9.30.2012

red light

A minha vida, tal como a de mais alguns milhões de portugueses, está a mudar. Estou em vias de perder o meu emprego num processo que se adivinha confuso e demorado. Na verdade, e por agora, nem me apetece muito falar sobre isso. Apetece-me é dizer que acredito que é nos momentos mais difíceis da vida que se encontram as melhores pessoas à nossa volta. Este fim de semana a Raquel, uma dessas pessoas mas que tem a singularidade de ser a minha namorada, pegou em mim e levou-me para a Holanda. O objectivo era desanuviar. Desanuviei.
Por vários motivos conhecidos e mais alguns desconhecidos, a Holanda é provavelmente o país mais diferente que podemos encontrar dentro da União Europeia. É possível fumar brocas em qualquer coffee shop sem ter a polícia a tomar conta da ocorrência, o comércio não aceita as moedas pretas de cêntimos em nenhuma situação, a bicicleta é um meio de transporte realmente popular, a paisagem é praticamente toda plana e,no centro de Amsterdão, as mulheres vendem o corpo em montras de lojas como se fossem carne no talho. E é desta última diferença que me apetece falar.
Em primeiro lugar, não pertenço ao grupo de líricos que acredita que a prostituição pode ter um fim. De resto, acho que é um direito de qualquer pessoa ganhar a vida a vender sexo, se for o que realmente lhe apetece fazer. O meu problema é que não acredito que a maior parte das mulheres que o faz, o faça por opção. Amsterdão, ao contrário do que se ouve de vez em quando, não é excepção.
A Red Light surgiu na cidade como uma barreira física para suster os ímpetos mais violentos dos marinheiros que atracavam no histórico porto da cidade e que, desta forma, não precisavam de entrar muito mais na cidade. As prostitutas de Amsterdão começaram por ser, assim, uma espécie de garantia de manutenção da paz urbana da urbe.
O negócio foi-se desenvolvendo e os interesses à sua volta também. Hoje em dia não é preciso ter muitas conversas com holandeses para perceber que a legalização da coisa não melhorou em muito a vida das prostitutas. É verdade que têm um seguro de saúde e pagam impostos, aspectos com os quais concordo, mas também é verdade que são exploradas por uma longa fila de interesses sem fim. Proxenetas e proprietários dos imóveis em primeiro lugar.
Além disso, e desculpem-me os adeptos da mulher na montra, eu acho que esta maneira de vender sexo é uma forma de humilhação pública, e só por aí não a considero uma alternativa política ao véu que se estende, por exemplo no nosso país sobre o negócio.
Tenho dito.

18 comentários:

Malena disse...

Este país está doente... Muito!! :(

Quanto às montras, já as vi e ficou uma sensação muito semelhante à tua.

Silly Little Wabbit disse...

Lembrei-me deste vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=y-a8dAHDQoo&feature=player_embedded

Anónimo disse...

O dinheiro pode comprar sexo.
Mas não compra o Amor...
EJSantos

Jacek disse...

Vivo na holanda ha' varios anos e sim, a realidade e' tal e qual a que descreves, principalmente vista do ponto de vista da famosa Red Light, que se tornou uma atraccao turistica, e nao serve mais o proposito que servia antes. E sim, e' repugnante ver aquilo do ponto de vista de um jardim zoologico. Tornou-se um foco de comercio de todo o tipo de mercadoria legal e ilegal. Por essa razao a Red Light esta' a ser artificialmente transformada numa fraccao do que era ha' uns anos e a maioria dos terrenos estao a ser convertidos para outros fins.

A realidade e' bem diferente quando saimos de Amsterdao. A maioria das grandes cidades tem tambem uma Red Light, mas estas nao sao atraccoes turisticas. Sao espacos na cidade onde quem quiser vender o corpo tem o seu espaco, e todos sabem onde o encontrar. Sendo zonas controladas, torna-se um sitio mais seguro para os dois lados do negocio. Nao penso que isto estimule alguem a ir la', mas pelo menos torna o negocio mais seguro, transparente e controlavel, por mais deploravel que a sua natureza seja.

Kowalski disse...

Para que tenha (tenhamos) alguma esperança neste País que é o nosso, envio-lhe um link que vale mesmo a pena ver e ouvir:

http://vimeo.com/42018953

Emociona qualquer Português.

