11.10.2010

respostas a perguntas inexistentes (112)

 O resto... logo se vê

Seca a face com a toalha prolongando o momento. Já não se lembra muito bem do último abraço que recebeu sem ser duma toalha de rosto e, talvez por isso, a beije agora enquanto se enrola nela como um caracol que se fecha na própria concha.
Já se tinha habituado à falta duma voz constante dentro de casa, mas é a primeira vez que sente verdadeiramente solidão sexual. Talvez porque as vozes dos homens dos anúncios na secção Relax do Jornal de Notícias não passassem duma ou outra pergunta do tipo “quer ficar por cima ou por baixo?”, “quer começar com um minete?” e, antes de saírem, “posso usar a sua casa de banho?”. Sexualmente satisfaziam-na, verbalmente não. E com o tempo foi ligando cada vez menos até abandonar completamente a ideia de que um prostituto pode substituir um companheiro.
Quando se divorciou foi mesmo isso que pensou, que a partir daí o melhor era nunca mais se envolver emocionalmente com ninguém e, uma vez por outra, pagar para ter sexo. A ideia brilhante foi-se desfazendo até que um homem que, segundo o seu anúncio, era “um canhão latino pequeno mas grosso”, começou a chorar em pleno acto e perdeu o tesão. Acabaram os dois abraçados na cama com ele a contar a sua vida desgraçada e como tinha acabado na prostituição. No fim perguntou-lhe se podia usar a casa de banho e depois saiu envergonhado sem cobrar os oitenta euros estipulados.
Desde então que os sons do rádio da cozinha enquanto faz o jantar, da televisão da sala enquanto janta e do vibrador a pilhas quando se deita, têm sido os únicos a propagar-se dentro daquelas paredes. Talvez seja a altura de aniquilar esse silêncio constante da sua vida, pensa. Dá mais um beijo na toalha antes de a deixar cair no chão para se ver nua no espelho da casa de banho. Ver-se mesmo, com a coragem que uma divorciada de quarenta anos e três filhos tem que ter, e não apenas mirar-se como se tivesse medo de enfrentar o tempo que vai passando pelo corpo. Ainda está boa, considera, e considera-o para si mesma e não para mais ninguém. É ela que tem que se achar bonita, é ela que tem que gostar de si. Ponto final.
E gostando de si vai tirar os pêlos das pernas e o pó dos melhores vestidos que tem no armário. Vai jantar sozinha num bom restaurante da cidade e depois beber um vermute num bar qualquer. Consigo mesma. O resto... logo se vê.

20 comentários:

maria_arvore disse...

Parabéns. Está espectacular!...
Tens uma sensibilidade do caraças. :)

Anónimo disse...

Espero jamais ver-me nessa situação.
Adoro a companhia masculina e não me vejo mais sozinha :)

bagaco amarelo disse...

maria_arvore, e só me conheces sóbrio... :)

anónimo, :)

ana disse...

belíssimo texto ou como um texto com as palavras "secção Relax do Jornal de Notícias" consegue comover :)

Pedro disse...

Bem, Bagaço!....
É sempre um prazer ler estas tuas dissertações.
Obrigado

bagaco amarelo disse...

ana, lol. :)

pedro, obrigado. :)

Maria disse...

Sem palavras

bagaco amarelo disse...

maria, obrigado. :)

Black Sheep disse...

Nice one :)

bagaco amarelo disse...

black sheep, obrigado. :)

Fatyly disse...

Subscrevo as palavras de todos os comentadores. Parabéns!

bagaco amarelo disse...

fatyly, :)

C disse...

Brilhante! Pela forma, pela dignidade, pela coragem com que reconheces a natureza humana. Cada vez menos actualizado o "nome" deste blog ;)

bagaco amarelo disse...

c, obrigado. pela tua presença e pela tua simpatia. :)

C disse...

Bagaço, obrigada eu! Por todos os belos momentos :)

bagaco amarelo disse...

c, :)

Celeste disse...

boa Bagaço! está mt bom! 80€ "##$5%&0++º~ou lá como se dizem as asneiras por aqui!

Ana rita disse...

Gosto muito da sua visão do que uma mulher deve ser. Principalmente por que não podia ter mais razão. =)

mr.Z disse...

tiveste muito bem agr bagaceira...
o texto está simplesmente fabuloso
(se bem que não é uma realidade só feminina)

um dia tb vou escrever assim...
és grande =]

bagaco amarelo disse...

celeste, lol. :)

ana rita, :)

mr. Z, obrigado. :)