8.06.2015

respostas a perguntas inexistentes (322)

Não abandono as mulheres por quem me apaixonei um dia. Aqui e ali, quando estou sozinho, ainda lhes dou a mão, as abraço ou beijo prolongadamente. É tudo exactamente como já foi um dia. A única diferença é que elas já não estão lá.
É inútil tentar esquecer um Amor. Os Amores não ficam registados apenas no cérebro, mas sim em todo o corpo. Alguns até se gravam na paisagem que nunca vimos, num cheiro, numa cor ou numa música. Quando estamos sozinhos eles observam-nos. É por isso que nunca me sinto só.
A M não sabe, mas ainda hoje fez uma viagem comigo de carro. Nada de especial, foram apenas os trinta e cinco quilómetros que separam o meu trabalho da minha casa. Conversámos o caminho todo e quando estacionei ela pediu para encostar a cabeça ao meu ombro. Ficámos ali um bocado, em silêncio, a ver o Sol nascer por trás do esqueleto dum edifício que morreu prematuramente. Nunca ninguém chegou a habitá-lo.

- Se estivéssemos os dois juntos, achas que ainda gostavas de mim?
- Gosto de ti, mesmo sem estarmos juntos... - respondi.

O nosso Amor foi como o prédio à nossa frente. Começámos a construção mas nunca o chegámos a habitar. Foi o que eu lhe disse e ela riu-se. Chamou-me docemente palerma e eu apertei o abraço, como se a quisesse segurar para sempre.
Sempre que uma mulher me chama docemente palerma, considero-o um elogio. Aos palermas a sério, as mulheres nem sequer chamam nada. E a M, que foi um Amor que não o chegou a ser, chamou-mo tantas vezes que perdi a conta. O Amor com ela foi uma tentativa, vá. E do que me lembro é dela a tentar.
E eu, palerma, sem o perceber. O que lhe devo foi o que aprendi.

2 comentários:

Maria Varredora Pau de Vassoura disse...

Adorei...
mesmo.

Bagaço Amarelo disse...

Maria Varredora Pau de Vassoura, obrigado. :)