Quase nos "entas" disse...

uhm...
Então em primeiro lugar lamento essa situaçao do desemprego...
passei por isso à 2 anos e sei do que falas....desejo-te o melhor...
Depois digo-te que...a raquel é a maior :)

Para finalizar... prostituição...
poderia dizer muitas coisas...mas não há muito a dizer....
è triste...pode acartar muitas doenças....das que se pegam às familias de quem tem o hábito de "utilizar"....
assunto complicado

redonda disse...

Há dias comecei a ver um documentário no 2º Canal que apanhei a meio. Não estava a perceber muito bem, pareceu-me que havia duas senhoras de idade com problemas económicos e depois percebi que eram duas irmãs gémeas famosas que se dedicavam à prostituição numa dessas lojas. Conseguiam fazê-lo com muito bom humor, mas parece-me que do documentário resultava também que o faziam por precisarem do dinheiro.

Bolacha Sofia disse...

Aqui só falas nas mulheres, mas acontece o mesmo com os homens. Uma parte da red Light é dedicada a isso.
Mentalidades diferentes em países diferentes. Também acho um bocado humilhante isso, mas lá está, sao mentalidades. :)

São Rosas disse...

O Red Light em Amsterdão é uma coisa muito estranha, nada erótica.
Mas o que me deixa um nó na garganta é o que dizes da tua situação laboral, ainda menos erótica.
Em que área trabalhas? Se puder ser útil em algo (nunca se sabe), dispõe: afundasao@gmail.com

(este texto passa à frente dos outros n'a funda São e sai amanhã)

MJA disse...

Olá,

Há um pormenor importante de não esquecer: para mostrar o corpo e vender sexo, na Holanda e noutros países nórdicos, está frio e é necessário estar dentro de portas.
Um facto meteorológico destes não tem pouca importância para as montras. Não é dignificante, não é o ideal, mas é mais respeitador da integridade física das mulheres.

Belos textos - Obrigada.

Bagaço Amarelo disse...

malena, eu até adorei o país, mas a Red Light deprimiu-me... :)

Silly Little Wabbit, :)

ejsantos, compra sexo que não interessa nada, portanto. :)

jacek, foi o que me disseram, sim. se eu soubesse que aí estavas, tínhamos bebido uma cerveja. :)

kowalski, eu tenho uma esperança enorme neste pais e adoro este país. disso não tenho dúvida nenhuma. não entro naquele discurso simplista de que os portugueses são estúpidos. :)

quase nos "entas", a prostituição é, antes de mais, atirar para o esgoto a dignidade de alguém... e é triste. :)

redonda, acho que todas o fazem por dinheiro... não estou a ver quem o faça por gosto. se houver alguém assim, é estranho. :)

bolacha sofia, eu é que acho que não são só mentalidades. são negócios e lobbys. :)

São Rosas, sou técnico de som, cinema e vídeo/fotografia. A minha situação laboral é igual à de mais uns milhões de portugueses. vamos passar quase todos por isto... infelizmente. :)

mja, pois... mas eu para me aquecer não preciso de montras. na verdade admito que esta é uma situação complexa, mas não consigo aceitar isto... :)

Malena disse...

Eu referia-me a Portugal, quando disse "Este país está doente..."!
:)

Bagaço Amarelo disse...

malena, ah! desculpa. este está doente, sim, mas eu gosto dele e pretendo fazer parte da cura. :)

Cláudia disse...

E se repararmos, as prostitutas das montras da Holanda são na grande maioria, imigrantes, que têm, num país muito pobre, uma família grande que depende do dinheiro que lhes é enviado. Isto não faz com que a prostituição seja uma escolha, mas sim uma necessidade...

Fatyly disse...

Quando visitei Amsterdão vi os dois lados referidos por Jacek...e mal ou bem é preferível terem os seus direitos do que nós não temos nada e infelizmente é uma degradação terrível em tudo!

Bagaço Amarelo disse...

cláudia, pois faz... uma necessidade e às vezes também uma escravidão. :)

fatyly, desconfio tanto desses direitos... esse é o meu problema. :)

Kitty * disse...

Eu vi e não me escandalizou. Sinceramente não me choca, desde que seja feito de livre vontade.

Bagaço Amarelo disse...

kitty, o sexo e o erotismo não me escandalizam nada. Se leres bem, o que me chocou é foi precisamente o défice de livre vontade. :)