pensar :S

bagaco amarelo disse...

a tela, é um forma de ver a coisa, sim. :)

closet, eu também estou sempre rodeado de gente... isso não é importante, pois não? :)

Lúcio Ferro disse...

Isso de ir ao engate sem um wing man acaba sempre no whisky e na nostalgia, pelo menos é isso que me sucede e, pelo que leio, não sou caso único.

Cheers

bagaco amarelo disse...

lúcio ferro, pois... mas eu não gosto nada da lógica do wing man. :) cheers

AidaLemos disse...

Pudesse a vida ser apenas a colecção de momentos belos, mais profundos ou mais simples, únicos ou banais, mas apenas belos! :-)
AL

bagaco amarelo disse...

aida lemos, pois pudesse... e às vezes acho que pode. :)

nuvem disse...

Mais um post que se lê com prazer. Escreves muito bem.

Umas vezes para rir, outras para reflectir seriamente, o teu blog proporciona-me momentos muito agradáveis. Obrigada.

Beijos

bagaco amarelo disse...

nuvem, obrigado eu, por estares aí. :)